sábado, 1 de novembro de 2025

o burnout


"Acho que, quanto mais se rotula alguma coisa de “feliz”, mais se suga a felicidade dessa coisa."
Imagina uma pessoa correndo de uma freira no meio da rua e dando de cara com um muro, acordando apenas no hospital. Do que ela poderia estar fugindo? Essa é Sasha, que, no auge do desespero, foi buscar abrigo no convento em frente do escritório em que trabalha. Na verdade, é do trabalho que ela está correndo. Ela não aguenta mais a pressão da rotina, não aguenta mais todos buscando por ela quando há problemas, não aguenta mais não conseguir dizer não e seguir resolvendo tudo o que aparece. Pior: NÃO AGUENTA MAIS A MOÇA DE RECURSOS HUMANOS DIZENDO QUE ELES PRECISAM SER FELIZES. ALIÁS, NÃO É MAIS RH, É DIRETORIA DE EMPODERAMENTO E BEM-ESTAR. E essa foi a gota d'água.

"— Tem um minuto? O meu corpo inteiro enrijece. Um minuto? Um minuto? Não. Eu não tenho um minuto. Estou com a camisa toda suada. Com os dedos pegando fogo. Tenho um milhão de outros e-mails urgentes depois desse para responder, preciso trabalhar, não tenho um minuto… Mas Joanne, a nossa diretora de empoderamento e bem-estar, está vindo na minha direção."

Ela surta, e sua recuperação é tema de O burnout, de Sophie Kinsella, que morreu recentemente. Dela eu já li Minha vida não tão perfeita e o hilário Você consegue guardar um segredo?, que me rendeu boas gargalhadas.

Voltando à Sasha, seguindo o conselho da mãe, ela vai para a praia, mesmo sendo inverno inglês, onde costumava passar as férias até a adolescência. Acaba no hotel chique do passado, onde sempre quis se hospedar, mas que agora está caindo aos pedaços. Os funcionários, contudo, estão sempre dispostos a agradar, mesmo diante da decadência do local.

Lá ela conhece Finn, e é hilária a forma como eles se relacionam no hotel/pousada ou seja lá o que for. O gerente e a recepcionista os colocam em pontos totalmente opostos do restaurante ao perceberem que ambos querem ficar sozinhos e parecem não se entender. Mas, aos poucos, Sasha e Finn descobrem que estão lá pelo mesmo motivo: o esgotamento mental.

"Não são os e-mails que me causam pânico. Nem os e-mails de cobrança. ("Só estou escrevendo para saber se você recebeu meu último e-mail, já que não tive resposta…") São os e-mails de "cobrança da cobrança". Aqueles que chegam com dois pontos de exclamação vermelhos. Os irritados — "Conforme mencionado nos DOIS e-mails anteriores…" — ou então os falsos e sarcásticos — "Você por acaso caiu num poço ou aconteceu alguma tragédia do tipo na sua vida???" São esses que fazem o meu coração disparar e a pálpebra do meu olho esquerdo tremer."

Superengraçado também o aplicativo que Sasha usa para vencer esta fase. Os vinte passos para a felicidade parecem piorar tudo. Mas, no fim, aquele tempo é tudo o que ela precisava. 

Sophie Kinsella utiliza o humor característico de sua escrita para tratar de um tema que, infelizmente, se tornou cada vez mais comum: o adoecimento mental provocado pela cultura da produtividade. Temos que produzir, empreender, ser criativos. Ter mais likes, mais seguidores. Quando, enfim, teremos tempo para apenas ficar à toa, como disse minha filha, estirada no sofá? Talvez seja exatamente isso que deixamos pelo caminho, na ânsia de dar conta de tudo.

"Estou tão cansada. Exausta mesmo. Me sinto muito pesada e derrotada e meio que vazia. As ondas e as gaivotas se misturam numa cacofonia de sons que o meu cérebro não consegue distinguir. Não estou tão confortável, mas também não tenho forças para ajeitar o corpo. Eles vão continuar do jeito que estão. Se der cãibra, que seja. Se o mar me levar, que leve. Fico ali mais ou menos uma hora, não exatamente dormindo, mas incapaz de me mexer. Depois de um tempo, sinto lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não consigo nem levantar a mão para secá-las. Não posso fazer nada. Estou sem energia, sem capacidade de tomar decisões. Sem nada."