sábado, 30 de agosto de 2025

o pequeno caderno das coisas não ditas


"Se você usa dureza para resistir à força, então ambos os lados se quebram. Tai chi enfrenta a dureza com suavidade, assim a força que chega se esgota."

Que tal um projeto de autenticidade? E o que exatamente isso quer dizer? Monica encontra um caderno com essa proposta na mesa do seu café. Até tenta alcançar a pessoa que o deixou ali, mas não consegue.

"Quanto você realmente conhece as pessoas que moram perto da sua casa? Quanto elas realmente conhecem você? Por acaso você sabe o nome dos seus vizinhos? Saberia se eles estivessem com problemas, ou se passassem dias sem sair de casa? Todo mundo mente sobre a própria vida. O que aconteceria se, em vez disso, você compartilhasse a verdade? Aquela única coisa que define você, que faz todo o resto a seu respeito se encaixar? Não na internet, mas com as pessoas reais ao seu redor? Talvez nada. Ou talvez contar essa história acabasse mudando a sua vida, ou a vida de alguém que você nem conhece. Isso é o que eu quero descobrir."

Achei a premissa de O pequeno caderno das coisas não ditas, de Clare Pooley, exagerada e forçada. Sem contar os personagens, que muitas vezes são bem irritantes, como o insuportável Julian, o artista idoso tido como excêntrico. Foi ele quem deixou o tal caderno, numa tentativa de se redimir dos estragos que causou durante a juventude, em especial à esposa, algo que só descobrimos perto do final.

Mas segui a leitura porque ela se passava em um pequeno café, porque eu queria algo leve e porque achei que poderia ser como o deliciosoA caderneta vermelha, de Antoine Laurain. Só não esperava encontrar uma história tão superficial.

Bem, a ideia é essa. Você esbarra num caderninho propondo a maluquice de escrever nele seus segredos e deixá-lo em algum lugar, aleatoriamente. A pessoa que o encontrar deve seguir a brincadeira: ler o que você escreveu e registrar também seus pensamentos. E eis que todos concordam e passam a compartilhar angústias, medos, erros. Obviamente, acabam se reunindo e formando uma pequena comunidade disposta a mudar e ajudar uns aos outros.

No meio de tudo há Monica, já citada, cujo sonho é ser mãe, há um viciado em drogas, uma influenciadora cuja vida parece perfeita, mas que vive uma crise no casamento, e o chato do Riley, que não sei de qual universo paralelo surgiu.

O fato é que as histórias de todos praticamente já sumiram da minha memória, sinal de que o livro também não foi tão essencial assim. Não recomendo.

domingo, 24 de agosto de 2025

a grande solidão


"O inverno é uma grande noite por aqui. As pessoas ficam loucas no escuro, saem correndo e gritando, abrem fogo contra seus animais de estimação e amigos."

A grande solidão, de Kristin Hannah, se passa principalmente no Alasca, para onde a família Allbright se muda após o pai, Ernt, herdar uma propriedade na região. Ex-combatente da Guerra do Vietnã, ele passa a acreditar que há uma grande conspiração para acabar com o mundo e que eles precisam fugir. Junto com essa ideia vem a violência, principalmente contra a esposa, Cora, que apanha constantemente, mas mantém o casamento, defendendo o marido principalmente diante da filha, Leni. Encontra no sorriso dele e nos bons momentos a esperança de que tudo pode mudar. Porém, a única coisa que muda é o humor dele.
"Era exaustivo se preocupar o tempo todo, estudar cada movimento do pai e o tom de sua voz."

E, no Alasca, tudo fica pior, sobretudo no inverno, com as noites eternas e a escuridão que assola a todos. Mãe e filha passam a pisar em ovos, pois qualquer comentário pode fazer com que o pai exploda, agredindo violentamente a mãe. Os novos vizinhos percebem a situação e oferecem ajuda, que ela não aceita. A filha implora para que a mãe o deixe. Mas nada muda. Até que uma desgraça acontece, e uma rede de mentiras precisa ser montada para garantir a proteção de quem agiu da forma correta.

No meio de tudo isso, observamos como os moradores dessa região remota e de condições tão difíceis se ajudam na busca por mantimentos e em tudo o que será necessário para sobreviver a mais um inverno. Há também uma bonita história de amor envolvendo Leni, que acaba buscando exatamente o oposto daquilo que viu a mãe viver.

Leitura necessária. Muito necessária. Um romance que fala sobre os silêncios que perpetuam as agressões. A mãe sempre justificava a violência dizendo que ela era consequência do que o marido havia vivido na guerra. Mas transformar esse sofrimento em violência foi uma escolha dele. Apenas dele. E é justamente isso que o romance não nos deixa esquecer.

Mesmo com a escuridão que marca a narrativa e boa parte do ano, Kristin Hannah destaca a beleza deslumbrante do Alasca, o que só aumentou minha vontade de conhecer a região. Abaixo, um trecho que traduz bem sua paisagem. Interessante também a escolha da capa, que traz cores quentes, em contraste com o frio característico do extremo norte. O mesmo contraste aparece ao longo do livro: um cenário impressionante para a violência doméstica e toda a dor que ela perpetua.

"Através de um círculo de acrílico, o mundo era algo que ela nunca tinha visto. Azul, preto, branco, roxo. Daquele ponto elevado, a história geográfica do Alasca ganhou vida para ela; Leni viu a violência de seu nascimento – vulcões como os montes Redoubt e Augustine em erupção; picos de montanhas impulsionados do mar para o alto e depois desgastados por geleiras azul-escuras; fiordes esculpidos por rios de gelo em movimento. Ela viu Homer, encolhida em uma faixa de terra entre penhascos altos de arenito, campos cobertos de neve e o Homer Spit apontando para a baía. Geleiras tinham formado toda aquela paisagem, recortado e triturado o que havia em frente, abrindo baías profundas, deixando montanhas dos dois lados. As cores eram espetaculares, saturadas. Do outro lado da baía azul, as montanhas Kenai se erguiam como se saídas de um conto de fadas, lâminas serrilhadas brancas que se erguiam alto em direção ao céu azul. Em alguns lugares, as geleiras com suas laterais íngremes eram do azul-claro de ovos de pintarroxo. As montanhas se expandiam, engoliam o horizonte. Picos brancos pontiagudos listrados com fendas negras e geleiras turquesa."


 Homer, região que aparece no livro

sábado, 23 de agosto de 2025

elizabeth costello


“Não é absurdo, é?, se ocupar daquilo que as pessoas têm em comum em vez daquilo que diferencia um do outro.”

Eu conheci Elizabeth Costello em A vida dos animais, ensaio romanceado do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Lá, temos o resultado de uma palestra real que o autor proferiu durante uma conferência nos EUA. Usando de um alter ego, Costello, ele trouxe reflexões filosóficas e poéticas sobre a forma com que nos relacionamos com os animais.

Aqui temos uma coletânea de contos, ou ensaios, sobre a personagem fictícia. Conhecemos, portanto, um pouco mais sobre sua história e sobre os motivos que foram levando-a a abordar a crueldade em todas as suas esferas, contemplando os animais que muitas vezes acabam invisíveis. São oito capítulos sobre filosofia, literatura, mitologia e temas que percorreram toda sua trajetória, profissional e pessoal.

Em Realismo, a personagem nos é apresentada. Nascida em 1928, em Melbourne, na Austrália, está com 66 anos no momento descrito neste primeiro conto. Casou-se duas vezes e tem um filho de cada um desses relacionamentos. “Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos.”

Aqui, ela se prepara para receber um dos maiores prêmios literários. Está com seu filho John, professor de física e astronomia, o mesmo que a acompanha em A vida dos animais. Percebe-se o desconforto dela com as cerimônias que cercam o prêmio, como o jantar, a entrevista e a própria premiação. Sabemos que John sentiu muito a falta da mãe durante a infância, já que ela costumava se isolar para escrever, deixando ele e a irmã de lado, algumas vezes trancados do lado de fora do cômodo usado como escritório. “Desde que se conhece por gente, sua mãe sempre se isolou de manhã para escrever. Nenhuma interrupção sob qualquer circunstância. Costumava sentir-se uma criança infeliz, solitária e não amada. Quando estavam com muita pena de si mesmos, ele e a irmã sentavam do lado de fora da porta trancada e soltavam pequenos gemidos. Depois de gemer passavam a cantarolar ou cantar, e se sentiam melhor, esquecendo o abandono.”

Tenho que ser solidária com Costello. Ela trabalhava em casa, e talvez justamente isso tenha sido um problema na época. Os filhos achavam que ela os ignorava, quando, na verdade, ela precisava daquelas manhãs para produzir e se dedicar ao ofício que havia escolhido e que, pelo que lemos, era sua paixão. Agora, ao estar com a mãe, que aprecia sua companhia e se sente confortável ao lado dele, John vê uma mulher velha e frágil.

Por se sentir renegado pela mãe, John só foi ler os livros dela muitos anos depois, aos 33 anos. Foi sua vingança. Um colega psiquiatra me disse que as crianças são as maiores especialistas em fazer a mãe sentir culpa. Eu tenho uma filha e sei exatamente o que ele quis dizer. Até entendo o que John sentiu quando criança. Mas e as figuras paternas neste movimento? Qual parcela de culpa lhes foi dada? Incompreendida, porém, ela seguiu.

Temos, na sequência, A vida dos animais 1: os filósofos e os animais e A vida dos animais 2: os poetas e os animais, sobre as quais falei com mais detalhe em outro texto.

Em As humanidades da África, voltamos um pouco no tempo e temos uma Costello mais jovem reencontrando um antigo amor em um evento durante um cruzeiro, momento em que também reflete sobre o racismo e as diferenças interraciais. Enquanto ela fala sobre o futuro do romance, ele trata especificamente do romance na África. Para ela, “o romance sugere como podemos explorar o poder de o presente produzir o futuro. É por isso que temos essa coisa, essa instituição, esse veículo chamado romance.”

Já ele fala do individualismo que marca a leitura dos romances, algo que não combina com a cultura africana, que prioriza histórias orais que unem as pessoas. Reforça que “ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós, africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que eu estou lendo é mais interessante do que você poderia ser.”

Isso para dizer que, para o africano, o verdadeiro romance é o oral. “Na página ele é inerte, apenas meio vivo; ele desperta quando a voz, vinda do fundo do corpo, inspira vida a suas palavras, as enuncia em voz alta.”

A história do corpo incomoda Costello, que não parece se convencer. Mas há africanos escrevendo, e seu amigo lhe diz que esses livros não são escritos para africanos, diferentemente do romance inglês escrito para ingleses, por exemplo. O romance africano é escrito para estrangeiros. “Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores.”

O tema da África segue em As Humanidades, quando ela vai ao encontro da irmã que não vê há doze anos, Blanche, cujo nome agora é Irmã Bridget. Há anos ela mora na África, seguindo sua vocação religiosa. Hoje, vive em uma zona rural da Zululândia, na África do Sul. Também acadêmica, teve um livro que repercutiu muito bem e que lhe rendeu um título honorário, cuja cerimônia terá a presença da irmã.

Costello chega cheia de preconceitos a uma terra que nunca quis visitar e que considera feia. “Horas de sua vida perdidas na passagem sobre o Oceano Índico; inútil pensar que vai recuperá-las. Devia tirar uma soneca, recobrar-se, recuperar o bom humor antes de encontrar Blanche; mas está inquieta demais, desorientada demais, e - sente vagamente - indisposta demais. Será que pegou alguma coisa no avião? Cair doente entre estranhos: que horror! Ela reza para estar errada.”

Curioso o foco que Coetzee dá à idade, sempre trazendo Costello como velha, cansada, rabugenta. Enquanto narra a cena das duas irmãs conversando, ressalta que estamos diante de duas velhas em terra estrangeira. Duas estranhas, por não conhecerem de fato uma a outra, em um local que também não é delas. Como se tudo fosse um peso. A idade, o lugar, a conversa.

O tema da palestra, desta vez, é a humanidade, onde ela se instala e o que a literatura tem a ver com isso. Enquanto Costello acredita que os livros são suficientes para aprendermos sobre nós mesmos, Irmã Bridget acredita que eles não são necessários para enxergar a mesquinhez e as crueldades dos seres humanos, o que Costello entende como um ataque pessoal.

Surge, então, entre elas, um debate sobre o helenismo como a principal tentativa do humanismo europeu de oferecer uma visão secular de vida ideal, inspirada na liberdade, na beleza e na racionalidade atribuídas à Grécia antiga. Blanche afirma que esse modelo fracassou porque era elitista, ilusório e distante da experiência real das pessoas comuns. Já Elizabeth argumenta que, mesmo assim, os seres humanos precisam de esperanças e utopias para viver.

A conversa revela, assim, a crise das humanidades e a dificuldade contemporânea de encontrar novos sentidos coletivos para a existência. Ambas terminam a série de palestras e debates exaustas, com a certeza de que foi a última vez que se viram. Fica, por fim, a falta da completude entre ambas, tão necessária, mas distante.

Em O problema do mal, Costello está em Amsterdã para discursar sobre por que o mal existe e se há algo a ser feito diante dele. Há indícios de que se trata de um evento posterior à palestra sobre A vida dos animais e aos julgamentos que recebeu depois dela. Foi, inclusive, atacada por outra mulher, que a chamou de "vaca fascista", além de receber acusações de antissemitismo por comparar a forma como tratamos os animais ao Holocausto. Ela sabe que foi convidada para falar justamente por causa de toda essa repercussão e, ainda assim, aceita o convite. O tema geral do encontro é "Silêncio, Cumplicidade e Culpa?". Dentro do tema principal, fica encarregada de abordar "Testemunha, Silêncio e Censura".

O convite chega justamente quando ela está lendo Paul West escrever sobre Hitler. O capítulo discute os limites éticos da literatura diante da representação do mal. Elizabeth Costello questiona se dar voz e vida literária a figuras violentas, como carrascos nazistas, não significa também libertar novamente esse horror no mundo. É pensando sobre a obra de Paul West que relembra a violência que sofreu aos dezenove anos, quando foi vítima de uma tentativa de estupro seguida de espancamento, episódio que manteve em silêncio por décadas. Foi seu primeiro contato com o mal. Entendeu que não era nada mais que isso, o mal, no momento em que a sensação de afronta do homem cedeu e um imperturbável prazer em machucar tomou seu lugar.

Desenvolve sua palestra dizendo que certas coisas deveriam permanecer fora de cena, pois nem tudo o que pode ser narrado deveria ser mostrado. Seu argumento gira em torno da liberdade artística versus a responsabilidade moral de representar a crueldade. "Obsceno" é como ela define tanto o fato de Paul West trazer à tona as atrocidades cometidas por Hitler quanto a lembrança da violência que sofreu. Obsceno, aqui, no sentido literal da palavra: aquilo que deveria permanecer fora de cena.

Após o fiasco que considera ter sido sua palestra e da tentativa frustrada de chamar a atenção do escritor, acaba refletindo sobre o que ele faz, e que também é o que ela própria faz: mostrar a brutalidade do mundo. Ela faz isso ao falar dos abatedouros, por exemplo. Ela, da mesma forma que Paul West, sabia como jogar com as palavras até elas estarem certas, palavras que lançariam uma corrente de choques elétricos pela espinha do leitor. Carrasca à sua maneira.

Quando finalmente encontra Paul West, fica procurando nele o mal. A cena me remeteu imediatamente à Hannah Arendt e à banalidade do mal, expressão que chega a ser mencionada por Costello. Ela procurava um monstro que justificasse as atrocidades, mas encontrou apenas o banal. Da mesma forma que Hannah Arendt esperava encontrar, no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, um homem monstruoso, mas viu apenas um agente comum, medíocre até. Alguém que seguiu o caminho da obediência e da inércia diante do horror que estava à sua frente. E no caso específico do seu incômodo pela obra de West, trata-se de uma questão mal resolvida que está muito mais relacionada com o que ela mesma deixou de falar, e não o que o autor se propôs a retratar. Ela calou-se, e esse silêncio dói, seja pela impunidade, seja pelo acolhimento que nunca teve. Penso que a indignação com a obra do colega seja, em parte, a indignação que ainda sente ao lembrar da menina de dezenove anos que nunca viu sua dor reconhecida. 

Em Eros, Costello conjectura sobre nossa relação com os deuses. Mas não se trata da dimensão metafísica. O que lhe interessa é o físico. Como seria uma relação sexual entre humanos e deuses? Qual a sensação da carne do homem envolta em carne de deusa?

O que interessa a Costello é imaginar, por exemplo, como foi a noite entre Anquises, um mortal, e a deusa Afrodite, união da qual nasceu Eneias, um dos grandes heróis da Guerra de Troia.

Essa resposta ela encontra na tradição poética, que diz que Anquises levou uma vida normal, envelheceu e permaneceu em seu universo ordinário. “Se não esqueceu aquela noite fatídica, não pensou muito nela, não como nós entendemos pensar.” Para ela, esta é uma experiência única, íntima.

E traz um paralelo com a Virgem Maria. Como teria sido aquele momento, aquele instante em que tudo aconteceu? Essa é sua dúvida. “Ninguém à sua volta tem o descaramento de perguntar: Como foi, o que você sentiu, como você aguentou? Mas essas perguntas devem ter ocorrido com certeza às pessoas, às suas amigas em Nazaré, por exemplo. Como ela aguentou?, devem ter sussurrado entre elas.”

Será que atingimos o divino nesse instante? É quando Costello chega aos outros modos de ser. Isso porque está falando do ponto de vista dos humanos, mas há muito além do que pensamos e sentimos, o que mostra a nossa limitação, uma questão kantiana, segundo a própria Costello. “Existem outros modos de ser além do que chamamos humano e nos quais possamos penetrar; e, se não existem, o que isso nos revela sobre nós mesmos e nossas limitações?”

Chega a comparar a curiosidade dos deuses em relação aos humanos com a nossa curiosidade pelos demais animais. Para ela, levamos vantagem em relação aos deuses por conta da mortalidade, o que nos dá mais urgência, mais vigor em tudo o que fazemos. “Gostaria de pensar que os deuses admiram, mesmo de má vontade, a nossa energia, a incessante criatividade com que tentamos escapar de nosso destino.”

E, mais uma vez, vem a referência à velhice. Costello imagina que talvez só faça essas perguntas porque já está velha demais para dançar.

Em No portão, Costello chega ao céu, ou ao que nos parece ser o céu, e encontra-se diante do portão que dá acesso ao local. Um homem, mais novo do que ela, informa que antes de entrar precisa apresentar uma declaração dizendo em que acredita. Todos ali têm uma crença. Ela também deveria ter a sua. O problema é que Costello não sabe responder.

Ela explica que sua profissão, como escritora, não é acreditar, mas escrever. Vive de ficções e de crenças provisórias. Uma convicção definitiva apenas limitaria seu trabalho. Pede, por isso, que sua condição de escritora seja considerada uma exceção.

Enquanto aguarda uma nova oportunidade para apresentar sua declaração, é encaminhada a um dormitório e passa os dias caminhando pela praça, observando as pessoas e refletindo sobre a própria vida. Em determinado momento, lamenta não ter vivido de outra forma. Pensa que talvez devesse ter se divertido mais e se pergunta se a vida dedicada à escrita lhe trouxe alguma vantagem naquele instante em que tudo parecia depender de uma única resposta.

Ao mesmo tempo, percebe que suas crenças surgem quase por acaso. Em um dia, acredita nas rãs. No outro, talvez acreditasse em gafanhotos ou mosquitos. Nada parece definitivo. Tudo é provisório, como sempre foi também sua literatura.

E assim ela segue refletindo sobre qual seria sua crença enquanto aguarda o julgamento final, o que me lembrou muito O processo, de Franz Kafka, ao qual ela mesma recorre, em que um homem é retirado de seu trabalho e levado a um tribunal sem saber exatamente por que está ali. Lembrei-me também de Alice no País das Maravilhas, que caiu em uma terra cheia de surpresas. Costello não sabe exatamente que lugar é aquele. Sabe apenas que precisa atravessar aquele portão.

Ela teve uma grande paixão e decidiu segui-la. Mas foi incompreendida. Ao longo de todo o livro é chamada de velha, como se esse fosse seu principal atributo, quando dedicou a vida a trazer reflexões e provocações. Não abandonou os filhos e, ainda assim, eles cresceram com essa sensação. Em nenhum momento surgem os pais, ou a responsabilidade que também lhes caberia. Fiquei pensando se um escritor homem seria acusado por se trancar em um quarto para escrever enquanto os filhos esperavam do lado de fora.

Tudo isso deixa marcas. Vamos conhecendo suas feridas, como a violência que sofreu aos dezenove anos, e entendendo melhor a mulher por trás da intelectual. Para mim, Costello foi, acima de tudo, uma personagem incompreendida. Alguém que nunca deixou de se apaixonar. Não pelo amor romântico, mas pelo conhecimento e pelo que podemos fazer com ele. Resta saber se essa resposta será suficiente no que parece ser seu juízo final.



sábado, 16 de agosto de 2025

oração para desaparecer


“De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.”

Imagine acordar e perceber que você está enterrada, com tudo o que isso pode representar. Pois é exatamente o que acontece com Cida. E, para piorar, ela não sabe quem é, não se lembra de nada sobre sua vida. O resgate é feito por um casal em Almofala, uma aldeia em Portugal. Tudo com a maior naturalidade do mundo, afinal, era esperado que ela surgisse ali, uma ressurrecta, como chamam pessoas que somem em um lugar do mundo e aparecem em outro, devidamente enterradas. Junto com Jorge, ela vai atrás de uma pessoa que cria passados, de modo que ela possa ter algo sobre o que contar. Aqui temos referência direta ao romance O vendedor de passados, do português José Eduardo Agualusa, especialmente pela presença de Félix Ventura, personagem que cria passados para outras pessoas, reforçando o tema da construção artificial da memória. E, para essa reconstrução, vale tudo, inclusive os sonhos que ela tem, e pelos quais Félix tanto se interessa. Aos poucos, as lembranças vão surgindo, e ela chega a quem realmente foi. Resta saber qual das duas personagens ela vai escolher.

Enquanto isso, em outra Almofala, desta vez no Ceará, temos um personagem já envelhecido, Miguel, que espera pela sua Joana, mulher que desapareceu misteriosamente.

Essa é a premissa de Oração para desaparecer, da brasileira Socorro Acioli. O romance é baseado em um fato real. Em Almofala, no Ceará, uma igreja construída no século XIX foi totalmente coberta por areia das dunas móveis. Cinquenta anos depois, ela reaparece praticamente intacta. Antes da invasão da areia, todos os santos foram retirados, o que levou a uma comoção geral. A história pode ser conferida aqui nesta reportagem do Diário do Nordeste.

Partindo desse acontecimento, a autora, que tem um pé no realismo fantástico, principalmente considerando que teve aulas com Gabriel García Márquez, nos presenteia com uma história instigante que brinca com crenças, misticismo e nos faz questionar o que é real, afinal de contas.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes.”




domingo, 10 de agosto de 2025

o frio, o patinete, a livraria


Livros descobertos em uma tarde fria na Avenida Paulista: dicas de leitura com Sigrid Nunes, Richard Powers, Han Kang e outros

Está bem frio em São Paulo, para meu deleite, já que sou adepta às temperaturas mais baixas. Coisa rara, pois o inverno está cada vez mais escasso deste lado do Equador.

Quando deu cinco da tarde, resolvi dar uma caminhada. Eu estava inquieta porque parecia que não estava aproveitando o dia que tanto aprecio. Caminhei até uma livraria na Avenida Paulista, curtindo o ar melancólico da cidade, especialmente quando ela se preparava para fechar.

Quando digo fechar, quero dizer que as pessoas já estavam se recolhendo, ambulantes desmontando suas bancas, muitas lojas baixando as portas e todos encapuzados.

Chamou minha atenção a quantidade de patinetes elétricos disponíveis para os transeuntes. Lamentei não estar com meu celular para alugar um e seguir pela ciclovia, sentindo o vento no rosto.

Cheguei à livraria, onde sempre fico bem. É um ambiente aconchegante, instigante e cheio de possibilidades. Acho que nunca vou ler todos os livros que tenho e, ainda assim, estou o tempo todo em busca de novidades literárias.

Hoje me dei muito bem. Logo na primeira ilha de livros, me deparei com vários que, não fossem o preço, o espaço e a decisão de evitar a compra de livros físicos, eu teria levado todos. Estava ali Mitz, de Sigrid Nunes, escritora norte-americana que escreveu O amigo, romance que li recentemente e que trata do luto vivido por uma professora e por um cachorro. O livro que estava na minha frente romanceia a história de um sagui que viveu com Virginia Woolf e seu marido. Ao seu lado estava O que você está enfrentando, da mesma autora, que inspirou um filme de Pedro Almodóvar. Outro animal na capa, desta vez, um gato que, pela contracapa, estava em um abrigo. Preciso muito ler esses livros.

Um pouco mais adiante, me deparei com A trama das árvores, do romancista norte-americano Richard Powers. Já gostei da premissa, que traz vários personagens que se interligam por conta das árvores. Lembrei muito de quando tivemos que tomar a decisão sobre uma árvore plantada na calçada da casa dos meus pais. Ela cresceu tanto que começou a invadir a casa do vizinho e precisou ser transferida. Num ímpeto de arrependimento, minha irmã e eu fomos atrás dela, após descobrirmos o local para onde poderia ter sido levada. Tem um texto da Renata aqui no blog sobre isso. Enfim, entrou para minha lista de romances sobre natureza e meio ambiente.

Estamos, neste momento, tendo uma avalanche de literatura sul-coreana contemporânea, muitos dentro do que se chama leitura de cura. Já li vários e entendo que beiram a autoajuda, mas são muito melhores. Porém, se leu um, leu todos. Mas sabe quando queremos mais? Pois bem, eles nos conquistam pela capa, e não tem problema nenhum. Já anotei A loja de cartas de Seul, de Baek Seung-yeon, que estava lá me chamando. Mas não só de literatura de cura vivem os sul-coreanos. Há romances intensos, como os de Han Kang.

Nessa mesma ilha, encontrei Sem despedida, que fala de um pássaro que fica só após sua tutora ser hospitalizada. Confesso que estou curiosa para ver essa relação, muito porque lugar de pássaro não é dentro de casa, em uma gaiola. A capa mostra o aprisionamento. Da autora, li A vegetariana, que fala do devir-vegetal. Espetacular.

Só para constar, gostei muito da capa de O bom mal, coletânea de contos de Samanta Schweblin, que traz um coelho a contemplar o céu, como que pedindo ajuda. Não deixei na lista porque folheei e me pareceu prosa poética, e tenho certa resistência a esse tipo de narrativa. Posso estar enganada, todavia.

Deparei-me ainda com Orbital, romance de Samantha Harvey que une astronautas dos Estados Unidos, Rússia, Itália, Japão e Reino Unido em uma missão no espaço. A cada órbita, o livro promete uma reflexão. Gostei.

Outro que também me pareceu ter ligação com meu trabalho foi Os urubus não esquecem, do professor da USP Pedro Cesarino. Trata de uma mãe indígena que busca pelo filho desaparecido. Curiosamente, a capa traz uma canoa, que esteve presente em um sonho que tive esta noite. Nada acontece por acaso.

E, para finalizar, coloquei na lista de desejos um suspense: A luz entre as frestas – Inspetor Gamache, Livro 9, de Louise Penny. Passei boa parte da minha adolescência lendo as peripécias de Poirot, de Agatha Christie. Ainda não conhecia o detetive Gamache. Minha dúvida é se posso começar pelo livro 9, que anotei justamente porque se passa no frio, no Canadá, e também na época de Natal. Sim, já estou pensando no que vou ler em novembro e dezembro.

Assim terminei meu dia, cheia de livros, animais e vontade de andar de patinete. E você, qual livro descobriu recentemente em uma livraria? 



domingo, 13 de julho de 2025

guardiã de histórias


"É claro que toda biblioteca tem fantasma. Todo mundo sabe que fantasmas gostam de ler."

A Guardiã de histórias, de Sally Page, é Janice, dedicada faxineira que tem como hábito ouvir as conversas dos outros e guardar suas histórias. São narrativas que dão sentido à sua própria vida, que é bem desprovida de emoções. Ela vive com o marido, que a trata como empregada e não demonstra o mínimo de carinho.

Mas Janice tem um segredo, que vem das violências que presenciou quando criança. Algo com que nenhuma criança deveria ter que lidar. Quem vai descobrir esse passado e fazê-la contar o que aconteceu, até como forma de libertação, é a Sra. B., uma ex-espiã britânica de noventa anos. Ela também enfrenta suas próprias questões, já que o filho quer que deixe a casa onde mora para ir para um asilo. Ele pensa no dinheiro que vai receber com a venda do imóvel, e não no bem-estar da mãe.

Ao longo da narrativa, vamos conhecendo as histórias das pessoas que contratam Janice para limpar suas casas, como a Sra. B. Acompanhamos a relação entre uma mãe e seu filho adolescente, que desde a morte do pai não se entendem. Há o famoso cantor de ópera, que será essencial para a retomada de Janice. Além de colecionar fragmentos das vidas alheias, Janice também dá apelidos a todos que encontra, como a Sra. Sim-Sim-Sim e o Sr. Não-Não-Agora. Mas quem rouba seu coração e será o primeiro com quem ela vai estabelecer um diálogo sincero será Decius, um cachorro.

Já faz um tempo que li este livro e confesso que muitos detalhes me escapam. Portanto, nada tão inesquecível. Lembro, contudo, que muitas vezes me cansava da narrativa arrastada. Ainda assim, recomendo para todos que precisam entender que tudo aquilo que nos faz mal pode e deve ser rompido.

"Há um bom tempo eu percebi que, se eu der ouvidos às poucas pessoas que gritam comigo, estou dando a elas mais importância do que merecem. Suas palavras vão ficar na minha cabeça, me deixar chateado e as vozes estrondosas continuarão soando, mesmo depois que a gritaria acabar. Então, em vez disso, eu presto atenção nas vozes baixas, que são a maioria das pessoas."

sábado, 12 de julho de 2025

o passeador de livros


"A palavra escrita nunca vai acabar, sra. Schäfer. Existem coisas que simplesmente não dá para expressar de outro jeito."

Carl Kollhoff tem 72 anos e seu trabalho é bem peculiar. Ele trabalha em uma livraria e entrega livros, pessoalmente, para um grupo seleto de clientes. Mais do que uma simples compra, as pessoas recebem obras que conversam diretamente com o momento de vida em que se encontram. É como se o livreiro lesse o coração e a mente dos seus clientes. Isso aparece no cuidado com a seleção do título, na forma como embala os volumes, como se fossem presentes, e na pontualidade com que chega à casa de cada um. Logo de cara fica claro que o que esperam, na verdade, é a sua companhia. Ele se torna o escape de que precisam para seguir com os dias.

Cada pessoa recebe, sem saber, um apelido literário, um personagem que traduz a sua personalidade: Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Sra. Píppi Meialonga, de Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren; Effi Briest, de Effi Briest, de Theodor Fontane; Hércules, da mitologia grega. Assim Carl segue sua rotina há décadas, até que cruza com Schascha, uma garota de nove anos que bagunça sua ordem, traz aventuras e, acima de tudo, provoca uma virada em sua vida. Ao mesmo tempo, a atual dona da livraria, filha do fundador e grande amigo de Carl, planeja mudanças que o excluem definitivamente. Muito disso nasce do ressentimento por ele ter o dom de escolher exatamente o livro que cada pessoa precisa, algo que ela não consegue alcançar.

O enredo traz personagens solitários, envergonhados de suas limitações, vítimas de violência doméstica ou em busca de um novo sentido após a aposentadoria. Todos lidam com emoções que vão sendo, pouco a pouco, expostas e cuidadas por meio da literatura. Há ainda um gato com características de cachorro que acompanha as andanças do nosso protagonista. 

Vale destacar também que cada capítulo faz referência a uma obra literária: Gente independente, de Halldór Laxness; O estrangeiro, de Albert Camus; O vermelho e o negro, de Stendhal; Grandes esperanças, de Charles Dickens; As palavras, de Jean-Paul Sartre; Rastros (Spuren), de Ernst Bloch; e Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline. Pode ser o começo de uma boa lista de leitura ;-)

"O passeador de livros", de Carsten Henn, foi adaptado para o cinema em 2022, no filme alemão Der Buchspazierer, dirigido por Rolf Roring. Ainda assim, recomendo a leitura, que é leve e faz pensar no quanto os livros podem nos compreender como ninguém mais.

Trechos

"Tinha uma definição bastante clara do que, segundo ela, caracterizava um bom livro. Em primeiro lugar, era preciso mantê-la entretida de tal modo a deixá-la presa na cama, lendo até as pálpebras pesarem. Segundo, deveria levá-la às lágrimas em pelo menos três trechos; melhor ainda se fossem quatro. Terceiro, um bom livro jamais teria menos do que trezentas páginas e nem mais do que 380. Quarto: a capa em hipótese alguma poderia ser verde. Não se podia confiar em livros de capas verdes."

"Carl sempre ficava triste quando a mochila ficava vazia, sinal de que estava na hora de voltar para casa. Não que não gostasse de onde morava, mas Canino nunca o seguia até lá, e não havia ninguém à sua espera, ninguém que lhe desse uma cutucada com o ombro para pedir um carinho."

"Enquanto algumas pessoas tinham animais puramente domésticos, ele tinha uma companhia para passear. — Oi, Canino — disse ele, e sorriu. Carl dera esse nome a ele porque o gato se comportava como um cachorro: ia atrás dele, farejava tudo e marcava o território. Canino não miava, mas soltava uma espécie de rosnado."

"A diferença entre um romance com final feliz e um sem final feliz é apenas o ponto em que se para de contar a história."

"Foi bom ir embora. Foi fácil. Quando não pensamos nas consequências, nas brigas que virão, nas feridas que carregaremos, ir embora é muito fácil. Basta dar um passo após outro."

sábado, 5 de abril de 2025

a pequena pousada da islândia




"Existe a satisfação de ouvir um hóspede dizer quanto gostou da hospedagem ou que o atendimento foi ótimo. Tem algo bom em poder tirar as pessoas da rotina, das tarefas, de lavar e passar roupa. Dar a elas uma folga. E todo dia é diferente; eu gosto da mecânica de ver tudo funcionando junto e interligado, como num quebra-cabeça."

Em A pequena pousada da Islândia, Julie Caplin nos leva para uma pousada cercada por neve, fontes termais e pela expectativa de ver a aurora boreal. O romance é bobinho e bastante previsível, mas ainda assim me deixei envolver pelo cenário e pela crença nos Huldufólk.

Lucy Smart gerencia um grande hotel em Londres. Porém, após um vídeo gravado pelo ex-namorado, vê sua reputação desmoronar. Resta-lhe apenas a possibilidade de trabalhar na pequena pousada Aurora Boreal, no interior da Islândia. Chegando lá, encontra funcionários despreparados que parecem culpar os elfos por todos os incidentes. Falam disso com tanta convicção que, assim como a protagonista, ficamos sem saber até que ponto estão brincando ou realmente acreditam naquelas histórias. A repetição foi tanta que acabei pesquisando e descobri que a crença nos Huldufólk (o "Povo Oculto" ou, simplesmente, elfos) faz parte do imaginário islandês. Há, inclusive, relatos de obras e estradas que já foram desviadas para evitar locais considerados seus habitats.

Enquanto tenta se adaptar, Lucy descobre que a pousada pode ser vendida e que sua permanência ali talvez seja breve. Ainda assim, decide tornar o local mais aconchegante. Nesse processo, aproxima-se de Alex, o barman escocês. Adivinhem o que acontece?

O que mais me agradou foi viajar por meio das palavras e conhecer um pouco mais sobre a Islândia, que certamente está nos destinos que quero conhecer. Já quero adotar o jólabókaflód ou, como foi traduzido, a “inundação natalina de livros”, hábito dos islandeses de dar livros de presente no Natal. Esse é o segundo livro que leio da autora e da série Destinos Românticos. O primeiro foi O pequeno café de Copenhague, mas a Islândia me pareceu muito mais convidativa ;-)

Para conhecer: Gullfoss (foto abaixo), Hallgrímskirkja, Blue Lagoon


clube de leitura dos corações solitários


"Levei o livro junto ao peito, com uma tristeza repentina e devastadora. Não por causa das pessoas que eu perdera e continuaria a perder, mas porque, mesmo com a perda sempre no horizonte, a vida ainda me chamava."

Ultimamente, tem surgido uma onda de romances que se passam em livrarias, bibliotecas ou giram em torno do amor pelos livros. Clube de Leitura dos Corações Solitários, de Lucy Gilmore, entra nessa mesma prateleira. É uma leitura leve, que entretém sem prometer grandes mensagens nem referências literárias sofisticadas.

A história gira em torno de Sloane Parker, bibliotecária introvertida, e Arthur McLachlan, idoso, rabugento e frequentador assíduo da biblioteca. A partir da relação inusitada entre os dois, outros personagens vão se conectando: a vizinha de Arthur, seu neto e um colega de trabalho de Sloane. Juntos, criam um improvável clube de leitura.

Como era de se esperar, nem tudo corre bem. Arthur tem um temperamento difícil e, mesmo entendendo que sua rigidez é para esconder suas verdadeiras emoções, confesso que em vários momentos considerei seu comportamento abusivo. Já Sloane vive enterrada nos livros e praticamente nunca se expõe ou entra em conflito. Está noiva de um quiropata que gosta dela, mas não desperta paixão, o que combina com o tom morno de sua vida. Guarda, porém, lembranças dolorosas da infância, dos conflitos familiares e da perda da irmã.

A vizinha é uma figura hilária. Ela tem suas questões com a filha, mas garante o toque de humor ao romance. Em contrapartida, o neto é um dos personagens mais sem graça que já vi. Sua presença em cena nada acrescenta, e suas descrições só pioram essa impressão.

Um ponto que me agradou foi a estrutura dos capítulos. Cada um é narrado sob o ponto de vista de um personagem. A abertura exibe a imagem de cartões de biblioteca, aqueles nos quais se anotavam os nomes de quem pegava o livro emprestado. Um detalhe simples, mas que chama a atenção.

Resumindo: não sei se indicaria. Há livros muito melhores para quem procura histórias sobre bibliotecas e livros. Um exemplo é A Biblioteca de Paris, de Janet Skeslien Charles.

domingo, 23 de março de 2025

lembranças ao vento


"Quando você não tem nada e já viu o pior, a educação é como um presente."

Olha, não sei como aguentei ir até o final de Lembranças ao Vento, da australiana Rhonda Forrest. Cheguei nele por recomendação da própria Amazon após a leitura de O vento que sussurra. A premissa até que é boa e poderia ter rendido um ótimo romance, mas o desenrolar se perde em tantos lugares-comuns que ficou difícil manter o interesse.

A história se passa na Austrália. Temos um veterano de guerra traumatizado que vai se refugiar em uma cidadezinha. Lá, dedica-se à criação artística. Faz aulas de pintura com modelos vivos e está sempre trabalhando em uma nova exposição. Também segue uma rotina rigorosa de exercícios físicos, parte do tratamento psicológico. Entre eles, a natação em um lago.

E é nesse lago que, todos os dias, ele vê uma mulher nadando. Só que de forma engraçada e totalmente errada. Ele, secretamente, a apelida de “garota borboleta”, por conta das tentativas (frustradas) dela em nadar nesse estilo.

Nem preciso dizer o que acontece.

Ela também tem suas questões. É refugiada do Afeganistão e está fugindo de um ex-patrão que se considera seu dono. 

Juntam-se aos dois todos os colegas das aulas de desenho. Eles fazem piqueniques, riem, comemoram... e só. No meio disso tudo, aparece a ex possessiva dele. Ah, tem um cachorrinho lindo. Sinceramente, foi talvez o que me segurou até o fim. Fiquei torcendo para que nada de ruim acontecesse a ele.

“Um cachorrinho saiu correndo de uma trilha estreita atrás do lago interrompendo seus pensamentos e girou ao seu redor dando saltos e lhe arranhando as pernas com as patas peludas enquanto tentava pular. Liam pegou o animalzinho no colo, que tentou lhe lamber o rosto com a pequena língua cor-de-rosa. Ele riu e deu um tapinha de boas-vindas no cachorro antes de colocá-lo de volta na areia.”

O romance até que tenta trazer uma crítica social à forma como os refugiados são tratados, mas se rende ao clichê e prejudica a mensagem. Sem contar a falta de cuidado com a revisão da versão em português.