Obra de estreia de João Guimarães Rosa, Sagarana traz contos que narram a vida no sertão mineiro. Inicialmente apresentado, em 1938, como Contos para um concurso literário, ele foi refinado para sua versão que hoje temos em mãos. Para tanto, foram excluídos três textos, houve revisões, lapidações e a publicação em 1946 com o neologismo Sagarana, marca que se tornaria uma das principais características do autor.
S A G A R A N A. Soma do germânico saga (conjunto de estórias) com o tupi rana (à maneira de). Ou seja, à maneira das estórias orais. E é exatamente assim que lemos os textos. Parece que estamos ouvindo alguém a nos contar o que se passa no pedaço de terra “que era seu”, como o autor mesmo comentou em carta endereçada ao jornalista e amigo próximo João Condé:
“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais.”
E para além do regional, da tradição de narrar causos, Sagarana, assim como outras obras de Guimarães Rosa, traz personagens animais que refletem, sentem e se relacionam com o mundo de modo próprio. Em alguns momentos, eles aparecem como personagens centrais, com escolhas e estratégias próprias. Em outros, são apenas montarias, puxam carros, compõem a paisagem. Há também os animais que aparecem apenas para serem apreciados. Os gaviões despertam admiração de um narrador, que os considera belos, porém, outro personagem rejeita essa visão estética. Para ele, beleza sem utilidade não tem valor. Até o urubu, que surge pairando no céu, é imediatamente associado à função que desempenha no ciclo da morte.
“Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, p’ra mim, seu doutor não leve a mal, p’ra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…”
Ou seja, o animal vale para o que nos serve.
Em Conversa de bois, Manuel Timborna afirma que os animais falam. Seu interlocutor escuta com desconfiança, mas decide ouvir a história que começa com uma irara que se ajeita para ver a passagem de um carro de bois. Rosa descreve seus movimentos, suas escolhas e a forma como calcula o melhor lugar para permanecer escondida. Depois aparecem os bois, todos nomeados: Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé. Eles sentem o calor, os insetos, o peso da carga e conversam entre si. Sabem que são bois de carro e distinguem-se daqueles que vivem apenas pastando, os bois em massa. Durante a viagem, acompanham também o menino Tiãozinho, que segue ao lado da junta levando o corpo do pai e lamentando ter que conviver com o carreteiro. Os bois observam tudo o que acontece ao redor e resolvem ajudar o garoto. Ficou para mim a questão: seriam os bois a metáfora para o peso que o garoto carrega?
“Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!
— Falam, sim senhor, falam!… — afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, — filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; — Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.
— Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje:… “Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!…” Mas, e os bois? Os bois também?…
— Ora, ora!… Esses é que são os mais!… Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu.”
Em O burrinho pedrês, Sete-de-Ouros é chamado para uma caravana por falta de outras montarias. Velho e experiente, já passou por muitos donos e vive agora numa espécie de aposentadoria. Durante a viagem, acompanhamos os vaqueiros conduzindo uma grande boiada até o embarque no trem. Os bois chegam em massa, vindos de diferentes regiões, formando uma multidão de cores, tamanhos e origens. A boiada pressente a tempestade que se aproxima. Mais tarde, durante a travessia, alguns cavalos empacam diante da água. Os vaqueiros decidem então seguir a decisão do burrinho: se ele entrar no rio, todos entram. Sete-de-Ouros observa o ambiente, avança e atravessa a enchente nadando. Muitos homens e cavalos morrem na travessia, mas o burrinho consegue alcançar terra firme levando dois vaqueiros consigo. De volta ao curral, procura o cocho, come milho e se acomoda para voltar ao precioso descanso.
Em Sarapalha, o cenário é outro. O conto acompanha Primo Ribeiro e Primo Argemiro vivendo isolados numa região devastada pela maleita. Ali permanece também o cão perdigueiro Jiló, que circula entre os dois homens e acompanha o cotidiano daquele lugar marcado pela doença e pela solidão. No final, o animal terá que decidir com qual dos donos - a posse permeia as histórias - ficará.
Já em Minha gente, um rapaz da cidade visita a fazenda do tio e reencontra a prima por quem se interessa. A narrativa acompanha deslocamentos pela paisagem rural, sempre a cavalo. Durante o trajeto, aparecem diversos animais: vacas, zebus, bois, gaviões, carcarás, anus e urubus. Alguns são descritos pela aparência, outros pela utilidade. O cavalo, porém, permanece quase sempre apenas como montaria, acompanhando os personagens ao longo do caminho.
Em São Marcos, acompanhamos Izé, que vive em um povoado onde a feitiçaria faz parte do cotidiano. Embora declare não acreditar nessas práticas, ele passa constantemente pela casa de João Mangolô e zomba do feiticeiro. Em seus passeios pelo mato, dedica-se a observar a natureza, as cores, os ruídos, os movimentos mínimos. Certo dia, subitamente, fica cego. Desorientado, acaba recorrendo justamente à reza de São Marcos, que antes tratava com ironia. Ao pronunciá-la, recupera a visão e descobre que Mangolô havia “amarrado” simbolicamente seus olhos.
Corpo Fechado mostra um local conhecido por ter vários valentões. Manuel Fulô é um deles, famoso por suas histórias e trapaças, vê-se ameaçado por Targino, o novo chefe local, que anuncia publicamente sua intenção de dormir com sua noiva antes do casamento. Manuel recorre, então, a um feiticeiro que lhe promete “fechar o corpo” contra qualquer agressão. Como troca, exige sua querida mula. E eis que dá certo, e ele vence o adversário. A narrativa mistura superstição, disputa de poder masculino, desvaloriza a mulher e o animal. Tanto a mula que foi moeda de troca, como um rato e gato que também aparecem no conto, presos e forçados a fazerem amizade pelo próprio Fulô.
Em A hora e vez de Augusto Matraga, acompanhamos a trajetória de Nhô Augusto, homem violento e temido, que perde prestígio político e familiar. Espancado e dado como morto após tentar reagir à traição e à perda de seus aliados, é salvo por um casal de negros e passa por um período de isolamento e penitência. Trabalha, reza, busca redenção. Anos depois, ao encontrar o jagunço Joãozinho Bem-Bem prestes a executar uma família por vingança, intervém.
A volta do marido pródigo nos mostra Lalino Salãthiel, que nunca gostou muito de trabalhar e que sempre sonhou com a oportunidade de sair daquela cidade pequena onde morava e ir para um lugar maior. Surge, então, a chance de ir para o Rio de Janeiro. Ele parte, deixa a esposa, Maria Rita, na cidade, e na capital cria para si uma nova história, uma narrativa de sucesso que talvez não corresponda exatamente aos fatos. Vive a cidade grande, aproveita o que pode, constrói uma imagem de si mesmo. Mas acaba voltando. E, diferentemente do filho pródigo bíblico, não é recebido com festa. Maria Rita já está casada com outro homem, um espanhol. É nesse momento que surge nele a vontade de recuperar o que perdeu. Resta saber se o desejo é amor, orgulho ferido ou simples incapacidade de aceitar que foi substituído.
Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.
A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.
Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.
A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.


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