domingo, 14 de setembro de 2025

o desabamento


Quando recebe a notícia da morte do irmão mais velho, Édouard não sente nada. Para não dizer absolutamente nada, pensa na mãe. É por ela que decide ir ao enterro. Durante o percurso, tenta entender o que aquele irmão significou para ele. 

"Talvez a gente possa ficar verdadeiramente e autenticamente consternado quando é tarde demais, não sei." 

As lembranças, porém, não são boas. O irmão não gostava de trabalhar, vivia arrumando encrencas e espancava as namoradas. Sua presença sempre esteve associada à violência.

Ainda assim, Édouard se recorda de alguns momentos que destoam dessa imagem, como quando foi morar por alguns dias com o irmão para estudar em uma escola melhor. Foi recebido de braços abertos. O irmão fazia questão de chamá-lo de "meu irmãozinho" e parecia feliz com sua presença. Mas não conseguia evitar a bebida. Sempre voltava bêbado para casa, deixando Édouard abalado e tomado pelo ódio. Lembra também de quando o irmão conseguiu um emprego no qual realmente acreditava. Parecia, enfim, disposto a mudar de vida. Mas foi completamente desestimulado pelo padrasto, pai biológico de Édouard, que já estava cansado das sucessivas tentativas frustradas do enteado.

Para compreender quem aquele homem realmente foi, Édouard conversa com a mãe, a irmã e antigas companheiras do irmão. Cada uma delas revela uma faceta diferente: o filho, o irmão, o companheiro agressivo, mas também alguém que, em alguns momentos, tentou construir outro caminho. Aos poucos, a imagem que parecia definitiva começa a ganhar nuances. 

"Meu irmão era tão despossuído de tudo, de dinheiro, de seus sonhos, de felicidade, que esse discurso de ódio era, de certa forma, tudo o que tinha." 

O livro é forte e corajoso. Apenas pelo fato de espancar as namoradas, o irmão já não pareceria merecer qualquer gesto de compaixão. Ainda assim, Édouard Louis decide ir além desse julgamento e tenta entender o que o levou a seguir esse caminho. Não para encontrar uma justificativa, porque ela definitivamente não existe, mas para, talvez, entender quem de fato ele foi no meio de tantas derrotas, humilhações e falta de perspectivas.

"Como esquecer quando não há nada pela frente?"

A escrita é direta, limpa, sem delongas. Em muitos momentos, tive a impressão de que havia alguém sentado à minha frente apenas contando essa história, de forma objetiva, quase fria. O desabamento foi meu primeiro contato com o escritor francês Édouard Louis, conhecido por transformar experiências pessoais em literatura. E terminei a leitura com a sensação de que ainda há muito a descobrir sobre sua vida por meio da sua obra.

sábado, 6 de setembro de 2025

sagarana



Obra de estreia de João Guimarães Rosa, Sagarana traz contos que narram a vida no sertão mineiro. Inicialmente apresentado, em 1938, como Contos para um concurso literário, ele foi refinado para sua versão que hoje temos em mãos. Para tanto, foram excluídos três textos, houve revisões, lapidações e a publicação em 1946 com o neologismo Sagarana, marca que se tornaria uma das principais características do autor.

S A G A R A N A. Soma do germânico saga (conjunto de estórias) com o tupi rana (à maneira de). Ou seja, à maneira das estórias orais. E é exatamente assim que lemos os textos. Parece que estamos ouvindo alguém a nos contar o que se passa no pedaço de terra “que era seu”, como o autor mesmo comentou em carta endereçada ao jornalista e amigo próximo João Condé:

“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais.”

E para além do regional, da tradição de narrar causos, Sagarana, assim como outras obras de Guimarães Rosa, traz personagens animais que refletem, sentem e se relacionam com o mundo de modo próprio. Em alguns momentos, eles aparecem como personagens centrais, com escolhas e estratégias próprias. Em outros, são apenas montarias, puxam carros, compõem a paisagem. Há também os animais que aparecem apenas para serem apreciados. Os gaviões despertam admiração de um narrador, que os considera belos, porém, outro personagem rejeita essa visão estética. Para ele, beleza sem utilidade não tem valor. Até o urubu, que surge pairando no céu, é imediatamente associado à função que desempenha no ciclo da morte.

“Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, p’ra mim, seu doutor não leve a mal, p’ra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…”

Ou seja, o animal vale para o que nos serve.

Em Conversa de bois, Manuel Timborna afirma que os animais falam. Seu interlocutor escuta com desconfiança, mas decide ouvir a história que começa com uma irara que se ajeita para ver a passagem de um carro de bois. Rosa descreve seus movimentos, suas escolhas e a forma como calcula o melhor lugar para permanecer escondida. Depois aparecem os bois, todos nomeados: Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé. Eles sentem o calor, os insetos, o peso da carga e conversam entre si. Sabem que são bois de carro e distinguem-se daqueles que vivem apenas pastando, os bois em massa. Durante a viagem, acompanham também o menino Tiãozinho, que segue ao lado da junta levando o corpo do pai e lamentando ter que conviver com o carreteiro. Os bois observam tudo o que acontece ao redor e resolvem ajudar o garoto. Ficou para mim a questão: seriam os bois a metáfora para o peso que o garoto carrega?

“Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!

— Falam, sim senhor, falam!… — afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, — filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; — Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.

— Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje:… “Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!…” Mas, e os bois? Os bois também?…

— Ora, ora!… Esses é que são os mais!… Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu.” 


Em O burrinho pedrês, Sete-de-Ouros é chamado para uma caravana por falta de outras montarias. Velho e experiente, já passou por muitos donos e vive agora numa espécie de aposentadoria. Durante a viagem, acompanhamos os vaqueiros conduzindo uma grande boiada até o embarque no trem. Os bois chegam em massa, vindos de diferentes regiões, formando uma multidão de cores, tamanhos e origens. A boiada pressente a tempestade que se aproxima. Mais tarde, durante a travessia, alguns cavalos empacam diante da água. Os vaqueiros decidem então seguir a decisão do burrinho: se ele entrar no rio, todos entram. Sete-de-Ouros observa o ambiente, avança e atravessa a enchente nadando. Muitos homens e cavalos morrem na travessia, mas o burrinho consegue alcançar terra firme levando dois vaqueiros consigo. De volta ao curral, procura o cocho, come milho e se acomoda para voltar ao precioso descanso.

Em Sarapalha, o cenário é outro. O conto acompanha Primo Ribeiro e Primo Argemiro vivendo isolados numa região devastada pela maleita. Ali permanece também o cão perdigueiro Jiló, que circula entre os dois homens e acompanha o cotidiano daquele lugar marcado pela doença e pela solidão. No final, o animal terá que decidir com qual dos donos - a posse permeia as histórias - ficará.

Já em Minha gente, um rapaz da cidade visita a fazenda do tio e reencontra a prima por quem se interessa. A narrativa acompanha deslocamentos pela paisagem rural, sempre a cavalo. Durante o trajeto, aparecem diversos animais: vacas, zebus, bois, gaviões, carcarás, anus e urubus. Alguns são descritos pela aparência, outros pela utilidade. O cavalo, porém, permanece quase sempre apenas como montaria, acompanhando os personagens ao longo do caminho.

Em São Marcos, acompanhamos Izé, que vive em um povoado onde a feitiçaria faz parte do cotidiano. Embora declare não acreditar nessas práticas, ele passa constantemente pela casa de João Mangolô e zomba do feiticeiro. Em seus passeios pelo mato, dedica-se a observar a natureza, as cores, os ruídos, os movimentos mínimos. Certo dia, subitamente, fica cego. Desorientado, acaba recorrendo justamente à reza de São Marcos, que antes tratava com ironia. Ao pronunciá-la, recupera a visão e descobre que Mangolô havia “amarrado” simbolicamente seus olhos.

Corpo Fechado mostra um local conhecido por ter vários valentões. Manuel Fulô é um deles, famoso por suas histórias e trapaças, vê-se ameaçado por Targino, o novo chefe local, que anuncia publicamente sua intenção de dormir com sua noiva antes do casamento. Manuel recorre, então, a um feiticeiro que lhe promete “fechar o corpo” contra qualquer agressão. Como troca, exige sua querida mula. E eis que dá certo, e ele vence o adversário. A narrativa mistura superstição, disputa de poder masculino, desvaloriza a mulher e o animal. Tanto a mula que foi moeda de troca, como um rato e gato que também aparecem no conto, presos e forçados a fazerem amizade pelo próprio Fulô.

Em A hora e vez de Augusto Matraga, acompanhamos a trajetória de Nhô Augusto, homem violento e temido, que perde prestígio político e familiar. Espancado e dado como morto após tentar reagir à traição e à perda de seus aliados, é salvo por um casal de negros e passa por um período de isolamento e penitência. Trabalha, reza, busca redenção. Anos depois, ao encontrar o jagunço Joãozinho Bem-Bem prestes a executar uma família por vingança, intervém. 

A volta do marido pródigo nos mostra Lalino Salãthiel, que nunca gostou muito de trabalhar e que sempre sonhou com a oportunidade de sair daquela cidade pequena onde morava e ir para um lugar maior. Surge, então, a chance de ir para o Rio de Janeiro. Ele parte, deixa a esposa, Maria Rita, na cidade, e na capital cria para si uma nova história, uma narrativa de sucesso que talvez não corresponda exatamente aos fatos. Vive a cidade grande, aproveita o que pode, constrói uma imagem de si mesmo. Mas acaba voltando. E, diferentemente do filho pródigo bíblico, não é recebido com festa. Maria Rita já está casada com outro homem, um espanhol. É nesse momento que surge nele a vontade de recuperar o que perdeu. Resta saber se o desejo é amor, orgulho ferido ou simples incapacidade de aceitar que foi substituído.

Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.

A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.

sábado, 23 de agosto de 2025

elizabeth costello


“Não é absurdo, é?, se ocupar daquilo que as pessoas têm em comum em vez daquilo que diferencia um do outro.”

Eu conheci Elizabeth Costello em A vida dos animais, ensaio romanceado do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Lá, temos o resultado de uma palestra real que o autor proferiu durante uma conferência nos EUA. Usando de um alter ego, Costello, ele trouxe reflexões filosóficas e poéticas sobre a forma com que nos relacionamos com os animais.

Aqui temos uma coletânea de contos, ou ensaios, sobre a personagem fictícia. Conhecemos, portanto, um pouco mais sobre sua história e sobre os motivos que foram levando-a a abordar a crueldade em todas as suas esferas, contemplando os animais que muitas vezes acabam invisíveis. São oito capítulos sobre filosofia, literatura, mitologia e temas que percorreram toda sua trajetória, profissional e pessoal.

Em Realismo, a personagem nos é apresentada. Nascida em 1928, em Melbourne, na Austrália, está com 66 anos no momento descrito neste primeiro conto. Casou-se duas vezes e tem um filho de cada um desses relacionamentos. “Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos.”

Aqui, ela se prepara para receber um dos maiores prêmios literários. Está com seu filho John, professor de física e astronomia, o mesmo que a acompanha em A vida dos animais. Percebe-se o desconforto dela com as cerimônias que cercam o prêmio, como o jantar, a entrevista e a própria premiação. Sabemos que John sentiu muito a falta da mãe durante a infância, já que ela costumava se isolar para escrever, deixando ele e a irmã de lado, algumas vezes trancados do lado de fora do cômodo usado como escritório. “Desde que se conhece por gente, sua mãe sempre se isolou de manhã para escrever. Nenhuma interrupção sob qualquer circunstância. Costumava sentir-se uma criança infeliz, solitária e não amada. Quando estavam com muita pena de si mesmos, ele e a irmã sentavam do lado de fora da porta trancada e soltavam pequenos gemidos. Depois de gemer passavam a cantarolar ou cantar, e se sentiam melhor, esquecendo o abandono.”

Tenho que ser solidária com Costello. Ela trabalhava em casa, e talvez justamente isso tenha sido um problema na época. Os filhos achavam que ela os ignorava, quando, na verdade, ela precisava daquelas manhãs para produzir e se dedicar ao ofício que havia escolhido e que, pelo que lemos, era sua paixão. Agora, ao estar com a mãe, que aprecia sua companhia e se sente confortável ao lado dele, John vê uma mulher velha e frágil.

Por se sentir renegado pela mãe, John só foi ler os livros dela muitos anos depois, aos 33 anos. Foi sua vingança. Um colega psiquiatra me disse que as crianças são as maiores especialistas em fazer a mãe sentir culpa. Eu tenho uma filha e sei exatamente o que ele quis dizer. Até entendo o que John sentiu quando criança. Mas e as figuras paternas neste movimento? Qual parcela de culpa lhes foi dada? Incompreendida, porém, ela seguiu.

Temos, na sequência, A vida dos animais 1: os filósofos e os animais e A vida dos animais 2: os poetas e os animais, sobre as quais falei com mais detalhe em outro texto.

Em As humanidades da África, voltamos um pouco no tempo e temos uma Costello mais jovem reencontrando um antigo amor em um evento durante um cruzeiro, momento em que também reflete sobre o racismo e as diferenças interraciais. Enquanto ela fala sobre o futuro do romance, ele trata especificamente do romance na África. Para ela, “o romance sugere como podemos explorar o poder de o presente produzir o futuro. É por isso que temos essa coisa, essa instituição, esse veículo chamado romance.”

Já ele fala do individualismo que marca a leitura dos romances, algo que não combina com a cultura africana, que prioriza histórias orais que unem as pessoas. Reforça que “ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós, africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que eu estou lendo é mais interessante do que você poderia ser.”

Isso para dizer que, para o africano, o verdadeiro romance é o oral. “Na página ele é inerte, apenas meio vivo; ele desperta quando a voz, vinda do fundo do corpo, inspira vida a suas palavras, as enuncia em voz alta.”

A história do corpo incomoda Costello, que não parece se convencer. Mas há africanos escrevendo, e seu amigo lhe diz que esses livros não são escritos para africanos, diferentemente do romance inglês escrito para ingleses, por exemplo. O romance africano é escrito para estrangeiros. “Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores.”

O tema da África segue em As Humanidades, quando ela vai ao encontro da irmã que não vê há doze anos, Blanche, cujo nome agora é Irmã Bridget. Há anos ela mora na África, seguindo sua vocação religiosa. Hoje, vive em uma zona rural da Zululândia, na África do Sul. Também acadêmica, teve um livro que repercutiu muito bem e que lhe rendeu um título honorário, cuja cerimônia terá a presença da irmã.

Costello chega cheia de preconceitos a uma terra que nunca quis visitar e que considera feia. “Horas de sua vida perdidas na passagem sobre o Oceano Índico; inútil pensar que vai recuperá-las. Devia tirar uma soneca, recobrar-se, recuperar o bom humor antes de encontrar Blanche; mas está inquieta demais, desorientada demais, e - sente vagamente - indisposta demais. Será que pegou alguma coisa no avião? Cair doente entre estranhos: que horror! Ela reza para estar errada.”

Curioso o foco que Coetzee dá à idade, sempre trazendo Costello como velha, cansada, rabugenta. Enquanto narra a cena das duas irmãs conversando, ressalta que estamos diante de duas velhas em terra estrangeira. Duas estranhas, por não conhecerem de fato uma a outra, em um local que também não é delas. Como se tudo fosse um peso. A idade, o lugar, a conversa.

O tema da palestra, desta vez, é a humanidade, onde ela se instala e o que a literatura tem a ver com isso. Enquanto Costello acredita que os livros são suficientes para aprendermos sobre nós mesmos, Irmã Bridget acredita que eles não são necessários para enxergar a mesquinhez e as crueldades dos seres humanos, o que Costello entende como um ataque pessoal.

Surge, então, entre elas, um debate sobre o helenismo como a principal tentativa do humanismo europeu de oferecer uma visão secular de vida ideal, inspirada na liberdade, na beleza e na racionalidade atribuídas à Grécia antiga. Blanche afirma que esse modelo fracassou porque era elitista, ilusório e distante da experiência real das pessoas comuns. Já Elizabeth argumenta que, mesmo assim, os seres humanos precisam de esperanças e utopias para viver.

A conversa revela, assim, a crise das humanidades e a dificuldade contemporânea de encontrar novos sentidos coletivos para a existência. Ambas terminam a série de palestras e debates exaustas, com a certeza de que foi a última vez que se viram. Fica, por fim, a falta da completude entre ambas, tão necessária, mas distante.

Em O problema do mal, Costello está em Amsterdã para discursar sobre por que o mal existe e se há algo a ser feito diante dele. Há indícios de que se trata de um evento posterior à palestra sobre A vida dos animais e aos julgamentos que recebeu depois dela. Foi, inclusive, atacada por outra mulher, que a chamou de "vaca fascista", além de receber acusações de antissemitismo por comparar a forma como tratamos os animais ao Holocausto. Ela sabe que foi convidada para falar justamente por causa de toda essa repercussão e, ainda assim, aceita o convite. O tema geral do encontro é "Silêncio, Cumplicidade e Culpa?". Dentro do tema principal, fica encarregada de abordar "Testemunha, Silêncio e Censura".

O convite chega justamente quando ela está lendo Paul West escrever sobre Hitler. O capítulo discute os limites éticos da literatura diante da representação do mal. Elizabeth Costello questiona se dar voz e vida literária a figuras violentas, como carrascos nazistas, não significa também libertar novamente esse horror no mundo. É pensando sobre a obra de Paul West que relembra a violência que sofreu aos dezenove anos, quando foi vítima de uma tentativa de estupro seguida de espancamento, episódio que manteve em silêncio por décadas. Foi seu primeiro contato com o mal. Entendeu que não era nada mais que isso, o mal, no momento em que a sensação de afronta do homem cedeu e um imperturbável prazer em machucar tomou seu lugar.

Desenvolve sua palestra dizendo que certas coisas deveriam permanecer fora de cena, pois nem tudo o que pode ser narrado deveria ser mostrado. Seu argumento gira em torno da liberdade artística versus a responsabilidade moral de representar a crueldade. "Obsceno" é como ela define tanto o fato de Paul West trazer à tona as atrocidades cometidas por Hitler quanto a lembrança da violência que sofreu. Obsceno, aqui, no sentido literal da palavra: aquilo que deveria permanecer fora de cena.

Após o fiasco que considera ter sido sua palestra e da tentativa frustrada de chamar a atenção do escritor, acaba refletindo sobre o que ele faz, e que também é o que ela própria faz: mostrar a brutalidade do mundo. Ela faz isso ao falar dos abatedouros, por exemplo. Ela, da mesma forma que Paul West, sabia como jogar com as palavras até elas estarem certas, palavras que lançariam uma corrente de choques elétricos pela espinha do leitor. Carrasca à sua maneira.

Quando finalmente encontra Paul West, fica procurando nele o mal. A cena me remeteu imediatamente à Hannah Arendt e à banalidade do mal, expressão que chega a ser mencionada por Costello. Ela procurava um monstro que justificasse as atrocidades, mas encontrou apenas o banal. Da mesma forma que Hannah Arendt esperava encontrar, no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, um homem monstruoso, mas viu apenas um agente comum, medíocre até. Alguém que seguiu o caminho da obediência e da inércia diante do horror que estava à sua frente. E no caso específico do seu incômodo pela obra de West, trata-se de uma questão mal resolvida que está muito mais relacionada com o que ela mesma deixou de falar, e não o que o autor se propôs a retratar. Ela calou-se, e esse silêncio dói, seja pela impunidade, seja pelo acolhimento que nunca teve. Penso que a indignação com a obra do colega seja, em parte, a indignação que ainda sente ao lembrar da menina de dezenove anos que nunca viu sua dor reconhecida. 

Em Eros, Costello conjectura sobre nossa relação com os deuses. Mas não se trata da dimensão metafísica. O que lhe interessa é o físico. Como seria uma relação sexual entre humanos e deuses? Qual a sensação da carne do homem envolta em carne de deusa?

O que interessa a Costello é imaginar, por exemplo, como foi a noite entre Anquises, um mortal, e a deusa Afrodite, união da qual nasceu Eneias, um dos grandes heróis da Guerra de Troia.

Essa resposta ela encontra na tradição poética, que diz que Anquises levou uma vida normal, envelheceu e permaneceu em seu universo ordinário. “Se não esqueceu aquela noite fatídica, não pensou muito nela, não como nós entendemos pensar.” Para ela, esta é uma experiência única, íntima.

E traz um paralelo com a Virgem Maria. Como teria sido aquele momento, aquele instante em que tudo aconteceu? Essa é sua dúvida. “Ninguém à sua volta tem o descaramento de perguntar: Como foi, o que você sentiu, como você aguentou? Mas essas perguntas devem ter ocorrido com certeza às pessoas, às suas amigas em Nazaré, por exemplo. Como ela aguentou?, devem ter sussurrado entre elas.”

Será que atingimos o divino nesse instante? É quando Costello chega aos outros modos de ser. Isso porque está falando do ponto de vista dos humanos, mas há muito além do que pensamos e sentimos, o que mostra a nossa limitação, uma questão kantiana, segundo a própria Costello. “Existem outros modos de ser além do que chamamos humano e nos quais possamos penetrar; e, se não existem, o que isso nos revela sobre nós mesmos e nossas limitações?”

Chega a comparar a curiosidade dos deuses em relação aos humanos com a nossa curiosidade pelos demais animais. Para ela, levamos vantagem em relação aos deuses por conta da mortalidade, o que nos dá mais urgência, mais vigor em tudo o que fazemos. “Gostaria de pensar que os deuses admiram, mesmo de má vontade, a nossa energia, a incessante criatividade com que tentamos escapar de nosso destino.”

E, mais uma vez, vem a referência à velhice. Costello imagina que talvez só faça essas perguntas porque já está velha demais para dançar.

Em No portão, Costello chega ao céu, ou ao que nos parece ser o céu, e encontra-se diante do portão que dá acesso ao local. Um homem, mais novo do que ela, informa que antes de entrar precisa apresentar uma declaração dizendo em que acredita. Todos ali têm uma crença. Ela também deveria ter a sua. O problema é que Costello não sabe responder.

Ela explica que sua profissão, como escritora, não é acreditar, mas escrever. Vive de ficções e de crenças provisórias. Uma convicção definitiva apenas limitaria seu trabalho. Pede, por isso, que sua condição de escritora seja considerada uma exceção.

Enquanto aguarda uma nova oportunidade para apresentar sua declaração, é encaminhada a um dormitório e passa os dias caminhando pela praça, observando as pessoas e refletindo sobre a própria vida. Em determinado momento, lamenta não ter vivido de outra forma. Pensa que talvez devesse ter se divertido mais e se pergunta se a vida dedicada à escrita lhe trouxe alguma vantagem naquele instante em que tudo parecia depender de uma única resposta.

Ao mesmo tempo, percebe que suas crenças surgem quase por acaso. Em um dia, acredita nas rãs. No outro, talvez acreditasse em gafanhotos ou mosquitos. Nada parece definitivo. Tudo é provisório, como sempre foi também sua literatura.

E assim ela segue refletindo sobre qual seria sua crença enquanto aguarda o julgamento final, o que me lembrou muito O processo, de Franz Kafka, ao qual ela mesma recorre, em que um homem é retirado de seu trabalho e levado a um tribunal sem saber exatamente por que está ali. Lembrei-me também de Alice no País das Maravilhas, que caiu em uma terra cheia de surpresas. Costello não sabe exatamente que lugar é aquele. Sabe apenas que precisa atravessar aquele portão.

Ela teve uma grande paixão e decidiu segui-la. Mas foi incompreendida. Ao longo de todo o livro é chamada de velha, como se esse fosse seu principal atributo, quando dedicou a vida a trazer reflexões e provocações. Não abandonou os filhos e, ainda assim, eles cresceram com essa sensação. Em nenhum momento surgem os pais, ou a responsabilidade que também lhes caberia. Fiquei pensando se um escritor homem seria acusado por se trancar em um quarto para escrever enquanto os filhos esperavam do lado de fora.

Tudo isso deixa marcas. Vamos conhecendo suas feridas, como a violência que sofreu aos dezenove anos, e entendendo melhor a mulher por trás da intelectual. Para mim, Costello foi, acima de tudo, uma personagem incompreendida. Alguém que nunca deixou de se apaixonar. Não pelo amor romântico, mas pelo conhecimento e pelo que podemos fazer com ele. Resta saber se essa resposta será suficiente no que parece ser seu juízo final.



sábado, 16 de agosto de 2025

oração para desaparecer


“De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.”

Imagine acordar e perceber que você está enterrada, com tudo o que isso pode representar. Pois é exatamente o que acontece com Cida. E, para piorar, ela não sabe quem é, não se lembra de nada sobre sua vida. O resgate é feito por um casal em Almofala, uma aldeia em Portugal. Tudo com a maior naturalidade do mundo, afinal, era esperado que ela surgisse ali, uma ressurrecta, como chamam pessoas que somem em um lugar do mundo e aparecem em outro, devidamente enterradas. Junto com Jorge, ela vai atrás de uma pessoa que cria passados, de modo que ela possa ter algo sobre o que contar. Aqui temos referência direta ao romance O vendedor de passados, do português José Eduardo Agualusa, especialmente pela presença de Félix Ventura, personagem que cria passados para outras pessoas, reforçando o tema da construção artificial da memória. E, para essa reconstrução, vale tudo, inclusive os sonhos que ela tem, e pelos quais Félix tanto se interessa. Aos poucos, as lembranças vão surgindo, e ela chega a quem realmente foi. Resta saber qual das duas personagens ela vai escolher.

Enquanto isso, em outra Almofala, desta vez no Ceará, temos um personagem já envelhecido, Miguel, que espera pela sua Joana, mulher que desapareceu misteriosamente.

Essa é a premissa de Oração para desaparecer, da brasileira Socorro Acioli. O romance é baseado em um fato real. Em Almofala, no Ceará, uma igreja construída no século XIX foi totalmente coberta por areia das dunas móveis. Cinquenta anos depois, ela reaparece praticamente intacta. Antes da invasão da areia, todos os santos foram retirados, o que levou a uma comoção geral. A história pode ser conferida aqui nesta reportagem do Diário do Nordeste.

Partindo desse acontecimento, a autora, que tem um pé no realismo fantástico, principalmente considerando que teve aulas com Gabriel García Márquez, nos presenteia com uma história instigante que brinca com crenças, misticismo e nos faz questionar o que é real, afinal de contas.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes.”




domingo, 10 de agosto de 2025

o frio, o patinete, a livraria


Livros descobertos em uma tarde fria na Avenida Paulista: dicas de leitura com Sigrid Nunes, Richard Powers, Han Kang e outros

Está bem frio em São Paulo, para meu deleite, já que sou adepta às temperaturas mais baixas. Coisa rara, pois o inverno está cada vez mais escasso deste lado do Equador.

Quando deu cinco da tarde, resolvi dar uma caminhada. Eu estava inquieta porque parecia que não estava aproveitando o dia que tanto aprecio. Caminhei até uma livraria na Avenida Paulista, curtindo o ar melancólico da cidade, especialmente quando ela se preparava para fechar.

Quando digo fechar, quero dizer que as pessoas já estavam se recolhendo, ambulantes desmontando suas bancas, muitas lojas baixando as portas e todos encapuzados.

Chamou minha atenção a quantidade de patinetes elétricos disponíveis para os transeuntes. Lamentei não estar com meu celular para alugar um e seguir pela ciclovia, sentindo o vento no rosto.

Cheguei à livraria, onde sempre fico bem. É um ambiente aconchegante, instigante e cheio de possibilidades. Acho que nunca vou ler todos os livros que tenho e, ainda assim, estou o tempo todo em busca de novidades literárias.

Hoje me dei muito bem. Logo na primeira ilha de livros, me deparei com vários que, não fossem o preço, o espaço e a decisão de evitar a compra de livros físicos, eu teria levado todos. Estava ali Mitz, de Sigrid Nunes, escritora norte-americana que escreveu O amigo, romance que li recentemente e que trata do luto vivido por uma professora e por um cachorro. O livro que estava na minha frente romanceia a história de um sagui que viveu com Virginia Woolf e seu marido. Ao seu lado estava O que você está enfrentando, da mesma autora, que inspirou um filme de Pedro Almodóvar. Outro animal na capa, desta vez, um gato que, pela contracapa, estava em um abrigo. Preciso muito ler esses livros.

Um pouco mais adiante, me deparei com A trama das árvores, do romancista norte-americano Richard Powers. Já gostei da premissa, que traz vários personagens que se interligam por conta das árvores. Lembrei muito de quando tivemos que tomar a decisão sobre uma árvore plantada na calçada da casa dos meus pais. Ela cresceu tanto que começou a invadir a casa do vizinho e precisou ser transferida. Num ímpeto de arrependimento, minha irmã e eu fomos atrás dela, após descobrirmos o local para onde poderia ter sido levada. Tem um texto da Renata aqui no blog sobre isso. Enfim, entrou para minha lista de romances sobre natureza e meio ambiente.

Estamos, neste momento, tendo uma avalanche de literatura sul-coreana contemporânea, muitos dentro do que se chama leitura de cura. Já li vários e entendo que beiram a autoajuda, mas são muito melhores. Porém, se leu um, leu todos. Mas sabe quando queremos mais? Pois bem, eles nos conquistam pela capa, e não tem problema nenhum. Já anotei A loja de cartas de Seul, de Baek Seung-yeon, que estava lá me chamando. Mas não só de literatura de cura vivem os sul-coreanos. Há romances intensos, como os de Han Kang.

Nessa mesma ilha, encontrei Sem despedida, que fala de um pássaro que fica só após sua tutora ser hospitalizada. Confesso que estou curiosa para ver essa relação, muito porque lugar de pássaro não é dentro de casa, em uma gaiola. A capa mostra o aprisionamento. Da autora, li A vegetariana, que fala do devir-vegetal. Espetacular.

Só para constar, gostei muito da capa de O bom mal, coletânea de contos de Samanta Schweblin, que traz um coelho a contemplar o céu, como que pedindo ajuda. Não deixei na lista porque folheei e me pareceu prosa poética, e tenho certa resistência a esse tipo de narrativa. Posso estar enganada, todavia.

Deparei-me ainda com Orbital, romance de Samantha Harvey que une astronautas dos Estados Unidos, Rússia, Itália, Japão e Reino Unido em uma missão no espaço. A cada órbita, o livro promete uma reflexão. Gostei.

Outro que também me pareceu ter ligação com meu trabalho foi Os urubus não esquecem, do professor da USP Pedro Cesarino. Trata de uma mãe indígena que busca pelo filho desaparecido. Curiosamente, a capa traz uma canoa, que esteve presente em um sonho que tive esta noite. Nada acontece por acaso.

E, para finalizar, coloquei na lista de desejos um suspense: A luz entre as frestas – Inspetor Gamache, Livro 9, de Louise Penny. Passei boa parte da minha adolescência lendo as peripécias de Poirot, de Agatha Christie. Ainda não conhecia o detetive Gamache. Minha dúvida é se posso começar pelo livro 9, que anotei justamente porque se passa no frio, no Canadá, e também na época de Natal. Sim, já estou pensando no que vou ler em novembro e dezembro.

Assim terminei meu dia, cheia de livros, animais e vontade de andar de patinete. E você, qual livro descobriu recentemente em uma livraria? 



sábado, 12 de julho de 2025

o passeador de livros


"A palavra escrita nunca vai acabar, sra. Schäfer. Existem coisas que simplesmente não dá para expressar de outro jeito."

Carl Kollhoff tem 72 anos e seu trabalho é bem peculiar. Ele trabalha em uma livraria e entrega livros, pessoalmente, para um grupo seleto de clientes. Mais do que uma simples compra, as pessoas recebem obras que conversam diretamente com o momento de vida em que se encontram. É como se o livreiro lesse o coração e a mente dos seus clientes. Isso aparece no cuidado com a seleção do título, na forma como embala os volumes, como se fossem presentes, e na pontualidade com que chega à casa de cada um. Logo de cara fica claro que o que esperam, na verdade, é a sua companhia. Ele se torna o escape de que precisam para seguir com os dias.

Cada pessoa recebe, sem saber, um apelido literário, um personagem que traduz a sua personalidade: Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Sra. Píppi Meialonga, de Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren; Effi Briest, de Effi Briest, de Theodor Fontane; Hércules, da mitologia grega. Assim Carl segue sua rotina há décadas, até que cruza com Schascha, uma garota de nove anos que bagunça sua ordem, traz aventuras e, acima de tudo, provoca uma virada em sua vida. Ao mesmo tempo, a atual dona da livraria, filha do fundador e grande amigo de Carl, planeja mudanças que o excluem definitivamente. Muito disso nasce do ressentimento por ele ter o dom de escolher exatamente o livro que cada pessoa precisa, algo que ela não consegue alcançar.

O enredo traz personagens solitários, envergonhados de suas limitações, vítimas de violência doméstica ou em busca de um novo sentido após a aposentadoria. Todos lidam com emoções que vão sendo, pouco a pouco, expostas e cuidadas por meio da literatura. Há ainda um gato com características de cachorro que acompanha as andanças do nosso protagonista. 

Vale destacar também que cada capítulo faz referência a uma obra literária: Gente independente, de Halldór Laxness; O estrangeiro, de Albert Camus; O vermelho e o negro, de Stendhal; Grandes esperanças, de Charles Dickens; As palavras, de Jean-Paul Sartre; Rastros (Spuren), de Ernst Bloch; e Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline. Pode ser o começo de uma boa lista de leitura ;-)

"O passeador de livros", de Carsten Henn, foi adaptado para o cinema em 2022, no filme alemão Der Buchspazierer, dirigido por Rolf Roring. Ainda assim, recomendo a leitura, que é leve e faz pensar no quanto os livros podem nos compreender como ninguém mais.

Trechos

"Tinha uma definição bastante clara do que, segundo ela, caracterizava um bom livro. Em primeiro lugar, era preciso mantê-la entretida de tal modo a deixá-la presa na cama, lendo até as pálpebras pesarem. Segundo, deveria levá-la às lágrimas em pelo menos três trechos; melhor ainda se fossem quatro. Terceiro, um bom livro jamais teria menos do que trezentas páginas e nem mais do que 380. Quarto: a capa em hipótese alguma poderia ser verde. Não se podia confiar em livros de capas verdes."

"Carl sempre ficava triste quando a mochila ficava vazia, sinal de que estava na hora de voltar para casa. Não que não gostasse de onde morava, mas Canino nunca o seguia até lá, e não havia ninguém à sua espera, ninguém que lhe desse uma cutucada com o ombro para pedir um carinho."

"Enquanto algumas pessoas tinham animais puramente domésticos, ele tinha uma companhia para passear. — Oi, Canino — disse ele, e sorriu. Carl dera esse nome a ele porque o gato se comportava como um cachorro: ia atrás dele, farejava tudo e marcava o território. Canino não miava, mas soltava uma espécie de rosnado."

"A diferença entre um romance com final feliz e um sem final feliz é apenas o ponto em que se para de contar a história."

"Foi bom ir embora. Foi fácil. Quando não pensamos nas consequências, nas brigas que virão, nas feridas que carregaremos, ir embora é muito fácil. Basta dar um passo após outro."

sábado, 5 de abril de 2025

a pequena pousada da islândia




"Existe a satisfação de ouvir um hóspede dizer quanto gostou da hospedagem ou que o atendimento foi ótimo. Tem algo bom em poder tirar as pessoas da rotina, das tarefas, de lavar e passar roupa. Dar a elas uma folga. E todo dia é diferente; eu gosto da mecânica de ver tudo funcionando junto e interligado, como num quebra-cabeça."

Em A pequena pousada da Islândia, Julie Caplin nos leva para uma pousada cercada por neve, fontes termais e pela expectativa de ver a aurora boreal. O romance é bobinho e bastante previsível, mas ainda assim me deixei envolver pelo cenário e pela crença nos Huldufólk.

Lucy Smart gerencia um grande hotel em Londres. Porém, após um vídeo gravado pelo ex-namorado, vê sua reputação desmoronar. Resta-lhe apenas a possibilidade de trabalhar na pequena pousada Aurora Boreal, no interior da Islândia. Chegando lá, encontra funcionários despreparados que parecem culpar os elfos por todos os incidentes. Falam disso com tanta convicção que, assim como a protagonista, ficamos sem saber até que ponto estão brincando ou realmente acreditam naquelas histórias. A repetição foi tanta que acabei pesquisando e descobri que a crença nos Huldufólk (o "Povo Oculto" ou, simplesmente, elfos) faz parte do imaginário islandês. Há, inclusive, relatos de obras e estradas que já foram desviadas para evitar locais considerados seus habitats.

Enquanto tenta se adaptar, Lucy descobre que a pousada pode ser vendida e que sua permanência ali talvez seja breve. Ainda assim, decide tornar o local mais aconchegante. Nesse processo, aproxima-se de Alex, o barman escocês. Adivinhem o que acontece?

O que mais me agradou foi viajar por meio das palavras e conhecer um pouco mais sobre a Islândia, que certamente está nos destinos que quero conhecer. Já quero adotar o jólabókaflód ou, como foi traduzido, a “inundação natalina de livros”, hábito dos islandeses de dar livros de presente no Natal. Esse é o segundo livro que leio da autora e da série Destinos Românticos. O primeiro foi O pequeno café de Copenhague, mas a Islândia me pareceu muito mais convidativa ;-)

Para conhecer: Gullfoss (foto abaixo), Hallgrímskirkja, Blue Lagoon


clube de leitura dos corações solitários


"Levei o livro junto ao peito, com uma tristeza repentina e devastadora. Não por causa das pessoas que eu perdera e continuaria a perder, mas porque, mesmo com a perda sempre no horizonte, a vida ainda me chamava."

Ultimamente, tem surgido uma onda de romances que se passam em livrarias, bibliotecas ou giram em torno do amor pelos livros. Clube de Leitura dos Corações Solitários, de Lucy Gilmore, entra nessa mesma prateleira. É uma leitura leve, que entretém sem prometer grandes mensagens nem referências literárias sofisticadas.

A história gira em torno de Sloane Parker, bibliotecária introvertida, e Arthur McLachlan, idoso, rabugento e frequentador assíduo da biblioteca. A partir da relação inusitada entre os dois, outros personagens vão se conectando: a vizinha de Arthur, seu neto e um colega de trabalho de Sloane. Juntos, criam um improvável clube de leitura.

Como era de se esperar, nem tudo corre bem. Arthur tem um temperamento difícil e, mesmo entendendo que sua rigidez é para esconder suas verdadeiras emoções, confesso que em vários momentos considerei seu comportamento abusivo. Já Sloane vive enterrada nos livros e praticamente nunca se expõe ou entra em conflito. Está noiva de um quiropata que gosta dela, mas não desperta paixão, o que combina com o tom morno de sua vida. Guarda, porém, lembranças dolorosas da infância, dos conflitos familiares e da perda da irmã.

A vizinha é uma figura hilária. Ela tem suas questões com a filha, mas garante o toque de humor ao romance. Em contrapartida, o neto é um dos personagens mais sem graça que já vi. Sua presença em cena nada acrescenta, e suas descrições só pioram essa impressão.

Um ponto que me agradou foi a estrutura dos capítulos. Cada um é narrado sob o ponto de vista de um personagem. A abertura exibe a imagem de cartões de biblioteca, aqueles nos quais se anotavam os nomes de quem pegava o livro emprestado. Um detalhe simples, mas que chama a atenção.

Resumindo: não sei se indicaria. Há livros muito melhores para quem procura histórias sobre bibliotecas e livros. Um exemplo é A Biblioteca de Paris, de Janet Skeslien Charles.

domingo, 23 de março de 2025

lembranças ao vento


"Quando você não tem nada e já viu o pior, a educação é como um presente."

Olha, não sei como aguentei ir até o final de Lembranças ao Vento, da australiana Rhonda Forrest. Cheguei nele por recomendação da própria Amazon após a leitura de O vento que sussurra. A premissa até que é boa e poderia ter rendido um ótimo romance, mas o desenrolar se perde em tantos lugares-comuns que ficou difícil manter o interesse.

A história se passa na Austrália. Temos um veterano de guerra traumatizado que vai se refugiar em uma cidadezinha. Lá, dedica-se à criação artística. Faz aulas de pintura com modelos vivos e está sempre trabalhando em uma nova exposição. Também segue uma rotina rigorosa de exercícios físicos, parte do tratamento psicológico. Entre eles, a natação em um lago.

E é nesse lago que, todos os dias, ele vê uma mulher nadando. Só que de forma engraçada e totalmente errada. Ele, secretamente, a apelida de “garota borboleta”, por conta das tentativas (frustradas) dela em nadar nesse estilo.

Nem preciso dizer o que acontece.

Ela também tem suas questões. É refugiada do Afeganistão e está fugindo de um ex-patrão que se considera seu dono. 

Juntam-se aos dois todos os colegas das aulas de desenho. Eles fazem piqueniques, riem, comemoram... e só. No meio disso tudo, aparece a ex possessiva dele. Ah, tem um cachorrinho lindo. Sinceramente, foi talvez o que me segurou até o fim. Fiquei torcendo para que nada de ruim acontecesse a ele.

“Um cachorrinho saiu correndo de uma trilha estreita atrás do lago interrompendo seus pensamentos e girou ao seu redor dando saltos e lhe arranhando as pernas com as patas peludas enquanto tentava pular. Liam pegou o animalzinho no colo, que tentou lhe lamber o rosto com a pequena língua cor-de-rosa. Ele riu e deu um tapinha de boas-vindas no cachorro antes de colocá-lo de volta na areia.”

O romance até que tenta trazer uma crítica social à forma como os refugiados são tratados, mas se rende ao clichê e prejudica a mensagem. Sem contar a falta de cuidado com a revisão da versão em português.

domingo, 2 de março de 2025

os grandes carnívoros


“Às vezes um sinal, um aceno, é tudo de que as pessoas precisam.”

Em Sobre os ossos dos mortos, da polonesa Olga Tokarczuk, temos uma protetora dos animais que investiga a morte de seus cachorros enquanto tenta alertar a pequena cidade em que mora sobre armadilhas espalhadas pelos caçadores locais. Lá, ela é retratada como uma mulher atormentada, desequilibrada, fantasiosa. Em Os grandes carnívoros, da escritora brasileira Adriana Lisboa, temos também uma mulher que luta pelos animais e, mais uma vez, a suspeita de distúrbio sob a máscara de radicalismo.

Adelaide, a protagonista, volta ao Brasil após um período na prisão nos Estados Unidos, onde participou de uma ação direta: o incêndio de um laboratório de testes com animais. Logo fiz a associação com a campanha SHAC (Stop Huntingdon Animal Cruelty), cujos integrantes foram perseguidos e condenados como “terroristas domésticos” pelo governo norte-americano. O documentário The Animal People (2019), produzido por Joaquin Phoenix, retrata bem esse cenário e ajuda a compreender o tipo de dor e vigilância que Adelaide carrega.

Ela foi convocada para a luta durante uma viagem ao México. Depois disso, nunca mais se afastou da causa. Inclusive, casou-se com um companheiro de militância apenas para conseguir a residência nos EUA. Era um casamento de fachada e, mesmo assim, o vínculo entre eles sempre foi forte e verdadeiro.

Chega ao Brasil apenas com sua mochila. Carrega o suficiente para partir novamente, caso precise. Acolhida pela tia, reencontra o pai doente e, antes de recomeçar, resolve tirar um tempo consigo mesma em uma cidade serrana do Rio de Janeiro. Aluga uma casa, consegue um trabalho, conhece poucas pessoas. Entre elas, Rai, o proprietário da casa, com quem estabelece uma relação. Ele sabe do seu passado, mas não a julga. Pelo contrário, trata-a com delicadeza e com um interesse aparentemente genuíno pelo seu amor pelos animais, pelo vegetarianismo.

Sua premissa é desconfiar sempre. "Desconfiar sempre e muito." De tudo e de todos. E, bem no momento em que começa a ceder, a vida a empurra para um abismo inesperado. É quando a dor toma corpo. Foi difícil ler. E dói perceber que nem toda violência tem nome ou justiça. Mas ela está ali, na pele e no silêncio que se segue. A cena em que recorre ao rio para se limpar é de cortar a alma.

O livro vai e volta em lembranças. Entre elas, a clareira. É ali, ainda menina, caminhando sozinha, como sempre gostou de estar, perto da casa dos avós, que ela tem uma espécie de epifania. Vê borboletas amarelas pairando sobre uma poça d’água e, de repente, se dá conta da vida dos animais. E mais: da sua própria participação naquilo.

"As coisas saíram um milímetro do lugar — ou entraram um milímetro no lugar, ela pensaria, ao se lembrar tantas vezes daquele dia ao longo dos anos. A bem da verdade, ela diria a Sofia, não foi só ela ter se dado conta da vida animal."

Outra memória que a assombra é a do seu cachorro Popeye, já velho e trancado no banheiro. Ela, adolescente, o ignorava. Era sua mãe quem cuidava dele. Se as borboletas foram o encantamento, Popeye foi o incômodo.

A narrativa costura com sensibilidade esses dois extremos: o que nos liga e o que nos afasta dos animais. Adriana Lisboa enfatiza nossas contradições. Mostra que o amor aos bichos muitas vezes convive com gestos de dominação, posse, indiferença. Portanto, o contraste entre o afeto superficial e a compaixão ética.

Porém, fica a dúvida sobre o crime e a violência: “Olha para as próprias mãos. Mais uma vez aquela pergunta: onde é que está a violência, aqui, nestas mãos? É possível que não esteja nas mãos. A violência, a violência que existe nela. Essa faculdade. Há um músculo específico onde essa coisa fica alojada? Um órgão, uma área do cérebro? Ou é só o corpo inteiro em dado momento num levante? Será que as mãos que executam atos de violência são as mesmas que fizeram a cama mais cedo — que arrumaram o lençol de algodão, que afofaram os dois travesseiros?”

As reflexões seguem com tudo o que aprendeu sobre os estudos dos animais. Derrida aparece com sua célebre cena do gato que o observa nu. A pergunta “quem chegou primeiro?” é constante. Adelaide busca entender os animais sem lhes impor a linguagem humana.

“Nunca ferimos ninguém. Incendiamos um laboratório de pesquisa. René Descartes, cristão devoto, torturou cachorros e entrou para a história como um dos fundadores da filosofia moderna. Nós fomos para a prisão.”

Sofia, a amiga que conheceu nos EUA e que permanece como uma ausência marcante, é a figura mais próxima de um vínculo. É com ela que Adelaide visita o santuário de animais resgatados. É com ela que compartilha a perplexidade diante do sofrimento animal, inclusive o sofrimento psicológico dos trabalhadores de abatedouros. Não se trata de idealizar. Sofia panfleta. Adelaide duvida. Mas ambas foram atravessadas por algo que não permite mais retorno.

Adelaide existe em estado de vigília. Carrega a luta no corpo, mas já não grita como antes.

"Ela desconfia das pessoas que dizem eu amo os animais. O deboche também cansava. Bater boca cansava. Por isso esses novos silêncios onde antes levantaria a voz. Às vezes acha que as ações de sabotagem eram uma forma de levantar o moral do grupo, de fazer com que acreditassem estar sendo levados a sério, mais do que qualquer coisa.”

Talvez porque tenha entendido que o que está em jogo não é apenas o ativismo, mas o que acontece quando ele confronta o poder. O que o Estado escolhe punir e o que escolhe silenciar.

Os grandes carnívoros é um livro sobre violência, mas também sobre o que muda quando a venda cai dos olhos. Sobre o que resta quando já não é possível voltar ao estado anterior.

Trechos

“Ela se levanta, noite alta. Acende o abajur, abre a mochila de montanhismo e tira as mudas de roupa que trouxe e que são todas as que possui. Neste momento, tudo o que tem de essencial no mundo ela pode levar nas costas. Tudo o que tem no mundo ela poderia, aliás, deixar para trás se a urgência exigisse. Em caso de fuga imprevista. Em caso de incêndio, por exemplo.”

“E era sempre aquela mulher adequada, discreta, que dizia as palavras corretas no tom de voz correto e, no entanto, se descolava ligeiramente da realidade ao redor. Até que as duas foram visitar o santuário de animais resgatados de fazendas. Ficava a pouco mais de uma hora de carro, indo na direção da extensa planície a leste das Rochosas. Ali, Sofia pareceu afinal baixar as defesas — deixar as armas do lado de fora, como naquela festa, anos depois. Ela já saiu do carro quase correndo, feito uma criança, tomada pela alegria. Conhecia todos os animais, muitos pelo nome. As cabras, as ovelhas, as arredias lhamas. As galinhas que no primeiro dia não sabiam ser possível sair, pela manhã, do celeiro onde passaram a noite. O boi que tinha nascido sem os dois olhos, o galo que protegia as galinhas mais velhas, os porcos imensos — a fêmea uma verdadeira lady de duzentos quilos, comendo laranjas inteiras como quem beliscasse petits-fours no chá da tarde.”

“Aprendeu que algo acontecia quando estava sozinha. No princípio era o escuro. Algo acontecia quando não havia as vozes dos seus primos e tios e pais e avós, quando ela mergulhava no rio barrento e tudo submergia no cochicho da água. E o que a água tinha a dizer era uma subtração de tudo o que era dito ao seu redor. Então ela entendeu que para pensar com clareza era bom estar sozinha. Era essencial, talvez, estar sozinha. Começou a fazer passeios que eram como peregrinações. Encontrou um lugar aonde chegava se descesse pelo caminho da casa dos avós e ladeasse o paiol e fosse na direção da casa do seu Jessé (ele amansava cavalos e morava num casebre de um cômodo só). Chegando lá, tomava a estradinha esburacada por onde quase ninguém transitava e seguia até a beira da mata. Havia um passador ali, numa cerca de arame farpado. Ela se espremia pelo passador e se arranhava nas pontas do arame farpado e chegava numa pequena clareira. No princípio era o escuro e a mulher surgiu por conta própria, sozinha, e abriu uma clareira: poderia ter sido assim. A mulher era uma menina. A clareira pertencia a ela, era o seu pequeno santuário. E ela se perguntava por quê: por que eu olho ao redor e sinto o cheiro das coisas ao redor e sinto a terra e as pedras e o mato debaixo dos meus pés e sinto o sol e a sombra na minha pele, por que é que eu me dou conta de tudo isso. Um dia, tinha chovido e uma grande poça d’água se formou. E havia borboletas-amarelas esvoaçando em torno da poça d’água. Por que ela via as borboletas, como era possível que visse as borboletas e soubesse que estava vendo as borboletas? Será que os outros animais também sabiam que sabiam, sabiam que viam? O que será que a borboleta sabia? O jegue que ficava num cercado junto à casa do seu Jessé? A saracura que cantava quebrei três potes? Depois ela voltou para a casa dos avós e tudo parecia levemente desfocado. Como quando brincava de colocar os óculos da avó e as coisas ficavam com uma espécie de névoa e a avó ralhava, dizia tira isso Adelaide você vai estragar a vista. As coisas saíram um milímetro do lugar — ou entraram um milímetro no lugar, ela pensaria, ao se lembrar tantas vezes daquele dia ao longo dos anos. A bem da verdade, ela diria a Sofia, não foi só ela ter se dado conta da vida animal. Foi ter se dado conta da vida animal e saber que ela própria fazia parte daquilo. Estranhamente, como ela também disse a Sofia na mesma ocasião, aquele dar-se conta não mudou sua relação com Popeye, que era o animal não humano mais próximo a ela. Estranhamente continuou se desobrigando dos cuidados com o cachorro quando ele já era um velho doente com onze anos e ela uma adolescente com dezessete. Defendeu uma rã da morte e da dissecção em sua escola (não tinha ilusões, sabia que não tinha salvado aquela rã de coisa alguma) mas não se ocupava daquele cachorro idoso que coabitava com ela. Os cuidados com ele eram, única e exclusivamente, responsabilidade da mãe. A mesma mãe que o havia treinado à base de chineladas a não urinar dentro de casa era o único humano que o levava para passear na rua, que o alimentava, e era também o humano que o fechava dentro do banheiro para que ele não molhasse a casa. O cachorro aparece em seus sonhos. E em sua imaginação. Ela se vê abrindo a porta do banheiro onde ele ficava trancado. O que será que o bicho sentia atrás daquela porta? Não é difícil imaginar, pensa. Não é um pensamento em nada parecido à bucólica memória de um bando de borboletas-amarelas numa clareira ao pé da mata. Se ela se deu conta da vida animal com as borboletas, foi com a memória de Popeye, mais tarde, que se deu conta da descompromissada crueldade humana com os animais. Do suposto amor humano pelos animais que tantas vezes vem colado à violência sem que isso necessariamente cause estranheza. Hoje ela sabe de muita gente de classe média e alta que apregoa a volta a uma vida rural e que num dia está aleitando uma ovelha no colo com uma mamadeira, um doce olhar de compreensão e carinho, para mais adiante assar a mesma ovelha com manifesta gratidão pelo corpo que o animal lhe doou em contrapartida por uma vida de amor e dedicação. É uma conta que não fecha. Sofia fez um panfleto sobre as pessoas, muito diferentes desses privilegiados em busca da roça perdida, que trabalhavam num abatedouro que visitou. Havia, segundo as suas pesquisas, uma minoria que de fato encontrava prazer no que fazia. Mas a maioria estava ali por falta de opção e lidava com casos mais ou menos graves de transtorno de estresse pós-traumático — depressão, ansiedade, pânico, agressividade crescente, paranoia e mesmo comportamento psicótico. À primeira morte, se o trabalhador quisesse continuar ali, deveria seguir um distanciamento emocional. Alguns diziam que matar a primeira vaca não tinha sido nada fácil. Sentiam pena, queriam desviar os olhos, queriam ir embora. Aos poucos, ia ficando mais fácil. No fim, já não sentiam mais nada. E isso tinha um custo. Adelaide foi panfletar junto com Sofia. Uma família passou, o pai disse, ao alcance dos ouvidos delas, ah esses hippies. Vamos pedir costeletas no almoço? A expressão no rosto de Sofia permaneceu inalterada.”

“O que pensa, o que sente uma baleia-azul? O que enxerga uma baleia-azul quando topa com uma prancha na superfície do oceano? O que veem as novilhas no pasto ao seguir com os olhos o carro que passa na estrada? O que vê o gato no homem nu? O que “vê” o boi a quem faltam os dois olhos quando sua língua roça na palma da mão de uma mulher? O que via o beija-flor que esvoaçou ao redor de Adelaide durante uns bons cinco minutos, outro dia, na varanda? Ela se imobilizou por completo para deixar que ele se aproximasse. Ele veio até bem perto do seu rosto. Ela querendo estender a mão para tocá-lo, mas sabendo que isso romperia o pacto. O beija-flor ficou ali, ia e vinha, ela ouvia o zumbido das asas. Ele se afastava um metro, voltava, afastava-se um pouco outra vez, voltava. Chegou a centímetros do seu rosto. O que ele via? O que será que viam, em suas gaiolas, as chinchilas no galpão, no dia daquela inocente visita a convite dos amigos que tinham casa em Teresópolis? Adelaide entrou ali não sabendo muito bem o que esperar. Não pensou muito a respeito. Achava, talvez, que as chinchilas seriam vendidas como animais de estimação ou algo assim. A família caminhando por ali, entre as gaiolas, o pai, a mãe, seu filho pequeno e o cachorrinho. Não teve coragem de fazer a pergunta, mas mais tarde, já em casa, com os olhos esbugalhados de terror, leu: as formas mais comuns de executar as chinchilas para extração da pele são o uso de gás, a eletrocução ou a quebra do pescoço. A eletrocução é feita com um eletrodo na orelha e outro na cauda do animal. Uma leitura levou a outra e depois a outra e foi como ter aberto uma das portas do inferno. E ela soube que as coisas nunca mais seriam as mesmas, que ela nunca mais seria a mesma. As palavras daquele ativista: a partir do momento em que a venda foi retirada dos seus olhos e ele viu a realidade do que acontecia ao seu redor, a partir dali foi como viver em luto permanente. O animal que ela segue com os olhos, com as mãos, com os ouvidos, o animal que a segue (tigre-de-bengala na floresta, baleia-azul no oceano Pacífico, novilha numa estrada rural): como entendê-lo sem cair na tentação de antropomorfizá-lo, sem querer vesti-lo com os seus atributos? Como entendê-lo mesmo sem entendê-lo totalmente? Como respeitá-lo, mesmo que não o entenda totalmente? O que ele espera dela? Será que ele espera alguma coisa dela? Derrida escreveu, Sofia disse, que era como se o gato o levasse de volta à narrativa terrível do Gênesis. E o filósofo se perguntava quem teria nascido primeiro, antes dos nomes. “Quem viu o outro chegar? Quem terá sido o primeiro ocupante — e, portanto, o senhor? Quem permanece sendo o déspota desde sempre?”