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segunda-feira, 23 de junho de 2014

te pego na saída

Este é o segundo volume das memórias de Fabrício Carpinejar. Mais que sua autobiografia, é o retrato da infância de todos aqueles que hoje têm entre 30 e 45 anos. Aliás, acredito que esta seja a proposta do autor. O texto é bem conciso e não segue a linha tempo. São as lembranças que ditam a ordem em que os capítulos estão dispostos. Destaco alguns episódios de ‘Te pego na saída’. Um deles é a doce narrativa sob o título ‘Encadernado pela imaginação’. Ao contrário das outras crianças da escola, ele não tinha cadernos de capa dura. Os seus eram de brochura, cuidadosamente encapados pela mãe, durante a madrugada, na véspera do início das aulas. Envergonhado, cobria-os com a mão para que os demais não os vissem. O que poderia ser motivo de chacota, hoje é poesia. E como não deve ter se sentido a criança que cria grande expectativa em torno de sua primeira festa de aniversário para, no fim, ninguém aparecer? O episódio me remeteu ao protagonista de 'O oceano no fim do caminho', de Neil Gaiman. Outro ponto com o qual me identifiquei foi a história do abacateiro, que morre para dar lugar ao novo quarto da casa. Só quem já teve uma árvore vai entender. Quase fechando suas lembranças, Carpinejar fala sobre os irmãos caçulas: os mais apegados à família e os que estão sempre ali, prontos a ajudar. Talvez por minha irmã mais nova ser assim, fiquei contagiada pelo o que foi colocado.  

Na resenha que escrevi sobre o primeiro livro da série, ‘Não atravesso a rua sozinho’, dou mais detalhes sobre essa coletânea, muito bem chamada de 'Vida em pedaços'. Imperdível para os nostálgicos de plantão.

sábado, 12 de abril de 2014

não atravesso a rua sozinho

Este livro, do gaúcho Fabrício Carpinejar, além de encantar pela boa sacada do título e pela delicadeza das ilustrações, feitas por Eloar Guazzelli, nos remete aos bons e simples momentos do passado. 

Já no início de "Não atravesso a rua sozinho" (2013), somos guiados a um passeio pela infância. Quando digo nós, refiro-me a todos que foram crianças lá na primeira metade da década de oitenta. Que tiveram uma televisão preto e branco. Que para chamar um amigo tinham que ir até a casa dele e bater palmas. Que brincavam na rua até tarde, sem que os pais ficassem preocupados. Usavam orelhões. Jogavam futebol de botão. Moravam em casas com muros baixos. Deixavam-se ser seguidos pelos animais de rua, que quase sempre eram adotados. Essas e outras lembranças servem de tempero para o autor contar um pouco sobre seus primeiros anos de vida. Seus traumas, o bullying que sofria na época em que isso era apenas gozação da molecada, o primeiro amor, a relação com os pais, os cheiros e manias da avó. 

Tudo relatado em frases curtas nos 25 tópicos ou temas que o marcaram. Se passeia pela ficção na sua autobiografia concisa, tanto faz. O que importa é a doce nostalgia que nos proporciona. Lembrou-me um pouco as divagações de "O sal da vida" (2012), de Françoise Héritier, que narra tudo o que faz sua vida valer a pena. Quem também escreveu sobre sua infância foi José Saramago, em "As pequenas memórias", livro carregado de saudade. Aliás, Carpinejar faz um comentário bem interessante sobre o abismo que separa os que nasceram nos anos 90 dos que são das décadas de 50 a 80. E é verdade. As vivências terão sido praticamente as mesmas para quem tem 40 ou 60 anos. O que já não acontece no encontro entre pessoas de 25 e 40. "São naturais de países longínquos da memória." Leiam!

"Ser o que não sou é também continuar sendo. Desejo ser mais boato do que notícia. O boato exagera, a notícia omite. Aquilo que uma mulher ou um homem imaginam também existiu. O que imaginamos também é biografia. Se eu não confesso um amor, não significa que ele não ocorreu, porque ele me fez existir."