sábado, 1 de novembro de 2025

o burnout


"Acho que, quanto mais se rotula alguma coisa de “feliz”, mais se suga a felicidade dessa coisa."
Imagina uma pessoa correndo de uma freira no meio da rua e dando de cara com um muro, acordando apenas no hospital. Do que ela poderia estar fugindo? Essa é Sasha, que, no auge do desespero, foi buscar abrigo no convento em frente do escritório em que trabalha. Na verdade, é do trabalho que ela está correndo. Ela não aguenta mais a pressão da rotina, não aguenta mais todos buscando por ela quando há problemas, não aguenta mais não conseguir dizer não e seguir resolvendo tudo o que aparece. Pior: NÃO AGUENTA MAIS A MOÇA DE RECURSOS HUMANOS DIZENDO QUE ELES PRECISAM SER FELIZES. ALIÁS, NÃO É MAIS RH, É DIRETORIA DE EMPODERAMENTO E BEM-ESTAR. E essa foi a gota d'água.

"— Tem um minuto? O meu corpo inteiro enrijece. Um minuto? Um minuto? Não. Eu não tenho um minuto. Estou com a camisa toda suada. Com os dedos pegando fogo. Tenho um milhão de outros e-mails urgentes depois desse para responder, preciso trabalhar, não tenho um minuto… Mas Joanne, a nossa diretora de empoderamento e bem-estar, está vindo na minha direção."

Ela surta, e sua recuperação é tema de O burnout, de Sophie Kinsella, que morreu recentemente. Dela eu já li Minha vida não tão perfeita e o hilário Você consegue guardar um segredo?, que me rendeu boas gargalhadas.

Voltando à Sasha, seguindo o conselho da mãe, ela vai para a praia, mesmo sendo inverno inglês, onde costumava passar as férias até a adolescência. Acaba no hotel chique do passado, onde sempre quis se hospedar, mas que agora está caindo aos pedaços. Os funcionários, contudo, estão sempre dispostos a agradar, mesmo diante da decadência do local.

Lá ela conhece Finn, e é hilária a forma como eles se relacionam no hotel/pousada ou seja lá o que for. O gerente e a recepcionista os colocam em pontos totalmente opostos do restaurante ao perceberem que ambos querem ficar sozinhos e parecem não se entender. Mas, aos poucos, Sasha e Finn descobrem que estão lá pelo mesmo motivo: o esgotamento mental.

"Não são os e-mails que me causam pânico. Nem os e-mails de cobrança. ("Só estou escrevendo para saber se você recebeu meu último e-mail, já que não tive resposta…") São os e-mails de "cobrança da cobrança". Aqueles que chegam com dois pontos de exclamação vermelhos. Os irritados — "Conforme mencionado nos DOIS e-mails anteriores…" — ou então os falsos e sarcásticos — "Você por acaso caiu num poço ou aconteceu alguma tragédia do tipo na sua vida???" São esses que fazem o meu coração disparar e a pálpebra do meu olho esquerdo tremer."

Superengraçado também o aplicativo que Sasha usa para vencer esta fase. Os vinte passos para a felicidade parecem piorar tudo. Mas, no fim, aquele tempo é tudo o que ela precisava. 

Sophie Kinsella utiliza o humor característico de sua escrita para tratar de um tema que, infelizmente, se tornou cada vez mais comum: o adoecimento mental provocado pela cultura da produtividade. Temos que produzir, empreender, ser criativos. Ter mais likes, mais seguidores. Quando, enfim, teremos tempo para apenas ficar à toa, como disse minha filha, estirada no sofá? Talvez seja exatamente isso que deixamos pelo caminho, na ânsia de dar conta de tudo.

"Estou tão cansada. Exausta mesmo. Me sinto muito pesada e derrotada e meio que vazia. As ondas e as gaivotas se misturam numa cacofonia de sons que o meu cérebro não consegue distinguir. Não estou tão confortável, mas também não tenho forças para ajeitar o corpo. Eles vão continuar do jeito que estão. Se der cãibra, que seja. Se o mar me levar, que leve. Fico ali mais ou menos uma hora, não exatamente dormindo, mas incapaz de me mexer. Depois de um tempo, sinto lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não consigo nem levantar a mão para secá-las. Não posso fazer nada. Estou sem energia, sem capacidade de tomar decisões. Sem nada."

sábado, 25 de outubro de 2025

cheio de charme


"Um cantinho secreto do coração, onde guardo meus pensamentos mais sombrios... eu não tinha certeza."

Tenho uma lembrança muito boa dos meus vinte e poucos anos: Marian Keyes e seus livros hilários. Dela, li praticamente todos, dos quais destaco Melancia e Sushi. Melancia é um livro que, lá atrás, cheguei a recomendar para quem teve o coração partido. Hoje, recomendo Shakira.

Enfim, Cheio de charme segue a mesma premissa, mas com um tema um pouco mais pesado. Fala de relacionamentos tóxicos e abusivos. Neste caso, as vítimas são quatro mulheres, todas do mesmo homem: o político boa-pinta Paddy de Courcy.

Lola é uma estilista renomada, mas entra em um momento depressivo após o término do namoro com Paddy, que considera o homem perfeito. Mais para a frente, vamos entender o quanto essa visão era distorcida e o quanto ela suportou a fim de manter o relacionamento com alguém que acreditava amar. Chegava, inclusive, a implorar por atenção, mesmo sabendo que qualquer deslize terminaria em agressões físicas.

"A sanidade me voltou como um balde de água fria e fiquei escandalizada com meu próprio comportamento. Eu tinha agido como uma doente mental. Doida."

Contudo, sua cura vem por meio dos amigos e ganhamos um bom entretenimento durante sua fuga para o interior da Irlanda, onde passa a habitar a cabana do tio Tom, uma propriedade que parece estar disponível para todos. Lá, rimos muito com suas peripécias, especialmente quando forma um clubinho de cinema com travestis.

Há ainda a jornalista Grace, que tenta uma entrevista exclusiva com Lola, muito a contragosto, pois quer distância de Paddy. Ela é irmã de Marnie, que hoje é casada e tem duas filhas, porém ainda carrega os traumas do relacionamento anterior (o mesmo cara), no qual era violentamente espancada, chegando até a parar no hospital. Mas Grace tem ainda outros motivos para manter-se longe dele. Por fim, há Alice, algo como a próxima vítima. Se ela sabe o que a espera ou mesmo se já sofreu os abusos, ainda teremos que esperar. Avisos não faltarão.

O livro é um alerta para o quão próxima a violência doméstica está de nós. Mais que isso, mostra como a mulher, dentro desse tipo de relacionamento, acaba entorpecida, o que a impede de sair. Não basta, neste caso, entender a situação pela qual está passando. Ela precisa, de fato, de ajuda para romper a violência. Ainda assim, Keyes mantém seu tom irônico e divertido, mas sem deixar de passar sua mensagem sobre esse tipo de relacionamento.

"O que tinha acontecido com ela? Quando abalara tão profundamente sua autoconfiança que não era mais capaz de confiar a si mesma a tarefa mais banal?"

sábado, 18 de outubro de 2025

a extraordinária cozinha dos livros


 “Não era uma solidão triste e sombria, era algo que fazia você olhar para trás com ternura, sabendo que toda história tem um fim.”

Os livros mais expostos nas livrarias são os coreanos e japoneses com capas fofas e que hoje são conhecidos como literatura de cura. A ideia é deixar aquele "quentinho no coração" depois da leitura. Na onda desse sucesso, vieram outros livros com as mesmas imagens acolhedoras, até infantis, mas que escondem outro tipo de literatura, a hot. Enfim, esse é o mercado editorial, que não abre mão de nenhum detalhe quando o assunto é vender, mesmo que isso confunda o leitor. Nada contra o gênero hot, mas, muitas vezes, tudo o que a pessoa precisa é de autoajuda em forma de romance estrangeiro.

E assim cheguei a alguns romances: Chocolate quente às quintas-feiras, A biblioteca dos sonhos secretos, Meus dias na Livraria Morisaki, Antes que o café esfrie (1, 2 e 3 - não consegui avançar mais que isso), Relatos de um gato viajante (meu favorito) e O gato que amava livros. São alguns exemplos desse tipo de literatura que vem do Japão ou da Coreia do Sul e que quase sempre está associada a um gato, a uma livraria, a uma biblioteca ou a um café. Essa é a grande premissa.

O que não é diferente do que vemos em A extraordinária cozinha dos livros, de Kim Jee-Hye.

A trama gira em torno de Yujin que, após passar anos trabalhando intensamente em uma startup em Seul, decide mudar de vida. A inspiração surge enquanto toma um café e ouve que há um imóvel sendo vendido, o que lhe parece perfeito para iniciar o próprio negócio. Acompanhamos cada detalhe da criação desse espaço, que reunirá café e livros. Haverá cápsulas do tempo para os hóspedes, onde eles escreverão cartas para si mesmos no futuro, e que quero copiar. A proprietária também escolherá, a dedo, livros que conversam diretamente com o ânimo e o estado de espírito de cada visitante.

Haverá ainda o reencontro de Yujin com amigos da vida. Embora cada um tenha seguido o próprio caminho, permanecem as lembranças em comum. Também uma celebridade chegará ao local, que, no passado, foi a casa de sua avó.

Nada profundo, mas que cumpre exatamente o que promete: deixar o coração aquecido e despertar a vontade de também, quem sabe, iniciar novos projetos, com mais tempo para se dedicar ao que realmente nos toca.

Ao ler o trecho abaixo, dei-me conta de que eu também sempre espero pelo café da manhã. Talvez pela certeza de que há algo aconchegante me esperando.

“Nas madrugadas, quando acordava de um pesadelo e o medo da cirurgia começava a tomar conta, pensava no café da manhã quentinho que teria depois que o sol nascesse. Era a refeição caseira ideal que Sohee sempre sonhara. Pensar no que haveria no café da manhã seguinte costumava ajudá-la a pegar no sono de novo.”

Escrevo esta resenha ouvindo Let It Snow, de Eddie Higgins, que aparece no romance. Aliás, este é um bom livro para o Natal.

E termino com um trecho que traz algo que acredito muito :-)
“Assim que você mergulha no mundo da ficção, esquece a dor da realidade, como se tivesse tomado um analgésico.”

sábado, 11 de outubro de 2025

todas as cores do céu


"O silêncio se imiscuiu em nossas vidas, permitindo que mantivéssemos nossos pesadelos e pensamentos para nós. Simplesmente seguíamos em frente, fingindo que nada acontecera."

Depois de Pachinko, Herdeiras do Mar e Como Tigres na Neve, todos ambientados nas Coreias, fui para a Índia com Todas as cores do céu, que traz um tema semelhante: mulheres violentadas por estruturas dominantes, mas que carregam a força necessária para que as próximas gerações possam viver sem medo.

Neste romance de Amita Trasi, conhecemos Mukta que, com apenas dez anos, é obrigada a participar de um ritual que a transforma em devadasi, prática que condena meninas à exploração sexual com a desculpa de ser algo sagrado. Depois de sofrer abusos inimagináveis para uma criança, ela é resgatada por Ashok, que a leva para Bombaim, onde passa a fazer parte de sua família e a conviver, especialmente, com Tara, filha dele. As duas têm praticamente a mesma idade e crescem juntas, tornando-se grandes amigas, embora o lugar de Mukta como empregada sempre tenha sido bem delimitado. Seu grande sonho era encontrar o pai, que a mãe, antes de morrer, havia dito ser uma boa pessoa. 

Até que uma explosão, inspirada nos atentados de 1993 em Bombaim, que deixaram mais de 250 mortos e centenas de feridos, mata a mãe de Tara e tudo muda.

Naquele dia, a mãe pede que Tara vá ao Century Bazaar levar algumas roupas. Ela, porém, prefere ficar em casa estudando para uma prova de matemática. A mãe comenta que havia pedido a várias pessoas, mas todas estavam ocupadas, e diz que Mukta estava passando mal. Essa indisposição era apenas uma desculpa para encontrar Tara no lugar onde as duas costumavam conversar, como tinham combinado mais cedo.

Tara, então, culpa Mukta pela morte e passa a hostilizá-la, chegando, inclusive, a planejar um sequestro para que ela saísse definitivamente de sua vida. O ódio só crescia. E eis que Mukta é raptada durante a noite e, apesar dos esforços de Ashok para encontrá-la, ela desaparece. Pai e filha se mudam para os EUA e somente após a morte dele, Tara, que convive com o remorso, vai descobrir que a amiga ainda está viva e fará de tudo para reencontrá-la. Há algumas passagens dignas de filme de ação. Aliás, adoraria ver uma adaptação para o cinema deste livro.

Enquanto busca por Mukta, Tara recorda as diferenças entre as duas. Enquanto ela estudava, a outra jamais teve esse direito, apesar da enorme vontade de aprender. O mais próximo que conseguia era levar a mochila da amiga, imaginando como seria se também estivesse indo para a escola. Gostava muito dos livros e considerava a biblioteca um templo.

"Então, eu continuava a visitar todos aqueles lugares a que Mukta e eu íamos. Sentava no terraço e observava os pássaros voarem no céu daqueles fins de tarde quando a polícia não tinha nada para me dizer; visitava a Biblioteca Asiática fim de semana sim, outro não, apenas para ter Papa de novo comigo, apontando para as estátuas de mármore, contando-me sobre elas, explicando que os livros eram importantes para expandir o nosso conhecimento. E eu ouvia Mukta sussurrar: um templo para livros. E assim eu ia, meus dias se transformando em semanas e, então, em meses."
Tráfico de mulheres, prostituição infantil, desigualdade social, aids, são alguns dos temas que Amita Trasi aborda neste belo romance. Ao final, a autora explica que Ganipur, onde nasce Mukta, é uma aldeia fictícia. Entretanto, comunidades semelhantes realmente existem e ainda submetem meninas à tradição das devadasis. Todas as cores do céu é a esperança que permanece diante de tantos maltratos que a vida reservou a Mukta, tanto na infância quanto depois de seu rapto. Não por acaso, sua filha se chama Asha, nome de raiz sânscrita que significa desejo, esperança.
"às vezes, temos que encontrar uma nova vida, um novo sonho, sobretudo quando o antigo não funcionou."

domingo, 5 de outubro de 2025

como tigres na neve


"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."

Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.

Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.

O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."

"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."

Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.

Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.

Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.

A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.

"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."

sábado, 4 de outubro de 2025

herdeiras do mar



"Há coisas neste mundo que você nunca deveria precisar saber, e eu vou te proteger delas pelo tempo que puder. Esse é o meu dever como mãe."

Hana tinha apenas dezesseis anos quando foi presa pelo exército japonês e levada para se tornar uma mulher de consolo, eufemismo para mulheres e meninas escravizadas sexualmente para atender aos desejos dos militares. Ela nunca havia conhecido uma Coreia livre, pois ainda não tinha nascido quando o Japão anexou seu país, em 1910.

Hana e a mãe eram haenyeo. O trabalho delas consiste em mergulhar para encontrar principalmente abalones, moluscos marinhos considerados uma iguaria, mas também algas e outros frutos do mar. Elas alcançam grandes profundidades sem o auxílio de equipamentos de respiração. As haenyeo, cujo nome significa "mulheres do mar", são as tradicionais mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Ou seja, Herdeiras do mar, título do livro de Mary Lynn Bracht, escritora de ascendência coreana.

Quando tinha sete anos, Hana ganhou uma irmã, Emi. Apesar das dificuldades, as duas viviam relativamente felizes com os pais, dentro das possibilidades daquele período. O pai era pescador, enquanto Hana e a mãe trabalhavam no mar.

Tudo muda no dia em que soldados japoneses se aproximam do local onde elas mergulhavam. Emi, ainda pequena demais para acompanhá-las, estava na praia. Para salvar a irmã, Hana acaba se entregando e é levada pelos militares.

A cena marca profundamente Emi, que vê a irmã desaparecer e nunca se perdoa. Sente-se culpada por Hana ter sido levada em seu lugar. Mesmo depois de se casar e ter filhos, a mágoa nunca a abandona. Ainda assim, continua alimentando a esperança de reencontrar a irmã.

Anos mais tarde, está sempre de prontidão para acompanhar a Manifestação de Quarta-feira, realizada às quartas-feiras, ao meio-dia, em frente à antiga Embaixada do Japão, em Seul. O movimento começou em 8 de janeiro de 1992, reivindicando do governo japonês o reconhecimento dos crimes cometidos contra as mulheres submetidas à escravidão sexual durante a guerra.

Hana, por sua vez, é escravizada sexualmente e sofre todo tipo de violência. Mesmo quando surge uma pequena possibilidade de voltar para casa, prefere não fazê-lo. Ela teme colocar a família em risco e, principalmente, que os pais tenham de suportar o julgamento de uma sociedade que poderia condená-los por terem uma filha considerada "impura". Vale destacar também o enorme esforço que eles fazem para resgatá-la, algo de cortar o coração.

Em suas notas, Mary Lynn Bracht afirma que se acredita que entre 50 mil e 200 mil coreanas tenham sido sequestradas e "usadas" pelos militares japoneses durante a ocupação da Coreia. Como a cultura privilegiava a pureza sexual feminina, muitas das sobreviventes não conseguiram contar suas histórias. Somente muitos anos depois algumas delas romperam o silêncio.

Apenas em 2015, a Coreia do Sul e o Japão chegaram a um possível acordo, mas isso implicava na retirada de uma estátua em frente à embaixada japonesa que simbolizava o que havia acontecido. A proposta não foi aceita, principalmente pelas halmoni, como ficaram conhecidas as sobreviventes, agora idosas.

Esse monumento é a Estátua da Paz, instalada em 2011, uma escultura de bronze que representa uma jovem coreana vestida com o hanbok, traje tradicional do país, sentada em uma cadeira. Ela aparece de forma bastante simbólica no romance. Nele, Mary Lynn Bracht imagina que a jovem retratada possa ser Hana, personagem criada para dar voz às milhares de mulheres que não tiveram a oportunidade de contar sua própria história.


De acordo com o Korea Times, em março de 2026, morreu mais uma vítima coreana da escravidão sexual praticada pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Com isso, o número de sobreviventes oficialmente registradas pelo governo da Coreia do Sul caiu para apenas cinco. Das 240 mulheres reconhecidas pelo país, 235 já haviam morrido. As cinco sobreviventes tinham, naquele momento, idade média de 95 anos.

Herdeiras do mar foi mais uma leitura que fiz sobre as consequências da ocupação japonesa e sobre a ideia de superioridade de um povo que considera os demais inferiores e, por isso, acredita poder transformá-los em objetos para seu próprio uso. A História está repleta disso. Pachinko também mostra essa violência de forma muito dura.

"Na ilha de Hana, o mergulho é tarefa para as mulheres. O corpo delas se adapta às profundezas geladas do oceano melhor que o dos homens. Elas conseguem prender a respiração por mais tempo, nadar mais fundo e manter a temperatura corporal mais alta, portanto há séculos as mulheres de Jeju têm gozado de uma rara independência."

domingo, 28 de setembro de 2025

pachinko


"A história falhou conosco, mas não importa."
É assim que a coreana Min Jin Lee inicia sua saga, que percorre quatro gerações de uma família.

O ponto de partida é Yeongdo, ilha próxima à cidade portuária de Busan. Lá, um casal de idosos decide abrir uma pousada para complementar a renda. Com eles vive Hoonie, o único filho que sobreviveu, justamente o mais fraco. Nasceu com fenda palatina e um pé torto, e era uma das pessoas mais queridas da vila. Em um arranjo feito por uma casamenteira, casa-se com Yangjin, de origem extremamente pobre. Da união nasce Sunja.

A família segue administrando a pousada até a morte de Hoonie, deixando mãe e filha à mercê da invasão japonesa. A situação fica cada vez mais difícil, mas, ainda assim, elas encontram apoio na pequena comunidade e nos hóspedes habituais. Nunca sabem, porém, onde haverá um traidor. Todo cuidado é pouco. O romance retrata a ocupação japonesa da Coreia, a migração para o Japão e a discriminação sofrida pelos coreanos que passaram a viver no país.

Sunja cai na lábia de Koh Hansu, comerciante cheio de classe que se mostra totalmente apaixonado por ela. Ainda adolescente, acaba engravidando, o que deixa a mãe desnorteada. Mas descobre que Hansu é casado e não aceita a condição de amante. Resta-lhe, portanto, criar a criança sozinha.

Nesse meio-tempo, a pousada recebe outro hóspede: Isak, um pastor protestante que chega extremamente doente. Ao ouvir o que está acontecendo, decide se casar com Sunja e assumir a criança como seu filho. Juntos partem para Osaka, no Japão, para a casa do irmão dele. Lá passam a enfrentar dificuldades econômicas e, principalmente, o preconceito contra os imigrantes coreanos.

Ao longo das décadas, acompanhamos o crescimento dos filhos e netos de Sunja. Noa tenta desesperadamente integrar-se à sociedade japonesa. Já Mozasu, outro filho do casal, abandona os estudos e encontra prosperidade administrando casas de pachinko, jogo parecido com um caça-níquel. A atividade faz com que seja ainda mais desprezado pelos japoneses, mas é justamente ela que permite prosperar boa parte dos coreanos. Ele também encontra um grande amor, mas seu desfecho é deveras triste.

A narrativa expande-se para a geração seguinte, especialmente com Solomon, filho de Mozasu, que, apesar de formado em uma universidade dos Estados Unidos e fluente em inglês, japonês e coreano, sofre o racismo estrutural mesmo ocupando um cargo executivo em uma grande empresa.

Nos apegamos muito aos personagens. Sunja nunca desiste e está sempre cozinhando. Aliás, a comida é algo muito presente no romance. Chama a atenção o valor do arroz branco e o quanto ele era importante naquela época, tanto que foi o presente de casamento dado por Yangjin à filha. Também é com arroz branco que o novo casal é recebido ao chegar ao Japão. “Arroz branco. — Só por hoje, para a primeira noite de vocês aqui. Esta é a sua casa agora.”

Outro personagem que desperta curiosidade é Hansu. Nunca soube ao certo quais eram suas verdadeiras motivações. Em diversos momentos ele reaparece na vida da família, e fiquei me perguntando se também não era alguém tentando encontrar seu lugar no mundo. Afinal, ele próprio carrega uma história bastante triste, sobretudo pela morte do pai.

Também gostei muito de Kyunghee, cunhada de Sunja. Ela está sempre ao lado da família, buscando formas de enfrentar as dificuldades e seguir em frente. A amizade entre as duas talvez seja uma das relações mais bonitas do romance. Há ainda Kim Chang-ho, que acaba se aproximando da família e de Kyunghee.

O título remete ao pachinko, jogo em que habilidade e acaso se misturam. A autora mostra como uma família tenta construir uma vida entre dois países, sem ser plenamente aceita por nenhum deles. Foi adaptado para a TV em um excelente produção da Apple TV+, que quebrou a linearidade da história. Ainda fico com o livro, porém. Apesar de ver e rever a abertura da primeira temporada inúmeras vezes. É contagiante!


Curiosidade:

“Devido às exigências do governo colonial, era normal que os coreanos tivessem dois ou três sobrenomes, mas na Coreia ela praticamente não usava o tsumei japonês que aparecia em seus documentos de identidade (Junko Kaneda), porque não frequentava a escola e não tinha nenhuma relação com instituições oficiais. O sobrenome de nascimento de Sunja era Kim, mas no Japão, onde as mulheres adotavam o nome de família do marido, ela era Sunja Baek, que se traduzia como Sunja Boku, e em seus documentos de identidade seu tsumei agora era Junko Bando. Quando os coreanos tiveram que escolher um sobrenome japonês, o pai de Isak escolheu Bando porque soava como a palavra coreana ban-deh, que significa “objeção”, o que tornava seu sobrenome japonês obrigatório uma espécie de piada. Kyunghee havia assegurado a ela que logo todos aqueles nomes se tornariam normais.”


Por fim, um dos trechos que mais me marcou:

"Quando era uma jovem mãe, costumava haver apenas um momento em suas horas de vigília em que sentia uma espécie de paz, e era sempre depois que os filhos iam para a cama. Desejou vê-los como eram naquela época: as pernas gordinhas e brancas, os cortes de cabelo desiguais, porque nunca paravam quietos no cabeleireiro. Desejou poder desfazer as vezes em que os havia repreendido só porque estava cansada. Havia cometido tantos erros. Se a vida permitisse revisões, ela os deixaria ficar um pouco mais no banho, leria mais uma história para eles antes de dormir e prepararia mais um prato de camarão."

Certamente, eu deixaria o camarão de lado. Todavia este não é o objetivo do texto. Indico muito a leitura.

Nota: Cheguei até Pachinko por dois motivos. O primeiro foi a capa linda, com uma coreana em trajes típicos, o hanbok. O segundo foi porque vi no enredo que ele poderia ser a continuação de uma série coreana que eu tinha acabado de assistir, Mr. Sunshine. Ela retrata os últimos anos do Reino de Joseon, como a Coreia era conhecida até então. A história começa em 1871, época em que o país sofreu a invasão dos Estados Unidos e, posteriormente, a ocupação japonesa. Foi perfeito seguir essa ordem e conhecer uma história que ainda me era desconhecida.

domingo, 14 de setembro de 2025

o desabamento


Quando recebe a notícia da morte do irmão mais velho, Édouard não sente nada. Para não dizer absolutamente nada, pensa na mãe. É por ela que decide ir ao enterro. Durante o percurso, tenta entender o que aquele irmão significou para ele. 

"Talvez a gente possa ficar verdadeiramente e autenticamente consternado quando é tarde demais, não sei." 

As lembranças, porém, não são boas. O irmão não gostava de trabalhar, vivia arrumando encrencas e espancava as namoradas. Sua presença sempre esteve associada à violência.

Ainda assim, Édouard se recorda de alguns momentos que destoam dessa imagem, como quando foi morar por alguns dias com o irmão para estudar em uma escola melhor. Foi recebido de braços abertos. O irmão fazia questão de chamá-lo de "meu irmãozinho" e parecia feliz com sua presença. Mas não conseguia evitar a bebida. Sempre voltava bêbado para casa, deixando Édouard abalado e tomado pelo ódio. Lembra também de quando o irmão conseguiu um emprego no qual realmente acreditava. Parecia, enfim, disposto a mudar de vida. Mas foi completamente desestimulado pelo padrasto, pai biológico de Édouard, que já estava cansado das sucessivas tentativas frustradas do enteado.

Para compreender quem aquele homem realmente foi, Édouard conversa com a mãe, a irmã e antigas companheiras do irmão. Cada uma delas revela uma faceta diferente: o filho, o irmão, o companheiro agressivo, mas também alguém que, em alguns momentos, tentou construir outro caminho. Aos poucos, a imagem que parecia definitiva começa a ganhar nuances. 

"Meu irmão era tão despossuído de tudo, de dinheiro, de seus sonhos, de felicidade, que esse discurso de ódio era, de certa forma, tudo o que tinha." 

O livro é forte e corajoso. Apenas pelo fato de espancar as namoradas, o irmão já não pareceria merecer qualquer gesto de compaixão. Ainda assim, Édouard Louis decide ir além desse julgamento e tenta entender o que o levou a seguir esse caminho. Não para encontrar uma justificativa, porque ela definitivamente não existe, mas para, talvez, entender quem de fato ele foi no meio de tantas derrotas, humilhações e falta de perspectivas.

"Como esquecer quando não há nada pela frente?"

A escrita é direta, limpa, sem delongas. Em muitos momentos, tive a impressão de que havia alguém sentado à minha frente apenas contando essa história, de forma objetiva, quase fria. O desabamento foi meu primeiro contato com o escritor francês Édouard Louis, conhecido por transformar experiências pessoais em literatura. E terminei a leitura com a sensação de que ainda há muito a descobrir sobre sua vida por meio da sua obra.

sábado, 6 de setembro de 2025

sagarana



Obra de estreia de João Guimarães Rosa, Sagarana traz contos que narram a vida no sertão mineiro. Inicialmente apresentado, em 1938, como Contos para um concurso literário, ele foi refinado para sua versão que hoje temos em mãos. Para tanto, foram excluídos três textos, houve revisões, lapidações e a publicação em 1946 com o neologismo Sagarana, marca que se tornaria uma das principais características do autor.

S A G A R A N A. Soma do germânico saga (conjunto de estórias) com o tupi rana (à maneira de). Ou seja, à maneira das estórias orais. E é exatamente assim que lemos os textos. Parece que estamos ouvindo alguém a nos contar o que se passa no pedaço de terra “que era seu”, como o autor mesmo comentou em carta endereçada ao jornalista e amigo próximo João Condé:

“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais.”

E para além do regional, da tradição de narrar causos, Sagarana, assim como outras obras de Guimarães Rosa, traz personagens animais que refletem, sentem e se relacionam com o mundo de modo próprio. Em alguns momentos, eles aparecem como personagens centrais, com escolhas e estratégias próprias. Em outros, são apenas montarias, puxam carros, compõem a paisagem. Há também os animais que aparecem apenas para serem apreciados. Os gaviões despertam admiração de um narrador, que os considera belos, porém, outro personagem rejeita essa visão estética. Para ele, beleza sem utilidade não tem valor. Até o urubu, que surge pairando no céu, é imediatamente associado à função que desempenha no ciclo da morte.

“Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, p’ra mim, seu doutor não leve a mal, p’ra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…”

Ou seja, o animal vale para o que nos serve.

Em Conversa de bois, Manuel Timborna afirma que os animais falam. Seu interlocutor escuta com desconfiança, mas decide ouvir a história que começa com uma irara que se ajeita para ver a passagem de um carro de bois. Rosa descreve seus movimentos, suas escolhas e a forma como calcula o melhor lugar para permanecer escondida. Depois aparecem os bois, todos nomeados: Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé. Eles sentem o calor, os insetos, o peso da carga e conversam entre si. Sabem que são bois de carro e distinguem-se daqueles que vivem apenas pastando, os bois em massa. Durante a viagem, acompanham também o menino Tiãozinho, que segue ao lado da junta levando o corpo do pai e lamentando ter que conviver com o carreteiro. Os bois observam tudo o que acontece ao redor e resolvem ajudar o garoto. Ficou para mim a questão: seriam os bois a metáfora para o peso que o garoto carrega?

“Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!

— Falam, sim senhor, falam!… — afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, — filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; — Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.

— Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje:… “Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!…” Mas, e os bois? Os bois também?…

— Ora, ora!… Esses é que são os mais!… Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu.” 


Em O burrinho pedrês, Sete-de-Ouros é chamado para uma caravana por falta de outras montarias. Velho e experiente, já passou por muitos donos e vive agora numa espécie de aposentadoria. Durante a viagem, acompanhamos os vaqueiros conduzindo uma grande boiada até o embarque no trem. Os bois chegam em massa, vindos de diferentes regiões, formando uma multidão de cores, tamanhos e origens. A boiada pressente a tempestade que se aproxima. Mais tarde, durante a travessia, alguns cavalos empacam diante da água. Os vaqueiros decidem então seguir a decisão do burrinho: se ele entrar no rio, todos entram. Sete-de-Ouros observa o ambiente, avança e atravessa a enchente nadando. Muitos homens e cavalos morrem na travessia, mas o burrinho consegue alcançar terra firme levando dois vaqueiros consigo. De volta ao curral, procura o cocho, come milho e se acomoda para voltar ao precioso descanso.

Em Sarapalha, o cenário é outro. O conto acompanha Primo Ribeiro e Primo Argemiro vivendo isolados numa região devastada pela maleita. Ali permanece também o cão perdigueiro Jiló, que circula entre os dois homens e acompanha o cotidiano daquele lugar marcado pela doença e pela solidão. No final, o animal terá que decidir com qual dos donos - a posse permeia as histórias - ficará.

Já em Minha gente, um rapaz da cidade visita a fazenda do tio e reencontra a prima por quem se interessa. A narrativa acompanha deslocamentos pela paisagem rural, sempre a cavalo. Durante o trajeto, aparecem diversos animais: vacas, zebus, bois, gaviões, carcarás, anus e urubus. Alguns são descritos pela aparência, outros pela utilidade. O cavalo, porém, permanece quase sempre apenas como montaria, acompanhando os personagens ao longo do caminho.

Em São Marcos, acompanhamos Izé, que vive em um povoado onde a feitiçaria faz parte do cotidiano. Embora declare não acreditar nessas práticas, ele passa constantemente pela casa de João Mangolô e zomba do feiticeiro. Em seus passeios pelo mato, dedica-se a observar a natureza, as cores, os ruídos, os movimentos mínimos. Certo dia, subitamente, fica cego. Desorientado, acaba recorrendo justamente à reza de São Marcos, que antes tratava com ironia. Ao pronunciá-la, recupera a visão e descobre que Mangolô havia “amarrado” simbolicamente seus olhos.

Corpo Fechado mostra um local conhecido por ter vários valentões. Manuel Fulô é um deles, famoso por suas histórias e trapaças, vê-se ameaçado por Targino, o novo chefe local, que anuncia publicamente sua intenção de dormir com sua noiva antes do casamento. Manuel recorre, então, a um feiticeiro que lhe promete “fechar o corpo” contra qualquer agressão. Como troca, exige sua querida mula. E eis que dá certo, e ele vence o adversário. A narrativa mistura superstição, disputa de poder masculino, desvaloriza a mulher e o animal. Tanto a mula que foi moeda de troca, como um rato e gato que também aparecem no conto, presos e forçados a fazerem amizade pelo próprio Fulô.

Em A hora e vez de Augusto Matraga, acompanhamos a trajetória de Nhô Augusto, homem violento e temido, que perde prestígio político e familiar. Espancado e dado como morto após tentar reagir à traição e à perda de seus aliados, é salvo por um casal de negros e passa por um período de isolamento e penitência. Trabalha, reza, busca redenção. Anos depois, ao encontrar o jagunço Joãozinho Bem-Bem prestes a executar uma família por vingança, intervém. 

A volta do marido pródigo nos mostra Lalino Salãthiel, que nunca gostou muito de trabalhar e que sempre sonhou com a oportunidade de sair daquela cidade pequena onde morava e ir para um lugar maior. Surge, então, a chance de ir para o Rio de Janeiro. Ele parte, deixa a esposa, Maria Rita, na cidade, e na capital cria para si uma nova história, uma narrativa de sucesso que talvez não corresponda exatamente aos fatos. Vive a cidade grande, aproveita o que pode, constrói uma imagem de si mesmo. Mas acaba voltando. E, diferentemente do filho pródigo bíblico, não é recebido com festa. Maria Rita já está casada com outro homem, um espanhol. É nesse momento que surge nele a vontade de recuperar o que perdeu. Resta saber se o desejo é amor, orgulho ferido ou simples incapacidade de aceitar que foi substituído.

Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.

A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.

sábado, 30 de agosto de 2025

o pequeno caderno das coisas não ditas


"Se você usa dureza para resistir à força, então ambos os lados se quebram. Tai chi enfrenta a dureza com suavidade, assim a força que chega se esgota."

Que tal um projeto de autenticidade? E o que exatamente isso quer dizer? Monica encontra um caderno com essa proposta na mesa do seu café. Até tenta alcançar a pessoa que o deixou ali, mas não consegue.

"Quanto você realmente conhece as pessoas que moram perto da sua casa? Quanto elas realmente conhecem você? Por acaso você sabe o nome dos seus vizinhos? Saberia se eles estivessem com problemas, ou se passassem dias sem sair de casa? Todo mundo mente sobre a própria vida. O que aconteceria se, em vez disso, você compartilhasse a verdade? Aquela única coisa que define você, que faz todo o resto a seu respeito se encaixar? Não na internet, mas com as pessoas reais ao seu redor? Talvez nada. Ou talvez contar essa história acabasse mudando a sua vida, ou a vida de alguém que você nem conhece. Isso é o que eu quero descobrir."

Achei a premissa de O pequeno caderno das coisas não ditas, de Clare Pooley, exagerada e forçada. Sem contar os personagens, que muitas vezes são bem irritantes, como o insuportável Julian, o artista idoso tido como excêntrico. Foi ele quem deixou o tal caderno, numa tentativa de se redimir dos estragos que causou durante a juventude, em especial à esposa, algo que só descobrimos perto do final.

Mas segui a leitura porque ela se passava em um pequeno café, porque eu queria algo leve e porque achei que poderia ser como o deliciosoA caderneta vermelha, de Antoine Laurain. Só não esperava encontrar uma história tão superficial.

Bem, a ideia é essa. Você esbarra num caderninho propondo a maluquice de escrever nele seus segredos e deixá-lo em algum lugar, aleatoriamente. A pessoa que o encontrar deve seguir a brincadeira: ler o que você escreveu e registrar também seus pensamentos. E eis que todos concordam e passam a compartilhar angústias, medos, erros. Obviamente, acabam se reunindo e formando uma pequena comunidade disposta a mudar e ajudar uns aos outros.

No meio de tudo há Monica, já citada, cujo sonho é ser mãe, há um viciado em drogas, uma influenciadora cuja vida parece perfeita, mas que vive uma crise no casamento, e o chato do Riley, que não sei de qual universo paralelo surgiu.

O fato é que as histórias de todos praticamente já sumiram da minha memória, sinal de que o livro também não foi tão essencial assim. Não recomendo.