domingo, 18 de janeiro de 2026

viagens de gulliver


"O principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros."

Na metade da leitura de Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift, pensei em escrever algo sobre governança corporativa associado ao romance. O motivo foi perceber que, em algo publicado em 1726, o termo "governança" aparece repetidas vezes. A palavra vem do latim gubernare, que significa "dirigir" ou "pilotar", que por sua vez tem origem no grego antigo kybernân, que é associado à arte de conduzir um navio. Esse sentido mais literal, o de pilotar uma embarcação, está presente na obra, mas Swift emprega o termo com igual frequência para se referir à maneira de conduzir um país, uma corte, um tribunal. Ao descrever diferentes reinos e formas de governo, detalhando suas características, ele faz uma excelente sátira à sociedade de seu tempo, especialmente à política inglesa, à ciência e ao antropocentrismo.

O romance conta as peripécias de Lemuel Gulliver, que está sempre a viajar, largando a esposa e filhos por anos entre uma viagem e outra. Certamente, ele vem de uma família com posses, o que lhe permitiu, inclusive, cursar alguns anos de medicina antes de suas andanças. E em cada terra nova a que chega, fica tempo suficiente para se tornar quase um local, apresentando-nos seus costumes e idiossincrasias.

Sua primeira viagem é para Lilliput, a terra dos pequeninos. Talvez a imagem que mais tenha ficado na cabeça, mesmo naquelas que nunca leram o livro, seja a de um gigante amarrado por vários homens. Seu tamanho causa ao mesmo tempo medo e fascínio. Mas aos poucos ele vai conquistando a confiança da população, em especial do rei, que o vê como aliado. Ele terá que lidar, inclusive, com a velha guerra entre os Lilliputs e os Blefuscu, causada pela forma com que quebram ovos. Seria pela ponta maior ou pela menor? E milhares morrem por conta desse conflito absurdo, o que não é tão diferente da nossa vida real e das guerras que ainda acompanhamos. Como somos pequenos, afinal.

"E é de tal modo desmedida a Ambição dos Príncipes, que ele não queria outra coisa que não reduzir todo o Império de Blefuscu a uma Província, passando a governá-lo por meio de um de Vice-Rei; e destruir todos os exilados Extremidade-Grandistas, e obrigar toda a gente de lá a quebrar os Ovos na extremidade menor, tornando-se assim o único Monarca de todo o Mundo."

Por fim, chega a hora de partir. A próxima parada é Brobdingnag, o oposto. Lá ele é o pequenino, que chega a virar uma espécie de fantoche para a realeza. E como as pessoas são enormes, ele consegue ver detalhes que antes passavam despercebidos pelos seus olhos, como poros da pele, o que o deixa com nojo. Mas, ao contrário da terra dos pequenos, regida pela mesquinhez, aqui eles não conseguem entender o sentido de guerra, colonização e outras disputas. Ao ouvir Gulliver relatar a história da Inglaterra, o rei desse lugar fica "absolutamente atônito", dizendo que os últimos cem anos não passaram de "uma sucessão de Conspirações, Rebeliões, Assassinatos, Massacres, Revoluções", frutos da "Avareza, o Sectarismo, a Hipocrisia, a Perfídia, a Crueldade" e de tantos outros vícios. Em seguida, conclui que as instituições das quais Gulliver faz parte talvez fossem toleráveis em suas formas originais, mas haviam sido distorcidas pela corrupção. Mais do que isso, observa que "não fica claro que alguma Virtude seja exigida para que se obtenha algum Posto", nem que "os Sacerdotes sejam promovidos por sua Devoção ou seu Saber, os Soldados por sua Conduta ou sua Bravura, os Juízes por sua Integridade, os Senadores por seu Amor à Pátria, nem os Conselheiros por sua Sapiência". Sua conclusão não poderia ser mais dura: os ingleses seriam "a mais perniciosa Raça de Sevandijas abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra."

Mais uma vez, parte. Na terceira viagem, Gulliver passa por diferentes terras. Uma delas é Laputa, uma ilha flutuante cujos habitantes são obcecados pela matemática, pela música e pela astronomia. A absorção nessas áreas é tanta que mal conseguem conversar entre si. Há pessoas específicas que funcionam como seus ouvidos e sua boca, com a tarefa de lembrá-los de ouvir ou falar. Qualquer semelhança com pessoas abduzidas por dispositivos móveis é mera coincidência. O conhecimento também está a serviço da dominação. Quem mora na parte suspensa da ilha domina os habitantes que vivem abaixo daquela esfera flutuante.

Na sequência, Gulliver vai parar em Balnibarbi, que também é uma crítica à ciência. Lá, as pessoas dedicam-se a experimentos inúteis, como extrair raios de sol de pepinos, transformar excrementos em alimento ou construir casas começando pelo telhado, e por aí vai. Outro lugar icônico por onde passa é Glubbdubdrib, a ilha dos Feiticeiros ou Mágicos, onde personagens históricos são trazidos de volta do mundo dos mortos. Lembrando que estamos em mil e setecentos e pouco, Gulliver pede para ver, por exemplo, Alexandre, o Grande, à frente de seu exército. Também convoca Descartes e Gassendi para explicarem suas teorias a Aristóteles, que reconhece os próprios erros e conclui que, assim como ele, os demais filósofos também se apoiavam em conjecturas. Não existe, portanto, uma verdade definitiva.

Após esse bate-papo com essas e outras figuras históricas, Gulliver segue para a terra da imortalidade, Luggnagg, lar dos Struldbrugs, seres imortais que revelam que viver para sempre está longe de ser uma bênção. Lá as pessoas envelhecem, adoecem, tornam-se fisicamente limitadas, mas não morrem. A leitura me remeteu a As intermitências da morte, de José Saramago, que também mostra o quanto a ausência da morte pode se transformar em um problema. E antes de retornar, mais uma vez para casa, ele passa rapidamente pelo Japão, porém, não foi possível indagar nada, já que o idioma deles era deveras estranho. Ele pode entender a todos, menos os japoneses, embora afirme que o comércio entre seu país e o deles só crescia, o que me deixou bem reflexiva sobre as motivações dessa incompreensão. Depois disso, volta para casa, engravida a mulher e parte. Eis o perfil narcisista de nosso viajante, que ainda terá muito o que aprender.

"Continuei em casa com minha Mulher e meus Filhos por cerca de cinco meses, numa situação de muita Felicidade, e oxalá tivesse aprendido a Lição de saber reconhecer-me feliz. Deixei minha pobre Esposa esperando Filho e aceitei uma Proposta vantajosa para ser Capitão do Adventure, um Navio Mercante de trezentas e cinquenta toneladas."

Finalmente, Gulliver chega à terra dos Houyhnhnms, que significa "Cavalo, em sua etimologia, a Perfeição da Natureza". Fica surpreso ao ver que seus habitantes racionais são os cavalos. E fica ainda mais horrorizado ao ver que há naquelas terras criaturas abomináveis, tidas como irracionais, parecidas com humanos, que são chamadas de Yahoos. Ou seja, ele é o desprovido de razão por lá. 

Como sempre acontece em suas viagens, aprende gradualmente a língua dos habitantes e passa a se adequar ao mundo em que está (a exceção foi o Japão 🤔), o que faz com que seja visto como um Yahoo diferente, pois sabe se comunicar e é limpo, diferentemente dos demais, que são tidos como brutais e dominados pelos próprios instintos. Precisa ainda se acostumar com a nova alimentação: entre os Houyhnhnms, Gulliver passa a comer aveia, leite, salada e pão. Tudo sem sal, afinal, o único animal a utilizá-lo é o humano. Também precisa se contentar em viver sem carne, já que os cavalos não matam outros animais para comê-los, diferentemente dos Yahoos.

Aos poucos, Gulliver apresenta ao seu senhor, o cavalo que lhe oferece abrigo, sua visão de mundo eurocentrada, explicando como funcionam as coisas em seu país, as guerras, as disputas pelo poder, e observa a indignação diante de tudo aquilo. Seu anfitrião não consegue compreender como um ser que se considera racional pode agir de tal maneira. A indignação aumenta quando conta que, em seu país, os cavalos servem de montaria, são chicoteados, explorados e maltratados. E aqui me lembro de outros equinos: Minuano, de Tabajara Ruas, Kholstomer, de Tolstói, o burrinho Sete-de-Ouros, de Guimarães Rosa, e Caramelo, o cavalo que passou dias em cima de um telhado durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. 

Desenho representando Caramelo feito pela minha filha, na época com 7 anos

De tanto conviver com os Houyhnhnms, e admirá-los cada vez mais, o viajante acaba por imitar seus trejeitos, a ponto de, ao retornar ao seu país, muitas vezes ser pego trotando. Seus amigos observam que ele parece um cavalo, o que, para ele, é um grande elogio. O que pode nos remeter a personagens de Nas profundezas dos bosques, de Amos Oz. Lá, os animais desapareceram do mundo, e algumas recordações dessa convivência permanecem em personagens que relincham, tidos como malucos. A doença do relincho é vista como uma anomalia, algo que precisa ser afastado.

Mas Gulliver precisa partir. Ele não pertence àquele ambiente, e isso é decidido em uma assembleia. No dia da despedida, deixa a família que o acolheu com os olhos cheios de lágrimas e "Coração transido de Dor." A partir daí, e da forma como Swift constrói sua narrativa, nós, leitores, somos levados a duvidar da chamada racionalidade humana. Gulliver conclui que os Houyhnhnms são os seres mais evoluídos e inteligentes do universo. E nós concordamos. Toda a narrativa mostrou o quanto agimos de forma insensata, gananciosa e, mais que tudo, medíocres.

Quando retorna para casa, sente repulsa pela própria espécie, inclusive pela esposa e pelos filhos, e acaba se afastando deles. Compra cavalos (será que ele realmente aprendeu algo?), aos quais passa a se dedicar veementemente, como uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu.

Ao final, Gulliver afirma: 

"disse-lhe que tentaria preservar este meu Ser miserável; e que, se algum dia voltasse à Inglaterra, tinha alguma Esperança de ser útil à minha própria Espécie, louvando os renomados Houyhnhnms e propondo suas Virtudes como dignas de serem imitadas pela Humanidade".

Acredita-se que Swift tinha ódio pela humanidade, evidenciado, segundo artigo de Leonardo Poglia Vidal, pela forma como os acontecimentos que levam Gulliver a cada nova viagem tornam-se progressivamente mais graves. Primeiro, ele naufraga por acidente, depois é abandonado, atacado por estranhos e, finalmente, traído pela própria tripulação. Ao terminar suas aventuras, o protagonista retorna enojado com sua própria espécie. Esse autor, no entanto, também defende a leitura oposta: a de que Swift amava a humanidade e queria mostrar seus defeitos, o que seria, a seu ver, um ato de amor.

Comecei este texto dizendo que o livro, lá pelas tantas, me remeteu à Governança Corporativa. Porém, ao chegar ao fim da viagem de Gulliver, ficou claro que ainda não aprendemos nada sobre governança, tampouco sobre nosso lugar no mundo. O antropocentrismo, com sua colonização (de outros humanos e animais), exploração da natureza e transformação dos animais em objetos, mostra que o rigor que as companhias aplicam em suas estruturas institucionais é uma falácia e que ainda estamos longe de alcançar a serenidade e o senso de justiça dos Houyhnhnms.

Imagem que mostra Gulliver se despedindo dos Houyhnhnms

"Eu admirava a Força, a Beleza e a Celeridade dos Habitantes; e uma tal Constelação de Virtudes em Pessoas tão gentis produziu em mim a mais elevada Veneração. De início, é bem verdade, não sentia eu aquela Admiração natural que os Yahoos e todos os Animais lhes dedicam, porém o Sentimento brotou em mim gradualmente, muito mais cedo do que eu imaginava, combinado com um misto de Respeito, Amor e Gratidão, por eles condescenderem em me distinguir do resto da minha Espécie. Quando pensava na minha Família, nos meus Amigos, nos meus Compatriotas ou na Raça Humana em geral, via-os tal como eram, Yahoos quanto à Forma e à Disposição, apenas um pouco mais civilizados, e dotados da Fala, porém não fazendo outro uso da Razão que não o de aperfeiçoar e multiplicar aqueles Vícios dos quais os seus Irmãos naquele País só compartilhavam o quinhão que lhes concedia a Natureza. Quando via por acaso meu Reflexo num Lago ou Fonte, eu desviava o Olhar, presa de Horror e Ódio de mim mesmo, e era-me tão difícil suportar a visão de um Yahoo comum quanto a de mim mesmo."

Nenhum comentário:

Postar um comentário