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sábado, 12 de abril de 2014

não atravesso a rua sozinho

Este livro, do gaúcho Fabrício Carpinejar, além de encantar pela boa sacada do título e pela delicadeza das ilustrações, feitas por Eloar Guazzelli, nos remete aos bons e simples momentos do passado. 

Já no início de "Não atravesso a rua sozinho" (2013), somos guiados a um passeio pela infância. Quando digo nós, refiro-me a todos que foram crianças lá na primeira metade da década de oitenta. Que tiveram uma televisão preto e branco. Que para chamar um amigo tinham que ir até a casa dele e bater palmas. Que brincavam na rua até tarde, sem que os pais ficassem preocupados. Usavam orelhões. Jogavam futebol de botão. Moravam em casas com muros baixos. Deixavam-se ser seguidos pelos animais de rua, que quase sempre eram adotados. Essas e outras lembranças servem de tempero para o autor contar um pouco sobre seus primeiros anos de vida. Seus traumas, o bullying que sofria na época em que isso era apenas gozação da molecada, o primeiro amor, a relação com os pais, os cheiros e manias da avó. 

Tudo relatado em frases curtas nos 25 tópicos ou temas que o marcaram. Se passeia pela ficção na sua autobiografia concisa, tanto faz. O que importa é a doce nostalgia que nos proporciona. Lembrou-me um pouco as divagações de "O sal da vida" (2012), de Françoise Héritier, que narra tudo o que faz sua vida valer a pena. Quem também escreveu sobre sua infância foi José Saramago, em "As pequenas memórias", livro carregado de saudade. Aliás, Carpinejar faz um comentário bem interessante sobre o abismo que separa os que nasceram nos anos 90 dos que são das décadas de 50 a 80. E é verdade. As vivências terão sido praticamente as mesmas para quem tem 40 ou 60 anos. O que já não acontece no encontro entre pessoas de 25 e 40. "São naturais de países longínquos da memória." Leiam!

"Ser o que não sou é também continuar sendo. Desejo ser mais boato do que notícia. O boato exagera, a notícia omite. Aquilo que uma mulher ou um homem imaginam também existiu. O que imaginamos também é biografia. Se eu não confesso um amor, não significa que ele não ocorreu, porque ele me fez existir."

sábado, 8 de junho de 2013

o silêncio das montanhas


Quando comecei a ler "O silêncio das montanhas", pensei que não fosse chegar aos pés do best-seller "O caçador de pipas". Mas conforme fui avançando na leitura, percebi que o terceiro romance do médico e escritor afegão Khaled Hosseini superava o primeiro, mesmo com seu estilo melodramático.

Em Persa, Pari significa fada. No livro, ela é a irmãzinha querida de Abdullah. Ambos moram com o pai e a madrasta em uma aldeia de Cabul, no Afeganistão. A narrativa começa com uma fábula contada pelo pai às crianças, anúncio do que estava reservado para eles.

Enquanto o primeiro livro de Hosseini foi marcado pelos maus-tratos e abuso de crianças, este é mais sutil ao tratar da separação. Talvez porque há a expectativa de que algo melhor possa existir longe dos laços familiares originais. Não é o que os personagens irão descobrir e sentir. Provoca menos choro, enfim. Mas o sentimentalismo permanece, bem como os personagens clichês, marcados pelo arrependimento.

O romance lembra as obras de autores indianos, em especial pelo forte apego às raízes. Fala de pessoas que por algum motivo tiveram que sair de seus países, com tradições muito distintas, e que subitamente se viram em outra cultura. Sobressaem-se o ressentimento por seus filhos não aceitarem os costumes antigos, que já não se inserem no novo país, e a eterna nostalgia em relação ao que tinham antes do embarque.

Tudo acontece em torno da separação de Pari e Abdullah. O autor avança e retrocede no tempo, de 1949 até 2010, para  ilustrar as lembranças e desfechos de vários personagens ligados aos protagonistas. Assim conhecemos Nabi, o chofer que, sem perceber, conquista o coração de seu patrão.  A poeta Nila Wahdati, filha de um afegão e de uma francesa. Os primos Idris e Timur, que fugiram do Afeganistão e agora vivem nos Estados Unidos. Adel, que está prestes a descobrir que o pai pode ser um criminoso. O médico grego Markos,  que nos apresenta o capítulo mais marcante, direto de Tinos, na Grécia. E as irmãs Parwana e Masooma, que por conta da inveja enrustida, podem ter sido as responsáveis por todo o sofrimento da história. Os nove capítulos são como contos entrelaçados, ambientados no Afeganistão, Estados Unidos, França e Grécia. Embora o vocabulário seja demasiadamente repetitivo, o livro é envolvente e, claro, emociona.

Aldeia no Afeganistão
 
Trechos

"Somente em Shuja Abdullah via um reflexo de sua dor. O cachorro aparecia na porta da casa todos os dias. Parwana atirava pedras. O pai ameaçava com um bastão. Mas ele continuava voltando."

"Dizem que a gente deve encontrar um propósito na vida e viver este propósito. Mas, às vezes, só depois de termos vivido reconhecemos que a vida teve um propósito, e talvez um que nunca se teve em mente."

"A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente."

"Esse pequeno vislumbre frágil e bruxuleante de como poderia ter sido entre nós. Só causaria remorso, digo a mim mesmo, e o que há de bom no remorso? Não traz nada de volta. O que perdemos é irrecuperável."


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