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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

natal com neve



“Abro as cortinas para uma manhã de Natal típica de Cotswold: coberta de neve.”


Eu queria um livro para o Natal. Algo que tivesse muita neve. Daí encontrei “Natal com neve: um romance inglês natalino” na liquidação do Kindle (rsrs). Parecia perfeito. Eu gosto de chick-lits e não escondo. São leituras divertidas que nos fazem esquecer, por algumas horas, um dia ruim, por exemplo. Mas este, além de não me transportar para um natal com neve, também não me fez rir.

Vou resumir: Sadie perdeu o emprego pouco antes do Natal. Com o humor extremamente abalado, arruma uma briga com um cara na loja em que estava comprando o presente para a sobrinha. Para piorar, a irmã vai se casar bem no Natal, o que ela acha extremamente inconveniente. Mas parte para a festa. Adivinhem quem é o padrinho do noivo??? Rá! É isso. Há encontros, desencontros e tudo dá certo. Fim. Nem o cenário nas montanhas Cotswolds na Inglaterra salvou este romance repleto de trechos extremamente melosos. Uma pena.

domingo, 27 de dezembro de 2020

big tech: a ascensão dos dados e a morte da política






"Quem domina a tecnologia mais avançada
também domina o mundo".


"Big Tech, a ascensão dos dados e a morte da política" traz uma coletânea de textos escritos, desde 2013, pelo pesquisador bielorrusso Evgeny Morozov. Em todos, fica a mensagem: cuidado com o que os algoritmos podem fazer com sua liberdade.

O autor, que é crítico feroz da forma com que se dá o progresso tecnológico, aponta que a hegemonia das empresas que nasceram no Vale do Silício podem custar a nossa democracia. Sob a falsa promessa de garantir serviços mais baratos e acessíveis, Google, Microsoft, Facebook, Amazon e Apple representam o que o neoliberalismo tem de mais perverso: a competição acima de tudo. Para ele, é o "triunfo da ideologia neoliberal subsequente à Guerra Fria que suprimiu com êxito os aspectos não econômicos da nossa existência social, fazendo com que a identidade de consumidor sobrepujasse a de cidadão." E como dizer não para estratégias que nos oferecem um mundo melhor e mais colaborativo? Diante do cenário que nos é apresentado, fica fácil conquistar adeptos, amantes da marca e pessoas dispostas a fornecer qualquer informação em troca de curtidas, afinal, a causa é nobre e os ganhos parecem ser inúmeros. O que não percebemos é que estamos, sim, sendo manipulados, agindo exatamente de acordo com a expectativas desses impérios. Adorno, um dos maiores pensadores da indústria cultural, há décadas já dizia que somos meros coadjuvantes de um filme que tem como ator principal o lucro, que sob o pretexto de que somos universais, dá a errônea impressão de que as pessoas identificam-se com os produtos culturais. Diferentemente da televisão e do cinema, alvos de suas críticas, agora esse filme é viralizado e em questões de segundo impacta milhares de espectadores, criando uma rede na qual tudo é possível, desde que você abra mão da sua privacidade.

"O mercado está dividido entre cinco grandes empresas de tecnologia: Apple, Google, Facebook, Microsoft e Amazon. E muitas startups têm uma única estratégia de saída e um único modelo de negócio: serem adquiridas por uma dessas grandes empresas. Com isso, elas não precisam se preocupar com a viabilidade de seus modelos de negócio, com a geração de receitas e com a lucratividade: basta conceberem o serviço de tal modo que este seja complementar às estratégias de expansão de gigantes."

Para exemplificar sua afirmação ele cita o Uber, que só nasceu graças ao afrouxamento de leis trabalhistas. Ou o Airbnb, que não existiria sem a política econômica que prevaleceu por décadas incentivando as pessoas a verem imóveis como ativos lucrativos.

"As plataformas digitais ganham dinheiro com a promessa de converter os direitos públicos duramente conquistados – o direito à liberdade de expressão, à segurança, ao transporte – em serviços eficientes, proporcionados pelo setor privado, mas desprovidos de garantias."

Outro grande (falso) atrativo das tecnologias digitais é a construção de uma grande aldeia global, na qual todos estariam conectados e livres para se comunicar sem restrições. O que há, porém, é outro domínio feudal, controlado pelas grandes empresas de tecnologias. Temos e-mail gratuito, mas em troca deixamos disponíveis todos os nossos dados, páginas navegadas pela internet, conexões que fazemos e assuntos de interesse. Tudo isso será convertido em análises e sugestões que nos levarão a comprar mais e mais. É ilusão pensarmos que as intenções são boas e que o objetivo é propiciar uma sociedade na qual todos possam ter os mesmos direitos. Na verdade, cada sensor disponível (nos carros, nos celulares, nos relógios, nos óculos, na geladeira e até na lâmpada da nossa sala) é uma forma de controle. Infelizmente, não nos damos contas disso, pois estamos presos a estes serviços. Eu mesma, enquanto escrevo sobre ensaios que criticam a tecnologia Google, estou aqui utilizando seus recursos, sendo monitorada e recebendo anúncios em minha caixa de e-mail e timeline das redes sociais. Tonta que sou, acabo achando que tudo é para facilitar minha vida. Em vez de pensar no que vou comer no jantar, tenho já na minha frente a opção que, teoricamente, mais me agradaria. É justamente esta submissão que esperam de nós. A igualdade desaparece diante desse novo sistema hierárquico camuflado em expressões como 'redes' e 'reputação'. Quer algo mais neoliberalista?

"O fato de esse novo sistema emergente ser pós-capitalista não significa que não seja também neofeudal, com as grandes empresas de tecnologia desempenhando o papel de novos senhores que controlam quase todos os aspectos de nossa existência e definem os termos do debate político e social mais abrangente."

A distração que nos engana

E aqui é importante destacar outro ponto levantado pelo pesquisador bielorrusso. Muito se fala sobre como as redes sociais nos deixam dispersos e contribuem para sermos, a cada dia, mais preguiçosos. Pode até ser verdade, mas o argumento dele é que a distração que a internet nos provoca é rigorosamente calculada. A cada clique que damos fornecemos informações que vão nos levar a páginas e anúncios que nos amarram até que a compra seja feita. E quando isso acontecer, outros estímulos serão feitos, até que teremos uma fatura do cartão de crédito muito maior que nossos ganhos mensais. Quem assistiu ao documentário "Dilemas da Rede", produzido pela Netflix (ops, outra grande da tecnologia que sabe usar muito bem os dados a seu favor) consegue visualizar como isso acontece atrás das telas. Lá, eles mostram os "engenheiros" trazendo de volta ao mundo virtual um garoto que, num desafio feito pela família, se propôs a ficar desconectado. Bastou uma mensagem extremamente aderente ao que ele queria para que se agarrasse novamente ao aparelho celular. E, desta vez, com muito mais afinco.

"Essa fadiga pode ser explicada como uma consequência natural dos modelos extrativistas de dados adotados pelos provedores das plataformas: são eles que projetaram os sistemas para nos distrair ao máximo, pois é assim que maximizam a quantidade de vezes que clicamos nos sites – e, portanto, fornecemos nossos dados. Eles continuam escavando a nossa psique tal como as empresas de petróleo escavam o solo; e os dados seguem jorrando de nossos reservatórios emocionais."

Claro que isso não é culpa da tecnologia em si, mas do sistema no qual estamos inseridos. Aqui vale resgatar Pierre Dardot e Christian Laval que falam, em “A nova razão do mundo”, sobre a evolução e as transformações que fizeram com que o neoliberalismo se tornasse, mais que um sistema político e econômico, uma racionalidade que permeia nosso modo de viver. Para eles, “os neoliberais opõem-se a qualquer ação que entrave o jogo da concorrência entre interesses privados”. A lógica aplicada é a da concorrência a qualquer preço. Não importa o que seja feito, o importante é sempre sair na frente, é ser um empreendedor.

"O verdadeiro inimigo não é a tecnologia, mas o atual regime político e econômico – uma combinação selvagem do complexo militar-industrial e dos descontrolados setores banqueiro e publicitário –, que recorre às tecnologias mais recentes para alcançar seus horrendos objetivos (mesmo que lucrativos e eventualmente agradáveis)."

Para Morozov, os cidadãos só terão realmente a soberania sobre a tecnologia quando reconquistarem a soberania política e econômica. Quando deixarem de ser marionetes no jogo do ganha a ganha. O que temos hoje é um ambiente tóxico que não admite vida fora do mercado. Reinam o individualismo e o consumismo.

"A tese deste livro é simples: hoje, toda discussão de tecnologia implica sancionar, muitas vezes involuntariamente, alguns dos aspectos mais perversos da ideologia neoliberal."

As promessas feitas pelas corporações do Vale do Silício, como a missão do Google, de "organizar as informações do mundo para que sejam universalmente acessíveis e úteis para todos", só valem diante desta racionalidade que, acima de tudo, pede menos intervenção do Estado do bem-estar social em prol de um comércio totalmente desregulado, ou melhor, de um comércio baseado em dados e reputação, que passa a ser a lei vigente dentro dessas plataformas.

"A nossa reputação passa a refletir essas mudanças imediatamente. As leis, por outro lado, só são alteradas depois de muito tempo."

Para o autor, a missão do Google deveria trazer sua real intenção, que é “monetizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente inacessível e lucrativa”.

"Continuamos a considerar os dados como se fossem uma mercadoria mágica e especial que, sozinha, poderia defender-se contra qualquer gênio maligno que ousasse explorá-la."


Por uma causa social

A tecnologia poderia perfeitamente ser utilizada para diminuir as desigualdades sociais, erradicar a pobreza, acabar com a fome e contribuir para a preservação do meio ambiente. Mas essas questões trazem lucro para essas empresas? Se sim, certamente, serão incluídas no leilão que ocorre a cada navegação que fazemos pelo mundo virtual. Gostei muito da forma com que ele ilustra isso, o que vai ao encontro do meu projeto de doutorado, a defesa dos animais. Imagine que alguém, por meio de reportagens, artigos e outros materiais oferecidos por defensores dos animais, resolva que o melhor caminho é o vegetarianismo. Logo, passará a fazer buscas (no Google) para encontrar pratos, restaurantes, dicas nutricionais e tudo mais para embasar sua nova escolha. E é aí que começam os lances. De um lado, os protetores dos animais. Do outro, a forte indústria da carne. Os algoritmos entram em ação e vão analisando todo o histórico (repleto de vieses) dessa pessoa que, por acaso, já frequentou churrascarias, já teve confraternizações com amigos no qual havia petiscos de origem animal. Por outro lado, ela já esteve diante de imagens de animais sendo abatidos e de estatísticas sobre os malefícios da gordura animal. Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido para a indústria da carne. Automaticamente, feeds com esses momentos felizes ao lado de bifes começam a aparecer e adeus vegetarianismo.

"Suponha que você está pensando em virar vegetariano. Então resolve acessar o recurso de Graph Search no Facebook a fim de saber quais são os restaurantes vegetarianos favoritos dos seus amigos que moram nas proximidades. O Facebook entende que você está considerando tomar uma decisão importante que vai afetar diversas indústrias: uma ótima notícia para os produtores de tofu, ainda que péssima para a seção de carnes do supermercado. O Facebook seria tolo se não lucrasse com esse conhecimento, por isso, em tempo real, ele organiza um leilão de anúncios para verificar se a indústria da carne tem mais interesse em você do que a de tofu. É nesse ponto que o seu destino lhe escapa das mãos. Parece besteira até que você entra no supermercado e recebe no celular a notificação de que a seção de carnes está oferecendo descontos de 20%. No dia seguinte, ao passar pela churrascaria local, o celular vibra de novo, com outra oferta de desconto. Entre aqui, aproveite esta oferta! Após uma semana de deliberação – e muitas promoções para consumo de carne –, você decide que talvez seja melhor não virar vegetariano. Caso encerrado."

Venceu quem pagou mais. Lógica neoliberalista. Mas vamos supor que o tofu tivesse mais força, será que teríamos mais vegetarianos no mundo? Lá em 1948, George Orwell escreveu "1984", que mostra uma sociedade monitorada pelo Grande Irmão. De algum modo, ele consegue mudar, conforme sua vontade, até os motivos de uma manifestação nas ruas. Estão todos pedindo churrasco? Agora para tudo porque quero tofu. Numa passe de mágica, os cartazes são mudados, a história reescrita e o tofu passa a ser o protagonista dos pleitos. Distopia? Talvez naquela época. Hoje, essa é a nossa realidade virtual e real. Porque está cada vez mais difícil separar uma da outra.

Voltando ao vegetarianismo, fica fácil aceitar esses argumentos quando eu mesma já presenciei campanhas contra o consumo de carne serem derrubadas por pecuaristas com poder, dinheiro e influências para rebaixar quem quer seja. E, neste sentido, torna-se ainda mais urgente tratar os reais motivos que nos levam ao consumismo desenfreado, provocação feita por Morozov. Enquanto perdurar a nossa inércia e utopismo digital, não vai interessar a ninguém do Vale do Silício criar aplicativos para combater a pobreza ou qualquer outra causa social. Para ele, o Facebook, que tem a proposta de levar internet para todos, está tão interessado na inclusão digital quanto os agiotas se interessam para inclusão financeira, ou seja, apenas pelo dinheiro.

A inovação, religião dos tempos atuais, só pode ser realmente aceita se vier com muito, mas muito lucro. E isso vai se tornando mais grave à medida que este controle invade a educação e a saúde. Na Inglaterra, um acordo do sistema nacional de saúde britânico (NHS) com a Alphabet permite que a inteligência artificial monitore as pessoas, fazendo com que sua contribuição seja maior ou menor de acordo com o seu estilo de vida. A questão é que ao impor essa condição, a IA atua apenas nos efeitos do problema e não na sua causa, neste caso específico nos custos da saúde e não no que leva as pessoas a não se alimentarem corretamente, por exemplo. Com isso, elas podem ser penalizadas sem que a causa raiz seja identificada. Este comportamento pode implicar na dissolução do estado de bem-estar. Enquanto nossas informações são restritas aos governos, ainda temos esperança de que possam estar seguras. À medida que isso é privatizado, passa a valer o quanto se ganha com esses dados, e questões éticas são postas de lado diante da tão falada emancipação que a internet pode proporcionar. Aliás, o objetivo é sempre atuar nos efeitos. Fazendo uma analogia boba: se estiver muito barulho, é mais fácil (e lucrativo) oferecer protetores auriculares, e não se aprofundar no que está por trás dos ruídos ensurdecedores.

"Uma política preocupada em saber as causas antes de corrigir os efeitos pode eventualmente ser uma política de exageros emotivos, levando ao nacionalismo ou a coisas piores. Mesmo assim, ela nos serviu bem até agora, apesar das perdas que sofremos em decorrência de sua ineficiência. A tentação da política baseada na IA é evidente: é barata, limpa e supostamente pós-ideológica."

"No final, acabaremos todos negociando com derivativos que associam o direito de receber determinados serviços médicos em função do nosso comportamento físico. É assim que o condicionamento físico e a saúde corporal vão aos poucos se subordinando ao domínio do dinheiro e das finanças."


"Essa privatização dos cuidados médicos estaria bem alinhada com as tendências gerais de privatização e da ampliação da previdência corporativa (à custa da previdência social) que têm se observado em diversas economias desenvolvidas de ambos os lados do Atlântico."

Ruim, pero no mucho?

Obviamente, nem tudo são pedras. A tecnologia trouxe, sim, inúmeros ganhos. Ela nos mostrou que é possível viver com menos, nos aproximou de pessoas com quem podemos ter afinidades e, consequentemente, iniciar novos negócios, contudo, a crítica é que tudo isso torna-se irrelevante perto do que podemos perder caso o conto de fadas apresentado persista desta forma.

"O conto de fadas do empoderamento, difundido pelo Vale do Silício, não passa disso: um conto de fadas. Ele oculta o fato de que a informação dita gratuita disponível no Google não é igualmente útil para um universitário desempregado ou para um fundo de hedge dissimulado com acesso a tecnologias avançadas que transformam dados em informações financeiras lucrativas."

Em nome do estilo de vida que nos é apresentado como desculpa para aceitarmos as vantagens dessas empresas (compartilhamento de carros, por exemplo), deixamos de perceber a manipulação a qual somos submetidos, pois independentemente de nossas "escolhas", os mais ricos continuarão com seus iates, limusines e jatos particulares. E o mundo continuará a ser poluído pelas grandes indústrias.

Daí chegamos à resiliência, palavra da moda que todas as empresas adoram pregar. Você precisa ser resiliente para lidar com as adversidades, aceitar as mudanças e se adaptar constantemente aos novos cenários. Certo? Errado! Esta foi a forma com que o mundo corporativo encontrou para que o indivíduo não incomode a evolução dos negócios, calando-se e aceitando tudo o que é imposto, o que inclui deixar sua vida totalmente aberta para quem quiser manobrá-la.

"Esse crescente culto da resiliência mascara um reconhecimento tácito de que nenhum projeto coletivo poderia sequer aspirar a controlar as profusas ameaças à existência humana – a única expectativa ao nosso alcance é a de reunirmos condições para enfrentar cada uma dessas ameaças individualmente. “Quando adotam o discurso da resiliência”, comentam Reid e Evans, “os formuladores de políticas o fazem com objetivos explícitos de impedir que os seres humanos concebam o perigo como um fenômeno do qual deveriam se libertar e até mesmo, pelo contrário, o ditam como aquilo a que agora devem se expor”.


A democracia está se afundando nas fake news

Outra ameaça oriunda das tecnologias digitais são as fake news, que podem colocar em xeque a própria democracia. De certo modo, sempre existiram. O que temos hoje é sua rápida proliferação com total apoio das grandes empresas de tecnologia. A lógica é simples, quanto mais cliques, mais monetização. E sabemos que o ódio é muito mais atrativo que o amor, atraindo mais visualizações.

Evgeny Morozov escreveu um prefácio especial para a compilação de seus textos aqui no Brasil, na qual menciona a nossa eleição presidencial de 2018 e como as tecnologias tiveram um papel decisivo no resultado. Robôs, hoje, conseguem disparar mensagens criteriosamente escolhidas para todos os públicos.

E que mal tem em usar dados para ganhar um dinheiro? Aparentemente, se estamos de acordo, nenhum. Porém, temos realmente consciência de tudo o que acontece ao fazermos isso?

"O diabo não usa dados. É muito mais difícil monitorar as injustiças sociais do que a vida cotidiana dos indivíduos submetidos a elas."

Inclusive, as fake news podem ser a superfície de um problema ainda mais grave. Servem para nos distrair das coisas que realmente nos controlam, como os ricos fundos financeiros que incentivam todo esse esquema de dados.

"Será a crise das fake news a causa do colapso da democracia? Ou seria ela só a consequência de um mal-estar mais profundo, estrutural, que está em desenvolvimento há muito tempo? Como é impossível negar a existência de uma crise, a pergunta que toda democracia madura deveria estar se fazendo é se sua causa são mesmo as fake news ou é provocada por algo completamente diferente. Nossas elites não querem saber. Sua narrativa sobre as fake news é, ela mesma, fake: uma explicação superficial para um problema complexo e sistemático, cuja existência elas ainda se recusam a reconhecer."

E assim vamos seguindo dentro deste universo paralelo, que é o virtual. Lá, somos conduzidos de um lado para outro conforme os lucros. Para nós, é vendida a ideia de que somos livres para navegar, que temos diante de nós todo o conhecimento do mundo a apenas alguns cliques e que ganhamos tempo por ter algoritmos que fazem escolhas por nós ou sensores que nos ajudam a iluminar os ambientes escuros sem que tenhamos o esforço de apertar um interruptor. Contudo, somos, na verdade, Truman Burbank, protagonista do filme de 1998, que tinha toda a sua vida monitorada. Aliás, a vida que achava real nada mais era que uma farsa montada para entreter os espectadores de uma rede nacional de TV. No nosso caso, somos ainda menos. Ao invés de protagonistas desse show, somos coadjuvantes de um sistema que espera os nossos cliques para se engrandecer. Nos deixando apenas com a farsa impressão de que temos alguma importância. Somos o último homem narrado por Nietzsche em "Assim falou Zaratustra".

"Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem não dará mais à luz nenhuma estrela. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, que nem sequer saberá mais desprezar-se a si mesmo.”

Por uma falsa sensação de comodidade e conforto, entregamos todos os nossos dados sem hesitar. Sequer pensamos que eles podem ter algum valor e o quanto que eles representam para a ascensão dessas empresas. Importante frisar que este crescimento deve-se, sobretudo, à falta de intervenção do governo e à precarização do trabalho. Vejam o Uber e o Ifood, que pouco oferecem aos milhares de motoristas que fazem seus negócios girarem. Sem os custos que poderiam garantir mais segurança, direitos trabalhistas adquiridos a muito custo, voltamos à época em que o extrativismo de petróleo e, indo um pouco mais além, do carvão, proporcionavam à população: estou te dando um emprego e um salário, então, fique satisfeito. Não fosse isso, você estaria passando fome. A diferença aqui é que, ao contrário de outros extrativismos da história, desta vez temos um storytelling. Uma narrativa muito bem contada, embasada em serviços gratuitos, em acesso a tudo o que quisermos (desde que haja um cartão de crédito válido, claro) e melodia constante de que estamos contribuindo para um mundo melhor. Mas, voltando ao extrativismo, continuamos tendo grande concentração de riquezas. Os mais pobres continuam à margem da sociedade sendo alvos de discriminação, mesmo quando são atores essenciais, por exemplo, na entrega dos produtos adquiridos? Enquanto isso se arrastar, Morozov estará certo.

"As empresas do Vale do Silício estão construindo o que chamo de “cerca invisível de arame farpado” ao redor de nossas vidas. Elas nos prometem mais liberdade, mais abertura, mais mobilidade; dizem que podemos circular onde e quando quisermos. Porém, o tipo de emancipação que de fato obtemos é falsa; é a emancipação de um criminoso que foi recém-libertado, mas que ainda está usando uma tornozeleira."

sábado, 10 de outubro de 2020

o perfume da folha de chá




"Só Deus sabe como, 
mas a vida precisa seguir em frente."

Está aí um livro que mexeu comigo. E que mostra o quanto somos dependentes da aprovação alheia. É exatamente o que acontece com a protagonista de “O perfume da folha de chá”, de Dinah Jefferies, romance ambientado na década de 1920. Só que ela foi longe demais. Gwendolyn, de apenas 19 anos, saiu da Inglaterra para encontrar seu marido, Laurence, no Ceilão, atualmente o Sri Lanka, que foi invadido e colonizado pelos ingleses.

Apesar de terem tido momentos felizes quando se casaram na Europa, ao chegar na Ásia ela sente a hostilidade de todos, inclusive dele. O calor também não ajuda. Aliás, a narrativa foca muito nisso. Apesar de o local ser maravilhoso, é extremamente sufocante. Este também é o melhor adjetivo para descrever a vida que aguarda Gwen.

Laurence é dono de uma próspera fazenda de chá e grande influenciador na região. Porém, há algo sombrio que ronda o casarão em que a garota vai parar. Temos uma prévia do que se trata nas primeiras páginas do livro, que começa com uma mulher arrumando as roupas de um bebê.

As péssimas condições de trabalho, pobreza extrema dos habitantes e a imposição dos colonizadores causam estranheza e certa revolta. Aos poucos, ela vai expondo seus sentimentos e aqui e ali mudando algumas coisas. Contudo, prevalece sua posição de branca dominante. E para não ter sua imagem manchada, ela tomará uma decisão de cortar o coração, principalmente quando vemos o desfecho da história. O dilema começa logo após o parto. Claro que não podemos desconsiderar a época em que vivia, a submissão que se esperava das mulheres e a preocupação que teve com o futuro de outras pessoas envolvidas. Mas ainda assim foi torturante.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

a irmã sol



"Uma coisa que aprendi é que jamais devemos guardar coisas especiais para depois, porque o amanhã pode nunca vir."

Mais um pra conta. É assim que lido com os livros de Lucinda Riley. E "A irmã sol" dá sequência à série das sete irmãs, que venho lendo desde 2015. O enredo é basicamente este: seis irmãs adotadas por um cara muito rico que mora na Suíça. O que ele faz ou pensa são enigmas que nem mesmo as filhas sabem decifrar. Até que morre e deixa algumas pistas sobre a origem de cada uma delas. A partir daí, todas partem para diversas regiões do mundo em busca de suas famílias biológicas. Claro que há viagem ao passado e muitos, muitos lugares-comuns. Ainda assim, eu gosto. Leitura previsível, mas leve e que nos permite acompanhar um pouco da história dos locais pelos quais as irmãs passam. Já teve Brasil, Espanha, Inglaterra, Noruega e Austrália. Desta vez, a história parte de Nova York, local em que nossa protagonista, Electra D'Applièse, foi abandonada, e vai até o Quênia, país que guarda seus ancestrais. Supermodel, ela entra em crise quando o namorado rockstar a abandona. No meio da confusão, recebe uma carta de uma mulher que diz ser sua avó. Mais tarde, descobre tratar-se de uma renomada ativista de direitos humanos. Há ainda uma história de amor não tão romântica, envolvendo uma filha de ricos que deixa a cidade grande para se aventurar com a tia na África. Vale a leitura? Se gostar dos elementos que elenquei, sim. Confira as resenhas anteriores.

As sete irmãs (Brasil)

A irmã tempestade (Noruega)

A irmã da sombra (Inglaterra)

A irmã da pérola (Austrália)

A irmã lua (Espanha)

sábado, 29 de agosto de 2020

a sociedade literária e a torta de casca de batata




"Talvez haja algum instinto secreto nos livros que os leve a seus leitores perfeitos. Se isso fosse verdade, seria encantador."

Gosto muito de livros que retratam episódios da segunda guerra mundial, mas geralmente eles tendem a ser pesados com os relatos das batalhas e dos prisioneiros. Já este romance epistolar, mesmo que tenha episódios tristes, mostra de forma até divertida a união de pessoas que sobreviveram. A sociedade do título foi criada para servir de álibi aos moradores de Guernsey, ilha britânica no Canal da Mancha, que foi invadida pelos alemães. Uma das habitantes, na tentativa de despistar os inimigos após uma pequena reunião entre vizinhos, diz que todos estavam no tal clube literário. Rapidamente, eles têm que se mobilizar para fazer valer a mentira. E não é que tomam gosto pelos livros e pelas conversas em torno dos romances. Tudo isso é contato por meio de cartas para a jornalista e escritora Juliet Ashton, que mora em Londres. As missivas começam com Dawsey Adams, que encontra o endereço de Juliet em um livro que ela vendeu para um sebo há tempos. Ele escreve pedindo informações sobre um autor e assim começa uma interessante troca de mensagens, que acaba envolvendo os demais moradores da ilha. Resultado: ela vê ali uma interessante história para seu próximo livro. Mas a viagem lhe dá muito mais que isso. Ela própria teve suas perdas durante a guerra e Guernsey pode ser o recomeço. O livro também é uma homenagem à literatura e as possibilidades que ela nos traz, pois foi o interesse comum pelos livros (mesmo que no início de forma forçada) que levou a uma série de encontros. Só não assistam à versão para o cinema antes de ler o romance ;-)

"Não consigo pensar em solidão maior do que passar o restante da minha vida com alguém com quem não possa conversar ou, pior, com alguém com quem não possa ficar em silêncio."

sábado, 15 de agosto de 2020

os vestígios do dia



"Pela minha experiência, muita gente se acha capaz de galgar níveis mais altos sem fazer a menor ideia das grandes exigências envolvidas. Com certeza, não é coisa adequada para qualquer um."


Gosto muito de narrativas que trazem a Inglaterra dos grandes casarões. E comecei a ler este livro justamente depois de ter terminado de assistir ao filme "Downton Abbey”, sequência da brilhante série com seis temporadas, e que está entre as minhas favoritas. Portanto, foi extremamente difícil não associar a figura do protagonista, o mordomo Stevens, com Charles Carson, o mordomo da série interpretado por Jim Carter. Eu chegava a ouvir sua voz na narrativa de Ishiguro. Tanto que, apesar de sua bela interpretação, não consegui ver Stevens na pele de Anthony Hopkins, na versão cinematográfica de 1993.

Aqui temos a história e a dedicação de décadas de um mordomo à casa em que trabalha, Darlington Hall, e aos seus moradores, em especial Lord Darlington. Empenho que começou observando seu pai, também um importante mordomo. Este cargo era o ápice na ala dos empregados dessas mansões. Aliás, havia dezenas deles para dar conta de cada serviço: arrumar, lavar, limpar, cozinhar, servir a mesa, vestir os patrões, cuidar das crianças e muito mais. Ou seja, parece que às ladies e aos lords restava apenas o ato de respirar. Mas não estou aqui para julgar.

A narrativa começa com Stevens, já idoso e debilitado, refletindo sobre a necessidade de ter uma pessoa a mais lhe ajudando nas tarefas. Ele até tem um pessoa em mente: a antiga governanta, miss Kenton, e decide ir pessoalmente perguntar se ela toparia retornar. Muitos anos já se passaram dos dias de glória da casa, agora com o orçamento adequado aos novos tempos, o que inclui um quadro de empregados bem mais enxuto, basicamente com duas pessoas. E o zeloso colaborador não sabe bem como abordar a questão com seu novo patrão, Mr. Benn, rico norte-americano que acabou de comprar Darlington Hall e que está imprimindo seu estilo à habitação, o que deixa Stevens bastante confuso e inseguro. Mas, do seu jeito, ele tenta se encaixar no novo modelo de trabalho. Bem engraçada a passagem em que treina piadas para parecer descontraído diante do chefe, que está sempre soltando tiradas "engraçadas". Claro que não é bem sucedido. Ainda assim, vemos seu esforço.

Foi impossível não fazer uma analogia de seu empenho ao de inúmeros funcionários que atuam em grandes corporações. E que, de repente, se veem obsoletos, sem grandes atribuições. Ou que são descartados em prol do novo. Stevens tenta se mostrar aberto às mudanças. Embora, lá no fundo sinta saudades do velho tempo e tenha convicção que o seu jeito é o jeito certo de se fazer as coisas.

Ocorre que ao falar com Mrs. Benn sobre a possibilidade de Miss Kenton, o primeiro entende que ele quer visitar uma pretendente e acaba insistindo para que ele tire férias para viajar pelo interior inglês. Assim, começa sua meticulosa jornada de carro. Enquanto dirige ou para para observar as paisagens e dormir, relembra os principais momentos de sua vida, incluindo as oportunidades perdidas. Ele terá a chance de reverter uma delas, mas as obrigações do ofício falarão, como sempre, mais alto. Inclusive, sentiremos raiva dele em vários momentos, sobretudo no que diz respeito ao seu pai. A despeito de todas as mudanças, Stevens segue fiel aos princípios que fizeram dele um grande mordomo. Ele não abre mão da dignidade que sempre prezou e o trecho a seguir descreve muito bem tudo o que envolve sua profissão e o que pensa dela:

"Dignidade tem a ver essencialmente com a capacidade de um mordomo de não abandonar o ser profissional que lhe habita. Mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade. Para essas pessoas, ser mormo é como desempenhar um papel numa pantomima; um pequeno empurrão, um ligeiro tropeço e a fachada despenca, revelando o ator que há por baixo dela. O grande mordomo é uma virtude de sua capacidade de habitar seu papel profissional - e de habitá-lo até o fim. Não se deixa abalar por acontecimentos externos, por mais surpreendentes, alarmantes ou constrangedores que sejam."

Como julgá-lo quando ainda vemos muitos profissionais deixando de lado suas vidas para ir atrás das metas corporativas? Será que é muito diferente do que Stevens fez? Precisamos, nós, de um olhar espantando diante do que pensamos sobre carreira e trabalho. Felizmente, isso parece estar acontecendo.

"Miss Keaton", garanti a ele, "é uma profissional dedicada. Sei, com toda a certeza, que não tem nenhum desejo de consistir família."

sexta-feira, 31 de julho de 2020

uma história incomum sobre livros e magia



Está aí um livro que me chamou a atenção no momento da compra, mas que não deu certo. Apesar de a proposta ser interessante, “Uma história incomum sobre livros e magia”, da escritora Lisa Papademetriou, a leitura foi concluída sem grandes marcas e com muita insistência rs. Tanto que mal me lembro do desfecho.

Duas adolescentes norte-americanas cheias de dúvidas, medos e baixa autoestima vão para a casa de parentes com a expectativa de vivenciar experiências diferentes. Enquanto Kia parte para o Texas na casa da divertida tia avó Lavínia, Leila vai para o Paquistão passar um tempo com a família do seu pai. Enquanto uma só quer se recolher em seus pensamentos e música, a outra espera viver grandes aventuras.
Durante suas jornadas, ambas se deparam com o inusitado "O cadáver excêntrico", livro em branco que vai tomando forma conforme elas resolvem colocar seus próprios pensamentos neles. A partir daí, vamos conhecendo outra história, a de Ralph e Edwina, que se apaixonam muitos anos antes. E é isso. Totalmente dispensável.

sábado, 4 de julho de 2020

a adorável loja de chocolate de paris




"Se você muda qualquer coisinha quando tem algo perfeito, fica tudo errado! Errado, horrível e um desastre."

A história começa na Inglaterra com Anna, que acabou de sofrer um acidente na fábrica de chocolates em que trabalha. No hospital, reencontra Claire, antiga professora de francês, que está fazendo um tratamento contra o câncer. Ambas têm muito em comum e, após vários dias internadas lado a lado, Claire sugere que Anna vá a Paris em busca de novas emoções. Na verdade, o que ela quer é reviver o passado e os dias cheios de aventura que passou na cidade das luzes. A narrativa mescla a história de Anna com o passado de Claire. Os amantes de chocolate talvez fiquem com água na boca ao ler os experimentos das personagens para tentar o melhor sabor. Até eu que não sou muito fã, fiquei com vontade de conhecer a loja de chocolates de Thierry, o galanteador que conquistou o coração de Claire. Agora caberá a Anna, mesmo sem saber, resgatar um poucos os dias que a amiga e professora passou. O fim não é o que eu esperava para este tipo de leitura, mas fez total sentido. É impressionante como poucos dias podem definir nossa história.

sábado, 27 de junho de 2020

simplesmente nova york




"Certamente não existe saudação mais animadora do que um rabinho balançando. Expressa tantas coisas. Amor, carinho e reconhecimento incondicional."

O livro tem cachorro. Ou melhor, dois. E são eles as únicas coisas boas deste romance. Eu deveria estar totalmente aérea para ter seguido com a leitura. Realmente, estava rsrs. Enfim, livros que trazem Nova York tendem a me atrair. Reflexo de SATC e Woody Allen.

Tenho queda por narrativas que se passam nesta cidade que nunca estive. Mas que está presente em filmes, séries e no imaginário que criei sobre outono no parque. Enfim, é justamente no parque que os protagonistas se conhecem. E como são enfadonhos! Ela é uma blogueira famosa. Ele é um advogado super requisitado que cuida de divórcios. Os dois se acham, cada um de um jeito. E procuram disfarçar o egocentrismo passeando com seus cachorros no Central Park. Tudo bem que o amor dela pelo pet é verdadeiro, mas ainda assim é difícil engolir seus problemas, que fizeram com que ela deixasse a Inglaterra. Quando descobrimos quais são, pensamos: Oi? Ele se considera a última bolacha do pacote. E emprestou um cachorro da irmã para ver se conseguia um encontro com alguém no parque. Deu certo. E é isso. O lado bom é que os cachorros não morrem, não sofrem (okay, um deles fica doente, mas logo se cura, ufaaaa) e todos ficam felizes. Leitura para quem não quer esquentar a cabeça. Mas ainda assim, não recomendo. Leiam P.S. de Paris no lugar.

domingo, 7 de junho de 2020

a mulher na janela




"Não é paranoia se está realmente acontecendo."


Romance de tirar o fôlego. O norte-americano A. J. Finn nos dá, no decorrer da leitura, várias pistas falsas. Confesso que estava apostando em um desfecho que não aconteceu, o que foi bom, pois teria ficado decepcionada se minhas previsões tivessem sido concretizadas. Anna Fox é psicóloga e mora sozinha após ter sofrido uma grande perda. Ela não consegue sair de casa, tem agorafobia e tudo que faz é ficar trancada, bebendo muito vinho, falando com estranhos pela internet, assistindo a filmes antigos (sabe as falas de cor e muitas vezes sua realidade se confunde com a ficção) e espionando os vizinhos pelas lentes de sua câmera fotográfica, em especial os recém-chegados Russells. Não é à toa que Hitchcock é um de seus cineastas favoritos. E é num de seus zooms que vê algo bem esquisito e que vai atormentá-la ainda mais. O bacana deste livro é que a narrativa nos conduz a termos as mesmas percepções que a protagonista. Será que tudo não foi fruto da imaginação? E esta dúvida é sanada de forma totalmente imprevisível, o que torna a leitura uma grande experiência. Não posso dizer mais nada para não estragar as surpresas. Livro super recomendado :-) Virou filme, mas não é tão bom quanto o romance.



sábado, 30 de maio de 2020

p.s. de paris





"Obrigar seus sonhos a irem de encontro com a realidade era arriscar a própria existência deles."


Livro bobinho, bobinho escrito pelo francês Marc Levy, mas que acaba nos cativando. Ter Paris no título foi o que me chamou a atenção. O enredo é simples e super clichê. Uma mega estrela do cinema, Mia, está prestes a se divorciar do marido, também um superstar e seu par romântico em vários filmes. Para dar um tempo, ela sai de Londres e vai até Paris completamente disfarçada. Lá, fica na casa de uma amiga que tem um pequeno restaurante. Nos Estados Unidos, um escritor tenta escrever outro romance na tentativa de ter o mesmo sucesso que seu primeiro livro. Incentivado por um casal de amigos (protagonistas de outro livro de Marc Levy, E se fosse verdade - sucesso até no cinema), vai para a França, seu país de coração e onde morou por vários anos. Aluga um cantinho para morar e se debruça no processo criativo. Eles acabam se cruzando por meio de um site de namoros em uma situação completamente embaraçosa. Ela havia feito seu perfil, mas ele não. Tudo armação de seus amigos. Bem, a leitura não vai acrescentar nada na sua vida, mas vai ajudar a fugir um pouco da realidade, tarefa de toda comédia romântica ;-)

"Um dia vou viver em teoria, porque em teoria tudo é perfeito."

sábado, 18 de abril de 2020

britt-marie esteve aqui


"É mais fácil ficar otimista se você nunca precisa limpar a sujeira depois."

Pensem em uma pessoa louca por limpeza. Metódica toda vida. Pois assim é Britt-Marie, uma mulher de 60 anos que vivia em função do bicarbonato de sódio, produto que não economizava no dia a dia. Outras manias de Britt eram a arrumação dos talheres, que precisavam estar na ordem correta (a que ela acreditava, claro) e as listas (nada poderia ser feito se não tivesse sido planejado e incluído em seu caderno). No decorrer da leitura, vamos descobrindo os motivos que fizeram com que ela se tornasse essa pessoa que preza pela rotina. Praticamente só conhece o bairro em que mora. Nunca teve um emprego que não fosse cuidar da própria casa e do marido, que nitidamente abusa de sua inocência. Até que descobre que ele a trai. Na verdade, é algo que já desconfiava, mas preferia não encarar, mas eis que o cara sofre um infarto e no hospital ela se depara com a amante. Até para Britt-Marie isso é demais. Ela arruma suas coisas, sai de casa e vai parar em uma cidadezinha na Suécia esquecida por todos e completamente falida por conta da crise econômica (situação enaltecida por todos os moradores).

É muito difícil não gostar dessa personagem criada pelo sueco Fredrik Backman. Ao mesmo tempo em que é metódica e cabeça dura, ela é fofa. Quando vai fazer alguma crítica, estuda minuciosamente as palavras de modo a não ofender o interlocutor. É óbvio que não funciona e, talvez, justamente por isso todos acabam se apegando a ela que, por sua vez, segue preferindo a solidão e certa ordem na nova vida. Mas o destino realmente queria que ela mudasse e vai colocar em seu caminho um time de futebol de adolescentes rebeldes. Sem entender absolutamente desse esporte, caberá a nossa protagonista ser a técnica da inusitada equipe. Livro leve, divertido (dei muitas risadas) e com várias passagens inspiradoras, que vão nos deixar a pensar sobre as mudanças que também precisamos fazer.


"Quantas emoções puras nos fazem gritar alto, sem o menor constrangimento?"

"O futebol obriga a vida a continuar. Sempre há uma nova partida. Uma nova temporada. Sempre há um sonho de que tudo vai ficar melhor. É um esporte que faz maravilhas."

"Os talheres devem ser arrumados como sempre foram, porque a vida deve continuar sem alterações." "Algumas pessoas não entendem o valor das listas, mas Britt-Marie não é desse tipo. Tem tantas listas que precisa manter uma lista distinta relacionando todas as listas. Caso contrário, qualquer coisa pode acontecer. Ela pode morrer. Ou se esquecer de comprar bicarbonato de sódio."

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

a eternidade por um fio




"Nossa geração vai ter que se arrepender não apenas das palavras de ódio e das ações dos maus, mas do silêncio devastador dos bons."


Durante o Carnaval, terminei a trilogia "O século", do britânico Ken Follett, que me acompanha desde 2017. Foram três anos para devorar as cerca de 2,8 mil páginas deste romance sensacional. Ainda estou de ressaca literária e só quem leu a obra vai me entender. A leitura foi sempre intercalada com buscas sobre os fatos reais narrados por Follett, que nos dá uma aula de história. Claro que tudo é romanceado e temos que ter discernimento sobre o que verdadeiramente aconteceu. Porém, não deixa de ser um estímulo para pesquisas mais detalhadas. Vale lembrar que a trilogia sempre foca em cinco famílias: alemã, inglesa, galesa, russa e norte-americana. Ao longo dos anos, elas acabam se misturando de forma muito bem construída, seja por casamento, amizade ou ideologias.

No último volume, "A eternidade por um fio", acompanhamos o desenrolar da Guerra Fria, a guerra da informação entre o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o comunismo soviético. Tanto um quanto o outro trazendo vítimas, censuras e muitas, muitas mortes.

Começamos o romance com Rebecca Hoffmann, do lado alemão. Nas primeiras páginas, estamos na década de 60 e Rebecca foi intimada a depor para a polícia secreta da Alemanha Oriental. Enquanto isso, seu irmão, Walli, inicia os primeiros passos de uma carreira musical, que certamente não terá lugar na sua terra natal. A família foi dissidente do nazismo e agora se confrontava com a censura soviética.

Nos Estados Unidos, George Jakes, filho de uma negra e de um russo, que ascendeu à política, sonha em criar os direitos civis, que podem mudar a forte segregação racial no País. Torna-se advogado e consegue um posto de confiança de Bob Kennedy. Ainda do lado norte-americano, temos os irmãos Cameron, que vai representar o pensamento de extrema direita, e Beep, sua irmã, cujo lema será a liberdade de expressão. 

Na União Soviética, os gêmeos Tanya e Dimka, cuja família é toda militar e ligada ao governo, trabalham em prol da reforma do comunismo em que vivem. Almejam os valores iniciais deste sistema, baseados no fim da luta entre classes e nos direitos igualitários. Enquanto ela utiliza seu posto de jornalista da TASS (agência russa de notícias) para colher e levar informações verdadeiras à população por meio de veículos alternativos, seu irmão é ligado à alta liderança política, e vai buscar de todos os modos aliados para mudar o regime.

Na Inglaterra, outros dois irmãos saem em busca de seus sonhos. Dave e Evie. Ele como músico e ela como atriz. Utilizam suas influências para contribuir com as mudanças que o mundo enfrenta.

Claro que há cenas clichês, exageros dramáticos, mas de modo geral, Follett nos leva a uma viagem por fatos históricos, com falas de personalidades como John F. Kennedy, Robert Kennedy, Martin Luther King, Richard Nixon, Walter Ulbricht, Nikita Sergueievitch Kruschev, Mikhail Gorbachev, entre outros tantos. Acompanhamos a Guerra do Vietnã, a construção do Muro de Berlin, a perseguição aos negros nos Estados Unidos, o célebre discurso de Martin Luther King e o nascimento da cultura Hippie. Tudo isso com passagens bem eletrizantes, como as fugas da Alemanha Oriental, a forma com que os dissidentes russos trocavam mensagens e a viagem de George ao sul do seu País, região que mais segregava os negros. O final é lindo e traz um momento bem recente da nossa história, mas que ainda está longe de ter aliviado a tensão e as injustiças do mundo. Vale cada página.

Leia também:





Segregação racial nos EUA. Veja fonte da foto

Queda do Muro de Berlim. Veja fonte da foto

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

o perigo de uma história única



"A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos parecidos."

No fim do ano passado presenteei várias pessoas com este livro
. Na verdade, trata-se de um texto adaptado da palestra dada, em 2009, pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (veja no fim do post). Aqui ela nos fala um pouco sobre os estereótipos que vamos tendo ao longo da vida, sempre baseados numa histórica única que nos é dado do contexto avaliado.

Quando começou a escrever, ainda criança, suas histórias sempre traziam personagens loiros e de olhos azuis. Pois assim eram (e ainda são em sua maioria) os 'contos de fada'.

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne única."

Sua narrativa parte, sobretudo, de experiências próprias. Ela vem de uma família de classe média na Nigéria. Ainda jovem, foi visitar o vilarejo da empregada da casa e se espantou ao ver que eles viviam bem, felizes e que faziam belos artesanatos. Em sua cabeça, recheada do que seus pais contavam sobre o modo de vida da moça, achava improvável encontrar lá nada além da miséria. Equívoco. 

"Não havia me ocorrido que alguém naquela família pudesse fazer alguma coisa. Eu só tinha ouvido falar sobre como eram pobres, então ficou impossível para mim vê-los como qualquer coisa além de pobres. A pobreza era minha história única deles."

Ela mesma passou por situação parecida quando foi estudar nos Estados Unidos. Diz que as pessoas sentiam pena dela antes mesmo de a conhecer. Era comum que a questionassem sobre seu inglês fluente (poucos sabem que este é o idioma oficial da Nigéria) e também para que ela mostrasse como são as músicas tribais, mesmo quando sua cantora favorita fosse Mariah Carey. Sua primeira colega de quarto acreditava, por exemplo, que ela nunca tinha visto um fogão.

"Sua postura preestabelecida em relação a mim, como africana, era uma espécie de pena condescendente e bem intencionada. Minha colega de quarto tinha uma história única da África: uma história de catástrofe. Naquela história única não havia possibilidade de africanos serem parecidos com ela de nenhuma maneira; não havia possibilidade de qualquer sentimento mais complexo que pena; não havia possibilidade de uma conexão entre dois seres humanos iguais."

Muito desta visão, para Chimamanda, vem da literatura ocidental, que sempre colocou os africanos como "seres exóticos". Ela cita como exemplo trecho do relato de John Lok, mercador britânico.

"Após se referir aos africanos negros como 'animais que não têm casa', ele escreveu: 'também é um povo sem cabeça, com a boca e os olhos no peito. Rio toda vez que leio isso. É preciso admirar a imaginação de John Lok. Mas o importante sobre o que ele escreveu é que representa o início de uma tradição de contar histórias no Ocidente: uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta Rudyard Kipling, são 'metade demônio, metade criança'."

E esta visão não escapou nem aos seus professores universitários, que diziam que seus textos não eram "autenticamente africanos", já que os personagens dirigiam carros e não passavam fome.

Seria muita hipocrisia dizer que nunca estivemos diante de algo semelhante. Tanto de um lado, como de outro. E é justamente isso que alimenta o racismo, a discriminação e as ideias de valores que não condizem com a realidade. Chimamanda atribui a resistência de se buscar outras fontes ao poder. Damos por certo o que ouvimos das pessoas que consideramos autoridade. A passividade com que aceitamos informações nos impede de irmos além do que está sendo dito. Que tal mudarmos isso? Podemos começar com as histórias dos que estão mais próximos de nós ;-)

"O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja a sua história definitiva."

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história."


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

um dia de dezembro



"Sei que é doloroso abrir mão de alguém que se ama, mas não acredito que somos destinados a apenas uma pessoa no mundo."


Eu queria fechar o ano com uma história natalina. Algo que me remetesse, mesmo morando no calor sufocante dos trópicos, ao inverno, à neve e ao estereótipo da magia que me apresentaram quando criança, por meio de desenhos como o Snoopy. Mas devo confessar que gosto e muito. Tanto que não tenho vergonha alguma de dizer que Natal, na minha opinião, é sinônimo, também, de neve. Enfim, lá em julho, eu já tinha colocado na agenda que compraria "Um dia em dezembro", de Josie Silver. É um romance chick-lit, que vai pegar praticamente uma década da vida das personagens. Nada de extraordinário. O mote é o seguinte: uma garota inglesa de vinte anos sonha em ser uma grande jornalista, sua cabeça está cheia de sonhos e a realidade, diferente do que imagina para o futuro, a atormenta. E um fato vai alimentar ainda mais seus devaneios. Ao sair do trabalho no meio da confusão londrina de fim de ano, vê pela janela do ônibus em que está o cara mais lindo da vida. A paixão é imediata. Em um momento, ela tem a certeza de que ele entrará no veículo. Mas isso não acontece e ela passa o ano inteiro seguinte, com a ajuda da melhor amiga, atrás dele. Claro que inutilmente, já que a única referência que tem é o ponto de ônibus em que ele estava. Até que numa bela noite, Sarah, a amiga, apresenta seu novo namorado. Adivinhe quem é? Adivinhe? Sim, claro. Ela esconde a verdade, finge que não o reconhece e começa o drama. Do lado dele, temos a mesma coisa. E assim vai, por anos. Até que…, bem não preciso terminar e nem dar alerta de spoiler. Mais previsível, impossível. Contudo, aqui e ali, temos trechos bacanas que deixam a leitura fluir. Feliz 2020. Com muitos flocos de neves para todos ;-)