"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."
Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.
Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.
O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."
"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."
Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.
Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.
Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.
A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.
"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."


