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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

a livraria dos achados e perdidos


“Você nunca está sozinha quando está lendo um livro.”

Natalie está na festa que celebra, dentre outras coisas, sua promoção. Executiva bem-sucedida na indústria do vinho em plena Califórnia, ela se choca ao ouvir seus funcionários comentando sobre como é uma péssima gestora. Se não bastasse, seu noivo e sua mãe simplesmente não aparecem nesse encontro, para ela muito importante. Perdida, se pergunta se realmente está no lugar certo. Até porque, pensa, a despeito de ser considerada um chefe ruim, está sempre corrigindo o trabalho dos outros, antes deles serem enviados adiante. Ou seja, ela salva a pele de muita gente lá. Ingratos!

Mas seu mundo desmorona mesmo quando é informada do motivo que impediu a mãe e o noivo de prestigiarem seu reconhecimento profissional. Ambos morreram em um acidente de avião enquanto estavam a caminho do evento. Ela, então, retorna para sua casa de infância e para a livraria que acaba de herdar. Lá mora também seu avô, que está bem doente. Aos poucos, descobre que a mãe estava atolada em dívidas e que eles podem perder a livraria, cujo valor sentimental é inestimável. Natalie se vê, então, obrigada a tomar uma decisão: voltar ao trabalho de executiva ou assumir a missão de recuperar a livraria e cuidar do avô. Óbvio qual será a escolha. 

No meio do caminho, surge Peach e um novo romance. Sobre os achados e perdidos do título, nada demais. Esperava mais. Romance fraquinho, fraquinho. Valeu por apresentar uma livraria que mora nos meus sonhos e que transmite todo o amor pela literatura. Fiquei com vontade de comer os pãezinhos de canela com um cafezinho, sempre presentes nos encontros dos personagens.

sábado, 23 de outubro de 2021

big little lies


“Se exibisse no Facebook como sua vida era perfeita, talvez também começasse a acreditar.”


E, na sequência, de "O segredo do meu marido", emendei a leitura de "Pequenas grandes mentiras", que virou série de TV, "Big little lies", no título original, em inglês. Mas, ao contrário do livro que se passa na Austrália, a versão televisiva tem como cenário os Estados Unidos, especificamente a Califórnia. Tirando este "pequeno" detalhe, é bem fiel ao romance.

Encontrei os elementos do livro anterior de Liane, como a mesma escola, que parece (des)unir todos, a necessidade de adaptação ao estilo das mães que já fazem parte do circuito e também três protagonistas: 1) Madeline, tem três filhos, totalmente extrovertida, toma a frente de todos os eventos escolares. Está no seu segundo casamento, mas ainda não engoliu o fora do primeiro marido, com quem teve a filha mais velha. Para piorar sua situação, a adolescente resolve ir morar com o pai e a madrasta, deixando-a furiosa. 2) Celeste, linda, mãe de gêmeos igualmente maravilhosos, bem casada e riquíssima. Melhor amiga de Madeline, mas ao contrário da outra, Celeste é bem reservada e parece estar sempre em outro mundo. 3) Jane, mãe jovem e solteira que acaba de chegar à cidade em que se passa a história. Seu filho, assim como os gêmeos e a caçula de Madeline, está prestes a entrar no ensino fundamental. Contudo, acaba sendo acusado de praticar bullying na aula de apresentação.

A narrativa é repleta de depoimentos, isto porque o mote principal é um assassinato que está sendo investigado. Em retrospecto, acompanhamos os movimentos que precederam a festa organizada para os pais, na qual um deles foi morto. Todos os participantes são intimados a depor. A partir dessas vozes, entendemos como é fútil o ambiente em que vivem, basicamente de aparências. São essas as pequenas grandes mentiras do título. O destaque, porém, é a forma com que a autora aborda a violência contra as mulheres: uma numa relação casual, outra dentro do casamento e a terceira sob o olhar de quem cresceu vendo o pai espancar a mãe. Todas com traumas, cicatrizes, vergonha e medo de denunciar o agressor. Mais uma vez, a mentira e a fuga parecem a melhor opção das mulheres que não querem aceitar que estão em um relacionamento abusivo. Enquanto isso, as marcas insistem em aparecer sem que ninguém possa ajudá-las. Vale muito a leitura! Principalmente para você, que possa estar passando por uma situação parecida. Quem sabe não seja o apoio que precisa para se libertar.

domingo, 17 de outubro de 2021

o segredo do meu marido

=

"Você podia se esforçar o quanto quisesse para tentar imaginar a tragédia de outra pessoa — afogar-se em águas congelantes, viver numa cidade dividida por um muro —, mas nada dói de verdade até acontecer com você. Pior ainda, com seu filho."


Nada tinha me preparado para o final de “O Segredo do meu marido”, da australiana Liane Moriarty.
O segredo do tal marido é apenas um dos pontos centrais do romance, recheado de meias verdades. A narrativa começa com Cecília a conjecturar sobre o quanto a queda do Muro de Berlim pode ter mudado sua vida. Até pensei que poderíamos adentrar, de algum modo, na Guerra Fria. No entanto, passou bem longe. Ela mora em Sidney, é extremamente metódica, organizada, consegue fazer seu tempo esticar à medida que assume cada vez mais responsabilidades. Sua rotina, porém, é colocada em cheque com uma descoberta. Ao procurar em seu sótão um suposto pedaço do muro de Berlim (daí seus pensamentos), lembrança de uma viagem, Cecília encontra uma carta do marido endereçada a ela: para abrir somente quando eu morrer, dizia o envelope lacrado. É óbvio que ela ficou extremamente curiosa. Ao mesmo tempo, não queria trair o companheiro. Pensamento vai, pensamento vem, ela acaba comentando com ele sobre a carta. O comportamento totalmente desproporcional do cara a deixa ainda mais intrigada. Pronto. Ela abre e daí tudo muda. O segredo do título realmente é algo horroroso e inaceitável. 

Enquanto isso, temos Tess, que mora em Melbourne e está levando o fora do marido. O pior é que o motivo é sua prima e melhor amiga. Os dois estavam apaixonados. Ela pega o filhinho de seis anos, larga os trabalhos da empresa que os três têm juntos (sim, além de tudo, sócios) e parte para a casa da mãe, em Sidney. Nessa cidade, há ainda Rachel, que está lidando com a iminente separação do seu neto. A nora foi convidada a trabalhar em Nova York, levando junto o filho e o netinho de dois anos, sua companhia e motivo das poucas alegrias. Ela teve, no passado, uma perda muito grande que jamais será superada. Apesar de estarmos numa cidade com mais de cinco milhões de habitantes, eu me senti lendo uma história que se passa em um vilarejo aonde todos se conhecem e se conectam. Na verdade, o que vai unir todas as personagens é o bairro em que mora e, especificamente, a escola em que estudaram e na qual Rachel, hoje, trabalha. De um jeito ou de outro, as vidas das três se entrelaçam, de tal modo que a ação de uma impacta nas outras. Leitura rápida e interessante. O posfácio traz a consequência de nossas escolhas e como elas podem mudar tudo ao redor. Ignorar uma criança te chamando é uma delas. Não precisava, Liane.

sábado, 25 de setembro de 2021

sobre os ossos dos mortos


"Tudo em que se pode crer é uma imagem da verdade."


"Sobre os ossos dos mortos", da escritora polonesa Olga Tokarczuk, reforça todos os estereótipos em torno dos protetores dos animais. Estigmas que impedem o avanço da causa e, consequentemente, o fim dos maus-tratos. Estamos falando da ideia de que os que defendem os bichos são descontrolados, loucos (sim, podemos ser diante dos absurdos com que nos deparamos) e sem propósitos (isso jamais!). E que deveriam se dedicar a milhares de outras causas humanas em vez de prejudicar quem depende, por exemplo, do abate (argumento bem comum dos que não se preocupam com causa alguma). Bem, sei que fui ao extremo, pois nem todos pensam assim dos que lutam pelos direitos dos bichos. Mas fiquei incomodada com a forma com que a protagonista, Janina Dusheiko, foi retratada, especialmente no desfecho.

Estamos no inverno congelante em um vilarejo polonês. Lá, durante este período do ano, as pessoas fecham as casas e partem para outras localidades com temperaturas mais elevadas. Com exceção da Sra. Dusheiko, como é conhecida, e alguns outros poucos moradores. Engenheira aposentada, responsável pela construção de grandes pontes, e atual professora de inglês, ela tem como paixão a astrologia e como grande causa a defesa dos animais, que são caçados deliberadamente e ilegalmente naquela região. Também se debruça na obra de William Blake com um antigo aluno que estuda o poeta. Como renda, além das aulas, tem o dinheiro que recebe por cuidar das propriedades que ficam vazias nos dias mais congelantes. Ainda que frio piore suas dores, espalhadas por todo o corpo, ela não pode deixar seu posto, pois tem a missão de zelar, mais que pelas casas, pelos animais.

A narrativa começa com seu vizinho, Esquisito (ela não nomeia ninguém, todos são apelidados de acordo com suas características físicas, aliás, ela odeia seu próprio nome: Janina), batendo fortemente em sua porta no meio da madrugada. Ele havia encontrado outro morador da região, o Pé Grande, morto. Aparentemente, a causa da morte foi o engasgo com ossos do animal que acabara de comer. A sra. Dusheiko, porém, tem outra teoria: vingança das corças. O olhar intimidador que uma delas lança quando os dois se aproximam da casa da vítima é o primeiro indício de que há algo acontecendo. A partir daí, outras mortes vão corroborar para a teoria da nossa protetora, principalmente porque todos que foram assassinados tiveram envolvimento com os maus-tratos dos bichos. Ela vai à polícia e é ignorada, tenta desvendar os enigmas sozinha e sempre é tida como desvairada. Alguns chegam a ter pena da forma com que vive. Um fato importante é que ela perdeu seus dois cachorros logo no começo da história, suas amadas crianças. Isso é bem triste, principalmente quando ela encontra uma foto na casa de Pé Grande em que ele está com outras pessoas exibindo alguns animais que foram caçados. A partir daí só posso dizer que estou com a Dusheiko, mesmo que para o mundo trata-se de uma causa perdida. Mas entendo que Olga Tokarczuk, talvez a Senhora Cinzenta do romance (sim, a autora dá seu ar de graça ao ir morar nos confins da Polônia ao lado da protagonista), poderia ter dado mais chances ao fantástico, ao inusitado, não caindo no que todos esperam que seja a atitude dos que lutam sozinhos para mudar o que os incomoda. A adaptação para o cinema, Pokot, é ainda mais triste neste sentido. Enquanto isso, lutemos para que o especismo deixe de existir e para que os direitos dos animais sejam devidamente respeitados. Caso contrário, sigo torcendo pela vingança que, no fim, não aconteceu como eu esperava. Em determinado momento, um dos personagens canta Riders on the storm, do The Doors. Janina diz que é a trilha perfeita para aquela noite de tempestades. Eu digo que é a música que melhor define o cenário do romance: escuro, frio, assustador.


Riders on the storm

Riders on the storm

Into this house, we're born

Into this world, we're thrown

Like a dog without a bone

An actor out on loan

Riders on the storm



"É preciso manter os olhos e ouvidos abertos, associar os fatos, enxergar a semelhança lá onde outros veem uma completa discrepância, lembrar que certos acontecimentos ocorrem em vários níveis ou, em outras palavras: muitos incidentes são aspectos do mesmo acontecimento. E que o mundo é uma grande rede, é um todo único, e não existe nada que esteja isolado."

sábado, 4 de setembro de 2021

o segredo da felicidade


"Às vezes a visão de mundo simplista de uma criança era definitivamente melhor que a maneira como os adultos tratavam as coisas, complicando a vida com tantas nuances e camadas, turvando as águas com dúvidas e mágoas do passado."

Livro gostoso com mensagem bonita no final. Bom para ler durante uma viagem ou quando queremos simplesmente nos desligar do mundo. “O segredo da felicidade”, de Lucy Diamond, se passa numa cidadezinha do norte da Inglaterra, onde todos se conhecem e se intrometem na vida dos vizinhos. Lá vive Rachel, executiva bem-sucedida, casada, com três filhos e uma super casa de revista de decoração. Mas tudo desmorona, inclusive ela, que cai durante um assalto e vai parar no hospital, em outra cidade, sem se lembrar quem é e de onde veio. Caberá à filha de sua madrasta, Becca, resgatá-la. As duas nunca foram próximas, embora tenham vivido juntas na mesma casa por muitos anos. Sempre houve certo ressentimento de Rachel por ver Becca entrar na sua casa e ver seu pai a assumindo como filha também. O fato é que Becca é o oposto da irmã postiça: não tem emprego fixo, sente-se inferior a todos, desiludida no amor, mas tem um carinho grande pelos sobrinhos e por eles volta correndo para entender o que está acontecendo com Rachel e sua família. A partir daí, ambas vão revelando suas angústias, medos e conhecendo pessoas que farão com que vejam, literalmente, o lado bom da vida. Becca também será responsável por várias conexões interessantes entre outros personagens. Fiquei com vontade de correr no parque apresentado na história ;-)

sexta-feira, 4 de junho de 2021

o medo ao pequeno número


"Maiorias numéricas podem se tornar predatórias e etnocidas em relação aos pequenos números precisamente quando algumas minorias (e seus pequenos números) lembram àquelas maiorias a pequena brecha que existe entre sua condição de maiorias e o horizonte de um todo nacional imaculado, um ethnos nacional puro e limpo. Essa sensação de incompletude pode levar maiorias a paroxismos de violência contra minorias."


Em "O medo ao pequeno número", o antropólogo indiano Arjun Appadurai se debruça sobre os motivos que levam à repressão crescente às minorias, sendo que, para ele, o principal é o risco de que interesses especiais comprometam os interesses gerais. Afinal, é muito mais fácil dialogar, negociar e fazer planos quando todos estão "alinhados''. Não é à toa que o mundo corporativo prega a resiliência, palavra da moda que, no fundo, pede a adaptação à cultura organizacional e ao perfil de empregados que as empresas buscam. O mesmo vale para as nações. As minorias mostram a incompletude da pureza nacional, a incerteza social e, consequentemente, levam ao ódio. Tanto de um lado, quanto do outro.

O autor trabalha o conceito de identidades predatórias, ou seja, que não aceitam a existência de outro grupo. Elas partem do discurso de que podem virar minoria se o grupo, hoje menor, não for eliminado. Um exemplo é o projeto nazista.

"A própria ideia de ser uma maioria representa uma frustração, uma vez que implica algum tipo de difusão étnica no povo nacional. As minorias, como lembra esse defeito pequeno porém frustrante, desencadeiam a ânsia de purificar. Esse é um elemento básico de uma resposta para a pergunta: por que os pequenos números conseguem incitar a fúria? Os pequenos números representam um obstáculo muito pequeno entre a maioria e a totalidade ou a total pureza. Num certo sentido, quanto menor o número e mais fraca a minoria, mais profunda é a fúria em relação a sua capacidade de fazer que a maioria se sinta como um mera maioria e não como um ethnos inteiro e incontestável."

O resultado são atos violentos, como os ataques de 11 de setembro, organizados em redes nas quais a hierarquia é, de certo modo, invisível, algo que o autor chama de movimento celular. Ao contrário das estruturas vertebradas às quais estávamos acostumados, e que foi a utilizada pelos Estados Unidos para o contra ataque ao Talibã, Bin Laden e Afeganistão.

Este livro dá sequência ao estudo que Appadurai iniciou, em 1989, sobre a globalização e que culminou com o livro Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization, lançado sete anos depois. Contudo, faltava abordar os aspectos mais sombrios dessa expansão econômica, política e cultural. Seus primeiros rascunhos para a nova pesquisa começaram em 1998 e foram até 2004, e compreendem dois tipos principais de violência. A primeira trata da década de 90, após a queda do muro de Berlim. O autor questiona por que formas extremas de violência política e limpeza étnica coincidiram com a abertura de mercado e o crescimento de direitos humanos.

"Somos forçados, portanto, a responder a pergunta sobre por que os anos 1990, período que agora chamamos de "alta globalização", são também o período de uma violência em grande escala num amplo leque de sociedades e regimes políticos. Com referência à alta globalização (com mais do que um aceno na direção do alto modernismo), assinalo um conjunto de possibilidades e projetos utópicos que varreram muitos países, estados e esferas públicas depois do fim da Guerra Fria."

Havia uma dupla pressão: a abertura dos mercados ao capital estrangeiro e o gerenciamento das minorias que reivindicavam seus direitos. Para Appadurai, outro estopim para conflitos ligados à soberania nacional, que foram responsáveis pelo aumento do racismo em diversos países, como Suécia, Indonésia, Romênia, Ruanda e Índia

Já o segundo modo de violência vem sob o título "guerra ao terror", que teve início com os ataques ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, na Virginia, em 2001. 

"Vivemos agora num mundo articulado de modo diferente pelos estados e pela mídia, em diferentes contextos nacionais e regionais, em que o medo frequentemente parece ser a fonte e o fundamento para campanhas intensas de violência grupal, que vão de distúrbios civis até extensos pogroms."

Mas Appadurai nos dá esperança com o que ele chama de globalização de raiz, que se utiliza desta rede, portanto celular, para conectar ativistas de direitos humanos, de igualdade de gêneros, voltados ao auxílio emergencial, dentre tantos outros que, organizados transnacionalmente e de forma não estatal, vêm mudando alguns cenários pelo mundo. É algo ainda utópico, mas que, em suas palavras, "pode contrabalançar a tendência mundial ao etnocídio e ao ideocídio." Na verdade, o que precisa ser feito é usar os recursos disponíveis, e que já são utilizados, para o bem, para a verdade e para a justiça social.


Trechos

"O que acontece, portanto, com as minorias que parecem atrair novas formas e escalas de violência em muitas partes diferentes do mundo? O primeiro passo para uma resposta é que tanto minorias quanto maiorias são produtos de um mundo visivelmente moderno de estatísticas, censos, mapas populacionais e outros instrumentos de estado criados principalmente a partir do século XVII. Minorias e maiorias emergem explicitamente do processo de desenvolver ideias de números, representação e direito de voto em lugares afetados pelas revoluções democráticas do século XVIII, incluindo espaços-satélites no mundo colonial."

"Voltando à sempre frágil ideia de um mundo de economias nacionais, podemos caracterizar a atual era de globalização - impulsionada pelos tríplices motores do capital especulativo, dos novos instrumentos financeiros e das tecnologias de informação altamente velozes - como aquela que cria novas tensões entre a necessidade desenfreada que tem o capital global de vagar sem licença ou limite e a fantasia ainda reinante de que o estado-nação garante um espaço econômico soberano."

sábado, 8 de maio de 2021

necropolítica



"A soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é 'descartável' e quem não é."

Ailton Krenak, em "Ideias para adiar o fim do mundo'', comenta que a humanidade é dividida em duas, uma "bacana" e outra mais bruta, rústica. A mesma observação é feita pela filósofa Sueli Carneiro, ao falar sobre a escravidão no Brasil e as consequências da falta de medidas sociais voltadas aos recém-libertados após a abolição. Em textos publicados no Correio Braziliense na última década, Carneiro também enfatiza a ideia de que alguns humanos são mais humanos que outros, o que, evidentemente, traz a desigualdade social de direitos, intensificada, principalmente, pelo racismo científico do século XIX, que criou uma suposta hierarquia entre as raças. O que, de certo modo, vai ao encontro do conceito de necropolítica, estipulado pelo filósofo e pensador político Achille Mbembe. Tendo como base a obra de Michel Foucault que trata sobre biopoder, Mbembe estabelece a teoria que a humanidade deliberadamente decide, com base no poder e na soberania, quem deve ou não morrer. Quem presta e quem é descartável. Esse controle implica na divisão humana em subgrupos, raças e, obviamente, no racismo. Exemplos não faltam em seu ensaio "Necropolítica", como o terror praticado pelo nazismo, a faixa de Gaza e as condições precárias nas quais os seus habitantes foram colocados.

E o mesmo aconteceu com os escravos brasileiros ao serem libertados. Eles foram marginalizados. Vale recordar que eles chegaram aqui com uma tripla perda: lar, direitos sobre o corpo e estatuto político, como apontou Mbembe. Há uma história e uma dívida a ser paga. Por muito tempo, coube ao branco ocidental criar teorias para mostrar sua versão da história, desmerecendo todas suas contribuições para nossa cultura.

"Como instrumento de trabalho, o escravo tem um preço. Como propriedade, tem um valor. Seu trabalho responde a uma necessidade e é utilizado. O escravo, por conseguinte, é mantido vivo, mas em 'estado de injúria', em um mundo espectral de horrores, crueldade e profanidade intensos. O curso violento da vida de escravo se manifesta pela disposição de seu capataz em se comportar de forma cruel e descontrolada ou no espetáculo de sofrimentos impostos ao corpo de escravo. Violência, aqui, torna-se um componente de etiqueta, como dar chicotadas ou tirar a vida do escravo: um capricho ou um ato de pura destruição visando incutir o terror."

Os efeitos da escravidão e do colonialismo ainda estão presentes em diversos países. O principal deles é o racismo, considerado um elemento de controle nas relações de poder. É a política da morte. O Estado, que tinha por obrigação proteger seus cidadãos, é o primeiro a ditar quem deve morrer e quem deve viver. Mais que isso, quem deve ficar permanentemente entre a vida e a morte. A necropolítica trata dos "mortos-vivos", situação na qual estão milhares de pessoas, como os refugiados que vagam no mar em busca de abrigo em países no qual serão hostilizados. "Sob o necropoder, as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, martírio e liberdade desaparecem."


Trechos

"Que a “raça” (ou, na verdade, o “racismo”) tenha um lugar proeminente na racionalidade própria do biopoder é inteiramente justificável. Afinal de contas, mais do que o pensamento de classe (a ideologia que define história como uma luta econômica de classes), a raça foi a sombra sempre presente sobre o pensamento e a prática das polí- ticas do Ocidente, especialmente quando se trata de imaginar a desumanidade de povos estrangeiros – ou dominá-los."

"Este novo momento é o da mobilidade global. Uma de suas principais características é que as operações militares e o exercício do direito de matar já não constituem o único monopólio dos Estados, e o “exército regular” já não é o único meio de executar essas funções. A afirmação de uma autoridade suprema em um determinado espaço político não se dá facilmente. Em vez disso, emerge um mosaico de direitos de governar incompletos e sobrepostos, disfarçados e emaranhados, nos quais sobejam diferentes instâncias jurídicas de facto geograficamente entrelaçadas, e nas quais abundam fidelidades plurais, suseranias assimétricas e enclaves. Nessa organização heterônima de direitos territoriais e reivindicações, faz pouco sentido insistir na distinção entre os campos políticos “interno” e “externo”, separados por limites claramente demarcados."

"Se observarmos a partir da perspectiva da escravidão ou da ocupação colonial, morte e liberdade estão irrevogavelmente entrelaçadas. Como já vimos, o terror é uma característica que define tanto os Estados escravistas quanto os regimes coloniais tardo-modernos. Ambos os regimes são também instâncias e experiências específicas de ausência de liberdade. Viver sob a ocupação tardo-moderna é experimentar uma condição permanente de “estar na dor”: estruturas fortificadas, postos militares e bloqueios de estradas em todo lugar; construções que trazem à tona memórias dolorosas de humilhação, interrogatórios e espancamentos; toques de recolher que aprisionam centenas de milhares de pessoas em suas casas apertadas todas as noites desde o anoitecer ao amanhecer; soldados patrulhando as ruas escuras, assustados pelas próprias sombras; crianças cegadas por balas de borracha; pais humilhados e espancados na frente de suas famílias; soldados urinando nas cercas, atirando nos tanques de água dos telhados só por diversão, repetindo slogans ofensivos, batendo nas portas frágeis de lata para assustar as crianças, confiscando papéis ou despejando lixo no meio de um bairro residencial; guardas de fronteira chutando uma banca de legumes ou fechando fronteiras sem motivo algum; ossos quebrados; tiroteios e fatalidades – um certo tipo de loucura."

sábado, 1 de maio de 2021

ideias para adiar o fim do mundo



“Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.”



Ailton Krenak, em "Ideias para adiar o fim do mundo'', comenta que a humanidade é dividida em duas, uma "bacana" e outra mais bruta, rústica. Especialmente quando ele diz que os seres humanos não são os únicos com perspectivas sobre a existência. Para ele, quando tiramos o sentido das montanhas, florestas, rios, colocando-os como atributos à disposição do ser humano, estamos abrindo caminho para o extrativismo e a atividade predominantemente industrial. E quando ele fala "ser humano" se refere ao branco europeu, que se sentiu no direito de colonizar o resto do mundo sob a premissa de que eles eram a humanidade esclarecida e precisavam "ajudar" os mais obscuros, os selvagens. E é esse pensamento baseado no antropocentrismo que vem provocando sofrimentos tantos aos considerados "menos humanos" quanto aos animais e a própria natureza.

“A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível.”

Isso vale para os indígenas, inclusive, que são tidos como selvagens. Suas crenças e costumes são minimizados e considerados apenas folclore e lenda.

"No Equador, na Colômbia, em algumas dessas regiões dos Andes, você encontra lugares onde as montanhas formam casais. Tem mãe, pai, filho, tem uma família de montanhas que troca afeto, faz trocas. E as pessoas que vivem nesses vales fazem festas para essas montanhas, dão comida, dão presentes, ganham presentes das montanhas. Por que essas narrativas não nos entusiasmam? Por que elas vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante, superficial, que quer contar a mesma história para a gente?"

Esta é a batalha diária de Krenak, uma das principais lideranças indígenas. Ainda hoje os índios precisam lidar com a destruição e ocupação de seus espaços. Vale ressaltar: as pouquíssimas terras que ainda possuem.

"Ideais para adiar o fim do mundo" é resultado de duas palestras que deu, com certa relutância, em Portugal, os grandes colonizadores dos povos que habitavam o Brasil antes da "descoberta". O título, porém, veio antes. Como o próprio autor diz, foi criado de improviso para uma palestra na Universidade de Brasília sobre desenvolvimento sustentável.

"Estar com aquela turma me fez refletir sobre o mito da sustentabilidade, inventado pelas corporações para justificar o assalto que fazem à nossa ideia de natureza. Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso - enquanto seu lobo não vem -, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmo é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza."

O trecho acima resume bem o contexto do pensamento de Krenak e sua principal crítica. Há tempos o ser humano deixou de pensar a natureza como algo da qual faz parte. Ela existe apenas para nos servir, para saciar nosso consumo desenfreado. Inclusive no turismo e entretenimento. "Não tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis, babando." Aqui eu trago a voz dele para falar sobre os animais e o desrespeito que rege nossa relação com eles: ora mascotes, ora alimentos, ora vestuários, ora cobaias, ora diversão e sempre, sempre à mercê de nossas escolhas. Esquecemos que eles são seres sencientes e que padecem a cada novo prato que saboreamos, por exemplo.

Os índios veem a natureza como algo sagrado, como sua própria família. Algumas etnias nem tem esta palavra em seu vocabulário, tamanha a conexão. Isto não quer dizer que deixem de usar os animais como alimento, vestuário, como ritual. Mas essa é outra discussão. Porém uma coisa é certa: não há exploração, não há animais confinados em jaulas apertadas sendo transportados sob sol escaldante ou chuva. Não há animais presos em zoológicos para serem apreciados por crianças e adultos. Há o respeito e o instinto de preservação. Coisa distante da dita civilização.

"O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto o prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim."

sexta-feira, 30 de abril de 2021

racismo, sexismo e desigualdade no brasil



"Certos humanos são mais ou menos humanos do que outros, o que, consequentemente, leva à naturalização da desigualdade de direitos."


"Racismo, Sexismo e Desigualdade" é uma coletânea de textos publicados na imprensa brasileira entre os anos 1999 e 2010 pela filósofa Sueli Carneiro. Ativista dos movimentos feminista e negro do Brasil, ela aborda nesses artigos questões de raça, gênero e direitos humanos. Por meio de dados estatísticos e exemplos, traz à tona, principalmente, o movimento antirracista que impera no Brasil. O discurso que somos uma país acolhedor e com direitos iguais esconde, na verdade, a discriminação real presente no cotidiano.

Carneiro também enfatiza a ideia de que alguns humanos são mais humanos que outros, o que, evidentemente, traz a desigualdade social de direitos, intensificada pelo racismo científico do século XIX, que criou uma suposta hierarquia entre as raças. Muito disso consequência da escravidão e da falta de medidas sociais voltadas aos recém-libertados após a abolição.

"Uma das heranças da escravidão foi o racismo científico do século XIX, que dotou de suposta cientificidade a divisão da humanidade em raças e estabeleceu hierarquia entre elas, conferindo-lhes estatuto de superioridade ou inferioridade naturais. Dessas ideias decorreram e se reproduzem as conhecidas desigualdades sociais que vêm sendo amplamente divulgadas nos últimos anos no Brasil."

Em um dos primeiros textos, a autora mostra as disparidades nos Índices de Desenvolvimento Humano entre brancos e negros, o que evidencia que a pobreza tem cor por aqui. Enquanto os brancos apresentam padrões compatíveis com a Bélgica, por exemplo, os negros apresentam índices inferiores a inúmeros países em desenvolvimento, como a África do Sul, que erradicou o regime do apartheid há apenas algumas décadas. E o racismo se sobressai ainda mais quando um negro é "bem-sucedido". Porque se um pode, os demais não chegaram lá porque não se esforçaram demasiadamente. Esta afirmação é sempre utilizada por aqueles que jamais sentiram a discriminação por conta da cor da pele e que parte de seu contexto social para justificar políticas que não são iguais para todos.

A filósofa, professora, antropóloga e escritora Lélia Gonzalez fala com muita propriedade sobre isso. Segundo ela, o negro sempre foi infantilizado, seus erros gramaticais ironizados. Para a mulher preta é ainda pior. Ela própria, por várias vezes, foi "convidada" a entrar pela entrada de serviço em seu próprio prédio. O único momento em que o negro se sobressai é no Carnaval. Lá, a preta deixa de ser a doméstica para ser a mulata admirada. E Gonzalez vai mais a fundo dizendo que tudo isso é forçado a ser considerado normal, afinal, preto é irresponsável, é infantil, é incompetente, é preguiçoso. Imagem que permeia o imaginário e levado às crianças, criando um círculo sem fim.

Desqualificar e criminalizar movimentos sociais é uma prática corriqueira no Brasil, principalmente quando o tema é, paradoxalmente, a defesa da democracia e princípios de igualdade. Sueli Carneiro fala de um novo tipo de ativismo: antirracismo amparado na negação do racismo existente o qual convergem estratégias tanto de direita quanto de esquerda.

Embora os textos de seu livro sejam de 2010 para trás, são bem atuais e traduzem o que segue acontecendo. O que temos, por enquanto, são discursos, como o feito por Fernando Henrique Cardoso em sua posse (1999) - primeira vez que um presidente declarou haver problemas raciais no País - e as consequentes leis e secretarias criadas no governo subsequente, o de Lula. Mas, na prática, as políticas não avançaram. Muito pelo contrário, hoje temos pessoas que ganham força ao ironizar o politicamente correto, incentivadas e apoiadas por grandes veículos de comunicação, como aponta Carneiro ao mostrar o desserviço prestado pela imprensa brasileira e seus principais representantes diante da proposta de sistema de cotas para negros e índios nas universidades. Sob a alegação de princípios filosóficos, no qual todos deveriam ter as mesmas oportunidades, trazem à tona o antirracismo, ou seja a negação de que há racismo no Brasil. Um exemplo é Ali Kamel, diretor executivo de jornalismo da Rede Globo, que publicou o livro "Não somos racistas". Na sua esteira, colunistas que associam movimentos de hip hop ao tráfico de drogas, desconsiderando a importância da música para a formação do jovem.

"Além de causar impacto na cena musical do país, o movimento hip-hop fez emergir lideranças juvenis que consideram o rap, o grafite e o break - tripé da cultura hip-hop - os veículos para que os jovens se mobilizem e reflitam sobre os temas que mais afligem seu cotidiano, como violência, drogas, exclusão social, exercício protegido da sexualidade, paternidade e maternidade responsáveis, discriminação racial."

Esses textos deveriam ser lidos por todos, sobretudo por aqueles que acreditam que é tudo mimimi. Por aqueles que partem de exemplos isolados (e escassos) para justificar que temos condições iguais para todos. Para aqueles que ignoram os problemas sociais. Infelizmente, essas pessoas jamais chegarão perto de enxergar além do seu círculo de referências. Temo dizer que estamos bem distantes, sobretudo após ler o capítulo que trata do racismo na educação infantil. Nenhuma criança deveria se sentir inferior por causa da cor. Mas isso acontece. E muito.

"Mais recentemente, diz-se que os negros brasileiros estão ficando muito melindrosos e vendo racismo em tudo. Afinal sempre toleraram sem problemas “essas brincadeiras” que, no máximo, podem ser consideradas de mau gosto, jamais racistas."

sexta-feira, 23 de abril de 2021

a caderneta de endereços vermelha



"Nada é tão perfeito quanto um amor perdido."


“A caderneta de endereços vermelha”, da sueca Sofia Lundberg nos faz sentir saudades de tempos que não passamos e também repensar nossas escolhas. O romance fala sobre Doris, uma mulher que está chegando aos cem anos, mora sozinha em Estocolmo, tem a saúde bem frágil e depende da atenção de cuidadoras, muitas frias e distantes, que não se preocupam com o que ela sente. A exceção é a mais recente, que parece ler os pensamentos de idosa e cujo apoio vai além das necessidades físicas. Sua empatia será essencial para o momento atual de nossa protagonista. Aliás, desejo que todos que dependam de cuidadores possam ter um como Sara.

Enfim, seu momento de descontração é quando conversa, por vídeo chamada, com a sobrinha-neta, que vive nos Estados Unidos. A agitação e o barulho da família de Jenny, que tem três filhos, é tudo o que ela também gostaria de ter.

“Jenny manda beijos com as duas mãos, faz um gesto de despedida e desliga a câmera. A tela, até recentemente tão cheia de vida e amor, fica escura. Como o silêncio pode ser tão avassalador?”

E assim seguem seus dias. Até que sofre uma queda ao tentar alcançar uma caixa de chocolates. Estamos diante de uma pessoa que passou por muitas perdas e desencontros, mas que também viveu grandes aventuras. Quando criança, ganhou do pai uma caderneta vermelha, na qual foi anotando o nome de todas as pessoas que passaram por sua vida. Afetos e desafetos. Ao olhar os nomes, se recorda do que a levou a colocá-los ali e essas histórias serão compartilhadas conosco. Aos poucos, vamos conhecendo sua trajetória, que teve passagens na França e nos Estados Unidos, além de ter ficado no meio da segunda guerra mundial.

Ela foi tirada bruscamente da infância com a morte do pai em um acidente de trabalho. Sua mãe não conseguiu sustentar as duas filhas pequenas e mandou Doris, que tinha apenas dez anos, mas era a mais velha, para trabalhar com uma família rica. A partir daí, ela conhece o mundo da moda, faz amigos, agarra-se às oportunidades que surgem, conhece e perde o amor. A catástrofe parece que sempre vai acompanhá-la e junto o sentimento de incompletude. Ao saber do acidente, Jenny corre para a Suécia. Lá, decide dar uma última chance de felicidade à tia-avó. Será que vai conseguir? Este é daqueles livros que dá uma aquecida no coração. O final me lembrou muito "A adorável loja de chocolate de Paris", de Jenny Colgan. Leiam :-)

Dizem que loucura e criatividade andam de mãos dadas. Que os mais criativos entre nós são os que chegam mais perto da melancolia, da tristeza e das neuroses obsessivas.


"Eu desejo tudo de bom para você — murmurou no meu ouvido. — Muito sol para iluminar os seus dias, com chuva suficiente para poder apreciar o sol. Muita alegria para expandir a sua alma, dores suficientes para conseguir apreciar os pequenos momentos de felicidade da vida. E muitos amigos para dizer adeus de tempos em tempos."

"Comecei pelos mais finos e segui adiante, um romance atrás do outro. Livros fantásticos que me ensinaram muito sobre a vida e o mundo. Estava tudo lá, reunido naquelas prateleiras de madeira. Europa, África, Ásia, América. Os países, os aromas, os ambientes, as culturas. E os povos. Vivendo em mundos tão diferentes, e ainda assim tão parecidos. Cheios de ansiedade, dúvidas, ódio e amor. Como todos nós."

"Essa pode ser uma das coisas mais degradantes a que se pode submeter alguém, não se importar com o que a pessoa pensa."

sábado, 10 de abril de 2021

o que é deficiência



"Ser cego é apenas uma das muitas formas corporais de estar no mundo. Mas, como qualquer estilo de vida, um cego necessita de condições sociais favoráveis para levar adiante seu modo de viver a vida."


A antropóloga Debora Diniz começa "O que é deficiência", da coleção Primeiros Passos falando sobre o escritor argentino Jorge Luis Borges, que ficou cego depois de adulto. Ela critica os que consideram que a inspiração do autor vem justamente do fato de ele não enxergar, o que poderia ser um estímulo à literatura, no caso dele. Mas não era exatamente assim que Borges via sua cegueira. Para ele, "a cegueira deve ser vista como um modo de vida: é um dos estilos de vida dos homens". E é justamente este pensamento que permeia a obra de Diniz, que traz uma ampla pesquisa sobre vários movimentos em prol de direitos de pessoas consideradas deficientes. Toda sua narrativa, porém, é para desmistificar o conceito de deficiência como anormalidade.

O primeiro capítulo fala do modelo social da deficiência, criado no Reino Unido a partir da iniciativa de Paul Hunt, sociólogo deficiente físico. Em uma carta enviada, em 1972, ao The Gardian ele ressalta a marginalidade com que vivem as pessoas com lesões físicas severas, "isoladas em instituições sem as menores condições, onde suas ideias são ignoradas, onde estão sujeitas ao autoritarismo e, comumente, a cruéis regimes". Sua proposta era formar um grupo de deficientes disposto a provar que "a experiência da deficiência não era resultado de suas lesões, mas do ambiente social hostil à diversidade física." Surge, então, a Liga dos Lesados Físicos contra a Segregação (Upias), a primeira organização formada e administrada exclusivamente por deficientes.

A partir daí, a deficiência passou a ser vista como opressão social, exatamente da mesma maneira que vivenciavam outros grupos minoritários. Em seguida, Diniz aborda os estudos sobre deficiência no meio acadêmico, que partiram justamente das referências bibliográficas dos teóricos do modelo social. O marco foi a criação de um curso à distância pela Universidade Aberta (Open University), também no Reino Unido, em 1975. A efetiva estruturação acadêmica dos estudos sobre deficiência veio oito anos depois com o livro "Serviço Social com deficientes", de Michael Oliver, um dos cabeças da Upias.

O próximo passo foi a revisão do modelo médico. Em 1980, a Organização Mundial da Saúde publicou a Classificação Internacional de Lesão, Deficiência e Handicap (ICIDH), tentativa de sistematizar a linguagem biomédica relativa a lesões e deficiências. Ocorre que a elaboração deste documento ignorou o trabalho dos teóricos desse modelo, sendo considerado um retrocesso de tudo que havia sido construído nesse campo. Contudo, permitiu a abertura de discussões e união de esforços para "comprovar as debilidades do vocabulário proposto pela OMS". A revisão da ICIDH com o olhar de quem vivencia a deficiência só aconteceria dez anos depois.

Esta primeira geração de teóricos tinha dois grandes objetivos que, de certa forma, foram cumpridos: aumentar a compreensão da deficiência para além do discurso médico e promover o olhar sociológico, evidenciando que a opressão pela deficiência era fruto dos ideais capitalistas. Partiam das seguintes afirmações:

"1. As desvantagens resultavam mais diretamente das barreiras que das lesões;

2. retiradas as barreiras, os deficientes seriam independentes. A premissa do modelo social era a da independência como um valor ético para a vida humano, e o principal impeditivo da independência dos deficientes eram as barreiras sociais, em especial as barreiras arquitetônicas e de transporte."

Coube à segunda geração acrescentar abordagens pós-modernas e de críticas feministas. Vale ressaltar que o modelo social era também pautado nos estudos de gênero e feminismo, uma vez que comparava o preconceito sofrido pelos deficientes com a desigualdade entre gêneros. "A analogia entre a opressão do corpo deficiente e o sexismo era um dos pilares que sustentavam a tese dos deficientes como minoria social. Assim como as mulheres eram oprimidas por causa do sexo, os deficientes eram oprimidos por causa do corpo com lesões - essa era uma aproximação argumentativa que facilitava a tarefa de dessencializar a desigualdade."

As feministas apontaram que os primeiros teóricos questionavam apenas a inclusão no mercado de trabalho, deixando de lado o cuidado. "Foram as feministas que introduziram o debate sobre as restrições intelectuais, sobre a ambiguidade da identidade deficiente em casos de lesões não aparentes e, o mais revolucionário e estrategicamente esquecido pelos teóricos do modelo social, sobre o papel das cuidadoras dos deficientes." Elas estenderam, ainda, o conceito de deficiência para o envelhecimento e doenças crônicas.

"A verdade é que a deficiência é mais do que um enigma: é um desconhecido erroneamente descrito como anormal, monstruoso ou trágico, mas que fará parte da trajetória de vida de todas as pessoas que experimentarem os benefícios da civilização. Com o crescente envelhecimento populacional, a categoria "deficiente"como expressão de uma "tragédia pessoal" perderá o sentido. Ser velho é experimentar o corpo deficiente. Ser velho é viver sob um ordenamento social que oprime o corpo deficiente."

Para Diniz, afirmar que a deficiência trata-se de um estilo de vida não é ingenuidade ou buscar algo intangível. A diferença é que este estilo de vida precisa a todo momento pedir para ser incluído, para ser aceito, para ser visto. Esta afirmação não tem a pretensão de igualar a deficiência a outros estilos de vida. Apenas ressalta que "o corpo não é simplesmente a fronteira física de nossos pensamentos. É por meio do corpo que se reclama o direito de estar no mundo."

domingo, 7 de março de 2021

a cachorra



"O comentário doeu em Damaris, mas ela ficou calada. Não valia a pena começar uma briga."



"A cachorra", da escritora colombiana Pilar Quintana tinha tudo para ser um excelente romance. Mas algo deu errado. Ele foi escrito durante o puerpério da autora. Enquanto amamentava, escrevia a história de Damaris, que se ressente muito por não ter tido filhos. A própria Quintana afirmou, em entrevista, que até os 39 anos não pensava em ser mãe. A vontade surgiu após o divórcio e, três anos depois, engravidou do novo parceiro. Contudo, sua protagonista não teve a mesma sorte. Na casa dos quarenta anos, ela se descreve velha, seca. É extremamente doloroso lidar com as crianças que a todo momento chegam ao mundo. Sentimos todo seu sofrimento ao longo da narrativa. Ela é casada com Rogelio, só que há tempos dormem em quartos separados. A situação em que vivem é extremamente precária, assim como a de todos no vilarejo.

"A tristeza cobriu Damaris e tudo — levantar-se da cama, preparar a comida, mastigar os alimentos — era um tremendo esforço para ela. Sentia que a vida era como a angra e que ela precisava atravessá-la caminhando com os pés enterrados no barro e a água até a cintura, sozinha, completamente só, em um corpo que não lhe dava filhos e só servia para quebrar coisas."

Quando criança, Damaris passou por um grande trauma e isso ela vai carregar por toda a vida. Talvez por este motivo sempre opta pelo silêncio, mesmo quando acredita ter razão. Para suprir a vontade de ser mãe, adota uma cachorra. O amor que sente pelo animal chama a atenção dos familiares e do marido, que não entendem tamanha devoção. A cachorra, porém, não retribuiu da maneira que Damaris esperava. É arredia e gosta da liberdade. Passa dias perdida pelo mundo, deixando sua "mãe" e os leitores aflitos. Até que volta grávida, despertando sentimentos até então represados na protagonista. A partir daí, eu quase não consegui ler. É de partir o coração. Pela cachorra.

"Damaris não suportava vê-la. Era uma tortura encontrá-la cada vez mais barriguda quando abria a porta do casebre. A cachorra se empenhava em estar sempre ali e em segui-la do casebre ao quiosque, do quiosque ao tanque e do tanque ao casebre… Damaris tentava espantá-la. “Xô”, dizia, “me deixe”, e certa vez até ensaiou erguer a mão como se fosse bater nela, mas a cachorra sequer se assustou, seguia indo atrás dela, lenta e pesada pelos filhos que levava em si."

Sei que a autora quis usar esta relação como uma metáfora para a agressividade materna, desmistificando o romantismo em torno deste papel. Mas não. Ela exagerou no antropocentrismo. Nem tudo gira em torno do ser humano, afinal.

Quem dera o final não pudesse ser este? "Ela viu os filhotes no dia seguinte, quando sentiu fome e teve que ir ao quiosque para preparar o almoço. Rogelio tinha improvisado uma cama com sua capa de chuva, e a cachorra estava dando de mamar. Eram quatro, diferentes um do outro e tão pequenos, cegos e indefesos quanto a cachorra era no dia em que Damaris a encontrou no bar de dona Elodia. Cheiravam a leite e Damaris não conseguiu resistir. Pegou um por um, aproximou-os do nariz para aspirar o aroma e os apertou contra o peito."

domingo, 28 de fevereiro de 2021

o jardim secreto



"Isso a fez pensar que era curioso perceber que uma pessoa parecia muito mais bonita ao sorrir."


Eu li "O jardim secreto", de Frances Hodgson Burnett, na hora errada. Talvez, se tivesse me debruçado sobre ele aos 12 ou 13 anos teria aproveitado muito mais a magia que o cerca.

O enredo é simples e encontrado em outras tantas ficções infanto-juvenis. Mary Lennox é uma criança mimada que não troca nem mesmo as roupas sozinha. Mora na Índia com os pais britânicos colonizadores. Eles pouco falam com ela e seus cuidados ficam sob responsabilidade dos empregados da casa. Até que um surto de cólera mata praticamente todos os habitantes da região. Sozinha, é mandada de volta à Inglaterra, onde passa a morar na casa de um tio viúvo, que é ainda mais distante. 

A casa é praticamente um castelo, cheio de quartos, empregados e jardins. Sem ter o que fazer, o passatempo é explorar os inúmeros cômodos, até que encontra algo que todos tentavam esconder: Colin, o primo doente e tão arrogante quanto ela. Aos poucos, acompanhamos o processo de transformação dos dois com a ajuda de Dickon, irmão de uma das camareiras do palacete. Sua família é o oposto do que jamais os dois primos haviam experimentado: são inúmeros irmãos, unidos e, apesar de bem pobres, vivem alegremente junto à natureza. É com Dickon que vão desbravar o tal jardim secreto do título. Trata-se de uma área externa da casa que foi fechada após a morte da mãe de Colin. Aquele era o espaço favorito dela, que se dedicava diariamente a cuidar das plantas e flores. Agora, é um local abandonado, cheio de ervas daninhas. Caberá ao trio sua recuperação e, à medida que as cores voltam a fazer parte do jardim, os corações e almas de Mary e Colin ganham outros propósitos. Destaque para a relação de amor e respeito de Dickon com os animais. Bonitinho. Vale conferir as versões para o cinema.

"─ Ele toca sua flauta, e eles ouvem. ─ explicou Mary. ─ Mas não chama isso de Mágica. Diz que é porque vive muito no pântano e conhece os jeitos dos animais. Diz que, às vezes, se sente como se fosse, ele próprio, um pássaro ou um coelho pois gosta deles. Acho que fez perguntas ao pintarroxo. Foi como se conversassem um com o outro em suaves trinados."

"Uma das coisas novas que as pessoas começaram a descobrir no último século foi que os pensamentos, apenas meros pensamentos, são tão poderosos quanto baterias elétricas, tão bons quanto o brilho do sol, ou tão cruéis para uma pessoa como veneno. Deixar um pensamento triste ou cruel entrar em sua mente é tão perigoso quanto deixar uma febre escarlate germinar em seu corpo. Se você permitir que ela fique lá depois que já se instalou, você pode nunca mais se livrar dela, se é que irá sobreviver."

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

david copperfield



"Seria impossível traçar uma a uma todas as fases dolorosas que atravessei na minha desgraça. Existem sonhos que só podem ser contados de modo indeciso e imperfeito; e quando quero recordar essa época da vida, parece-me que mergulho num desses sonhos indescritíveis."



"David Copperfield", de Charles Dickens, foi a melhor leitura que fiz nos últimos tempos. Foram mais de mil páginas devoradas em menos de um mês. Comecei a ler pouco antes do Natal e um pouco depois do ano novo já estava economizando as páginas, com saudades das personagens que tanto me cativaram. A começar pelo próprio Copperfield, passando por sua excêntrica tia, Betsey Trotwood, o amigo dela, Mr. Dick, Peggotty, a empregada que, de certo modo, assume o papel de sua mãe (as duas chamam-se Clara), e muitos outros que passaram pelo caminho do protagonista durante sua jornada.

A história começa pouco antes do seu nascimento. Seu pai morreu, deixando Clara, a mãe, grávida. No dia em que veio ao mundo, conhecemos Betsey, que chega com toda a sua agitação esperando a pequena Betsey nascer. Sim, ela tinha certeza que nasceria uma garota e que caberia a ela a guarda. Porém, quando o médico anuncia tratar-se de um menino, ela simplesmente pega suas coisas e vai embora, completamente decepcionada. Obviamente que não consegui traduzir o lado cômico deste capítulo. Tanto o médico quanto Clara tinham medo da tia. O que ela falava era uma ordem. Ao escrever este parágrafo, consigo visualizar as feições de ambos diante da tia temperamental. Mas, acreditem, é hilário.

Aliás, o humor está presente em toda narrativa, mesmo sendo um dramalhão. O que este menino vai sofrer não é brincadeira! Depois dos primeiros anos de sua vida, relativamente alegres com a mãe e Peggotty, o inferno chega junto com o padrasto. A mãe casa-se novamente e leva para casa não só o homem que seria o carrasco de David, mas também a cruel cunhada, que será uma das grandes responsáveis por boa parte do sofrimento do pequeno. Castigos, tapas e outras formas de repreensão passam a fazer parte de seu cotidiano. Secretamente, sonha com os dias em que tinha apenas a mãe e Peggy. Enquanto isso, a mãe engravida e, nitidamente, entra em depressão. Não consegue desafiar o marido e a cunhada e sofre, em silêncio, com a situação. O consolo de David são os dias em que passa na casa barco da família de Peggy e com a pequena Emily, sua primeira paixonite (outra que sofrerá muito, preparem-se). Mas o que era ruim fica pior. Ele é mandado para um colégio interno, um dos piores do mundo. Além do diretor que não presta, acaba se envolvendo com um amigo que só quer tirar proveito de suas boas intenções. Não demora muito e a mãe morre. Para não ter que lidar com os planos que o padrasto tinha para ele, foge. Começa, então, sua maratona de mais sofrência. Com apenas oito anos, atravessa a pé o país, passa fome, trabalha, envolve-se com trapaceiros até que reencontra a tia. E não acaba por aí. Tem muito mais história pela frente, muitas cenas emocionantes e até passagens que lembram um thriller. Foi o melhor romance de formação que já li e que, certamente, entrou para a lista dos meus livros favoritos da vida. Leiam. Além dos nomes que já citei, muitos outros vão lhe cativar. Aqui vocês também vão encontrar a passagem mais bonita da literatura: o capítulo "os emigrantes", um presente para a alma.

Tentei, mas não consegui assistir a nenhuma das versões cinematográficas. Apesar de todo o amor que tenho pelo cinema, acredito que nenhuma direção estará à altura do texto que li :-)


"O espetáculo que se me deparava era tão estranho, a obscuridade me parecia tamanha, tão limitado o espaço, que a princípio não pude notar coisa alguma; depois meus olhos foram se habituando àquelas sombras e eu me senti como num quadro de Van Ostade. Viam-se de permeio com as vagas, cordames e relingas do navio, redes, macas, caixas, canastras e barricas que constituíam a bagagem dos emigrantes; algumas lanternas clareavam a cena, e mais ao longe a pálida luz do dia penetrava por uma vigia. Os grupos se apertavam. Travavam-se novas amizades; velhos amigos se despediam; falava-se, ria-se, chorava-se, comia-se, bebia-se. Uns se ocupavam em arranjos, outros vogavam desolados. Havia crianças que começavam a experimentar a vida com oito dias apenas e velhos que pareciam ter apenas mais oito dias de vida. Naquele pequeno espaço tinham se achado meios e modos de acumular exemplares de todas as idades e estados."

sábado, 9 de janeiro de 2021

minha vida não tão perfeita




“Um dia minha vida vai ser tudo aquilo que eu posto no Instagram. Um dia ela vai ser!”


Está aí um romance que me apresentou uma nova forma de hospedagem, o glamping, espécie de acampamento de luxo. E se for como apresentado em “Minha vida não tão perfeita”, de Sophie Kinsella, eu topo. O cenário é o interior da Inglaterra, com todos os seus campos verdes e temperatura super refrescante. Leia-se: frio, frio!! Mas cá entre nós: até a cabana precisa ser glamourizada?

Embora o livro seja despretensioso, traz algo que permeia nossa vida: as aparências. As redes sociais acentuaram a necessidade das pessoas em mostrar um lado que não existe em suas vidas. Mas que almejam e que gostariam que fosse real. Basta um ângulo bacana para termos uma foto com apenas um pedacinho do nosso cotidiano, um recorte que vai iluminar nosso dia, nos garantindo, ao menos, algumas curtidas. O cenário verdadeiro é feio, bagunçado, sujo, mas desfocando aqui, colocando uma flor e um bom filtro temos a imagem perfeita. E é justamente isso que vamos postar.

A racionalidade neoliberalista que rege, mais que a economia, nosso comportamento, diz que não podemos ter nada menos que sucesso: profissional, vida pessoal, padrões de beleza, de consumo e, além de milhares de outras referências, que isso seja mostrado nas redes sociais. Afinal, algo só acontece se estiver em nosso perfil. Recomendo muito a leitura de um livro que nos mostra o desgaste mental desse comportamento: “A nova razão do mundo, dos franceses Pierre Dardot e Christian Laval. A leitura nos leva a refletir sobre como incorporamos, mesmo sem querer, os valores do neoliberalismo em nosso dia a dia. A lógica aplicada é a da concorrência a qualquer preço. Não importa o que seja feito, o importante é sempre sair na frente. E, claro, isso vale para as visualizações de tudo o que colocamos on-line.

Justamente por isso, nossa protagonista, cria uma vida paralela no Instagram. Sua vida real é uma pindaíba. Mora num quarto minúsculo, com uma rede acima da cama que serve de armário, atravessa todos os dias Londres em vagões lotados do metrô para chegar ao emprego, onde é colocada de escanteio pela equipe composta de panelinhas e chefes abusivos. Agora, nas redes sociais, joga fotos lindas de cafés (que não pode beber), de casas em tom pastel, da movimentação cultural da capital inglesa e tudo com aquela vibração de quem fez a escolha certa ao sair do interior para a Londres que sempre sonhou. Aliás, até muda seu nome, pois Kate parece pobre e sem estilo. Passa a assinar Cat Brenner.

“Tá bom, vou falar logo: eu vivo entrando em cafés caros à procura de fotos dignas de serem postadas no Instagram. Tem algum problema nisso? Não estou dizendo que bebi o chocolate quente. Estou falando que fiz assim: Olha, chocolate queeente! Se as pessoas acharam que era meu... Bom, aí é com elas.”

Enfim, Cat ou Katie, aos poucos, acaba vendo que não é a única a ter uma vida dupla. Por outro lado, é realmente persistente em relação à carreira. Ela é publicitária e está sempre tentando mostrar suas ideias para os diretores. Mesmo sendo constantemente ignorada, agarra-se a qualquer olhar que possa indicar que foi vista ou ouvida. Até que é demitida. Sem entender nada, volta para a casa do pai e da madrasta e lá se envolve com o novo negócio do casal: o tal do glamping. Apesar de parecer (e ser de fato) exagerado ter cabanas chiques, a ideia não é tão ruim e resgata a vida calma que um dia ela abandonou. O livro é divertido, nos oferece algumas horas de risos, leveza e até, na medida do possível, algumas reflexões sobre como lidamos com este universo das aparências. Mas é um chick-lit, portanto, há muitos clichês e final feliz. Será que de tanto imaginar, podemos mudar nossa realidade?