“Não é absurdo, é?, se ocupar daquilo que as pessoas têm em comum em vez daquilo que diferencia um do outro.”
Aqui temos uma coletânea de contos, ou ensaios, sobre a personagem fictícia. Conhecemos, portanto, um pouco mais sobre sua história e sobre os motivos que foram levando-a a abordar a crueldade em todas as suas esferas, contemplando os animais que muitas vezes acabam invisíveis. São oito capítulos sobre filosofia, literatura, mitologia e temas que percorreram toda sua trajetória, profissional e pessoal.
Em Realismo, a personagem nos é apresentada. Nascida em 1928, em Melbourne, na Austrália, está com 66 anos no momento descrito neste primeiro conto. Casou-se duas vezes e tem um filho de cada um desses relacionamentos. “Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos.”
Aqui, ela se prepara para receber um dos maiores prêmios literários. Está com seu filho John, professor de física e astronomia, o mesmo que a acompanha em A vida dos animais. Percebe-se o desconforto dela com as cerimônias que cercam o prêmio, como o jantar, a entrevista e a própria premiação. Sabemos que John sentiu muito a falta da mãe durante a infância, já que ela costumava se isolar para escrever, deixando ele e a irmã de lado, algumas vezes trancados do lado de fora do cômodo usado como escritório. “Desde que se conhece por gente, sua mãe sempre se isolou de manhã para escrever. Nenhuma interrupção sob qualquer circunstância. Costumava sentir-se uma criança infeliz, solitária e não amada. Quando estavam com muita pena de si mesmos, ele e a irmã sentavam do lado de fora da porta trancada e soltavam pequenos gemidos. Depois de gemer passavam a cantarolar ou cantar, e se sentiam melhor, esquecendo o abandono.”
Tenho que ser solidária com Costello. Ela trabalhava em casa, e talvez justamente isso tenha sido um problema na época. Os filhos achavam que ela os ignorava, quando, na verdade, ela precisava daquelas manhãs para produzir e se dedicar ao ofício que havia escolhido e que, pelo que lemos, era sua paixão. Agora, ao estar com a mãe, que aprecia sua companhia e se sente confortável ao lado dele, John vê uma mulher velha e frágil.
Por se sentir renegado pela mãe, John só foi ler os livros dela muitos anos depois, aos 33 anos. Foi sua vingança. Um colega psiquiatra me disse que as crianças são as maiores especialistas em fazer a mãe sentir culpa. Eu tenho uma filha e sei exatamente o que ele quis dizer. Até entendo o que John sentiu quando criança. Mas e as figuras paternas neste movimento? Qual parcela de culpa lhes foi dada? Incompreendida, porém, ela seguiu.
Temos, na sequência, A vida dos animais 1: os filósofos e os animais e A vida dos animais 2: os poetas e os animais, sobre as quais falei com mais detalhe em outro texto.
Em As humanidades da África, voltamos um pouco no tempo e temos uma Costello mais jovem reencontrando um antigo amor em um evento durante um cruzeiro, momento em que também reflete sobre o racismo e as diferenças interraciais. Enquanto ela fala sobre o futuro do romance, ele trata especificamente do romance na África. Para ela, “o romance sugere como podemos explorar o poder de o presente produzir o futuro. É por isso que temos essa coisa, essa instituição, esse veículo chamado romance.”
Já ele fala do individualismo que marca a leitura dos romances, algo que não combina com a cultura africana, que prioriza histórias orais que unem as pessoas. Reforça que “ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós, africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que eu estou lendo é mais interessante do que você poderia ser.”
Isso para dizer que, para o africano, o verdadeiro romance é o oral. “Na página ele é inerte, apenas meio vivo; ele desperta quando a voz, vinda do fundo do corpo, inspira vida a suas palavras, as enuncia em voz alta.”
A história do corpo incomoda Costello, que não parece se convencer. Mas há africanos escrevendo, e seu amigo lhe diz que esses livros não são escritos para africanos, diferentemente do romance inglês escrito para ingleses, por exemplo. O romance africano é escrito para estrangeiros. “Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores.”
O tema da África segue em As Humanidades, quando ela vai ao encontro da irmã que não vê há doze anos, Blanche, cujo nome agora é Irmã Bridget. Há anos ela mora na África, seguindo sua vocação religiosa. Hoje, vive em uma zona rural da Zululândia, na África do Sul. Também acadêmica, teve um livro que repercutiu muito bem e que lhe rendeu um título honorário, cuja cerimônia terá a presença da irmã.
Costello chega cheia de preconceitos a uma terra que nunca quis visitar e que considera feia. “Horas de sua vida perdidas na passagem sobre o Oceano Índico; inútil pensar que vai recuperá-las. Devia tirar uma soneca, recobrar-se, recuperar o bom humor antes de encontrar Blanche; mas está inquieta demais, desorientada demais, e - sente vagamente - indisposta demais. Será que pegou alguma coisa no avião? Cair doente entre estranhos: que horror! Ela reza para estar errada.”
Curioso o foco que Coetzee dá à idade, sempre trazendo Costello como velha, cansada, rabugenta. Enquanto narra a cena das duas irmãs conversando, ressalta que estamos diante de duas velhas em terra estrangeira. Duas estranhas, por não conhecerem de fato uma a outra, em um local que também não é delas. Como se tudo fosse um peso. A idade, o lugar, a conversa.
O tema da palestra, desta vez, é a humanidade, onde ela se instala e o que a literatura tem a ver com isso. Enquanto Costello acredita que os livros são suficientes para aprendermos sobre nós mesmos, Irmã Bridget acredita que eles não são necessários para enxergar a mesquinhez e as crueldades dos seres humanos, o que Costello entende como um ataque pessoal.
Surge, então, entre elas, um debate sobre o helenismo como a principal tentativa do humanismo europeu de oferecer uma visão secular de vida ideal, inspirada na liberdade, na beleza e na racionalidade atribuídas à Grécia antiga. Blanche afirma que esse modelo fracassou porque era elitista, ilusório e distante da experiência real das pessoas comuns. Já Elizabeth argumenta que, mesmo assim, os seres humanos precisam de esperanças e utopias para viver.
A conversa revela, assim, a crise das humanidades e a dificuldade contemporânea de encontrar novos sentidos coletivos para a existência. Ambas terminam a série de palestras e debates exaustas, com a certeza de que foi a última vez que se viram. Fica, por fim, a falta da completude entre ambas, tão necessária, mas distante.
Em O problema do mal, Costello está em Amsterdã para discursar sobre por que o mal existe e se há algo a ser feito diante dele. Há indícios de que se trata de um evento posterior à palestra sobre A vida dos animais e aos julgamentos que recebeu depois dela. Foi, inclusive, atacada por outra mulher, que a chamou de "vaca fascista", além de receber acusações de antissemitismo por comparar a forma como tratamos os animais ao Holocausto. Ela sabe que foi convidada para falar justamente por causa de toda essa repercussão e, ainda assim, aceita o convite. O tema geral do encontro é "Silêncio, Cumplicidade e Culpa?". Dentro do tema principal, fica encarregada de abordar "Testemunha, Silêncio e Censura".
O convite chega justamente quando ela está lendo Paul West escrever sobre Hitler. O capítulo discute os limites éticos da literatura diante da representação do mal. Elizabeth Costello questiona se dar voz e vida literária a figuras violentas, como carrascos nazistas, não significa também libertar novamente esse horror no mundo. É pensando sobre a obra de Paul West que relembra a violência que sofreu aos dezenove anos, quando foi vítima de uma tentativa de estupro seguida de espancamento, episódio que manteve em silêncio por décadas. “Foi seu primeiro contato com o mal. Entendeu que não era nada mais que isso, o mal, no momento em que a sensação de afronta do homem cedeu e um imperturbável prazer em machucar tomou seu lugar.”
Desenvolve sua palestra dizendo que certas coisas deveriam permanecer fora de cena, pois nem tudo o que pode ser narrado deveria ser mostrado. Seu argumento gira em torno da liberdade artística versus a responsabilidade moral de representar a crueldade. "Obsceno" é como ela define tanto o fato de Paul West trazer à tona as atrocidades cometidas por Hitler quanto a lembrança da violência que sofreu. Obsceno, aqui, no sentido literal da palavra: aquilo que deveria permanecer fora de cena.
Após o fiasco que considera ter sido sua palestra e da tentativa frustrada de chamar a atenção do escritor, acaba refletindo sobre o que ele faz, e que também é o que ela própria faz: mostrar a brutalidade do mundo. Ela faz isso ao falar dos abatedouros, por exemplo. “Ela, da mesma forma que Paul West, sabia como jogar com as palavras até elas estarem certas, palavras que lançariam uma corrente de choques elétricos pela espinha do leitor. Carrasca à sua maneira.”
Quando finalmente encontra Paul West, fica procurando nele o mal. A cena me remeteu imediatamente à Hannah Arendt e à banalidade do mal, expressão que chega a ser mencionada por Costello. Ela procurava um monstro que justificasse as atrocidades, mas encontrou apenas o banal. Da mesma forma que Hannah Arendt esperava encontrar, no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, um homem monstruoso, mas viu apenas um agente comum, medíocre até. Alguém que seguiu o caminho da obediência e da inércia diante do horror que estava à sua frente. E no caso específico do seu incômodo pela obra de West, trata-se de uma questão mal resolvida que está muito mais relacionada com o que ela mesma deixou de falar, e não o que o autor se propôs a retratar. Ela calou-se, e esse silêncio dói, seja pela impunidade, seja pelo acolhimento que nunca teve. Penso que a indignação com a obra do colega seja, em parte, a indignação que ainda sente ao lembrar da menina de dezenove anos que nunca viu sua dor reconhecida.
Em Eros, Costello conjectura sobre nossa relação com os deuses. Mas não se trata da dimensão metafísica. O que lhe interessa é o físico. Como seria uma relação sexual entre humanos e deuses? “Qual a sensação da carne do homem envolta em carne de deusa?”
O que interessa a Costello é imaginar, por exemplo, como foi a noite entre Anquises, um mortal, e a deusa Afrodite, união da qual nasceu Eneias, um dos grandes heróis da Guerra de Troia.
Essa resposta ela encontra na tradição poética, que diz que Anquises levou uma vida normal, envelheceu e permaneceu em seu universo ordinário. “Se não esqueceu aquela noite fatídica, não pensou muito nela, não como nós entendemos pensar.” Para ela, esta é uma experiência única, íntima.
E traz um paralelo com a Virgem Maria. Como teria sido aquele momento, aquele instante em que tudo aconteceu? Essa é sua dúvida. “Ninguém à sua volta tem o descaramento de perguntar: Como foi, o que você sentiu, como você aguentou? Mas essas perguntas devem ter ocorrido com certeza às pessoas, às suas amigas em Nazaré, por exemplo. Como ela aguentou?, devem ter sussurrado entre elas.”
Será que atingimos o divino nesse instante? É quando Costello chega aos outros modos de ser. Isso porque está falando do ponto de vista dos humanos, mas há muito além do que pensamos e sentimos, o que mostra a nossa limitação, uma questão kantiana, segundo a própria Costello. “Existem outros modos de ser além do que chamamos humano e nos quais possamos penetrar; e, se não existem, o que isso nos revela sobre nós mesmos e nossas limitações?”
Chega a comparar a curiosidade dos deuses em relação aos humanos com a nossa curiosidade pelos demais animais. Para ela, levamos vantagem em relação aos deuses por conta da mortalidade, o que nos dá mais urgência, mais vigor em tudo o que fazemos. “Gostaria de pensar que os deuses admiram, mesmo de má vontade, a nossa energia, a incessante criatividade com que tentamos escapar de nosso destino.”
E, mais uma vez, vem a referência à velhice. Costello imagina que talvez só faça essas perguntas porque já está velha demais para dançar.
Em No portão, Costello chega ao céu, ou ao que nos parece ser o céu, e encontra-se diante do portão que dá acesso ao local. Um homem, mais novo do que ela, informa que antes de entrar precisa apresentar uma declaração dizendo em que acredita. Todos ali têm uma crença. Ela também deveria ter a sua. O problema é que Costello não sabe responder.
Ela explica que sua profissão, como escritora, não é acreditar, mas escrever. Vive de ficções e de crenças provisórias. Uma convicção definitiva apenas limitaria seu trabalho. Pede, por isso, que sua condição de escritora seja considerada uma exceção.
Enquanto aguarda uma nova oportunidade para apresentar sua declaração, é encaminhada a um dormitório e passa os dias caminhando pela praça, observando as pessoas e refletindo sobre a própria vida. Em determinado momento, lamenta não ter vivido de outra forma. Pensa que talvez devesse ter se divertido mais e se pergunta se a vida dedicada à escrita lhe trouxe alguma vantagem naquele instante em que tudo parecia depender de uma única resposta.
Ao mesmo tempo, percebe que suas crenças surgem quase por acaso. Em um dia, acredita nas rãs. No outro, talvez acreditasse em gafanhotos ou mosquitos. Nada parece definitivo. Tudo é provisório, como sempre foi também sua literatura.
E assim ela segue refletindo sobre qual seria sua crença enquanto aguarda o julgamento final, o que me lembrou muito O processo, de Franz Kafka, ao qual ela mesma recorre, em que um homem é retirado de seu trabalho e levado a um tribunal sem saber exatamente por que está ali. Lembrei-me também de Alice no País das Maravilhas, que caiu em uma terra cheia de surpresas. Costello não sabe exatamente que lugar é aquele. Sabe apenas que precisa atravessar aquele portão.
Ela teve uma grande paixão e decidiu segui-la. Mas foi incompreendida. Ao longo de todo o livro é chamada de velha, como se esse fosse seu principal atributo, quando dedicou a vida a trazer reflexões e provocações. Não abandonou os filhos e, ainda assim, eles cresceram com essa sensação. Em nenhum momento surgem os pais, ou a responsabilidade que também lhes caberia. Fiquei pensando se um escritor homem seria acusado por se trancar em um quarto para escrever enquanto os filhos esperavam do lado de fora.
Tudo isso deixa marcas. Vamos conhecendo suas feridas, como a violência que sofreu aos dezenove anos, e entendendo melhor a mulher por trás da intelectual. Para mim, Costello foi, acima de tudo, uma personagem incompreendida. Alguém que nunca deixou de se apaixonar. Não pelo amor romântico, mas pelo conhecimento e pelo que podemos fazer com ele. Resta saber se essa resposta será suficiente no que parece ser seu juízo final.

Nenhum comentário:
Postar um comentário