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domingo, 18 de janeiro de 2026

viagens de gulliver


"O principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros."

Na metade da leitura de Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift, pensei em escrever algo sobre governança corporativa associado ao romance. O motivo foi perceber que, em algo publicado em 1726, o termo "governança" aparece repetidas vezes. A palavra vem do latim gubernare, que significa "dirigir" ou "pilotar", que por sua vez tem origem no grego antigo kybernân, que é associado à arte de conduzir um navio. Esse sentido mais literal, o de pilotar uma embarcação, está presente na obra, mas Swift emprega o termo com igual frequência para se referir à maneira de conduzir um país, uma corte, um tribunal. Ao descrever diferentes reinos e formas de governo, detalhando suas características, ele faz uma excelente sátira à sociedade de seu tempo, especialmente à política inglesa, à ciência e ao antropocentrismo.

O romance conta as peripécias de Lemuel Gulliver, que está sempre a viajar, largando a esposa e filhos por anos entre uma viagem e outra. Certamente, ele vem de uma família com posses, o que lhe permitiu, inclusive, cursar alguns anos de medicina antes de suas andanças. E em cada terra nova a que chega, fica tempo suficiente para se tornar quase um local, apresentando-nos seus costumes e idiossincrasias.

Sua primeira viagem é para Lilliput, a terra dos pequeninos. Talvez a imagem que mais tenha ficado na cabeça, mesmo naquelas que nunca leram o livro, seja a de um gigante amarrado por vários homens. Seu tamanho causa ao mesmo tempo medo e fascínio. Mas aos poucos ele vai conquistando a confiança da população, em especial do rei, que o vê como aliado. Ele terá que lidar, inclusive, com a velha guerra entre os Lilliputs e os Blefuscu, causada pela forma com que quebram ovos. Seria pela ponta maior ou pela menor? E milhares morrem por conta desse conflito absurdo, o que não é tão diferente da nossa vida real e das guerras que ainda acompanhamos. Como somos pequenos, afinal.

"E é de tal modo desmedida a Ambição dos Príncipes, que ele não queria outra coisa que não reduzir todo o Império de Blefuscu a uma Província, passando a governá-lo por meio de um de Vice-Rei; e destruir todos os exilados Extremidade-Grandistas, e obrigar toda a gente de lá a quebrar os Ovos na extremidade menor, tornando-se assim o único Monarca de todo o Mundo."

Por fim, chega a hora de partir. A próxima parada é Brobdingnag, o oposto. Lá ele é o pequenino, que chega a virar uma espécie de fantoche para a realeza. E como as pessoas são enormes, ele consegue ver detalhes que antes passavam despercebidos pelos seus olhos, como poros da pele, o que o deixa com nojo. Mas, ao contrário da terra dos pequenos, regida pela mesquinhez, aqui eles não conseguem entender o sentido de guerra, colonização e outras disputas. Ao ouvir Gulliver relatar a história da Inglaterra, o rei desse lugar fica "absolutamente atônito", dizendo que os últimos cem anos não passaram de "uma sucessão de Conspirações, Rebeliões, Assassinatos, Massacres, Revoluções", frutos da "Avareza, o Sectarismo, a Hipocrisia, a Perfídia, a Crueldade" e de tantos outros vícios. Em seguida, conclui que as instituições das quais Gulliver faz parte talvez fossem toleráveis em suas formas originais, mas haviam sido distorcidas pela corrupção. Mais do que isso, observa que "não fica claro que alguma Virtude seja exigida para que se obtenha algum Posto", nem que "os Sacerdotes sejam promovidos por sua Devoção ou seu Saber, os Soldados por sua Conduta ou sua Bravura, os Juízes por sua Integridade, os Senadores por seu Amor à Pátria, nem os Conselheiros por sua Sapiência". Sua conclusão não poderia ser mais dura: os ingleses seriam "a mais perniciosa Raça de Sevandijas abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra."

Mais uma vez, parte. Na terceira viagem, Gulliver passa por diferentes terras. Uma delas é Laputa, uma ilha flutuante cujos habitantes são obcecados pela matemática, pela música e pela astronomia. A absorção nessas áreas é tanta que mal conseguem conversar entre si. Há pessoas específicas que funcionam como seus ouvidos e sua boca, com a tarefa de lembrá-los de ouvir ou falar. Qualquer semelhança com pessoas abduzidas por dispositivos móveis é mera coincidência. O conhecimento também está a serviço da dominação. Quem mora na parte suspensa da ilha domina os habitantes que vivem abaixo daquela esfera flutuante.

Na sequência, Gulliver vai parar em Balnibarbi, que também é uma crítica à ciência. Lá, as pessoas dedicam-se a experimentos inúteis, como extrair raios de sol de pepinos, transformar excrementos em alimento ou construir casas começando pelo telhado, e por aí vai. Outro lugar icônico por onde passa é Glubbdubdrib, a ilha dos Feiticeiros ou Mágicos, onde personagens históricos são trazidos de volta do mundo dos mortos. Lembrando que estamos em mil e setecentos e pouco, Gulliver pede para ver, por exemplo, Alexandre, o Grande, à frente de seu exército. Também convoca Descartes e Gassendi para explicarem suas teorias a Aristóteles, que reconhece os próprios erros e conclui que, assim como ele, os demais filósofos também se apoiavam em conjecturas. Não existe, portanto, uma verdade definitiva.

Após esse bate-papo com essas e outras figuras históricas, Gulliver segue para a terra da imortalidade, Luggnagg, lar dos Struldbrugs, seres imortais que revelam que viver para sempre está longe de ser uma bênção. Lá as pessoas envelhecem, adoecem, tornam-se fisicamente limitadas, mas não morrem. A leitura me remeteu a As intermitências da morte, de José Saramago, que também mostra o quanto a ausência da morte pode se transformar em um problema. E antes de retornar, mais uma vez para casa, ele passa rapidamente pelo Japão, porém, não foi possível indagar nada, já que o idioma deles era deveras estranho. Ele pode entender a todos, menos os japoneses, embora afirme que o comércio entre seu país e o deles só crescia, o que me deixou bem reflexiva sobre as motivações dessa incompreensão. Depois disso, volta para casa, engravida a mulher e parte. Eis o perfil narcisista de nosso viajante, que ainda terá muito o que aprender.

"Continuei em casa com minha Mulher e meus Filhos por cerca de cinco meses, numa situação de muita Felicidade, e oxalá tivesse aprendido a Lição de saber reconhecer-me feliz. Deixei minha pobre Esposa esperando Filho e aceitei uma Proposta vantajosa para ser Capitão do Adventure, um Navio Mercante de trezentas e cinquenta toneladas."

Finalmente, Gulliver chega à terra dos Houyhnhnms, que significa "Cavalo, em sua etimologia, a Perfeição da Natureza". Fica surpreso ao ver que seus habitantes racionais são os cavalos. E fica ainda mais horrorizado ao ver que há naquelas terras criaturas abomináveis, tidas como irracionais, parecidas com humanos, que são chamadas de Yahoos. Ou seja, ele é o desprovido de razão por lá. 

Como sempre acontece em suas viagens, aprende gradualmente a língua dos habitantes e passa a se adequar ao mundo em que está (a exceção foi o Japão 🤔), o que faz com que seja visto como um Yahoo diferente, pois sabe se comunicar e é limpo, diferentemente dos demais, que são tidos como brutais e dominados pelos próprios instintos. Precisa ainda se acostumar com a nova alimentação: entre os Houyhnhnms, Gulliver passa a comer aveia, leite, salada e pão. Tudo sem sal, afinal, o único animal a utilizá-lo é o humano. Também precisa se contentar em viver sem carne, já que os cavalos não matam outros animais para comê-los, diferentemente dos Yahoos.

Aos poucos, Gulliver apresenta ao seu senhor, o cavalo que lhe oferece abrigo, sua visão de mundo eurocentrada, explicando como funcionam as coisas em seu país, as guerras, as disputas pelo poder, e observa a indignação diante de tudo aquilo. Seu anfitrião não consegue compreender como um ser que se considera racional pode agir de tal maneira. A indignação aumenta quando conta que, em seu país, os cavalos servem de montaria, são chicoteados, explorados e maltratados. E aqui me lembro de outros equinos: Minuano, de Tabajara Ruas, Kholstomer, de Tolstói, o burrinho Sete-de-Ouros, de Guimarães Rosa, e Caramelo, o cavalo que passou dias em cima de um telhado durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. 

Desenho representando Caramelo feito pela minha filha, na época com 7 anos

De tanto conviver com os Houyhnhnms, e admirá-los cada vez mais, o viajante acaba por imitar seus trejeitos, a ponto de, ao retornar ao seu país, muitas vezes ser pego trotando. Seus amigos observam que ele parece um cavalo, o que, para ele, é um grande elogio. O que pode nos remeter a personagens de Nas profundezas dos bosques, de Amos Oz. Lá, os animais desapareceram do mundo, e algumas recordações dessa convivência permanecem em personagens que relincham, tidos como malucos. A doença do relincho é vista como uma anomalia, algo que precisa ser afastado.

Mas Gulliver precisa partir. Ele não pertence àquele ambiente, e isso é decidido em uma assembleia. No dia da despedida, deixa a família que o acolheu com os olhos cheios de lágrimas e "Coração transido de Dor." A partir daí, e da forma como Swift constrói sua narrativa, nós, leitores, somos levados a duvidar da chamada racionalidade humana. Gulliver conclui que os Houyhnhnms são os seres mais evoluídos e inteligentes do universo. E nós concordamos. Toda a narrativa mostrou o quanto agimos de forma insensata, gananciosa e, mais que tudo, medíocres.

Quando retorna para casa, sente repulsa pela própria espécie, inclusive pela esposa e pelos filhos, e acaba se afastando deles. Compra cavalos (será que ele realmente aprendeu algo?), aos quais passa a se dedicar veementemente, como uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu.

Ao final, Gulliver afirma: 

"disse-lhe que tentaria preservar este meu Ser miserável; e que, se algum dia voltasse à Inglaterra, tinha alguma Esperança de ser útil à minha própria Espécie, louvando os renomados Houyhnhnms e propondo suas Virtudes como dignas de serem imitadas pela Humanidade".

Acredita-se que Swift tinha ódio pela humanidade, evidenciado, segundo artigo de Leonardo Poglia Vidal, pela forma como os acontecimentos que levam Gulliver a cada nova viagem tornam-se progressivamente mais graves. Primeiro, ele naufraga por acidente, depois é abandonado, atacado por estranhos e, finalmente, traído pela própria tripulação. Ao terminar suas aventuras, o protagonista retorna enojado com sua própria espécie. Esse autor, no entanto, também defende a leitura oposta: a de que Swift amava a humanidade e queria mostrar seus defeitos, o que seria, a seu ver, um ato de amor.

Comecei este texto dizendo que o livro, lá pelas tantas, me remeteu à Governança Corporativa. Porém, ao chegar ao fim da viagem de Gulliver, ficou claro que ainda não aprendemos nada sobre governança, tampouco sobre nosso lugar no mundo. O antropocentrismo, com sua colonização (de outros humanos e animais), exploração da natureza e transformação dos animais em objetos, mostra que o rigor que as companhias aplicam em suas estruturas institucionais é uma falácia e que ainda estamos longe de alcançar a serenidade e o senso de justiça dos Houyhnhnms.

Imagem que mostra Gulliver se despedindo dos Houyhnhnms

"Eu admirava a Força, a Beleza e a Celeridade dos Habitantes; e uma tal Constelação de Virtudes em Pessoas tão gentis produziu em mim a mais elevada Veneração. De início, é bem verdade, não sentia eu aquela Admiração natural que os Yahoos e todos os Animais lhes dedicam, porém o Sentimento brotou em mim gradualmente, muito mais cedo do que eu imaginava, combinado com um misto de Respeito, Amor e Gratidão, por eles condescenderem em me distinguir do resto da minha Espécie. Quando pensava na minha Família, nos meus Amigos, nos meus Compatriotas ou na Raça Humana em geral, via-os tal como eram, Yahoos quanto à Forma e à Disposição, apenas um pouco mais civilizados, e dotados da Fala, porém não fazendo outro uso da Razão que não o de aperfeiçoar e multiplicar aqueles Vícios dos quais os seus Irmãos naquele País só compartilhavam o quinhão que lhes concedia a Natureza. Quando via por acaso meu Reflexo num Lago ou Fonte, eu desviava o Olhar, presa de Horror e Ódio de mim mesmo, e era-me tão difícil suportar a visão de um Yahoo comum quanto a de mim mesmo."

domingo, 5 de outubro de 2025

como tigres na neve


"A vida só é suportável porque o tempo nos faz esquecer tudo. Mas a vida vale a pena porque o amor nos faz lembrar de tudo."

Depois de Pachinko e Herdeiras do Mar, emendei outra saga coreana. Desta vez, por meio de uma história que vai de 1917 até a década de sessenta. E, de novo, de uma cultura usurpada pela invasão japonesa.

Em Como Tigres na Neve, de Juhea Kim, acompanhamos a história de Jade. Filha de uma família bem pobre, ela é vendida pela mãe para uma escola de gisaeng, vulgo prostituição. A diferença é que havia, de fato, formação. As moças, recebidas ainda crianças, aprendiam a cantar, dançar, recitar poesia e tinham aulas de etiqueta, tudo para que se tornassem verdadeiras cortesãs. Não raro, tinham um "cliente fixo" que as bancava por toda a vida. É o que vai acontecer, mais ou menos, com a pequena Jade.

O livro começa com uma caçada nas florestas montanhosas próximas a Pyongyang, região que hoje faz parte da Coreia do Norte. O objetivo do caçador era colocar comida na mesa dos filhos. Sabia que, se encontrasse um tigre, poderia garantir até três anos tranquilos para toda a família, e é nisso que pensa ao encontrar um filhote de tigre à sua frente. Porém, as palavras ditas por seu pai foram mais fortes, e ele desiste. "Nunca mate um tigre, a menos que seja necessário."

"Quase indistinguível nesse mundo obscuro, um cisco de um homem caminhava sozinho. Um caçador. Agachado sobre uma pegada fresca, ainda macia e quase quente, ele farejou na direção de sua presa. O cheiro forte de neve encheu seus pulmões, e ele sorriu. Logo, uma poeira leve facilitaria o rastreio do animal – um leopardo grande, imaginava, pelo tamanho da pegada. Levantou-se em silêncio como uma sombra entre as árvores. Os animais se movimentavam sem nenhum ruído, estavam em seu domínio, mas as montanhas também pertenciam a ele – ou melhor, ele, como os animais, pertencia às montanhas."

Este início me lembrou muito o livro Raposa Sombria, de Sjón. Lá, a caçada era na gélida Islândia; aqui, nas florestas montanhosas da Coreia do Norte. Mas, tanto lá quanto cá, o animal, com seu olhar, vence.

Em paralelo à história de Jade, conhecemos JungHo, o filho do caçador, que agora é órfão e se aventura sozinho pelas ruas em busca de comida. Acaba entrando em uma gangue, e os caminhos o levam até Jade, por quem ficará eternamente apaixonado. Enquanto ele se envolve com movimentos políticos a fim de libertar a Coreia do Japão, ela se torna uma cortesã famosa e, posteriormente, atriz de sucesso. Mas ambos passam por muitos perrengues e tragédias.

Conhecemos ainda Silver, que acolhe (compra) Jade, especialmente por conta de sua beleza deslumbrante. Ela é mãe de Luna e Lotus, que têm destinos bem distintos. Há ainda Dani, outra cortesã, que recebe as meninas em Seul, quando elas precisam fugir do Norte.

A narrativa é muito boa, permeada por muitos jogos políticos, espionagem e sobrevivência. O final é lírico e poético, com um novo recomeço, depois de muitos, para Jade. Vale muito a leitura.

"À época, não tivera a oportunidade de debruçar-se sobre seus sentimentos. Como sempre acontece com eventos significativos, os sentimentos se desenvolveram plenamente e assumiram novas cores e aromas quando reviveu a cena em sua cabeça."

sábado, 6 de setembro de 2025

sagarana



Obra de estreia de João Guimarães Rosa, Sagarana traz contos que narram a vida no sertão mineiro. Inicialmente apresentado, em 1938, como Contos para um concurso literário, ele foi refinado para sua versão que hoje temos em mãos. Para tanto, foram excluídos três textos, houve revisões, lapidações e a publicação em 1946 com o neologismo Sagarana, marca que se tornaria uma das principais características do autor.

S A G A R A N A. Soma do germânico saga (conjunto de estórias) com o tupi rana (à maneira de). Ou seja, à maneira das estórias orais. E é exatamente assim que lemos os textos. Parece que estamos ouvindo alguém a nos contar o que se passa no pedaço de terra “que era seu”, como o autor mesmo comentou em carta endereçada ao jornalista e amigo próximo João Condé:

“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais.”

E para além do regional, da tradição de narrar causos, Sagarana, assim como outras obras de Guimarães Rosa, traz personagens animais que refletem, sentem e se relacionam com o mundo de modo próprio. Em alguns momentos, eles aparecem como personagens centrais, com escolhas e estratégias próprias. Em outros, são apenas montarias, puxam carros, compõem a paisagem. Há também os animais que aparecem apenas para serem apreciados. Os gaviões despertam admiração de um narrador, que os considera belos, porém, outro personagem rejeita essa visão estética. Para ele, beleza sem utilidade não tem valor. Até o urubu, que surge pairando no céu, é imediatamente associado à função que desempenha no ciclo da morte.

“Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, p’ra mim, seu doutor não leve a mal, p’ra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…”

Ou seja, o animal vale para o que nos serve.

Em Conversa de bois, Manuel Timborna afirma que os animais falam. Seu interlocutor escuta com desconfiança, mas decide ouvir a história que começa com uma irara que se ajeita para ver a passagem de um carro de bois. Rosa descreve seus movimentos, suas escolhas e a forma como calcula o melhor lugar para permanecer escondida. Depois aparecem os bois, todos nomeados: Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé. Eles sentem o calor, os insetos, o peso da carga e conversam entre si. Sabem que são bois de carro e distinguem-se daqueles que vivem apenas pastando, os bois em massa. Durante a viagem, acompanham também o menino Tiãozinho, que segue ao lado da junta levando o corpo do pai e lamentando ter que conviver com o carreteiro. Os bois observam tudo o que acontece ao redor e resolvem ajudar o garoto. Ficou para mim a questão: seriam os bois a metáfora para o peso que o garoto carrega?

“Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!

— Falam, sim senhor, falam!… — afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, — filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; — Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.

— Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje:… “Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!…” Mas, e os bois? Os bois também?…

— Ora, ora!… Esses é que são os mais!… Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu.” 


Em O burrinho pedrês, Sete-de-Ouros é chamado para uma caravana por falta de outras montarias. Velho e experiente, já passou por muitos donos e vive agora numa espécie de aposentadoria. Durante a viagem, acompanhamos os vaqueiros conduzindo uma grande boiada até o embarque no trem. Os bois chegam em massa, vindos de diferentes regiões, formando uma multidão de cores, tamanhos e origens. A boiada pressente a tempestade que se aproxima. Mais tarde, durante a travessia, alguns cavalos empacam diante da água. Os vaqueiros decidem então seguir a decisão do burrinho: se ele entrar no rio, todos entram. Sete-de-Ouros observa o ambiente, avança e atravessa a enchente nadando. Muitos homens e cavalos morrem na travessia, mas o burrinho consegue alcançar terra firme levando dois vaqueiros consigo. De volta ao curral, procura o cocho, come milho e se acomoda para voltar ao precioso descanso.

Em Sarapalha, o cenário é outro. O conto acompanha Primo Ribeiro e Primo Argemiro vivendo isolados numa região devastada pela maleita. Ali permanece também o cão perdigueiro Jiló, que circula entre os dois homens e acompanha o cotidiano daquele lugar marcado pela doença e pela solidão. No final, o animal terá que decidir com qual dos donos - a posse permeia as histórias - ficará.

Já em Minha gente, um rapaz da cidade visita a fazenda do tio e reencontra a prima por quem se interessa. A narrativa acompanha deslocamentos pela paisagem rural, sempre a cavalo. Durante o trajeto, aparecem diversos animais: vacas, zebus, bois, gaviões, carcarás, anus e urubus. Alguns são descritos pela aparência, outros pela utilidade. O cavalo, porém, permanece quase sempre apenas como montaria, acompanhando os personagens ao longo do caminho.

Em São Marcos, acompanhamos Izé, que vive em um povoado onde a feitiçaria faz parte do cotidiano. Embora declare não acreditar nessas práticas, ele passa constantemente pela casa de João Mangolô e zomba do feiticeiro. Em seus passeios pelo mato, dedica-se a observar a natureza, as cores, os ruídos, os movimentos mínimos. Certo dia, subitamente, fica cego. Desorientado, acaba recorrendo justamente à reza de São Marcos, que antes tratava com ironia. Ao pronunciá-la, recupera a visão e descobre que Mangolô havia “amarrado” simbolicamente seus olhos.

Corpo Fechado mostra um local conhecido por ter vários valentões. Manuel Fulô é um deles, famoso por suas histórias e trapaças, vê-se ameaçado por Targino, o novo chefe local, que anuncia publicamente sua intenção de dormir com sua noiva antes do casamento. Manuel recorre, então, a um feiticeiro que lhe promete “fechar o corpo” contra qualquer agressão. Como troca, exige sua querida mula. E eis que dá certo, e ele vence o adversário. A narrativa mistura superstição, disputa de poder masculino, desvaloriza a mulher e o animal. Tanto a mula que foi moeda de troca, como um rato e gato que também aparecem no conto, presos e forçados a fazerem amizade pelo próprio Fulô.

Em A hora e vez de Augusto Matraga, acompanhamos a trajetória de Nhô Augusto, homem violento e temido, que perde prestígio político e familiar. Espancado e dado como morto após tentar reagir à traição e à perda de seus aliados, é salvo por um casal de negros e passa por um período de isolamento e penitência. Trabalha, reza, busca redenção. Anos depois, ao encontrar o jagunço Joãozinho Bem-Bem prestes a executar uma família por vingança, intervém. 

A volta do marido pródigo nos mostra Lalino Salãthiel, que nunca gostou muito de trabalhar e que sempre sonhou com a oportunidade de sair daquela cidade pequena onde morava e ir para um lugar maior. Surge, então, a chance de ir para o Rio de Janeiro. Ele parte, deixa a esposa, Maria Rita, na cidade, e na capital cria para si uma nova história, uma narrativa de sucesso que talvez não corresponda exatamente aos fatos. Vive a cidade grande, aproveita o que pode, constrói uma imagem de si mesmo. Mas acaba voltando. E, diferentemente do filho pródigo bíblico, não é recebido com festa. Maria Rita já está casada com outro homem, um espanhol. É nesse momento que surge nele a vontade de recuperar o que perdeu. Resta saber se o desejo é amor, orgulho ferido ou simples incapacidade de aceitar que foi substituído.

Em Duelo, também temos uma situação envolvendo traição. Turíbio Todo surpreende a mulher com outro homem, Cassiano Gomes. Num primeiro impulso, pensa em atirar, mas não o faz imediatamente. Cassiano é perigoso, também é homem de arma. Turíbio decide, então, planejar melhor a vingança. Quando finalmente age, o plano dá errado: em vez de matar Cassiano, acaba matando o irmão dele. A partir daí, a situação se inverte. Cassiano passa a persegui-lo, e a narrativa se transforma numa espécie de caçada prolongada.

A violência aparece em vários momentos em todos os contos, seja nas relações entre os personagens humanos, seja no modo como lidam com outras espécies. Há também passagens marcadas por misoginia, especialmente quando reduzem mulheres a figuras moralmente suspeitas ou culpadas por traições e desordens familiares. Homens duelam, vingam, disputam mulheres, perdem poder, rezam, matam. E, no meio disso, os animais trabalham, puxam, carregam, são montaria, são companhia, são espetáculo. Vale muito a leitura, especialmente se você estiver disposto a ouvir os animais que lá falam. Mais que isso, a se questionar se realmente não há nada errado na forma com que os tratamos e o retratamos. Fica a dica e meu pedido.

sábado, 23 de agosto de 2025

elizabeth costello


“Não é absurdo, é?, se ocupar daquilo que as pessoas têm em comum em vez daquilo que diferencia um do outro.”

Eu conheci Elizabeth Costello em A vida dos animais, ensaio romanceado do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Lá, temos o resultado de uma palestra real que o autor proferiu durante uma conferência nos EUA. Usando de um alter ego, Costello, ele trouxe reflexões filosóficas e poéticas sobre a forma com que nos relacionamos com os animais.

Aqui temos uma coletânea de contos, ou ensaios, sobre a personagem fictícia. Conhecemos, portanto, um pouco mais sobre sua história e sobre os motivos que foram levando-a a abordar a crueldade em todas as suas esferas, contemplando os animais que muitas vezes acabam invisíveis. São oito capítulos sobre filosofia, literatura, mitologia e temas que percorreram toda sua trajetória, profissional e pessoal.

Em Realismo, a personagem nos é apresentada. Nascida em 1928, em Melbourne, na Austrália, está com 66 anos no momento descrito neste primeiro conto. Casou-se duas vezes e tem um filho de cada um desses relacionamentos. “Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos.”

Aqui, ela se prepara para receber um dos maiores prêmios literários. Está com seu filho John, professor de física e astronomia, o mesmo que a acompanha em A vida dos animais. Percebe-se o desconforto dela com as cerimônias que cercam o prêmio, como o jantar, a entrevista e a própria premiação. Sabemos que John sentiu muito a falta da mãe durante a infância, já que ela costumava se isolar para escrever, deixando ele e a irmã de lado, algumas vezes trancados do lado de fora do cômodo usado como escritório. “Desde que se conhece por gente, sua mãe sempre se isolou de manhã para escrever. Nenhuma interrupção sob qualquer circunstância. Costumava sentir-se uma criança infeliz, solitária e não amada. Quando estavam com muita pena de si mesmos, ele e a irmã sentavam do lado de fora da porta trancada e soltavam pequenos gemidos. Depois de gemer passavam a cantarolar ou cantar, e se sentiam melhor, esquecendo o abandono.”

Tenho que ser solidária com Costello. Ela trabalhava em casa, e talvez justamente isso tenha sido um problema na época. Os filhos achavam que ela os ignorava, quando, na verdade, ela precisava daquelas manhãs para produzir e se dedicar ao ofício que havia escolhido e que, pelo que lemos, era sua paixão. Agora, ao estar com a mãe, que aprecia sua companhia e se sente confortável ao lado dele, John vê uma mulher velha e frágil.

Por se sentir renegado pela mãe, John só foi ler os livros dela muitos anos depois, aos 33 anos. Foi sua vingança. Um colega psiquiatra me disse que as crianças são as maiores especialistas em fazer a mãe sentir culpa. Eu tenho uma filha e sei exatamente o que ele quis dizer. Até entendo o que John sentiu quando criança. Mas e as figuras paternas neste movimento? Qual parcela de culpa lhes foi dada? Incompreendida, porém, ela seguiu.

Temos, na sequência, A vida dos animais 1: os filósofos e os animais e A vida dos animais 2: os poetas e os animais, sobre as quais falei com mais detalhe em outro texto.

Em As humanidades da África, voltamos um pouco no tempo e temos uma Costello mais jovem reencontrando um antigo amor em um evento durante um cruzeiro, momento em que também reflete sobre o racismo e as diferenças interraciais. Enquanto ela fala sobre o futuro do romance, ele trata especificamente do romance na África. Para ela, “o romance sugere como podemos explorar o poder de o presente produzir o futuro. É por isso que temos essa coisa, essa instituição, esse veículo chamado romance.”

Já ele fala do individualismo que marca a leitura dos romances, algo que não combina com a cultura africana, que prioriza histórias orais que unem as pessoas. Reforça que “ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós, africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que eu estou lendo é mais interessante do que você poderia ser.”

Isso para dizer que, para o africano, o verdadeiro romance é o oral. “Na página ele é inerte, apenas meio vivo; ele desperta quando a voz, vinda do fundo do corpo, inspira vida a suas palavras, as enuncia em voz alta.”

A história do corpo incomoda Costello, que não parece se convencer. Mas há africanos escrevendo, e seu amigo lhe diz que esses livros não são escritos para africanos, diferentemente do romance inglês escrito para ingleses, por exemplo. O romance africano é escrito para estrangeiros. “Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores.”

O tema da África segue em As Humanidades, quando ela vai ao encontro da irmã que não vê há doze anos, Blanche, cujo nome agora é Irmã Bridget. Há anos ela mora na África, seguindo sua vocação religiosa. Hoje, vive em uma zona rural da Zululândia, na África do Sul. Também acadêmica, teve um livro que repercutiu muito bem e que lhe rendeu um título honorário, cuja cerimônia terá a presença da irmã.

Costello chega cheia de preconceitos a uma terra que nunca quis visitar e que considera feia. “Horas de sua vida perdidas na passagem sobre o Oceano Índico; inútil pensar que vai recuperá-las. Devia tirar uma soneca, recobrar-se, recuperar o bom humor antes de encontrar Blanche; mas está inquieta demais, desorientada demais, e - sente vagamente - indisposta demais. Será que pegou alguma coisa no avião? Cair doente entre estranhos: que horror! Ela reza para estar errada.”

Curioso o foco que Coetzee dá à idade, sempre trazendo Costello como velha, cansada, rabugenta. Enquanto narra a cena das duas irmãs conversando, ressalta que estamos diante de duas velhas em terra estrangeira. Duas estranhas, por não conhecerem de fato uma a outra, em um local que também não é delas. Como se tudo fosse um peso. A idade, o lugar, a conversa.

O tema da palestra, desta vez, é a humanidade, onde ela se instala e o que a literatura tem a ver com isso. Enquanto Costello acredita que os livros são suficientes para aprendermos sobre nós mesmos, Irmã Bridget acredita que eles não são necessários para enxergar a mesquinhez e as crueldades dos seres humanos, o que Costello entende como um ataque pessoal.

Surge, então, entre elas, um debate sobre o helenismo como a principal tentativa do humanismo europeu de oferecer uma visão secular de vida ideal, inspirada na liberdade, na beleza e na racionalidade atribuídas à Grécia antiga. Blanche afirma que esse modelo fracassou porque era elitista, ilusório e distante da experiência real das pessoas comuns. Já Elizabeth argumenta que, mesmo assim, os seres humanos precisam de esperanças e utopias para viver.

A conversa revela, assim, a crise das humanidades e a dificuldade contemporânea de encontrar novos sentidos coletivos para a existência. Ambas terminam a série de palestras e debates exaustas, com a certeza de que foi a última vez que se viram. Fica, por fim, a falta da completude entre ambas, tão necessária, mas distante.

Em O problema do mal, Costello está em Amsterdã para discursar sobre por que o mal existe e se há algo a ser feito diante dele. Há indícios de que se trata de um evento posterior à palestra sobre A vida dos animais e aos julgamentos que recebeu depois dela. Foi, inclusive, atacada por outra mulher, que a chamou de "vaca fascista", além de receber acusações de antissemitismo por comparar a forma como tratamos os animais ao Holocausto. Ela sabe que foi convidada para falar justamente por causa de toda essa repercussão e, ainda assim, aceita o convite. O tema geral do encontro é "Silêncio, Cumplicidade e Culpa?". Dentro do tema principal, fica encarregada de abordar "Testemunha, Silêncio e Censura".

O convite chega justamente quando ela está lendo Paul West escrever sobre Hitler. O capítulo discute os limites éticos da literatura diante da representação do mal. Elizabeth Costello questiona se dar voz e vida literária a figuras violentas, como carrascos nazistas, não significa também libertar novamente esse horror no mundo. É pensando sobre a obra de Paul West que relembra a violência que sofreu aos dezenove anos, quando foi vítima de uma tentativa de estupro seguida de espancamento, episódio que manteve em silêncio por décadas. “Foi seu primeiro contato com o mal. Entendeu que não era nada mais que isso, o mal, no momento em que a sensação de afronta do homem cedeu e um imperturbável prazer em machucar tomou seu lugar.”

Desenvolve sua palestra dizendo que certas coisas deveriam permanecer fora de cena, pois nem tudo o que pode ser narrado deveria ser mostrado. Seu argumento gira em torno da liberdade artística versus a responsabilidade moral de representar a crueldade. "Obsceno" é como ela define tanto o fato de Paul West trazer à tona as atrocidades cometidas por Hitler quanto a lembrança da violência que sofreu. Obsceno, aqui, no sentido literal da palavra: aquilo que deveria permanecer fora de cena.

Após o fiasco que considera ter sido sua palestra e da tentativa frustrada de chamar a atenção do escritor, acaba refletindo sobre o que ele faz, e que também é o que ela própria faz: mostrar a brutalidade do mundo. Ela faz isso ao falar dos abatedouros, por exemplo. “Ela, da mesma forma que Paul West, sabia como jogar com as palavras até elas estarem certas, palavras que lançariam uma corrente de choques elétricos pela espinha do leitor. Carrasca à sua maneira.”

Quando finalmente encontra Paul West, fica procurando nele o mal. A cena me remeteu imediatamente à Hannah Arendt e à banalidade do mal, expressão que chega a ser mencionada por Costello. Ela procurava um monstro que justificasse as atrocidades, mas encontrou apenas o banal. Da mesma forma que Hannah Arendt esperava encontrar, no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, um homem monstruoso, mas viu apenas um agente comum, medíocre até. Alguém que seguiu o caminho da obediência e da inércia diante do horror que estava à sua frente. E no caso específico do seu incômodo pela obra de West, trata-se de uma questão mal resolvida que está muito mais relacionada com o que ela mesma deixou de falar, e não o que o autor se propôs a retratar. Ela calou-se, e esse silêncio dói, seja pela impunidade, seja pelo acolhimento que nunca teve. Penso que a indignação com a obra do colega seja, em parte, a indignação que ainda sente ao lembrar da menina de dezenove anos que nunca viu sua dor reconhecida. 

Em Eros, Costello conjectura sobre nossa relação com os deuses. Mas não se trata da dimensão metafísica. O que lhe interessa é o físico. Como seria uma relação sexual entre humanos e deuses? “Qual a sensação da carne do homem envolta em carne de deusa?”

O que interessa a Costello é imaginar, por exemplo, como foi a noite entre Anquises, um mortal, e a deusa Afrodite, união da qual nasceu Eneias, um dos grandes heróis da Guerra de Troia.

Essa resposta ela encontra na tradição poética, que diz que Anquises levou uma vida normal, envelheceu e permaneceu em seu universo ordinário. “Se não esqueceu aquela noite fatídica, não pensou muito nela, não como nós entendemos pensar.” Para ela, esta é uma experiência única, íntima.

E traz um paralelo com a Virgem Maria. Como teria sido aquele momento, aquele instante em que tudo aconteceu? Essa é sua dúvida. “Ninguém à sua volta tem o descaramento de perguntar: Como foi, o que você sentiu, como você aguentou? Mas essas perguntas devem ter ocorrido com certeza às pessoas, às suas amigas em Nazaré, por exemplo. Como ela aguentou?, devem ter sussurrado entre elas.”

Será que atingimos o divino nesse instante? É quando Costello chega aos outros modos de ser. Isso porque está falando do ponto de vista dos humanos, mas há muito além do que pensamos e sentimos, o que mostra a nossa limitação, uma questão kantiana, segundo a própria Costello. “Existem outros modos de ser além do que chamamos humano e nos quais possamos penetrar; e, se não existem, o que isso nos revela sobre nós mesmos e nossas limitações?”

Chega a comparar a curiosidade dos deuses em relação aos humanos com a nossa curiosidade pelos demais animais. Para ela, levamos vantagem em relação aos deuses por conta da mortalidade, o que nos dá mais urgência, mais vigor em tudo o que fazemos. “Gostaria de pensar que os deuses admiram, mesmo de má vontade, a nossa energia, a incessante criatividade com que tentamos escapar de nosso destino.”

E, mais uma vez, vem a referência à velhice. Costello imagina que talvez só faça essas perguntas porque já está velha demais para dançar.

Em No portão, Costello chega ao céu, ou ao que nos parece ser o céu, e encontra-se diante do portão que dá acesso ao local. Um homem, mais novo do que ela, informa que antes de entrar precisa apresentar uma declaração dizendo em que acredita. Todos ali têm uma crença. Ela também deveria ter a sua. O problema é que Costello não sabe responder.

Ela explica que sua profissão, como escritora, não é acreditar, mas escrever. Vive de ficções e de crenças provisórias. Uma convicção definitiva apenas limitaria seu trabalho. Pede, por isso, que sua condição de escritora seja considerada uma exceção.

Enquanto aguarda uma nova oportunidade para apresentar sua declaração, é encaminhada a um dormitório e passa os dias caminhando pela praça, observando as pessoas e refletindo sobre a própria vida. Em determinado momento, lamenta não ter vivido de outra forma. Pensa que talvez devesse ter se divertido mais e se pergunta se a vida dedicada à escrita lhe trouxe alguma vantagem naquele instante em que tudo parecia depender de uma única resposta.

Ao mesmo tempo, percebe que suas crenças surgem quase por acaso. Em um dia, acredita nas rãs. No outro, talvez acreditasse em gafanhotos ou mosquitos. Nada parece definitivo. Tudo é provisório, como sempre foi também sua literatura.

E assim ela segue refletindo sobre qual seria sua crença enquanto aguarda o julgamento final, o que me lembrou muito O processo, de Franz Kafka, ao qual ela mesma recorre, em que um homem é retirado de seu trabalho e levado a um tribunal sem saber exatamente por que está ali. Lembrei-me também de Alice no País das Maravilhas, que caiu em uma terra cheia de surpresas. Costello não sabe exatamente que lugar é aquele. Sabe apenas que precisa atravessar aquele portão.

Ela teve uma grande paixão e decidiu segui-la. Mas foi incompreendida. Ao longo de todo o livro é chamada de velha, como se esse fosse seu principal atributo, quando dedicou a vida a trazer reflexões e provocações. Não abandonou os filhos e, ainda assim, eles cresceram com essa sensação. Em nenhum momento surgem os pais, ou a responsabilidade que também lhes caberia. Fiquei pensando se um escritor homem seria acusado por se trancar em um quarto para escrever enquanto os filhos esperavam do lado de fora.

Tudo isso deixa marcas. Vamos conhecendo suas feridas, como a violência que sofreu aos dezenove anos, e entendendo melhor a mulher por trás da intelectual. Para mim, Costello foi, acima de tudo, uma personagem incompreendida. Alguém que nunca deixou de se apaixonar. Não pelo amor romântico, mas pelo conhecimento e pelo que podemos fazer com ele. Resta saber se essa resposta será suficiente no que parece ser seu juízo final.



sábado, 17 de agosto de 2024

a biblioteca dos sonhos secretos


"Um sonho não pode “acabar” enquanto você estiver dizendo “um dia”! Ele vai continuar para sempre sendo um lindo sonho. Mesmo não se concretizando, creio que essa também é uma forma de vida. Sonhar sem ter um plano definido não é uma coisa ruim. Isso torna seus dias alegres."

E terminei mais uma história que nos deixa a pensar nas várias possibilidades que temos. Mas que acabam se esvaziando por nossos receios, acomodação, opiniões alheias e outros empecilhos que, na grande maioria das vezes, só existem em nossa cabeça.

Com o subtítulo "uma história sobre a magia dos livros e seu poder de conectar pessoas",  "A biblioteca dos sonhos secretos", da escritora japonesa Michiko Aoyama nos leva a conhecer cinco personagens que não sabem bem como lidar com seus problemas (eles e o mundo, não?). Podemos dizer que cada capítulo é um conto e que todos se entrelaçam de forma sutil. A narrativa, cheia de rituais, repetições e mensagens sobre a importância do agir, lembra muito a série "Antes que o café esfrie", de Toshikazu Kawaguchi, inclusive, por também ter um local que é comum a todos. Lá, uma cafeteria escondida. Aqui, uma biblioteca, nos fundos de um Centro Comunitário em um distrito de Tóquio.

Toda vez que alguém, por vários motivos, é levado até lá, eles, num primeiro momento, se deixam encantar pela mulher grande e branca, quase transparente, como alguns descrevem. E depois ficam hipnotizados quando ela pergunta o que procuram. Nesse momento, surgem pensamentos sobre os dilemas individuais pelos quais estão passando. E ela, após uma breve conversa, digita rapidamente no teclado (tatatataata, os dedos praticamente somem enquanto faz isso) e imprime uma folha com as indicações de leitura. As primeiras referentes à pesquisa dos livros que foram buscar e, por último, uma sugestão que será o grande despertar. Junto, a pessoa ganha um brinde feito por meio da feltragem de lã. Há caranguejo, gato, globo terrestre, frigideira, aviãozinho.

A primeira história é sobre Tomoka, 21 anos, vendedora de roupas femininas. Ela trabalha em uma loja de roupas num grande centro comercial. Mas não vê sentido no que faz e se sente fracassada por ter saído de uma cidade pequena e ser uma simples vendedora na capital japonesa. Chega a julgar, secretamente, outra vendedora da loja que está há anos trabalhando no estabelecimento. O que vai levá-la à biblioteca é a busca por livros que ensinam a usar o Excel, pois acredita que desta forma encontrará um trabalho melhor em escritório. Mas acaba encontrando motivação para ter uma vida mais saudável e valorizar os contatos diários. Tudo por conta de um livro infantil que lhe é indicado: Guri to Gura [Guri e Gura], texto de Rieko Nakagawa e ilustrações de Yuriko Omura, publicado por Fukuinkan Shoten.

Ryo, 35 anos. Sua história começa em uma loja de antiguidades quando ainda era aluno do ensino médio. Infelizmente, a loja fecha e ele segue alimentando o desejo de ter algo parecido. A vida o leva a trabalhar em uma fábrica de móveis como contador. Ele namora uma moça mais nova que está empenhada em ter uma loja online para vender os colares que cria. Na biblioteca, vai em busca de livros que possam ajudá-lo a retomar o sonho de ter uma empresa, mas encontra um livro sobre plantas, que vai lhe mostrar que é possível encontrar o equilíbrio entre um sonho e o que a realidade nos apresenta. Para tanto, sua inspiração será o dono de uma livraria especializada em gatos. Curioso o quanto há de gato na literatura recente japonesa. Está aí um tema a ser estudado. Aqui o livro que levou para casa: Eikoku Oritsu Engei Kyokai to Tanoshimu Shokubutsu no Fushigi [O mistério das plantas: o melhor da Sociedade Real de Horticultura Britânica], de Guy Barter, tradução de Ayako Kita, publicado por KAWADE SHOBO SHINSHA.

"Havia gatos ali… Um deles, tigrado, dormia sobre uma almofada. Parecia com o gato de feltro de lã que ganhei da bibliotecária. Havia mais dois, outro tigrado e um preto, caminhando à vontade entre as estantes."

Natsumi, 40 anos, ex-editora de revistas. Esta foi uma das passagens que mais gostei. A protagonista é casada e tem uma filha pequena. Ao retornar da licença-maternidade, ela, que era editora de uma revista, foi enviada a outro posto de trabalho, sob a alegação de que, agora sendo mãe, não daria conta da carga de trabalho do seu cargo anterior. Isso a derruba, porque ama o que fazia. Enquanto isso, também enfrenta problemas em casa, já que as tarefas não são divididas com o marido, que não teve que abdicar de nada em prol da paternidade. Mas ela sempre guardou um sonho no coração, que era editar livros. A partir da leitura que lhe é sugerida pela bibliotecária, as coisas vão começar a caminhar nesta direção: Tsuki no Tobira [A porta da lua] e Shinsoban Tsuki no Tobira [A porta da lua (nova edição)], de Yukari Ishii, publicado por Hankyu Communications (primeira edição) e CCC Media House (nova edição).

Hiroya, 30 anos, desempregado. Ele gosta de mangás e sempre almejou viver por meio de seus desenhos. Mas até então nunca encontrou alguém que o apoiasse, pelo contrário. Vive com a mãe e, apesar de se envergonhar da sua situação, não tem forças para mudar. Resultado, vive de bicos e nunca se identificou com nenhum trabalho. Vai parar na biblioteca porque a mãe pede que ele vá ao Centro Comunitário fazer algumas compras. E lá se depara com a leitura que vai lhe inspirar a seguir adiante. O primeiro passo será ele próprio trabalhar no Centro Comunitário. O livro: Visual Shinka no Kiroku Darwintachi no Mita Sekai [Registro da evolução ilustrado: o mundo visto por Darwin e seus pares], de David Quammen e Joseph Wallace, tradução de Masataka Watanabe, publicado por POPLAR.

Masao, 65 anos, aposentado. Após passar quatro décadas na mesma empresa, fica completamente desorientado com a aposentadoria. Ao contrário dele, sua esposa está sempre disposta a encontrar pessoas e a experimentar novas atividades. E é ela quem vai incentivá-lo a aprender o jogo de go, para que seu tempo livre seja mais agradável. Nesta jornada, ele lamenta o tempo que perdeu com a filha enquanto priorizava o trabalho e outras agendas. Mas, como tudo, sempre haverá a possibilidade de se redimir. E isso acontece. Além dos diálogos com a filha, gostei da reflexão que Masao faz ao se deparar com caranguejos vivos que estão à venda em um aquário, espremidos, com pouca água e se mexendo como se estivessem a enviar algum sinal. E, de fato, há. Na placa, está escrito que eles podem ser comprados para serem consumidos ou para serem adotados, o que o comove e o faz pensar sobre sua própria condição dentro do mundo corporativo. Claro que o que viveu está longe da aflição que os bichos estão passando, mas usar os animais como metáfora de nossas questões psicológicas é algo bem comum na literatura. Vou deixar o trecho completo abaixo. Ah, ao ir atrás de livros que possam ensiná-lo a jogar o go, lhe é oferecida uma obra poética com animais: Genge to Kaeru [Astrágalos e sapos], de Shimpei Kusano, publicado por Gin-no-Suzu.

"Ao lado do congelador com porta de vidro onde estavam os cortes de peixe e os mexilhões, havia uma pequena mesa com um aquário quadrado de plástico transparente. Percebi algo se movendo. Olhando bem, havia caranguejos de água doce dentro. Olhei-os com atenção, me lembrando do caranguejo de feltro que tinha recebido de brinde da bibliotecária. Devia haver uns cinquenta ou sessenta deles. Submersos em pouca quantidade de água, eles se apertavam uns contra os outros. Um deles movia as pinças ligadas ao corpo achatado como se me enviasse algum tipo de sinal. Ao erguer os olhos, levei um susto. Em uma placa de isopor estava escrito em grandes letras vermelhas “Caranguejo de água doce”, e abaixo delas, em letras pretas, um pouco menores: “Para fritura! Para ser seu animal de estimação!” Animal de estimação? Ali era o setor de alimentação. Aqueles caranguejos deveriam estar sendo vendidos como alimento. Fiquei atordoado quando lembrei que havia a opção de adotar um deles como “pet”. Ou você os devora ou os ama. Os caranguejos ali estavam em uma encruzilhada de caminhos opostos. Senti minha garganta apertar ao imaginar o destino daqueles caranguejos dentro do aquário de plástico. Quem era eu perante minha empresa? Enquanto estava dentro da caixa, todos me bajulavam como gerente-geral, mas por fim acabei devorado pela organização corporativa. Examinando os sashimis, Yoriko se virou para mim. – Qual você prefere, carapau ou cavala? Ou quem sabe caranguejos? Yoriko os observou com profundo interesse. – De jeito nenhum – afirmei com uma voz embargada. – Nem pensar, ainda estão vivos. Não vamos comê-los. – Então que tal criá-los? – perguntou Yoriko em tom de brincadeira. Hesitei. Os caranguejos estariam felizes vivendo confinados em um aquário tão apertado? Não prefeririam estar enredados no torvelinho da cadeia alimentar? Ou esse seria apenas um pensamento racional da minha mente humana?"

Vale a leitura. Certamente, cada leitor irá receber as histórias de uma forma diferente.

"Cada um encontra um significado próprio no brinde que dou de presente. O mesmo acontece com os livros. Os leitores fazem suas próprias conexões com as palavras, independentemente da intenção do autor. Assim, cada leitor obtém algo único."

domingo, 4 de agosto de 2024

a vegetariana


"Onde já se viu gente que não come carne hoje em dia?!"



"A Vegetariana", da sul-coreana Han Kang, pode nos levar a uma falsa interpretação se considerarmos apenas o título. O livro não trata de vegetarianismo, defesa dos animais ou alimentação saudável. Publicado em 2007, o romance explora os delírios daqueles que não conseguem se adaptar aos padrões estabelecidos pela sociedade. Essa definição simplista, contudo, não captura a profundidade da narrativa de Kang, que nos deixa estarrecidos.

A vegetariana do título é Yeonghye, que, de repente, decide parar de comer carne. Até então, ela passava despercebida por todos, inclusive pelo marido, que só se casou com ela por considerá-la excessivamente comum, sem atrativos ou ambições, e que não competiria com suas próprias questões. Ele relata que não precisaria se esforçar para conquistá-la.

O romance é dividido em três partes, com narrativas sobre a protagonista feitas pelo marido, cunhado e Inhye, sua irmã mais velha. Só ouvimos sua voz nos poucos diálogos que mantém dentro do ponto de vista dos demais personagens. Há ainda algumas passagens oníricas em primeira pessoa, mas, de modo geral, sua suposta alucinação é percebida apenas através dos olhos dos outros.

O marido conta que ela passou a ser especial somente quando a viu jogando fora todas as carnes da geladeira. Até então, era apenas uma pessoa pacata e calada, sem nada que a destacasse. A decisão de parar de comer carne é acompanhada por um comportamento cada vez mais recluso.

"Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano. Para ser bem franco, não me senti atraído por ela na primeira vez em que a vi. Estatura mediana. O cabelo não era nem comprido nem curto. Tinha a pele levemente amarelada, as maçãs do rosto um pouco pronunciadas. Vestia-se de forma neutra, como se tivesse algum tipo de receio de se destacar. Calçando um par de sapatos pretos bastante sem graça, ela se aproximou da mesa em que eu a esperava. Não andava nem rápido nem devagar, sem firmeza, mas também sem muita fragilidade."

Ele se constrange, sobretudo, quando precisa levá-la a eventos sociais do trabalho. Em uma dessas ocasiões, sente vergonha ao ver como julgam a esposa por seus hábitos excêntricos. Além de vegetariana, ela também não usa sutiã, por exemplo.

"A primavera chegou, e minha mulher continuou assim. Passamos a comer somente verdura pela manhã. Até parei de reclamar. Quando uma pessoa muda de forma radical, não há outro remédio senão segui-la."

O ápice é quando há um jantar na casa da irmã e o pai se revolta, enfiando goela abaixo na moça um pedaço de carne. Como ela resiste com toda sua força, ele a esbofeteia. Yeonghye, então, corta seus pulsos na frente de todos. Curioso ou triste é ver que ninguém naquele ambiente fica do lado dela: mãe, marido, irmão, irmã, cunhado. A comoção, se é que podemos assim chamar, só vem quando o sangue jorra.

Na segunda parte, a história é sob a ótica do cunhado, marido da irmã. Ele vive para sua arte, que ninguém entende. No momento da loucura da cunhada, a quem pouco prestou atenção até aquele jantar, está num período de bloqueio criativo. Mas o incidente o reanima, principalmente quando a esposa diz que a irmã tem uma mancha de nascença nas nádegas. E isso vira uma obsessão. Ele só pensa na tal mancha e não sossega até que finalmente a vê. Para tanto, usa a arte. Chama a cunhada para fazer parte de uma performance artística na qual seu corpo será todo pintado de flores. Um amigo chega a participar, mas desiste quando vê que estão indo longe demais. E, de fato, foram.

"Foi nesse instante que lhe veio a imagem de uma flor azul-esverdeada, da cor do mar, saindo do meio das nádegas de uma mulher. A possibilidade de sua cunhada, irmã mais nova de sua esposa, ainda ter a mancha mongólica na bunda o intrigou. Inexplicavelmente, ele associou a informação à ideia de homens e mulheres, com flores pintadas pelo corpo, copulando, formando em sua cabeça uma clara relação de causa e efeito."

O fim dele será melancólico, refletindo a vida medíocre que leva. Aliás, cabe ressaltar que o marido da protagonista admira secretamente a cunhada. Assim como o marido de Inhye irá desejar, sob aspectos questionáveis, Yeonghye. Será ele, mesmo que com intenções duvidosas, o único que reconhece a profundidade de sua transformação.

"Vendo-a aceitar sem resistência todo aquele processo, considerou-a um ser sagrado, nem humano nem animal, ou talvez um ser entre o vegetal, o animal e o humano, tudo ao mesmo tempo."

A terceira parte é contada por Inhye, que, apesar de ser vista como bem-sucedida, ponderada e que sabe conciliar todas suas funções, tem grandes ressentimentos. E muito diz respeito à irmã mais nova, que nunca conseguiu cuidar, de fato. Caberá a ela acompanhar o declínio físico de Yeonghye.

Ambas carregam feridas da infância marcada por um pai autoritário e violento, o que se torna evidente no depoimento de Inhye, que lamenta não ter conseguido proteger a irmã como gostaria. Ela recorda que o irmão aliviava a tensão batendo em outros meninos, enquanto ela se mantinha sempre obediente. Yeonghye, por sua vez, permanecia em silêncio. Somente mais tarde, compreende que esse silêncio era a forma que encontrou para se rebelar. Recorda da pequena Yeonghye querendo se perder na floresta.

Ao seguir as regras, Inhye cumpria o papel que lhe era destinado, mas isso a deixou exausta. Em um momento de crise, ela foge para as montanhas, onde experimenta por um instante o vislumbre da liberdade, mas retorna, principalmente por causa do filho. Agora, carrega a culpa por ter quase abandonado tudo. Esta é a parte mais intensa do romance, com explosão de sentimentos, vontades, conflitos e muita, muita dor. Mas ela precisa aguentar mais um pouco, como o marido pedia e como a irmã sugere, já nos momentos finais. Quem sabe esta não é a chance de ajudar a irmã mais nova, deixando que ela, finalmente, parta, tornando-se a árvore que acredita ser.

"Os olhos de Yeonghye brilham. Um sorriso enigmático ilumina seu rosto. “Você tem razão, mana. Não vai demorar muito e deixarei de falar, de pensar… Falta pouco…”, diz a irmã mais nova, esboçando um sorriso e suspirando com força."

O devir-vegetal

A jornada de Yeonghye pode ser compreendida por meio do conceito de "devir", discutido por Deleuze e Guattari, que implica um processo contínuo de metamorfose. Durante sua internação em um sanatório, ela foge e mais tarde é encontrada na floresta, imóvel, como se fosse uma árvore.

"Encontraram-na sem se mexer, de pé em um barranco recôndito e distante da mata, como se ela fosse uma das árvores de tronco grosso sob a chuva."

Aos poucos, para completamente de comer, aceitando apenas água. Seu corpo definha enquanto sua irmã implora para que ela coma, chegando a levar frutas e seus pratos favoritos, mas nada a faz mudar de ideia. Yeonghye afirma categoricamente que só precisa de água e de ficar de cabeça para baixo, pois, afinal, as árvores são assim. A vegetariana, neste sentido, é essa mulher vegetal, em processo de metamorfose decorrente de seus sonhos com carne, sangue, assassinato e passado traumático. Para suportar, só lhe resta vegetar, criar raízes com o que há de mais seguro: a natureza e vida que pulsa com toda a intensidade.

"Os olhos de Yeonghye brilham. Um sorriso enigmático ilumina seu rosto. “Você tem razão, mana. Não vai demorar muito e deixarei de falar, de pensar… Falta pouco…”, diz a irmã mais nova, esboçando um sorriso e suspirando com força."

Assim como Gregor Samsa, de Franz Kafka, que se transforma em um inseto em seu quarto, para o espanto de sua família, tanto no autor tcheco quanto na autora coreana, a realidade dos personagens é difícil de ser compreendida. Jamais saberemos o que realmente se passa no corpo e na mente desses personagens repletos de idiossincrasias.

"Tenho alguma coisa entalada na boca do estômago. Não sei o que é. Mas está sempre aqui. Mesmo depois de parar de usar sutiã, não deixei de sentir esse incômodo. Por mais que respire fundo, esse aperto no peito não passa. Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar."

Representação dos animais

Importante destacar alguns aspectos relacionados aos animais no livro. O primeiro diz respeito à própria negação da animalidade por parte de Yeonghye ao se ver como vegetal, e todo seu esforço para se transformar em árvore.

No entanto, a descrição dos sentimentos e pensamentos de Yeonghye revela um paradoxo profundo em sua relação com a carne. Por um lado, ela rejeita completamente o consumo de carne, desejando se transformar em uma forma de vida vegetal, pura e não-violenta. Por outro lado, ela sente um desejo visceral e incontrolável por carne, manifestando-se em pensamentos violentos e físicos, como a saliva acumulando em sua boca ao passar por um açougue. Ela pensa em esganar uma pomba e o gato do vizinho. E ela, efetivamente, mata com uma mordida um passarinho durante sua primeira internação. Aqui não cabe entrar em uma dicotomia entre ser isso ou aquilo. Somos complexos, como diria Edgar Morin. Somos natureza, somos cultura.

Outro ponto a ser destacado é o utilitarismo dos animais. Percebemos isso na reação extremamente exagerada de todos quando confrontados com a decisão da personagem de parar completamente com o consumo de carne e seus derivados. O pai chega a enfiar, à força, um pedaço de carne de porco na boca da filha, evidenciando da pior maneira possível a não aceitação de um cenário diferente. E o porco aqui é apenas isso: alimento. Estamos dentro de uma sociedade carnívora, que vê na carne a principal fonte de proteínas e, de algum modo, de ascensão social. Tanto que nas eleições de 2022 para presidente do Brasil, a picanha virou termômetro para avaliar o desempenho dos dois candidatos no segundo turno, conforme observamos na reportagem do Poder 360, Entenda a “guerra da picanha” travada por Lula e Bolsonaro.

Em terceiro lugar, temos o cão que a mordeu quando criança. O que vem depois foi muito difícil de ler. A narrativa de Kang rasga nossa alma. O cachorro foi brutalmente maltratado pelo pai. Dói imaginar o seu sofrimento. E dói mais ainda saber que isso é deveras comum, não só na Coreia do Sul, como no mundo inteiro. Para finalizar, ele é preparado e servido para a jovem Yeonghye. Diz-se que seu ferimento só será curado se ela comer a carne daquele que a feriu. Vale ainda ressaltar que não há estranhamento em comer cachorro. Somente agora, em 2024, foi aprovada uma lei que proíbe o consumo de carne canina, a valer a partir de 2027.

Por fim, os sonhos. São eles o estopim para o desenrolar de Yeonghye. Ela sonha com pedaços enormes de carne. Vê nas mãos sangue fresco dos pedaços que ela comeu. Em seus pesadelos vê crânios e olhos ferozes de animais, que parecem sair de dentro dela. Ao mesmo tempo, ela se vê assassinando. Seriam animais humanos? Tudo se confunde nessa animalidade da qual ela tenta fugir. E é justamente esta tensão que constitui o humano, segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben, que estuda a relação dos animais e dos humanos em suas obras. Nós só podemos nos afirmar como humanos ao transcender e transformar a animalidade que nos fundamenta. Essa transformação ocorre através de uma ação de negação, na qual tentamos dominar e, eventualmente, superar nossos instintos e características animais. O conflito interno de Yeonghye, portanto, não é apenas pessoal, mas carrega o significado de ser humano.

"O homem existe historicamente apenas sob esta tensão: ele pode ser humano apenas na medida em que transcende e transforma o animal antropóforo que o sustenta, somente porque, por meio da ação negadora, é capaz de dominar e, eventualmente, destruir a sua própria animalidade."
(GIORGIO AGAMBEN, em O Aberto)


"Era um bosque escuro. Não havia ninguém nele. Machuquei o rosto e lanhei os braços ao passar pelos arbustos. Tinha certeza de que estava acompanhada de outras pessoas. Acho que me perdi sozinha. Fiquei com muito medo. Sentia frio. Atravessei um arroio congelado e encontrei uma construção iluminada que mais parecia um celeiro. Passei por uma cortininha de palha, e então eu vi. Centenas de pedaços de carne, uns pedaços enormes, estavam pendurados em sarrafos. De alguns deles pingavam gotas de sangue vermelho ainda fresco. Abri caminho por incontáveis pedaços de carne, mas não conseguia encontrar a saída do outro lado. Meu vestido branco ficou completamente encharcado de sangue. Não faço ideia de como saí de lá."

sábado, 27 de julho de 2024

literatura e animalidade



"Os animais, sob o olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão."

Logo na primeira frase de "Literatura e Animalidade", Maria Esther Maciel afirma que ainda estamos longe de entender os animais.

Este enunciado estabelece o tom de seu estudo, que desafia a percepção tradicional dos animais como meros objetos ou símbolos à disposição do entendimento humano.

A autora comenta ainda a maneira com que tratamos os animais, variando conforme a utilidade que apresentam para nós.

"Temidos, subjugados, amados, marginalizados, admirados, confinados, comidos, torturados, classificados, humanizados, eles não se deixam, paradoxalmente, capturar em sua alteridade radical."

Ao questionar o que é humano e o que é animal, Maciel aponta para as tentativas científicas de definir essa relação, frequentemente apoiadas na racionalidade e na "máquina antropológica do humanismo". Este termo critica a tendência do pensamento humanista ocidental de colocar os humanos no centro do universo, assumindo uma superioridade inerente sobre o mundo natural, incluindo os animais.

A separação entre humanos e animais, acentuada no Ocidente durante o século 18 com a ascensão do pensamento cartesiano, tratava os animais como meras máquinas sem alma. Sob essa visão, estudos científicos rigorosos, como a taxonomia de Lineu, começaram a moldar a investigação zoológica, influenciando também o surgimento dos primeiros zoológicos na Europa.

Após essa introdução, a atenção se volta para o campo do imaginário e para espaços considerados alternativos do saber humano, "nos quais a palavra animal ganha outros matizes, inclusive socioculturais". Maciel aborda a evolução na forma como se denomina obras literárias que trazem o animal. Antes, falava-se em bestiário, termo que ela critica devido às suas conotações negativas e medievais.

"Além disso, por suas origens medievais, o termo deriva da besta, palavra completamente contaminada pela carga simbólica negativa que lhe foi conferida pela tradição judaico-cristã ao longo dos tempos, afinando-se, por extensão, com a noção de bestialidade - qualidade daquilo que é brutal, grosseiro, monstruoso e maligno."

Assim, o termo bestiário esvazia o animal de anima, reforça sua dimensão negativa e marca sua exclusão da sociedade dos chamados "seres racionais".

Surge, felizmente, o termo zooliteratura, mais abrangente e que consolida tudo o que se diz sobre os animais nas diferentes práticas literárias. 

"Conjunto de diferentes práticas literárias ou obras (de um autor, de um país, de uma época) que se voltam para os animais. Nesse sentido, é bem mais aberto e menos cristalizado que o termo bestiário, uma vez que este se inscreve sobretudo na ordem do inventário, do catálogo, designando uma série específica de bichos reais e imaginários, podendo, também - de forma mais genérica -, designar uma coleção literária e/ou iconográfica de animais imaginários ou existentes de um determinado autor ou período cultural."

A autora baseia-se, sobretudo, na obra "O animal que logo sou", do filósofo francês Jacques Derrida, que utilizou o termo zooliteratura ao abordar os animais de Francis Ponge e zoopoética para falar dos animais de Franz Kafka. Ao preferir esses termos ao do bestiário, Derrida os transforma em conceitos que abrangem obras literárias focadas nos animais. 

"O termo zoopoética poderia ser empregado para designar tanto o estudo teórico de obras literárias e estéticas sobre animais quanto a produção poética específica de um autor, voltada para esse universo 'zoológico', como fez Derrida."

Dentro deste contexto, a obra de Franz Kafka, especialmente A Metamorfose (1915), é precursora na inserção de animais para além da visão antropocêntrica, inaugurando uma tradição literária que explora a interseção entre o humano e o não humano através de uma crítica profunda. Ao transformar o protagonista, Gregor Samsa, em um inseto, Kafka traz à tona a animalidade do humano por meio de uma situação surreal que ilumina as qualidades animais inerentes aos humanos. Essa abordagem kafkiana influenciou muitas obras literárias subsequentes, que, embora ainda recorram a alegorias derivadas de bestiários antigos e fábulas tradicionais, agora incorporam essa nova perspectiva, redefinindo o campo da zooliteratura ocidental.

"Trata-se, por isso, de uma obra precursora no horizonte da literatura moderna e contemporânea que problematiza as fronteiras entre humanidade e animalidade. Fronteiras essas que demandam, mais do que nunca, uma abordagem pautada no paradoxo, visto que, ao mesmo tempo que são e devem ser mantidas - graças às inegáveis diferenças que distinguem os animais humanos dos não humanos -, é impossível que o sejam mantidas de modo idêntico, já que os humanos precisam se reconhecer animais para se tornarem humanos." 

Maciel traz inúmeros exemplos a partir de suas análises que justificam seu enunciado e tese. Da Argentina, ela discute as obras de Jorge Luis Borges, como "Manual de zoología fantástica" e "O livro dos seres imaginários", que exploram criaturas reais e mitológicas, expandindo o imaginário animal na literatura. Do Brasil, destaca João Guimarães Rosa com "Meu tio o Iauaretê", que explora a metamorfose e a relação mística entre humanos e animais no sertão brasileiro. Também inclui Clarice Lispector, com "A paixão segundo G.H." e "O búfalo", que tratam da introspecção e da alteridade animal, e Machado de Assis, com "Ideias de canário" e outras obras que questionam a racionalidade humana em comparação com o saber animal.

Da África do Sul, ela aborda J.M. Coetzee e suas obras "Desonra" e "A vida dos animais", que exploram as questões éticas e políticas relacionadas ao tratamento dos animais na sociedade, revelando a marginalização e a violência enfrentadas por esses seres. De Portugal, Maciel menciona autores como Herberto Helder, cujas obras "Última ciência" e "Poemaco" exploram a presença dos animais na poesia, e António Osório, que, em um de seus escritos traz a comunicação das vacas por meio do olhar. Esses são apenas alguns exemplos.Vale a leitura completa para absorver tudo o que esta obra nos proporciona. 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

memórias de um urso polar


"Você pode pensar que nasci com talentos acrobáticos, que treinei muito para aperfeiçoar minhas habilidades e, então, mostrei orgulhosa os resultados para minha plateia. Essa interpretação é completamente falsa. Nunca escolhi uma profissão; minha vocação nem sequer foi discutida. Eu andava no triciclo e recebia cubos de açúcar como recompensa. Se tivesse, em vez disso, jogado o triciclo longe, não teria mais recebido comida, e sim chicotadas."

Temos uma ursa-polar branca em uma conferência, caminhando em uma livraria e refletindo sobre os direitos humanos e obras de Kafka. E para tornar tudo ainda mais inusitado, essa mesma ursa-polar escreve uma autobiografia que se torna sucesso mundial. Ela transita por esses espaços sem nenhum estranhamento, aparentemente, por parte da espécie Homo sapiens.

É assim que começa nosso mergulho no romance, de 2014, da escritora japonesa Yoko Tawada, radicada na Alemanha. Aliás, seu livro está categorizado como um romance alemão.

"Memórias de um urso-polar" foi concebido a partir de um fato real que chamou a atenção do mundo inteiro: no fim de 2006, nasceu em Berlim um ursinho polar rejeitado pela mãe, ursa que trabalhou anos em um circo na Alemanha Oriental. Criado por funcionários do zoológico, seu nascimento gerou grande polêmica envolvendo ativistas dos direitos dos animais, a direção do local e a opinião pública. Muitos defendiam que ele deveria morrer, já que não estava em seu habitat natural. Argumentava-se que, criado por humanos, poderia desenvolver um apego que não lhe permitiria viver sozinho. O veterinário, no entanto, defendeu que ele poderia viver com humanos até a idade em que normalmente estaria com a mãe, ou seja, três anos. Knut acabou se tornando a principal atração do zoológico, responsável por significativas receitas financeiras, inclusive através da exploração de sua imagem em produtos licenciados. Os direitos autorais para contar sua história também foram vendidos. No Brasil, o livro "Knut. Como um ursinho polar cativou o mundo", de Juliana, Isabelle e Craig Hatkoff e Gerald R. Uhlich, chegou pela Editora Gaia. A obra mostra o zoológico como benfeitor, ignorando, porém, todo o passado de cativeiro do animal e dos verdadeiros motivos que fizeram dele um fenômeno mundial. Em 2008, foi lançado o filme "Knut e seus amigos", que conta sua história. Knut também estampou a capa da revista Vanity Fair. Infelizmente, morreu tragicamente em 2011, aos quatro anos, encontrado boiando no tanque que usava como piscina. O diagnóstico, concluído apenas em 2015, foi uma inflamação autoimune do cérebro. Este é apenas um resumo de sua história, que foi acompanhada de perto por milhares de pessoas ao redor do mundo. Seu tratador, Thomas Dörflein, ganhou notoriedade enquanto cuidava do pequeno animal, mas morreu pouco tempo após ter que se afastar de Knut, vítima de um ataque cardíaco. Um desfecho triste para uma história que começou errada. Muito se conjecturou sobre a afeição de Knut pelo tratador que cuidou dele. Mas, efetivamente, quais eram seus pensamentos?

O filósofo francês Dominique Lestel, em 2001, disse que subestimamos a comunicação dos animais, principalmente quando queremos avaliá-la a partir da nossa própria linguagem. A partir do estudo de vários etólogos, o autor nos apresenta experimentos que tentam desvendar o comportamento dos animais. Há padrões que são identificados, como a dança das abelhas em busca do néctar.

"Karl Von Frish define com rigor o fenómeno dessa dança inicialmente descoberta por N. Unhoc em 1823 e revela a sua extrema complexidade. Ele demonstra que existem duas espécies de dança. A primeira é circular: a obreira executa um ou mais círculos no sentido dos ponteiros do relógio num primeiro tempo, e no sentido inverso num segundo tempo. A outra espécie de dança é trepidante. A obreira colectora de pólen traça uma linha recta vibrando as asas (treze vezes por segundo). Regressa em seguida ao ponto de partida descrevendo um semicírculo à sua direita, descreve de novo uma linha recta, e em seguida outro semicírculo mas desta vez à esquerda. Esta manobra é repetida várias vezes de seguida." (Lestel)

A conclusão é que trata-se, sim, de um meio complexo de comunicação. Porém, ainda fica a pergunta se podemos dizer que elas são providas de linguagem. Pelo menos, tal e qual a concebemos.

"É surpreendente constatar, entre outras coisas, que a questão da comunicação é totalmente subestimada na avaliação do fenômeno cultural no animal, enquanto os antropólogos continuam a explicar que, se os homens têm culturas (e apenas eles, acrescentam in petto…) é porque o homem possui um sistema de comunicação de uma complexidade adequada - a linguagem. Que nível de complexidade podem atingir as comunicações animais? É interessante constatar que é extremamente difícil responder a esta pergunta aparentemente banal." (Lestel)

Outro filósofo francês, Jacques Derrida, afirmou, cinco anos depois, que o pensamento do animal, se de fato existir, reside na poesia. Teoria explorada pela professora brasileira Maria Esther Maciel, que pesquisa sobre os animais na literatura, a zooliteratura.

"Pois o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia, eis aí uma tese, e é disso que a filosofia, por essência, teve de se privar. É a diferença entre um saber filosófico e um pensamento poético." (Derrida)

Tawada assumiu um sujeito animal ao nos inserir sob os pelos brancos da ursa-polar que, dentre suas atividades circenses, hospeda-se em hotéis e participa de jantares. O melhor da leitura é se deixar levar pela narrativa. O livro é dividido em três partes: a primeira, destinada à avó de Knut, que não tem nome. Ela é sempre referenciada como escritora, ursa, conferencista e artista circense. A segunda parte conta a história de Toska, sua mãe, que divide o palco com a domadora Ursula, seu espelho humano. Na terceira, acompanhamos os primeiros passos de Knut. São capítulos que podem ser considerados de forma isolada, mas que entrelaçam histórias e sentimentos.

Logo no início de "A teoria da evolução da avó", surge estranhamento e dúvidas sobre a narradora principal. Seria uma ursa ou uma mulher? A narrativa começa com a matriarca relembrando momentos de sua infância, já sob os cuidados de um humano que lhe fazia cócegas, a alimentava e que, de repente, atou suas patas, de modo que ficar em pé se tornou a única forma de aliviar a dor. Assim começam os treinamentos para os espetáculos destinados a outros humanos.

"Minha língua ainda conseguia se lembrar do gosto do leite materno. Eu pegava o dedo indicador daquele homem com a boca e chupava, o que me acalmava. Os pelos que cresciam no nó dos seus dedos eram como cerdas de uma escova. O dedo se arrastava como verme dentro da minha boca e cutucava. Ele então empurrava meu peito, convidava-me para dentro do ringue."

Não há dúvidas, na primeira página, que estamos diante de uma narradora personagem contando sua trajetória de urso. Porém, logo nos deparamos com esta passagem, que me fez imaginar um corte para outra personagem:

"Escrever: um ato estranho. Quando olhei para a frase que havia acabado de colocar no papel, senti vertigem. Onde estou agora? Entrei em minha história e desapareci nela."

A leitura segue e somos apresentados à sua rotina, que inclui várias participações em congressos. Inclusive, é bem participativa, questionando e sempre dando sua opinião sobre os diversos movimentos abordados.

"Neste dia, participei de um congresso. Ao final, todos os participantes foram convidados para um jantar comemorativo. Quando voltei para o hotel, à noite, tinha uma sede de ursa, que saciei tomando água direto da torneira. O gosto das anchovas oleosas não queria deixar minha boca. No espelho, vi minha boca manchada de vermelho. Era o trabalho magistral da beterraba. Eu não gostava muito de raízes, mas quando as via nadando em um borsh só queria beijá-las. Com as ilhas de gordura, que me abriam o apetite para carne, a beterraba parecia irresistível."

"As molas rangeram sob meu peso de ursa. Sentei no sofá e pensei que a conferência tinha sido, de novo, desinteressante, mas me levara inesperadamente de volta à minha infância. O tema da discussão era a importância da bicicleta para a economia nacional."

Então, a autora começa a nos confundir. Estaríamos diante de um devir-animal, conceito do filósofo francês Gilles Deleuze e do psicanalista Félix Guattari, e que trata do processo de transformação no qual um ser humano se identifica com características ou comportamentos animais?

"A parte superior do meu corpo, macia e corpulenta, é envolvida por pelo branco. Quando levanto meu braço e movo meu tórax um pouco para a frente, centelhas de luz estonteantes voam no ar. Eu me encontrava em meio à ação, enquanto as mesas, as paredes e até as pessoas presentes empalidecem lentamente e se confundiam com o plano de fundo. A cor branca e brilhante de meu pelo se diferencia do branco comum. É permeável. Assim, a luz do sol podia atravessar o pelo e alcançar minha pele, sob a qual era cuidadosamente conservada. Essa é a cor dos meus antepassados, que permitiu que sobrevivessem no círculo ártico."

Seria algo como o homem de Franz Kafka que se vê transformado em um inseto? Uma mulher, porém, tomada pelo espírito de uma ursa-polar. E a narradora continua a nos perturbar mostrando sua interação com seres humanos e alguns personagens que nos deixam dúvidas se são humanos ou não, como o Leão Marinho. Seria apenas uma pessoa que lembra as feições do animal ou o próprio mamífero pelo qual é chamado.

"Lembrei-me de um homem que era chamado de `Leão-Marinho`. Ele era editor de uma revista literária. Quando minha via nos palcos ainda estava a todo vapor, ele era um de meus fãs, e me visitava no camarim com frequência cum um luxuriante buquê de flores."

"Eu também me convenci, à primeira vista, de que nossos corpos não poderiam nunca se unir no ato sexual: o dele era úmido e escorregadio, enquanto o meu era seco e áspero. Tudo o que rodeava sua barba era esplendidamente formado, enquanto as pontas de seus quatro membros eram pateticamente fracas. Em contraste, minha própria força de vida se concentrava nas pontas dos meus dedos. Ele era careca de nascença, enquanto eu era toda coberta por um pelo grosso, da cabeça até a zona mais íntima. Nunca seríamos um bom casal. Mesmo assim, uma vez acabamos nos beijando. A sensação era como se um minúsculo peixe estivesse se debatendo em minha boca."

Aliás, Franz Kafka e seus contos que trazem animais são referenciados e analisados na obra pela grande ursa, especificamente "Investigações de um cão" e "Um relatório para uma academia". No primeiro, o narrador (o cão) está preocupado com o presente, ponderando sobre sua existência ao invés de criar um passado imaginário. Isso a leva a se questionar por que deve inventar um passado autêntico em vez de escrever sobre o presente. Já em "Um relatório para uma academia", a história de um macaco que relata sua transformação em humano a fascina, apesar de despertar também sentimentos de raiva. Para ela, o macaco, que naturalmente pertence a um ambiente tropical, não tem que querer ser um humano, afinal, questiona, qual a grande vantagem em andar sob duas pernas?

E assim vamos acompanhando sua narrativa, o processo de criação da autobiografia, sua falta de identidade: seria russa? alemã? canadense? Nascida na Rússia, ela fez sucesso com o livro que escreveu e, em plena Guerra Fria (sem mencioná-la diretamente), tornou-se alvo de censura e foi "convidada" a ir para a Sibéria participar de um projeto de plantação de bananeiras. Em sua inocência, não compreendeu, de imediato, do que se tratava. Na sequência, o que parece ser uma operação de resgate a leva para Berlim Ocidental, sob o pretexto de outra conferência. De lá, surge a oportunidade para ir ao Canadá, retornando posteriormente para a Alemanha. Enquanto troca de idioma ao passar de um país a outro devido às diversas circunstâncias, ela se pergunta quem realmente é. Até que se casa (outro urso, um homem?) e dá à luz a Toska.

Entramos, então, em "O beijo da morte". Aqui temos a voz da mãe de Knut e de sua treinadora, Ursula, que se propõe a escrever a biografia da ursa que adestra. Vale destacar que no texto original o nome da domadora é Barbara, já que, em alemão, "Bär" (urso) e "Barbara" compartilham uma sonoridade semelhante, enquanto em português, "ursa" e "Ursula" ressoam de forma parecida.

Acompanhamos a jornada de Ursula rumo ao mundo do circo. Desde a curiosidade até o primeiro contato com os animais. E aqui há uma mistura do que ela poderia dominar (jumento, cavalo, leão), o que temia (cachorro) e no que se transformava durante seus devaneios (iguana, urso). Enquanto isso, Toska atua como se fosse sua psicóloga, dando conselhos e ajudando-a a compreender seu passado, especialmente nos diálogos durante viagens oníricas ao Polo Norte.

O relacionamento entre as duas beira o fantástico, aliás, como todo o romance. "O beijo da morte" é o ápice do espetáculo circense conduzido por Ursula, no qual ela coloca um cubo de açúcar na língua, oferecendo-o a Toska.

"Invejo os habitantes do polo Norte. Lá não existem guerras.
Não. Mas mesmo assim chegam lá pessoas com armas. E atiram em nós.
Por quê?
Não sei. Ouvi dizer que os seres humanos têm um instinto caçador. De instinto não entendo nada.
Acho que a caçada antigamente era importante para a sobrevivência dos seres humanos. Hoje não mais, só que eles não conseguem parar. O ser humano talvez seja feito de movimentos sem sentido. Por isso, não reconhece mais os movimentos necessários para viver. É manipulado pelos restos de suas lembranças."

O Polo Norte é retratado nos sonhos de Ursula como um lugar idílico e onírico, onde ela anseia mergulhar no ar gelado e na paisagem nevada, livre das complexidades e confinamentos de sua vida circense. Vale para a mulher. Vale para a ursa. Esse desejo pelo Polo Norte é ecoado em seus momentos de introspecção e é usado metaforicamente para representar um estado de liberdade que almeja, contrastando com a realidade, cheia de amarras, de sua vida: marido, chefe, colegas do circo, afirmação de sua capacidade.

"Prometi a você que ia escrever a história de sua vida. Até agora só escrevi sobre a minha. Desculpe.
Não tem problema. Primeiro você deve traduzir sua própria história em palavras. Então sua alma estará desobstruída e, assim, terá lugar para uma ursa.
Você tem a intenção de entrar em mim?
Sim.
Estou com medo."

No primeiro capítulo, a narrativa nos introduz a uma ursa que permanece sem nome, mergulhando-nos em uma atmosfera de incerteza onde não é claramente definido se estamos diante de um animal, de um ser humano ou de uma entidade em metamorfose. Há um jogo de identidades entre o eu humano e o eu animal. Na interação entre Toska e Ursula, essa dualidade se manifesta com mais clareza. Apesar da aparente simbiose, a dinâmica de poder é questionada, desafiando a noção tradicional de supremacia humana. A passagem a seguir captura a tensão entre identificação e distinção, mas também propõe uma reflexão sobre a igualdade intrínseca entre as formas de vida, questionando as barreiras impostas pelo especismo.

"Acordei do sono e vi Toska à minha frente. Ela estava curvada e dormia. Seu travesseiro era seu braço esquerdo. Como se fosse uma imagem espelhada, eu estava na mesma posição."

Na sequência, somos apresentados ao pequeno Knut, o ursinho que inspirou o romance. E aqui temos sua história verdadeira contada sob o que poderia ser seu ponto de vista. Parece tudo tão real. Ele não sabe o que o espera, como foi parar ali, em uma caixa que imagina ser a totalidade do mundo, mas que, aos poucos vai se revelando pequena. Sons o levam a imaginar que há algo a mais a ser descoberto. Ele ouve ratos, pássaros e sem saber quem são, já os distingue. A afeição ao tratador, aqui no romance chamado de Matthias, é grande. Através de seu olhar ele assiste à TV e é apresentado ao mundo que lhe é possível ver. Sempre intermediado, sempre por meio do seu espaço restrito. Mathias, por outro lado, também é bastante apegado ao urso e parece se ressentir do espetáculo que aguarda o pequeno Knut. Procura estender qualquer momento que passam juntos na esperança que a grande aparição pública nunca chegue. Mas isso é inevitável. Cabe tornar o momento o mais natural ao ursinho, que se delicia por estar em um espaço maior brincando com o "pai", "amigo", "único ser que lhe é próximo". Juntos, passam a andar pelo zoológico de Berlim e Knut conversa com outros animais, todos presos e com suas questões. Aos poucos, o urso aprende a discernir o que se espera dele e entende que está ali para entreter. Há grande reflexão sobre o Polo Norte ao longo de suas interações, e Knut tenta entender esse lugar místico de onde dizem que ele veio.

"Todas as manhãs, Knut ouvia o canto dos pássaros que se alegravam quando a escuridão se retirava e o sol chegava para começar seu turno. Os seres alados ficavam atormentados, com medo de não achar nada para o café da manhã. Às vezes, o mais fraco entre eles era atacado por pássaros mais fortes e fugia gritando pelo céu. Knut não conseguia vê-los, mas seus sons eram vívidos o bastante para poder imaginar seus dramas rotineiros. De vez em quando, pássaros especialmente atrevidos vinham e olhavam dentro do quarto de Knut. Todos eram chamados de “pássaros”, mesmo que a única coisa que tivessem em comum fossem as asas. O pardal, uma mistura marrom de modéstia e agitação, o melro com seu humor despretensioso, a máscara pintada da pega-rabuda e o pombo, que não perdia a oportunidade de repetir seu lema favorito: “Mesmo? Que interessante. Eu não fazia ideia!”. Knut ouvia incontáveis vozes aviárias e imaginava que o mundo lá fora devia ser repleto de pássaros. Por que Knut, Matthias e o rato não tinham asas? Se tivesse asas nas costas, ele teria voado diretamente para a janela para olhar para fora."

Neste romance, Yoko Tawada nos transporta para uma visão do mundo sob a perspectiva animal. Lestel disse que ainda estamos muito distantes de compreender verdadeiramente a linguagem não-humana. Jacques Derrida e Maria Esther Maciel exploram ainda mais esse pressuposto, propondo que o pensamento animal encontra sua expressão na poesia. E foi exatamente isso que Tawada fez, por meio da literatura: nos deu um vislumbre de pensamentos muitas vezes ignorados e maltratados. Traz ainda as diferenças na forma como tratamos os animais, dependendo de sua utilidade ou apelo estético. Animais como os ursos polares e elefantes, por exemplo, são muitas vezes venerados e, sob o pretexto de proteção, capturados e aprisionados, enquanto outros, como ratos, são repudiados. Um diálogo marcante entre Knut e um panda reflete sobre como a "fofura" impõe aos animais um fardo de constante vigilância e exploração humana.

"Somente os pandas viviam em outra rua, mesmo pertencendo à família dos ursos. Eles não ficavam em uma área aberta, mas em uma imensa jaula. Não tinham terraço, mas contavam com um jardim de bambus. Matthias me disse: “Christian cuidou muito bem de Yang Yang. A morte dela o devastou. Ele ficou de luto por meses. Graças a você, voltou aos eixos”. Tentei imaginar como seria perder um protegido, ficar profundamente triste e depois voltar aos eixos, pondo-se de pé sobre duas ou quatro pernas, graças a um novo protegido. Meu fluxo de pensamento foi interrompido quando um panda, que até aquele momento estava mordiscando grandes folhas verdes, me olhou de cima a baixo e disse, seco: “Você é realmente fofo. Mas cuidado! Os animais que são fofos demais são os que estão morrendo”. Assustado, perguntei o que ele queria dizer com aquilo. “Você é fofo, e eu também. Como estamos em risco de extinção, temos que ativar o instinto de proteção dos humanos. Por esse motivo, a natureza está tornando nosso rosto cada vez mais adequado ao gosto humano, para que sejamos cada vez mais fofos. Olhe para os ratos. Eles não se importam nem um pouco se os humanos os consideram fofos. A espécie deles não tem nenhum risco de ser extinta.” A avó de Knut também traz esses pontos quando reflete sobre a maneira como os humanos entendem e atribuem os 'direitos humanos', contrastando-os com os direitos dos animais."

Essa reflexão também permeou os pensamentos da avó de Knut. Para ela, a ideia de 'direitos humanos' parecia uma noção distorcida, uma construção puramente humana que ignorava as complexidades e os direitos de outras formas de vida.

"Humanos que só pensavam em humanos tinham criado o conceito de direitos humanos. Um dente de leão não tinha direitos humanos, nem mesmo um aguaceiro, uma, uma água-viva, a chuva, o coelho. Talvez uma baleia tivesse. Lembrei-me do texto que li em uma conferência intitulada: 'A caça às baleias do capitalismo`: os grandes mamíferos tinham mais direitos do que os menores, como o rato, o que provavelmente se devia ao gosto de alguns grupos humanos, que davam mais valor a animais maiores. Entre os mamíferos que não eram vegetarianos nem viviam na água, nós, ursos-polares, éramos os maiores. Além daquela teoria, eu não conseguia pensar em nenhum motivo pelo qual me perseguiram para tentar me dar os tais direitos humanos."

A escritora nos encoraja a termos uma compreensão mais empática e poética da vida animal. Ao abordar as consequências do aquecimento global e das catástrofes ambientais, faz um apelo urgente para reconsiderarmos nossa relação com todos os seres vivos. Como bem pontua Maria Esther Maciel, Tawada, ao escrever essas biografias ficcionais (ou reais, no caso de Knut), que entrelaçam humanos e não humanos nos lembra que, no final, todos compartilhamos o mesmo planeta.

"Ela compõe três autobiografias ficcionais de ursos num só livro, através de um engenhoso entrelaçamento de mundos humanos e não humanos, criando um complexo diálogo entre as narrativas em primeira e terceira pessoas. Ao fazer isso, Tawada se empenha em 'traduzir' para palavras aquilo que imagina serem os pensamentos mais íntimos dos animais, enquanto simultaneamente questiona e redefine nossos conceitos arraigados de humanidade e humanismo. Além disso, ela aborda as devastadoras consequências do aquecimento global e das catástrofes ambientais para a vida no planeta." (Maria Esther Maciel)

O romance culmina com uma cena maravilhosamente triste, na qual Knut, sob a neve que começa a cair, se encanta, vivenciando um breve vislumbre de liberdade, ao menos naquele instante efêmero.

"Algo mais escuro que a luz voava no entremeio. Um floco de neve. Estava nevando! Mais um floco. Neve! Mais um floco. Neve! E mais um floco. Neve! Os flocos dançavam aqui e ali. Neve! À primeira vista, parecia surpreendentemente escura, apesar de não ser nada mais do que uma branca cristalização. Neve! Que magnífico perceber que o brilho das cores em movimento instantaneamente escurecia. Neve! Os flocos giram ao cair. Neve! Mais um floco. Neve! E mais um. Neve! Não tinha fim. Eu só olhava pra cima. De todos os lados, ao meu redor, folhas brancas voavam como as folhas de outono em uma tempestade. A neve era uma espaçonave, levou-me junto e voou o mais rápido que podia em direção ao crânio — ao crânio de nossa terra."