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sábado, 1 de maio de 2021

ideias para adiar o fim do mundo



“Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.”



Ailton Krenak, em "Ideias para adiar o fim do mundo'', comenta que a humanidade é dividida em duas, uma "bacana" e outra mais bruta, rústica. Especialmente quando ele diz que os seres humanos não são os únicos com perspectivas sobre a existência. Para ele, quando tiramos o sentido das montanhas, florestas, rios, colocando-os como atributos à disposição do ser humano, estamos abrindo caminho para o extrativismo e a atividade predominantemente industrial. E quando ele fala "ser humano" se refere ao branco europeu, que se sentiu no direito de colonizar o resto do mundo sob a premissa de que eles eram a humanidade esclarecida e precisavam "ajudar" os mais obscuros, os selvagens. E é esse pensamento baseado no antropocentrismo que vem provocando sofrimentos tantos aos considerados "menos humanos" quanto aos animais e a própria natureza.

“A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível.”

Isso vale para os indígenas, inclusive, que são tidos como selvagens. Suas crenças e costumes são minimizados e considerados apenas folclore e lenda.

"No Equador, na Colômbia, em algumas dessas regiões dos Andes, você encontra lugares onde as montanhas formam casais. Tem mãe, pai, filho, tem uma família de montanhas que troca afeto, faz trocas. E as pessoas que vivem nesses vales fazem festas para essas montanhas, dão comida, dão presentes, ganham presentes das montanhas. Por que essas narrativas não nos entusiasmam? Por que elas vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante, superficial, que quer contar a mesma história para a gente?"

Esta é a batalha diária de Krenak, uma das principais lideranças indígenas. Ainda hoje os índios precisam lidar com a destruição e ocupação de seus espaços. Vale ressaltar: as pouquíssimas terras que ainda possuem.

"Ideais para adiar o fim do mundo" é resultado de duas palestras que deu, com certa relutância, em Portugal, os grandes colonizadores dos povos que habitavam o Brasil antes da "descoberta". O título, porém, veio antes. Como o próprio autor diz, foi criado de improviso para uma palestra na Universidade de Brasília sobre desenvolvimento sustentável.

"Estar com aquela turma me fez refletir sobre o mito da sustentabilidade, inventado pelas corporações para justificar o assalto que fazem à nossa ideia de natureza. Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso - enquanto seu lobo não vem -, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmo é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza."

O trecho acima resume bem o contexto do pensamento de Krenak e sua principal crítica. Há tempos o ser humano deixou de pensar a natureza como algo da qual faz parte. Ela existe apenas para nos servir, para saciar nosso consumo desenfreado. Inclusive no turismo e entretenimento. "Não tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis, babando." Aqui eu trago a voz dele para falar sobre os animais e o desrespeito que rege nossa relação com eles: ora mascotes, ora alimentos, ora vestuários, ora cobaias, ora diversão e sempre, sempre à mercê de nossas escolhas. Esquecemos que eles são seres sencientes e que padecem a cada novo prato que saboreamos, por exemplo.

Os índios veem a natureza como algo sagrado, como sua própria família. Algumas etnias nem tem esta palavra em seu vocabulário, tamanha a conexão. Isto não quer dizer que deixem de usar os animais como alimento, vestuário, como ritual. Mas essa é outra discussão. Porém uma coisa é certa: não há exploração, não há animais confinados em jaulas apertadas sendo transportados sob sol escaldante ou chuva. Não há animais presos em zoológicos para serem apreciados por crianças e adultos. Há o respeito e o instinto de preservação. Coisa distante da dita civilização.

"O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto o prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim."

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