sábado, 25 de outubro de 2025

cheio de charme


"Um cantinho secreto do coração, onde guardo meus pensamentos mais sombrios... eu não tinha certeza."

Tenho uma lembrança muito boa dos meus vinte e poucos anos: Marian Keyes e seus livros hilários. Dela, li praticamente todos, dos quais destaco Melancia e Sushi. Melancia é um livro que, lá atrás, cheguei a recomendar para quem teve o coração partido. Hoje, recomendo Shakira.

Enfim, Cheio de charme segue a mesma premissa, mas com um tema um pouco mais pesado. Fala de relacionamentos tóxicos e abusivos. Neste caso, as vítimas são quatro mulheres, todas do mesmo homem: o político boa-pinta Paddy de Courcy.

Lola é uma estilista renomada, mas entra em um momento depressivo após o término do namoro com Paddy, que considera o homem perfeito. Mais para a frente, vamos entender o quanto essa visão era distorcida e o quanto ela suportou a fim de manter o relacionamento com alguém que acreditava amar. Chegava, inclusive, a implorar por atenção, mesmo sabendo que qualquer deslize terminaria em agressões físicas.

"A sanidade me voltou como um balde de água fria e fiquei escandalizada com meu próprio comportamento. Eu tinha agido como uma doente mental. Doida."

Contudo, sua cura vem por meio dos amigos e ganhamos um bom entretenimento durante sua fuga para o interior da Irlanda, onde passa a habitar a cabana do tio Tom, uma propriedade que parece estar disponível para todos. Lá, rimos muito com suas peripécias, especialmente quando forma um clubinho de cinema com travestis.

Há ainda a jornalista Grace, que tenta uma entrevista exclusiva com Lola, muito a contragosto, pois quer distância de Paddy. Ela é irmã de Marnie, que hoje é casada e tem duas filhas, porém ainda carrega os traumas do relacionamento anterior (o mesmo cara), no qual era violentamente espancada, chegando até a parar no hospital. Mas Grace tem ainda outros motivos para manter-se longe dele. Por fim, há Alice, algo como a próxima vítima. Se ela sabe o que a espera ou mesmo se já sofreu os abusos, ainda teremos que esperar. Avisos não faltarão.

O livro é um alerta para o quão próxima a violência doméstica está de nós. Mais que isso, mostra como a mulher, dentro desse tipo de relacionamento, acaba entorpecida, o que a impede de sair. Não basta, neste caso, entender a situação pela qual está passando. Ela precisa, de fato, de ajuda para romper a violência. Ainda assim, Keyes mantém seu tom irônico e divertido, mas sem deixar de passar sua mensagem sobre esse tipo de relacionamento.

"O que tinha acontecido com ela? Quando abalara tão profundamente sua autoconfiança que não era mais capaz de confiar a si mesma a tarefa mais banal?"

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