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domingo, 18 de janeiro de 2026

viagens de gulliver


"O principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros."

Na metade da leitura de Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift, pensei em escrever algo sobre governança corporativa associado ao romance. O motivo foi perceber que, em algo publicado em 1726, o termo "governança" aparece repetidas vezes. A palavra vem do latim gubernare, que significa "dirigir" ou "pilotar", que por sua vez tem origem no grego antigo kybernân, que é associado à arte de conduzir um navio. Esse sentido mais literal, o de pilotar uma embarcação, está presente na obra, mas Swift emprega o termo com igual frequência para se referir à maneira de conduzir um país, uma corte, um tribunal. Ao descrever diferentes reinos e formas de governo, detalhando suas características, ele faz uma excelente sátira à sociedade de seu tempo, especialmente à política inglesa, à ciência e ao antropocentrismo.

O romance conta as peripécias de Lemuel Gulliver, que está sempre a viajar, largando a esposa e filhos por anos entre uma viagem e outra. Certamente, ele vem de uma família com posses, o que lhe permitiu, inclusive, cursar alguns anos de medicina antes de suas andanças. E em cada terra nova a que chega, fica tempo suficiente para se tornar quase um local, apresentando-nos seus costumes e idiossincrasias.

Sua primeira viagem é para Lilliput, a terra dos pequeninos. Talvez a imagem que mais tenha ficado na cabeça, mesmo naquelas que nunca leram o livro, seja a de um gigante amarrado por vários homens. Seu tamanho causa ao mesmo tempo medo e fascínio. Mas aos poucos ele vai conquistando a confiança da população, em especial do rei, que o vê como aliado. Ele terá que lidar, inclusive, com a velha guerra entre os Lilliputs e os Blefuscu, causada pela forma com que quebram ovos. Seria pela ponta maior ou pela menor? E milhares morrem por conta desse conflito absurdo, o que não é tão diferente da nossa vida real e das guerras que ainda acompanhamos. Como somos pequenos, afinal.

"E é de tal modo desmedida a Ambição dos Príncipes, que ele não queria outra coisa que não reduzir todo o Império de Blefuscu a uma Província, passando a governá-lo por meio de um de Vice-Rei; e destruir todos os exilados Extremidade-Grandistas, e obrigar toda a gente de lá a quebrar os Ovos na extremidade menor, tornando-se assim o único Monarca de todo o Mundo."

Por fim, chega a hora de partir. A próxima parada é Brobdingnag, o oposto. Lá ele é o pequenino, que chega a virar uma espécie de fantoche para a realeza. E como as pessoas são enormes, ele consegue ver detalhes que antes passavam despercebidos pelos seus olhos, como poros da pele, o que o deixa com nojo. Mas, ao contrário da terra dos pequenos, regida pela mesquinhez, aqui eles não conseguem entender o sentido de guerra, colonização e outras disputas. Ao ouvir Gulliver relatar a história da Inglaterra, o rei desse lugar fica "absolutamente atônito", dizendo que os últimos cem anos não passaram de "uma sucessão de Conspirações, Rebeliões, Assassinatos, Massacres, Revoluções", frutos da "Avareza, o Sectarismo, a Hipocrisia, a Perfídia, a Crueldade" e de tantos outros vícios. Em seguida, conclui que as instituições das quais Gulliver faz parte talvez fossem toleráveis em suas formas originais, mas haviam sido distorcidas pela corrupção. Mais do que isso, observa que "não fica claro que alguma Virtude seja exigida para que se obtenha algum Posto", nem que "os Sacerdotes sejam promovidos por sua Devoção ou seu Saber, os Soldados por sua Conduta ou sua Bravura, os Juízes por sua Integridade, os Senadores por seu Amor à Pátria, nem os Conselheiros por sua Sapiência". Sua conclusão não poderia ser mais dura: os ingleses seriam "a mais perniciosa Raça de Sevandijas abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra."

Mais uma vez, parte. Na terceira viagem, Gulliver passa por diferentes terras. Uma delas é Laputa, uma ilha flutuante cujos habitantes são obcecados pela matemática, pela música e pela astronomia. A absorção nessas áreas é tanta que mal conseguem conversar entre si. Há pessoas específicas que funcionam como seus ouvidos e sua boca, com a tarefa de lembrá-los de ouvir ou falar. Qualquer semelhança com pessoas abduzidas por dispositivos móveis é mera coincidência. O conhecimento também está a serviço da dominação. Quem mora na parte suspensa da ilha domina os habitantes que vivem abaixo daquela esfera flutuante.

Na sequência, Gulliver vai parar em Balnibarbi, que também é uma crítica à ciência. Lá, as pessoas dedicam-se a experimentos inúteis, como extrair raios de sol de pepinos, transformar excrementos em alimento ou construir casas começando pelo telhado, e por aí vai. Outro lugar icônico por onde passa é Glubbdubdrib, a ilha dos Feiticeiros ou Mágicos, onde personagens históricos são trazidos de volta do mundo dos mortos. Lembrando que estamos em mil e setecentos e pouco, Gulliver pede para ver, por exemplo, Alexandre, o Grande, à frente de seu exército. Também convoca Descartes e Gassendi para explicarem suas teorias a Aristóteles, que reconhece os próprios erros e conclui que, assim como ele, os demais filósofos também se apoiavam em conjecturas. Não existe, portanto, uma verdade definitiva.

Após esse bate-papo com essas e outras figuras históricas, Gulliver segue para a terra da imortalidade, Luggnagg, lar dos Struldbrugs, seres imortais que revelam que viver para sempre está longe de ser uma bênção. Lá as pessoas envelhecem, adoecem, tornam-se fisicamente limitadas, mas não morrem. A leitura me remeteu a As intermitências da morte, de José Saramago, que também mostra o quanto a ausência da morte pode se transformar em um problema. E antes de retornar, mais uma vez para casa, ele passa rapidamente pelo Japão, porém, não foi possível indagar nada, já que o idioma deles era deveras estranho. Ele pode entender a todos, menos os japoneses, embora afirme que o comércio entre seu país e o deles só crescia, o que me deixou bem reflexiva sobre as motivações dessa incompreensão. Depois disso, volta para casa, engravida a mulher e parte. Eis o perfil narcisista de nosso viajante, que ainda terá muito o que aprender.

"Continuei em casa com minha Mulher e meus Filhos por cerca de cinco meses, numa situação de muita Felicidade, e oxalá tivesse aprendido a Lição de saber reconhecer-me feliz. Deixei minha pobre Esposa esperando Filho e aceitei uma Proposta vantajosa para ser Capitão do Adventure, um Navio Mercante de trezentas e cinquenta toneladas."

Finalmente, Gulliver chega à terra dos Houyhnhnms, que significa "Cavalo, em sua etimologia, a Perfeição da Natureza". Fica surpreso ao ver que seus habitantes racionais são os cavalos. E fica ainda mais horrorizado ao ver que há naquelas terras criaturas abomináveis, tidas como irracionais, parecidas com humanos, que são chamadas de Yahoos. Ou seja, ele é o desprovido de razão por lá. 

Como sempre acontece em suas viagens, aprende gradualmente a língua dos habitantes e passa a se adequar ao mundo em que está (a exceção foi o Japão 🤔), o que faz com que seja visto como um Yahoo diferente, pois sabe se comunicar e é limpo, diferentemente dos demais, que são tidos como brutais e dominados pelos próprios instintos. Precisa ainda se acostumar com a nova alimentação: entre os Houyhnhnms, Gulliver passa a comer aveia, leite, salada e pão. Tudo sem sal, afinal, o único animal a utilizá-lo é o humano. Também precisa se contentar em viver sem carne, já que os cavalos não matam outros animais para comê-los, diferentemente dos Yahoos.

Aos poucos, Gulliver apresenta ao seu senhor, o cavalo que lhe oferece abrigo, sua visão de mundo eurocentrada, explicando como funcionam as coisas em seu país, as guerras, as disputas pelo poder, e observa a indignação diante de tudo aquilo. Seu anfitrião não consegue compreender como um ser que se considera racional pode agir de tal maneira. A indignação aumenta quando conta que, em seu país, os cavalos servem de montaria, são chicoteados, explorados e maltratados. E aqui me lembro de outros equinos: Minuano, de Tabajara Ruas, Kholstomer, de Tolstói, o burrinho Sete-de-Ouros, de Guimarães Rosa, e Caramelo, o cavalo que passou dias em cima de um telhado durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. 

Desenho representando Caramelo feito pela minha filha, na época com 7 anos

De tanto conviver com os Houyhnhnms, e admirá-los cada vez mais, o viajante acaba por imitar seus trejeitos, a ponto de, ao retornar ao seu país, muitas vezes ser pego trotando. Seus amigos observam que ele parece um cavalo, o que, para ele, é um grande elogio. O que pode nos remeter a personagens de Nas profundezas dos bosques, de Amos Oz. Lá, os animais desapareceram do mundo, e algumas recordações dessa convivência permanecem em personagens que relincham, tidos como malucos. A doença do relincho é vista como uma anomalia, algo que precisa ser afastado.

Mas Gulliver precisa partir. Ele não pertence àquele ambiente, e isso é decidido em uma assembleia. No dia da despedida, deixa a família que o acolheu com os olhos cheios de lágrimas e "Coração transido de Dor." A partir daí, e da forma como Swift constrói sua narrativa, nós, leitores, somos levados a duvidar da chamada racionalidade humana. Gulliver conclui que os Houyhnhnms são os seres mais evoluídos e inteligentes do universo. E nós concordamos. Toda a narrativa mostrou o quanto agimos de forma insensata, gananciosa e, mais que tudo, medíocres.

Quando retorna para casa, sente repulsa pela própria espécie, inclusive pela esposa e pelos filhos, e acaba se afastando deles. Compra cavalos (será que ele realmente aprendeu algo?), aos quais passa a se dedicar veementemente, como uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu.

Ao final, Gulliver afirma: 

"disse-lhe que tentaria preservar este meu Ser miserável; e que, se algum dia voltasse à Inglaterra, tinha alguma Esperança de ser útil à minha própria Espécie, louvando os renomados Houyhnhnms e propondo suas Virtudes como dignas de serem imitadas pela Humanidade".

Acredita-se que Swift tinha ódio pela humanidade, evidenciado, segundo artigo de Leonardo Poglia Vidal, pela forma como os acontecimentos que levam Gulliver a cada nova viagem tornam-se progressivamente mais graves. Primeiro, ele naufraga por acidente, depois é abandonado, atacado por estranhos e, finalmente, traído pela própria tripulação. Ao terminar suas aventuras, o protagonista retorna enojado com sua própria espécie. Esse autor, no entanto, também defende a leitura oposta: a de que Swift amava a humanidade e queria mostrar seus defeitos, o que seria, a seu ver, um ato de amor.

Comecei este texto dizendo que o livro, lá pelas tantas, me remeteu à Governança Corporativa. Porém, ao chegar ao fim da viagem de Gulliver, ficou claro que ainda não aprendemos nada sobre governança, tampouco sobre nosso lugar no mundo. O antropocentrismo, com sua colonização (de outros humanos e animais), exploração da natureza e transformação dos animais em objetos, mostra que o rigor que as companhias aplicam em suas estruturas institucionais é uma falácia e que ainda estamos longe de alcançar a serenidade e o senso de justiça dos Houyhnhnms.

Imagem que mostra Gulliver se despedindo dos Houyhnhnms

"Eu admirava a Força, a Beleza e a Celeridade dos Habitantes; e uma tal Constelação de Virtudes em Pessoas tão gentis produziu em mim a mais elevada Veneração. De início, é bem verdade, não sentia eu aquela Admiração natural que os Yahoos e todos os Animais lhes dedicam, porém o Sentimento brotou em mim gradualmente, muito mais cedo do que eu imaginava, combinado com um misto de Respeito, Amor e Gratidão, por eles condescenderem em me distinguir do resto da minha Espécie. Quando pensava na minha Família, nos meus Amigos, nos meus Compatriotas ou na Raça Humana em geral, via-os tal como eram, Yahoos quanto à Forma e à Disposição, apenas um pouco mais civilizados, e dotados da Fala, porém não fazendo outro uso da Razão que não o de aperfeiçoar e multiplicar aqueles Vícios dos quais os seus Irmãos naquele País só compartilhavam o quinhão que lhes concedia a Natureza. Quando via por acaso meu Reflexo num Lago ou Fonte, eu desviava o Olhar, presa de Horror e Ódio de mim mesmo, e era-me tão difícil suportar a visão de um Yahoo comum quanto a de mim mesmo."

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

a empregada


"I am, after all, a convict. You make one mistake in life, and nobody ever trusts you again."
E li o livro sensação da vez. Obviamente, a história me prendeu e fui até o fim praticamente de uma vez só. A Empregada, de Freida McFadden, consegue aquilo a que se propõe: entreter e envolver o leitor nas reviravoltas. Mas acaba se perdendo nos absurdos das coincidências e na tentativa de surpreender a todo momento, o que enfraquece o próprio enredo.

A trama acompanha Millie, jovem com antecedentes criminais que tenta uma vaga como empregada doméstica em uma família rica. Do outro lado, temos Nina, a patroa que precisa de alguém para ajudá-la, mas que, ao mesmo tempo, mostra suas garras, tratando a nova funcionária com desprezo e tornando sua rotina cada vez mais difícil.

O marido bonitão, claro, tenta amenizar a situação e se apresenta como verdadeiro exemplo de homem. A filha também parece ser bastante mimada e não vai facilitar a vida de Millie.

Não posso contar mais, pois isso estragaria as surpresas desse thriller psicológico que aborda violência, abuso, manipulação e mentes completamente doentias.

O livro virou filme, mas ainda não consegui assistir. Na verdade, não tive vontade de reviver a história.

Mas uma dica: li no original, em inglês, e recomendo. A linguagem é fácil e ajuda a aumentar o seu vocabulário ;-)

sábado, 6 de dezembro de 2025

cheio de charme


"Um cantinho secreto do coração, onde guardo meus pensamentos mais sombrios... eu não tinha certeza."

Tenho uma lembrança muito boa dos meus vinte e poucos anos: Marian Keyes e seus livros hilários. Dela, li praticamente todos, dos quais destaco Melancia e Sushi. Melancia é um livro que, lá atrás, cheguei a recomendar para quem teve o coração partido. Hoje, recomendo Shakira.

Enfim, Cheio de charme segue a mesma premissa, mas com um tema um pouco mais pesado. Fala de relacionamentos tóxicos e abusivos. Neste caso, as vítimas são quatro mulheres, todas do mesmo homem: o político boa-pinta Paddy de Courcy.

Lola é uma estilista renomada, mas entra em um momento depressivo após o término do namoro com Paddy, que considera o homem perfeito. Mais para a frente, vamos entender o quanto essa visão era distorcida e o quanto ela suportou a fim de manter o relacionamento com alguém que acreditava amar. Chegava, inclusive, a implorar por atenção, mesmo sabendo que qualquer deslize terminaria em agressões físicas.

"A sanidade me voltou como um balde de água fria e fiquei escandalizada com meu próprio comportamento. Eu tinha agido como uma doente mental. Doida."

Contudo, sua cura vem por meio dos amigos e ganhamos um bom entretenimento durante sua fuga para o interior da Irlanda, onde passa a habitar a cabana do tio Tom, uma propriedade que parece estar disponível para todos. Lá, rimos muito com suas peripécias, especialmente quando forma um clubinho de cinema com travestis.

Há ainda a jornalista Grace, que tenta uma entrevista exclusiva com Lola, muito a contragosto, pois quer distância de Paddy. Ela é irmã de Marnie, que hoje é casada e tem duas filhas, porém ainda carrega os traumas do relacionamento anterior (o mesmo cara), no qual era violentamente espancada, chegando até a parar no hospital. Mas Grace tem ainda outros motivos para manter-se longe dele. Por fim, há Alice, algo como a próxima vítima. Se ela sabe o que a espera ou mesmo se já sofreu os abusos, ainda teremos que esperar. Avisos não faltarão.

O livro é um alerta para o quão próxima a violência doméstica está de nós. Mais que isso, mostra como a mulher, dentro desse tipo de relacionamento, acaba entorpecida, o que a impede de sair. Não basta, neste caso, entender a situação pela qual está passando. Ela precisa, de fato, de ajuda para romper a violência. Ainda assim, Keyes mantém seu tom irônico e divertido, mas sem deixar de passar sua mensagem sobre esse tipo de relacionamento.

"O que tinha acontecido com ela? Quando abalara tão profundamente sua autoconfiança que não era mais capaz de confiar a si mesma a tarefa mais banal?"

sábado, 18 de outubro de 2025

a extraordinária cozinha dos livros


 “Não era uma solidão triste e sombria, era algo que fazia você olhar para trás com ternura, sabendo que toda história tem um fim.”

Os livros mais expostos nas livrarias são os coreanos e japoneses com capas fofas e que hoje são conhecidos como literatura de cura. A ideia é deixar aquele "quentinho no coração" depois da leitura. Na onda desse sucesso, vieram outros livros com as mesmas imagens acolhedoras, até infantis, mas que escondem outro tipo de literatura, a hot. Enfim, esse é o mercado editorial, que não abre mão de nenhum detalhe quando o assunto é vender, mesmo que isso confunda o leitor. Nada contra o gênero hot, mas, muitas vezes, tudo o que a pessoa precisa é de autoajuda em forma de romance estrangeiro.

E assim cheguei a alguns romances: Chocolate quente às quintas-feiras, A biblioteca dos sonhos secretos, Meus dias na Livraria Morisaki, Antes que o café esfrie (1, 2 e 3 - não consegui avançar mais que isso), Relatos de um gato viajante (meu favorito) e O gato que amava livros. São alguns exemplos desse tipo de literatura que vem do Japão ou da Coreia do Sul e que quase sempre está associada a um gato, a uma livraria, a uma biblioteca ou a um café. Essa é a grande premissa.

O que não é diferente do que vemos em A extraordinária cozinha dos livros, de Kim Jee-Hye.

A trama gira em torno de Yujin que, após passar anos trabalhando intensamente em uma startup em Seul, decide mudar de vida. A inspiração surge enquanto toma um café e ouve que há um imóvel sendo vendido, o que lhe parece perfeito para iniciar o próprio negócio. Acompanhamos cada detalhe da criação desse espaço, que reunirá café e livros. Haverá cápsulas do tempo para os hóspedes, onde eles escreverão cartas para si mesmos no futuro, e que quero copiar. A proprietária também escolherá, a dedo, livros que conversam diretamente com o ânimo e o estado de espírito de cada visitante.

Haverá ainda o reencontro de Yujin com amigos da vida. Embora cada um tenha seguido o próprio caminho, permanecem as lembranças em comum. Também uma celebridade chegará ao local, que, no passado, foi a casa de sua avó.

Nada profundo, mas que cumpre exatamente o que promete: deixar o coração aquecido e despertar a vontade de também, quem sabe, iniciar novos projetos, com mais tempo para se dedicar ao que realmente nos toca.

Ao ler o trecho abaixo, dei-me conta de que eu também sempre espero pelo café da manhã. Talvez pela certeza de que há algo aconchegante me esperando.

“Nas madrugadas, quando acordava de um pesadelo e o medo da cirurgia começava a tomar conta, pensava no café da manhã quentinho que teria depois que o sol nascesse. Era a refeição caseira ideal que Sohee sempre sonhara. Pensar no que haveria no café da manhã seguinte costumava ajudá-la a pegar no sono de novo.”

Escrevo esta resenha ouvindo Let It Snow, de Eddie Higgins, que aparece no romance. Aliás, este é um bom livro para o Natal.

E termino com um trecho que traz algo que acredito muito :-)
“Assim que você mergulha no mundo da ficção, esquece a dor da realidade, como se tivesse tomado um analgésico.”

domingo, 5 de outubro de 2025

como tigres na neve


"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."

Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.

Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.

O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."

"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."

Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.

Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.

Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.

A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.

"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."

sábado, 4 de outubro de 2025

herdeiras do mar



"Há coisas neste mundo que você nunca deveria precisar saber, e eu vou te proteger delas pelo tempo que puder. Esse é o meu dever como mãe."

Hana tinha apenas dezesseis anos quando foi presa pelo exército japonês e levada para se tornar uma mulher de consolo, eufemismo para mulheres e meninas escravizadas sexualmente para atender aos desejos dos militares. Ela nunca havia conhecido uma Coreia livre, pois ainda não tinha nascido quando o Japão anexou seu país, em 1910.

Hana e a mãe eram haenyeo. O trabalho delas consiste em mergulhar para encontrar principalmente abalones, moluscos marinhos considerados uma iguaria, mas também algas e outros frutos do mar. Elas alcançam grandes profundidades sem o auxílio de equipamentos de respiração. As haenyeo, cujo nome significa "mulheres do mar", são as tradicionais mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Ou seja, Herdeiras do mar, título do livro de Mary Lynn Bracht, escritora de ascendência coreana.

Quando tinha sete anos, Hana ganhou uma irmã, Emi. Apesar das dificuldades, as duas viviam relativamente felizes com os pais, dentro das possibilidades daquele período. O pai era pescador, enquanto Hana e a mãe trabalhavam no mar.

Tudo muda no dia em que soldados japoneses se aproximam do local onde elas mergulhavam. Emi, ainda pequena demais para acompanhá-las, estava na praia. Para salvar a irmã, Hana acaba se entregando e é levada pelos militares.

A cena marca profundamente Emi, que vê a irmã desaparecer e nunca se perdoa. Sente-se culpada por Hana ter sido levada em seu lugar. Mesmo depois de se casar e ter filhos, a mágoa nunca a abandona. Ainda assim, continua alimentando a esperança de reencontrar a irmã.

Anos mais tarde, está sempre de prontidão para acompanhar a Manifestação de Quarta-feira, realizada às quartas-feiras, ao meio-dia, em frente à antiga Embaixada do Japão, em Seul. O movimento começou em 8 de janeiro de 1992, reivindicando do governo japonês o reconhecimento dos crimes cometidos contra as mulheres submetidas à escravidão sexual durante a guerra.

Hana, por sua vez, é escravizada sexualmente e sofre todo tipo de violência. Mesmo quando surge uma pequena possibilidade de voltar para casa, prefere não fazê-lo. Ela teme colocar a família em risco e, principalmente, que os pais tenham de suportar o julgamento de uma sociedade que poderia condená-los por terem uma filha considerada "impura". Vale destacar também o enorme esforço que eles fazem para resgatá-la, algo de cortar o coração.

Em suas notas, Mary Lynn Bracht afirma que se acredita que entre 50 mil e 200 mil coreanas tenham sido sequestradas e "usadas" pelos militares japoneses durante a ocupação da Coreia. Como a cultura privilegiava a pureza sexual feminina, muitas das sobreviventes não conseguiram contar suas histórias. Somente muitos anos depois algumas delas romperam o silêncio.

Apenas em 2015, a Coreia do Sul e o Japão chegaram a um possível acordo, mas isso implicava na retirada de uma estátua em frente à embaixada japonesa que simbolizava o que havia acontecido. A proposta não foi aceita, principalmente pelas halmoni, como ficaram conhecidas as sobreviventes, agora idosas.

Esse monumento é a Estátua da Paz, instalada em 2011, uma escultura de bronze que representa uma jovem coreana vestida com o hanbok, traje tradicional do país, sentada em uma cadeira. Ela aparece de forma bastante simbólica no romance. Nele, Mary Lynn Bracht imagina que a jovem retratada possa ser Hana, personagem criada para dar voz às milhares de mulheres que não tiveram a oportunidade de contar sua própria história.


De acordo com o Korea Times, em março de 2026, morreu mais uma vítima coreana da escravidão sexual praticada pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Com isso, o número de sobreviventes oficialmente registradas pelo governo da Coreia do Sul caiu para apenas cinco. Das 240 mulheres reconhecidas pelo país, 235 já haviam morrido. As cinco sobreviventes tinham, naquele momento, idade média de 95 anos.

Herdeiras do mar foi mais uma leitura que fiz sobre as consequências da ocupação japonesa e sobre a ideia de superioridade de um povo que considera os demais inferiores e, por isso, acredita poder transformá-los em objetos para seu próprio uso. A História está repleta disso. Pachinko também mostra essa violência de forma muito dura.

"Na ilha de Hana, o mergulho é tarefa para as mulheres. O corpo delas se adapta às profundezas geladas do oceano melhor que o dos homens. Elas conseguem prender a respiração por mais tempo, nadar mais fundo e manter a temperatura corporal mais alta, portanto há séculos as mulheres de Jeju têm gozado de uma rara independência."

domingo, 28 de setembro de 2025

pachinko


"A história falhou conosco, mas não importa."
É assim que a coreana Min Jin Lee inicia sua saga, que percorre quatro gerações de uma família.

O ponto de partida é Yeongdo, ilha próxima à cidade portuária de Busan. Lá, um casal de idosos decide abrir uma pousada para complementar a renda. Com eles vive Hoonie, o único filho que sobreviveu, justamente o mais fraco. Nasceu com fenda palatina e um pé torto, e era uma das pessoas mais queridas da vila. Em um arranjo feito por uma casamenteira, casa-se com Yangjin, de origem extremamente pobre. Da união nasce Sunja.

A família segue administrando a pousada até a morte de Hoonie, deixando mãe e filha à mercê da invasão japonesa. A situação fica cada vez mais difícil, mas, ainda assim, elas encontram apoio na pequena comunidade e nos hóspedes habituais. Nunca sabem, porém, onde haverá um traidor. Todo cuidado é pouco. O romance retrata a ocupação japonesa da Coreia, a migração para o Japão e a discriminação sofrida pelos coreanos que passaram a viver no país.

Sunja cai na lábia de Koh Hansu, comerciante cheio de classe que se mostra totalmente apaixonado por ela. Ainda adolescente, acaba engravidando, o que deixa a mãe desnorteada. Mas descobre que Hansu é casado e não aceita a condição de amante. Resta-lhe, portanto, criar a criança sozinha.

Nesse meio-tempo, a pousada recebe outro hóspede: Isak, um pastor protestante que chega extremamente doente. Ao ouvir o que está acontecendo, decide se casar com Sunja e assumir a criança como seu filho. Juntos partem para Osaka, no Japão, para a casa do irmão dele. Lá passam a enfrentar dificuldades econômicas e, principalmente, o preconceito contra os imigrantes coreanos.

Ao longo das décadas, acompanhamos o crescimento dos filhos e netos de Sunja. Noa tenta desesperadamente integrar-se à sociedade japonesa. Já Mozasu, outro filho do casal, abandona os estudos e encontra prosperidade administrando casas de pachinko, jogo parecido com um caça-níquel. A atividade faz com que seja ainda mais desprezado pelos japoneses, mas é justamente ela que permite prosperar boa parte dos coreanos. Ele também encontra um grande amor, mas seu desfecho é deveras triste.

A narrativa expande-se para a geração seguinte, especialmente com Solomon, filho de Mozasu, que, apesar de formado em uma universidade dos Estados Unidos e fluente em inglês, japonês e coreano, sofre o racismo estrutural mesmo ocupando um cargo executivo em uma grande empresa.

Nos apegamos muito aos personagens. Sunja nunca desiste e está sempre cozinhando. Aliás, a comida é algo muito presente no romance. Chama a atenção o valor do arroz branco e o quanto ele era importante naquela época, tanto que foi o presente de casamento dado por Yangjin à filha. Também é com arroz branco que o novo casal é recebido ao chegar ao Japão. “Arroz branco. — Só por hoje, para a primeira noite de vocês aqui. Esta é a sua casa agora.”

Outro personagem que desperta curiosidade é Hansu. Nunca soube ao certo quais eram suas verdadeiras motivações. Em diversos momentos ele reaparece na vida da família, e fiquei me perguntando se também não era alguém tentando encontrar seu lugar no mundo. Afinal, ele próprio carrega uma história bastante triste, sobretudo pela morte do pai.

Também gostei muito de Kyunghee, cunhada de Sunja. Ela está sempre ao lado da família, buscando formas de enfrentar as dificuldades e seguir em frente. A amizade entre as duas talvez seja uma das relações mais bonitas do romance. Há ainda Kim Chang-ho, que acaba se aproximando da família e de Kyunghee.

O título remete ao pachinko, jogo em que habilidade e acaso se misturam. A autora mostra como uma família tenta construir uma vida entre dois países, sem ser plenamente aceita por nenhum deles. Foi adaptado para a TV em um excelente produção da Apple TV+, que quebrou a linearidade da história. Ainda fico com o livro, porém. Apesar de ver e rever a abertura da primeira temporada inúmeras vezes. É contagiante!


Curiosidade:

“Devido às exigências do governo colonial, era normal que os coreanos tivessem dois ou três sobrenomes, mas na Coreia ela praticamente não usava o tsumei japonês que aparecia em seus documentos de identidade (Junko Kaneda), porque não frequentava a escola e não tinha nenhuma relação com instituições oficiais. O sobrenome de nascimento de Sunja era Kim, mas no Japão, onde as mulheres adotavam o nome de família do marido, ela era Sunja Baek, que se traduzia como Sunja Boku, e em seus documentos de identidade seu tsumei agora era Junko Bando. Quando os coreanos tiveram que escolher um sobrenome japonês, o pai de Isak escolheu Bando porque soava como a palavra coreana ban-deh, que significa “objeção”, o que tornava seu sobrenome japonês obrigatório uma espécie de piada. Kyunghee havia assegurado a ela que logo todos aqueles nomes se tornariam normais.”


Por fim, um dos trechos que mais me marcou:

"Quando era uma jovem mãe, costumava haver apenas um momento em suas horas de vigília em que sentia uma espécie de paz, e era sempre depois que os filhos iam para a cama. Desejou vê-los como eram naquela época: as pernas gordinhas e brancas, os cortes de cabelo desiguais, porque nunca paravam quietos no cabeleireiro. Desejou poder desfazer as vezes em que os havia repreendido só porque estava cansada. Havia cometido tantos erros. Se a vida permitisse revisões, ela os deixaria ficar um pouco mais no banho, leria mais uma história para eles antes de dormir e prepararia mais um prato de camarão."

Certamente, eu deixaria o camarão de lado. Todavia este não é o objetivo do texto. Indico muito a leitura.

Nota: Cheguei até Pachinko por dois motivos. O primeiro foi a capa linda, com uma coreana em trajes típicos, o hanbok. O segundo foi porque vi no enredo que ele poderia ser a continuação de uma série coreana que eu tinha acabado de assistir, Mr. Sunshine. Ela retrata os últimos anos do Reino de Joseon, como a Coreia era conhecida até então. A história começa em 1871, época em que o país sofreu a invasão dos Estados Unidos e, posteriormente, a ocupação japonesa. Foi perfeito seguir essa ordem e conhecer uma história que ainda me era desconhecida.

sábado, 30 de agosto de 2025

o pequeno caderno das coisas não ditas


"Se você usa dureza para resistir à força, então ambos os lados se quebram. Tai chi enfrenta a dureza com suavidade, assim a força que chega se esgota."

Que tal um projeto de autenticidade? E o que exatamente isso quer dizer? Monica encontra um caderno com essa proposta na mesa do seu café. Até tenta alcançar a pessoa que o deixou ali, mas não consegue.

"Quanto você realmente conhece as pessoas que moram perto da sua casa? Quanto elas realmente conhecem você? Por acaso você sabe o nome dos seus vizinhos? Saberia se eles estivessem com problemas, ou se passassem dias sem sair de casa? Todo mundo mente sobre a própria vida. O que aconteceria se, em vez disso, você compartilhasse a verdade? Aquela única coisa que define você, que faz todo o resto a seu respeito se encaixar? Não na internet, mas com as pessoas reais ao seu redor? Talvez nada. Ou talvez contar essa história acabasse mudando a sua vida, ou a vida de alguém que você nem conhece. Isso é o que eu quero descobrir."

Achei a premissa de O pequeno caderno das coisas não ditas, de Clare Pooley, exagerada e forçada. Sem contar os personagens, que muitas vezes são bem irritantes, como o insuportável Julian, o artista idoso tido como excêntrico. Foi ele quem deixou o tal caderno, numa tentativa de se redimir dos estragos que causou durante a juventude, em especial à esposa, algo que só descobrimos perto do final.

Mas segui a leitura porque ela se passava em um pequeno café, porque eu queria algo leve e porque achei que poderia ser como o deliciosoA caderneta vermelha, de Antoine Laurain. Só não esperava encontrar uma história tão superficial.

Bem, a ideia é essa. Você esbarra num caderninho propondo a maluquice de escrever nele seus segredos e deixá-lo em algum lugar, aleatoriamente. A pessoa que o encontrar deve seguir a brincadeira: ler o que você escreveu e registrar também seus pensamentos. E eis que todos concordam e passam a compartilhar angústias, medos, erros. Obviamente, acabam se reunindo e formando uma pequena comunidade disposta a mudar e ajudar uns aos outros.

No meio de tudo há Monica, já citada, cujo sonho é ser mãe, há um viciado em drogas, uma influenciadora cuja vida parece perfeita, mas que vive uma crise no casamento, e o chato do Riley, que não sei de qual universo paralelo surgiu.

O fato é que as histórias de todos praticamente já sumiram da minha memória, sinal de que o livro também não foi tão essencial assim. Não recomendo.

sábado, 16 de agosto de 2025

oração para desaparecer


“De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.”

Imagine acordar e perceber que você está enterrada, com tudo o que isso pode representar. Pois é exatamente o que acontece com Cida. E, para piorar, ela não sabe quem é, não se lembra de nada sobre sua vida. O resgate é feito por um casal em Almofala, uma aldeia em Portugal. Tudo com a maior naturalidade do mundo, afinal, era esperado que ela surgisse ali, uma ressurrecta, como chamam pessoas que somem em um lugar do mundo e aparecem em outro, devidamente enterradas. Junto com Jorge, ela vai atrás de uma pessoa que cria passados, de modo que ela possa ter algo sobre o que contar. Aqui temos referência direta ao romance O vendedor de passados, do português José Eduardo Agualusa, especialmente pela presença de Félix Ventura, personagem que cria passados para outras pessoas, reforçando o tema da construção artificial da memória. E, para essa reconstrução, vale tudo, inclusive os sonhos que ela tem, e pelos quais Félix tanto se interessa. Aos poucos, as lembranças vão surgindo, e ela chega a quem realmente foi. Resta saber qual das duas personagens ela vai escolher.

Enquanto isso, em outra Almofala, desta vez no Ceará, temos um personagem já envelhecido, Miguel, que espera pela sua Joana, mulher que desapareceu misteriosamente.

Essa é a premissa de Oração para desaparecer, da brasileira Socorro Acioli. O romance é baseado em um fato real. Em Almofala, no Ceará, uma igreja construída no século XIX foi totalmente coberta por areia das dunas móveis. Cinquenta anos depois, ela reaparece praticamente intacta. Antes da invasão da areia, todos os santos foram retirados, o que levou a uma comoção geral. A história pode ser conferida aqui nesta reportagem do Diário do Nordeste.

Partindo desse acontecimento, a autora, que tem um pé no realismo fantástico, principalmente considerando que teve aulas com Gabriel García Márquez, nos presenteia com uma história instigante que brinca com crenças, misticismo e nos faz questionar o que é real, afinal de contas.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes.”




domingo, 13 de julho de 2025

guardiã de histórias


"É claro que toda biblioteca tem fantasma. Todo mundo sabe que fantasmas gostam de ler."

A Guardiã de histórias, de Sally Page, é Janice, dedicada faxineira que tem como hábito ouvir as conversas dos outros e guardar suas histórias. São narrativas que dão sentido à sua própria vida, que é bem desprovida de emoções. Ela vive com o marido, que a trata como empregada e não demonstra o mínimo de carinho.

Mas Janice tem um segredo, que vem das violências que presenciou quando criança. Algo com que nenhuma criança deveria ter que lidar. Quem vai descobrir esse passado e fazê-la contar o que aconteceu, até como forma de libertação, é a Sra. B., uma ex-espiã britânica de noventa anos. Ela também enfrenta suas próprias questões, já que o filho quer que deixe a casa onde mora para ir para um asilo. Ele pensa no dinheiro que vai receber com a venda do imóvel, e não no bem-estar da mãe.

Ao longo da narrativa, vamos conhecendo as histórias das pessoas que contratam Janice para limpar suas casas, como a Sra. B. Acompanhamos a relação entre uma mãe e seu filho adolescente, que desde a morte do pai não se entendem. Há o famoso cantor de ópera, que será essencial para a retomada de Janice. Além de colecionar fragmentos das vidas alheias, Janice também dá apelidos a todos que encontra, como a Sra. Sim-Sim-Sim e o Sr. Não-Não-Agora. Mas quem rouba seu coração e será o primeiro com quem ela vai estabelecer um diálogo sincero será Decius, um cachorro.

Já faz um tempo que li este livro e confesso que muitos detalhes me escapam. Portanto, nada tão inesquecível. Lembro, contudo, que muitas vezes me cansava da narrativa arrastada. Ainda assim, recomendo para todos que precisam entender que tudo aquilo que nos faz mal pode e deve ser rompido.

"Há um bom tempo eu percebi que, se eu der ouvidos às poucas pessoas que gritam comigo, estou dando a elas mais importância do que merecem. Suas palavras vão ficar na minha cabeça, me deixar chateado e as vozes estrondosas continuarão soando, mesmo depois que a gritaria acabar. Então, em vez disso, eu presto atenção nas vozes baixas, que são a maioria das pessoas."

sábado, 5 de abril de 2025

a pequena pousada da islândia




"Existe a satisfação de ouvir um hóspede dizer quanto gostou da hospedagem ou que o atendimento foi ótimo. Tem algo bom em poder tirar as pessoas da rotina, das tarefas, de lavar e passar roupa. Dar a elas uma folga. E todo dia é diferente; eu gosto da mecânica de ver tudo funcionando junto e interligado, como num quebra-cabeça."

Em A pequena pousada da Islândia, Julie Caplin nos leva para uma pousada cercada por neve, fontes termais e pela expectativa de ver a aurora boreal. O romance é bobinho e bastante previsível, mas ainda assim me deixei envolver pelo cenário e pela crença nos Huldufólk.

Lucy Smart gerencia um grande hotel em Londres. Porém, após um vídeo gravado pelo ex-namorado, vê sua reputação desmoronar. Resta-lhe apenas a possibilidade de trabalhar na pequena pousada Aurora Boreal, no interior da Islândia. Chegando lá, encontra funcionários despreparados que parecem culpar os elfos por todos os incidentes. Falam disso com tanta convicção que, assim como a protagonista, ficamos sem saber até que ponto estão brincando ou realmente acreditam naquelas histórias. A repetição foi tanta que acabei pesquisando e descobri que a crença nos Huldufólk (o "Povo Oculto" ou, simplesmente, elfos) faz parte do imaginário islandês. Há, inclusive, relatos de obras e estradas que já foram desviadas para evitar locais considerados seus habitats.

Enquanto tenta se adaptar, Lucy descobre que a pousada pode ser vendida e que sua permanência ali talvez seja breve. Ainda assim, decide tornar o local mais aconchegante. Nesse processo, aproxima-se de Alex, o barman escocês. Adivinhem o que acontece?

O que mais me agradou foi viajar por meio das palavras e conhecer um pouco mais sobre a Islândia, que certamente está nos destinos que quero conhecer. Já quero adotar o jólabókaflód ou, como foi traduzido, a “inundação natalina de livros”, hábito dos islandeses de dar livros de presente no Natal. Esse é o segundo livro que leio da autora e da série Destinos Românticos. O primeiro foi O pequeno café de Copenhague, mas a Islândia me pareceu muito mais convidativa ;-)

Para conhecer: Gullfoss (foto abaixo), Hallgrímskirkja, Blue Lagoon


domingo, 29 de dezembro de 2024

último natal em paris


"E os animais, Alice? Você vê os cavalos e os cachorros? Eu odeio pensar que estejam sofrendo, mas ouço relatos dos mais terríveis sobre cavalos se afogando na lama grossa. É verdade? Os campos estão muito vazios aqui. É quase possível esquecer quantas belas criaturas corriam livremente por esta terra. Todos se foram, exceto os que eram velhos e mancos demais para ser úteis. Eu me pergunto o que aconteceu com os amados cavalos de Will, Hamlet e Shylock. Nem gosto de pensar."

Lá se foi o tempo em que a troca de cartas era a principal forma de manter contato com amigos ou familiares distantes. Hoje temos videochamadas, áudios, mensagens instantâneas. Até mesmo o e-mail, que já foi tão usado, parece obsoleto. Com isso, perdemos um pouco dos detalhes e da emoção que as antigas missivas carregavam.

É justamente isso que o livro Último Natal em Paris, de Hazel Gaynor e Heather Webb, recupera. Confesso que, nas primeiras páginas, ainda não tinha me convencido, mas logo meu interesse despertou. Comprei sem ler muito sobre ele; apenas vi que falava de Natal e da Primeira Guerra Mundial.

O que temos aqui é uma história quase inteiramente contada por meio de cartas — trocas entre amigos, irmãos, pais e, principalmente, entre Thomas Harding e Evie Elliott, que protagonizam a narrativa.

O ponto de partida é a viagem de Thomas, já idoso, saindo da Inglaterra em direção a Paris. É a cidade que, por muitos anos, simbolizou o sonho adiado dele com Evie. Sempre diziam que, quando a guerra terminasse, iriam juntos para lá. Agora, com a saúde frágil e acompanhado por sua cuidadora, ele leva consigo um pacote de cartas que marcaram os anos em que esteve a serviço militar.

Essas cartas começam no dia em que ele parte com seu melhor amigo, Will, para a primeira missão, em 1914. A partir daí, inicia-se a troca de mensagens com Evie, irmã de Will. É por meio delas que acompanhamos o nascimento do afeto entre os dois, além de conhecermos um pouco da vida nas trincheiras, das transformações sociais e dos impactos da guerra no cotidiano.

Mas não lemos apenas as cartas entre Thomas e Evie. Há também bilhetes, telegramas e mensagens trocadas entre outros personagens, o que enriquece o enredo e amplia a perspectiva da época.

Um ponto particularmente interessante é a presença dos animais ao longo da narrativa. Evie começa a desenhar pássaros e vai aperfeiçoando seus traços com o tempo. Os pássaros tornam-se símbolo de liberdade, em contraste com o confinamento da guerra. Já os animais usados para alimentação aparecem de forma triste e realista, como na falta que fazem na ceia de Natal. E os ratos, como sempre, como horripilantes. 

"As analogias com pássaros são bastante úteis, sabe? A carriça insufla seu pequeno peito para ter coragem e força, a cotovia dá sorte, e que tal o pavão, com seu imponente peito turquesa e sua bela cauda de penas coloridas? Você é como um pássaro. Uma águia, destinada a voar alto, mas sem nunca perder a visão aguçada. Você não é uma mulher de gaiola, é? Um dia, você não poderá conter o fogo que tem dentro de si e sairá por aí, irrefreável. Sua coluna é o início perfeito."

"Em outras notícias, temos uma infestação de ratos. Eu os ouço correr por trás das paredes e pela chaminé. Estremeço ao ouvir o arranhar das horríveis patinhas deles. Mills colocou armadilhas, e posso dizer que não há nada mais desagradável do que o paf e o crac que elas fazem ao serem acionadas. É de revirar o estômago. Tanto assim que estou em busca de um bom caçador de ratos. Não gosto muito de gatos, mas deve ser preferível a esse som terrível."

Há ainda uma cena marcante envolvendo cavalos. Descobrimos como também foram convocados para o esforço de guerra e acompanhamos a angústia do irmão de Evie, preocupado com seus animais.

"Falando em casa, seus cavalos foram levados para algum lugar? Will se preocupa com Shylock e Hamlet. Vimos as cargas partir – centenas deles, ou milhares, na verdade. Fomos informados de que estão confiscando todos os cavalos e os enviando ao front. Seu irmão cometerá traição se levarem os cavalos dele. Você sabe como ele os ama. Se forem para a batalha… Bem, não vamos falar disso. Faça o que puder."

Último Natal em Paris é emocionante. Para quem gosta de histórias de amor em tempos de guerra, é uma ótima escolha, cheia de emoção, memórias e reflexões sobre o poder das cartas.

"Você conhece minha paixão por Shakespeare, é claro. Você sabia que ele usou imagens de pássaros em sua obra mais do que qualquer outro? O poema mais obscuro dele é o complemento ao texto de outro escritor e se chama (agora, pois incialmente foi publicado sem título) “A Fênix e a Tartaruga”. Fala de um par de pássaros, uma fênix e uma pomba (a pomba-tartaruga), cujo amor cria uma união tão perfeita que desafia o sentido concreto e a lógica terrena e supera qualquer obstáculo. Mostrarei para você quando eu voltar. Tenho uma cópia entre minhas coisas da escola."


sábado, 2 de novembro de 2024

o amigo


“A inocência é algo que nós, humanos, atravessamos e deixamos para trás, incapazes de retornar a ela. Mas os animais vivem e morrem nesse estado, e testemunhar a inocência violada em razão da crueldade com um simples pato pode parecer o ato mais bárbaro do mundo.”

Por vários momentos, eu me incomodei com o desenrolar da história. Mas não porque considerei a leitura ruim ou cansativa. Muito pelo contrário. Justamente por ser tão verdadeira e tão próxima das dores que não conseguimos explicar. O incômodo vinha de outro lugar. Era o incômodo de quem está sendo atingida.

A protagonista é professora de escrita criativa, e seu melhor amigo acaba de se suicidar. Ele foi seu maior confidente, sua referência intelectual, o parceiro das conversas sobre literatura e sobre a vida. Foi também um amor antigo, conforme vamos descobrindo aos poucos.

A narrativa é toda dela. O que temos, portanto, é apenas seu ponto de vista sobre as circunstâncias que o levaram à morte e suas consequências, sobretudo para ela.

O amigo morto deixa um cachorro. Um dogue alemão enorme, Apolo. A viúva do suicida, conhecida como Esposa Três, diz que nunca quis o cachorro e que, agora, sozinha, não suportaria a convivência. Apolo havia sido deixado em um canil, onde passava os dias esperando na porta, recusando-se a comer, emitindo um lamento baixo e insistente. “Não se pode explicar a morte para um cachorro”, ela diz. Aos poucos, a narradora descobre o que o amigo falou sobre ela. Sozinha, sem filhos, com horários flexíveis e afeto por animais, parecia, aos olhos dele, a única pessoa capaz de cuidar de Apolo até o fim. Ela mora em um apartamento pequeno, alugado, em um prédio que não aceita animais. Mesmo assim, e sem nunca ter tido um cachorro antes, aceita. Porque entende que não há outra escolha possível. Chama a atenção o fato de que, ao longo de todo o livro, apenas o cachorro tem nome.

Temos, portanto, dois grandes amigos deixados um ao outro, como uma última forma de cuidado mútuo, mesmo depois da partida.

A partir daí, acompanhamos a evolução da convivência entre dois seres devastados pela perda. Apolo ocupa todos os espaços da casa. A dor do cachorro é visível. Está nos olhos, na falta de apetite, no não abanar do rabo. Está no lamento noturno, no estranhamento do toque, na ausência total de alegria. A ela, sobra pouco tempo para lamentações, já que seu esforço é para compreendê-lo. Não com a limitação da nossa linguagem, eu acrescento. É na literatura e na poesia que ela se apoia para conversar com o novo amigo, por quem vê sua afeição crescer a cada dia, a ponto de se dedicar inteiramente a ele, especialmente quando ele começa a apresentar sinais de fragilidade.

A construção do livro é feita por fragmentos, memórias, divagações e muitas referências literárias, em especial às que abordam animais. Sigrid Nunez costura autores e obras com leveza. Desonra, de J. M. Coetzee, é lembrado. A narradora chega a comparar o amigo com o personagem principal desse romance sul-africano. Assim como David Lurie, ele também teve, em vários momentos, uma vida promíscua, envolvendo-se com alunas. Ao mesmo tempo, compartilhava a paixão pela literatura e pelos grandes clássicos.

Ela também cita A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, e My Dog Tulip, de J. R. Ackerley, relato autobiográfico sobre o amor obsessivo e devotado entre um homem e sua cadela. Há ainda referências discretas, mas marcantes, a autores como Sidonie-Gabrielle Colette, Rainer Maria Rilke e Robert Graves.

Nunez percorre também a tradição da literatura juvenil e sentimental sobre animais, em especial cavalos e cães, mencionando obras como Beleza Negra, de Anna Sewell, contada pela perspectiva de um cavalo; Minha amiga Flicka, de Mary O'Hara; Caninos brancos e O chamado selvagem, de Jack London; O belo Joe, de Margaret Marshall Saunders; e O cão chamado Buck, que aparece em múltiplas listas de clássicos. São narrativas em que a sensibilidade e o sofrimento animal têm protagonismo, muitas vezes servindo como crítica moral ao comportamento humano.

Em determinado momento, a narradora recorda um trecho do escritor Robert Graves sobre a Batalha do Somme. Diante da cena de destruição, ele diz: “O número de cavalos e mulas mortos me chocou; estava tudo muito bem com os cadáveres humanos, mas parecia errado que animais fossem arrastados para a guerra assim.” A frase reforça que a violência contra os animais nos atinge com outra frequência, talvez porque, como diz a própria narradora, sua capacidade de sofrimento nos escapa, mas também nos interpela de forma mais direta e sem defesas.

E há também a escrita. O amigo, em vida, falava do quanto andar era parte essencial do seu processo criativo. Da importância de caminhar sem rumo pelas ruas da cidade para encontrar o ritmo da frase. Para ele, escrever era também uma questão de batida. Boas frases começam com uma batida. Era a caminhada que preparava essa batida inicial.

Ele se via como um flâneur, termo francês que descreve quem caminha lentamente pela cidade, sem destino certo, apenas observando o mundo e absorvendo o que está ao redor. Mas questionava se uma mulher poderia realmente ser uma flâneuse. Não por falta de ideias, mas pelas interrupções. Porque uma mulher andando sozinha é alvo de olhares, comentários, assobios. A liberdade de andar e se perder, como ele dizia, exige também o privilégio de não precisar estar em alerta o tempo todo. E como se desmanchar no mundo, como se dissolver nos pensamentos, se é preciso estar sempre se protegendo? Queria muito dizer que ele estava errado.

Com o tempo, a narradora percebe que a artrite de Apolo está se agravando. O fim se aproxima. Quando isso acontece, ela consegue uma casa grande emprestada, longe de tudo e de todos. Da varanda, ouve o mar e observa o cachorro deitado na grama. Um enxame de borboletas brancas se move pelo gramado. Ela teme que Apolo possa matá-las com uma mordida. Mas ele não se move. As borboletas pousam sobre ele. E então ela sente o que vai acontecer.

A última frase do romance é um lamento: “Oh, meu amigo, meu amigo.” Mas não há ali um mergulho no vazio. Com Apolo, ela pôde permanecer até o fim. Diferentemente do amigo que partiu sem explicações, o cão esteve presente até o último instante. Há dor, mas foi uma despedida construída com o tempo, cuidado e amor.

“Você anda devagar, cada vez mais devagar — manquejando é o termo que estou evitando aqui. Meu medo é que um dia até cheguemos bem lá, mas você não consiga voltar.”

Ah, sim, virou filme. Ainda estou pensando se vou assistir.




Trechos

“Karenin e Tereza são dedicadas uma à outra. Ao refletir sobre esse vínculo puro e desinteressado, Tereza conclui que tal amor é, se não maior, melhor do que a coisa corrupta, carregada, eternamente decepcionante e comprometida que sempre teve com Tomas.”

“Aonde você estava indo? A nenhum lugar em particular. Sem destino, sem compromisso. Apenas passeando, as mãos nos bolsos, saboreando a rua. Era o que gostava de fazer. Se não posso andar, não posso escrever. Você trabalhava pela manhã e, em determinado momento, o qual sempre chegava, quando você parecia incapaz de escrever uma frase simples, saía e caminhava por quilômetros. Malditos eram os dias em que o mau tempo impedia isso (o que raramente acontecia, pois você não se importava com o frio ou com a chuva, apenas uma tempestade poderia frustrá-lo). Quando voltava, sentava-se novamente para trabalhar, tentando manter o ritmo estabelecido durante a caminhada. E, quanto mais tivesse tido êxito nisso, melhor seria a escrita. Porque tudo tem a ver com ritmo, você disse. Boas frases começam com uma batida. Você postou um ensaio, “Como ser um flâneur”, sobre o costume de passear e andar sem destino na cidade e o lugar que isso ocupa na cultura literária. Recebeu algumas críticas por questionar se realmente poderia haver uma flâneuse. Você não achava possível uma mulher vagar pelas ruas com o mesmo espírito e o mesmo comportamento de um homem. Uma pedestre estava sujeita a interrupções constantes: olhares, comentários, assobios, assédios. A mulher é criada para estar sempre em guarda: Esse cara não está andando muito perto dela? Será que não a está seguindo? Como, então, ela poderia relaxar o suficiente para experimentar a perda do senso do eu, a alegria do puro ser que era o ideal da verdadeira flânerie?”

“Não se pode explicar a morte para um cachorro. Ele não entendia que papai nunca mais voltaria para casa. Esperou na porta dia e noite. Por um tempo ele nem sequer comeu, e eu temia que morresse de fome. Mas a pior parte era que, de vez em quando, ele fazia aquele barulho, aquele uivo ou lamento, ou o que quer que fosse. Não alto, mas estranho, como um fantasma ou alguma outra coisa esquisita. Continuou fazendo isso. Eu tentava distraí-lo com um agrado, mas ele virava a cabeça. Uma vez até rosnou para mim. Ele fazia isso à noite. Eu acordava e não conseguia pegar no sono de novo. Eu ficava lá, ouvindo, até achar que fosse enlouquecer. Toda vez que conseguia me recompor, eu o via esperando perto da porta, ou ele começava a lamentar daquele jeito, e eu desmoronava novamente. Tive que tirá-lo de casa. E, agora que ele se foi, seria cruel trazê-lo de volta. Não consigo imaginá-lo sendo feliz outra vez naquela casa.”

“​​Na maior parte do tempo, ele me ignora. Poderia muito bem viver sozinho aqui. Faz contato visual às vezes, mas então desvia imediatamente o olhar. Seus grandes olhos castanhos são surpreendentemente humanos; eles me recordam os seus. Lembro-me de uma vez, quando tive que viajar, em que deixei meu gato com um namorado. Ele não gostava muito de gatos, mas depois me falou que foi bom ficar com ele pois, disse, Eu sentia sua falta, e tê-lo por perto era como ter uma parte de você comigo. Ter seu cachorro por perto é como ter uma parte de você comigo. A expressão dele não muda. É a expressão que imagino nos olhos de Greyfriars Bobby nos anos em que permaneceu deitado no túmulo do dono. E ainda não o vi abanar o rabo. (O rabo dele não foi cortado, apenas as orelhas — infelizmente, de maneira desigual, deixando uma menor que a outra. Ele também foi castrado.) Ele sabe que não deve subir na cama.”

“Uma digressão. Sobre o sofrimento animal, o que realmente sabemos? Há evidências de que cães e outros bichos têm maior tolerância à dor do que os seres humanos. Mas sua verdadeira capacidade de sofrimento — como o seu verdadeiro grau de inteligência — deve continuar sendo um mistério. Ackerley acreditava que estar tão envolvido emocionalmente com as pessoas e tentar agradá-las sempre tornava a vida de um cão cronicamente ansiosa e estressada. Mas eles sofriam de dor de cabeça?, ele perguntava, nem mesmo esse tipo de detalhe sobre eles é conhecido. Outra questão: Por que as pessoas muitas vezes acham o sofrimento animal mais difícil de aceitar do que o sofrimento de outros seres humanos? Veja Robert Graves, escrevendo sobre a Batalha do Somme: O número de cavalos e mulas mortos me chocou; estava tudo muito bem com os cadáveres humanos, mas parecia errado que animais fossem arrastados para a guerra assim.”

sábado, 21 de setembro de 2024

mapa do coração



"Era perfeitamente possível sentir saudade de alguém que você nunca tinha conhecido, e ele era prova viva disso."

Quando se quer uma leitura rápida, os chick-lits sempre são uma boa pedida. Além de serem divertidos, esses livros costumam entreter de forma leve e agradável. "Mapa do coração", de Susan Wiggs, não se encaixa exatamente no gênero. A protagonista não é desastrada, nem se mete em confusões típicas desses romances, mas o livro está quase lá.

A história gira em torno de Camille Adams, de 36 anos, que mora com sua filha de 14, Julie. Seu marido, Jace, morreu há cinco anos, mas ela ainda não conseguiu superar a dor e a forma com que o perdeu. Elas moram em Bethany Bay, vila pitoresca localizada na baía de Chesapeake, na costa leste dos Estados Unidos. Esse cenário me remeteu a uma série que assisti com o mesmo nome, o que facilitou a visualização do lugar, que é realmente encantador. 

Camille e sua mãe têm uma loja no vilarejo, daquelas que vendem de tudo, sempre com itens bonitinhos destinados a alegrar as pessoas. Além disso, divide um estúdio de fotografia com um amigo que, sinceramente, não acrescenta nada à trama. Coitado, ele nem deveria estar lá – só é salvo pelo nome: Billy, o nome do meu cachorrinho lindo. Especialista em restaurar fotos antigas de rolos esquecidos pelo tempo, Camille acaba acidentalmente destruindo o filme de um renomado pesquisador e professor de história, o que quase arruina sua única chance de descobrir os últimos momentos de seu pai, morto na Guerra do Vietnã.

Mas é claro que nem tudo será perdido, e é óbvio que Finn será o novo amor de Camille. Contudo, ela ainda está bastante confusa. Precisa lidar com o medo de outro acidente, o que faz com que superproteja sua filha, impedindo que Julie saia, viaje ou mesmo pratique atividades que possam colocá-la minimamente em risco. Julie, por sua vez, sofre bullying na escola. O pai de Camille, Henry, está se recuperando de um câncer, o que também a deixa ainda mais apreensiva. 

No meio de tudo isso, um baú enviado da França, contendo fotos e objetos, revelará que a história de vida de Henry não é exatamente como Camille acreditava. Até então, sabia-se que a mãe de Henry, Lisette, havia morrido no parto, e seu pai fora morto após o fim da guerra. Porém, as imagens e relatos encontrados nos levam de volta à década de 1940, onde conhecemos a verdadeira história de amor de Lisette. Finn vai ajudá-los a desvendar esse mistério.

E, assim, todos viajam para o sul da França durante o verão, onde desfrutam de momentos inesquecíveis, fazem muitas descobertas, novas amizades e, mais importante, percebem que nunca é tarde para dar outro rumo à vida. Recomendo a leitura para as férias – seja na cadeira de praia, ao lado da lareira ou até mesmo durante o trajeto. Esse livro vai te ajudar a passar o tempo e, quem sabe, te inspirar a adicionar dois novos destinos ao seu roteiro de viagens, ou até considerar uma mudança mais definitiva. Tentem apenas, se possível, abstrair o excesso de clichês e diálogos melosos. Difícil, eu sei.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

desonra



"Pense em coisas tranquilas, em coisas fortes. 
Eles farejam o que a gente pensa." 

"Desonra", de J. M. Coetzee, é uma obra que, embora focada na complexa vida pessoal e social de seus personagens, oferece uma profunda reflexão sobre a relação entre humanos e animais. Situado na África do Sul pós-apartheid, o romance aborda culpa, redenção e o impacto da violência, tanto humana quanto animal. No romance, a jornada de David Lurie ao lado de sua filha Lucy revela um profundo processo de transformação pessoal, que é espelhado em sua crescente empatia pelos animais. 

Você sai da leitura e segue perdido, como os personagens. A história começa com o professor David Lurie, de cinquenta e dois anos, divorciado - duas vezes - e com uma vida tranquila e morna. Dá aulas sobre temas que não lhe interessam, o que faz com que elas sejam bem ordinárias.

Uma vez por semana tem encontro marcado com uma mulher em um quarto limpo, com toalhas e sabonetes à sua disposição. Está no que, hoje, chamamos de zona de conforto. Até que Soraya, a moça com que se encontra para o sexo casual, diz que não poderá mais encontrá-lo. Após tentativas frustradas para descobrir o motivo, ele a vê com sua família, marido e filhos, na rua. O incidente o leva a refletir sobre o envelhecimento, sua vida e até mesmo a castração, a fim de parar com os desejos.

No meio de tudo isso, uma de suas alunas se sobressai, Melanie Isaac. Após uma abordagem na universidade, ele a convida até sua casa. Outros encontros acontecem, mesmo contra a vontade da garota, que se sente, de algum modo, obrigada a ceder às investidas. Depois disso, há a denúncia de abuso sexual e ele acaba se afastando do cargo e foge para a fazenda da filha, Lucy, que também lida com suas próprias questões. Ela acabou de terminar um relacionamento e tenta se encaixar no modo de vida das pessoas ao seu redor. David mora na Cidade do Cabo. E Lucy mora em Salem, Kenton, no Cabo Leste. São quase 900 km de distância. Mas ele precisa desse refúgio para superar, ou não, a culpa. 

"Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço."

Chegando na casa da filha, tenta se adaptar à vida no interior da África do Sul. Fica apreensivo ao vê-la morando sozinha, sem vaidade e com parcos recursos. Aos poucos, porém, vai se reencontrando naquele lugar longínquo (em todos os sentidos para ele), ajuda no que é possível e até encontra um trabalho voluntário no abrigo de animais.

Lucy tem um hotel para cachorros e uma, em particular, nos é apresentada. Assim como os demais personagens da casa, também foi abandonada. Trata-se de Katy, que chegou para ficar hospedada e por lá ficou. Ao ser questionada pelo pai se não tem medo de ficar sozinha, Lucy responde que: 

"tem os cachorros. Os cachorros já são alguma coisa. Quanto mais cachorro, mais proteção. Mas seja como for, se alguém resolver entrar, não acho que estar em duas seja melhor que uma."

Mas ela conta ainda com Petrus, seu vizinho, que foi seu empregado no passado. A impressão é que há um pacto entre eles, com favores mútuos. Há Bev, que cuida do refúgio de animais na região, que David, a pedido da filha, irá ajudar. Cabe à Bev praticar a eutanásia nos animais que não podem mais ser curados e também naqueles que não poderão encontrar um lar. A palavra eutanásia não aparece, mas fica bem claro do que se trata. Mas ela não faz isso de modo frio, pelo contrário, conversa com os bichos e procura dar conforto e acolhimento em seus últimos instantes de vida.

David não sente nenhuma empatia por este trabalho e chega a repudiar Bev por sua aparência física. Em uma conversa com a filha deixa claro sua percepção, que reflete a de muitas pessoas: 

"Na criação, nós somos de uma ordem diferente dos animais. Não necessariamente superior, mas diferente. Portanto, se vamos ser bons, que seja por simples generosidade, não porque nos sentimos culpados ou temos medo de vingança." 

Dentre os animais tratados por Bev, está um bode que levou uma mordida de cachorro e que está agonizando, com feridas graves e bem infeccionadas. 

"O bode treme, solta um balido: um som feio, baixo e áspero."

Para ele, só resta descansar pelas mãos de Bev, porém, não é o que vai acontecer. Seus `proprietários`, assim como muitos, firmando a questão da posse, preferem fazer o serviço em casa. É uma das passagens que mais me marcou, pelo sofrimento do bode, por ele entender o que estava por vir, por ter sido privado, no fim, do único alívio que poderia ter. É quando David começa a entender o real propósito do trabalho de Bev: "aliviar o sofrimento dos bichos da África."

E, assim, à medida que David vai se aproximando dos animais, de Bev e da cadela Katy, sua visão sobre os animais vai mudando. Há uma sintonia que ele não esperava sentir. Percebemos isso de forma clara quando ele vê dois carneiros amarrados perto da entrada da casa. Sabe que estão lá porque foram os escolhidos para serem servidos na festa que Petrus está preparando. Mais tarde, só lhe resta se distanciar do prato que lhe é servido.

Seus temores se mostram reais e a casa é invadida por três homens e sua filha violentada, numa passagem bem trágica. Ele mesmo é ferido, mas é Lucy quem fica com as piores cicatrizes. A partir daí, o relacionamento entre eles, que já não era tão próximo, se torna ainda mais conturbado, principalmente por conta de suas acusações contra o vizinho, que a filha insiste em defender. Ele acaba voltando para sua cidade de origem e lá descobre que perdeu o pouco que ainda lhe restava, sua casa também foi roubada. O que sobra: terminar o libreto sobre a vida do poeta inglês Lord Byron, suas paixões, culpas. Sua amante casada, a filha que abandonou. E durante o processo criativo, ao pesquisar a melodia perfeita para retratar a história do romancista, percebe nuances de suas próprias escolhas. A narrativa de Coetzee é deslumbrante. É como se estivéssemos na plateia acompanhando a ópera.

Outro animal que toca David é um dos cães do canil, que anda se arrastando. Nenhum visitante se interessou em adotá-lo e seu tempo está quase no fim. Às vezes, solta o cão do compartimento, deixando-o passear pelo quintal ou cochilar aos seus pés. O cão, por sua vez, adotou nosso protagonista, demonstrando grande afeição por ele. Encanta-se pelo som do banjo quando Lurie toca e canta, enquanto escreve o libreto.

"Começou a sentir um carinho particular por um dos cachorros do canil. É um jovem macho que tem um quarto traseiro murcho que arrasta pelo chão. Ele não sabe se nasceu assim. Nenhum visitante mostrou interesse em adotá-lo. Seu período de graça está quase no fim; logo, terá de ser submetido à agulha. Às vezes, quando está lendo ou escrevendo, solta-o do compartimento e deixa que passeie, com seu jeito grotesco, pelo quintal, ou que cochile aos seus pés. Não é “dele”, de jeito nenhum; teve o cuidado de não lhe dar um nome (embora Bev Shaw refira-se a ele como Driepoot, três patas); mesmo assim, ele é sensível à generosa afeição que o cachorro lhe dedica. De forma arbitraria, incondicional, foi adotado; o cachorro é capaz de morrer por sua causa, ele sabe disso. O animal fica fascinado com o som do banjo. Quando dedilha as cordas, o cachorro se senta, inclina a cabeça, escuta. Quando cantarola um verso de Teresa, e o cantarolar começa a se encher de sentimento (é como se a sua laringe engrossasse: dá para sentir o sangue pulsando na garganta), o cachorro estala os beiços e parece a ponto de cantar também, ou de uivar."

Aliás, os cachorros de um modo geral o comovem e serão, de algum modo, sua redenção. A fim de dar um fim mais digno a eles, ele irá levá-los para serem cremados no incinerador do hospital. Mas faz isso antes que outros sacos com lixos diversos cheguem, a fim de garantir um mínimo de dignidade aos animais. Ele se questiona por que está fazendo este trabalho. Seria por Bev, com quem acaba aliviando sua tensão sexual, pelos cachorros? Ou, no fim, por ele mesmo?

"Curioso que um homem tão egoísta como ele possa estar se oferecendo para servir a cachorros mortos. Deve haver alguma outra maneira, mais produtiva, de se dar par ao mundo, ou para uma visão do mundo. Podia, por exemplo, trabalhar mais horas na clínica." 

Ao aproximar-se dos animais, ele também se reaproxima de seus problemas. Acaba procurando o pai de Melanie. No jantar, lhe é servido frango. Mas ao contrário do carneiro, aqui não há menção à repulsa por ter um animal no prato, pelo contrário. Afinal, ele não os viu em vida. No fim, não há redenção. Há a surpresa de que nem mesmo a mais bela alma poderá salvar David. Ele já desistiu de tudo. Não há nada que o faça se distanciar do presente, tão cruel, tão subversivo.