sábado, 7 de dezembro de 2019

a pequena livraria de sonhos

 



“Ler é existir na história.”


A pequena livraria dos sonhos”, de Jenny Colgan, é uma homenagem a todas as leitoras e leitores. Certamente, quem gosta de livros vai se identificar com algumas passagens da protagonista. No meu caso, ainda me identifiquei com a paixão que ela tem pelo frio. Talvez até por ser um momento ainda mais aconchegante para termos junto de nós um belo romance.

“Se você não tem lareira em casa, serve uma vela. Quando vai chegando o inverno, já começo a sonhar com o aconchego de uma lareira e um bom livro - quanto maior, melhor. Nada melhor do que um romance bem, bem longo, uma caneca generosa de chá ou uma taça de vinho.”

Nina mora em Birmingham, na Inglaterra, é bibliotecária e sua grande ambição é ler cada vez mais. Até que anunciam que a biblioteca em que trabalha vai fechar e apenas alguns funcionários serão remanejados para outro lugar, uma espécie de centro tecnológico. Ela até tenta participar do processo seletivo, que inclui todas aquelas entediantes dinâmicas em grupo e entrevistas para saber se você é o candidato ideal. Desesperada por ter que fazer parte de um mundo com o qual não se identifica, Nina, que nunca havia feito nada de diferente, surpreende a todos ao tomar a decisão de se mudar para a Escócia. Claro que não é nada fácil. No meio de tudo isso há dilemas, enrolações e um certo empurrão da amiga com quem mora e que já não suporta mais os inúmeros livros que Nina leva para casa. Resultado: ela vai parar em terras escocesas dentro de um furgão, que transforma em uma linda e fofa livraria, daí o título do romance.

Bem, dá muita vontade de passear com Nina em sua livraria itinerante. Ela sabe exatamente o tipo de livro que o leitor precisa, a cura para seus males, algo bem na linha de “A senhora das especiarias”, de Chitra Banerjee Divakaruni. Ou daquele lindo filme Chocolate, do sueco Lasse Hallström, que traz Juliette Binoche e Johnny Depp. Ambos trazendo espécie de feiticeiras do bem que com especiarias e doces ajudam a vida dos infelizes. De certo modo, é o que Nina faz. Obviamente, ela própria vai precisar de ajuda quando encontrar alguns amores pelos caminho. Aliás, fiquei encantada com a forma com que ela e um pretendente trocavam mensagens perto da linha de trem: por meio de livros presos na árvore. Lindo. Nem preciso dizer que o fim é previsível e que a história não tem nada de extraordinário, mas me deixou doida para revisitar a Escócia, um dos locais mais belos que já vi. E, quem sabe, também ter meu próprio espaço de incentivo à leitura.

“Nina sempre fora uma pessoa quieta e isolada, e observava o mundo através dos romances que adorava ler.”

“Algumas pessoas passam a vida inteira sem conseguir tomar muitas decisões, sem querer se comprometer, sempre com medo das consequências de tentar algo novo.”

“Nina amava os dias úmidos e frios de inverno; gostava de se sentar perto do aquecedor e ficar ouvindo a chuva lá fora fustigando o vidro da janela.”

“Na maior parte da vida, o mundo lá fora era apenas algo do que se proteger enquanto ficava em casa com um livro.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

dias de abandono




"O futuro, de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais."

Fazia tempo que não me sentia tão incomodada com um livro. Acredito que a última vez que eu tenha me sentido tão mal tenha sido após a leitura de "Timoleon Vieta volta para casa", de Dan Rhodes. E pelo mesmo motivo: abandono de cachorros. 


Tudo bem que este não era o foco principal de "Dias de abandono", de Elena Ferrante. Contudo, foi o que mais me atormentou. Trata-se do fluxo intenso de pensamento de Olga, após a decisão do marido de deixá-la. Como a narrativa é única e exclusivamente sob seu ponto de vista, só conhecemos suas razões. O fato é que está na cozinha, em um dia normal, as duas crianças brincando, o cachorro dormindo, ela e o marido conversando e eis que ele anuncia que está indo embora. Pronto. O caos é instaurado. Quem já passou por rompimento amoroso sabe a dor que se sente diante da rejeição de alguém em quem depositamos sonhos e expectativas. Passamos por um período de luto, muito bem definido por Alain de Botton em "Ensaio de Amor" (super recomendo!). Mais ou menos assim: dor intensa, queremos morrer. 

Depois vem a revolta e nos questionamos por que perdemos tempo com tal pessoa. Se surgir outro crush, a coisa é mais fácil de se resolver e vida que segue. Mas, no geral, ninguém morre por isso. Eu disse no geral. Porque no caso da nossa protagonista o que temos é definitivamente o seu real abandono. Ela simplesmente desiste de tudo. Praticamente se arrasta pela casa remoendo o tempo que passaram juntos, sua vida dedicada somente a cuidar do marido e filhos, o fato de não ter seguido com o que gostava, em detrimento da escolha pela vida em família. "Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente." Os filhos e o cachorro viraram um estorvo. Não consegue dar conta das coisas mais corriqueiras como, por exemplo, ir ao banheiro. Há um trecho em que ela "se alivia" no bosque, após caminhar de camisola e pantufas. Os filhos, de aproximadamente 6 e 10 anos anos, têm que se virar sozinhos. O cachorro, coitado, é ignorado. E nas poucas vezes em que ela resolveu passear com ele eu gelava. Já via o bicho sendo atropelado por displicência. Eu não estava tão errada. Algo terrível vai acontecer com Oto. O pior é que ela, no ápice de sua letargia, não vai conseguir ajudá-lo. Aí eu acelerei a leitura, da forma mais dinâmica possível, para evitar ler os detalhes da situação em que ela se colocou, colocou os filhos e, infelizmente, o pet. Em tempo: sim, o marido foi um tremendo canalha. 

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor.”

domingo, 3 de novembro de 2019

a filha perdida



“Um pedido satisfeito torna ainda mais
insuportável a falta não confessada.”


A filha perdida”, de Elena Ferrante é uma leitura rápida que traz o fluxo de pensamento de uma professora de 48 anos. Após anos cuidando das filhas, ela se vê, de certa forma, livre para cuidar de sua própria vida. As meninas, já crescidas, foram morar com o pai em outro país e ela voltou a lecionar e fazer coisas que ficaram para trás em sua lista de prioridades. Dentre elas, tirar férias. E é durante o período de recesso que sua mente mostra não estar tão boa.

Leda arruma as malas e vai para o litoral sul da Itália. Lá, enquanto fica em um canto tranquilo da praia, continua trabalhando, lendo seus livros e corrigindo trabalhos. Até que uma família lhe chama a atenção. Primeiramente, percebeu a jovem mãe e sua filha de cerca de dois ou três anos. Gosta de olhar para as duas e ver como são unidas, relacionamento que ela não teve com sua mãe e suas filhas. De certa forma, isso a atrai ao mesmo tempo que lhe traz lembranças amargas. O conjunto de sentimentos acaba fazendo com que a família, que logo se mostra enorme, barulhenta e confusa, seja uma obsessão em seus passeios diários. Chega a ser patética. E tudo piora quando a bebê desaparece, deixando todos enlouquecidos, inclusive Leda, que também participa das buscas. Porém, num impulso doentio, Leda ‘rapta’ a boneca da garota. É como se quisesse recuperar, com isso, sua infância. Talvez daí venha o título do romance. Em paralelo, ela tenta se aproximar do salva-vidas da praia, mas descobre que é apaixonado pela jovem mãe. Ou seja, nada fácil para nossa problemática protagonista. A ideia que fica é o arrependimento por coisas que deixamos de fazer, sonhos que abandonamos e relacionamentos que negligenciamos. Leitura sensacional. Só larguei o livro no fim.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.”

sábado, 19 de outubro de 2019

a casa dos novos começos



"Pode dentro as pessoas eram frágeis. Todas se escondendo, construindo máscaras para se proteger."



Mais um livro que li e que traz como cenário Brighton, cidade litorânea da Inglaterra. Sempre que me deparo com ela me dá uma baita nostalgia dos dias que lá estive. O lugar é incrível e merece sempre ser revisitado, nem que seja por meio da literatura. Ao contrário de “Em casa para o Natal”, no qual a protagonista havia crescido neste local, em “A casa dos novos começos”, de Lucy Diamond, as três protagonistas são forasteira e encontram em Brighton a esperança para dias melhores. E a casa em questão é um pequeno prédio no qual todas vão se encontrar.

O romance começa com Kate, que para mim tem a história mais triste das três e é a única que realmente precisa de muito amparo. Ela quer fugir de toda e qualquer lembrança da terrível perda que teve. Acaba encontrando um emprego em Brighton, onde ninguém a conhece e, por isso, consegue passar a maior parte do tempo isolada com seus próprios pensamentos. Contudo, acaba conhecendo Margot, uma idosa francesa que lhe mostra que, independentemente de qualquer coisa, a vida continua. Se bem que no caso de Kate é bem difícil. Eu não saberia lidar com o que ela passou.

Temos, então, Rosa, que é publicitária, bem-sucedida profissionalmente, mas que se envolve, sem saber, com um homem casado. Desesperada, larga tudo e tenta outra vida como cozinheira. No início, tudo parece complicado e ela pensa em desistir, mas as coisas saem melhor que o esperado e ela acaba se realizando. Ops, spoiler. Mas desculpem, o livro não tem suspense.

Por fim, há Georgie, a mais nova das três. Ela se muda com o namorado que recebeu uma super proposta de emprego. Sente-se perdida e deslocada, mas logo encontra seus próprios motivos para amar Brighton, inclusive outra profissão e uma causa para lutar. É isso. Leitura gostosa, rápida. Boa para ser lida durante uma viagem. Serve também para quem busca consolo ou algumas palavras de conforto. De quebra, a possibilidade de viajar por esta encantadora cidade. Quem sabe a leitura não seja o começo de uma viagem real.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

a árvore dos anjos



 “As pessoas que amamos nunca nos deixam.”


E lá fui eu para outro romance de Lucinda Riley. A capa foi o que mais me chamou a atenção: paisagem na neve. E a história começa no País de Gales, em 1985. Volta para 1945, passa por 1956 e termina na década de 80.

Conta a história de Greta, aspirante a atriz que bem jovem acaba engravidando de um norte-americano. Eles eram de fato apaixonados, mas ele não suporta vê-la nua no palco e rompe o relacionamento. Ela fica na mão e é resgatada por David, amigo que também sonha com o sucesso nos palcos e que, secretamente, sempre a amou. Com seu auxílio, Greta vai para a cada dele no País de Gales. Lá conhece James, tio de David, bem mais velho e que também tem lá seus segredos, e num acordo bom para ambos acabam se casando. 

James assume os filhos de Greta (a gravidez era de gêmeos) e logo passa a ter a preferência por um deles, Jonny, ignorando Cheska, a garotinha. Mesmo assim, a família está feliz e seguindo a vida, até que Jonny adoece e morre com apenas três anos. Isso, como é de se esperar, deixa todos transtornados. Mas Owen, o marido de Greta, não suporta a dor e se transforma, tornando-se violento e obcecado, chegando a colocar as roupas do menino em Cheska e conversando com ela como se fosse o menino. Greta foge para Londres e lá outro mundo lhe é apresentado. Ela reencontra David, que agora é famoso, e com sua ajuda consegue inserir a filha no cinema. E ela é um sucesso, deixando a mãe cada vez mais obcecada por torná-la a grande estrela do cinema. A menina cresce e junto os traumas e medos da infância. A mãe ignora os sinais de seus transtornos mentais, o que só agrava o quadro, culminando com um acidente que deixa Greta por mais de 20 anos sem memória. O romance até que começou bem, mas fugiu um pouco do que estava acostumada a ler de Lucinda, que sempre me deixava meio que leve. Este foi perturbador. Enfim, lido. Mas não recomendo.

“Cinco minutos depois, usando botas de cano alto e uma velha jaqueta, saiu caminhando pela neve, inspirando o maravilhoso ar puro e frio. Fez uma pausa, pensando em que rumo tomar, torcendo para que algum instinto a guiasse, e resolveu dar um passeio pelo bosque. Enquanto andava, contemplou o azul do céu uma súbita alegria a invadiu, diante da beleza da cena.”

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

a nova razão do mundo





“Os neoliberais opõem-se a qualquer ação que entrave
o jogo da concorrência entre interesses privados.”


A partir de breve panorama do liberalismo, os franceses Pierre Dardot e Christian Laval falam, em “A nova razão do mundo”, sobre a evolução e as transformações que fizeram com que o neoliberalismo se tornasse, mais que um sistema político e econômico, uma racionalidade que permeia nosso modo de viver.

Eles dão, inclusive, a data para seu início, 26 de agosto de 1938, durante o Colóquio Walter Lippmann (jornalista e escritor norte-americano). Esse evento, que durou cinco dias, encerrou-se com a criação do Centro Internacional de Estudos para a Renovação do Liberalismo.

Não vou ter a pretensão aqui de resumir a obra, que merece ser lida na íntegra. Apenas vou elencar o que mais me chamou a atenção e o que me faz recomendar muito o livro.

A leitura nos leva a refletir sobre como incorporamos, mesmo sem querer, os valores do neoliberalismo em nosso dia a dia, tanto em nossas relações profissionais, como nas pessoais. A lógica aplicada é a da concorrência a qualquer preço. Não importa o que seja feito, o importante é sempre sair na frente. Os autores falam muito sobre a valorização de empreendedores. Todos precisam ter ideias mirabolantes, executá-las e ganhar muito dinheiro com isso. Quem fizer menos, é perdedor e não merece nenhum benefício para apaziguar seu fracasso. Um exemplo são programas que limitam (ou até mesmo tiram) o apoio dado aos desempregados em alguns países europeus. Eles são obrigados a aceitar os empregos que lhes são oferecidos sob pena de ficarem sem nada. Na verdade, ao contrário do liberalismo que surgiu como forma de acabar com o autoritarismo e que pregava o laissez-faire, “no qual o indivíduo é livre para escolher entre diversos modos de agir, sem ser tolhido pela ameaça de ser punido”, o neoliberalismo parte da premissa de que todos precisam atuar como empresas, inclusive os autores falam do ‘homem empresarial´, “sujeito que tenta superar os outros na descoberta de novas oportunidades de lucro”, o que não deixa de ser outra forma de autoritarismo, se pensarmos bem.

“Toda situação que não corresponde às condições da concorrência pura e perfeita é considerada uma anomalia que impossibilita a realização da harmonia preconcebida entre os agentes econômicos.”

Pregam ainda a limitação do Estado, pois acreditam que o governo pode cair no viés de assistência social, facilitando a vida daqueles que de algum modo não se encaixam na ordem dos negócios e das relações. Em outras palavras, o assistencialismo, que é absolutamente repudiado por esta racionalidade. Partem da afirmação seca: “se uma pessoa não deseja trabalhar, não deve comer.” Por outro lado, o poder das grandes organizações privadas aumenta consideravelmente, e são elas que ditam como as coisas devem ser, inclusive legislações. Neste sentido, a ética nas transações comerciais passa a ser questionável, prova disso é a ascensão recente dos programas de compliance, que visam a dar conta de problemas que podem prejudicar a reputação das organizações e a continuidade de seus negócios.

Essa forma de pensar é incorporada sobretudo nas relações profissionais. Basta analisarmos como somos constantemente avaliados nas organizações, as bases dos famosos ´feedbacks´ dados pelas lideranças e ainda a competitividade acirrada entre os diversos setores das companhias. Outro exemplo é a busca por curtidas e comentários nas redes sociais. Mais do que viver determinado momento, queremos que ele seja visto pelas pessoas, queremos que nossa realidade virtual seja a melhor de todas, a regra é o exibicionismo. “O neoliberalismo não destrói apenas regras, instituições, direitos. Ele também produz certos tipos de relações sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades.

É uma eterna corrida para ver quem mais se sobressai. O resultado é o aumento, cada vez mais expressivo, de doenças mentais, como burnout, ansiedade e depressão. Temos diante de nós um paradoxo interessante: de um lado sabemos o que nos faz mal, mas alimentamos isso, mesmo quando queremos mostrar que estamos pisando no freio. Talvez a saída esteja nas próximas gerações. A cultura do compartilhamento cresce. Com ela a ideia de que o menos é o melhor. Ainda assim, por trás, temos a ânsia em apresentar as melhores soluções para esta ‘economia colaborativa’. “A ação coletiva se tornou mais difícil, porque os indivíduos são submetidos a um regime de concorrência em todos os níveis.” Afinal, “a polarização entre os que desistem e os que são bem-sucedidos mina a solidariedade e a cidadania.” Esta é a nova razão do mundo. É a razão do nosso capitalismo.

“Com o neoliberalismo, o que está em jogo é nada mais nada menos do que a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da modernidade. Essa norma impõe a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada, intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns contra os outros, ordena as relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa. Há quase um terço de século, essa norma de vida rege as políticas públicas, comanda as relações econômicas mundiais, transforma a sociedade, remodela a subjetividade.”

sábado, 17 de agosto de 2019

a revolução dos bichos



“Todos os animais são iguais. 
Alguns mais iguais que os outros.”

Foi ótimo ter lido “A revolução dos bichos”, do inglês George Orwell, logo após a leitura de “Inverno do mundo”, de Ken Follett, que termina com o fim da segunda guerra mundial e a expectativa de governos mais democráticos. Contudo, a realidade é bem diferente. Surgem a divisão da Alemanha, a Guerra Fria e o alastramento do medo, inclusive em nações que dizem pregar a liberdade, mas que, de forma velada, continuam a permitir o racismo e a violência.

A obra de Orwell, lançada em 1945, como afirmou o próprio autor, é uma fábula da revolução russa. O autor usa animais para falar como se deu a destituição dos czares e a tomada do poder pelos comunistas. Vale destacar que ele próprio, após passar por vários perrengues na vida, participou de movimentos socialistas, em especial na Espanha, tendo se deparado com o autoritarismo e o cerceamento da liberdade que o levaram a refletir sobre os verdadeiros valores do movimento. “Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobre dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer administração teórica por uma sociedade planificada.”

O cenário é a fazenda Granja do Solar. Numa noite, quando o proprietário vai dormir, os bichos são convocados para uma reunião urgente. Aos poucos vão se ajeitando no galinheiro para ouvir o velho Major, porco premiado em concursos humanos e que tem o respeito e admiração de todos. A pauta é sobre um sonho que ele tivera e que mostrava como seria o mundo quando o Homem desaparecesse, e também sobre uma canção da infância, cantada pela mãe, que clamava por uma revolução contra os tiranos. Major aproveitou para discursar sobre as condições nas quais os bichos viviam, sempre explorados.

“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida. Nenhuma animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.”
Três dias depois desse encontro, ele morre e a bicharada fica apreensiva para levar o ´sonho´ do Major adiante. A missão acaba caindo sobre os porcos, em especial dois deles, que mais se destacavam no grupo: Bola-de-Neve e Napoleão. Eles organizam o levante e o plano dá certo. Conseguem expulsar os humanos da propriedade, assumindo o controle de suas produções. No início tudo corre bem, com os bichos engajados em provar que o caminho escolhido foi o melhor. A canção apresentada por Major torna-se o hino dessa nova fase, mandamentos são criados e regras de convivências estabelecidas.

Com o tempo, acaba havendo uma divergência em relação aos projetos, em especial a criação de um moinho de ventos. Bola-de-Neve permanece fiel aos ideais de Major, pensando em formas de tornar o trabalho mais justo. Napoleão acaba por gostar da produtividade decorrente dos esforços e pensa em uma forma de ´lucrar´ e fazer a fazenda crescer. Enquanto ficam nesse dilema, surge uma reviravolta e os antigos moradores atacam a fazenda. Muitos animais morrem e os ânimos ficam bem abalados. É a oportunidade que Napoleão precisava para dar um golpe em Bola-de-Neve acusando-o de estar confabulando com o inimigo. Resultado, Bola-de-Neve acaba sendo expulso da Granja. Nisso, Napoleão alia-se a alguns humanos para vender seus produtos. E não é que ele gosta da coisa? Tanto que, utilizando o discurso de ´camaradas, é para nosso bem, para os humanos não retornarem´, explora seus parceiros ainda mais. A figura que retrata o trabalhador que realmente aceita o que está sendo dito é Sansão, cavalo que adota como lema “Trabalharei mais ainda”. Seu fim é triste. E tentar ajudá-lo é a única participação ativa do burro Benjamim, que apesar de saber mais que os outros, preferiu se omitir. Mas sua manifestação aconteceu tarde demais. Há também aqueles que começam a desconfiar do que está acontecendo, porém, somente a dúvida já é motivo para serem mortos. Chega, enfim, um momento em que passam a tocar a vida, esquecendo as premissas que os levaram a ‘assumir’ o controle da fazenda e não sabendo mais o que é o homem e o que é o bicho. Claramente, Napoleão representa Josef Stalin. Bola-de-Neve é Leon Trótski, que, por divergência de opiniões, foi expulso do partido de Stalin, refugiando-se em vários países até chegar no México, onde foi morto por um agente recrutado pelo governo soviético. Major é Karl Marx, que teve o sonho de um mundo sem desigualdades, mas com a infelicidade de deixar seus postulados nas mãos de pessoas que não entenderam seu real significado.

A despeito das questões políticas e históricas apresentadas, essa distopia de Orwell pode servir também para as questões da proteção aos animais. Há citações que retratam claramente o modo como os tratamos, na premissa de que somos superiores. Cabe aqui também a análise a partir do especismo. Inclusive, o trecho que fala sobre como alguns animais são mais iguais que os outros é bem retratado no livro. Há aqueles que por estarem mais próximos do ser-humano têm direitos estabelecidos, chegando até a ser humanizados, por isso, a dificuldade dos demais em saber quem é quem no fim do livro. Enquanto isso, os demais vivem a submissão de forma mais evidente, ou melhor, são simplesmente coisas. Encontrei na internet uma tese, da Universidade de Tampere, Finlândia, que analisa o romance sob a ótica do pós-humanismo. Publicado em 2016, traz vários elementos que corroboram com esse olhar.

O romance teve adaptação para o cinema, em 1954 com uma animação, e uma para TV em 1999. Uma nova versão foi prometida pela Netflix.

“O homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante.”

sábado, 27 de julho de 2019

inverno do mundo



“Por que uma gente que desejava destruir tudo o que seu país simbolizava era a primeira a acenar com a bandeira nacional?”

O que dizer de um livro com mais de 900 páginas que te deixa com a sensação de ‘quero mais’? Foi assim com “Inverno do Mundo”, segundo livro da trilogia histórica “O Século” do britânico Ken Folllett. Tanto que economizei os últimos capítulos, lendo-os de forma bem pausada, para que o romance não terminasse logo.

A narrativa começa com a chegada de Hitler ao poder e a ascensão do partido nazista em 1933, exatamente no ponto em que terminou o primeiro livro, “A Queda de Gigantes. Neste momento, os alemães e austríacos (von Ulrich) da história recebem a visita dos galeses (Williams). Juntos, presenciam o incêndio provocado no parlamento pelos nazistas, o que coloca fim aos demais partidos do país. Nos Estados Unidos, os russos (Peshkov) que lá se estabeleceram tentam entrar na alta roda da sociedade, ao mesmo tempo que crescem e enriquecem por meio de negócios ilegais. Em paralelo, dois irmãos norte-americanos de uma prestigiada família de políticos (Dewar) se dividem em suas ambições políticas e militares. Enquanto isso, na União Soviética, o outro lado da família Peshkov sonha com o verdadeiro comunismo, longe da liderança de Stalin e da brutalidade da polícia secreta.

Nesta sequência, acompanhamos os filhos dos personagens principais do primeiro livro. É realmente muito interessante ver o desenvolvimento deles, principalmente porque já conhecemos suas origens. Prevalecem, contudo, as crenças políticas dos pais, o faz com que eles deem continuidade ao trabalho que eles iniciaram por um mundo mais democrático de de livre expressão. Infelizmente, os acontecimentos levam a prisões, batalhas sangrentas e fugas. E quem mais vai padecer é Carla von Ulrich, tanto nas mãos dos nazistas quanto do Exército Vermelho. A passagem em que é violentada é uma das mais fortes do livro. Talvez a exceção nesse cenário seja Daisy Peshkov. Ela surge como garota mimada que quer porque quer tornar-se socialite, e vai conseguir isso na Inglaterra ao casar-se com um visconde, mas no decorrer da história torna-se voluntária na segunda guerra mundial e adepta ao partido trabalhista. Embora não passe pelo sofrimento da guerra, cresce como personagem.

Figuras históricas também entram em cena, como Roosevelt, Truman, Hitler, Churchill e Stalin. Alguns apenas são citados. Outros chegam a contracenar com nossos protagonistas.

Em determinados momentos, a leitura lembra um thriller, dada a rapidez dos acontecimentos, sobretudo durante as narrativas de fatos historicamente conhecidos, como o bombardeio a Pearl Harbor e os testes nucleares que levaram a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Também prendemos a respiração com a violência dos militares de todos os lados. Era uma época em que se sua ideologia política não fosse a que estava no poder, você teria sérios problemas. As consequências eram sentidas na pele e na alma com torturas, estupros e todo tipo de assédio psicológico. Se hoje temos alguma liberdade, temos que agradecer a esses dissidentes, que mesmo diante do cenário aterrorizante, seguiram com seus valores. Afinal, como disse Daisy após sua transformação, “Se você não se interessa, o que acontece é culpa sua.”

Ainda bem que a saga continua com outras 900 páginas no terceiro livro. Imperdível.

“Em política, você sabe que está ganhando quando o adversário rouba suas ideias.

sábado, 13 de julho de 2019

ensinando a transgredir. a educação como prática da liberdade





"Quando levamos nossa paixão à sala de aula, nossas paixões coletivas se juntam e frequentemente acontece uma reação emocional, que pode ser muito forte."

bell hooks (assim mesmo, em minúsculo) é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, professora e escritora norte-americana, conhecida por seu ativismo social e feminista. Dentre as pessoas que a inspiram, está o educador brasileiro Paulo Freire, que considerava a educação um ato revolucionário. Ele acreditava no poder transformador das pessoas a partir do aprendizado baseado no contexto social e histórico de cada indivíduo. Há uma ligação entre o que se aprende na escola e o que se aprende na vida. Mais que aprender a ler e escrever, a pessoa precisa estar ciente do seu papel na sociedade. Para tanto, a liberdade de expressão e o acolhimento dos alunos são premissas indispensáveis, na ideia de "agir e refletir sobre o mundo a fim de modificá-lo."

"Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade" é uma coletânea de ensaios de hooks que tratam da educação participativa e libertadora, ou seja, para realmente trazer mudanças significativas na sociedade, o ensino precisa acontecer de forma engajada, de modo que todos possam ter voz. Não há a figura autoritária do professor. Seu papel é incentivar, às vezes até de modo teatral, a participação de todos, sempre pensando e respeitando a diversidade.

"Quero que estes ensaios sejam uma intervenção - contrapondo-se à desvalorização da atividade do professor e, ao mesmo tempo, tratando da urgente necessidade de mudar as práticas de ensino."
hooks usa sua própria história para ilustrar seu pensamento. Negra, ela iniciou seus estudos durante a segregação racial nos Estados Unidos, época em que o ato de ensinar era político. Esse foi seu primeiro contato com o aprendizado como revolução. Naquele cenário, o objetivo era formar negros que pudessem usar a 'cabeça'. Era a única forma de resistir à hegemonia branca e ao racismo. Havia uma missão e todo o trabalho de ensino tinha como foco edificar a raça, o que implicava conhecer, verdadeiramente, os alunos. 
"Conheciam nossos pais, nossa condição econômica, sabiam a que igreja íamos, como era nossa casa e como nossa família nos tratava."
Por outro lado, era um risco confrontar o que se aprendia na escola com os ensinamentos e valores de casa, na maioria das vezes machistas e autoritários. Enquanto na escola, eles podiam se reinventar através das ideias, os pais os colocavam em seus 'devidos lugares'.

Com a integração racial e a possibilidade de frequentar escolas mistas, o conhecimento passou a ser pura informação. Dos alunos, em especial dos negros, esperava-se apenas a obediência. 
"A excessiva ânsia de aprender era facilmente entendida como uma ameaça à autoridade branca."

Essa mensagem de superioridade branca nas aulas aumentou seu interesse pelo ensino, motivando-a a criar seu próprio modelo de prática pedagógica.

Ensinar não é apenas passar adiante uma informação, o conhecimento, mas contribuir e participar, de fato, do crescimento intelectual e espiritual dos alunos. E reconhecer que todos influenciam e contribuem com a dinâmica da sala de aula.

"Olhando para trás, vejo que nos últimos vinte anos conheci muita gente que se diz comprometida com a liberdade e a justiça para todos; mas seu modo de vida, os valores e os hábitos de ser que essa gente institucionaliza no dia a dia, em rituais públicos e privados, ajudam a manter a cultura da dominação, ajudam a criar um mundo sem liberdade."
Realmente, há desconforto ao ensinar a quebra de velhos paradigmas. Mas os ganhos são enormes. "Os alunos brancos que aprendem a pensar de maneira mais crítica sobre questões de raça e racismo vão para casa nas férias e, de repente, veem seus pais sob outra luz."

Sua paixão é a troca de experiências. Os alunos podem também adquirir conhecimento a partir de experiências que não viveram. Por isso, incentiva todos a falarem sobre suas vidas, percepções, de modo a criar um espaço de livre expressão, onde todos se sintam confortáveis. O resultado é o tão esperado comprometimento. Vale para a escola. Vale para a vida.

"Se tivermos medo de nos enganar, de errar, se estivermos a nos avaliar constantemente, nunca transformaremos a academia num lugar culturalmente diverso, onde tanto os acadêmicos quanto aquilo que eles estudam abarquem todas as dimensões da diferença."

domingo, 30 de junho de 2019

a estetização do mundo



"Há muita ilusão em crer que a formação estética possa ser o caminho moderno da salvação."

Terminei "A estetização do mundo", dos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, desejando não comprar mais nada. Comecei a olhar ao meu redor e ver e rever meus próprios excessos: roupas, sapatos, cacarecos diversos, brinquedos, canecas, livros (sim, até eles).

Eu moro em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Aqui as opções são inúmeras. Há muito de tudo para ser consumido. Entramos em uma padaria e há pães dos mais variados tamanhos, formatos e gostos. Damos uma volta pelas ruas e há produtos que não precisamos sendo oferecidos. O pior é que os compramos. O resultado é o desperdício e o crescimento do lixo. A sustentabilidade é outro aspecto abordado no livro, que dá destaque à história do consumo e de como ele passou a ser envolvido por uma manta estética, ou seja, a importância que as embalagens têm para dar uma áurea especial às mercadorias. O início desse exagero começa com as passagens de Paris, que já tinham suas estratégias para induzir às compras. Na sequência, surgem as lojas de departamentos com suas vitrines temáticas, especialmente no Natal. Hoje, temos os grandes shopping centers. E todos sempre inserindo seus produtos em um mundo de fantasia, onde o imaginário surge como artifício para nos fazer comprar cada vez mais. 

Os autores criticam o capitalismo que, para eles, tem um caráter niilista e que só contribui para as desigualdades econômicas e sociais. Vão mais longe: “o capitalismo também é responsável pelo ‘desaparecimento’ das formas harmoniosas de vida, o desvanecimento do encanto e da graça da vida em sociedade”. Mas ao mesmo tempo questionam se há espaço para pensar o estético dentro do caos instaurado. Hoje, produção industrial e cultural caminham juntas. 
“O estilo, a beleza, a mobilização dos gostos e das sensibilidades se impõem cada dia mais como imperativos estratégicos das marcas: é um modo de produção estética que define o capitalismo do hiperconsumo.” 
Isto não quer dizer que seja menos agressivo. Apenas é uma nova forma de funcionar, explorando o belo para ter mais lucro. Hoje, a realidade se constrói por meio de imagens, que eles chamam de estético-emocional, capitalismo artista ou criativo transestético. Antes de entrar nas análises detalhadas desse conceito, citam as quatro eras da estetização do mundo.

1) Artealização ritual (arte para os deuses): A arte não tem objetivo estético. Ela está interligada com tudo o que envolve a vida das pessoas: crença, trabalho, lutas. Faz parte do ritual para que as necessidades sejam alcançadas: “curar as doenças, enfrentar os espíritos negativos, fazer a chuva cair, fazer aliança com os mortos. Muitos desses objetos rituais não são feitos para ser conservados: são descartados, destruídos depois do uso, ou repintados antes de cada nova cerimônia.” 

2) Estetização aristocrática (arte para os príncipes): fim da idade média até século XVIII. Advento do artista, que vai agradar a um público endinheirado. Surgem a moda, a vida de corte, as ‘boas maneiras’. A igreja adere à necessidade de se ter ambientes agradáveis e sedutores, com fachadas cheias de esculturas, todas ornamentadas. É onde se encontra o Barroco. Os monarcas criam palácios, jardins. O embelezamento das cidades é o foco.

3) Moderna estetização do mundo (arte pela arte): a arte liberta-se do religioso. Torna-se mais sofisticada. Os artistas criam obras que não precisam prestar conta a ninguém. Por outro lado, surge a dependência econômica. “Atribui-se à arte o poder de fazer conhecer e contemplar a própria essência do mundo”. O museu é o lugar de revelação estética. Tira as obras do seu contexto cultural de origem com  a missão de torná-las imortais. É o “Templo laico da arte” e ajuda a suportar a mediocridade da existência. Tudo vira arte.

“Não mais quadros e estátuas reservados a uma classe social superior, mas uma arte que se estenda ao mobiliário, aos papéis de parede, à tapeçaria, aos utensílios de cozinha, aos têxteis, às fachadas arquitetônicas, aos cartazes.”

Despontam-se ainda nesse período as artes de massa: cinema, fotografia, música gravada, moda. Pela primeira vez, temos a dinâmica da produção e consumo estético.

Por outro lado, há a produção em série de produtos e da construção civil. Os princípios fordianos-tayloristas aplicados à vida urbana trazem às cidades conjuntos habitacionais frios, feios e tristes. Para os autores, o fracasso dessa era.

4) Era transestética (arte para o mercado): capitalismo artista. Tudo é possível. “Cria em grande escala o sonho, o imaginário, as emoções.” Há, contudo, uma inflação estética uma hiperarte, que é o mundo transestético, que é a “generalização das estratégias estéticas com finalidade mercantil em todos os setores das indústrias de consumo.”

Estamos na era do descartável. As pessoas não querem ser vistas como fora de moda ou portadoras de produtos considerados obsoletos. Trocam de celular a cada ano ou menos. O mesmo vale para roupas, sapatos, acessórios e demais objetos. Ao contrário da era anterior, marcada pela famosa expressão “você pode ter o carro que quiser desde que seja preto”, hoje o que vale são objetos personalizados, com a nossa cara. 

Dentro disso, lembrei-me dos chinelos havaianas da minha infância. Havia um modelo com apenas algumas cores à disposição (não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro). Hoje, a marca tem diversas lojas com centenas de opções. Nesse sentido, para que ter apenas um chinelo se podemos ter um que se ajuste a cada ocasião? E é mais ou menos esta lógica que vai para tudo na vida. Abolimos o produto a granel, que felizmente está voltando, para deixar os produtos com identidade visual bonita e atrativa. Há uma ânsia por “assinaturas artísticas” em tudo. As marcas se unem para oferecer um óculos escuro de uma cantora. Um perfume de uma atriz. E tudo é oferecido por meio de representações.

As feiras de negócios exemplificam bem este contexto. São grandes eventos que chegam a simular cidades, inclusive as fictícias. Passados três dias ou menos, tudo vai abaixo para dar lugar a outras cenografias e fábricas de sonhos. O intuito é conquistar corações e mentes, o lema maior da do marketing. No fundo, o que queremos é vender, ampliar lucros e criar impérios.

Outra crítica, bem procedente, é que o simples dá lugar ao gourmet. Os termos para designar os profissionais mudam:

jardineiro: paisagista
cabeleireiro: hair designers
floristas: artistas florais
cozinheiros: cuidadores gastronômicos

Até executivos são definidos como artistas visionários, a exemplo de Steve Jobs. 

Os autores descrevem os cenários ao nosso redor de tal forma que nos perguntamos: por que mesmo precisamos de tudo isso? Qual o sentido de tanto consumo e tanta representação? Tudo tem que ser cenográfico? O mundo está imitando o que, afinal? 

Pode a beleza salvar o mundo?

Queremos sensações imediatas, prazeres dos sentidos, novidades.  Esses princípios estéticos confrontam-se com outros valores: trabalho, saúde, eficácia, educação, respeito ao meio ambiente, moral, justiça.

O resultado é que estamos “fadados a uma existência cada vez mais reflexiva, problemática, conflitual em todas as suas dimensões, sejam íntimas, familiares ou profissionais.” 

De uma lado temos a beleza da vida, o que almejamos. Do outro, temos que dar conta da excelência, produtividade, ter boa saúde. Sonhamos com a beleza. Mas temos competição. A grande (ou única) vantagem desse período é que estamos nos dando conta desse exagero, tanto que a comunicação da vez, em praticamente todos os segmentos, é voltada ao bem-estar. Empresas estão buscando tornar os ambientes de trabalho mais agradáveis. Há um boom de cursos de meditação. Academias de exercícios físicos se proliferam. Sabemos o caminho. Mas ainda assim, a trilha não é fácil.

Produções estéticas, imagens do belo e da felicidade são amplamente disseminados, mas o que temos na realidade é um mundo caótico, esquizofrênico. “O bem viver está ameaçado, comprometido, ferido.”

Consumimos beleza, mas nossa vida não é bela. E é justamente aí que reside o fracasso do capitalismo artista. A beleza, portanto, não salvará o mundo. Isso me remete às imagens felizes postadas nas redes sociais. Quando tempo se perde tentando encontrar um ângulo, um recorte de nosso dia a dia que vai simular uma utopia?
“As belezas são excessivas, mas não nos aproximamos em absoluto de um mundo de virtude mais elevada, de maior justiça ou mesmo de maior felicidade.
A conclusão dos autores é que a “salvação” está mais na inteligência racional que na arte. Está nos investimentos em pesquisas, na inovação, nas ciências. Precisamos de uma estética da lentidão em oposição à estética da aceleração, pois “a inconsequência e a frivolidade de viver são comprometidas pela miséria social e pela sorte trágica dos que ficam à margem.”

Minha angústia ao concluir a leitura foi justamente esta, saber que me enquadro neste tipo de consumidor. Felizmente, temos escolhas. Basta dizermos não ao impulso e a repulsa. Impulso de comprar diante das inúmeras vitrinas físicas e virtuais que nos assombram. Repulsa de ficar com o mesmo chinelo até que suas tiras finalmente se soltem.

"O capitalismo artista encontra sua legitimidade na realização de uma vida bela, sinônimo de vida livra sob o signo de uma ética da realização pessoal."