domingo, 5 de outubro de 2025

como tigres na neve


"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."

Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.

Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.

O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."

"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."

Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.

Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.

Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.

A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.

"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."

sábado, 4 de outubro de 2025

herdeiras do mar



"Há coisas neste mundo que você nunca deveria precisar saber, e eu vou te proteger delas pelo tempo que puder. Esse é o meu dever como mãe."

Hana tinha apenas dezesseis anos quando foi presa pelo exército japonês e levada para se tornar uma mulher de consolo, eufemismo para mulheres e meninas escravizadas sexualmente para atender aos desejos dos militares. Ela nunca havia conhecido uma Coreia livre, pois ainda não tinha nascido quando o Japão anexou seu país, em 1910.

Hana e a mãe eram haenyeo. O trabalho delas consiste em mergulhar para encontrar principalmente abalones, moluscos marinhos considerados uma iguaria, mas também algas e outros frutos do mar. Elas alcançam grandes profundidades sem o auxílio de equipamentos de respiração. As haenyeo, cujo nome significa "mulheres do mar", são as tradicionais mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Ou seja, Herdeiras do mar, título do livro de Mary Lynn Bracht, escritora de ascendência coreana.

Quando tinha sete anos, Hana ganhou uma irmã, Emi. Apesar das dificuldades, as duas viviam relativamente felizes com os pais, dentro das possibilidades daquele período. O pai era pescador, enquanto Hana e a mãe trabalhavam no mar.

Tudo muda no dia em que soldados japoneses se aproximam do local onde elas mergulhavam. Emi, ainda pequena demais para acompanhá-las, estava na praia. Para salvar a irmã, Hana acaba se entregando e é levada pelos militares.

A cena marca profundamente Emi, que vê a irmã desaparecer e nunca se perdoa. Sente-se culpada por Hana ter sido levada em seu lugar. Mesmo depois de se casar e ter filhos, a mágoa nunca a abandona. Ainda assim, continua alimentando a esperança de reencontrar a irmã.

Anos mais tarde, está sempre de prontidão para acompanhar a Manifestação de Quarta-feira, realizada às quartas-feiras, ao meio-dia, em frente à antiga Embaixada do Japão, em Seul. O movimento começou em 8 de janeiro de 1992, reivindicando do governo japonês o reconhecimento dos crimes cometidos contra as mulheres submetidas à escravidão sexual durante a guerra.

Hana, por sua vez, é escravizada sexualmente e sofre todo tipo de violência. Mesmo quando surge uma pequena possibilidade de voltar para casa, prefere não fazê-lo. Ela teme colocar a família em risco e, principalmente, que os pais tenham de suportar o julgamento de uma sociedade que poderia condená-los por terem uma filha considerada "impura". Vale destacar também o enorme esforço que eles fazem para resgatá-la, algo de cortar o coração.

Em suas notas, Mary Lynn Bracht afirma que se acredita que entre 50 mil e 200 mil coreanas tenham sido sequestradas e "usadas" pelos militares japoneses durante a ocupação da Coreia. Como a cultura privilegiava a pureza sexual feminina, muitas das sobreviventes não conseguiram contar suas histórias. Somente muitos anos depois algumas delas romperam o silêncio.

Apenas em 2015, a Coreia do Sul e o Japão chegaram a um possível acordo, mas isso implicava na retirada de uma estátua em frente à embaixada japonesa que simbolizava o que havia acontecido. A proposta não foi aceita, principalmente pelas halmoni, como ficaram conhecidas as sobreviventes, agora idosas.

Esse monumento é a Estátua da Paz, instalada em 2011, uma escultura de bronze que representa uma jovem coreana vestida com o hanbok, traje tradicional do país, sentada em uma cadeira. Ela aparece de forma bastante simbólica no romance. Nele, Mary Lynn Bracht imagina que a jovem retratada possa ser Hana, personagem criada para dar voz às milhares de mulheres que não tiveram a oportunidade de contar sua própria história.


De acordo com o Korea Times, em março de 2026, morreu mais uma vítima coreana da escravidão sexual praticada pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Com isso, o número de sobreviventes oficialmente registradas pelo governo da Coreia do Sul caiu para apenas cinco. Das 240 mulheres reconhecidas pelo país, 235 já haviam morrido. As cinco sobreviventes tinham, naquele momento, idade média de 95 anos.

Herdeiras do mar foi mais uma leitura que fiz sobre as consequências da ocupação japonesa e sobre a ideia de superioridade de um povo que considera os demais inferiores e, por isso, acredita poder transformá-los em objetos para seu próprio uso. A História está repleta disso. Pachinko também mostra essa violência de forma muito dura.

"Na ilha de Hana, o mergulho é tarefa para as mulheres. O corpo delas se adapta às profundezas geladas do oceano melhor que o dos homens. Elas conseguem prender a respiração por mais tempo, nadar mais fundo e manter a temperatura corporal mais alta, portanto há séculos as mulheres de Jeju têm gozado de uma rara independência."