sábado, 11 de outubro de 2025

todas as cores do céu


"O silêncio se imiscuiu em nossas vidas, permitindo que mantivéssemos nossos pesadelos e pensamentos para nós. Simplesmente seguíamos em frente, fingindo que nada acontecera."

Depois de Pachinko, Herdeiras do Mar e Como Tigres na Neve, todos ambientados nas Coreias, fui para a Índia com Todas as cores do céu, que traz um tema semelhante: mulheres violentadas por estruturas dominantes, mas que carregam a força necessária para que as próximas gerações possam viver sem medo.

Neste romance de Amita Trasi, conhecemos Mukta que, com apenas dez anos, é obrigada a participar de um ritual que a transforma em devadasi, prática que condena meninas à exploração sexual com a desculpa de ser algo sagrado. Depois de sofrer abusos inimagináveis para uma criança, ela é resgatada por Ashok, que a leva para Bombaim, onde passa a fazer parte de sua família e a conviver, especialmente, com Tara, filha dele. As duas têm praticamente a mesma idade e crescem juntas, tornando-se grandes amigas, embora o lugar de Mukta como empregada sempre tenha sido bem delimitado. Seu grande sonho era encontrar o pai, que a mãe, antes de morrer, havia dito ser uma boa pessoa. 

Até que uma explosão, inspirada nos atentados de 1993 em Bombaim, que deixaram mais de 250 mortos e centenas de feridos, mata a mãe de Tara e tudo muda.

Naquele dia, a mãe pede que Tara vá ao Century Bazaar levar algumas roupas. Ela, porém, prefere ficar em casa estudando para uma prova de matemática. A mãe comenta que havia pedido a várias pessoas, mas todas estavam ocupadas, e diz que Mukta estava passando mal. Essa indisposição era apenas uma desculpa para encontrar Tara no lugar onde as duas costumavam conversar, como tinham combinado mais cedo.

Tara, então, culpa Mukta pela morte e passa a hostilizá-la, chegando, inclusive, a planejar um sequestro para que ela saísse definitivamente de sua vida. O ódio só crescia. E eis que Mukta é raptada durante a noite e, apesar dos esforços de Ashok para encontrá-la, ela desaparece. Pai e filha se mudam para os EUA e somente após a morte dele, Tara, que convive com o remorso, vai descobrir que a amiga ainda está viva e fará de tudo para reencontrá-la. Há algumas passagens dignas de filme de ação. Aliás, adoraria ver uma adaptação para o cinema deste livro.

Enquanto busca por Mukta, Tara recorda as diferenças entre as duas. Enquanto ela estudava, a outra jamais teve esse direito, apesar da enorme vontade de aprender. O mais próximo que conseguia era levar a mochila da amiga, imaginando como seria se também estivesse indo para a escola. Gostava muito dos livros e considerava a biblioteca um templo.

"Então, eu continuava a visitar todos aqueles lugares a que Mukta e eu íamos. Sentava no terraço e observava os pássaros voarem no céu daqueles fins de tarde quando a polícia não tinha nada para me dizer; visitava a Biblioteca Asiática fim de semana sim, outro não, apenas para ter Papa de novo comigo, apontando para as estátuas de mármore, contando-me sobre elas, explicando que os livros eram importantes para expandir o nosso conhecimento. E eu ouvia Mukta sussurrar: um templo para livros. E assim eu ia, meus dias se transformando em semanas e, então, em meses."
Tráfico de mulheres, prostituição infantil, desigualdade social, aids, são alguns dos temas que Amita Trasi aborda neste belo romance. Ao final, a autora explica que Ganipur, onde nasce Mukta, é uma aldeia fictícia. Entretanto, comunidades semelhantes realmente existem e ainda submetem meninas à tradição das devadasis. Todas as cores do céu é a esperança que permanece diante de tantos maltratos que a vida reservou a Mukta, tanto na infância quanto depois de seu rapto. Não por acaso, sua filha se chama Asha, nome de raiz sânscrita que significa desejo, esperança.
"às vezes, temos que encontrar uma nova vida, um novo sonho, sobretudo quando o antigo não funcionou."

Nenhum comentário:

Postar um comentário