Alain de Botton sabe muito bem como escrever livros que tratam de temas universais e que trazem à tona nossas preocupações e angústias, como relacionamento, religião e carreira profissional. Já falei sobre dois de seus livros: “Movimento Romântico” e “Ensaio de Amor”, indicados para aqueles que sofrem por amor.
Suíço radicado na Inglaterra, Botton é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Londres. Seus livros misturam romance e ensaio. Ele geralmente conta uma história, que é interrompida para a abordagem filosófica do dilema apresentado. Outro ponto constante em suas obras, e que as tornam agradáveis, é a ironia. E é exatamente isso que faz com que “As Consolações da Filosofia” tenha um gostinho de quero mais. Ela nada mais é do que um guia prático para resolver problemas por meio de alguns pensadores. Leitura fácil, rápida e descontraída. Nada profunda, porém. Pode até ser que alguém afirme que a filosofia seja banalizada em seus livros. Mas pode ser, também, que eles sejam o convite que faltava para aqueles que já ouviram algo sobre Sócrates, Sêneca ou Nietzsche e nunca tiveram a coragem de encará-los.
Tópicos de “Consolações da Filosofia” e a forma com que o autor aborda os filósofos:
Consolação para a impopularidade e Sócrates, que foi condenado à morte pelo povo de Atenas por, além de não venerar os deuses da cidade, ainda introduzir novas formas de pensamento religioso.
“Mas o filósofo não havia se curvado perante a impopularidade e a condenação do Estado. Não se retratou ou abriu mão de suas ideias por ter sido alvo de reclamações. Além do mais, sua confiança havia se originado de uma fonte mais profunda do que a impetuosidade ou bravura leonina. Ela havia sido fundada na filosofia.”
Consolação para quando não se tem dinheiro e Epicuro, apreciador dos prazeres da carne.
“Na realidade, ele nada mais fez do que, depois de uma análise racional, chegar a conclusões surpreendentes sobre o que de fato tornava a vida agradável – e, felizmente para os que não dispunham de uma boa renda, parecia que os ingredientes essenciais do prazer, por mais impalpáveis que fossem, não eram muito dispendiosos.”
Consolação para a frustração e Sêneca, que foi preceptor de Nero por cinco anos, e por ele condenado à morte. Ao ver seus amigos e esposa inconsoláveis, disse:
“Onde está sua filosofia e o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos vêm incentivando uns aos outros a manter? Certamente ninguém ignorava que Nero era cruel. Depois de matar a mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e preceptor.”
Consolação para a inadequação e Montaigne, que nos compara aos animais, segundo ele, dotados de instinto muito mais apurado (e inteligente) que o nosso.
“Com suas tabuletas pintadas, Montaigne já havia delineado um tipo de filosofia que reconhecia o quanto todos nós estávamos muito longe de sermos as criaturas racionais e serenas que a grande maioria dos pensadores da Antiguidade acreditara que fôssemos. Éramos quase sempre histéricos e dementados, inquietos e vulgares; comparados conosco os animais eram, em muitos aspectos, modelos de sanidade e virtude – uma triste realidade sobre a qual a filosofia via-se obrigada a refletir, apesar de raramente o fazer.”
Consolação para um coração partido e Schopenhauer, um dos maiores pessimistas da história. Seu dilema: “o único erro inato é pensar que viemos ao mundo para sermos felizes. Enquanto insistimos neste engano, o mundo nos parece cheio de contradições.”
“Por que ele? Por que ela? Constitui um dos mistérios mais profundos do amor.”
“Schopenhauer não vida nada de enigmático nesta questão. Não dispomos da liberdade de nos apaixonar por todos porque não podemos gerar filhos saudáveis com todos. Nossa vontade de viver nos leva a procurar as pessoas que irão aumentar nossas chances de gerar uma prole inteligente e bonita e nos afasta daqueles que possam diminuir estas mesmas chances. O amor nada mais é do que a manifestação consciente da descoberta do pai ou da mãe ideal apontada pela vontade de viver.”
Consolação para as dificuldades e Nietzsche, um dos poucos filósofos a tratar do infortúnio e do pessimismo.
“Toda a vida é difícil; o que torna algumas vidas satisfatórias é a maneira de encarar o sofrimento. Todo o infortúnio é um indício vago de algo vai mal. Reverter ou não este prognóstico depende do grau de sagacidade e de determinação daquele que sofre.”
“Eliminar toda e qualquer raiz negativa significaria simultaneamente sufocar os elementos positivos que podem brotar desta mesma raiz e florescer em galho mais alto da planta.”
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
coração partido
Penso que todas as situações são propícias para uma boa leitura. Separei dois títulos para quem terminou recentemente um relacionamento e quer, tão somente, algo que mostre que a dor vai passar.
Melancia, de Marian Keyes
Aqui você vai chorar de rir - e não de tristeza - com as trapalhadas de Claire, que é abandonada pelo marido minutos após o nascimento da filha do casal. Sentindo-se gorda (o vestido que veste logo no início da trama faz com que ela pareça uma melancia), feia e rejeitada, ela enfrenta uma verdadeira viagem ao fundo do poço. De volta à casa dos pais na Irlanda, assume o papel de renegada e entrega-se à depressão, à bebida e ao confronto com a família. Contudo, tudo isso ainda é muito pouco para tirar seu senso de humor. Lá pelas tantas, ela descobre que o ex não vale tantas lágrimas assim.
Lição: amor com amor se cura. Principalmente se o sucessor é o elegante e belo Adam. Você vai perceber que sofrer por amor pode ser bom, como me disse uma amiga, que afirma curtir essa angústia. E quando tudo acabar, a única coisa a lamentar é o tempo perdido chorando na cama e os quilos a mais por conta dos potes de sorvete. Os diálogos podem ser clichês, mas não deixam de mostrar os dilemas femininos como eles realmente são. Frívolos demais, talvez. Mas não para quem os vive.
“Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses — saca essa —, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa suburbano! E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim.”
“Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal! Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de vontade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo.”
Outros livros da autora também recomendados para momentos de crise sentimental: “Sushi” e “Um bestseller para chamar de meu”. Cada um deles com três protagonistas. Embora elas sejam diferentes em seus estilos, sofrem do mesmo mal: homens, profissão e homens. Divertimento garantido. Dica para acompanhar a leitura, baseada nas protagonistas de alguns dos livros citatos: essa fase pode ficar mais amena com uma taça de vinho e alguns sacos de batatas fritas. Boa leitura.
Ensaios de amor, de Alain de Botton
No livro, Alain de Botton apresenta todas a etapas de um relacionamento que vai desde a primeira vez em que o casal se encontra num voo de Paris a Londres. Passa pelas expectativa de quem vai tomar a iniciativa. Pelo calor e nervosismo dos primeiros encontros. Pelas buscas por pistas que podem revelar o outro está sentindo, suas intenções. E chega até o momento em que os defeitos começam a aparecer e a relação a esfriar.
A narração fica por conta do homem, que não hesita em abrir seu coração para os leitores. Quem estiver passando por uma situação parecida, irá se identificar com os momentos em que ele prefere a escuridão e o silêncio de um quarto, enquanto todos parecem estar se divertindo lá fora. Os que estão vivendo um grande amor também vão encontrar ali algumas respostas para as tais pistas que tanto buscam. Misto de romance e ensaio, o livro nos dá uma bela reflexão filosófica sobre o amor, ora aparando-se em Nietzsche, ora em Goethe e até em Freud. Tudo com gráficos cômicos e equações matemáticas sobre a chance de tudo dar certo. Aliás, humor aliado ao conhecimento é o forte de Alain de Botton.
“O desejo havia me transformado em um caçador implacável em busca de pistas, paranóico romântico, lendo significados em tudo. Mesmo assim, fosse qual fosse minha impaciência com os rituais da sedução, eu estava consciente de que o mistério dava a Chloe um encanto especial."
“Nos apaixonamos porque desejamos escapar de nós mesmos com alguém que é tão bonito, inteligente e interessante quanto somos feios, estúpidos e chatos. Mas, se um ser tão perfeito um dia se virasse e decidisse que nos amaria? Só podemos ficar um tanto chocados: como pode ele ser tão maravilhosos como havíamos esperado quando tem o mau gosto de aprovar alguém como nós?”
Há outro livro de Botton que trata sobre o amor, “Movimento Romântico”. O ponto de vista, desta vez é da mulher. Tal e qual “Ensaios...” dita sobre esse sentimento cheio de controvérsias: com começo, meio, fim e um novo começo.
No mais, é muito melhor sofrer com um bom livro por perto. Fica a dica.
Melancia, de Marian Keyes
Aqui você vai chorar de rir - e não de tristeza - com as trapalhadas de Claire, que é abandonada pelo marido minutos após o nascimento da filha do casal. Sentindo-se gorda (o vestido que veste logo no início da trama faz com que ela pareça uma melancia), feia e rejeitada, ela enfrenta uma verdadeira viagem ao fundo do poço. De volta à casa dos pais na Irlanda, assume o papel de renegada e entrega-se à depressão, à bebida e ao confronto com a família. Contudo, tudo isso ainda é muito pouco para tirar seu senso de humor. Lá pelas tantas, ela descobre que o ex não vale tantas lágrimas assim.
Lição: amor com amor se cura. Principalmente se o sucessor é o elegante e belo Adam. Você vai perceber que sofrer por amor pode ser bom, como me disse uma amiga, que afirma curtir essa angústia. E quando tudo acabar, a única coisa a lamentar é o tempo perdido chorando na cama e os quilos a mais por conta dos potes de sorvete. Os diálogos podem ser clichês, mas não deixam de mostrar os dilemas femininos como eles realmente são. Frívolos demais, talvez. Mas não para quem os vive.
“Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses — saca essa —, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa suburbano! E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim.”
“Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal! Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de vontade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo.”
Outros livros da autora também recomendados para momentos de crise sentimental: “Sushi” e “Um bestseller para chamar de meu”. Cada um deles com três protagonistas. Embora elas sejam diferentes em seus estilos, sofrem do mesmo mal: homens, profissão e homens. Divertimento garantido. Dica para acompanhar a leitura, baseada nas protagonistas de alguns dos livros citatos: essa fase pode ficar mais amena com uma taça de vinho e alguns sacos de batatas fritas. Boa leitura.
Ensaios de amor, de Alain de Botton
No livro, Alain de Botton apresenta todas a etapas de um relacionamento que vai desde a primeira vez em que o casal se encontra num voo de Paris a Londres. Passa pelas expectativa de quem vai tomar a iniciativa. Pelo calor e nervosismo dos primeiros encontros. Pelas buscas por pistas que podem revelar o outro está sentindo, suas intenções. E chega até o momento em que os defeitos começam a aparecer e a relação a esfriar.
A narração fica por conta do homem, que não hesita em abrir seu coração para os leitores. Quem estiver passando por uma situação parecida, irá se identificar com os momentos em que ele prefere a escuridão e o silêncio de um quarto, enquanto todos parecem estar se divertindo lá fora. Os que estão vivendo um grande amor também vão encontrar ali algumas respostas para as tais pistas que tanto buscam. Misto de romance e ensaio, o livro nos dá uma bela reflexão filosófica sobre o amor, ora aparando-se em Nietzsche, ora em Goethe e até em Freud. Tudo com gráficos cômicos e equações matemáticas sobre a chance de tudo dar certo. Aliás, humor aliado ao conhecimento é o forte de Alain de Botton.
“O desejo havia me transformado em um caçador implacável em busca de pistas, paranóico romântico, lendo significados em tudo. Mesmo assim, fosse qual fosse minha impaciência com os rituais da sedução, eu estava consciente de que o mistério dava a Chloe um encanto especial."
“Nos apaixonamos porque desejamos escapar de nós mesmos com alguém que é tão bonito, inteligente e interessante quanto somos feios, estúpidos e chatos. Mas, se um ser tão perfeito um dia se virasse e decidisse que nos amaria? Só podemos ficar um tanto chocados: como pode ele ser tão maravilhosos como havíamos esperado quando tem o mau gosto de aprovar alguém como nós?”
Há outro livro de Botton que trata sobre o amor, “Movimento Romântico”. O ponto de vista, desta vez é da mulher. Tal e qual “Ensaios...” dita sobre esse sentimento cheio de controvérsias: com começo, meio, fim e um novo começo.
No mais, é muito melhor sofrer com um bom livro por perto. Fica a dica.
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