quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

a eternidade por um fio




"Nossa geração vai ter que se arrepender não apenas das palavras de ódio e das ações dos maus, mas do silêncio devastador dos bons."


Durante o Carnaval, terminei a trilogia "O século", do britânico Ken Follett, que me acompanha desde 2017. Foram três anos para devorar as cerca de 2,8 mil páginas deste romance sensacional. Ainda estou de ressaca literária e só quem leu a obra vai me entender. A leitura foi sempre intercalada com buscas sobre os fatos reais narrados por Follett, que nos dá uma aula de história. Claro que tudo é romanceado e temos que ter discernimento sobre o que verdadeiramente aconteceu. Porém, não deixa de ser um estímulo para pesquisas mais detalhadas. Vale lembrar que a trilogia sempre foca em cinco famílias: alemã, inglesa, galesa, russa e norte-americana. Ao longo dos anos, elas acabam se misturando de forma muito bem construída, seja por casamento, amizade ou ideologias.

No último volume, "A eternidade por um fio", acompanhamos o desenrolar da Guerra Fria, a guerra da informação entre o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o comunismo soviético. Tanto um quanto o outro trazendo vítimas, censuras e muitas, muitas mortes.

Começamos o romance com Rebecca Hoffmann, do lado alemão. Nas primeiras páginas, estamos na década de 60 e Rebecca foi intimada a depor para a polícia secreta da Alemanha Oriental. Enquanto isso, seu irmão, Walli, inicia os primeiros passos de uma carreira musical, que certamente não terá lugar na sua terra natal. A família foi dissidente do nazismo e agora se confrontava com a censura soviética.

Nos Estados Unidos, George Jakes, filho de uma negra e de um russo, que ascendeu à política, sonha em criar os direitos civis, que podem mudar a forte segregação racial no País. Torna-se advogado e consegue um posto de confiança de Bob Kennedy. Ainda do lado norte-americano, temos os irmãos Cameron, que vai representar o pensamento de extrema direita, e Beep, sua irmã, cujo lema será a liberdade de expressão. 

Na União Soviética, os gêmeos Tanya e Dimka, cuja família é toda militar e ligada ao governo, trabalham em prol da reforma do comunismo em que vivem. Almejam os valores iniciais deste sistema, baseados no fim da luta entre classes e nos direitos igualitários. Enquanto ela utiliza seu posto de jornalista da TASS (agência russa de notícias) para colher e levar informações verdadeiras à população por meio de veículos alternativos, seu irmão é ligado à alta liderança política, e vai buscar de todos os modos aliados para mudar o regime.

Na Inglaterra, outros dois irmãos saem em busca de seus sonhos. Dave e Evie. Ele como músico e ela como atriz. Utilizam suas influências para contribuir com as mudanças que o mundo enfrenta.

Claro que há cenas clichês, exageros dramáticos, mas de modo geral, Follett nos leva a uma viagem por fatos históricos, com falas de personalidades como John F. Kennedy, Robert Kennedy, Martin Luther King, Richard Nixon, Walter Ulbricht, Nikita Sergueievitch Kruschev, Mikhail Gorbachev, entre outros tantos. Acompanhamos a Guerra do Vietnã, a construção do Muro de Berlin, a perseguição aos negros nos Estados Unidos, o célebre discurso de Martin Luther King e o nascimento da cultura Hippie. Tudo isso com passagens bem eletrizantes, como as fugas da Alemanha Oriental, a forma com que os dissidentes russos trocavam mensagens e a viagem de George ao sul do seu País, região que mais segregava os negros. O final é lindo e traz um momento bem recente da nossa história, mas que ainda está longe de ter aliviado a tensão e as injustiças do mundo. Vale cada página.

Leia também:





Segregação racial nos EUA. Veja fonte da foto

Queda do Muro de Berlim. Veja fonte da foto

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

o perigo de uma história única



"A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos parecidos."

No fim do ano passado presenteei várias pessoas com este livro
. Na verdade, trata-se de um texto adaptado da palestra dada, em 2009, pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (veja no fim do post). Aqui ela nos fala um pouco sobre os estereótipos que vamos tendo ao longo da vida, sempre baseados numa histórica única que nos é dado do contexto avaliado.

Quando começou a escrever, ainda criança, suas histórias sempre traziam personagens loiros e de olhos azuis. Pois assim eram (e ainda são em sua maioria) os 'contos de fada'.

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne única."

Sua narrativa parte, sobretudo, de experiências próprias. Ela vem de uma família de classe média na Nigéria. Ainda jovem, foi visitar o vilarejo da empregada da casa e se espantou ao ver que eles viviam bem, felizes e que faziam belos artesanatos. Em sua cabeça, recheada do que seus pais contavam sobre o modo de vida da moça, achava improvável encontrar lá nada além da miséria. Equívoco. 

"Não havia me ocorrido que alguém naquela família pudesse fazer alguma coisa. Eu só tinha ouvido falar sobre como eram pobres, então ficou impossível para mim vê-los como qualquer coisa além de pobres. A pobreza era minha história única deles."

Ela mesma passou por situação parecida quando foi estudar nos Estados Unidos. Diz que as pessoas sentiam pena dela antes mesmo de a conhecer. Era comum que a questionassem sobre seu inglês fluente (poucos sabem que este é o idioma oficial da Nigéria) e também para que ela mostrasse como são as músicas tribais, mesmo quando sua cantora favorita fosse Mariah Carey. Sua primeira colega de quarto acreditava, por exemplo, que ela nunca tinha visto um fogão.

"Sua postura preestabelecida em relação a mim, como africana, era uma espécie de pena condescendente e bem intencionada. Minha colega de quarto tinha uma história única da África: uma história de catástrofe. Naquela história única não havia possibilidade de africanos serem parecidos com ela de nenhuma maneira; não havia possibilidade de qualquer sentimento mais complexo que pena; não havia possibilidade de uma conexão entre dois seres humanos iguais."

Muito desta visão, para Chimamanda, vem da literatura ocidental, que sempre colocou os africanos como "seres exóticos". Ela cita como exemplo trecho do relato de John Lok, mercador britânico.

"Após se referir aos africanos negros como 'animais que não têm casa', ele escreveu: 'também é um povo sem cabeça, com a boca e os olhos no peito. Rio toda vez que leio isso. É preciso admirar a imaginação de John Lok. Mas o importante sobre o que ele escreveu é que representa o início de uma tradição de contar histórias no Ocidente: uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta Rudyard Kipling, são 'metade demônio, metade criança'."

E esta visão não escapou nem aos seus professores universitários, que diziam que seus textos não eram "autenticamente africanos", já que os personagens dirigiam carros e não passavam fome.

Seria muita hipocrisia dizer que nunca estivemos diante de algo semelhante. Tanto de um lado, como de outro. E é justamente isso que alimenta o racismo, a discriminação e as ideias de valores que não condizem com a realidade. Chimamanda atribui a resistência de se buscar outras fontes ao poder. Damos por certo o que ouvimos das pessoas que consideramos autoridade. A passividade com que aceitamos informações nos impede de irmos além do que está sendo dito. Que tal mudarmos isso? Podemos começar com as histórias dos que estão mais próximos de nós ;-)

"O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja a sua história definitiva."

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história."


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

um dia de dezembro



"Sei que é doloroso abrir mão de alguém que se ama, mas não acredito que somos destinados a apenas uma pessoa no mundo."


Eu queria fechar o ano com uma história natalina. Algo que me remetesse, mesmo morando no calor sufocante dos trópicos, ao inverno, à neve e ao estereótipo da magia que me apresentaram quando criança, por meio de desenhos como o Snoopy. Mas devo confessar que gosto e muito. Tanto que não tenho vergonha alguma de dizer que Natal, na minha opinião, é sinônimo, também, de neve. Enfim, lá em julho, eu já tinha colocado na agenda que compraria "Um dia em dezembro", de Josie Silver. É um romance chick-lit, que vai pegar praticamente uma década da vida das personagens. Nada de extraordinário. O mote é o seguinte: uma garota inglesa de vinte anos sonha em ser uma grande jornalista, sua cabeça está cheia de sonhos e a realidade, diferente do que imagina para o futuro, a atormenta. E um fato vai alimentar ainda mais seus devaneios. Ao sair do trabalho no meio da confusão londrina de fim de ano, vê pela janela do ônibus em que está o cara mais lindo da vida. A paixão é imediata. Em um momento, ela tem a certeza de que ele entrará no veículo. Mas isso não acontece e ela passa o ano inteiro seguinte, com a ajuda da melhor amiga, atrás dele. Claro que inutilmente, já que a única referência que tem é o ponto de ônibus em que ele estava. Até que numa bela noite, Sarah, a amiga, apresenta seu novo namorado. Adivinhe quem é? Adivinhe? Sim, claro. Ela esconde a verdade, finge que não o reconhece e começa o drama. Do lado dele, temos a mesma coisa. E assim vai, por anos. Até que…, bem não preciso terminar e nem dar alerta de spoiler. Mais previsível, impossível. Contudo, aqui e ali, temos trechos bacanas que deixam a leitura fluir. Feliz 2020. Com muitos flocos de neves para todos ;-)

sábado, 7 de dezembro de 2019

a pequena livraria de sonhos

 



“Ler é existir na história.”


A pequena livraria dos sonhos”, de Jenny Colgan, é uma homenagem a todas as leitoras e leitores. Certamente, quem gosta de livros vai se identificar com algumas passagens da protagonista. No meu caso, ainda me identifiquei com a paixão que ela tem pelo frio. Talvez até por ser um momento ainda mais aconchegante para termos junto de nós um belo romance.

“Se você não tem lareira em casa, serve uma vela. Quando vai chegando o inverno, já começo a sonhar com o aconchego de uma lareira e um bom livro - quanto maior, melhor. Nada melhor do que um romance bem, bem longo, uma caneca generosa de chá ou uma taça de vinho.”

Nina mora em Birmingham, na Inglaterra, é bibliotecária e sua grande ambição é ler cada vez mais. Até que anunciam que a biblioteca em que trabalha vai fechar e apenas alguns funcionários serão remanejados para outro lugar, uma espécie de centro tecnológico. Ela até tenta participar do processo seletivo, que inclui todas aquelas entediantes dinâmicas em grupo e entrevistas para saber se você é o candidato ideal. Desesperada por ter que fazer parte de um mundo com o qual não se identifica, Nina, que nunca havia feito nada de diferente, surpreende a todos ao tomar a decisão de se mudar para a Escócia. Claro que não é nada fácil. No meio de tudo isso há dilemas, enrolações e um certo empurrão da amiga com quem mora e que já não suporta mais os inúmeros livros que Nina leva para casa. Resultado: ela vai parar em terras escocesas dentro de um furgão, que transforma em uma linda e fofa livraria, daí o título do romance.

Bem, dá muita vontade de passear com Nina em sua livraria itinerante. Ela sabe exatamente o tipo de livro que o leitor precisa, a cura para seus males, algo bem na linha de “A senhora das especiarias”, de Chitra Banerjee Divakaruni. Ou daquele lindo filme Chocolate, do sueco Lasse Hallström, que traz Juliette Binoche e Johnny Depp. Ambos trazendo espécie de feiticeiras do bem que com especiarias e doces ajudam a vida dos infelizes. De certo modo, é o que Nina faz. Obviamente, ela própria vai precisar de ajuda quando encontrar alguns amores pelos caminho. Aliás, fiquei encantada com a forma com que ela e um pretendente trocavam mensagens perto da linha de trem: por meio de livros presos na árvore. Lindo. Nem preciso dizer que o fim é previsível e que a história não tem nada de extraordinário, mas me deixou doida para revisitar a Escócia, um dos locais mais belos que já vi. E, quem sabe, também ter meu próprio espaço de incentivo à leitura.

“Nina sempre fora uma pessoa quieta e isolada, e observava o mundo através dos romances que adorava ler.”

“Algumas pessoas passam a vida inteira sem conseguir tomar muitas decisões, sem querer se comprometer, sempre com medo das consequências de tentar algo novo.”

“Nina amava os dias úmidos e frios de inverno; gostava de se sentar perto do aquecedor e ficar ouvindo a chuva lá fora fustigando o vidro da janela.”

“Na maior parte da vida, o mundo lá fora era apenas algo do que se proteger enquanto ficava em casa com um livro.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

dias de abandono




"O futuro, de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais."

Fazia tempo que não me sentia tão incomodada com um livro. Acredito que a última vez que eu tenha me sentido tão mal tenha sido após a leitura de "Timoleon Vieta volta para casa", de Dan Rhodes. E pelo mesmo motivo: abandono de cachorros. 


Tudo bem que este não era o foco principal de "Dias de abandono", de Elena Ferrante. Contudo, foi o que mais me atormentou. Trata-se do fluxo intenso de pensamento de Olga, após a decisão do marido de deixá-la. Como a narrativa é única e exclusivamente sob seu ponto de vista, só conhecemos suas razões. O fato é que está na cozinha, em um dia normal, as duas crianças brincando, o cachorro dormindo, ela e o marido conversando e eis que ele anuncia que está indo embora. Pronto. O caos é instaurado. Quem já passou por rompimento amoroso sabe a dor que se sente diante da rejeição de alguém em quem depositamos sonhos e expectativas. Passamos por um período de luto, muito bem definido por Alain de Botton em "Ensaio de Amor" (super recomendo!). Mais ou menos assim: dor intensa, queremos morrer. 

Depois vem a revolta e nos questionamos por que perdemos tempo com tal pessoa. Se surgir outro crush, a coisa é mais fácil de se resolver e vida que segue. Mas, no geral, ninguém morre por isso. Eu disse no geral. Porque no caso da nossa protagonista o que temos é definitivamente o seu real abandono. Ela simplesmente desiste de tudo. Praticamente se arrasta pela casa remoendo o tempo que passaram juntos, sua vida dedicada somente a cuidar do marido e filhos, o fato de não ter seguido com o que gostava, em detrimento da escolha pela vida em família. "Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente." Os filhos e o cachorro viraram um estorvo. Não consegue dar conta das coisas mais corriqueiras como, por exemplo, ir ao banheiro. Há um trecho em que ela "se alivia" no bosque, após caminhar de camisola e pantufas. Os filhos, de aproximadamente 6 e 10 anos anos, têm que se virar sozinhos. O cachorro, coitado, é ignorado. E nas poucas vezes em que ela resolveu passear com ele eu gelava. Já via o bicho sendo atropelado por displicência. Eu não estava tão errada. Algo terrível vai acontecer com Oto. O pior é que ela, no ápice de sua letargia, não vai conseguir ajudá-lo. Aí eu acelerei a leitura, da forma mais dinâmica possível, para evitar ler os detalhes da situação em que ela se colocou, colocou os filhos e, infelizmente, o pet. Em tempo: sim, o marido foi um tremendo canalha. 

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor.”

domingo, 3 de novembro de 2019

a filha perdida



“Um pedido satisfeito torna ainda mais
insuportável a falta não confessada.”


A filha perdida”, de Elena Ferrante é uma leitura rápida que traz o fluxo de pensamento de uma professora de 48 anos. Após anos cuidando das filhas, ela se vê, de certa forma, livre para cuidar de sua própria vida. As meninas, já crescidas, foram morar com o pai em outro país e ela voltou a lecionar e fazer coisas que ficaram para trás em sua lista de prioridades. Dentre elas, tirar férias. E é durante o período de recesso que sua mente mostra não estar tão boa.

Leda arruma as malas e vai para o litoral sul da Itália. Lá, enquanto fica em um canto tranquilo da praia, continua trabalhando, lendo seus livros e corrigindo trabalhos. Até que uma família lhe chama a atenção. Primeiramente, percebeu a jovem mãe e sua filha de cerca de dois ou três anos. Gosta de olhar para as duas e ver como são unidas, relacionamento que ela não teve com sua mãe e suas filhas. De certa forma, isso a atrai ao mesmo tempo que lhe traz lembranças amargas. O conjunto de sentimentos acaba fazendo com que a família, que logo se mostra enorme, barulhenta e confusa, seja uma obsessão em seus passeios diários. Chega a ser patética. E tudo piora quando a bebê desaparece, deixando todos enlouquecidos, inclusive Leda, que também participa das buscas. Porém, num impulso doentio, Leda ‘rapta’ a boneca da garota. É como se quisesse recuperar, com isso, sua infância. Talvez daí venha o título do romance. Em paralelo, ela tenta se aproximar do salva-vidas da praia, mas descobre que é apaixonado pela jovem mãe. Ou seja, nada fácil para nossa problemática protagonista. A ideia que fica é o arrependimento por coisas que deixamos de fazer, sonhos que abandonamos e relacionamentos que negligenciamos. Leitura sensacional. Só larguei o livro no fim.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.”

sábado, 19 de outubro de 2019

a casa dos novos começos



"Pode dentro as pessoas eram frágeis. Todas se escondendo, construindo máscaras para se proteger."



Mais um livro que li e que traz como cenário Brighton, cidade litorânea da Inglaterra. Sempre que me deparo com ela me dá uma baita nostalgia dos dias que lá estive. O lugar é incrível e merece sempre ser revisitado, nem que seja por meio da literatura. Ao contrário de “Em casa para o Natal”, no qual a protagonista havia crescido neste local, em “A casa dos novos começos”, de Lucy Diamond, as três protagonistas são forasteira e encontram em Brighton a esperança para dias melhores. E a casa em questão é um pequeno prédio no qual todas vão se encontrar.

O romance começa com Kate, que para mim tem a história mais triste das três e é a única que realmente precisa de muito amparo. Ela quer fugir de toda e qualquer lembrança da terrível perda que teve. Acaba encontrando um emprego em Brighton, onde ninguém a conhece e, por isso, consegue passar a maior parte do tempo isolada com seus próprios pensamentos. Contudo, acaba conhecendo Margot, uma idosa francesa que lhe mostra que, independentemente de qualquer coisa, a vida continua. Se bem que no caso de Kate é bem difícil. Eu não saberia lidar com o que ela passou.

Temos, então, Rosa, que é publicitária, bem-sucedida profissionalmente, mas que se envolve, sem saber, com um homem casado. Desesperada, larga tudo e tenta outra vida como cozinheira. No início, tudo parece complicado e ela pensa em desistir, mas as coisas saem melhor que o esperado e ela acaba se realizando. Ops, spoiler. Mas desculpem, o livro não tem suspense.

Por fim, há Georgie, a mais nova das três. Ela se muda com o namorado que recebeu uma super proposta de emprego. Sente-se perdida e deslocada, mas logo encontra seus próprios motivos para amar Brighton, inclusive outra profissão e uma causa para lutar. É isso. Leitura gostosa, rápida. Boa para ser lida durante uma viagem. Serve também para quem busca consolo ou algumas palavras de conforto. De quebra, a possibilidade de viajar por esta encantadora cidade. Quem sabe a leitura não seja o começo de uma viagem real.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

a árvore dos anjos



 “As pessoas que amamos nunca nos deixam.”


E lá fui eu para outro romance de Lucinda Riley. A capa foi o que mais me chamou a atenção: paisagem na neve. E a história começa no País de Gales, em 1985. Volta para 1945, passa por 1956 e termina na década de 80.

Conta a história de Greta, aspirante a atriz que bem jovem acaba engravidando de um norte-americano. Eles eram de fato apaixonados, mas ele não suporta vê-la nua no palco e rompe o relacionamento. Ela fica na mão e é resgatada por David, amigo que também sonha com o sucesso nos palcos e que, secretamente, sempre a amou. Com seu auxílio, Greta vai para a cada dele no País de Gales. Lá conhece James, tio de David, bem mais velho e que também tem lá seus segredos, e num acordo bom para ambos acabam se casando. 

James assume os filhos de Greta (a gravidez era de gêmeos) e logo passa a ter a preferência por um deles, Jonny, ignorando Cheska, a garotinha. Mesmo assim, a família está feliz e seguindo a vida, até que Jonny adoece e morre com apenas três anos. Isso, como é de se esperar, deixa todos transtornados. Mas Owen, o marido de Greta, não suporta a dor e se transforma, tornando-se violento e obcecado, chegando a colocar as roupas do menino em Cheska e conversando com ela como se fosse o menino. Greta foge para Londres e lá outro mundo lhe é apresentado. Ela reencontra David, que agora é famoso, e com sua ajuda consegue inserir a filha no cinema. E ela é um sucesso, deixando a mãe cada vez mais obcecada por torná-la a grande estrela do cinema. A menina cresce e junto os traumas e medos da infância. A mãe ignora os sinais de seus transtornos mentais, o que só agrava o quadro, culminando com um acidente que deixa Greta por mais de 20 anos sem memória. O romance até que começou bem, mas fugiu um pouco do que estava acostumada a ler de Lucinda, que sempre me deixava meio que leve. Este foi perturbador. Enfim, lido. Mas não recomendo.

“Cinco minutos depois, usando botas de cano alto e uma velha jaqueta, saiu caminhando pela neve, inspirando o maravilhoso ar puro e frio. Fez uma pausa, pensando em que rumo tomar, torcendo para que algum instinto a guiasse, e resolveu dar um passeio pelo bosque. Enquanto andava, contemplou o azul do céu uma súbita alegria a invadiu, diante da beleza da cena.”

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

a nova razão do mundo





“Os neoliberais opõem-se a qualquer ação que entrave
o jogo da concorrência entre interesses privados.”


A partir de breve panorama do liberalismo, os franceses Pierre Dardot e Christian Laval falam, em “A nova razão do mundo”, sobre a evolução e as transformações que fizeram com que o neoliberalismo se tornasse, mais que um sistema político e econômico, uma racionalidade que permeia nosso modo de viver.

Eles dão, inclusive, a data para seu início, 26 de agosto de 1938, durante o Colóquio Walter Lippmann (jornalista e escritor norte-americano). Esse evento, que durou cinco dias, encerrou-se com a criação do Centro Internacional de Estudos para a Renovação do Liberalismo.

Não vou ter a pretensão aqui de resumir a obra, que merece ser lida na íntegra. Apenas vou elencar o que mais me chamou a atenção e o que me faz recomendar muito o livro.

A leitura nos leva a refletir sobre como incorporamos, mesmo sem querer, os valores do neoliberalismo em nosso dia a dia, tanto em nossas relações profissionais, como nas pessoais. A lógica aplicada é a da concorrência a qualquer preço. Não importa o que seja feito, o importante é sempre sair na frente. Os autores falam muito sobre a valorização de empreendedores. Todos precisam ter ideias mirabolantes, executá-las e ganhar muito dinheiro com isso. Quem fizer menos, é perdedor e não merece nenhum benefício para apaziguar seu fracasso. Um exemplo são programas que limitam (ou até mesmo tiram) o apoio dado aos desempregados em alguns países europeus. Eles são obrigados a aceitar os empregos que lhes são oferecidos sob pena de ficarem sem nada. Na verdade, ao contrário do liberalismo que surgiu como forma de acabar com o autoritarismo e que pregava o laissez-faire, “no qual o indivíduo é livre para escolher entre diversos modos de agir, sem ser tolhido pela ameaça de ser punido”, o neoliberalismo parte da premissa de que todos precisam atuar como empresas, inclusive os autores falam do ‘homem empresarial´, “sujeito que tenta superar os outros na descoberta de novas oportunidades de lucro”, o que não deixa de ser outra forma de autoritarismo, se pensarmos bem.

“Toda situação que não corresponde às condições da concorrência pura e perfeita é considerada uma anomalia que impossibilita a realização da harmonia preconcebida entre os agentes econômicos.”

Pregam ainda a limitação do Estado, pois acreditam que o governo pode cair no viés de assistência social, facilitando a vida daqueles que de algum modo não se encaixam na ordem dos negócios e das relações. Em outras palavras, o assistencialismo, que é absolutamente repudiado por esta racionalidade. Partem da afirmação seca: “se uma pessoa não deseja trabalhar, não deve comer.” Por outro lado, o poder das grandes organizações privadas aumenta consideravelmente, e são elas que ditam como as coisas devem ser, inclusive legislações. Neste sentido, a ética nas transações comerciais passa a ser questionável, prova disso é a ascensão recente dos programas de compliance, que visam a dar conta de problemas que podem prejudicar a reputação das organizações e a continuidade de seus negócios.

Essa forma de pensar é incorporada sobretudo nas relações profissionais. Basta analisarmos como somos constantemente avaliados nas organizações, as bases dos famosos ´feedbacks´ dados pelas lideranças e ainda a competitividade acirrada entre os diversos setores das companhias. Outro exemplo é a busca por curtidas e comentários nas redes sociais. Mais do que viver determinado momento, queremos que ele seja visto pelas pessoas, queremos que nossa realidade virtual seja a melhor de todas, a regra é o exibicionismo. “O neoliberalismo não destrói apenas regras, instituições, direitos. Ele também produz certos tipos de relações sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades.

É uma eterna corrida para ver quem mais se sobressai. O resultado é o aumento, cada vez mais expressivo, de doenças mentais, como burnout, ansiedade e depressão. Temos diante de nós um paradoxo interessante: de um lado sabemos o que nos faz mal, mas alimentamos isso, mesmo quando queremos mostrar que estamos pisando no freio. Talvez a saída esteja nas próximas gerações. A cultura do compartilhamento cresce. Com ela a ideia de que o menos é o melhor. Ainda assim, por trás, temos a ânsia em apresentar as melhores soluções para esta ‘economia colaborativa’. “A ação coletiva se tornou mais difícil, porque os indivíduos são submetidos a um regime de concorrência em todos os níveis.” Afinal, “a polarização entre os que desistem e os que são bem-sucedidos mina a solidariedade e a cidadania.” Esta é a nova razão do mundo. É a razão do nosso capitalismo.

“Com o neoliberalismo, o que está em jogo é nada mais nada menos do que a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da modernidade. Essa norma impõe a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada, intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns contra os outros, ordena as relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa. Há quase um terço de século, essa norma de vida rege as políticas públicas, comanda as relações econômicas mundiais, transforma a sociedade, remodela a subjetividade.”

sábado, 17 de agosto de 2019

a revolução dos bichos



“Todos os animais são iguais. 
Alguns mais iguais que os outros.”

Foi ótimo ter lido “A revolução dos bichos”, do inglês George Orwell, logo após a leitura de “Inverno do mundo”, de Ken Follett, que termina com o fim da segunda guerra mundial e a expectativa de governos mais democráticos. Contudo, a realidade é bem diferente. Surgem a divisão da Alemanha, a Guerra Fria e o alastramento do medo, inclusive em nações que dizem pregar a liberdade, mas que, de forma velada, continuam a permitir o racismo e a violência.

A obra de Orwell, lançada em 1945, como afirmou o próprio autor, é uma fábula da revolução russa. O autor usa animais para falar como se deu a destituição dos czares e a tomada do poder pelos comunistas. Vale destacar que ele próprio, após passar por vários perrengues na vida, participou de movimentos socialistas, em especial na Espanha, tendo se deparado com o autoritarismo e o cerceamento da liberdade que o levaram a refletir sobre os verdadeiros valores do movimento. “Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobre dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer administração teórica por uma sociedade planificada.”

O cenário é a fazenda Granja do Solar. Numa noite, quando o proprietário vai dormir, os bichos são convocados para uma reunião urgente. Aos poucos vão se ajeitando no galinheiro para ouvir o velho Major, porco premiado em concursos humanos e que tem o respeito e admiração de todos. A pauta é sobre um sonho que ele tivera e que mostrava como seria o mundo quando o Homem desaparecesse, e também sobre uma canção da infância, cantada pela mãe, que clamava por uma revolução contra os tiranos. Major aproveitou para discursar sobre as condições nas quais os bichos viviam, sempre explorados.

“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida. Nenhuma animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.”
Três dias depois desse encontro, ele morre e a bicharada fica apreensiva para levar o ´sonho´ do Major adiante. A missão acaba caindo sobre os porcos, em especial dois deles, que mais se destacavam no grupo: Bola-de-Neve e Napoleão. Eles organizam o levante e o plano dá certo. Conseguem expulsar os humanos da propriedade, assumindo o controle de suas produções. No início tudo corre bem, com os bichos engajados em provar que o caminho escolhido foi o melhor. A canção apresentada por Major torna-se o hino dessa nova fase, mandamentos são criados e regras de convivências estabelecidas.

Com o tempo, acaba havendo uma divergência em relação aos projetos, em especial a criação de um moinho de ventos. Bola-de-Neve permanece fiel aos ideais de Major, pensando em formas de tornar o trabalho mais justo. Napoleão acaba por gostar da produtividade decorrente dos esforços e pensa em uma forma de ´lucrar´ e fazer a fazenda crescer. Enquanto ficam nesse dilema, surge uma reviravolta e os antigos moradores atacam a fazenda. Muitos animais morrem e os ânimos ficam bem abalados. É a oportunidade que Napoleão precisava para dar um golpe em Bola-de-Neve acusando-o de estar confabulando com o inimigo. Resultado, Bola-de-Neve acaba sendo expulso da Granja. Nisso, Napoleão alia-se a alguns humanos para vender seus produtos. E não é que ele gosta da coisa? Tanto que, utilizando o discurso de ´camaradas, é para nosso bem, para os humanos não retornarem´, explora seus parceiros ainda mais. A figura que retrata o trabalhador que realmente aceita o que está sendo dito é Sansão, cavalo que adota como lema “Trabalharei mais ainda”. Seu fim é triste. E tentar ajudá-lo é a única participação ativa do burro Benjamim, que apesar de saber mais que os outros, preferiu se omitir. Mas sua manifestação aconteceu tarde demais. Há também aqueles que começam a desconfiar do que está acontecendo, porém, somente a dúvida já é motivo para serem mortos. Chega, enfim, um momento em que passam a tocar a vida, esquecendo as premissas que os levaram a ‘assumir’ o controle da fazenda e não sabendo mais o que é o homem e o que é o bicho. Claramente, Napoleão representa Josef Stalin. Bola-de-Neve é Leon Trótski, que, por divergência de opiniões, foi expulso do partido de Stalin, refugiando-se em vários países até chegar no México, onde foi morto por um agente recrutado pelo governo soviético. Major é Karl Marx, que teve o sonho de um mundo sem desigualdades, mas com a infelicidade de deixar seus postulados nas mãos de pessoas que não entenderam seu real significado.

A despeito das questões políticas e históricas apresentadas, essa distopia de Orwell pode servir também para as questões da proteção aos animais. Há citações que retratam claramente o modo como os tratamos, na premissa de que somos superiores. Cabe aqui também a análise a partir do especismo. Inclusive, o trecho que fala sobre como alguns animais são mais iguais que os outros é bem retratado no livro. Há aqueles que por estarem mais próximos do ser-humano têm direitos estabelecidos, chegando até a ser humanizados, por isso, a dificuldade dos demais em saber quem é quem no fim do livro. Enquanto isso, os demais vivem a submissão de forma mais evidente, ou melhor, são simplesmente coisas. Encontrei na internet uma tese, da Universidade de Tampere, Finlândia, que analisa o romance sob a ótica do pós-humanismo. Publicado em 2016, traz vários elementos que corroboram com esse olhar.

O romance teve adaptação para o cinema, em 1954 com uma animação, e uma para TV em 1999. Uma nova versão foi prometida pela Netflix.

“O homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante.”