sábado, 5 de fevereiro de 2022

longa pétala de mar



"Sem ciência, indústria e técnica não há progresso possível, e sem música e arte não há alma."


Este é meu primeiro contato com a chilena Isabel Allende. E já quero mais. "Longa pétala de mar" é daqueles livros que não conseguimos largar. A narrativa começa durante a Guerra Civil Espanhola, confronto entre republicanos, ligados ao comunismo, e nacionalistas, alinhados com o fascismo e nazismo. Estima-se que tenha deixado mais de meio milhão de mortos entre 1936 e 1939, período em que os conflitos aconteceram.

É neste cenário que conhecemos o jovem médico do exército republicano Vitor Dalmau. Toda a sua dedicação à medicina começa quando salva um garoto que estava com o peito aberto e coração exposto. Com as próprias mãos consegue reanimar o órgão, devolvendo o rapaz à vida. Mas seu irmão, Guillen, não tem a mesma sorte e morre deixando a namorada, Roser Bruguera, grávida. Ela havia sido acolhida pelo pai deles, que viu na moça uma promissora pianista. E durante muito tempo cuidou de Guillen, quando ele retornou de uma das batalhas totalmente desenganado. Não demora e os dois se apaixonam. Mas Guillen volta ao combate e não resiste. Com o avanço dos inimigos e preocupado com a família, que já não tem mais o pai que também morreu, Vitor faz de tudo para tirar a mãe, Carme, e Rose da Espanha. Com a ajuda de um amigo, as duas seguem para França. Carme, porém, fica pelo caminho, pois não consegue deixar a terra natal e cheia de lembranças. Já Rose fica em um abrigo até reencontrar Vitor meses depois. É quando entra em cena o poeta chileno Pablo Neruda, que ajudou mais de dois mil espanhóis a buscarem exílio em seu país. Vitor vê no cargueiro Winnipeg a chance de sobreviver e salvar a cunhada e o sobrinho, que já nasceu. Porém, há algumas regras a serem obedecidas, e uma delas é que só quem é casado pode embarcar junto. Então, eles se casam e partem.

No Chile, ele prosperou na medicina e ela na música. Ele assume o filho do irmão, que o tem como seu pai. A relação de Vitor e Rose é baseada na amizade, o que deixa ambos livres para outros relacionamentos. Nessa, Vitor se envolve com a filha de uma tradicional família chilena, o que rende momentos dolorosos, principalmente para a moça. O livro está dividido em três momentos: guerra e êxodo, amores e desencontros, retornos e raízes. Lá pelas tantas, Vitor e Rose retornam à Espanha, mas apenas para descobrirem que o lugar deles está no Chile, a Pétala do Mar. Para escrever o romance, Allende se baseou em fatos e pessoas reais, como Vitor, um engenheiro que conheceu. O resgate feito por Neruda também aconteceu. Assim como o golpe de estado que derrubou o regime democrático em 1973 no Chile, assim como o presidente Salvador Allende, tio da escritora. E o fim? Quando parece que nada mais há de ser feito, surge algo que nos enche, novamente, de vida. Vale pelo romance. Vale pela aula de história.

domingo, 2 de janeiro de 2022

o clube de biscoitos



"Aprendi que, mesmo que você faça tudo como deve ser feito, as coisas podem dar terrivelmente errado; portanto, é melhor fazer o que seu coração mandar."


Comprei este livro pouco depois das festas de fim de ano de 2020 e deixei reservado para ler no natal seguinte. E, confesso, foi pela capa. O ginger bread brilhando me conquistou.

"O clube do biscoito", da norte-americana Ann Pearlman, é narrado em primeira pessoa por Marnie, que há anos organiza o tal clube do título, que se reúne uma vez por ano para trocar biscoitos, receitas e histórias, muitas histórias. Ela começa nos mostrando as regras, dentre as quais: somente doze mulheres podem participar. Nunca, jamais, never podem deixar de comparecer às reuniões, sob pena de perderem seu lugar. Cada uma deve preparar treze dúzias de biscoitos caseiros, sendo que uma para cada participante e a outra a ser doada para alguma instituição de caridade. Na sequência, acompanhamos Marnie com os preparativos para o grande dia. O encontro é sempre em sua casa e é muito gostoso ver o cuidado que ela dedica para receber as amigas, algumas de longas datas. Prepara o ambiente, arruma a árvore de Natal, a mesa com petiscos, abre um vinho, deixa a cama pronta para os inúmeros casacos que serão retirados. Estamos nos Estados Unidos e a temperatura está bem baixa. A sensação é de um ambiente bem aconchegante. Tenho vontade de ir para lá e me juntar ao que está por vir. Paralelamente, ela nos apresenta, por meio de lembranças, sua própria vida, suas filhas, namorado e dilemas. Aos poucos, as convidadas vão chegando, trazendo seus biscoitos, um prato para a noite, seus problemas e resoluções. Da mesma forma, suas histórias nos são contadas. Neste ponto, o livro começa a ficar enfadonho e repetitivo. O ritual consiste em uma rodada na qual todas devem apresentar seus biscoitos (lindamente embalados para presente e as mulheres são bem criativas neste ponto), como foram feitos e o que há por trás das receitas. Como são doze, imagine! Ainda assim, foi uma leitura leve e que me contaminou com o espírito natalino, principalmente por conta da bela amizade entre as personagens. Só não fiquei com vontade de testar as receitas dos biscoitos elaborados, todas muito bem descritas e bem complicadas (no meu entendimento). Mas arrisquei uma receita vegana que vi em outro lugar com minha filha. E foi super divertido! Ah, interessante também ler sobre a origem dos principais ingredientes utilizados, como o açúcar, nozes, alecrim, dentre outros, que abrem cada capítulo :-)

Feliz 2022.

domingo, 26 de dezembro de 2021

sete dias juntos


"Queria um pouco de normalidade à sua volta, 
qualquer coisa para amortecer a sensação de queda livre."


Dando sequência às leituras natalinas, me deparei com este livro contagiante: "Sete dias juntos", da jornalista e escritora britânica Francesca Hornar. Você não consegue largá-lo até ver o desfecho, sem contar que rende boas risadas com as situações apresentadas, embora tenha momentos tensos. Aliás, poderia facilmente render uns seis episódios de uma série na Netfilx. Após vários anos, a família inglesa Birch conseguirá reunir todos os membros para as festas de fim de ano. Isso porque a filha desgarrada, Olivia, está voltando após um período na Libéria, onde trabalha como voluntária médica. Acontece que o país vive uma epidemia e todos que retornam de lá precisam se isolar por sete dias. Pretexto ideal para Emma, a mãe, organizar uma quarenta em família na mansão que herdou no interior inglês. Porém, a euforia com os preparativos é só dela. O pai, Andrew, está indiferente e ausente. A filha mais nova, Phoebe, só está preocupada com o pedido de casamento que, finalmente, foi feito pelo eterno namorado. Sua preocupação é definir o local da festa e manter suas redes sociais atualizadas. Enquanto isso, Olívia está totalmente catatônica. Suas poucas falas são para menosprezar os exageros da mãe com comida, a futilidade da irmã e a distância do pai, conhecido crítico gastronômico. Ela tem pesadelos com o que passou no continente africano e não aceita a desigualdade que agora percebe. Neste meio tempo, surge outro personagem, Jesse, norte-americano boa pinta que, com a desculpa de fazer um documentário, também vai acabar no casarão. E todos, inclusive o noivo da caçula, tem seus segredos, que aos poucos vamos descobrindo, mesmo antes de virem à tona na trama. O livro é dividido em capítulos que alternam o ponto de vida de cada personagem. Leitura rápida, com trechos dolorosos, mas com um final que combina com o fim de ano.

sábado, 18 de dezembro de 2021

o natal de poirot


"Acredito que o presente importa, não o passado! O passado deve terminar. Acredito que, se buscamos manter o passado vivo, terminamos por distorcê-lo. Nós o vemos em termos exagerados, com uma falsa perspectiva."

Agatha Christie foi a autora que mais li na minha adolescência. Eu devorava seus livros. Naquela época sempre pronunciava o nome do detetive belga de acordo com a grafia para o português: PO I RO T. Confesso que mesmo agora, quando sei que é “poarrô”, continuo lendo como antes.

Porque é a cara dele. Acho que combino mais e pronto. Sem delongas.

Ainda não tinha lido “O Natal de Poirot” e escolhi esse romance para abrir minha maratona natalina. Foi uma ótima escolha, embora eu tenha matado (sem trocadilhos) o assassino logo no começo. Para mim, estava na cara.

Véspera de Natal, Simeon Lee, milionário que nunca foi próximo da família, resolve reunir todos os filhos e agregados para que possam passar as festas juntos. O estranhamento é imediato, inclusive do único filho que mora com ele, e do qual também não é lá muito chegado. Resultado, logo estão em sua mansão, além de Alfred e sua esposa que já moram lá, o melancólico David com a cônjuge, o aventureiro Harry, que há anos não dava suas caras, e o político George, também acompanhado. Surgem ainda para as comemorações a neta Pilar, filha da filha do magnata, que fugiu com um espanhol e morreu há anos, e Stephen, que se diz filho de um amigo de Lee da época em que fez fortuna na África. Obviamente, todos têm seus motivos para odiar o anfitrião. Até que, após um grito estridente, ele é encontrado morto em seu quarto, no meio de um rio de sangue. Tanto que uma das personagens recorre à frase de Macbeth, de Shakespeare, para traduzir a cena que vê: “Mas quem pensaria que o velho tinha tanto sangue em si?” Ainda temos na casa o mordomo (claarooo), um valete e dois detetives. O nosso Hercule Poirot está de férias e acaba sendo chamado para resolver o caso. E resolve. Mas, como disse antes, infelizmente, não consegui duvidar de ninguém, mesmo com todas as supostas provas. Talvez tenham sido os anos de leitura de Agatha. Talvez as lições anteriores de Poirot. Só sei que a resposta estava ali. Bem ali. Desde o começo. Leiam e me digam.

sábado, 4 de dezembro de 2021

a irmã desaparecida



"E daí se vocês quiserem passar uma noite, uma semana, um mês ou talvez uma vida inteira juntos? Esses momentos, quando você conhece alguém que está tão atraído por você quanto você por ele, são muito raros."

E cheguei ao sétimo livro da saga “As sete irmãs”, de Lucinda Riley. Infelizmente, pouco depois de sua morte. A autora deixou ainda rascunhos e ideias para o que seria o oitavo sobre as irmãs D’Aplièses, cuja história é baseada nas Plêiades da mitologia grega, as sete filhas de Atlas e Pleione, a filha do Oceano. Uma surpresa, já que todos esperavam que “A irmã desaparecida” fosse o último da série.
A cada volume, conhecemos uma das irmãs, ao mesmo tempo em que visitamos diversos países, que revelam suas origens. Vale recordar que todas foram adotadas por um milionário que mora na Suíça, o Pa Salt. Quando ele morre, deixa pistas para que elas encontrem suas famílias biológicas. Dele, pouco sabemos. É um mistério que ronda, inclusive, suas filhas.

Com elas, já estivemos no Brasil, Noruega, Inglaterra, Austrália, Escócia, Espanha, Estados Unidos e Quênia. Sempre com a mesma estrutura narrativa. Do presente para conhecer o passado de seus ancestrais. A leitura é rápida e envolvente e nos dá uma ideia bem detalhada de como as pessoas viviam nas épocas retratadas. Foi bem interessante, por exemplo, ler sobre como o Cristo Redentor chegou ao Rio de Janeiro no livro que fala sobre Maia. Neste que acabei de ler, o cenário é, principalmente, a Irlanda, país natal de Lucinda. Vou roubar um trecho do seu site que descreve muito bem o contexto abordado:

“Em A irmã desaparecida, concentrei-me na Guerra da Independência e na subsequente Guerra Civil da década de 1920. Os confrontos mais recentes foram o que nós irlandeses chamamos de “os Conflitos” – um atrito que durou trinta anos na Irlanda do Norte, da década de 1960 ao final da década de 1990. Foi uma campanha terrorista continua, travada pelos republicanos e provocada pela crescente frustração sentida pela comunidade católica da Irlanda do Norte. Na batalha dos republicanos contra o Estado, 3.500 pessoas foram mortas e mais alguns milhares foram presos.”

O enredo é a busca pela tal irmã desaparecida, a que nunca foi levada para casa. A partir de alguns documentos encontrados pelo advogado da família, as seis mulheres seguem os rastros que podem levá-las até Mérope, a sétima irmã. A jornada começa na Nova Zelândia, país em que supostamente ela vive. Passa pelo Canadá, Inglaterra e França e, finalmente, Irlanda da década de 20 com a história de Nuala, que sempre lutou pela independência de seu País. Devo confessar que a tal irmã desaparecida me decepcionou um pouco. Gostei muito mais da história de sua avó e achei que o desenrolar de sua vida foi bem fraco. Sem contar a decepção ao ver que não era o desfecho esperado. Digo decepção com euforia, pois sei que vem mais por aí. Espero que o trabalho do filho de Lucinda, Harry Whittaker, responsável por organizar as notas da sua mãe faça jus ao final que a saga merece. RIP, LR.


As sete irmãs (Brasil)

A irmã tempestade (Noruega)

A irmã da sombra (Inglaterra)

A irmã da pérola (Austrália)

A irmã lua (Espanha)

A irmã sol (Quênia)

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

a livraria dos achados e perdidos


“Você nunca está sozinha
quandoestá lendo um livro.”

Natalie está na festa que celebra, dentre outras coisas, sua promoção. Executiva bem-sucedida na indústria do vinho em plena Califórnia, ela se choca ao ouvir seus funcionários comentando sobre como é uma péssima gestora. Se não bastasse, seu noivo e sua mãe simplesmente não aparecem nesse encontro, para ela muito importante. Perdida, se pergunta se realmente está no lugar certo. Até porque, pensa, a despeito de ser considerada um chefe ruim, está sempre corrigindo o trabalho dos outros, antes deles serem enviados adiante. Ou seja, ela salva a pele de muita gente lá. Ingratos!

Mas seu mundo desmorona mesmo quando é informada do motivo que impediu a mãe e o noivo de prestigiarem seu reconhecimento profissional. Ambos morreram em um acidente de avião enquanto estavam a caminho do evento. Ela, então, retorna para sua casa de infância e para a livraria que acaba de herdar. Lá mora também seu avô, que está bem doente. Aos poucos, descobre que a mãe estava atolada em dívidas e que eles podem perder a livraria, cujo valor sentimental é inestimável. Natalie se vê, então, obrigada a tomar uma decisão: voltar ao trabalho de executiva ou assumir a missão de recuperar a livraria e cuidar do avô. Óbvio qual será a escolha. 

No meio do caminho, surge Peach e um novo romance. Sobre os achados e perdidos do título, nada demais. Esperava mais. "A livraria dos achados e perdidos", de Susan Wiggs, é fraquinho, fraquinho. Valeu por apresentar uma livraria que mora nos meus sonhos e que transmite todo o amor pela literatura. Fiquei com vontade de comer os pãezinhos de canela com um cafezinho, sempre presentes nos encontros dos personagens.

domingo, 31 de outubro de 2021

o fantasma de canterville e outras histórias

                 


“A coisa toda lhe atingiu como um raio. 
Fora ludibriado, trapaceado, feito de bobo!”


Comprei esta coletânea de contos de Oscar Wilde por conta do texto do título. Queria ler algo próprio para o Halloween. Apesar de não ser uma história de terror, foi extremamente divertido me deparar com esse fantasma britânico tentando assombrar uma família norte-americana que não está nem aí para ele. Pelo contrário, Sir Simon Canterville é que acaba com medo dos Otis, que compraram a velha mansão na Inglaterra mesmo com os avisos de que era assombrada. Hiram e Lucrecia Otis são milionários e nunca demonstram um pingo de medo com as tentativas de Simon para aterrorizá-los. Conversam calmamente com o espírito, inclusive oferecendo produtos industrializados para, por exemplo, tirar o rangido de suas correntes enquanto ele passeia à noite pela casa arrastando-as. O fantasma quer morrer. Para piorar, os gêmeos pequenos do casal vivem pregando peças nele. Apenas a outra filha entende o sofrimento da alma penada, que em vida matou a própria esposa, morrendo (merecidamente) acorrentado no porão. O conto faz alusão às diferenças entre a prosperidade do novo mundo e às tradições do velho, ironizando ambos os lados. Hilário.

“Depois de uma carreira como esta, vinham uns americanos malcriados oferecer-lhe o Lubrificante Sol Nascente e atirar um travesseiro na sua cabeça! Era por demais insuportável. Além disso, nenhum fantasma na História fora alguma vez insultado dessa forma. Pois bem, iria ter sua vingança. Ficou até o amanhecer em profunda reflexão.”

A edição que li é a versão para o Kindle (Unlimited) da Editora L&PM Pocket. Ao acessar o livro, notei que o conto que eu buscava ficou de fora do índice. Apesar de ser um detalhe, me fez questionar se não seria mais uma das pegadinhas do excêntrico fantasma de Canterville. A coletânea traz ainda outros contos interessantes, como “O crime de Lorde Arthur Savile”, no qual o tal lorde está prestes a se casar. Porém, numa festa, ouve de um quiromante que irá assassinar, em breve, alguém. Arthur Savile acredita veementemente na profecia e faz de tudo para antecipar os fatos e evitar ser pego de surpresa pelo destino. E, assim, poder casar-se sem problemas. Mas suas tentativas serão todas frustradas. Acaso é acaso, não? Há ainda “O príncipe feliz”, que mostra a amizade entre uma estátua e uma andorinha. Ele deixando de lados os bens materiais e ela, os sonhos. Lindo e triste. Chorei.

sábado, 23 de outubro de 2021

big little lies


“Se exibisse no Facebook como sua vida era perfeita, talvez também começasse a acreditar.”


E, na sequência, de "O segredo do meu marido", emendei a leitura de "Pequenas grandes mentiras", que virou série de TV, "Big little lies", no título original, em inglês. Mas, ao contrário do livro que se passa na Austrália, a versão televisiva tem como cenário os Estados Unidos, especificamente a Califórnia. Tirando este "pequeno" detalhe, é bem fiel ao romance.

Encontrei os elementos do livro anterior de Liane, como a mesma escola, que parece (des)unir todos, a necessidade de adaptação ao estilo das mães que já fazem parte do circuito e também três protagonistas: 1) Madeline, tem três filhos, totalmente extrovertida, toma a frente de todos os eventos escolares. Está no seu segundo casamento, mas ainda não engoliu o fora do primeiro marido, com quem teve a filha mais velha. Para piorar sua situação, a adolescente resolve ir morar com o pai e a madrasta, deixando-a furiosa. 2) Celeste, linda, mãe de gêmeos igualmente maravilhosos, bem casada e riquíssima. Melhor amiga de Madeline, mas ao contrário da outra, Celeste é bem reservada e parece estar sempre em outro mundo. 3) Jane, mãe jovem e solteira que acaba de chegar à cidade em que se passa a história. Seu filho, assim como os gêmeos e a caçula de Madeline, está prestes a entrar no ensino fundamental. Contudo, acaba sendo acusado de praticar bullying na aula de apresentação.

A narrativa é repleta de depoimentos, isto porque o mote principal é um assassinato que está sendo investigado. Em retrospecto, acompanhamos os movimentos que precederam a festa organizada para os pais, na qual um deles foi morto. Todos os participantes são intimados a depor. A partir dessas vozes, entendemos como é fútil o ambiente em que vivem, basicamente de aparências. São essas as pequenas grandes mentiras do título. O destaque, porém, é a forma com que a autora aborda a violência contra as mulheres: uma numa relação casual, outra dentro do casamento e a terceira sob o olhar de quem cresceu vendo o pai espancar a mãe. Todas com traumas, cicatrizes, vergonha e medo de denunciar o agressor. Mais uma vez, a mentira e a fuga parecem a melhor opção das mulheres que não querem aceitar que estão em um relacionamento abusivo. Enquanto isso, as marcas insistem em aparecer sem que ninguém possa ajudá-las. Vale muito a leitura! Principalmente para você, que possa estar passando por uma situação parecida. Quem sabe não seja o apoio que precisa para se libertar.

domingo, 17 de outubro de 2021

o segredo do meu marido

=

"Você podia se esforçar o quanto quisesse para tentar imaginar a tragédia de outra pessoa — afogar-se em águas congelantes, viver numa cidade dividida por um muro —, mas nada dói de verdade até acontecer com você. Pior ainda, com seu filho."


Nada tinha me preparado para o final de “O Segredo do meu marido”, da australiana Liane Moriarty.
O segredo do tal marido é apenas um dos pontos centrais do romance, recheado de meias verdades. A narrativa começa com Cecília a conjecturar sobre o quanto a queda do Muro de Berlim pode ter mudado sua vida. Até pensei que poderíamos adentrar, de algum modo, na Guerra Fria. No entanto, passou bem longe. Ela mora em Sidney, é extremamente metódica, organizada, consegue fazer seu tempo esticar à medida que assume cada vez mais responsabilidades. Sua rotina, porém, é colocada em cheque com uma descoberta. Ao procurar em seu sótão um suposto pedaço do muro de Berlim (daí seus pensamentos), lembrança de uma viagem, Cecília encontra uma carta do marido endereçada a ela: para abrir somente quando eu morrer, dizia o envelope lacrado. É óbvio que ela ficou extremamente curiosa. Ao mesmo tempo, não queria trair o companheiro. Pensamento vai, pensamento vem, ela acaba comentando com ele sobre a carta. O comportamento totalmente desproporcional do cara a deixa ainda mais intrigada. Pronto. Ela abre e daí tudo muda. O segredo do título realmente é algo horroroso e inaceitável. 

Enquanto isso, temos Tess, que mora em Melbourne e está levando o fora do marido. O pior é que o motivo é sua prima e melhor amiga. Os dois estavam apaixonados. Ela pega o filhinho de seis anos, larga os trabalhos da empresa que os três têm juntos (sim, além de tudo, sócios) e parte para a casa da mãe, em Sidney. Nessa cidade, há ainda Rachel, que está lidando com a iminente separação do seu neto. A nora foi convidada a trabalhar em Nova York, levando junto o filho e o netinho de dois anos, sua companhia e motivo das poucas alegrias. Ela teve, no passado, uma perda muito grande que jamais será superada. Apesar de estarmos numa cidade com mais de cinco milhões de habitantes, eu me senti lendo uma história que se passa em um vilarejo aonde todos se conhecem e se conectam. Na verdade, o que vai unir todas as personagens é o bairro em que mora e, especificamente, a escola em que estudaram e na qual Rachel, hoje, trabalha. De um jeito ou de outro, as vidas das três se entrelaçam, de tal modo que a ação de uma impacta nas outras. Leitura rápida e interessante. O posfácio traz a consequência de nossas escolhas e como elas podem mudar tudo ao redor. Ignorar uma criança te chamando é uma delas. Não precisava, Liane.

sábado, 25 de setembro de 2021

sobre os ossos dos mortos


"Tudo em que se pode crer é uma imagem da verdade."


"Sobre os ossos dos mortos", da escritora polonesa Olga Tokarczuk, reforça todos os estereótipos em torno dos protetores dos animais. Estigmas que impedem o avanço da causa e, consequentemente, o fim dos maus-tratos. Estamos falando da ideia de que os que defendem os bichos são descontrolados, loucos (sim, podemos ser diante dos absurdos com que nos deparamos) e sem propósitos (isso jamais!). E que deveriam se dedicar a milhares de outras causas humanas em vez de prejudicar quem depende, por exemplo, do abate (argumento bem comum dos que não se preocupam com causa alguma). Bem, sei que fui ao extremo, pois nem todos pensam assim dos que lutam pelos direitos dos bichos. Mas fiquei incomodada com a forma com que a protagonista, Janina Dusheiko, foi retratada, especialmente no desfecho.

Estamos no inverno congelante em um vilarejo polonês. Lá, durante este período do ano, as pessoas fecham as casas e partem para outras localidades com temperaturas mais elevadas. Com exceção da Sra. Dusheiko, como é conhecida, e alguns outros poucos moradores. Engenheira aposentada, responsável pela construção de grandes pontes, e atual professora de inglês, ela tem como paixão a astrologia e como grande causa a defesa dos animais, que são caçados deliberadamente e ilegalmente naquela região. Também se debruça na obra de William Blake com um antigo aluno que estuda o poeta. Como renda, além das aulas, tem o dinheiro que recebe por cuidar das propriedades que ficam vazias nos dias mais congelantes. Ainda que frio piore suas dores, espalhadas por todo o corpo, ela não pode deixar seu posto, pois tem a missão de zelar, mais que pelas casas, pelos animais.

A narrativa começa com seu vizinho, Esquisito (ela não nomeia ninguém, todos são apelidados de acordo com suas características físicas, aliás, ela odeia seu próprio nome: Janina), batendo fortemente em sua porta no meio da madrugada. Ele havia encontrado outro morador da região, o Pé Grande, morto. Aparentemente, a causa da morte foi o engasgo com ossos do animal que acabara de comer. A sra. Dusheiko, porém, tem outra teoria: vingança das corças. O olhar intimidador que uma delas lança quando os dois se aproximam da casa da vítima é o primeiro indício de que há algo acontecendo. A partir daí, outras mortes vão corroborar para a teoria da nossa protetora, principalmente porque todos que foram assassinados tiveram envolvimento com os maus-tratos dos bichos. Ela vai à polícia e é ignorada, tenta desvendar os enigmas sozinha e sempre é tida como desvairada. Alguns chegam a ter pena da forma com que vive. Um fato importante é que ela perdeu seus dois cachorros logo no começo da história, suas amadas crianças. Isso é bem triste, principalmente quando ela encontra uma foto na casa de Pé Grande em que ele está com outras pessoas exibindo alguns animais que foram caçados. A partir daí só posso dizer que estou com a Dusheiko, mesmo que para o mundo trata-se de uma causa perdida. Mas entendo que Olga Tokarczuk, talvez a Senhora Cinzenta do romance (sim, a autora dá seu ar de graça ao ir morar nos confins da Polônia ao lado da protagonista), poderia ter dado mais chances ao fantástico, ao inusitado, não caindo no que todos esperam que seja a atitude dos que lutam sozinhos para mudar o que os incomoda. A adaptação para o cinema, Pokot, é ainda mais triste neste sentido. Enquanto isso, lutemos para que o especismo deixe de existir e para que os direitos dos animais sejam devidamente respeitados. Caso contrário, sigo torcendo pela vingança que, no fim, não aconteceu como eu esperava. Em determinado momento, um dos personagens canta Riders on the storm, do The Doors. Janina diz que é a trilha perfeita para aquela noite de tempestades. Eu digo que é a música que melhor define o cenário do romance: escuro, frio, assustador.


Riders on the storm

Riders on the storm

Into this house, we're born

Into this world, we're thrown

Like a dog without a bone

An actor out on loan

Riders on the storm



"É preciso manter os olhos e ouvidos abertos, associar os fatos, enxergar a semelhança lá onde outros veem uma completa discrepância, lembrar que certos acontecimentos ocorrem em vários níveis ou, em outras palavras: muitos incidentes são aspectos do mesmo acontecimento. E que o mundo é uma grande rede, é um todo único, e não existe nada que esteja isolado."