sábado, 11 de outubro de 2025

todas as cores do céu


"O silêncio se imiscuiu em nossas vidas, permitindo que mantivéssemos nossos pesadelos e pensamentos para nós. Simplesmente seguíamos em frente, fingindo que nada acontecera."

Depois de Pachinko, Herdeiras do Mar e Como Tigres na Neve, todos ambientados nas Coreias, fui para a Índia com Todas as cores do céu, que traz um tema semelhante: mulheres violentadas por estruturas dominantes, mas que carregam a força necessária para que as próximas gerações possam viver sem medo.

Neste romance de Amita Trasi, conhecemos Mukta que, com apenas dez anos, é obrigada a participar de um ritual que a transforma em devadasi, prática que condena meninas à exploração sexual com a desculpa de ser algo sagrado. Depois de sofrer abusos inimagináveis para uma criança, ela é resgatada por Ashok, que a leva para Bombaim, onde passa a fazer parte de sua família e a conviver, especialmente, com Tara, filha dele. As duas têm praticamente a mesma idade e crescem juntas, tornando-se grandes amigas, embora o lugar de Mukta como empregada sempre tenha sido bem delimitado. Seu grande sonho era encontrar o pai, que a mãe, antes de morrer, havia dito ser uma boa pessoa. 

Até que uma explosão, inspirada nos atentados de 1993 em Bombaim, que deixaram mais de 250 mortos e centenas de feridos, mata a mãe de Tara e tudo muda.

Naquele dia, a mãe pede que Tara vá ao Century Bazaar levar algumas roupas. Ela, porém, prefere ficar em casa estudando para uma prova de matemática. A mãe comenta que havia pedido a várias pessoas, mas todas estavam ocupadas, e diz que Mukta estava passando mal. Essa indisposição era apenas uma desculpa para encontrar Tara no lugar onde as duas costumavam conversar, como tinham combinado mais cedo.

Tara, então, culpa Mukta pela morte e passa a hostilizá-la, chegando, inclusive, a planejar um sequestro para que ela saísse definitivamente de sua vida. O ódio só crescia. E eis que Mukta é raptada durante a noite e, apesar dos esforços de Ashok para encontrá-la, ela desaparece. Pai e filha se mudam para os EUA e somente após a morte dele, Tara, que convive com o remorso, vai descobrir que a amiga ainda está viva e fará de tudo para reencontrá-la. Há algumas passagens dignas de filme de ação. Aliás, adoraria ver uma adaptação para o cinema deste livro.

Enquanto busca por Mukta, Tara recorda as diferenças entre as duas. Enquanto ela estudava, a outra jamais teve esse direito, apesar da enorme vontade de aprender. O mais próximo que conseguia era levar a mochila da amiga, imaginando como seria se também estivesse indo para a escola. Gostava muito dos livros e considerava a biblioteca um templo.

"Então, eu continuava a visitar todos aqueles lugares a que Mukta e eu íamos. Sentava no terraço e observava os pássaros voarem no céu daqueles fins de tarde quando a polícia não tinha nada para me dizer; visitava a Biblioteca Asiática fim de semana sim, outro não, apenas para ter Papa de novo comigo, apontando para as estátuas de mármore, contando-me sobre elas, explicando que os livros eram importantes para expandir o nosso conhecimento. E eu ouvia Mukta sussurrar: um templo para livros. E assim eu ia, meus dias se transformando em semanas e, então, em meses."
Tráfico de mulheres, prostituição infantil, desigualdade social, aids, são alguns dos temas que Amita Trasi aborda neste belo romance. Ao final, a autora explica que Ganipur, onde nasce Mukta, é uma aldeia fictícia. Entretanto, comunidades semelhantes realmente existem e ainda submetem meninas à tradição das devadasis. Todas as cores do céu é a esperança que permanece diante de tantos maltratos que a vida reservou a Mukta, tanto na infância quanto depois de seu rapto. Não por acaso, sua filha se chama Asha, nome de raiz sânscrita que significa desejo, esperança.
"às vezes, temos que encontrar uma nova vida, um novo sonho, sobretudo quando o antigo não funcionou."

domingo, 5 de outubro de 2025

como tigres na neve


"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."

Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.

Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.

O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."

"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."

Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.

Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.

Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.

A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.

"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."

sábado, 4 de outubro de 2025

herdeiras do mar



"Há coisas neste mundo que você nunca deveria precisar saber, e eu vou te proteger delas pelo tempo que puder. Esse é o meu dever como mãe."

Hana tinha apenas dezesseis anos quando foi presa pelo exército japonês e levada para se tornar uma mulher de consolo, eufemismo para mulheres e meninas escravizadas sexualmente para atender aos desejos dos militares. Ela nunca havia conhecido uma Coreia livre, pois ainda não tinha nascido quando o Japão anexou seu país, em 1910.

Hana e a mãe eram haenyeo. O trabalho delas consiste em mergulhar para encontrar principalmente abalones, moluscos marinhos considerados uma iguaria, mas também algas e outros frutos do mar. Elas alcançam grandes profundidades sem o auxílio de equipamentos de respiração. As haenyeo, cujo nome significa "mulheres do mar", são as tradicionais mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Ou seja, Herdeiras do mar, título do livro de Mary Lynn Bracht, escritora de ascendência coreana.

Quando tinha sete anos, Hana ganhou uma irmã, Emi. Apesar das dificuldades, as duas viviam relativamente felizes com os pais, dentro das possibilidades daquele período. O pai era pescador, enquanto Hana e a mãe trabalhavam no mar.

Tudo muda no dia em que soldados japoneses se aproximam do local onde elas mergulhavam. Emi, ainda pequena demais para acompanhá-las, estava na praia. Para salvar a irmã, Hana acaba se entregando e é levada pelos militares.

A cena marca profundamente Emi, que vê a irmã desaparecer e nunca se perdoa. Sente-se culpada por Hana ter sido levada em seu lugar. Mesmo depois de se casar e ter filhos, a mágoa nunca a abandona. Ainda assim, continua alimentando a esperança de reencontrar a irmã.

Anos mais tarde, está sempre de prontidão para acompanhar a Manifestação de Quarta-feira, realizada às quartas-feiras, ao meio-dia, em frente à antiga Embaixada do Japão, em Seul. O movimento começou em 8 de janeiro de 1992, reivindicando do governo japonês o reconhecimento dos crimes cometidos contra as mulheres submetidas à escravidão sexual durante a guerra.

Hana, por sua vez, é escravizada sexualmente e sofre todo tipo de violência. Mesmo quando surge uma pequena possibilidade de voltar para casa, prefere não fazê-lo. Ela teme colocar a família em risco e, principalmente, que os pais tenham de suportar o julgamento de uma sociedade que poderia condená-los por terem uma filha considerada "impura". Vale destacar também o enorme esforço que eles fazem para resgatá-la, algo de cortar o coração.

Em suas notas, Mary Lynn Bracht afirma que se acredita que entre 50 mil e 200 mil coreanas tenham sido sequestradas e "usadas" pelos militares japoneses durante a ocupação da Coreia. Como a cultura privilegiava a pureza sexual feminina, muitas das sobreviventes não conseguiram contar suas histórias. Somente muitos anos depois algumas delas romperam o silêncio.

Apenas em 2015, a Coreia do Sul e o Japão chegaram a um possível acordo, mas isso implicava na retirada de uma estátua em frente à embaixada japonesa que simbolizava o que havia acontecido. A proposta não foi aceita, principalmente pelas halmoni, como ficaram conhecidas as sobreviventes, agora idosas.

Esse monumento é a Estátua da Paz, instalada em 2011, uma escultura de bronze que representa uma jovem coreana vestida com o hanbok, traje tradicional do país, sentada em uma cadeira. Ela aparece de forma bastante simbólica no romance. Nele, Mary Lynn Bracht imagina que a jovem retratada possa ser Hana, personagem criada para dar voz às milhares de mulheres que não tiveram a oportunidade de contar sua própria história.


De acordo com o Korea Times, em março de 2026, morreu mais uma vítima coreana da escravidão sexual praticada pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Com isso, o número de sobreviventes oficialmente registradas pelo governo da Coreia do Sul caiu para apenas cinco. Das 240 mulheres reconhecidas pelo país, 235 já haviam morrido. As cinco sobreviventes tinham, naquele momento, idade média de 95 anos.

Herdeiras do mar foi mais uma leitura que fiz sobre as consequências da ocupação japonesa e sobre a ideia de superioridade de um povo que considera os demais inferiores e, por isso, acredita poder transformá-los em objetos para seu próprio uso. A História está repleta disso. Pachinko também mostra essa violência de forma muito dura.

"Na ilha de Hana, o mergulho é tarefa para as mulheres. O corpo delas se adapta às profundezas geladas do oceano melhor que o dos homens. Elas conseguem prender a respiração por mais tempo, nadar mais fundo e manter a temperatura corporal mais alta, portanto há séculos as mulheres de Jeju têm gozado de uma rara independência."

domingo, 28 de setembro de 2025

pachinko


"A história falhou conosco, mas não importa."
É assim que a coreana Min Jin Lee inicia sua saga, que percorre quatro gerações de uma família.

O ponto de partida é Yeongdo, ilha próxima à cidade portuária de Busan. Lá, um casal de idosos decide abrir uma pousada para complementar a renda. Com eles vive Hoonie, o único filho que sobreviveu, justamente o mais fraco. Nasceu com fenda palatina e um pé torto, e era uma das pessoas mais queridas da vila. Em um arranjo feito por uma casamenteira, casa-se com Yangjin, de origem extremamente pobre. Da união nasce Sunja.

A família segue administrando a pousada até a morte de Hoonie, deixando mãe e filha à mercê da invasão japonesa. A situação fica cada vez mais difícil, mas, ainda assim, elas encontram apoio na pequena comunidade e nos hóspedes habituais. Nunca sabem, porém, onde haverá um traidor. Todo cuidado é pouco. O romance retrata a ocupação japonesa da Coreia, a migração para o Japão e a discriminação sofrida pelos coreanos que passaram a viver no país.

Sunja cai na lábia de Koh Hansu, comerciante cheio de classe que se mostra totalmente apaixonado por ela. Ainda adolescente, acaba engravidando, o que deixa a mãe desnorteada. Mas descobre que Hansu é casado e não aceita a condição de amante. Resta-lhe, portanto, criar a criança sozinha.

Nesse meio-tempo, a pousada recebe outro hóspede: Isak, um pastor protestante que chega extremamente doente. Ao ouvir o que está acontecendo, decide se casar com Sunja e assumir a criança como seu filho. Juntos partem para Osaka, no Japão, para a casa do irmão dele. Lá passam a enfrentar dificuldades econômicas e, principalmente, o preconceito contra os imigrantes coreanos.

Ao longo das décadas, acompanhamos o crescimento dos filhos e netos de Sunja. Noa tenta desesperadamente integrar-se à sociedade japonesa. Já Mozasu, outro filho do casal, abandona os estudos e encontra prosperidade administrando casas de pachinko, jogo parecido com um caça-níquel. A atividade faz com que seja ainda mais desprezado pelos japoneses, mas é justamente ela que permite prosperar boa parte dos coreanos. Ele também encontra um grande amor, mas seu desfecho é deveras triste.

A narrativa expande-se para a geração seguinte, especialmente com Solomon, filho de Mozasu, que, apesar de formado em uma universidade dos Estados Unidos e fluente em inglês, japonês e coreano, sofre o racismo estrutural mesmo ocupando um cargo executivo em uma grande empresa.

Nos apegamos muito aos personagens. Sunja nunca desiste e está sempre cozinhando. Aliás, a comida é algo muito presente no romance. Chama a atenção o valor do arroz branco e o quanto ele era importante naquela época, tanto que foi o presente de casamento dado por Yangjin à filha. Também é com arroz branco que o novo casal é recebido ao chegar ao Japão. “Arroz branco. — Só por hoje, para a primeira noite de vocês aqui. Esta é a sua casa agora.”

Outro personagem que desperta curiosidade é Hansu. Nunca soube ao certo quais eram suas verdadeiras motivações. Em diversos momentos ele reaparece na vida da família, e fiquei me perguntando se também não era alguém tentando encontrar seu lugar no mundo. Afinal, ele próprio carrega uma história bastante triste, sobretudo pela morte do pai.

Também gostei muito de Kyunghee, cunhada de Sunja. Ela está sempre ao lado da família, buscando formas de enfrentar as dificuldades e seguir em frente. A amizade entre as duas talvez seja uma das relações mais bonitas do romance. Há ainda Kim Chang-ho, que acaba se aproximando da família e de Kyunghee.

O título remete ao pachinko, jogo em que habilidade e acaso se misturam. A autora mostra como uma família tenta construir uma vida entre dois países, sem ser plenamente aceita por nenhum deles. Foi adaptado para a TV em um excelente produção da Apple TV+, que quebrou a linearidade da história. Ainda fico com o livro, porém. Apesar de ver e rever a abertura da primeira temporada inúmeras vezes. É contagiante!


Curiosidade:

“Devido às exigências do governo colonial, era normal que os coreanos tivessem dois ou três sobrenomes, mas na Coreia ela praticamente não usava o tsumei japonês que aparecia em seus documentos de identidade (Junko Kaneda), porque não frequentava a escola e não tinha nenhuma relação com instituições oficiais. O sobrenome de nascimento de Sunja era Kim, mas no Japão, onde as mulheres adotavam o nome de família do marido, ela era Sunja Baek, que se traduzia como Sunja Boku, e em seus documentos de identidade seu tsumei agora era Junko Bando. Quando os coreanos tiveram que escolher um sobrenome japonês, o pai de Isak escolheu Bando porque soava como a palavra coreana ban-deh, que significa “objeção”, o que tornava seu sobrenome japonês obrigatório uma espécie de piada. Kyunghee havia assegurado a ela que logo todos aqueles nomes se tornariam normais.”


Por fim, um dos trechos que mais me marcou:

"Quando era uma jovem mãe, costumava haver apenas um momento em suas horas de vigília em que sentia uma espécie de paz, e era sempre depois que os filhos iam para a cama. Desejou vê-los como eram naquela época: as pernas gordinhas e brancas, os cortes de cabelo desiguais, porque nunca paravam quietos no cabeleireiro. Desejou poder desfazer as vezes em que os havia repreendido só porque estava cansada. Havia cometido tantos erros. Se a vida permitisse revisões, ela os deixaria ficar um pouco mais no banho, leria mais uma história para eles antes de dormir e prepararia mais um prato de camarão."

Certamente, eu deixaria o camarão de lado. Todavia este não é o objetivo do texto. Indico muito a leitura.

Nota: Cheguei até Pachinko por dois motivos. O primeiro foi a capa linda, com uma coreana em trajes típicos, o hanbok. O segundo foi porque vi no enredo que ele poderia ser a continuação de uma série coreana que eu tinha acabado de assistir, Mr. Sunshine. Ela retrata os últimos anos do Reino de Joseon, como a Coreia era conhecida até então. A história começa em 1871, época em que o país sofreu a invasão dos Estados Unidos e, posteriormente, a ocupação japonesa. Foi perfeito seguir essa ordem e conhecer uma história que ainda me era desconhecida.

domingo, 14 de setembro de 2025

o desabamento


Quando recebe a notícia da morte do irmão mais velho, Édouard não sente nada. Para não dizer absolutamente nada, pensa na mãe. É por ela que decide ir ao enterro. Durante o percurso, tenta entender o que aquele irmão significou para ele. 

"Talvez a gente possa ficar verdadeiramente e autenticamente consternado quando é tarde demais, não sei." 

As lembranças, porém, não são boas. O irmão não gostava de trabalhar, vivia arrumando encrencas e espancava as namoradas. Sua presença sempre esteve associada à violência.

Ainda assim, Édouard se recorda de alguns momentos que destoam dessa imagem, como quando foi morar por alguns dias com o irmão para estudar em uma escola melhor. Foi recebido de braços abertos. O irmão fazia questão de chamá-lo de "meu irmãozinho" e parecia feliz com sua presença. Mas não conseguia evitar a bebida. Sempre voltava bêbado para casa, deixando Édouard abalado e tomado pelo ódio. Lembra também de quando o irmão conseguiu um emprego no qual realmente acreditava. Parecia, enfim, disposto a mudar de vida. Mas foi completamente desestimulado pelo padrasto, pai biológico de Édouard, que já estava cansado das sucessivas tentativas frustradas do enteado.

Para compreender quem aquele homem realmente foi, Édouard conversa com a mãe, a irmã e antigas companheiras do irmão. Cada uma delas revela uma faceta diferente: o filho, o irmão, o companheiro agressivo, mas também alguém que, em alguns momentos, tentou construir outro caminho. Aos poucos, a imagem que parecia definitiva começa a ganhar nuances. 

"Meu irmão era tão despossuído de tudo, de dinheiro, de seus sonhos, de felicidade, que esse discurso de ódio era, de certa forma, tudo o que tinha." 

O livro é forte e corajoso. Apenas pelo fato de espancar as namoradas, o irmão já não pareceria merecer qualquer gesto de compaixão. Ainda assim, Édouard Louis decide ir além desse julgamento e tenta entender o que o levou a seguir esse caminho. Não para encontrar uma justificativa, porque ela definitivamente não existe, mas para, talvez, entender quem de fato ele foi no meio de tantas derrotas, humilhações e falta de perspectivas.

"Como esquecer quando não há nada pela frente?"

A escrita é direta, limpa, sem delongas. Em muitos momentos, tive a impressão de que havia alguém sentado à minha frente apenas contando essa história, de forma objetiva, quase fria. O desabamento foi meu primeiro contato com o escritor francês Édouard Louis, conhecido por transformar experiências pessoais em literatura. E terminei a leitura com a sensação de que ainda há muito a descobrir sobre sua vida por meio da sua obra.

sábado, 6 de setembro de 2025

sagarana



Obra de estreia de João Guimarães Rosa, Sagarana traz contos que narram a vida no sertão mineiro. Inicialmente apresentado, em 1938, como Contos para um concurso literário, ele foi refinado para sua versão que hoje temos em mãos. Para tanto, foram excluídos três textos, houve revisões, lapidações e a publicação em 1946 com o neologismo Sagarana, marca que se tornaria uma das principais características do autor.

S A G A R A N A. Soma do germânico saga (conjunto de estórias) com o tupi rana (à maneira de). Ou seja, à maneira das estórias orais. E é exatamente assim que lemos os textos. Parece que estamos ouvindo alguém a nos contar o que se passa no pedaço de terra “que era seu”, como o autor mesmo comentou em carta endereçada ao jornalista e amigo próximo João Condé:

“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais.”

E para além do regional, da tradição de narrar causos, Sagarana, assim como outras obras de Guimarães Rosa, traz personagens animais que refletem, sentem e se relacionam com o mundo de modo próprio. Em alguns momentos, eles aparecem como personagens centrais, com escolhas e estratégias próprias. Em outros, são apenas montarias, puxam carros, compõem a paisagem. Há também os animais que aparecem apenas para serem apreciados. Os gaviões despertam admiração de um narrador, que os considera belos, porém, outro personagem rejeita essa visão estética. Para ele, beleza sem utilidade não tem valor. Até o urubu, que surge pairando no céu, é imediatamente associado à função que desempenha no ciclo da morte.

“Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, p’ra mim, seu doutor não leve a mal, p’ra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…”

Ou seja, o animal vale para o que nos serve.

Em Conversa de bois, Manuel Timborna afirma que os animais falam. Seu interlocutor escuta com desconfiança, mas decide ouvir a história que começa com uma irara que se ajeita para ver a passagem de um carro de bois. Rosa descreve seus movimentos, suas escolhas e a forma como calcula o melhor lugar para permanecer escondida. Depois aparecem os bois, todos nomeados: Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé. Eles sentem o calor, os insetos, o peso da carga e conversam entre si. Sabem que são bois de carro e distinguem-se daqueles que vivem apenas pastando, os bois em massa. Durante a viagem, acompanham também o menino Tiãozinho, que segue ao lado da junta levando o corpo do pai e lamentando ter que conviver com o carreteiro. Os bois observam tudo o que acontece ao redor e resolvem ajudar o garoto. Ficou para mim a questão: seriam os bois a metáfora para o peso que o garoto carrega?

“Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!

— Falam, sim senhor, falam!… — afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, — filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; — Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.

— Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje:… “Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!…” Mas, e os bois? Os bois também?…

— Ora, ora!… Esses é que são os mais!… Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu.” 


Em O burrinho pedrês, Sete-de-Ouros é chamado para uma caravana por falta de outras montarias. Velho e experiente, já passou por muitos donos e vive agora numa espécie de aposentadoria. Durante a viagem, acompanhamos os vaqueiros conduzindo uma grande boiada até o embarque no trem. Os bois chegam em massa, vindos de diferentes regiões, formando uma multidão de cores, tamanhos e origens. A boiada pressente a tempestade que se aproxima. Mais tarde, durante a travessia, alguns cavalos empacam diante da água. Os vaqueiros decidem então seguir a decisão do burrinho: se ele entrar no rio, todos entram. Sete-de-Ouros observa o ambiente, avança e atravessa a enchente nadando. Muitos homens e cavalos morrem na travessia, mas o burrinho consegue alcançar terra firme levando dois vaqueiros consigo. De volta ao curral, procura o cocho, come milho e se acomoda para voltar ao precioso descanso.

Em Sarapalha, o cenário é outro. O conto acompanha Primo Ribeiro e Primo Argemiro vivendo isolados numa região devastada pela maleita. Ali permanece também o cão perdigueiro Jiló, que circula entre os dois homens e acompanha o cotidiano daquele lugar marcado pela doença e pela solidão. No final, o animal terá que decidir com qual dos donos - a posse permeia as histórias - ficará.

Já em Minha gente, um rapaz da cidade visita a fazenda do tio e reencontra a prima por quem se interessa. A narrativa acompanha deslocamentos pela paisagem rural, sempre a cavalo. Durante o trajeto, aparecem diversos animais: vacas, zebus, bois, gaviões, carcarás, anus e urubus. Alguns são descritos pela aparência, outros pela utilidade. O cavalo, porém, permanece quase sempre apenas como montaria, acompanhando os personagens ao longo do caminho.

Em São Marcos, acompanhamos Izé, que vive em um povoado onde a feitiçaria faz parte do cotidiano. Embora declare não acreditar nessas práticas, ele passa constantemente pela casa de João Mangolô e zomba do feiticeiro. Em seus passeios pelo mato, dedica-se a observar a natureza, as cores, os ruídos, os movimentos mínimos. Certo dia, subitamente, fica cego. Desorientado, acaba recorrendo justamente à reza de São Marcos, que antes tratava com ironia. Ao pronunciá-la, recupera a visão e descobre que Mangolô havia “amarrado” simbolicamente seus olhos.

Corpo Fechado mostra um local conhecido por ter vários valentões. Manuel Fulô é um deles, famoso por suas histórias e trapaças, vê-se ameaçado por Targino, o novo chefe local, que anuncia publicamente sua intenção de dormir com sua noiva antes do casamento. Manuel recorre, então, a um feiticeiro que lhe promete “fechar o corpo” contra qualquer agressão. Como troca, exige sua querida mula. E eis que dá certo, e ele vence o adversário. A narrativa mistura superstição, disputa de poder masculino, desvaloriza a mulher e o animal. Tanto a mula que foi moeda de troca, como um rato e gato que também aparecem no conto, presos e forçados a fazerem amizade pelo próprio Fulô.

Em A hora e vez de Augusto Matraga, acompanhamos a trajetória de Nhô Augusto, homem violento e temido, que perde prestígio político e familiar. Espancado e dado como morto após tentar reagir à traição e à perda de seus aliados, é salvo por um casal de negros e passa por um período de isolamento e penitência. Trabalha, reza, busca redenção. Anos depois, ao encontrar o jagunço Joãozinho Bem-Bem prestes a executar uma família por vingança, intervém. 

A volta do marido pródigo nos mostra Lalino Salãthiel, que nunca gostou muito de trabalhar e que sempre sonhou com a oportunidade de sair daquela cidade pequena onde morava e ir para um lugar maior. Surge, então, a chance de ir para o Rio de Janeiro. Ele parte, deixa a esposa, Maria Rita, na cidade, e na capital cria para si uma nova história, uma narrativa de sucesso que talvez não corresponda exatamente aos fatos. Vive a cidade grande, aproveita o que pode, constrói uma imagem de si mesmo. Mas acaba voltando. E, diferentemente do filho pródigo bíblico, não é recebido com festa. Maria Rita já está casada com outro homem, um espanhol. É nesse momento que surge nele a vontade de recuperar o que perdeu. Resta saber se o desejo é amor, orgulho ferido ou simples incapacidade de aceitar que foi substituído.

Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.

A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.

sábado, 23 de agosto de 2025

elizabeth costello


“Não é absurdo, é?, se ocupar daquilo que as pessoas têm em comum em vez daquilo que diferencia um do outro.”

Eu conheci Elizabeth Costello em A vida dos animais, ensaio romanceado do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Lá, temos o resultado de uma palestra real que o autor proferiu durante uma conferência nos EUA. Usando de um alter ego, Costello, ele trouxe reflexões filosóficas e poéticas sobre a forma com que nos relacionamos com os animais.

Aqui temos uma coletânea de contos, ou ensaios, sobre a personagem fictícia. Conhecemos, portanto, um pouco mais sobre sua história e sobre os motivos que foram levando-a a abordar a crueldade em todas as suas esferas, contemplando os animais que muitas vezes acabam invisíveis. São oito capítulos sobre filosofia, literatura, mitologia e temas que percorreram toda sua trajetória, profissional e pessoal.

Em Realismo, a personagem nos é apresentada. Nascida em 1928, em Melbourne, na Austrália, está com 66 anos no momento descrito neste primeiro conto. Casou-se duas vezes e tem um filho de cada um desses relacionamentos. “Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos.”

Aqui, ela se prepara para receber um dos maiores prêmios literários. Está com seu filho John, professor de física e astronomia, o mesmo que a acompanha em A vida dos animais. Percebe-se o desconforto dela com as cerimônias que cercam o prêmio, como o jantar, a entrevista e a própria premiação. Sabemos que John sentiu muito a falta da mãe durante a infância, já que ela costumava se isolar para escrever, deixando ele e a irmã de lado, algumas vezes trancados do lado de fora do cômodo usado como escritório. “Desde que se conhece por gente, sua mãe sempre se isolou de manhã para escrever. Nenhuma interrupção sob qualquer circunstância. Costumava sentir-se uma criança infeliz, solitária e não amada. Quando estavam com muita pena de si mesmos, ele e a irmã sentavam do lado de fora da porta trancada e soltavam pequenos gemidos. Depois de gemer passavam a cantarolar ou cantar, e se sentiam melhor, esquecendo o abandono.”

Tenho que ser solidária com Costello. Ela trabalhava em casa, e talvez justamente isso tenha sido um problema na época. Os filhos achavam que ela os ignorava, quando, na verdade, ela precisava daquelas manhãs para produzir e se dedicar ao ofício que havia escolhido e que, pelo que lemos, era sua paixão. Agora, ao estar com a mãe, que aprecia sua companhia e se sente confortável ao lado dele, John vê uma mulher velha e frágil.

Por se sentir renegado pela mãe, John só foi ler os livros dela muitos anos depois, aos 33 anos. Foi sua vingança. Um colega psiquiatra me disse que as crianças são as maiores especialistas em fazer a mãe sentir culpa. Eu tenho uma filha e sei exatamente o que ele quis dizer. Até entendo o que John sentiu quando criança. Mas e as figuras paternas neste movimento? Qual parcela de culpa lhes foi dada? Incompreendida, porém, ela seguiu.

Temos, na sequência, A vida dos animais 1: os filósofos e os animais e A vida dos animais 2: os poetas e os animais, sobre as quais falei com mais detalhe em outro texto.

Em As humanidades da África, voltamos um pouco no tempo e temos uma Costello mais jovem reencontrando um antigo amor em um evento durante um cruzeiro, momento em que também reflete sobre o racismo e as diferenças interraciais. Enquanto ela fala sobre o futuro do romance, ele trata especificamente do romance na África. Para ela, “o romance sugere como podemos explorar o poder de o presente produzir o futuro. É por isso que temos essa coisa, essa instituição, esse veículo chamado romance.”

Já ele fala do individualismo que marca a leitura dos romances, algo que não combina com a cultura africana, que prioriza histórias orais que unem as pessoas. Reforça que “ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós, africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que eu estou lendo é mais interessante do que você poderia ser.”

Isso para dizer que, para o africano, o verdadeiro romance é o oral. “Na página ele é inerte, apenas meio vivo; ele desperta quando a voz, vinda do fundo do corpo, inspira vida a suas palavras, as enuncia em voz alta.”

A história do corpo incomoda Costello, que não parece se convencer. Mas há africanos escrevendo, e seu amigo lhe diz que esses livros não são escritos para africanos, diferentemente do romance inglês escrito para ingleses, por exemplo. O romance africano é escrito para estrangeiros. “Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores.”

O tema da África segue em As Humanidades, quando ela vai ao encontro da irmã que não vê há doze anos, Blanche, cujo nome agora é Irmã Bridget. Há anos ela mora na África, seguindo sua vocação religiosa. Hoje, vive em uma zona rural da Zululândia, na África do Sul. Também acadêmica, teve um livro que repercutiu muito bem e que lhe rendeu um título honorário, cuja cerimônia terá a presença da irmã.

Costello chega cheia de preconceitos a uma terra que nunca quis visitar e que considera feia. “Horas de sua vida perdidas na passagem sobre o Oceano Índico; inútil pensar que vai recuperá-las. Devia tirar uma soneca, recobrar-se, recuperar o bom humor antes de encontrar Blanche; mas está inquieta demais, desorientada demais, e - sente vagamente - indisposta demais. Será que pegou alguma coisa no avião? Cair doente entre estranhos: que horror! Ela reza para estar errada.”

Curioso o foco que Coetzee dá à idade, sempre trazendo Costello como velha, cansada, rabugenta. Enquanto narra a cena das duas irmãs conversando, ressalta que estamos diante de duas velhas em terra estrangeira. Duas estranhas, por não conhecerem de fato uma a outra, em um local que também não é delas. Como se tudo fosse um peso. A idade, o lugar, a conversa.

O tema da palestra, desta vez, é a humanidade, onde ela se instala e o que a literatura tem a ver com isso. Enquanto Costello acredita que os livros são suficientes para aprendermos sobre nós mesmos, Irmã Bridget acredita que eles não são necessários para enxergar a mesquinhez e as crueldades dos seres humanos, o que Costello entende como um ataque pessoal.

Surge, então, entre elas, um debate sobre o helenismo como a principal tentativa do humanismo europeu de oferecer uma visão secular de vida ideal, inspirada na liberdade, na beleza e na racionalidade atribuídas à Grécia antiga. Blanche afirma que esse modelo fracassou porque era elitista, ilusório e distante da experiência real das pessoas comuns. Já Elizabeth argumenta que, mesmo assim, os seres humanos precisam de esperanças e utopias para viver.

A conversa revela, assim, a crise das humanidades e a dificuldade contemporânea de encontrar novos sentidos coletivos para a existência. Ambas terminam a série de palestras e debates exaustas, com a certeza de que foi a última vez que se viram. Fica, por fim, a falta da completude entre ambas, tão necessária, mas distante.

Em O problema do mal, Costello está em Amsterdã para discursar sobre por que o mal existe e se há algo a ser feito diante dele. Há indícios de que se trata de um evento posterior à palestra sobre A vida dos animais e aos julgamentos que recebeu depois dela. Foi, inclusive, atacada por outra mulher, que a chamou de "vaca fascista", além de receber acusações de antissemitismo por comparar a forma como tratamos os animais ao Holocausto. Ela sabe que foi convidada para falar justamente por causa de toda essa repercussão e, ainda assim, aceita o convite. O tema geral do encontro é "Silêncio, Cumplicidade e Culpa?". Dentro do tema principal, fica encarregada de abordar "Testemunha, Silêncio e Censura".

O convite chega justamente quando ela está lendo Paul West escrever sobre Hitler. O capítulo discute os limites éticos da literatura diante da representação do mal. Elizabeth Costello questiona se dar voz e vida literária a figuras violentas, como carrascos nazistas, não significa também libertar novamente esse horror no mundo. É pensando sobre a obra de Paul West que relembra a violência que sofreu aos dezenove anos, quando foi vítima de uma tentativa de estupro seguida de espancamento, episódio que manteve em silêncio por décadas. Foi seu primeiro contato com o mal. Entendeu que não era nada mais que isso, o mal, no momento em que a sensação de afronta do homem cedeu e um imperturbável prazer em machucar tomou seu lugar.

Desenvolve sua palestra dizendo que certas coisas deveriam permanecer fora de cena, pois nem tudo o que pode ser narrado deveria ser mostrado. Seu argumento gira em torno da liberdade artística versus a responsabilidade moral de representar a crueldade. "Obsceno" é como ela define tanto o fato de Paul West trazer à tona as atrocidades cometidas por Hitler quanto a lembrança da violência que sofreu. Obsceno, aqui, no sentido literal da palavra: aquilo que deveria permanecer fora de cena.

Após o fiasco que considera ter sido sua palestra e da tentativa frustrada de chamar a atenção do escritor, acaba refletindo sobre o que ele faz, e que também é o que ela própria faz: mostrar a brutalidade do mundo. Ela faz isso ao falar dos abatedouros, por exemplo. Ela, da mesma forma que Paul West, sabia como jogar com as palavras até elas estarem certas, palavras que lançariam uma corrente de choques elétricos pela espinha do leitor. Carrasca à sua maneira.

Quando finalmente encontra Paul West, fica procurando nele o mal. A cena me remeteu imediatamente à Hannah Arendt e à banalidade do mal, expressão que chega a ser mencionada por Costello. Ela procurava um monstro que justificasse as atrocidades, mas encontrou apenas o banal. Da mesma forma que Hannah Arendt esperava encontrar, no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, um homem monstruoso, mas viu apenas um agente comum, medíocre até. Alguém que seguiu o caminho da obediência e da inércia diante do horror que estava à sua frente. E no caso específico do seu incômodo pela obra de West, trata-se de uma questão mal resolvida que está muito mais relacionada com o que ela mesma deixou de falar, e não o que o autor se propôs a retratar. Ela calou-se, e esse silêncio dói, seja pela impunidade, seja pelo acolhimento que nunca teve. Penso que a indignação com a obra do colega seja, em parte, a indignação que ainda sente ao lembrar da menina de dezenove anos que nunca viu sua dor reconhecida. 

Em Eros, Costello conjectura sobre nossa relação com os deuses. Mas não se trata da dimensão metafísica. O que lhe interessa é o físico. Como seria uma relação sexual entre humanos e deuses? Qual a sensação da carne do homem envolta em carne de deusa?

O que interessa a Costello é imaginar, por exemplo, como foi a noite entre Anquises, um mortal, e a deusa Afrodite, união da qual nasceu Eneias, um dos grandes heróis da Guerra de Troia.

Essa resposta ela encontra na tradição poética, que diz que Anquises levou uma vida normal, envelheceu e permaneceu em seu universo ordinário. “Se não esqueceu aquela noite fatídica, não pensou muito nela, não como nós entendemos pensar.” Para ela, esta é uma experiência única, íntima.

E traz um paralelo com a Virgem Maria. Como teria sido aquele momento, aquele instante em que tudo aconteceu? Essa é sua dúvida. “Ninguém à sua volta tem o descaramento de perguntar: Como foi, o que você sentiu, como você aguentou? Mas essas perguntas devem ter ocorrido com certeza às pessoas, às suas amigas em Nazaré, por exemplo. Como ela aguentou?, devem ter sussurrado entre elas.”

Será que atingimos o divino nesse instante? É quando Costello chega aos outros modos de ser. Isso porque está falando do ponto de vista dos humanos, mas há muito além do que pensamos e sentimos, o que mostra a nossa limitação, uma questão kantiana, segundo a própria Costello. “Existem outros modos de ser além do que chamamos humano e nos quais possamos penetrar; e, se não existem, o que isso nos revela sobre nós mesmos e nossas limitações?”

Chega a comparar a curiosidade dos deuses em relação aos humanos com a nossa curiosidade pelos demais animais. Para ela, levamos vantagem em relação aos deuses por conta da mortalidade, o que nos dá mais urgência, mais vigor em tudo o que fazemos. “Gostaria de pensar que os deuses admiram, mesmo de má vontade, a nossa energia, a incessante criatividade com que tentamos escapar de nosso destino.”

E, mais uma vez, vem a referência à velhice. Costello imagina que talvez só faça essas perguntas porque já está velha demais para dançar.

Em No portão, Costello chega ao céu, ou ao que nos parece ser o céu, e encontra-se diante do portão que dá acesso ao local. Um homem, mais novo do que ela, informa que antes de entrar precisa apresentar uma declaração dizendo em que acredita. Todos ali têm uma crença. Ela também deveria ter a sua. O problema é que Costello não sabe responder.

Ela explica que sua profissão, como escritora, não é acreditar, mas escrever. Vive de ficções e de crenças provisórias. Uma convicção definitiva apenas limitaria seu trabalho. Pede, por isso, que sua condição de escritora seja considerada uma exceção.

Enquanto aguarda uma nova oportunidade para apresentar sua declaração, é encaminhada a um dormitório e passa os dias caminhando pela praça, observando as pessoas e refletindo sobre a própria vida. Em determinado momento, lamenta não ter vivido de outra forma. Pensa que talvez devesse ter se divertido mais e se pergunta se a vida dedicada à escrita lhe trouxe alguma vantagem naquele instante em que tudo parecia depender de uma única resposta.

Ao mesmo tempo, percebe que suas crenças surgem quase por acaso. Em um dia, acredita nas rãs. No outro, talvez acreditasse em gafanhotos ou mosquitos. Nada parece definitivo. Tudo é provisório, como sempre foi também sua literatura.

E assim ela segue refletindo sobre qual seria sua crença enquanto aguarda o julgamento final, o que me lembrou muito O processo, de Franz Kafka, ao qual ela mesma recorre, em que um homem é retirado de seu trabalho e levado a um tribunal sem saber exatamente por que está ali. Lembrei-me também de Alice no País das Maravilhas, que caiu em uma terra cheia de surpresas. Costello não sabe exatamente que lugar é aquele. Sabe apenas que precisa atravessar aquele portão.

Ela teve uma grande paixão e decidiu segui-la. Mas foi incompreendida. Ao longo de todo o livro é chamada de velha, como se esse fosse seu principal atributo, quando dedicou a vida a trazer reflexões e provocações. Não abandonou os filhos e, ainda assim, eles cresceram com essa sensação. Em nenhum momento surgem os pais, ou a responsabilidade que também lhes caberia. Fiquei pensando se um escritor homem seria acusado por se trancar em um quarto para escrever enquanto os filhos esperavam do lado de fora.

Tudo isso deixa marcas. Vamos conhecendo suas feridas, como a violência que sofreu aos dezenove anos, e entendendo melhor a mulher por trás da intelectual. Para mim, Costello foi, acima de tudo, uma personagem incompreendida. Alguém que nunca deixou de se apaixonar. Não pelo amor romântico, mas pelo conhecimento e pelo que podemos fazer com ele. Resta saber se essa resposta será suficiente no que parece ser seu juízo final.



sábado, 16 de agosto de 2025

oração para desaparecer


“De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.”

Imagine acordar e perceber que você está enterrada, com tudo o que isso pode representar. Pois é exatamente o que acontece com Cida. E, para piorar, ela não sabe quem é, não se lembra de nada sobre sua vida. O resgate é feito por um casal em Almofala, uma aldeia em Portugal. Tudo com a maior naturalidade do mundo, afinal, era esperado que ela surgisse ali, uma ressurrecta, como chamam pessoas que somem em um lugar do mundo e aparecem em outro, devidamente enterradas. Junto com Jorge, ela vai atrás de uma pessoa que cria passados, de modo que ela possa ter algo sobre o que contar. Aqui temos referência direta ao romance O vendedor de passados, do português José Eduardo Agualusa, especialmente pela presença de Félix Ventura, personagem que cria passados para outras pessoas, reforçando o tema da construção artificial da memória. E, para essa reconstrução, vale tudo, inclusive os sonhos que ela tem, e pelos quais Félix tanto se interessa. Aos poucos, as lembranças vão surgindo, e ela chega a quem realmente foi. Resta saber qual das duas personagens ela vai escolher.

Enquanto isso, em outra Almofala, desta vez no Ceará, temos um personagem já envelhecido, Miguel, que espera pela sua Joana, mulher que desapareceu misteriosamente.

Essa é a premissa de Oração para desaparecer, da brasileira Socorro Acioli. O romance é baseado em um fato real. Em Almofala, no Ceará, uma igreja construída no século XIX foi totalmente coberta por areia das dunas móveis. Cinquenta anos depois, ela reaparece praticamente intacta. Antes da invasão da areia, todos os santos foram retirados, o que levou a uma comoção geral. A história pode ser conferida aqui nesta reportagem do Diário do Nordeste.

Partindo desse acontecimento, a autora, que tem um pé no realismo fantástico, principalmente considerando que teve aulas com Gabriel García Márquez, nos presenteia com uma história instigante que brinca com crenças, misticismo e nos faz questionar o que é real, afinal de contas.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes.”




domingo, 10 de agosto de 2025

o frio, o patinete, a livraria


Livros descobertos em uma tarde fria na Avenida Paulista: dicas de leitura com Sigrid Nunes, Richard Powers, Han Kang e outros

Está bem frio em São Paulo, para meu deleite, já que sou adepta às temperaturas mais baixas. Coisa rara, pois o inverno está cada vez mais escasso deste lado do Equador.

Quando deu cinco da tarde, resolvi dar uma caminhada. Eu estava inquieta porque parecia que não estava aproveitando o dia que tanto aprecio. Caminhei até uma livraria na Avenida Paulista, curtindo o ar melancólico da cidade, especialmente quando ela se preparava para fechar.

Quando digo fechar, quero dizer que as pessoas já estavam se recolhendo, ambulantes desmontando suas bancas, muitas lojas baixando as portas e todos encapuzados.

Chamou minha atenção a quantidade de patinetes elétricos disponíveis para os transeuntes. Lamentei não estar com meu celular para alugar um e seguir pela ciclovia, sentindo o vento no rosto.

Cheguei à livraria, onde sempre fico bem. É um ambiente aconchegante, instigante e cheio de possibilidades. Acho que nunca vou ler todos os livros que tenho e, ainda assim, estou o tempo todo em busca de novidades literárias.

Hoje me dei muito bem. Logo na primeira ilha de livros, me deparei com vários que, não fossem o preço, o espaço e a decisão de evitar a compra de livros físicos, eu teria levado todos. Estava ali Mitz, de Sigrid Nunes, escritora norte-americana que escreveu O amigo, romance que li recentemente e que trata do luto vivido por uma professora e por um cachorro. O livro que estava na minha frente romanceia a história de um sagui que viveu com Virginia Woolf e seu marido. Ao seu lado estava O que você está enfrentando, da mesma autora, que inspirou um filme de Pedro Almodóvar. Outro animal na capa, desta vez, um gato que, pela contracapa, estava em um abrigo. Preciso muito ler esses livros.

Um pouco mais adiante, me deparei com A trama das árvores, do romancista norte-americano Richard Powers. Já gostei da premissa, que traz vários personagens que se interligam por conta das árvores. Lembrei muito de quando tivemos que tomar a decisão sobre uma árvore plantada na calçada da casa dos meus pais. Ela cresceu tanto que começou a invadir a casa do vizinho e precisou ser transferida. Num ímpeto de arrependimento, minha irmã e eu fomos atrás dela, após descobrirmos o local para onde poderia ter sido levada. Tem um texto da Renata aqui no blog sobre isso. Enfim, entrou para minha lista de romances sobre natureza e meio ambiente.

Estamos, neste momento, tendo uma avalanche de literatura sul-coreana contemporânea, muitos dentro do que se chama leitura de cura. Já li vários e entendo que beiram a autoajuda, mas são muito melhores. Porém, se leu um, leu todos. Mas sabe quando queremos mais? Pois bem, eles nos conquistam pela capa, e não tem problema nenhum. Já anotei A loja de cartas de Seul, de Baek Seung-yeon, que estava lá me chamando. Mas não só de literatura de cura vivem os sul-coreanos. Há romances intensos, como os de Han Kang.

Nessa mesma ilha, encontrei Sem despedida, que fala de um pássaro que fica só após sua tutora ser hospitalizada. Confesso que estou curiosa para ver essa relação, muito porque lugar de pássaro não é dentro de casa, em uma gaiola. A capa mostra o aprisionamento. Da autora, li A vegetariana, que fala do devir-vegetal. Espetacular.

Só para constar, gostei muito da capa de O bom mal, coletânea de contos de Samanta Schweblin, que traz um coelho a contemplar o céu, como que pedindo ajuda. Não deixei na lista porque folheei e me pareceu prosa poética, e tenho certa resistência a esse tipo de narrativa. Posso estar enganada, todavia.

Deparei-me ainda com Orbital, romance de Samantha Harvey que une astronautas dos Estados Unidos, Rússia, Itália, Japão e Reino Unido em uma missão no espaço. A cada órbita, o livro promete uma reflexão. Gostei.

Outro que também me pareceu ter ligação com meu trabalho foi Os urubus não esquecem, do professor da USP Pedro Cesarino. Trata de uma mãe indígena que busca pelo filho desaparecido. Curiosamente, a capa traz uma canoa, que esteve presente em um sonho que tive esta noite. Nada acontece por acaso.

E, para finalizar, coloquei na lista de desejos um suspense: A luz entre as frestas – Inspetor Gamache, Livro 9, de Louise Penny. Passei boa parte da minha adolescência lendo as peripécias de Poirot, de Agatha Christie. Ainda não conhecia o detetive Gamache. Minha dúvida é se posso começar pelo livro 9, que anotei justamente porque se passa no frio, no Canadá, e também na época de Natal. Sim, já estou pensando no que vou ler em novembro e dezembro.

Assim terminei meu dia, cheia de livros, animais e vontade de andar de patinete. E você, qual livro descobriu recentemente em uma livraria? 



sábado, 12 de julho de 2025

o passeador de livros


"A palavra escrita nunca vai acabar, sra. Schäfer. Existem coisas que simplesmente não dá para expressar de outro jeito."

Carl Kollhoff tem 72 anos e seu trabalho é bem peculiar. Ele trabalha em uma livraria e entrega livros, pessoalmente, para um grupo seleto de clientes. Mais do que uma simples compra, as pessoas recebem obras que conversam diretamente com o momento de vida em que se encontram. É como se o livreiro lesse o coração e a mente dos seus clientes. Isso aparece no cuidado com a seleção do título, na forma como embala os volumes, como se fossem presentes, e na pontualidade com que chega à casa de cada um. Logo de cara fica claro que o que esperam, na verdade, é a sua companhia. Ele se torna o escape de que precisam para seguir com os dias.

Cada pessoa recebe, sem saber, um apelido literário, um personagem que traduz a sua personalidade: Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Sra. Píppi Meialonga, de Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren; Effi Briest, de Effi Briest, de Theodor Fontane; Hércules, da mitologia grega. Assim Carl segue sua rotina há décadas, até que cruza com Schascha, uma garota de nove anos que bagunça sua ordem, traz aventuras e, acima de tudo, provoca uma virada em sua vida. Ao mesmo tempo, a atual dona da livraria, filha do fundador e grande amigo de Carl, planeja mudanças que o excluem definitivamente. Muito disso nasce do ressentimento por ele ter o dom de escolher exatamente o livro que cada pessoa precisa, algo que ela não consegue alcançar.

O enredo traz personagens solitários, envergonhados de suas limitações, vítimas de violência doméstica ou em busca de um novo sentido após a aposentadoria. Todos lidam com emoções que vão sendo, pouco a pouco, expostas e cuidadas por meio da literatura. Há ainda um gato com características de cachorro que acompanha as andanças do nosso protagonista. 

Vale destacar também que cada capítulo faz referência a uma obra literária: Gente independente, de Halldór Laxness; O estrangeiro, de Albert Camus; O vermelho e o negro, de Stendhal; Grandes esperanças, de Charles Dickens; As palavras, de Jean-Paul Sartre; Rastros (Spuren), de Ernst Bloch; e Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline. Pode ser o começo de uma boa lista de leitura ;-)

"O passeador de livros", de Carsten Henn, foi adaptado para o cinema em 2022, no filme alemão Der Buchspazierer, dirigido por Rolf Roring. Ainda assim, recomendo a leitura, que é leve e faz pensar no quanto os livros podem nos compreender como ninguém mais.

Trechos

"Tinha uma definição bastante clara do que, segundo ela, caracterizava um bom livro. Em primeiro lugar, era preciso mantê-la entretida de tal modo a deixá-la presa na cama, lendo até as pálpebras pesarem. Segundo, deveria levá-la às lágrimas em pelo menos três trechos; melhor ainda se fossem quatro. Terceiro, um bom livro jamais teria menos do que trezentas páginas e nem mais do que 380. Quarto: a capa em hipótese alguma poderia ser verde. Não se podia confiar em livros de capas verdes."

"Carl sempre ficava triste quando a mochila ficava vazia, sinal de que estava na hora de voltar para casa. Não que não gostasse de onde morava, mas Canino nunca o seguia até lá, e não havia ninguém à sua espera, ninguém que lhe desse uma cutucada com o ombro para pedir um carinho."

"Enquanto algumas pessoas tinham animais puramente domésticos, ele tinha uma companhia para passear. — Oi, Canino — disse ele, e sorriu. Carl dera esse nome a ele porque o gato se comportava como um cachorro: ia atrás dele, farejava tudo e marcava o território. Canino não miava, mas soltava uma espécie de rosnado."

"A diferença entre um romance com final feliz e um sem final feliz é apenas o ponto em que se para de contar a história."

"Foi bom ir embora. Foi fácil. Quando não pensamos nas consequências, nas brigas que virão, nas feridas que carregaremos, ir embora é muito fácil. Basta dar um passo após outro."