sábado, 16 de agosto de 2025

oração para desaparecer


“De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.”

Imagine acordar e perceber que você está enterrada, com tudo o que isso pode representar. Pois é exatamente o que acontece com Cida. E, para piorar, ela não sabe quem é, não se lembra de nada sobre sua vida. O resgate é feito por um casal em Almofala, uma aldeia em Portugal. Tudo com a maior naturalidade do mundo, afinal, era esperado que ela surgisse ali, uma ressurrecta, como chamam pessoas que somem em um lugar do mundo e aparecem em outro, devidamente enterradas. Junto com Jorge, ela vai atrás de uma pessoa que cria passados, de modo que ela possa ter algo sobre o que contar. Aqui temos referência direta ao romance O vendedor de passados, do português José Eduardo Agualusa, especialmente pela presença de Félix Ventura, personagem que cria passados para outras pessoas, reforçando o tema da construção artificial da memória. E, para essa reconstrução, vale tudo, inclusive os sonhos que ela tem, e pelos quais Félix tanto se interessa. Aos poucos, as lembranças vão surgindo, e ela chega a quem realmente foi. Resta saber qual das duas personagens ela vai escolher.

Enquanto isso, em outra Almofala, desta vez no Ceará, temos um personagem já envelhecido, Miguel, que espera pela sua Joana, mulher que desapareceu misteriosamente.

Essa é a premissa de Oração para desaparecer, da brasileira Socorro Acioli. O romance é baseado em um fato real. Em Almofala, no Ceará, uma igreja construída no século XIX foi totalmente coberta por areia das dunas móveis. Cinquenta anos depois, ela reaparece praticamente intacta. Antes da invasão da areia, todos os santos foram retirados, o que levou a uma comoção geral. A história pode ser conferida aqui nesta reportagem do Diário do Nordeste.

Partindo desse acontecimento, a autora, que tem um pé no realismo fantástico, principalmente considerando que teve aulas com Gabriel García Márquez, nos presenteia com uma história instigante que brinca com crenças, misticismo e nos faz questionar o que é real, afinal de contas.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes.”




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