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sábado, 17 de agosto de 2024

a biblioteca dos sonhos secretos


"Um sonho não pode “acabar” enquanto você estiver dizendo “um dia”! Ele vai continuar para sempre sendo um lindo sonho. Mesmo não se concretizando, creio que essa também é uma forma de vida. Sonhar sem ter um plano definido não é uma coisa ruim. Isso torna seus dias alegres."

E terminei mais uma história que nos deixa a pensar nas várias possibilidades que temos. Mas que acabam se esvaziando por nossos receios, acomodação, opiniões alheias e outros empecilhos que, na grande maioria das vezes, só existem em nossa cabeça.

Com o subtítulo "uma história sobre a magia dos livros e seu poder de conectar pessoas",  "A biblioteca dos sonhos secretos", da escritora japonesa Michiko Aoyama nos leva a conhecer cinco personagens que não sabem bem como lidar com seus problemas (eles e o mundo, não?). Podemos dizer que cada capítulo é um conto e que todos se entrelaçam de forma sutil. A narrativa, cheia de rituais, repetições e mensagens sobre a importância do agir, lembra muito a série "Antes que o café esfrie", de Toshikazu Kawaguchi, inclusive, por também ter um local que é comum a todos. Lá, uma cafeteria escondida. Aqui, uma biblioteca, nos fundos de um Centro Comunitário em um distrito de Tóquio.

Toda vez que alguém, por vários motivos, é levado até lá, eles, num primeiro momento, se deixam encantar pela mulher grande e branca, quase transparente, como alguns descrevem. E depois ficam hipnotizados quando ela pergunta o que procuram. Nesse momento, surgem pensamentos sobre os dilemas individuais pelos quais estão passando. E ela, após uma breve conversa, digita rapidamente no teclado (tatatataata, os dedos praticamente somem enquanto faz isso) e imprime uma folha com as indicações de leitura. As primeiras referentes à pesquisa dos livros que foram buscar e, por último, uma sugestão que será o grande despertar. Junto, a pessoa ganha um brinde feito por meio da feltragem de lã. Há caranguejo, gato, globo terrestre, frigideira, aviãozinho.

A primeira história é sobre Tomoka, 21 anos, vendedora de roupas femininas. Ela trabalha em uma loja de roupas num grande centro comercial. Mas não vê sentido no que faz e se sente fracassada por ter saído de uma cidade pequena e ser uma simples vendedora na capital japonesa. Chega a julgar, secretamente, outra vendedora da loja que está há anos trabalhando no estabelecimento. O que vai levá-la à biblioteca é a busca por livros que ensinam a usar o Excel, pois acredita que desta forma encontrará um trabalho melhor em escritório. Mas acaba encontrando motivação para ter uma vida mais saudável e valorizar os contatos diários. Tudo por conta de um livro infantil que lhe é indicado: Guri to Gura [Guri e Gura], texto de Rieko Nakagawa e ilustrações de Yuriko Omura, publicado por Fukuinkan Shoten.

Ryo, 35 anos. Sua história começa em uma loja de antiguidades quando ainda era aluno do ensino médio. Infelizmente, a loja fecha e ele segue alimentando o desejo de ter algo parecido. A vida o leva a trabalhar em uma fábrica de móveis como contador. Ele namora uma moça mais nova que está empenhada em ter uma loja online para vender os colares que cria. Na biblioteca, vai em busca de livros que possam ajudá-lo a retomar o sonho de ter uma empresa, mas encontra um livro sobre plantas, que vai lhe mostrar que é possível encontrar o equilíbrio entre um sonho e o que a realidade nos apresenta. Para tanto, sua inspiração será o dono de uma livraria especializada em gatos. Curioso o quanto há de gato na literatura recente japonesa. Está aí um tema a ser estudado. Aqui o livro que levou para casa: Eikoku Oritsu Engei Kyokai to Tanoshimu Shokubutsu no Fushigi [O mistério das plantas: o melhor da Sociedade Real de Horticultura Britânica], de Guy Barter, tradução de Ayako Kita, publicado por KAWADE SHOBO SHINSHA.

"Havia gatos ali… Um deles, tigrado, dormia sobre uma almofada. Parecia com o gato de feltro de lã que ganhei da bibliotecária. Havia mais dois, outro tigrado e um preto, caminhando à vontade entre as estantes."

Natsumi, 40 anos, ex-editora de revistas. Esta foi uma das passagens que mais gostei. A protagonista é casada e tem uma filha pequena. Ao retornar da licença-maternidade, ela, que era editora de uma revista, foi enviada a outro posto de trabalho, sob a alegação de que, agora sendo mãe, não daria conta da carga de trabalho do seu cargo anterior. Isso a derruba, porque ama o que fazia. Enquanto isso, também enfrenta problemas em casa, já que as tarefas não são divididas com o marido, que não teve que abdicar de nada em prol da paternidade. Mas ela sempre guardou um sonho no coração, que era editar livros. A partir da leitura que lhe é sugerida pela bibliotecária, as coisas vão começar a caminhar nesta direção: Tsuki no Tobira [A porta da lua] e Shinsoban Tsuki no Tobira [A porta da lua (nova edição)], de Yukari Ishii, publicado por Hankyu Communications (primeira edição) e CCC Media House (nova edição).

Hiroya, 30 anos, desempregado. Ele gosta de mangás e sempre almejou viver por meio de seus desenhos. Mas até então nunca encontrou alguém que o apoiasse, pelo contrário. Vive com a mãe e, apesar de se envergonhar da sua situação, não tem forças para mudar. Resultado, vive de bicos e nunca se identificou com nenhum trabalho. Vai parar na biblioteca porque a mãe pede que ele vá ao Centro Comunitário fazer algumas compras. E lá se depara com a leitura que vai lhe inspirar a seguir adiante. O primeiro passo será ele próprio trabalhar no Centro Comunitário. O livro: Visual Shinka no Kiroku Darwintachi no Mita Sekai [Registro da evolução ilustrado: o mundo visto por Darwin e seus pares], de David Quammen e Joseph Wallace, tradução de Masataka Watanabe, publicado por POPLAR.

Masao, 65 anos, aposentado. Após passar quatro décadas na mesma empresa, fica completamente desorientado com a aposentadoria. Ao contrário dele, sua esposa está sempre disposta a encontrar pessoas e a experimentar novas atividades. E é ela quem vai incentivá-lo a aprender o jogo de go, para que seu tempo livre seja mais agradável. Nesta jornada, ele lamenta o tempo que perdeu com a filha enquanto priorizava o trabalho e outras agendas. Mas, como tudo, sempre haverá a possibilidade de se redimir. E isso acontece. Além dos diálogos com a filha, gostei da reflexão que Masao faz ao se deparar com caranguejos vivos que estão à venda em um aquário, espremidos, com pouca água e se mexendo como se estivessem a enviar algum sinal. E, de fato, há. Na placa, está escrito que eles podem ser comprados para serem consumidos ou para serem adotados, o que o comove e o faz pensar sobre sua própria condição dentro do mundo corporativo. Claro que o que viveu está longe da aflição que os bichos estão passando, mas usar os animais como metáfora de nossas questões psicológicas é algo bem comum na literatura. Vou deixar o trecho completo abaixo. Ah, ao ir atrás de livros que possam ensiná-lo a jogar o go, lhe é oferecida uma obra poética com animais: Genge to Kaeru [Astrágalos e sapos], de Shimpei Kusano, publicado por Gin-no-Suzu.

"Ao lado do congelador com porta de vidro onde estavam os cortes de peixe e os mexilhões, havia uma pequena mesa com um aquário quadrado de plástico transparente. Percebi algo se movendo. Olhando bem, havia caranguejos de água doce dentro. Olhei-os com atenção, me lembrando do caranguejo de feltro que tinha recebido de brinde da bibliotecária. Devia haver uns cinquenta ou sessenta deles. Submersos em pouca quantidade de água, eles se apertavam uns contra os outros. Um deles movia as pinças ligadas ao corpo achatado como se me enviasse algum tipo de sinal. Ao erguer os olhos, levei um susto. Em uma placa de isopor estava escrito em grandes letras vermelhas “Caranguejo de água doce”, e abaixo delas, em letras pretas, um pouco menores: “Para fritura! Para ser seu animal de estimação!” Animal de estimação? Ali era o setor de alimentação. Aqueles caranguejos deveriam estar sendo vendidos como alimento. Fiquei atordoado quando lembrei que havia a opção de adotar um deles como “pet”. Ou você os devora ou os ama. Os caranguejos ali estavam em uma encruzilhada de caminhos opostos. Senti minha garganta apertar ao imaginar o destino daqueles caranguejos dentro do aquário de plástico. Quem era eu perante minha empresa? Enquanto estava dentro da caixa, todos me bajulavam como gerente-geral, mas por fim acabei devorado pela organização corporativa. Examinando os sashimis, Yoriko se virou para mim. – Qual você prefere, carapau ou cavala? Ou quem sabe caranguejos? Yoriko os observou com profundo interesse. – De jeito nenhum – afirmei com uma voz embargada. – Nem pensar, ainda estão vivos. Não vamos comê-los. – Então que tal criá-los? – perguntou Yoriko em tom de brincadeira. Hesitei. Os caranguejos estariam felizes vivendo confinados em um aquário tão apertado? Não prefeririam estar enredados no torvelinho da cadeia alimentar? Ou esse seria apenas um pensamento racional da minha mente humana?"

Vale a leitura. Certamente, cada leitor irá receber as histórias de uma forma diferente.

"Cada um encontra um significado próprio no brinde que dou de presente. O mesmo acontece com os livros. Os leitores fazem suas próprias conexões com as palavras, independentemente da intenção do autor. Assim, cada leitor obtém algo único."

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

três



"Nunca sabemos nos comunicar
com aqueles em quem não acreditamos."

Quando terminei a leitura de "Três", da francesa Valérie Perrin, o livro continuou comigo. Escrevo este texto enquanto ouço, no Spotify, uma das playlists com as referências musicais deste livro. E fico a imaginar o quanto deixei passar da história para não perceber o que estava acontecendo com um dos personagens. O romance pode ser considerado uma homenagem à música dos anos 80 e 90, especialmente ao rock e ao pop, incluindo músicas francesas, afinal, se passa todo na França, sendo que a maior parte no interior, em uma pequena cidade chamada La Comelle. Há também passagens em Paris.

Além da amizade, que veremos mais adiante, outra questão abordada é a proteção dos animais. Embora não seja o mote principal, é referenciada por meio de uma das protagonistas que administra um abrigo e é vegetariana. Tudo é colocado de uma forma bem sutil, o que achei interessante.

O enredo mostra três amigos inseparáveis, que se conhecem aos dez anos. No primeiro dia de aula daquele ano letivo, acompanhamos o momento em que aguardam o anúncio de qual sala irão ficar, se na da professora madame Bléton ou na do professor monsieur Py, considerado um carrasco. Ninguém quer ficar com ele, o que deixa todos bem apreensivos. Nina Beau, Étienne Beauclair e Adrien Bobin acabam juntos justamente com o temido professor, que prejudicará fortemente um deles. Essa passagem já dá indícios de que é Nina quem será o elo do trio. Percebendo a insegurança, ela segura na mão dos dois garotos e, juntos, entram na sala. E esta será a forma como serão vistos por muitos anos: ela no meio, Adrien à direita e Étienne à esquerda. Temos aquele estilo de sala bem comum nos anos 80, com dois lugares; Nina e Étienne sentam juntos e Adrien fica logo atrás.

Enfim, o entrosamento é imediato. Passam a fazer tudo juntos. As famílias se aproximam. Um ponto interessante é que a narrativa não começa com eles. Ela é intercalada entre os pontos de vista de cada um dos personagens. E começa com uma quarta personagem, Virgínia, que os observa de longe. Diz que os três estavam sempre juntos e próximos dela, mas nunca a enxergaram. Ela acompanhava as brincadeiras, os passeios. Por vezes, chegava a esbarrar neles e, ainda assim, não a viam. É justamente aí que vamos nos surpreender. Com o passar dos anos, eles acabam se separando, sem realizar o plano de irem juntos à Paris e de formarem uma banda musical. O reencontro será anos mais tarde, reforçando que algumas amizades são eternas.

"Hoje de manhã, Nina me olhou sem me ver. Seu olhar escorregou como as gotas de chuva na minha capa impermeável, logo antes de ela desaparecer dentro de um canil. Estava caindo uma tempestade."

Nina é vegetariana e amiga dos animais. Ela foi cuidada desde pequena pelo avô. Sua mãe a abandonou recém-nascida. Ela tem talento para o desenho, mas vai abdicar desse dom a favor de um casamento. Adrien mora com a mãe e tem pouco contato com o pai. É o mais tímido dos três. Gosta de escrever e, em Paris, se revelará um grande escritor. Étienne é o galã, mais extrovertido, bom nos esportes, mas não muito afeito aos estudos. Sua família tem dinheiro, o que o deixa em uma situação relativamente confortável. Ele tem uma irmã mais nova, Louise, que também será importante para a trama.

Como eu disse, o livro faz menção sutil à proteção dos animais. Isso se dá por meio de Nina, que sempre gostou de bichos, especialmente cachorros e gatos. É justamente num abrigo de animais abandonados que ela própria, ao fugir de um relacionamento abusivo, irá se refugiar. Tempo necessário para rever sua vida, escolhas e acolher definitivamente os animais em sua vida. Aliás, a diretora do abrigo que a recebe também precisou fugir e foi parar lá, assim como Simone, voluntária que também encontrou neste lugar o motivo para continuar vivendo após perder o filho.

Contudo, a passagem mais marcante deste traço de Nina se dá num diálogo dela com a mãe, no seu leito de morte. Sem ter muito o que dizer àquela mulher que lhe é estranha, mas que ao mesmo tempo sente-se impelida a amparar naquele momento, ela relata o que é cuidar de um abrigo e o dilema entre continuar ali, pelo amor e pelo olhar dos animais, e o fardo que isso representa.

"Cuidar de um abrigo é um sacerdócio." Sempre dá pra achar o que é gratificante e bom dentro disso. Aguentar o tranco. A gente faz pelo olhar deles. Amar os animais, mas sobretudo não ter adoração por eles, senão você morre de tristeza. Tem muitos momentos no ano em que eu fico com vontade de largar tudo. Abandonar os abandonados. Achar um emprego tranquilo, em outro lugar que seja limpo, quente, seco e silencioso. Onde não vou mais ouvir os cachorros latindo ou cheirando minha bunda quando vou passear com eles."

Todos os personagens que se aproximam dos animais foram, de algum modo, abandonados. E se identificaram com cães e gatos ali deixados. Há, de certa forma, uma aproximação por estarem na mesma situação. Para além disso, há ainda a questão de espécies companheiras e a necessidade de amor incondicional. Talvez seja por isso que, lá pelas tantas, Nina relata como é difícil deixar um cachorro partir quando adotado.

Para a filósofa e zoóloga norte-americana Donna Haraway, que, dentre outros temas, estuda as interações entre humanos, animais e máquinas, é comum, nos Estados Unidos (e aqui no Brasil e em outros vários países também), atribuir aos cachorros a capacidade de "amar incondicionalmente". De acordo com essa crença, pessoas com problemas diversos encontram consolo no "amor incondicional" de seus cachorros. Em troca, os amam como se fossem filhos. Haraway argumenta que os cães e humanos têm um vasto repertório de modos de se relacionar, e a crença no amor incondicional pode ser nociva, principalmente dentro da cultura consumista contemporânea. O amor verdadeiro e respeitoso envolve reconhecer e honrar as diferenças significativas entre as espécies, ao invés de projetar fantasias humanas nos cães. Através do exemplo de J.R. Ackerley e sua cadela Tulip, Haraway ilustra que uma relação amorosa genuína entre humanos e cães é caracterizada por um esforço contínuo de entender e atender às necessidades um do outro, reconhecendo a alteridade e a intersubjetividade presentes na relação.

Outro ponto importante é que, desde criança, Nina, de algum modo, já carregava a percepção da liberdade tirada dos animais. Isso se dá durante uma visita com o avô ao zoológico. A princípio, ela fica eufórica com o passeio, porém, ao retornar para casa, o avô pergunta do que ela mais gostou. E a resposta é esta: "— Do trem. — Por quê? — Porque ele é livre. Vai aonde quer."

Isso porque, logo ao chegar ao zoológico, ela se envergonha ao ver os animais em cativeiro. A presença da multidão e a ausência dos pais a fazem se sentir deslocada e triste. Ela percebe a tristeza dos animais presos e, de algum modo, se identifica com o cativeiro deles. Chama-lhe a atenção a pantera negra que, diante de todos os olhares, tenta buscar a saída ou o mínimo de privacidade com seu filhote. Todos deveriam ler essa passagem, que explicita bem a angústia dos animais presos. E, assim, de forma sutil, Perrin nos fala sobre a importância de uma convivência respeitosa entre as espécies.

"Nina vê uma primeira placa trinta quilômetros antes de chegarem: “Pa… Parque de animais”. Ela dá uma pulo de alegria e diz ao avô: — Vô, já sei aonde a gente tá indo! Quanto mais se aproximam, mais fotos ela vê de animais e de carrosséis em grandes painéis coloridos. Ela se agita. Se remexe. Pierre Beau sorri, ele acertou em cheio. Na região, todos falam do parque de animais como se fosse o paraíso: carrosséis, um trenzinho que dá a volta no parque, batata frita e algodão-doce. Animais como não se vê nunca: hipopótamos, pumas, elefantes, lobos, macacos, girafas. Ao redor de Nina, famílias, risos, alguns choros, malcriações de crianças. Com um balão na mão, ela observa os outros observando os animais. Nina passa muito tempo isolada. Vê as coisas e as pessoas à distância. Ela está de mãos dadas com o avô. A mão dele é como uma ilha. No entanto, ela se sente mal. Está com dor de cabeça, a barriga pesada, uma fraqueza nas pernas. Seria por causa da multidão? Do calor? Da ausência dos pais? De seus pais? As pessoas em volta, as que têm sua idade, estão encaixadas entre um pai e uma mãe. Ela ouve: “Mamãe! Vem ver!”, “Papai! Olha!”. Ela própria nunca disse essas palavras. Dentro de fossos, atrás de barreiras de vidro ou de grades, ela acha que os animais se parecem. É como se o cativeiro os uniformizasse, lhes desse os mesmos comportamentos, os mesmos olhares. Uma pantera negra, com o filhote na boca, anda de um lado para outro dentro da jaula, buscando uma saída diante do olhar curioso e fascinado dos visitantes. Não tem nenhum canto onde possa se esconder. Nenhuma intimidade. Entregue, submissa, dissecada. Nina tem vergonha. O que diverte os outros a paralisa. É pequena demais para entender o que aquela vergonha significa. Só sente que não é igual. Que algo ruge dentro dela. Fica aliviada ao subir no trenzinho que dá a volta no parque a dois quilômetros por hora. Adormece apoiada no ombro do avô, exausta de tudo que está sentindo desde que chegou naquele lugar. — Quer ir ver os lobos antes de ir embora? — pergunta o avô, segurando sua mãozinha, a dele morna e macia. — Não, estou com medo. Ela mente. Nina nunca teve medo de nenhum animal. Fica aliviada quando entram de novo no carro e pegam a estrada. Fica aliviada de dar as costas para aquele lugar. — Gostou? — Gostei. Obrigada, vovô. — Do que você mais gostou? Das girafas ou dos leões? — Do trem. — Por quê? — Porque ele é livre. Vai aonde quer."


Algumas músicas mencionadas no livro

Cranberries - "Zombie"
A-ha - "Take on Me", "The Sun Always Shines on TV"
Cyndi Lauper - "True Colors"
Madonna - "La Isla Bonita"
Indochine - "La vie est belle", "Un jour dans notre vie", "Tes yeux noirs", "Canary Bay", "Troisième sexe", "Karma Girls"
The Cure - "Boys Don't Cry", "Charlotte Sometimes"
Depeche Mode - "I Feel You"
Gloria Gaynor - "I Will Survive"
Donna Summer - "I Feel Love"
Eruption - "One Way Ticket"
Nirvana - "Smells Like Teen Spirit"
William Sheller - "Un Homme Heureux"
Étienne Daho - "Le Grand Sommeil", "Corps et armes", "Mythomane"
INXS - "Need You Tonight"
The Christians - "Words"
David Bowie - "Rebel Rebel"
2 Unlimited - "Let the Beat Control Your Body"
Pixies - "Where Is My Mind"
Pierre Perret - "Mon P'tit Loup"
Françoise Hardy - "Il ne dira pas"
Zazie - "Cow-boy"
Cock Robin - "The Promise You Made"

domingo, 4 de agosto de 2024

a vegetariana


"Onde já se viu gente que não come carne hoje em dia?!"



"A Vegetariana", da sul-coreana Han Kang, pode nos levar a uma falsa interpretação se considerarmos apenas o título. O livro não trata de vegetarianismo, defesa dos animais ou alimentação saudável. Publicado em 2007, o romance explora os delírios daqueles que não conseguem se adaptar aos padrões estabelecidos pela sociedade. Essa definição simplista, contudo, não captura a profundidade da narrativa de Kang, que nos deixa estarrecidos.

A vegetariana do título é Yeonghye, que, de repente, decide parar de comer carne. Até então, ela passava despercebida por todos, inclusive pelo marido, que só se casou com ela por considerá-la excessivamente comum, sem atrativos ou ambições, e que não competiria com suas próprias questões. Ele relata que não precisaria se esforçar para conquistá-la.

O romance é dividido em três partes, com narrativas sobre a protagonista feitas pelo marido, cunhado e Inhye, sua irmã mais velha. Só ouvimos sua voz nos poucos diálogos que mantém dentro do ponto de vista dos demais personagens. Há ainda algumas passagens oníricas em primeira pessoa, mas, de modo geral, sua suposta alucinação é percebida apenas através dos olhos dos outros.

O marido conta que ela passou a ser especial somente quando a viu jogando fora todas as carnes da geladeira. Até então, era apenas uma pessoa pacata e calada, sem nada que a destacasse. A decisão de parar de comer carne é acompanhada por um comportamento cada vez mais recluso.

"Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano. Para ser bem franco, não me senti atraído por ela na primeira vez em que a vi. Estatura mediana. O cabelo não era nem comprido nem curto. Tinha a pele levemente amarelada, as maçãs do rosto um pouco pronunciadas. Vestia-se de forma neutra, como se tivesse algum tipo de receio de se destacar. Calçando um par de sapatos pretos bastante sem graça, ela se aproximou da mesa em que eu a esperava. Não andava nem rápido nem devagar, sem firmeza, mas também sem muita fragilidade."

Ele se constrange, sobretudo, quando precisa levá-la a eventos sociais do trabalho. Em uma dessas ocasiões, sente vergonha ao ver como julgam a esposa por seus hábitos excêntricos. Além de vegetariana, ela também não usa sutiã, por exemplo.

"A primavera chegou, e minha mulher continuou assim. Passamos a comer somente verdura pela manhã. Até parei de reclamar. Quando uma pessoa muda de forma radical, não há outro remédio senão segui-la."

O ápice é quando há um jantar na casa da irmã e o pai se revolta, enfiando goela abaixo na moça um pedaço de carne. Como ela resiste com toda sua força, ele a esbofeteia. Yeonghye, então, corta seus pulsos na frente de todos. Curioso ou triste é ver que ninguém naquele ambiente fica do lado dela: mãe, marido, irmão, irmã, cunhado. A comoção, se é que podemos assim chamar, só vem quando o sangue jorra.

Na segunda parte, a história é sob a ótica do cunhado, marido da irmã. Ele vive para sua arte, que ninguém entende. No momento da loucura da cunhada, a quem pouco prestou atenção até aquele jantar, está num período de bloqueio criativo. Mas o incidente o reanima, principalmente quando a esposa diz que a irmã tem uma mancha de nascença nas nádegas. E isso vira uma obsessão. Ele só pensa na tal mancha e não sossega até que finalmente a vê. Para tanto, usa a arte. Chama a cunhada para fazer parte de uma performance artística na qual seu corpo será todo pintado de flores. Um amigo chega a participar, mas desiste quando vê que estão indo longe demais. E, de fato, foram.

"Foi nesse instante que lhe veio a imagem de uma flor azul-esverdeada, da cor do mar, saindo do meio das nádegas de uma mulher. A possibilidade de sua cunhada, irmã mais nova de sua esposa, ainda ter a mancha mongólica na bunda o intrigou. Inexplicavelmente, ele associou a informação à ideia de homens e mulheres, com flores pintadas pelo corpo, copulando, formando em sua cabeça uma clara relação de causa e efeito."

O fim dele será melancólico, refletindo a vida medíocre que leva. Aliás, cabe ressaltar que o marido da protagonista admira secretamente a cunhada. Assim como o marido de Inhye irá desejar, sob aspectos questionáveis, Yeonghye. Será ele, mesmo que com intenções duvidosas, o único que reconhece a profundidade de sua transformação.

"Vendo-a aceitar sem resistência todo aquele processo, considerou-a um ser sagrado, nem humano nem animal, ou talvez um ser entre o vegetal, o animal e o humano, tudo ao mesmo tempo."

A terceira parte é contada por Inhye, que, apesar de ser vista como bem-sucedida, ponderada e que sabe conciliar todas suas funções, tem grandes ressentimentos. E muito diz respeito à irmã mais nova, que nunca conseguiu cuidar, de fato. Caberá a ela acompanhar o declínio físico de Yeonghye.

Ambas carregam feridas da infância marcada por um pai autoritário e violento, o que se torna evidente no depoimento de Inhye, que lamenta não ter conseguido proteger a irmã como gostaria. Ela recorda que o irmão aliviava a tensão batendo em outros meninos, enquanto ela se mantinha sempre obediente. Yeonghye, por sua vez, permanecia em silêncio. Somente mais tarde, compreende que esse silêncio era a forma que encontrou para se rebelar. Recorda da pequena Yeonghye querendo se perder na floresta.

Ao seguir as regras, Inhye cumpria o papel que lhe era destinado, mas isso a deixou exausta. Em um momento de crise, ela foge para as montanhas, onde experimenta por um instante o vislumbre da liberdade, mas retorna, principalmente por causa do filho. Agora, carrega a culpa por ter quase abandonado tudo. Esta é a parte mais intensa do romance, com explosão de sentimentos, vontades, conflitos e muita, muita dor. Mas ela precisa aguentar mais um pouco, como o marido pedia e como a irmã sugere, já nos momentos finais. Quem sabe esta não é a chance de ajudar a irmã mais nova, deixando que ela, finalmente, parta, tornando-se a árvore que acredita ser.

"Os olhos de Yeonghye brilham. Um sorriso enigmático ilumina seu rosto. “Você tem razão, mana. Não vai demorar muito e deixarei de falar, de pensar… Falta pouco…”, diz a irmã mais nova, esboçando um sorriso e suspirando com força."

O devir-vegetal

A jornada de Yeonghye pode ser compreendida por meio do conceito de "devir", discutido por Deleuze e Guattari, que implica um processo contínuo de metamorfose. Durante sua internação em um sanatório, ela foge e mais tarde é encontrada na floresta, imóvel, como se fosse uma árvore.

"Encontraram-na sem se mexer, de pé em um barranco recôndito e distante da mata, como se ela fosse uma das árvores de tronco grosso sob a chuva."

Aos poucos, para completamente de comer, aceitando apenas água. Seu corpo definha enquanto sua irmã implora para que ela coma, chegando a levar frutas e seus pratos favoritos, mas nada a faz mudar de ideia. Yeonghye afirma categoricamente que só precisa de água e de ficar de cabeça para baixo, pois, afinal, as árvores são assim. A vegetariana, neste sentido, é essa mulher vegetal, em processo de metamorfose decorrente de seus sonhos com carne, sangue, assassinato e passado traumático. Para suportar, só lhe resta vegetar, criar raízes com o que há de mais seguro: a natureza e vida que pulsa com toda a intensidade.

"Os olhos de Yeonghye brilham. Um sorriso enigmático ilumina seu rosto. “Você tem razão, mana. Não vai demorar muito e deixarei de falar, de pensar… Falta pouco…”, diz a irmã mais nova, esboçando um sorriso e suspirando com força."

Assim como Gregor Samsa, de Franz Kafka, que se transforma em um inseto em seu quarto, para o espanto de sua família, tanto no autor tcheco quanto na autora coreana, a realidade dos personagens é difícil de ser compreendida. Jamais saberemos o que realmente se passa no corpo e na mente desses personagens repletos de idiossincrasias.

"Tenho alguma coisa entalada na boca do estômago. Não sei o que é. Mas está sempre aqui. Mesmo depois de parar de usar sutiã, não deixei de sentir esse incômodo. Por mais que respire fundo, esse aperto no peito não passa. Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar."

Representação dos animais

Importante destacar alguns aspectos relacionados aos animais no livro. O primeiro diz respeito à própria negação da animalidade por parte de Yeonghye ao se ver como vegetal, e todo seu esforço para se transformar em árvore.

No entanto, a descrição dos sentimentos e pensamentos de Yeonghye revela um paradoxo profundo em sua relação com a carne. Por um lado, ela rejeita completamente o consumo de carne, desejando se transformar em uma forma de vida vegetal, pura e não-violenta. Por outro lado, ela sente um desejo visceral e incontrolável por carne, manifestando-se em pensamentos violentos e físicos, como a saliva acumulando em sua boca ao passar por um açougue. Ela pensa em esganar uma pomba e o gato do vizinho. E ela, efetivamente, mata com uma mordida um passarinho durante sua primeira internação. Aqui não cabe entrar em uma dicotomia entre ser isso ou aquilo. Somos complexos, como diria Edgar Morin. Somos natureza, somos cultura.

Outro ponto a ser destacado é o utilitarismo dos animais. Percebemos isso na reação extremamente exagerada de todos quando confrontados com a decisão da personagem de parar completamente com o consumo de carne e seus derivados. O pai chega a enfiar, à força, um pedaço de carne de porco na boca da filha, evidenciando da pior maneira possível a não aceitação de um cenário diferente. E o porco aqui é apenas isso: alimento. Estamos dentro de uma sociedade carnívora, que vê na carne a principal fonte de proteínas e, de algum modo, de ascensão social. Tanto que nas eleições de 2022 para presidente do Brasil, a picanha virou termômetro para avaliar o desempenho dos dois candidatos no segundo turno, conforme observamos na reportagem do Poder 360, Entenda a “guerra da picanha” travada por Lula e Bolsonaro.

Em terceiro lugar, temos o cão que a mordeu quando criança. O que vem depois foi muito difícil de ler. A narrativa de Kang rasga nossa alma. O cachorro foi brutalmente maltratado pelo pai. Dói imaginar o seu sofrimento. E dói mais ainda saber que isso é deveras comum, não só na Coreia do Sul, como no mundo inteiro. Para finalizar, ele é preparado e servido para a jovem Yeonghye. Diz-se que seu ferimento só será curado se ela comer a carne daquele que a feriu. Vale ainda ressaltar que não há estranhamento em comer cachorro. Somente agora, em 2024, foi aprovada uma lei que proíbe o consumo de carne canina, a valer a partir de 2027.

Por fim, os sonhos. São eles o estopim para o desenrolar de Yeonghye. Ela sonha com pedaços enormes de carne. Vê nas mãos sangue fresco dos pedaços que ela comeu. Em seus pesadelos vê crânios e olhos ferozes de animais, que parecem sair de dentro dela. Ao mesmo tempo, ela se vê assassinando. Seriam animais humanos? Tudo se confunde nessa animalidade da qual ela tenta fugir. E é justamente esta tensão que constitui o humano, segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben, que estuda a relação dos animais e dos humanos em suas obras. Nós só podemos nos afirmar como humanos ao transcender e transformar a animalidade que nos fundamenta. Essa transformação ocorre através de uma ação de negação, na qual tentamos dominar e, eventualmente, superar nossos instintos e características animais. O conflito interno de Yeonghye, portanto, não é apenas pessoal, mas carrega o significado de ser humano.

"O homem existe historicamente apenas sob esta tensão: ele pode ser humano apenas na medida em que transcende e transforma o animal antropóforo que o sustenta, somente porque, por meio da ação negadora, é capaz de dominar e, eventualmente, destruir a sua própria animalidade."
(GIORGIO AGAMBEN, em O Aberto)


"Era um bosque escuro. Não havia ninguém nele. Machuquei o rosto e lanhei os braços ao passar pelos arbustos. Tinha certeza de que estava acompanhada de outras pessoas. Acho que me perdi sozinha. Fiquei com muito medo. Sentia frio. Atravessei um arroio congelado e encontrei uma construção iluminada que mais parecia um celeiro. Passei por uma cortininha de palha, e então eu vi. Centenas de pedaços de carne, uns pedaços enormes, estavam pendurados em sarrafos. De alguns deles pingavam gotas de sangue vermelho ainda fresco. Abri caminho por incontáveis pedaços de carne, mas não conseguia encontrar a saída do outro lado. Meu vestido branco ficou completamente encharcado de sangue. Não faço ideia de como saí de lá."

quarta-feira, 31 de julho de 2024

desonra



"Pense em coisas tranquilas, em coisas fortes. 
Eles farejam o que a gente pensa." 

"Desonra", de J. M. Coetzee, é uma obra que, embora focada na complexa vida pessoal e social de seus personagens, oferece uma profunda reflexão sobre a relação entre humanos e animais. Situado na África do Sul pós-apartheid, o romance aborda culpa, redenção e o impacto da violência, tanto humana quanto animal. No romance, a jornada de David Lurie ao lado de sua filha Lucy revela um profundo processo de transformação pessoal, que é espelhado em sua crescente empatia pelos animais. 

Você sai da leitura e segue perdido, como os personagens. A história começa com o professor David Lurie, de cinquenta e dois anos, divorciado - duas vezes - e com uma vida tranquila e morna. Dá aulas sobre temas que não lhe interessam, o que faz com que elas sejam bem ordinárias.

Uma vez por semana tem encontro marcado com uma mulher em um quarto limpo, com toalhas e sabonetes à sua disposição. Está no que, hoje, chamamos de zona de conforto. Até que Soraya, a moça com que se encontra para o sexo casual, diz que não poderá mais encontrá-lo. Após tentativas frustradas para descobrir o motivo, ele a vê com sua família, marido e filhos, na rua. O incidente o leva a refletir sobre o envelhecimento, sua vida e até mesmo a castração, a fim de parar com os desejos.

No meio de tudo isso, uma de suas alunas se sobressai, Melanie Isaac. Após uma abordagem na universidade, ele a convida até sua casa. Outros encontros acontecem, mesmo contra a vontade da garota, que se sente, de algum modo, obrigada a ceder às investidas. Depois disso, há a denúncia de abuso sexual e ele acaba se afastando do cargo e foge para a fazenda da filha, Lucy, que também lida com suas próprias questões. Ela acabou de terminar um relacionamento e tenta se encaixar no modo de vida das pessoas ao seu redor. David mora na Cidade do Cabo. E Lucy mora em Salem, Kenton, no Cabo Leste. São quase 900 km de distância. Mas ele precisa desse refúgio para superar, ou não, a culpa. 

"Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço."

Chegando na casa da filha, tenta se adaptar à vida no interior da África do Sul. Fica apreensivo ao vê-la morando sozinha, sem vaidade e com parcos recursos. Aos poucos, porém, vai se reencontrando naquele lugar longínquo (em todos os sentidos para ele), ajuda no que é possível e até encontra um trabalho voluntário no abrigo de animais.

Lucy tem um hotel para cachorros e uma, em particular, nos é apresentada. Assim como os demais personagens da casa, também foi abandonada. Trata-se de Katy, que chegou para ficar hospedada e por lá ficou. Ao ser questionada pelo pai se não tem medo de ficar sozinha, Lucy responde que: 

"tem os cachorros. Os cachorros já são alguma coisa. Quanto mais cachorro, mais proteção. Mas seja como for, se alguém resolver entrar, não acho que estar em duas seja melhor que uma."

Mas ela conta ainda com Petrus, seu vizinho, que foi seu empregado no passado. A impressão é que há um pacto entre eles, com favores mútuos. Há Bev, que cuida do refúgio de animais na região, que David, a pedido da filha, irá ajudar. Cabe à Bev praticar a eutanásia nos animais que não podem mais ser curados e também naqueles que não poderão encontrar um lar. A palavra eutanásia não aparece, mas fica bem claro do que se trata. Mas ela não faz isso de modo frio, pelo contrário, conversa com os bichos e procura dar conforto e acolhimento em seus últimos instantes de vida.

David não sente nenhuma empatia por este trabalho e chega a repudiar Bev por sua aparência física. Em uma conversa com a filha deixa claro sua percepção, que reflete a de muitas pessoas: 

"Na criação, nós somos de uma ordem diferente dos animais. Não necessariamente superior, mas diferente. Portanto, se vamos ser bons, que seja por simples generosidade, não porque nos sentimos culpados ou temos medo de vingança." 

Dentre os animais tratados por Bev, está um bode que levou uma mordida de cachorro e que está agonizando, com feridas graves e bem infeccionadas. 

"O bode treme, solta um balido: um som feio, baixo e áspero."

Para ele, só resta descansar pelas mãos de Bev, porém, não é o que vai acontecer. Seus `proprietários`, assim como muitos, firmando a questão da posse, preferem fazer o serviço em casa. É uma das passagens que mais me marcou, pelo sofrimento do bode, por ele entender o que estava por vir, por ter sido privado, no fim, do único alívio que poderia ter. É quando David começa a entender o real propósito do trabalho de Bev: "aliviar o sofrimento dos bichos da África."

E, assim, à medida que David vai se aproximando dos animais, de Bev e da cadela Katy, sua visão sobre os animais vai mudando. Há uma sintonia que ele não esperava sentir. Percebemos isso de forma clara quando ele vê dois carneiros amarrados perto da entrada da casa. Sabe que estão lá porque foram os escolhidos para serem servidos na festa que Petrus está preparando. Mais tarde, só lhe resta se distanciar do prato que lhe é servido.

Seus temores se mostram reais e a casa é invadida por três homens e sua filha violentada, numa passagem bem trágica. Ele mesmo é ferido, mas é Lucy quem fica com as piores cicatrizes. A partir daí, o relacionamento entre eles, que já não era tão próximo, se torna ainda mais conturbado, principalmente por conta de suas acusações contra o vizinho, que a filha insiste em defender. Ele acaba voltando para sua cidade de origem e lá descobre que perdeu o pouco que ainda lhe restava, sua casa também foi roubada. O que sobra: terminar o libreto sobre a vida do poeta inglês Lord Byron, suas paixões, culpas. Sua amante casada, a filha que abandonou. E durante o processo criativo, ao pesquisar a melodia perfeita para retratar a história do romancista, percebe nuances de suas próprias escolhas. A narrativa de Coetzee é deslumbrante. É como se estivéssemos na plateia acompanhando a ópera.

Outro animal que toca David é um dos cães do canil, que anda se arrastando. Nenhum visitante se interessou em adotá-lo e seu tempo está quase no fim. Às vezes, solta o cão do compartimento, deixando-o passear pelo quintal ou cochilar aos seus pés. O cão, por sua vez, adotou nosso protagonista, demonstrando grande afeição por ele. Encanta-se pelo som do banjo quando Lurie toca e canta, enquanto escreve o libreto.

"Começou a sentir um carinho particular por um dos cachorros do canil. É um jovem macho que tem um quarto traseiro murcho que arrasta pelo chão. Ele não sabe se nasceu assim. Nenhum visitante mostrou interesse em adotá-lo. Seu período de graça está quase no fim; logo, terá de ser submetido à agulha. Às vezes, quando está lendo ou escrevendo, solta-o do compartimento e deixa que passeie, com seu jeito grotesco, pelo quintal, ou que cochile aos seus pés. Não é “dele”, de jeito nenhum; teve o cuidado de não lhe dar um nome (embora Bev Shaw refira-se a ele como Driepoot, três patas); mesmo assim, ele é sensível à generosa afeição que o cachorro lhe dedica. De forma arbitraria, incondicional, foi adotado; o cachorro é capaz de morrer por sua causa, ele sabe disso. O animal fica fascinado com o som do banjo. Quando dedilha as cordas, o cachorro se senta, inclina a cabeça, escuta. Quando cantarola um verso de Teresa, e o cantarolar começa a se encher de sentimento (é como se a sua laringe engrossasse: dá para sentir o sangue pulsando na garganta), o cachorro estala os beiços e parece a ponto de cantar também, ou de uivar."

Aliás, os cachorros de um modo geral o comovem e serão, de algum modo, sua redenção. A fim de dar um fim mais digno a eles, ele irá levá-los para serem cremados no incinerador do hospital. Mas faz isso antes que outros sacos com lixos diversos cheguem, a fim de garantir um mínimo de dignidade aos animais. Ele se questiona por que está fazendo este trabalho. Seria por Bev, com quem acaba aliviando sua tensão sexual, pelos cachorros? Ou, no fim, por ele mesmo?

"Curioso que um homem tão egoísta como ele possa estar se oferecendo para servir a cachorros mortos. Deve haver alguma outra maneira, mais produtiva, de se dar par ao mundo, ou para uma visão do mundo. Podia, por exemplo, trabalhar mais horas na clínica." 

Ao aproximar-se dos animais, ele também se reaproxima de seus problemas. Acaba procurando o pai de Melanie. No jantar, lhe é servido frango. Mas ao contrário do carneiro, aqui não há menção à repulsa por ter um animal no prato, pelo contrário. Afinal, ele não os viu em vida. No fim, não há redenção. Há a surpresa de que nem mesmo a mais bela alma poderá salvar David. Ele já desistiu de tudo. Não há nada que o faça se distanciar do presente, tão cruel, tão subversivo.

sábado, 27 de julho de 2024

literatura e animalidade



"Os animais, sob o olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão."

Logo na primeira frase de "Literatura e Animalidade", Maria Esther Maciel afirma que ainda estamos longe de entender os animais.

Este enunciado estabelece o tom de seu estudo, que desafia a percepção tradicional dos animais como meros objetos ou símbolos à disposição do entendimento humano.

A autora comenta ainda a maneira com que tratamos os animais, variando conforme a utilidade que apresentam para nós.

"Temidos, subjugados, amados, marginalizados, admirados, confinados, comidos, torturados, classificados, humanizados, eles não se deixam, paradoxalmente, capturar em sua alteridade radical."

Ao questionar o que é humano e o que é animal, Maciel aponta para as tentativas científicas de definir essa relação, frequentemente apoiadas na racionalidade e na "máquina antropológica do humanismo". Este termo critica a tendência do pensamento humanista ocidental de colocar os humanos no centro do universo, assumindo uma superioridade inerente sobre o mundo natural, incluindo os animais.

A separação entre humanos e animais, acentuada no Ocidente durante o século 18 com a ascensão do pensamento cartesiano, tratava os animais como meras máquinas sem alma. Sob essa visão, estudos científicos rigorosos, como a taxonomia de Lineu, começaram a moldar a investigação zoológica, influenciando também o surgimento dos primeiros zoológicos na Europa.

Após essa introdução, a atenção se volta para o campo do imaginário e para espaços considerados alternativos do saber humano, "nos quais a palavra animal ganha outros matizes, inclusive socioculturais". Maciel aborda a evolução na forma como se denomina obras literárias que trazem o animal. Antes, falava-se em bestiário, termo que ela critica devido às suas conotações negativas e medievais.

"Além disso, por suas origens medievais, o termo deriva da besta, palavra completamente contaminada pela carga simbólica negativa que lhe foi conferida pela tradição judaico-cristã ao longo dos tempos, afinando-se, por extensão, com a noção de bestialidade - qualidade daquilo que é brutal, grosseiro, monstruoso e maligno."

Assim, o termo bestiário esvazia o animal de anima, reforça sua dimensão negativa e marca sua exclusão da sociedade dos chamados "seres racionais".

Surge, felizmente, o termo zooliteratura, mais abrangente e que consolida tudo o que se diz sobre os animais nas diferentes práticas literárias. 

"Conjunto de diferentes práticas literárias ou obras (de um autor, de um país, de uma época) que se voltam para os animais. Nesse sentido, é bem mais aberto e menos cristalizado que o termo bestiário, uma vez que este se inscreve sobretudo na ordem do inventário, do catálogo, designando uma série específica de bichos reais e imaginários, podendo, também - de forma mais genérica -, designar uma coleção literária e/ou iconográfica de animais imaginários ou existentes de um determinado autor ou período cultural."

A autora baseia-se, sobretudo, na obra "O animal que logo sou", do filósofo francês Jacques Derrida, que utilizou o termo zooliteratura ao abordar os animais de Francis Ponge e zoopoética para falar dos animais de Franz Kafka. Ao preferir esses termos ao do bestiário, Derrida os transforma em conceitos que abrangem obras literárias focadas nos animais. 

"O termo zoopoética poderia ser empregado para designar tanto o estudo teórico de obras literárias e estéticas sobre animais quanto a produção poética específica de um autor, voltada para esse universo 'zoológico', como fez Derrida."

Dentro deste contexto, a obra de Franz Kafka, especialmente A Metamorfose (1915), é precursora na inserção de animais para além da visão antropocêntrica, inaugurando uma tradição literária que explora a interseção entre o humano e o não humano através de uma crítica profunda. Ao transformar o protagonista, Gregor Samsa, em um inseto, Kafka traz à tona a animalidade do humano por meio de uma situação surreal que ilumina as qualidades animais inerentes aos humanos. Essa abordagem kafkiana influenciou muitas obras literárias subsequentes, que, embora ainda recorram a alegorias derivadas de bestiários antigos e fábulas tradicionais, agora incorporam essa nova perspectiva, redefinindo o campo da zooliteratura ocidental.

"Trata-se, por isso, de uma obra precursora no horizonte da literatura moderna e contemporânea que problematiza as fronteiras entre humanidade e animalidade. Fronteiras essas que demandam, mais do que nunca, uma abordagem pautada no paradoxo, visto que, ao mesmo tempo que são e devem ser mantidas - graças às inegáveis diferenças que distinguem os animais humanos dos não humanos -, é impossível que o sejam mantidas de modo idêntico, já que os humanos precisam se reconhecer animais para se tornarem humanos." 

Maciel traz inúmeros exemplos a partir de suas análises que justificam seu enunciado e tese. Da Argentina, ela discute as obras de Jorge Luis Borges, como "Manual de zoología fantástica" e "O livro dos seres imaginários", que exploram criaturas reais e mitológicas, expandindo o imaginário animal na literatura. Do Brasil, destaca João Guimarães Rosa com "Meu tio o Iauaretê", que explora a metamorfose e a relação mística entre humanos e animais no sertão brasileiro. Também inclui Clarice Lispector, com "A paixão segundo G.H." e "O búfalo", que tratam da introspecção e da alteridade animal, e Machado de Assis, com "Ideias de canário" e outras obras que questionam a racionalidade humana em comparação com o saber animal.

Da África do Sul, ela aborda J.M. Coetzee e suas obras "Desonra" e "A vida dos animais", que exploram as questões éticas e políticas relacionadas ao tratamento dos animais na sociedade, revelando a marginalização e a violência enfrentadas por esses seres. De Portugal, Maciel menciona autores como Herberto Helder, cujas obras "Última ciência" e "Poemaco" exploram a presença dos animais na poesia, e António Osório, que, em um de seus escritos traz a comunicação das vacas por meio do olhar. Esses são apenas alguns exemplos.Vale a leitura completa para absorver tudo o que esta obra nos proporciona. 

sábado, 30 de setembro de 2023

o gato que amava livros



"Livros têm alma.
Um livro querido sempre terá uma alma.
Voltará para ajudar o leitor em tempos de crise."


Em "O gato que amava os livros", o escritor japonês Sosuke Natsukawa nos apresenta a literatura fantástica japonesa voltada ao público jovem adulto. Leitura rápida e instigante, conta a história de Rintaro Natsuki, garoto do ensino médico bastante recluso, que passa a maior parte do tempo na livraria do avô. Leitor assíduo, conhece, com riqueza de detalhes, grandes obras literárias e filosóficas, especialmente as do ocidente.

Seu avô acaba de morrer, e ele terá que abandonar a livraria para morar com uma tia distante. Diante desse cenário, sua introspecção intensifica-se, chegando ao ponto de se recusar a ir à escola. Ele é um hikikomori, palavra japonesa para definir jovens totalmente avessos ao convívio social.

Eis que surge Sayo, amiga de sala que insiste que ele saia de casa (ou da livraria) e volte às aulas. Mas quem realmente vai movimentar a vida do rapaz é um gato falante, claramente inspirado no gato de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, um dos pseudônimos do escritor britânico Charles Lutwidge Dodgson. O felino aparece para pedir que o rapaz o ajude a resgatar livros que estão em perigo. A partir daí, partem para aventuras em labirintos no fundo da loja. Juntos, enfrentarão quatro situações bem curiosas.

No primeiro labirinto, os livros estão condenados a ficarem sempre guardados a sete chaves após terem sido lidos uma única vez. No segundo, os livros são destinados a perder todos os seus detalhes e características que os fizeram grandes obras, pois a ideia ali é resumi-los ao máximo possível (alguns em apenas uma linha), para que mais pessoas possam ter acesso a eles. Na terceira empreitada, vão parar na maior editora do mundo. Lá, os livros literalmente despencam das grandes torres. A premissa é que se deve escrever apenas o que vende. Caso contrário, os livros perecerão, já que a demanda é por autoajuda e temas de consumo rápido. Cabe a Rintaro convencer os responsáveis por cada local a mudar de ideia, reforçando a importância da leitura.

Já no quarto labirinto, é recebido por uma mulher misteriosa e, aparentemente, sem emoção, que vai colocar na balança todos os prós e contras do que foi visto antes. Seria ela a voz da razão mostrando que, afinal de contas, o que estava acontecendo nos ambientes anteriormente visitados refletem a realidade do mundo editorial? E que mais do que se prender ao passado, é preciso explorar outras possibilidades para garantir a sobrevivência dos livros? Ou indo além? A tradição é importante, porém, precisamos nos abrir ao novo.

Rintaro está preso à tradição e aos costumes, especialmente os passados pelo avô, a quem muito admira e respeita. Durante seus argumentos contra os que "destruíram" os livros (guardando-os para que ninguém os visse, cortando-os para resumir ou aceitando o supérfluo), as lembranças do avô sempre emergiram, dando a ele respostas para reverter as situações e salvar as obras. Em dois dos labirintos, ele é acompanhado pela amiga Sayo. Segundo o gato, apenas algumas pessoas especiais conseguem vê-lo e ela é uma delas, consequentemente está apta a visitar esses lugares mágicos.

A mitologia grega apresenta o Labirinto de Creta, não apenas como um espaço para confinar o Minotauro, uma figura indesejada pela sociedade, mas também como um caminho tortuoso de desafios e autodescoberta. Neste romance, os labirintos não apenas guardam os livros, eles representam a jornada interior de Rintaro, refletindo sua evolução e crescimento ao longo da narrativa.

Interessante a figura do gato. Sarcástico, some e aparece sem dar satisfações, age como se fosse a própria consciência de Rintaro trabalhando para que ele possa dar conta de seus dilemas. Com a morte do avô, ele precisa deixar a livraria, local onde estão todas suas memórias afetivas. Apesar de não ser o que quer, sabe que para um garoto de ensino médio não é viável ficar sozinho. Ao mesmo tempo há as obrigações da idade, como a escola. Em contraponto, tem Sayo, por quem começa a ter sentimentos que vão além da amizade. No meio de tudo, chama a atenção outro personagem, o cara mais popular da escola, que contrariando as expectativas de Rintaro e Sayo, admira o nosso hikikomori e tem nele e na livraria Natsuki a inspiração para ler grandes clássicos. Importante observar que, em japonês, natsu significa verão. E ki significa esperança ou raro. Portanto, uma tradução aproximada do nome poderia ser "Esperança de Verão" ou "Raridade de Verão".

Há esperança para a literatura? "O gato que amava os livros" mostra que sim, principalmente ao apontar o quanto perdemos ao deixar de lado livros considerados difíceis, por exemplo. Lá pelas tantas, Rintaro provoca a amiga ao lhe indicar Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques. Ela diz que está com dificuldades na leitura e ele afirma que isso é bom, pois o livro está lhe mostrando outras perspectivas. Quando a leitura é fácil, é porque tudo o que está ali já foi visto e aceito. É linda a passagem em que o protagonista relembra um diálogo com o avô, que compara a leitura com uma escalada? 

" Se você vai escalar, escale uma montanha alta. A vista do topo será muito melhor."

Há outros trechos bem instigantes sobre como temos nos livros amigos fiéis, que sempre nos darão as respostas que precisamos.

"Existem histórias atemporais, poderosas o suficiente para sobreviverem ao longo dos anos. Leia muitos desses livros; serão como amigos para você. Eles vão te inspirar e dar apoio."

Contudo, sabemos as dificuldades que os livros enfrentam, o quanto os grandes clássicos são ignorados em prol de leituras mais fáceis e vendáveis. Mas não será isso que vai nos fazer desistir de uma boa história ;-)
 

Trechos

"Os livros têm um poder extraordinário. Esse era o mantra de seu avô. Para dizer a verdade, o velho não era muito falante, mas, quando o assunto eram livros, de repente ele se enchia de vida. Os olhos quase cerrados abriam caminho para um sorriso largo, e as palavras voavam da boca com uma energia extasiada: — Existem histórias atemporais, poderosas o suficiente para sobreviverem ao longo dos anos. Leia muitos desses livros; serão como amigos para você. Eles vão te inspirar e dar apoio."


"Ler um livro é muito parecido com escalar uma montanha."

"Ler não é só um prazer ou entretenimento. Às vezes, você precisa examinar as mesmas linhas a fundo, ler as mesmas frases várias e várias vezes. Às vezes, você fica lá sentado com a cabeça nas mãos e só progride em um ritmo árduo e lento. E o resultado de todo esse trabalho duro e desse estudo cuidadoso é que, de repente, seu campo de visão se expande. É como encontrar uma bela vista ao final de uma longa escalada. Sob a luz da lâmpada antiquada, o avô de Rintaro tomou um gole de chá, calmo e confiante, parecendo um velho mago sábio de algum romance de fantasia. — Ler pode ser exaustivo. Os olhos do velho cintilaram por trás dos óculos de leitura. — Claro que é bom ter prazer em ler. Mas as vistas que se pode ter em caminhadas leves e agradáveis são limitadas. Não condene a montanha pelas trilhas íngremes. Também é uma parte valiosa e agradável da escalada o esforço de subir uma montanha passo a passo. Ele esticou a mão fina e ossuda e a colocou sobre a cabeça do garoto. — Se você vai escalar, escale uma montanha alta. A vista do topo será muito melhor. Apressar-se implica perder muitas coisas. Andar de trem pode levar ao longe, mas é um equívoco pensar que isso permitirá ver mais coisas. Flores na sebe e pássaros no topo das árvores são acessíveis apenas a quem vai caminhando com os próprios pés. Rintaro ponderou tudo isso antes de se aproximar do estudioso."

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

de repente, nas profundezas do bosque



"A professora Emanuela explicou à classe como é um urso, como os peixes respiram e que sons a hiena produz à noite. Ela também pendurou na sala gravuras de animais e aves. Quase todos os alunos debocharam dela, porque nunca na vida tinham visto um animal sequer. E muitos deles não acreditaram que existissem no mundo tais criaturas. Pelo menos nas redondezas."


(Esta é uma leitura, à luz da literatura animalista, de um livro lido há bastante tempo. Inclusive com menção aqui neste blog.)


"De repente, nas profundezas do bosque", do israelense Amós Oz, beira a literatura fantástica. É uma fábula sobre como nos relacionamos com o diferente por meio de uma alegoria animalista.

Imagine uma aldeia onde não existe bicho algum? Nada no ar, na terra ou no rio. Nem mesmo insetos ou vermes. Lá, a ideia do que é animal passa somente pela oralidade, pelos desenhos da professora Emanuela e pelas esculturas em madeira do ex-pescador Almon, que agora cuida do seu pomar e horta, já que não há mais peixes nos rios.

"Somente por essas estatuetas, bem como pelos desenhos feitos pela professora Emanuela na lousa, as crianças conheciam o aspecto de um cachorro, do gato, da borboleta, do peixe, do pintinho, do cabrito e do bezerro. A professora Emanuela também ensinou a algumas crianças as vozes dos animais, vozes que os adultos da aldeia com certeza ainda lembravam da infância, antes que as criaturas desaparecessem, mas as crianças jamais as ouvira em toda a vida." 

Ninguém sabe dizer por que os animais desapareceram. O que se conta é que certa noite, há muito tempo, todos os animais saíram da aldeia seguindo o demônio Nehi, que habita o bosque vizinho. Há quem diga que tudo não passa de lenda, pois as pessoas têm certo desconforto em afirmar que já existiram outras formas de vida na aldeia. Ao mesmo tempo em que param para refletir sobre seus animais de estimação, pássaros etc, elas imediatamente sacodem a cabeça para espantar essas lembranças, envergonhadas. Seria culpa? Medo? Ou consciência coletiva da responsabilidade pelo sumiço inexplicável.

"Já fazia muitos anos que todos os animais dessa aldeia e das redondezas haviam desaparecido, vacas, cavalo e carneiros, gansos, gatos e canários, cachorros, aranhas domésticas e lebres. Nem mesmo um pintassilgo vivia lá. Nenhum peixe restara do rio. As cegonhas e os grous rodeavam os vales em suas jornadas errantes. Até mesmo os insetos e os vermes, até as abelhas, moscas, formigas, minhocas, mosquitos e traças não eram vistos havia muitos anos. Os adultos que ainda lembravam em geral preferiam calar-se. Negar. Fingir" 

A professora Emanuela perdeu sua gatinha Tigresa que tinha acabado de ter três filhotes. Naquela fatídica noite, eles sumiram deixando apenas dois fios de bigode, a bolota de lã que brincavam e o cheirinho azedo das lambidas. Foram dias de sofrimento para a pequena Emanuela, na época com dez anos. Hoje, ela não é mais "tão nova". O fato de não ter conseguido o marido, apesar das aparentes tentativas, e sua insistência em retratar os bichos fazem com que seja ridicularizada. Fora da escola, está sempre sozinha.

"Certa noite, noite de tempestade, desapareceram todos os animais da aldeia, mamíferos, aves, peixes, répteis e larvas, e no dia seguinte de manhã restaram apenas os habitantes e seus filhos. Emanuela, que naquele tempo tinha dez anos, chorou semanas e semanas de saudades da sua gata tigresa Tima, que teve três filhotes, dois listrados como a mãe, e um amarelinha e travesso, que gostava de se disfarçar de meia enrolada e se esconder dentro de uma bota. Naquela noite terrível desapareceram a gata e os filhotes, e deixaram para trás a gaveta de sapatos estofada vazia debaixo do armário de roupas." 

O mesmo acontece com o pescador, ou ex-pescador, Almon, que distribui figuras de animais entalhadas na madeira para as crianças. Por rememorar de forma intensa os velhos tempos com animais, ele, que perdeu, além dos peixes dos rios, seu cachorro Zito, é tido como louco, principalmente porque fala muito e tem como confidente um espantalho, que fincou nas suas plantações.

"Almon discutia com o espantalho, às vezes longamente e com raiva. Ajeitava-o, repreendia-o, abandonava-o completamente, e logo voltava, trazendo uma velha cadeira; sentava-se diante do espantalho e tentava, com uma paciência infinita, convencê-lo, ou pelo menos fazê-lo alterar um pouco as suas opiniões inflexíveis."

Há ainda uma terceira pessoa que também acredita nos animais: Nimi, garoto desgrenhado, sujo, com roupas rasgadas, nariz escorrendo, e que vive falando sobre seus sonhos com os animais retratados pela professora, o suficiente para ser considerado excêntrico. Até que ele desaparece por dias e volta com a doença do relincho, nome dado à transformação de algumas pessoas em animais. No caso de Nimi, ele volta literalmente relinchando como um cavalo, mostrando seus dois dentes protuberantes e separados da frente, o que reforça o simbolismo da transformação, evocando a própria natureza humana e sua relação intrincada com a animalidade, o que aproxima essa passagem do romance "A Metamorfose" de Franz Kafka, no qual o protagonista acorda metamorfoseado em um inseto gigante.

"A turma ria dele quando chegava contando, logo pela manhã, como seus sapatos marrons, que durante a noite ficavam ao lado da sua cama, se transformava em dois ouriços que se arrastavam e examinavam o quarto a noite inteira, mas de manhã, quando ele abria os olhos, os ouriços voltavam de repente a ser um simples par de sapatos ao lado da cama." (p.8)

Os personagens são marginalizados não apenas por acreditarem na existência dos animais, mas também por outras características estigmatizadas: a solteirice, o ato de falar sozinho e o rótulo de "sujo". Esses elementos atuam como símbolos das normas sociais restritivas que promovem a conformidade e marginalizam o diferente. A solteirice questiona padrões sociais, falar sozinho pode representar a busca por uma voz autêntica, e o rótulo de "sujo" aponta para a visão preconceituosa que categoriza certos grupos como inferiores ou menos dignos de aceitação. Juntos, esses símbolos oferecem uma crítica à rigidez e à intolerância social.

Outro que contraiu a doença do relincho foi Guinom, o pastor de ovelhas e marido de Solina, a costureira. Dizem que naquela noite ele saiu em busca de seus animais e voltou contaminado. Parou de falar, definhando aos poucos e passando a viver como um cabrito. Cabe à sua esposa cuidar dele como se fosse um bebê.

"Solina, a costureira, passeava com o marido inválido pelas ruelas da aldeia. O homem inválido, Guinom, se curvou tanto com o passar dos anos que Solina podia, sem nenhuma dificuldade, acomodá-lo num velho carrinho de bebê para levá-lo até a margem do rio.


Durante o trajeto, tanto na ida como na volta, Guinom emitia um balido fino e choroso, porque a doença do esquecimento fez com que ele pensasse que era um cabrito." 

A pequena comunidade tem ainda o jovem Danir, o consertador de telhados, que, no fim da tarde, encontra-se com os amigos para se divertir. Ele sempre diz que vai atrás dos animais com seus ajudantes, o que inevitavelmente acaba com a conversa, deixando os demais assombrados com suas palavras. Outra personagem que sente pelos animais é Lília, padeira e mãe de Maia, que insiste em jogar migalhas de pão para os peixes inexistentes do rio.

"... ele jurava que dali a pouco, uma semana, um mês, acompanhado de seus ajudantes ele haveria de descer os vales distantes, e dos vales não voltariam a pé, mas num comboio de carroças atreladas a cavalos e carregadas de cem tipos de aves, animais, peixes e insetos, e passariam de casa em casa, espalhando animais por toda parte e despejando peixes vivos no nosso rio. Assim a aldeia voltaria a ser exatamente como era antes daquela maldita noite, e pronto. Ao ouvir uma conversa como essa, o grupo se calava de tanto assombro: as palavras que Danir pronunciava não divertiam o grupo, mas cobriam a praça de uma sombra carregada e repentina." 

A população cultiva crenças sobre o bosque, local proibido e temido. Lar do demônio Nehi, que toda noite volta para capturar os desprotegidos. Por isso, todas as portas são trancadas ao escurecer, e não sobra viva alma nas ruas. Durante o dia, todos seguem a rotina de casa, trabalho, escola e passeios em horários pré-definidos. A narrativa sugere que tudo na vila ocorre de forma automática. Cada um possui seu papel definido e realiza o esperado, como deve ser. O que se desvia disso é considerado errado, motivo de deboche.

Observando e refletindo sobre esse cenário, temos duas crianças. A menina Maia e o menino Mati. Eles são amigos e planejam adentrar o bosque para investigar o que está por trás do desaparecimento dos animais, principalmente após se depararem com um peixe vivo que os encara, expondo-se e expondo-os, assim como o gato de Jacques Derrida, que nos leva a questionar o olhar do animal e a complexidade do seu mundo interior, como abordado em "O Animal que Logo Sou". Nesta obra, o pensador francês desafia os paradigmas tradicionais da filosofia ao se aprofundar na relação entre seres humanos e animais. Ele provoca reflexões sobre o olhar do animal, questionando se podemos verdadeiramente compreender a profundidade dos pensamentos e emoções que residem por trás dele. Derrida nos leva a considerar o "olhar do outro", especialmente o olhar do animal, como uma abertura para uma vastidão de significados e sentidos que escapam à nossa compreensão limitada. Assim como o gato que olha e é olhado por Derrida, Maia e Mati são confrontados com a mesma questão: o que será que reside no olhar desse peixe? Esta conexão intrincada entre a observação, a interpretação e a possibilidade de uma subjetividade animal mais profunda é uma linha de investigação que Derrida empreendeu, e que também ecoa nas explorações das crianças.

"Que me dá a ver esse olhar sem fundo? Que me `diz`ele que manifesta em suma a verdade nua de todo olhar, quando essa verdade me dá ver nos olhos do outro, nos olhos vendo e não apenas visto pelo outro? Penso aqui nesses olhos que veem ou nesses olhos de vidente cuja cor seria preciso ao mesmo tempo ver e esquecer." 

"Era um peixe pequeno, um peixinho, com comprimento de meio dedo, com escamas prateadas e nadadeiras delicadas, branqueadas, espelhadas e trêmulas. O olho de peixe redondo e arregalado ao máximo mirou os dois por um instante como se sugerisse a Maia e Mati que todos nós, todos os seres vivos sobre este planeta, pessoas e animais, aves, répteis, larvas e peixes, na realidade todos nós estamos bem próximos um dos outros, apesar de todas as muitas diferenças entre nós: pois quase todos temos olhos para ver formas, movimentos e cores, e quase todos nós ouvimos vozes e ecos, ou pelo menos sentimos a passagem da luz e da escuridão através da nossa pele. E todos nós captamos e classificamos sem parar cheiros, gostos e sensações." 

Eles cumprem a promessa, entram no bosque e, no caminho, encontram o esconderijo de Nimi. Para surpresa de ambos, ele não está relinchando. Fala normalmente e afirma que a doença foi uma desculpa para se ver livre da escola, dos pais, dos vizinhos e, especialmente, das zombarias. Assim, ele pode se refugiar na caverna sem ter que dar satisfação a ninguém. Mais um motivo para os dois amigos refletirem sobre seus próprios atos. Afinal, não teriam eles próprios debochado de Nimi?

Seguindo o caminho, encontram o que procuram. Pássaros, peixes, vacas, ratazanas e todo tipo de bicho vivendo juntos com Nehi. O demônio que a vizinhança tanto temia é, na verdade, Neman, garoto que fora motivo de chacotas por ser diferente, esquisito. Apesar de seus esforços, jamais conseguiu ser como os demais, encontrando apenas nos animais o consolo que precisava. Rapidamente, aprendeu a falar cachorrês, gatês e outros idiomas que lhe permitiram se aproximar de todas as espécies. Até que decidiu partir. E junto com ele foram todos os animais. Hoje, bem mais velho, vive rodeado de todas as espécies, vivendo pacificamente.

"Mati ergueu os olhos em direção às copas das densas árvores, e viu e ouviu pela primeira vez na vida a tagarelada de multidões de pássaros, as variadas vozes que cantavam e pulavam, e o farfalhar das asas e o movimento inesperado daquelas criaturas que saltavam e pulavam de galho em galho. Às margens do riacho e nas piscinas naturais que se formavam, repousavam as aves aquáticas, com uma perna mergulhada na água e a outra dobrada, o bico cor-de-rosa a afundar de repente na água em busca de alimento. Uma profunda e suave calma encheu o peito de Mati, uma calma da qual não tinha lembrança em toda a sua vida, a não ser, talvez, na memória oculta e obscura, memória por trás de toda memória, memória que continha o sossego de um bebê de fraldas saciado, com os olhos fechados, envolvido em doçura, adormecendo junto ao peito da mãe enquanto ela murmurava com sua voz quente uma canção de ninar." (p 90/91)

Na sua jornada pela floresta, Nehi se depara com a carnemônia, planta cujo sabor se assemelha ao da carne. É essa descoberta que vai permitir que presas e predadores vivam juntos, sem um ter que matar o outro para sobreviver. Ao trazer esse tema à tona, Oz levanta os dilemas éticos presentes na alimentação humana. A organização Humane Society International (HSI) estima que o número de animais criados e abatidos para consumo por ano no mundo chegue a 88 bilhões. Essa preocupação ética ressoa com a obra de J.M. Coetzee, "A Vida dos Animais", na qual a personagem Elizabeth Costello argumenta que "somos todos animais" e questiona o "túmulo humano que criamos para eles [os animais]" em nossas práticas alimentares. A descoberta da carnemônia por Nehi pode ser interpretada como intervenção literária nesse debate ético. Assim como Elizabeth Costello nos incita a repensar a dieta onívora, a introdução da planta na história de Oz desafia nossas justificativas habituais para práticas que resultam em abate em massa. A obra de ambos os autores nos convida a contemplar a possibilidade de um mundo onde alternativas à carne, e coexistência pacífica, sejam não apenas imagináveis, mas também viáveis.

"Muitos anos atrás, em um vale escondido, atrás de sete cordilheiras e depois de sete vales profundos, numa de suas excursões solitárias Nehi descobriu um pequeno arbusto que dava umas frutinhas brancas e roxas com sabor muito parecido com o da carne. Nehi denominou as frutas desse arbusto carnemônias. Ele plantou sementes de carnemônia por todo bosque, cultivando e disseminando os arbustos, porque entendeu que todos os animais carnívoros gostavam do sabor da carnemônia, e se alimentavam dela com gosto, e assim não precisavam mais abater criaturas mais fracas do que eles. E também não sentiam mais o desejo de abater. Assim Nehi conseguiu aos poucos habituar o tigre a se divertir com cabritos pequenos, e logo a cuidar de rebanhos de carneiros, e até adormecer entre eles, de modo que a lã macia lhe esquentasse o corpo nas noites frias. Assim nenhum animal nunca mais abateu outro em toda a extensão dessas matas, e animal nenhum nunca mais teve medo dos predadores. Mas não esqueceram completamente."

Lá nas profundezas do bosque, todos encontram um lugar onde são aceitos pelo que são. Não há mais sofrimento, zombarias, deboches e intolerância (até a questão da alimentação foi resolvida). Maia e Mati, porém, argumentam que ao tirar os animais de cena, Nehi também causou muita dor. A professora Emanuela sofreu. Almon sofreu. Não sentiria ele próprio saudades do convívio humano? Por um instante, Nehi reflete e afirma que sente falta das pessoas, do aconchego de um lar. Que vira e mexe ele volta à aldeia para ver como todos estão vivendo. Que ao observar as famílias reunidas, sente um aperto no coração. Mas que seu lugar é realmente ali no bosque. E que não voltará pelos animais, que muito padeceram nas mãos humanas. Ele não tem dúvida de que as pessoas ficarão felizes em receber seus cães, gatos e cavalos. Mas o que acontecerá com os ratos, insetos e vermes?

"Noite após noite Nehi, o demônio da montanha, desce de seu palácio negro atrás dos montes e dos bosques, visita as casas como um mau espírito, procura sinais de vida, e se por acaso encontra um grilo perdido, ou um único vaga-lume que veio parar aqui arrastado sabe-se lá de que distância pelos ventos do inverno, ou até mesmo um besouro ou uma formiga, imediatamente estende seu manto escuro, envolve e aprisiona toda criatura viva, e antes de o sol nascer retorna voando ao seu palácio assombrado, para além dos últimos bosques nas alturas dos montes eternamente cercados de nuvens." 

Pode ser que a ideia de Amós Oz tenha sido usar os animais para falar sobre a intolerância de humanos para outros humanos (ou outros considerados menos humanos), mas seu livro traz importantes pontos que nos ajudam a entender a forma com que nos relacionamos com os animais.

Enquanto escrevo, minha atenção é capturada por Billy, meu cachorrinho, que retribui o olhar. Nele, encontro o mesmo olhar que Maia e Mati trocaram com o peixe. O que reside no olhar dos animais? Este olhar nos convida a questionar a profundidade dos pensamentos e emoções dos animais. Portanto, quando nos deparamos com o olhar desses animais na história, somos convidados a enxergar para além do óbvio, a explorar as camadas ocultas de significado e a considerar a riqueza da experiência animal que, de acordo com Derrida, permanece em grande parte inexplorada e incompreendida pelos humanos.

Tanto que neste exato momento, milhares de animais estão sendo mortos para diversos fins: alimento, vestuário, entretenimento. Em que momento o homem se viu no direito de se colocar acima de todos eles?

Repleta de simbolismos, a narrativa retrata uma sociedade que expulsa o diferente e que ridiculariza quem não se enquadra, falando não apenas dos animais, mas de qualquer ser que porventura seja diferente da maioria. E usa, para isso, o recurso de uma literatura quase fantástica, mas que não deixa de ser realista, por trazer em suas entrelinhas a intolerância cotidiana e banal, que ridiculariza, isola e mata.

"E o que acontecerá se os grandes e ricos camponeses, esses cujos pais estudaram comigo na sala da professora Rafaela, a mãe da professora Emanuela, o que acontecerá se eles começarem outra vez a bater nos cachorros com bastão, e a açoitar os cavalos com chicotes de couro, e a envenenar os gatos de rua, e a afogar os ratos em tonéis de água, e se de novo tornarem a sair com suas espingardas para matar gazelas, corças e raposas para comerciar suas peles, e armarem todo tipo de armadilhas para as lebres e para os gansos selvagens? E se de novo estenderem suas redes para pescar os peixes do rio?"

Nas profundezas do bosque, todos vivem juntos. Ilustração: Freepik

sábado, 13 de maio de 2023

a segunda vida de missy



"O que era esse medo, esse pavor de ficar só, quando eu nunca fora um ser particularmente sociável e, na verdade, costumava fazer o impossível para evitar compromissos?"

Missy é uma figura de poucos amigos, mora sozinha e mantém sua rotina relativamente previsível. Tudo muda quando desmaia em praça pública durante uma apresentação de eletrocussão de peixes. Naquele momento, detestei a capa fofa que me levou a comprar o livro. Pesquisei sobre o assunto e descobri que esse método de pesca é corriqueiro, sobretudo para transportar peixes vivos. Em "A segunda vida de Missy", romance da britânica Beth Morrey, a técnica foi empregada para mover os peixes de lago a lago. Para facilitar o transporte, era necessário atordoá-los, algo que ocorre quando são eletrocutados. Em determinado momento, uma personagem faz um trocadilho dizendo que todos os peixes morreram de choque, mas se refere à mudança de ambiente, e não ao elétrico.

Embora não seja o foco da história, a abordagem da autora é intrigante. Sem apelar ao ativismo, ela nos faz refletir sobre nossas ações frente a outras espécies. Por que, por exemplo, nos achamos no direito de transportar peixes vivos de local a local?

"— Ouvi um boato de que todos os peixes morreram. O choque foi demais para eles. — O choque elétrico? — Não, o choque de estarem em um lago diferente."

No enredo, porém, outro animal ocupa posição central: Bob, vira-lata que influencia profundamente a vida de Missy. Com a ausência da filha, filho e neto, seus dias são tomados pelo tédio. Inesperadamente, ela desenvolve temor da solidão, apesar de sempre ter sido avessa ao convívio social. Daí ela se afeiçoa a um garotinho que vê no parque que frequenta. Buscando reencontrá-lo, vai ao tal evento dos peixes, mas passa mal. Esse episódio faz com que conheça novas pessoas, que trazem mais sentido e emoção à sua vida, a segunda vida do título do livro. Nesse processo, ela entende o valor da amizade e percebe o quanto necessita de apoio. E é exatamente quando surge Bob, cadela que precisa de lar temporário enquanto sua tutora reorganiza a vida após se desvencilhar do marido violento. A princípio, Missy resiste à ideia, mas o amor supera os desafios.

Ao longo da narrativa, segredos do passado de Missy são revelados, explicando sua postura inflexível. Isso abrange sua vida de abdicações pelo marido, acadêmico renomado, conflitos com a filha e até um aborto. Acompanhamos ainda seu dilema em relação ao Brexit, a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia.

Contudo, seu amor por Bob se intensifica. Mas, um desfecho doloroso nos aguarda: Bob morre no final. Estou compartilhando isso pois ninguém me alertou. O encerramento do livro é tocante, mas a maneira como Bob é "substituída" mostra como muitos humanos, infelizmente, enxergam os animais.


Trechos


"— Eles vão eletrocutar os peixes! Quer ver? O pessoal responsável por cuidar do parque precisava transpor os peixes de um lago para outro, o que exigia que eles fossem atordoados. Pesca elétrica. Eu nunca tinha visto nem ouvido falar de um troço desses, nem parecia ser algo particularmente interessante, mas, talvez, se eu pudesse rever o “Oat”, o aperto na garganta que eu vinha sentindo desde que Ali e Arthur haviam entrado no avião pudesse diminuir um pouco. Seria algo para fazer, afinal..."

"A cerca de um metro da proa havia uma engenhoca circular, com umas barrinhas que mergulhavam dentro d’água, como um conjunto gigantesco de sinos de vento. A meu lado, um sujeito explicava o processo à mulher do seu outro lado. O aparelho funcionava em combinação com um condutor colocado no casco, o que criava um campo elétrico por onde o barco ia passando, enquanto uma alavanca de bordo controlava a corrente. Os homens deslizaram pelo lago em grandes círculos, um conduzindo a embarcação e operando a alavanca elétrica; o outro, ajoelhado, segurando uma rede. Por um tempo, nada aconteceu, mas então uma boia cinzenta e luzidia surgiu alegre na superfície — o primeiro peixe atordoado. — Ooooh — disseram os espectadores, batendo palmas educadamente. Depois disso, os peixes começaram a emergir por toda parte, reluzentes e apáticos, aguardando serem pescados. Toda vez que o segundo homem recolhia um deles, a massa de espectadores dava vivas e brindava com seus copos plásticos de vinho com canela. À medida que o espetáculo se estendia, mais inquietante ele se tornava. O “plop” constante com que os peixes subiam à tona, vibrando, o lento sibilar da rede, “chich”, o baque surdo subsequente, quando eles caíam no recipiente. Plop, chich, tum. Plop, chich, tum. Depois... plaft. O aturdimento só durava o suficiente para os peixes serem colocados no barco. Aquelas enormes carpas de aparência pré-histórica, cobertas de lama do lago, eram içadas a bordo e, de imediato, começavam a estrebuchar e se debater. Plop, chich, tum. Plaft, plaft, plaft. Num minuto você está ali, deslizando, sem a menor preocupação, e no seguinte vem uma cutucada gigante e lhe dá um tremendo choque, e então tudo fica diferente e você perde o fôlego de susto. E não há vitória na sobrevivência, porque depois a única coisa que você faz é ficar nadando em círculos sem parar num novo lago, fazendo movimentos inúteis com a boca. Eu ia preferir que acabassem com meu sofrimento. Do pó ao pó. A falta de ar voltando. Plop, chich, tum. Eu poderia desviar o olhar e aquilo acabaria. Não pense, não pense. Plaft, plaft, plaft. Agarrei a grade, tentando ignorar os galhos que pairavam no alto, mas minha pele foi formigando, ardendo, e eu me senti cair em meio a mãos que se estendiam e a gritos distantes, enquanto a escuridão tomava conta..."

"Arrumei a casa e me lembrei de quando tínhamos filhos pequenos e era impossível manter qualquer coisa no lugar. Agora, tudo era imaculado e permanecia assim."

"— De que diabos você está falando? Eu não quero um cachorro. — Olhei para Bob, ainda sentada junto à lareira. Era uma vira-lata, com a cor parecida com a de um pastor-alemão, só que menor, como um collie. Não era feia, em matéria de cachorros, mas eu nunca gostara muito deles. Muito obtusos e carentes."

"Dizem que as pessoas se parecem com seus cães, e eu imaginava que, se um dia tivesse um cachorro, ele seria uma espécie de cão de caça — alto, cinzento e arredio. E não essa coisa espevitada e saltitante, com suas cores outonais e olhadelas de esguelha."

"E assim, ali estávamos nós, a velhota chata, a mãe solteira, o super-herói e a vira-lata adotada, a caminho do casamento de minha filha com sua namorada. Acho que formávamos um grupo curioso."

"A magia não impede que o pior aconteça. O pior sempre acontece, todo dia. E a vida segue em frente. E a gente apenas se mantém firme e torce para poder guardar qualquer migalha e dentinho que sobrar."

domingo, 7 de maio de 2023

o dia em que selma sonhou com um ocapi



"Nenhuma pessoa está sozinha enquanto puder dizer nós."


Já viu um ocapi? Se não, dê um Google. Esse animal, quase mítico devido às suas características físicas (mistura de girafa e cavalo, pernas listradas como as de uma zebra) é o fio condutor do romance da alemã Mariana Leki.

"O ocapi é um animal bizarro, muito mais bizarro do que a morte, e parece totalmente incongruente com suas pernas de zebra, ancas de tapir, torso vermelho-ferrugem de girafa, olhos de cervo e orelhas de rato. Um ocapi é implausível ao extremo, tanto na realidade quanto nos sonhos nefastos de uma mulher das montanhas Westerwald."

A história se passa em uma pequena vila da Alemanha, cercada por floresta, e é contada por Luise, que vai crescendo conforme a narrativa avança. Sua avó, Selma, é presença central na comunidade e todos temem seus sonhos com o ocapi. Quando isso acontece é sinal de que alguém, em breve, vai morrer. E é aquele desespero. Todos se apressam para dar conta dos últimos arranjos desta vida. Há de tudo. Quem começa a se despedir. Quem fica feliz porque entende que já passou da hora de ir para outro plano. Há os que nem saem de casa. Apesar da temática, o romance é divertido, com humor que me fez lembrar "As Intermitências da Morte", de José Saramago. Lá, a morte faz uma espécie de greve, deixando as pessoas sobressaltadas com o prolongamento inesperado da vida, o que indica que a infinitude pode ser um fardo. Movimento contrário ao que foi feito no romance de Leki, no qual as pessoas tendem a prolongar as situações.

Os personagens são bem peculiares. Além das protagonistas, há o pai de Luise, médico que está tratando sua "dor encapsulada"; a mãe, que está sempre se esquivando e com pressa de sair dos ambientes familiares. Temos ainda o bondoso oculista, secretamente apaixonado por Selma, mas que há décadas adia a declaração, deixando todos na expectativa de quando isso irá acontecer. "Todo mundo na cidade sabia que o oculista amava Selma, mas o oculista não sabia que todos sabiam." Tem o Martin, o melhor amigo de Luise, criança vivaz que está sempre levantando alguma coisa ou alguém, como que testando sua força. Há ainda a irmã de Selma, o pai de Martin, Marlies, que parece nunca envelhecer e que foge de encontros, o dono de mercadinho e Frederik, monge budista que surge mais para o fim. Juntos, formam um grupo bem unido. Contudo, o estado de inércia ou hesitação prevalece por lá, como se as pessoas estivessem esperando por algo que as liberte ou as force a agir. E geralmente isso vem de forma dolorosa. Os animais também estão presentes: o cachorro Alasca, que surge por meio do pai de Luise. Segundo ele, o cão irá ajudá-lo a mostrar sua dor. Enorme, ele ganha seu espaço cativo na trama. Há o ocapi dos sonhos e um cervo, que sempre que surge é imediatamente espantado por Selma, a fim de protegê-lo dos caçadores.

Mas, retornando ao sonho fatídico de Selma, a morte, infelizmente, chega de forma trágica e impactante, afetando profundamente toda a vila e, em particular, Luise. Este evento, ainda na sua infância, literalmente, a paralisa e deixa marcas em sua vida adulta. Essa é uma passagem bem triste da história, porém, o apoio que Selma dá para a neta é uma das entregas mais lindas que você irá ler. Mais tarde, Luise se apaixona pelo monge budista, lançando ambos em um dilema amoroso e existencial.

Com toques de realismo fantástico, o livro parece ter sido feito sob medida para uma adaptação cinematográfica no estilo de "Amélie" ou "A Fantástica Fábrica de Chocolate", na versão de Tim Burton, com as mesmas nuances de cores e vivacidade dos personagens.


Os animais de Selma

A história, intencionalmente ou não, é repleta de simbolismos, como o peso que Martin insiste em levantar, a dor encapsulada do pai de Luise, a casa de Selma que pode despencar a qualquer momento, a mania de limpeza de Frederik, dentre outros. Vou me atentar, porém, aos animais presentes no enredo.

"Daí, no fim do sonho, Selma ergueu a cabeça, o ocapi virou a sua na direção de Selma, e eles se encararam. O olhar do ocapi era muito suave, muito escuro, muito úmido e muito grande. Parecia amistoso e como se quisesse lhe formular uma pergunta, como se lamentasse que ocapis não pudessem fazer perguntas também nos sonhos. A imagem ficou congelada durante muito tempo: a imagem de Selma e do ocapi, olhando-se nos olhos um do outro. Em seguida, a imagem se dissipou, Selma acordou e ele, o sonho, acabou – e logo a vida de alguém próximo se acabaria também."

A presença de animais em obras literárias carrega peso simbólico e teórico significativo que se enquadra dentro do campo da zooliteratura. Essa disciplina examina como os animais são representados e significados em textos literários. A aparição do ocapi, do cervo e do cachorro Alasca, o único que ganhou um nome, atua como um convite à reflexão sobre temas de alteridade, vulnerabilidade e coexistência interespécies.

O ocapi age como um símbolo do estranho e do inexplorado, quase uma entidade onírica que transcende as realidades cotidianas. O cervo representa vulnerabilidade, proximidade e familiaridade, estando literalmente no quintal dos personagens. Por fim, o cachorro Alasca se manifesta em uma escala pessoal e íntima, representando emoções humanas como a dor. Cada animal oferece uma lente através da qual são exploradas diferentes formas de vulnerabilidade e alteridade, em escalas que vão do mítico ao pessoal.

Neste contexto, a obra "O animal que logo sou" de Jacques Derrida nos ajuda a questionar as tradicionais fronteiras e hierarquias entre humanos e animais. Ele critica a visão antropocêntrica que prevalece na interpretação de textos literários e culturais, argumentando que deveríamos considerar a agência e complexidade do "outro" animal.

"Como todo olhar sem fundo, como os olhos do outro, esse olhar dito 'animal' me dá a ver o limite abissal do humano: o inumano ou o a-humano, os fins do homem, ou seja, a passagem das fronteiras a partir da qual o homem ousa se anunciar a si mesmo, chamando-se assim pelo nome que ele acredita se dar." (Derrida)

Essas questões ressoam na pesquisa "Literatura e Animalidade" de Maria Esther Maciel. Ela sugere que os animais na literatura têm sua própria forma de "ser no mundo." Eles não são meras representações, mas entidades complexas que pressionam os personagens e leitores a reconsiderar suas posições e hierarquias preconcebidas no mundo.

A visão de Maciel complementa a de Derrida ao colocar em questão as hierarquias e dicotomias que normalmente estabelecemos entre humanos e animais. Ambas as obras contribuem para entender que a autora do romance está engajada em um pensamento que respeita a complexidade e a agência dos animais, em linha com a zooliteratura e a zoopoética. Este engajamento desafia nossas compreensões tradicionais e sugere uma ética mais inclusiva e relacional, que reconhece a inextricável interconexão entre todas as formas de vida em uma teia complexa de relações.

Ao considerar a presença dos animais no romance à luz das obras de Derrida e Maciel, fica evidente que os animais não são meros coadjuvantes ou símbolos, mas figuras importantes que desafiam nossas concepções habituais e abrem espaço para uma ética mais inclusiva e complexa.

"O cachorro surgiu no aniversário de Selma do ano anterior. Papai tinha dado um livro de fotografias do Alasca de presente para Selma, acrescentando com uma piscadela: — Mais tarde vem mais uma surpresa. Selma nunca tinha estado no Alasca e nem queria ir. — Obrigada — disse ela, juntando aquele aos outros livros de fotografias na estante da sala. Todos os anos, papai a presenteava com um livro de fotografias, por causa do mundo, para o qual ela – como ele achava – tinha urgentemente de se abrir."

Trechos

"Quando Selma disse que tinha sonhado com um ocapi durante a noite, estávamos certos de que um de nós haveria de morrer, provavelmente nas vinte e quatro horas seguintes. Bem, estávamos quase certos. Foram vinte e nove horas. A morte chegou com um pequeno atraso e de maneira literal: ela entrou pela porta. Talvez tenha se atrasado porque hesitou demais, para além do último instante."

"Era possível notar que as pessoas na cidade estavam inquietas, mesmo quando grande parte tentava não deixar transparecer nada. Pela manhã, poucas horas depois do sonho de Selma, as pessoas se movimentavam na cidade como se gelo escorregadio cobrisse todos os caminhos, não apenas fora, mas também dentro das casas, em suas cozinhas e salas. Elas se movimentavam como se seus corpos lhes fossem estranhos, como se todos os seus membros estivessem inflamados, e também como se os objetos com os quais lidavam fossem altamente inflamáveis. Passaram o dia inteiro desconfiando da própria vida e, na medida do possível, também da de todos os outros. Olhavam o tempo todo para trás, a fim de checar se alguém apareceria num salto, cheio de vontade de matar, alguém que tivesse perdido a razão e, portanto, sem mais nada a perder. Depois, rapidamente olhavam de novo para a frente, porque, afinal, alguém sem razão também poderia atacar frontalmente. Olhavam para cima, para evitar telhas, galhos ou lustres pesados caindo. Evitavam todos os animais, imaginando que eles pudessem trazer a morte mais facilmente do que as pessoas. Desviavam das vacas bonachonas, que naquele dia possivelmente iriam escapar, evitavam os cachorros, até os bem velhos, que mal conseguiam ficar em pé, mas que ainda assim poderiam abocanhar seus pescoços. Em dias como aquele tudo era possível, até mesmo um salsichinha ancião esgoelar alguém, algo que, na realidade, não era tão mais esquisito do que um ocapi."

"O cachorro estava cansado. Era cansativo reencontrar uma porção de velhos amigos, há muito perdidos, que nunca tinham sido vistos antes. O cervo apareceu bem na extremidade da campina, nos limites da floresta. Assim que surgiu, Selma se levantou, foi até a garagem, abriu a porta e fechou-a de novo, com muita força. Era terça-feira e, às terças, durante a temporada de caça, Palm, pai de Martin, saía para caçar, e foi por isso que Selma assustou o cervo deliberadamente, para que sumisse em meio à floresta e ficasse a salvo das balas de Palm. Como era previsto, o cervo se assustou e sumiu. O cachorro também se assustou, mas não sumiu."

"O cachorro ergueu a cabeça e olhou para mim. Os olhos eram muito suaves, muito pretos, muito úmidos e muito grandes. De repente, soube que o cachorro nos tinha feito falta."

"Vivíamos numa região lindíssima, numa região maravilhosa, paradisíaca – como estava escrito nos cartões-postais em letra cursiva toda rebuscada que o dono do mercadinho dispunha no balcão. Mas quase ninguém na cidade prestava atenção nisso, nós passávamos por cima da beleza, pulávamos por cima dela, deixávamos de lado, dos dois lados, mas seríamos os primeiros a reclamar, em voz alta, caso as belezas que nos circundavam algum dia desaparecessem."

"Estavam aliviadas e se prometeram, dali em diante, se alegrar com tudo e serem gratas porque ainda estavam vivas. Elas prometeram, por exemplo, finalmente se regozijar de verdade pelo jogo de luzes que o sol da manhã proporcionava ao bater nos galhos das macieiras. As pessoas da cidade já tinham prometido isso muitas outras vezes, por exemplo, quando não eram atingidas por uma telha caindo ou quando um diagnóstico ruim era descartado. Mas, depois de um breve período de gratidão e felicidade, sempre havia o rompimento de um cano ou uma despesa extra inesperada, e daí a gratidão e a felicidade rapidamente se diluíam, as pessoas não ficavam mais gratas por estarem vivas, ficavam apenas irritadas que também existisse, além delas, um cano rompido ou uma despesa extra, e a luz do sol na macieira acabava posta de escanteio."