quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

o bosque das ilusões perdidas




"Talvez tudo volte a ser o que era dantes. Mas será que o passado pode reviver?"

Sabe quando você se sente aliviado por terminar algo árduo? Pois foi assim que me senti ao ver o final de "O bosque das ilusões perdidas", único livro do francês Alain-Fournier. O autor morreu durante a primeira guerra mundial com um tiro, mas seu corpo só foi encontrado muito tempo depois, na década de 90.


Apesar de ser um clássico da literatura francesa, não me convenceu. Por várias vezes pensei em deixá-lo de lado e aproveitar melhor o meu tempo, mas depois de semanas com ele, resolvi terminar a leitura. 

O que me chamou a atenção foi o título na versão brasileira, que nada tem a ver com o original, "Le grand Meaulnes". Eu logo imaginei uma história gostosa, tendo como cenário um bosque e muita neblina. De fato, há o bosque. Só.

O livro traz as memórias da adolescência e início da vida adulta de François Seurel. Ele mora na escola em que seu pai leciona. Num belo dia, chega Augustin Meaulnes, adolescente que se acha a pessoa mais especial do mundo. Além de frequentar o curso, passa a dividir o quarto com François. Surge, então, a amizade entre os dois. Nem sei se posso dizer que são amigos, pois acredito que o laço seja muito maior por parte de François. 

Enfim, sua chegada mexe com os demais alunos, que veem nele o aventureiro que gostariam de ser. Todos disputam sua atenção e ele sabe disso. Tanto que vira e mexe faz algo para reforçar que é o diferentão. Até que rouba uma carruagem e desaparece por dias. O pobre do cavalo acaba voltando sozinho. Enquanto isso, o rapaz vai parar em uma mansão durante a pré-festa de um casamento, que acaba não acontecendo, já que a noiva foge. Lá conhece uma moça por quem se apaixona. Na verdade, ele se apaixonou muito mais pelo cenário do que pela moça isoladamente. No final isso fica bem claro. Mas durante a confusão do fim da festa, volta para casa sem guardar o caminho para aquela fábrica de sonhos e ilusões (talvez daí venha o título da nossa versão do livro). Sua obsessão para descobrir como retornar àquele lugar passa a ser de todos da turma.

E é isso. Nas últimas páginas até me empolguei um pouco, mas logo voltou a ficar entendiante. E o François também é um chato, sempre no rastro de Meaulnes. O fascínio que tem pelo protagonista me lembrou outros dois livros, um que odiei e outro que gostei mais ou menos: "On the road", de Jack Kerouac, e "O Grande Gabtsy", de F. Scott Fitzgerald. O que salvou um pouco a impressão que tive de Meaulnes foi o trecho em que defende um cavalo que estava amarrado. O que não apagou a imagem dele chicoteando outra égua em passagem anterior. Tem duas versões cinematográficas: 1967 e 2006. Talvez elas sejam válidas pelo francês ;-)

sábado, 3 de novembro de 2018

a caixa de pássaros





"Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?"

Para entrar no clima do Halloween, data que gosto de celebrar, escolhi “A caixa de pássaros”, de Josh Malerman.

É um suspense. Fala de ‘criaturas’ que, intencionalmente ou não, enlouquecem as pessoas que olham para elas. A loucura é tanta que todos acabam se suicidando de formas bem tenebrosas. Isso quando também não agridem e matam quem estiver por perto.

Aos poucos, os que sobrevivem percebem que para os acidentes acontecerem basta uma simples e rápida visão para esses seres. O resultado é que as casas são lacradas e todos passam a circular pelas ruas de olhos bem fechados. 


E assim surgem grupos que vão tentar sobreviver nesse cenário apocalíptico. Entre eles o liderado por Tony, que recebe a protagonista da história, Malorie, que está grávida. É sob seu ponto de vista que acompanhamos a história. Estou até agora imaginando como ela conseguiu fazer tudo o que fez. Penso até em coisas básicas, como higiene pessoal, alimentação, um mínimo de entretenimento para os filhos (sim, serão dois, de modo inesperado). 

Em determinados momentos, lembrou-me “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. Claro que não vou comparar os dois livros. Foi apenas uma associação que fiz com o caos instalado, e como o ser humano rapidamente se adapta à situação e cria conflitos mesmo quando tenta se salvar.

Não fica claro, porém, por que essas ‘criaturas’ não conseguem ultrapassar paredes ou portas. Mas tudo é fantasia, afinal. O fato é que prendeu muito a minha atenção. É tenso. Tem animais. Tem crianças (imagino direitinho a expressão delas a cada chamado da mãe). Como sempre, os momentos mais difíceis foram aqueles em que os bichos são sacrificados para ajudar os humanos. Ai, tem o cachorrinho Victor, que dor! E os pássaros do título que, aliás, nem precisavam estar lá. Sonhando com um mundo diferente. Quem sabe a ficção nos ajude a mostrar o caminho. Gostei da leitura e recomendo. Vai virar filme no Netflix.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

wabi-sabi


"Todo meu mundo me lembrava de sua ausência."

Terminei mais um romance do espanhol Francesc Miralles. Eu venho de uma série de textos pesados, teóricos e de uma prova que bem difícil. Precisava de algo para relaxar e, ao mesmo tempo, viajar. Apesar de não ter tido uma experiência muito boa com o último livro que li desse autor, “A fórmula do amor”, resolvi arriscar, afinal, ele já me proporcionou bons momentos. 

Fiquei muito feliz por ter encontrado em minhas buscas justamente a sequência de “Amor em minúscula”, um dos meus preferidos dele. O outro é “O melhor lugar do mundo é aqui” (lembro direitinho o dia em que o achei na livraria, que delícia!).

Bem, “Wabi-sabi” dá sequência à história do professor Samuel. Ele mora com seu gato Mishima, que foi o grande responsável por tirá-lo da solidão no romance anterior. Temos, agora, um salto de oito anos. Ele namora Gabriela, mas não percebe (ou não quer notar) os sinais de que a relação está esmaecendo. Até que a moça, por telefone, pede um tempo.  

Em paralelo, também lida com o mistério envolvendo cartões-postais que anda recebendo do Japão, sempre com referências a gatos e a expressão “wabi-sabi”, que significa, em linhas bem gerais, que o belo é imperfeito e incompleto.

Coincidentemente, seu amigo, que mora no andar de cima, está a escrever sobre esse tema. Sem pensar muito, já que fica em choque com o rompimento amoroso, compra uma passagem rumo ao Japão.

Lá, é colocado diante de situações estranhas, como um bar que só cabem praticamente três pessoas e que, de uma hora para outra, ganha o seu nome. Conhece um executivo japonês que extravasa suas neuras cantando no karaokê e sua sobrinha, que pensa em se matar. Por fim, tudo o leva a crer que a vida é muito maior que os problemas que ele pensa ter. Conclusão: nada melhor que uma boa viagem para nos fazer superar uma separação. Não chega aos pés do livro anterior, mas traz algumas boas mensagens aqui e ali.

"O melhor remédio para os amedrontados, solitários ou infelizes é sair, ir ao ar livre encontrar o céu, a natureza e Deus."

sábado, 1 de setembro de 2018

o campo científico

Universidade de Cambridge, uma das mais prestigiadas do mundo


"A definição do que está em jogo na luta científica faz parte do jogo da luta científica: os dominantes são aqueles que conseguem impor uma definição da ciência segundo a qual a realização mais perfeita consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem."

Neste artigo, escrito em 1983, o sociólogo francês Pierre Bourdieu critica duramente a forma com que a ciência é conduzida. Sobretudo, como os pesquisadores escolhem e realizam seus estudos, muitas vezes levados somente pela relevância que terão dentro do meio no qual estão inseridos, e não considerando a importância do projeto para o avanço da ciência e dos benefícios que serão proporcionados à sociedade, por exemplo. O autor fala que o campo científico é, antes de mais nada, um campo de lutas. Luta-se pelo monopólio da ‘autoridade científica’, que é a junção da capacidade técnica (saber fazer) com o poder social (prestígio acumulado).

As forças no campo da ciência são desiguais. Há de um lado os dominantes, que ocupam os lugares mais altos na hierarquia, e os dominados, que são os que estão entrando agora, os novatos. Os primeiros tendem a ser mais conservadores, garantindo que suas ideias sejam perpetuadas. Já os novatos podem até entrar com fôlego e disposição para inovar, mas logo suas forças serão reduzidas à medida que se deparam com as regras do jogo. 

O cientista tem a pesquisa que considera importante. Mas essa não será a única motivação. Seu trabalho deve também ser interessante para os outros e se adequar ao que já está em desenvolvimento. Fazendo uma associação ao que temos hoje nos cursos de Comunicação das universidades brasileiras, o projeto deve estar dentro de uma linha de pesquisa preestabelecida. Mais que isso, muitas vezes dentro da linha de estudo do próprio orientador. Assim, na luta entre o fechar-se, que é reproduzir a ideia do orientador e da instituição da qual faz parte, e o abrir-se, que é apresentar outras propostas ou outros autores, ganha o primeiro. O resultado são pesquisas focadas sempre nos mesmos temas e com as mesmas conclusões.

No campo científico os clientes dos produtos entregues são, na grande maioria das vezes, os próprios concorrentes, que são os outros pesquisadores. Por conhecerem o assunto tratado, são os mais propensos a consumirem os produtos e, consequentemente, a avaliá-los. E aqui vale outra ressalva importante: os julgamentos sobre o trabalho serão sempre influenciados pela posição que o pesquisador ocupa nas hierarquias institucionais. Conta o seu cargo e também a universidade da qual faz parte. Podemos, dessa forma, ter estudos relevantes, mas que serão desconsiderados por não pertencerem ao que se considera à elite acadêmica.

Bourdieu questiona o que realmente deve ser feito para que se prevaleça a verdade na ciência, sem jogos de interesse ou ideias que satisfaçam apenas os grupos mais privilegiados. Pessimista, ele mesmo responde que essa aspiração só é possível na ficção, lugar que permite que uma forma neutralizada e eufêmica, que representa apenas a classe social dominante, seja considerada ciência.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

metodologia da pesquisa em comunicação












Em "Metodologia na pesquisa em comunicação", texto extraído do "Dicionário da Comunicação" (imagem abaixo), os professores e pesquisadores Maria Immacolata Lopes e Richard Romancini discorrem sobre a epistemologia nos estudos sobre comunicação. Interesse relativamente novo, que surgiu na década de 90 e que traz uma reflexão sistemática sobre o conhecimento produzido no campo de comunicação.

A epistemologia é o estudo do conhecimento, seus fundamentos e princípios. Tem dimensão metafísica e valida o conhecimento produzido. E é justamente nesta validação que reside sua principal contribuição. Segundo os autores, toda pesquisa precisa ter um caráter prático, ou seja, precisa contribuir, de alguma forma, para a sociedade. Mais que buscar ‘status’, os estudos devem almejar os lucros epistêmicos. É imperativo indagar sobre a importância social do objeto a ser estudado, ou seja, o investigador precisa ter o compromisso com os problemas que precisam ser tratados. Isso depende muito mais de nossas filosofias e crenças do que da ciência. Para que o campo da comunicação avance, temos que fazer perguntas cada vez mais relacionadas com nossa existência social. 

Os autores questionam ainda a tensão entre tradição e mudança no campo científico. As práticas reflexivas atuais sobre a ciência dispõem sobre a relação entre o sujeito (investigador) e o objeto (investigado). Ao contrário dos estudos epistemológicos tradicionais, cuja atenção era a relação entre o objeto e o conhecimento.

Outro ponto a ser considerado na forma com que as pesquisas são feitas é a interdisciplinaridade. Estudar o mundo considerando que ele é uma realidade com inúmeras narrativas, e não segmentado por disciplinas, é a tarefa das ciências humanas. Além disso, a sociedade global exige que qualquer análise envolva necessariamente várias ciências. É o que vai dar conta de toda a realidade. Essa interação vai além das ciências exatas, humanas e sociais, passa também pela experiência comum, a intuição e a imaginação social. 

No século 19, o estudo sobre estado e o mercado, política, economia eram separados. Cada um com sua regra. Para lidar com a segregação, criaram-se novas designações interdisciplinares, como estudo da comunicação, ciência da administração, ciência do comportamento. Mas o que vem acontecendo, e que foi alvo de críticas, é que ao usar duas disciplinas, o pesquisador enfatiza a divisão e não a interdisciplinaridade. Aqui vale a ressalva que disciplina é a prática, e só se efetiva após longo trajeto de pesquisa. Diferente de doutrina, que é onde reside a teoria abstrata. Claro que há necessidade de especialização dentro de um campo de estudo, porém, há a necessidade maior de transdisplinarização ou pós-displinarização: superação dos limites entre especialidades fechadas e hierarquizadas. Para os autores, é preciso ter mais profundidade e consistência do que prestígio institucional. Em outras palavras, não cabe mais a máxima de que cada um deve se restringir ao seu campo de atuação.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

amor verdadeiro na livraria dos corações solitários



"Não é que eu seja tímida, não exatamente, ou que odeie as pessoas, porque não é isso. É mais que eu acho o mundo muito barulhento e cansativo."

"E tem as pessoas. Tantas pessoas, e todas elas falando sem parar, sem nem se preocupar se estão falando baixo.Tendo que expressar cada pensamento que lhes vem à cabeça. Não consigo nem sair para uma caminhada sossegada no parque sem ter alguém em volta gritando no celular, ou ouvindo música e imaginando que o resto do mundo também quer ouvir. Existe um limite para o que eu consigo aguentar!"


Ai, que delícia trabalhar em uma pequena livraria londrina, especializada em livros românticos e com uma casa de chá que deixa o ambiente ainda mais gostoso. Pois é exatamente assim a "Felizes Para Sempre", apresentada para nós na série "A livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling. O primeiro livro contou como o estabelecimento surgiu e a história de Posy Morland, a proprietária.

Agora, em "Amor verdadeiro na livraria dos corações solitários" temos a sequência sob o ponto de vista de outra personagem que trabalha lá, a introspectiva Veridity Love. Logo de cara, achei melhor que o livro anterior. Gostei muito de ler sobre esta moça, que não gosta muito de se relacionar com outras pessoas. Seu problema é o barulho que o mundo produz. Tudo o que ela quer no fim do dia é sossego e espaço para tomar um vinho em companhia somente de um bom livro. Convenhamos, isso não é pedir demais. Mas todos conspiram contra seus objetivos simples de vida. São tantas celebrações, encontros, festas. E, para piorar, a cobrança por um relacionamento amoroso. Para driblar tudo isso, ela inventa um namoro fictício com Peter Hardy, oceanógrafo que vive em alto mar e que sempre volta nos momentos mais oportunos, livrando-a de vários compromissos. Afinal, "precisam curtir o reencontro a dois". Entretanto, depois de certo tempo, os amigos querem conhecê-lo. Haja desculpas! Até que num ato de desespero, Verity acaba conhecendo Johnny. Ela, literalmente, se joga na mesa em que ele está jantando quando as amigas a seguem na tentativa de conhecer o tal cara misterioso.

Eis que ele tem exatamente o mesmo problema: pressão para que arrume uma namorada. A partir daí, tudo é previsível. Vale apenas como entretenimento. Aliás, da metade do livro para frente, eu me decepcionei. Achei muita enrolação para pouca aventura. Sem contar o final, extremamente meloso e piegas. Cadê o humor das primeiras páginas? Uma pena. De qualquer forma, não vou deixar de frequentar essa livraria. Já estou com o próximo tomo, que fala sobre Nina. É sempre bom ter um chick lit na mão para quebrar a tensão do dia a dia.

Trechos que também falam por mim ;-)


"Foi um dia cansativo e eu preciso de sossego."

"Tudo que ela queria era se sentar e ler um livro com uma taça, ou no máximo duas, de vinho tinto."

"Era sua poltrona de leitura. Sua poltrona-santuário. Sua poltrona de se-aconchegar-debaixo-de-um-cobertor-e-deixar-que-o-mundo-a-esquecesse."

segunda-feira, 9 de julho de 2018

a pequena livraria dos corações solitários





"Como era bom abrir um livro novo e inspirar aquele aroma delicioso.


Esta aí um chick-lit bem chick-lit. Bem ao estilo de Bridget Jones. Inclusive em várias passagens lembrei dessa personagem enquanto lia as peripécias de Posy Morland. Ambas desleixadas, atrapalhadas e muito engraçadas. Mesmo no meio da bagunça, conseguem com que tudo acabe dando certo no final. Posy cresceu dentro da livraria Bookends, em Londres. Lá conheceu seus escritores favoritos, aprendeu a amar a literatura e teve seu primeiro e único emprego. Seus pais já trabalhavam lá antes. O pai como administrador e a mãe cuidando do salão de chá. Mas um acidente de carro mata os dois, deixando Posy orfã e responsável por Sam, o irmão sete anos mais novo. Alguns anos depois, ela sofre outra perda, a de Lavínia, proprietária, por quem tinha um grande carinho. Antes de morrer, ela deixa uma carta na qual passa a livraria para Posy, com a condição de que ela devolva ao estabelecimento a glória que teve no passado.

Ela convoca os demais funcionários para juntos planejarem a reabertura em grande estilo: Nina, a garota tatuada e cheia de paqueras; Verity, a responsável pelas contas que odeia se relacionar com as pessoas; Tom, que trabalha em uma tese que todos desconhecem. Caso não tenha resultados positivos em até dois anos, ela deverá passar o local para as mãos de Sebastian Thorndyke, o neto de Lavínia. Rico, bem sucedido profissionalmente e conhecido como o homem mais grosso de Londres, ele fará de tudo para interferir nos trabalhos da equipe, inclusive dando ordens em todos. Posy ama a Bookends e quer transformá-la em "Felizes para sempre", especializada em livros que falam sobre o amor. Já Sebastian enxerga a oportunidade de se apropriar do nicho de policiais. A guerra está travada, com todos os clichês possíveis. O final não será nada, nada surpreendente. Ainda assim, a leitura é proveitosa. Afinal, quer tema mais gostoso que histórias dentro de uma pequena livraria em Londres? Os únicos pontos chatos (que eu quase pulei) eram os trechos do romance picante que Posy resolveu escrever para esfriar a cabeça. Que livro chato, menina! Desista. Hahaha!

No mais, fica a dica. "A pequena livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling, é o primeiro de uma série que promete contar a vida de todos os funcionários. A próxima é Veridity. Vi que também já saiu a edição de Nina. Vou seguir acompanhando e me divertindo com eles :-)

quinta-feira, 28 de junho de 2018

as brumas de avalon - a senhora da magia




"Sempre soube que tive outras vidas, pois parece-me que a vida é algo demasiado grande para ser vivido apenas uma vez e ser logo apagado como uma lâmpada, quando o vento sopra."

Toda vez que menciono que estou a ler "As Brumas de Avalon", ouço que é um livro fantástico, maravilhoso. A edição que tenho traz a história em quatro tomos. Levei meses para concluir a leitura do primeiro, o que significa que, para mim, a obra ainda não decolou. Para ser honesta, dei uma (leve) empolgada nos últimos capítulos, quando Artur foi coroado. 

Marion Zimmer Bradley nos conta a lenda do Rei Artur sob o ponto de vista das mulheres que o rodeava, isso inclui sua meia irmã, Morgana; sua mãe, Igraine; a tia e Senhora de Avalon, Viviane; dentre outras. Começamos com Igraine que muito nova foi tirada de Avalon, terra pagã, para se casar com um cristão, o Duque Gorlois da Cornualha. Com ele teve uma filha, Morgana. Sua vida é basicamente obedecer ao marido. A submissão a torna infeliz. Sua única válvula de escape é a filha. Até o dia em que encontra Uther Pendragon, e por ele se apaixona. Mas trata-se de um amor de outras épocas e outras vidas. Por ser de Avalon, ela tem certos poderes, como a visão. Consegue viajar pelo tempo e enxergar o que outros não veem.

A Bretanha está em guerra e são muitos os que querem dominá-la. De alguma forma, as mulheres que estão à frente de Avalon são as estrategistas dos conflitos, junto com Merlin, uma espécie de mago conselheiro. E uma das grandes estratégias é justamente preparar o grande rei que deverá assumir o trono. Tudo é meticulosamente planejado sem levar em conta sentimentos ou desejos dos envolvidos. 

Morgana tem grande destaque e é ela quem nos fala entre um capítulo e outro. Após a morte de seu pai, é enviada para Avalon para ser criada como uma sacerdotista. Acompanhamos todos os seus anseios, crenças e momentos de dúvida por conta das consequências que suas escolhas trouxeram.

Embora a proposta seja enaltecer o papel feminino, percebemos que ele ainda é muito restrito aos rituais pagãos e que as mulheres ficam sempre nos bastidores. No fim das contas o prestígio é sempre dos homens. Para eles, se dedicam, trabalham e sofrem. Mas na hora do vamos ver, são eles que são coroados e reverenciados. 

Vou continuar a leitura dos demais volumes até para ver o desfecho. Também pretendo ler livros que trazem outras versões dessa lenda, até para entender melhor algumas passagens, sobretudo no que diz respeito às batalhas que são travadas.

Embora o livro não tenha caído totalmente no meu gosto pessoal, tenho que reconhecer que o assunto e abordagem são extremamente interessantes. Ele é rico em detalhes e nos mostra muito sobre os rituais pagãos, ofuscados pelo cristianismo a partir da idade média. É um universo rígido, cheio de regras, mas bonito e livre de preconceitos. Mas o que mais me agradou no livro foi a neblina, as brumas que garantem o esconderijo de Avalon. Quero muito entrar nessa terra :-)

Espero que, a partir de agora, a leitura seja mais fluída.

Trechos

"Os cristãos procuraram acabar com toda a sabedoria que não fosse a sua, e na luta para conseguir isso, estão banindo do mundo todas as formas de mistério, exceto as que harmonizam com a sua fé religiosa. Consideraram heresia pensar que os homens têm mais de uma vida, o que qualquer camponês sabe ser verdade."

"Você foi injusto, e faz bem em pedir meu perdão, que só terá quando os infernos subirem, e a Terra baixar sob o oceano ocidental."

"O destino da mulher era ficar sentada em casa, no castelo ou na cabana - havia sido assim desde a chegada dos romanos."

"Com os animais, sempre se sabe exatamente o que pensam, ois não podem mentir, fingir ser aquilo que não são.

terça-feira, 12 de junho de 2018

a garota italiana




"Dei-me conta de que podemos amar alguém de todo o coração, mas isso não significa que essa pessoa nos faça bem."


Faz tempo que estava com "A garota italiana" em casa. Mas quando comecei a leitura, deslanchei, como sempre acontece com os livros de Lucinda Riley. 

Rosanna Menici escreve ao filho contando sua obsessiva história de amor. Não chega a ser um romance epistolar. Há apenas algumas cartas que se intercalam com os capítulos narrados ora sob o ponto de vista dela, ora de outros personagens. Ela nasceu em Nápoles e quando criança se sentia o patinho feio da família, principalmente quando comparada com a irmã, admirada por todos por sua beleza. Durante uma festa, quando tinha 11 anos, conhece Roberto Rossini. Com 28 anos, já era um famoso cantor de ópera. Na festa, Rosanna tem seu momento de fama quando pedem que ela cante Ave Maria. Sua voz encanta a todos, inclusive Roberto, que a indica a um renomado professor de música. É o começo de muitos sonhos e estudos. Os anos passam e ela se aperfeiçoa cada vez mais. Contudo, em determinado momento terá que escolher: cantar no teatro que sempre quis ou viver o grande amor da vida. Confesso que fiquei chateada com a escolha. Mas temos que lembrar que Lucinda trata do amor acima de tudo. Desta vez, traz um sentimento que cega e que distancia a pessoa de tudo mais, inclusive colocando a vida do filho em risco. 

Como já disse outras vezes, seus livros não trazem nenhuma reflexão profunda. São bons enquanto duram. Sempre com cenários calmos, tranquilidade. E é isso que me atrai. Dica: leia de barriga cheia. Porque aqui e ali surgem massas, risotos e bate uma fome. Tanto que li alguns capítulos durante as refeições e assim pude ter uma experiência sensorial. Adoro fazer isso e recomendo. Estão tomando chá na história? Faça um. Bebendo vinho? Pegue sua taça? Comendo macarronada? Faça seu próprio prato! Tudo fica mais agradável e nos sentimos no desenrolar dos fatos. Também ouvi algumas das operas que são citadas, como Madame Butterfly, de Puccini, com o mesmo propósito: entrar no livro

Mas tenho duas críticas. A primeira é em relação aos trechos machistas. A mulher de 45 é velha para o moço de 30 e poucos. Inclusive, chega-se a dizer que ela está longe da fertilidade e, por isso, não serve para ele. Absurdo. Ao passo que não há nenhum comentário negativo para o relacionamento do cara de 41 anos com a mocinha de 24. Não sei se essa foi a mensagem que a autora quis passar, refletindo o que se passa na sociedade ou se realmente escreveu por escrever, sem pensar. Infelizmente, não senti nada subliminar. Apenas preconceito mesmo. Lucinda, please! Outro ponto é na escrita. Talvez seja problema de tradução, mas encontrei alguns absurdos como um ‘bebê prematuro de cinco semanas’. Além das pessoas sempre ‘cerrarem o punho’ quando nervosas. Essa repetição enfraquece o texto.

No mais, foi gostoso passar alguns dias em Nápoles e no interior da Inglaterra com Rosanna, sua família e amigos. Última observação, não comprem o livro apenas pela capa, pois a da edição brasileira não tem nada a ver com a história ;-)

"O amor é uma espécie de vício. É preciso suportar um período de abstinência e não se punir por de vez em quando pensar que nunca vai passar."

"Se tem uma coisa que aprendi na vida, foi que ela não é um ensaio. Para nós, mulheres, é mais difícil. Se quisermos ser felizes, precisamos ser mais fortes que os homens."

segunda-feira, 4 de junho de 2018

o assassinato de roger ackroyd



"Mas o senhor pode imaginar por si mesmo, monsieur, que um homem possa trabalhar rumo a um certo objetivo, possa labutar e mourejar para alcançar certo tipo de lazer e ocupação, e afinal descobre que anseia pelos velhos dias ocupados e pela antiga ocupação que ele se acreditava tão feliz de deixar?"

Romance policial de Agatha Christie com seu famoso detetive belga, Hercule Poirot. Escrito em 1926, foi o primeiro grande sucesso da autora e é considerado uma de suas obras-primas. O final é incrível. Poirot desvenda o crime (quase que) perfeito: o assassinato do rico industrial Roger Ackroyd. Como em qualquer romance policial, há vários suspeitos, incluindo o pobre mordomo. Quando você terminar de ler, leia o livro novamente e verá que todas as pistas estavam lá. Bem na sua cara. Sua pergunta será: como eu não descobri o culpado antes?

O cenário é King's Abbott, pequena cidade do interior da Inglaterra. Nada acontece por lá e o passatempo de todos é a fofoca. Um dos principais alvos é Roger Ackroyd, o homem mais notório do lugar. Caroline Sheppard, irmã do prestigiado Dr. James Sheppard, que é o narrador da história, lidera o time dos fofoqueiros. Alguns eventos deixam a cidade ainda mais movimentada. Primeiro, o suicídio de Dorothy Ferrars, viúva muito jovem. Logo depois, o assassinato de Ackroyd em sua própria casa. Antes de morrer, ele disse ao Dr. Sheppard que estava noivo de Dorothy e que ela envenenara o marido. Alguém descobriu e a estava chantageando. Ackroyd não sabia quem era essa pessoa, mas a noiva lhe enviou uma carta contando tudo. Depois do assassinato a carta desaparece. 

Muitas pessoas são suspeitas. Começando com o mordomo, John Parker. Os outros são a Sra. Ackroyd, cunhada de Ackroyd; Flora Ackroyd, sobrinha e filha da Sra. Ackroyd; Ralph Paton, enteado de Ackroyd; Geoffrey Raymond, secretário; Elizabeth Russell, a governanta; Hector Blunt, caçador e amigo da vítima; e  Ursula Bourne, a copeira. 

E é aí que o detetive belga, Hercules Poirot, entra em cena. Ele acabou de se aposentar e  mudou para essa cidade. Mas a pedido da sobrinha de Ackroyd, aceita o trabalho. Como seu assistente, Hastings, está na Argentina, quem o ajudará nas investigações é o Dr. Sheppard, que tem informações sobre todos.

Poirot é muito observador e nada escapa aos seus olhos. Extremamente detalhista, diz que conversa com as cadeiras, mesas e todos os objetos da cena do crime. Porque são eles que sabem o que realmente aconteceu.

Esse foi o livro de Agatha Christie que mais me impressionou. Era minha escritora favorita na adolescência. Eu o li há mais de vinte anos e toda a história ainda estava bem viva em minha memória, principalmente o desfecho. Por conta de uma das tarefas do meu curso de francês, pela terceira vez, me debrucei sobre ele. E mais uma vez se mostrou fascinante. Claro que eu não tive a surpresa do final. Mesmo assim, fiquei envolvida com os suspeitos e o desenrolar de cada segredo descoberto. Os ingredientes são os mesmos de todos os romances da autora, mas é diversão certa.