Dois cachorrinhos foram abandonados na rua dentro de uma caixa. Um deles, o mais saudável, foi adotado por uma menininha e ganhou o nome Happy. Sua história, triste, é contada no mangá "O cão que guarda as estrelas".
Três anos depois, após o grande sucesso que teve, Takashi Murakami lança "O outro cão que guarda as estrelas". Não é exatamente uma continuidade, mas a narração do que aconteceu paralelamente à primeira história. Aqui acompanhamos a vida do irmão de Happy. Doente, é desprezado por todos. Com exceção de uma idosa que só pensa em morrer. Ao se deparar com o cão, vê nele uma ótima companhia para ir dessa para uma melhor, já que acredita que o animal também está com os dias contados. O que ela não contava é que o pouco de atenção que deu ao Pequeno, como passa a chamá-lo, seria suficiente para que ele recuperasse a saúde. A partir daí, acompanhamos a transformação que esse amor, entre ambos, realiza. Paralelamente, temos outra história. A de um garoto que é deixado pela mãe e que vai acabar sendo ajudado por outro cachorro, que por dois anos está à venda em um petshop. Essa criança aparece rapidamente no primeiro mangá e, aqui, acompanhamos melhor sua trajetória.
O fim desse segundo volume é bem menos trágico que o primeiro. Mas ambos falam em nome dos animais. Ouvimos suas vozes, suas emoções. Esses dois mangás deveriam ser lidos por todos que têm cachorro ou pretendem tê-los. Também por aqueles que um dia maltrataram algum. Falam do amor incondicional que nos dão e da inocência com que percebem suas relações com os humanos.
Emocionante.
E acabei de descobrir que tem um filme com a história de Happy. Vi o trailer apenas. Sei o desfecho e vou me poupar do sofrimento. Mas #ficaadica.
"Estou aqui sozinha, meu
marido jaz morto no chão, e eu algemada à cama. Posso gritar até ficar roxa e
não vai adiantar nada; ninguém vai ouvir."
Bem
que me avisaram para terminar as últimas páginas de “Jogo Perigoso”, de Stephen
King, tomando chá de camomila. Cenas fortes, de fato, vieram. Se você não gosta
de sangue, cortes e vidros, talvez tenha alguma dificuldade para prosseguir a
leitura. De todo modo, junto com “Joyland” (que é fofo), esse livro entrou na
lista dos meus favoritos do autor.
O
enredo é tenso e curioso, e foi o que me levou a lê-lo. Mulher vai com
marido para uma casa no meio do nada no Maine (sempre o Maine). A ideia é fazer alguns jogos eróticos usando
algemas. Ele a amarra na cama e... cai morto. E aí? Como ela sairá desta?
"Esforçou-se par ampliar a oração e só lhe ocorreu uma coisa que Nora Callighan lhe ensinara, uma oração que hoje em dia andava na boca de todos os vigaristas de autoajuda e dos gurus de merda: - Deus, me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso e sabedoria para saber diferenciá-las. Amém. Nada mudou. Não sentiu serenidade, nem coragem, muito menos sabedoria. Continuava a ser apenas uma mulher com os braços inertes e um marido morto, algemada aos pilares da cama como um cão vadio acorrentado ao poste de um quintal e condenado a morrer, sem ninguém notar nem lamentar, enquanto o dono cachaceiro passa trinta dias no xadrez municipal por dirigir sem licença e alcoolizado."
Toda
a história é contada por um narrador onisciente e onipresente. Como
está sozinha, a moça, Jessie, conversa com várias vozes do seu passado e
presente. Uma amiga da universidade, sua versão da infância e também com um alter
ego. Todas dando conselhos do que seria possível fazer naquela situação angustiante.
Logo, vêm as cãibras, dores musculares, sede, fome, vontade de urinar, alucinações
(ou não). Horrível. O livro não é curto, o que faz com haja algumas
enrolações cá e lá para dar conta de todas as páginas. Para tanto, Jessie vai
recordar de toda sua infância, adolescência, casamento etc. Um segredo guardado
por toda a vida, e que sempre a atormentou, surge para tornar suas horas ainda
piores.
"Devia haver uma lei obrigando as pessoas a tirarem uma carteira, ou pelo menos uma licença de aprendizagem, antes de poderem falar. Até passarem no Teste de Conversa, teriam de ficar mudas. Isto resolveria um bocado de problemas."
Você
não vai querer largar a leitura até descobrir o desfecho desta encrenca em que
a protagonista se meteu. Se bem que o fim poderia ter sido um pouquinho melhor. Mas a leitura não deixa de ser eletrizante.
Agora,
o que realmente mexeu comigo não foi nem tanto o sofrimento de Jessie. Okay,
fiquei com pena, sim. Mas há na história um cachorro abandonado que, de certa forma, passa a fazer companhia a ela. Não vou dizer aqui
exatamente como, pois estragaria as surpresas do livro. Ocorre
que tem um capítulo específico que vai detalhar a forma com que este cão foi
literalmente jogado fora e em que condições ele surge. É de partir o coração. Um
advogado o comprou por insistência da filha. Depois de algum tempo, a menina
enjoou do animal. Como não concordava com a taxa municipal/estadual que
precisaria pagar para manter sua guarda (parece que isso existe nos EUA), o pai aproveitou o desinteresse da
filha e deu fim ao Príncipe (nome do cão). Ele foi largado numa estrada. Pelo
retrovisor, o idiota do 'dono' ainda vê os olhos do animal acompanhando o carro. E tudo o que faz é assoviar, achando que o coitado do animal está melhor sendo livre. Resultado: em dois meses, o cachorro perde metade do peso, o vigor. Anda amedrontado e com
muita, muita fome.
Aqui estão alguns trechos que relatam a aparência dele. SK
também entra nos pensamentos do animal, nos dando uma visão perfeita do que está passando.
#nãocompre #adote #jamaisabandone
“O ódio e o medo do cachorro tinha desaparecido. Viu sua esqualidez e as bardanas presas no pelo embaraçado – uma pelagem fina demais para oferecer proteção contra o inverno que se aproximava. E, principalmente, viu a maneira com que ele se encolhia diante da luz, as orelhas caídas, o traseiro agachado. Não achei que fosse possível, pensou, mas acho que encontrei alguém ainda mais desgraçado do que eu.”
(Trechos extraídos de “Jogo Perigoso”, de Stephen
King)
....
Havia um movimento que vinha
da parte traseira da forma sombria à porta: ele começara a abanar o rabo. Em um
romance sentimental para mocinhas, o gesto provavelmente significaria que o vira-lata
confundira a voz da mulher na cama com a voz de alguma dona que amara e perdera
há muito tempo. Jessie não tinha ilusões. Cachorros não abanavam o rabo apenas
quando estavam contentes; eles – como os gatos – também o abanavam quando
estavam indecisos, quando tentavam avaliar a situação. O cachorro mal se
encolhera ao som de sua voz, mas também não confiava na penumbra do quarto. Pelo
menos, por enquanto.
O ex-Príncipe ainda não
travara conhecimento com as armas, mas aprendera muitas outras lições
espinhosas nas seis semanas ou pouco mais desde o último dia agosto. Nessa
data, o sr. Charles Sutlin, um advogado de Braintree, Massachusetts,
abandonara-o na mata para morrer em vez de leva-lo de volta para casa e pagar
os setenta dólares do imposto municipal-estadual sobre cães. Setenta dólares
por um canino de araque era uma grana muito alta na opinião de Charles Sutlin. Um
pouco alta demais. Comprara um barco a motor para seu uso ainda em junho,
verdade que fora uma compra de cinco algarismos, e só podia concluir que o
governo andava maluco quando comparava o custo do barco e o imposto sobre
cachorros – claro que podia, qualquer um podia, mas a questão era bem essa. A
questão é que o barco fora uma compra planejada. Uma aquisição que passara dois
anos ou mais na prancheta do velho Sutlin. Já o cachorro fora uma compra impulsiva
numa barraca de hortaliças de beira de estrada em Harlow. Jamais o teria
comprado se sua filha não estivesse junto e não se apaixonasse pelo filhote.
- Aquele, papai! – dissera apontando.
– Aquele com a mancha branca no focinho, aquele que está de pé sozinho como um
príncipe. – Então comprar o cachorrinho para ela – ninguém podia dizer que não
sabia fazer a filhinha feliz –, mas setenta paus (talvez até cem se Príncipe
fosse enquadrado na Classe B, cães de grande porte) era uma grana muito alta
por um vira-lata que viera sem nem um atestadozinho. Grana demais, decidira o
sr. Charles Sutlin quando se aproximou a hora de fechar o chalé no lago até o
ano seguinte. Levá-lo de volta a Braintree no banco traseiro do Saab também
seria uma aporrinhação – ia largar pelo no carro, talvez até vomitasse ou
fizesse cocô no tapete. Sutlin poderia comprar uma casinha para transporte, mas
aquelas belezas custavam mais de trinta dólares. De todo modo um cachorro como
Príncipe não seria feliz em um canil. Seria muita mais feliz em liberdade,
tendo toda a mata por reino. É, Sutlin dissera a si mesmo naquele último día
agosto ao estacionar num trecho deserto de Bay Lane e em seguida convencer o
cachorro a descer do banco traseiro. O velho Príncipe tinha o coração de
vagabundo feliz – era só dar uma boa olhada nele para perceber isso. Sutlin não
era nada burro e parte dele sabia que aquilo era uma baboseira conveniente, mas
a outra parte também se animara com a ideia da coisa, e, quando embarcou no
carro e se foi, deixando Príncipe na beira da estrada a segui-lo com o olhar,
ia assoviando o tema de A História de Elza, a leoazinha, que entrecortava aqui
e ali com um trecho da letra: “Naaasci liiivre... para seguir o meu
coraçãããooo!” Sutlin dormiu bem aquela noite, sem sequer pensar no Príncipe (em
breve, ex-Príncipe), o qual passara a noite enroscado sob uma árvore caída
tremendo de frio, insone e faminto, ganindo de medo cada vez que uma coruja
piava ou um animal se mexia na mata.
....
O ex-Príncipe, com quem
Catherina Sutlin, de 8 anos, em tempos brincara alegremente (pelo menos até
ganhar de aniversário uma boneca caipira chamada Marnie e temporariamente
perder o interesse nele), era parte labrador e parte collie... um mestiço, mas
estava muito longe de ser vira-lata. Quando Sutlin o abandonara em Bay Lane no
final de agosto, ele pesava 36 quilos e tinha o pelo macio e brilhante, uma
mistura até bonita de castanho e negro (com a franja branca característica dos
collies no peito e na garganta). Agora mal alcançava 18 quilos, e se alguém
passasse a mão por seus flancos, sentiria cada costela esticada, para não falar
na pulsação rápida e febril de seu coração. Uma das orelhas tinha um corte
feio. A pelagem estava sem brilho, enlameada e cheia de bardanas. Uma cicatriz
rosa quase fechada, lembrança de uma corrida por baixo de uma cerca de arame
farpado, ziguezagueava por uma anca, e umas cerdas de porco-espinho projetava-se
do seu focinho como bigodes tortos. Encontrar o bicho morto debaixo de um
tronco havia uns dez dias, mas desistira depois de encher o focinho de
espinhos. Sentira fome então, mas não desesperado.
Agora sentia os dois. Sua última
refeição fora uns restos cheios de larvas que extraíra de um saco de lixo em
uma vala que corria paralela à estrada 117, e isso fora dois dias antes. O cachorro,
que aprendera rápido a trazer par a Catherine Sutlin a bola vermelha que ela atirava
pelo piso da sala de estar ou do corredor, literalmente mal se aguentava em pé
de inanição.
....
O ódio e o medo do cachorro
tinha desaparecido. Viu sua esqualidez e as bardanas presas no pelo embaraçado –
uma pelagem fina demais para oferecer proteção contra o inverno que se
aproximava. E, principalmente, viu a maneira com que ele se encolhia diante da
luz, as orelhas caídas, o traseiro agachado. Não achei que fosse possível,
pensou, mas acho que encontrei alguém ainda mais desgraçado do que eu.
Quantos ex-Príncipes não existem pelo mundo? Por isso, nunca abandone os animais. Jamais os compre. Adote. O amor deles é indescritível, incondicional.
Veja abaixo excelente campanha de uma ONG francesa que trata desse assunto.
"Pode-se sentir a nostalgia daquilo que não aconteceu?"
Quando terminei a leitura de “A caderneta vermelha”, do francês Antoine Laurain, a primeira coisa que me veio foi a de que contos de fadas são possíveis. Basta estarmos atentos aos detalhes que a vida nos mostra diariamente. Muitos dos quais passam despercebidos. Impedindo, talvez, uma boa história de amor que, parafraseando o poeta Vinicius de Moraes, seja "infinita enquanto dure". Quem sabe?
E foi o que aconteceu ao livreiro Laurent Letellier. Durante uma caminhada ele vê uma bolsa feminina lilás em cima da lata de lixo em uma das calçadas de Paris. Com certo receio, resolve pegar o objeto e levá-lo à polícia para que a dona fosse encontrada. Mas na delegacia as coisas se mostram morosas e ele decide investigar o caso sozinho. Vai para a casa e começa a analisar tudo o que tem dentro da bolsa. Nada, porém, que o levasse aos dados da mulher que a perdeu. Chama sua atenção a caderneta vermelha com anotações pessoais, que trazem percepções da qual compartilha.
Do outro lado, temos Laure, que levou uma pancada na cabeça durante um assalto na porta de sua casa. Nem preciso dizer o que vai acabar acontecer. Tudo se mostra previsível. Mas de forma gostosa e interessante. Outros personagens, como o amigo de Laure, a filha de Laurent e um gato, surgem como fadas madrinhas que vão trabalhar para o que o final seja feliz. Sem contar as boas referências literárias. Inclusive, autores entram como personagens, como o Nobel de Literatura, Patrick Modiano.
E assim, sem nenhuma discussão profunda, sem suspense, temos um romance que nos faz sorrir. Leitura rápida para aqueles dias em que tudo o que precisamos é um suspiro apaixonado.
Frases
"Quantas coisas nos sentimos obrigados a fazer por princípio, por conveniência, por educação, que nos pesam e não mudam nada no curso dos acontecimentos?"
"Em outra prateleira exibiam-se os romances. Laurent encontrou ali muitos Modiano, tanto de bolso quanto em brochura. Só para verificar, tirou vários, e constatou que nenhum tinha dedicatória. Havia também livros policiais, ingleses, suecos, islandeses. Romances de Amélie Nothomb, vários Stendhal, dois Houellebecq, três Echenoz, dois Chardonne, quatro Marcel Aymé, Apollinaire inteiro, Nadja, de Breton, em edição antiga, O príncipe, de Maquiavel, em livro de bolso, e ainda uns Le Clézio, uns dez Simenon, três Murakami, mangás de Jiro Taniguchi. A ordem era totalmente aleatória, Poésis, de Jean Cocteau, era vizinho de Saga, de Toninho Benacquista, que, por sua vez, se encontrava junto de O banheiro, de Jean-Philippe Toussaint."
"Assim que pôs os pés na sala, experimentou aquela sensação que nos invade quando voltamos para casa após uma longa ausência. Os locais familiares estão como que restaurados do hábito que temos de olhá-lo e, em suma, de não mais os ver. Tudo parece intenso, à maneira de uma fotografia que tivesse recuperado as cores e os contrates originais."
Mais um livro baseado em contos de fadas. Desta vez, "Snegurochka", do folclore russo. O enredo de "A menina da neve", da norte-americana Eowyn Ivey é bem parecido ao do conto: casal que não consegue ter filhos faz um boneco de neve que se transforma em uma menina que vai e volta conforme o frio. Muda a ambientação, que passa a ser o Alasca, fácil para a autora que mora lá.
A adaptação, que foi finalista ao Prêmio Pulitzer, mostra Mabel e Jack nos anos 1920. Mabel teve um aborto e desde então não engravidou mais. Ela não consegue conviver com isso. Tanto que quer ir para um lugar onde não tenha vozes e passos de crianças. Nada melhor que o distante Alasca com suas florestas e rios congelados. Constroem uma cabana e passam a viver do que plantam. Eventualmente, Mabel ajuda no orçamento com suas tortas. Sem que ela queira, outro casal e seus filhos acabam entrando em suas vidas. Aos poucos ela se acostuma com a quebra de sua solidão. Até que em um dos raros momentos de felicidade, os dois brincam com a neve e criam uma menininha. Mabel coloca nela cachecol e luvas. Jack desenha cuidadosamente o rosto. No dia seguinte, o boneco está desmanchado. Conseguem ver apenas pegadas de uma criança saindo da propriedade. Mais tarde, passam a avistar uma menina junto com uma raposa, que logo tornam-se visitas frequentes. "Snegurochka" está em um livro que o pai de Mabel costumava ler quando era criança. Ela consegue com que a irmã o envie para o Alasca. Como sabe o fim da história, hesita em virar as páginas e encontrar o desfecho do sonho que está vivendo. Seria alucinação, a tal doença das montanhas, ou eles realmente estava diante de uma criança que vivia sozinha na floresta?
Snegurochka está presente nas celebrações
de fim de ano na Rússia
O que mais gostei é que realmente sentimos frio ao ler o livro. Ele é congelante. Claro que está repleto de clichês e previsibilidades. Mas a mistura do real e imaginário não nos deixa largar o romance.
Foi por muito pouco que não o li. Ao folheá-lo na livraria, deparei-me logo de cara com o trecho em que eles comem carne de urso. Já fiquei tensa pensando no que mais eles comeriam. Resolvi encarar mesmo assim. E, de fato, eles comem de tudo. Ursos, alces, linces, cisnes, entre muitos outros bichos. Todos servidos com batatas, que parece ser a única coisa a dar naquele frio. Eles caçam, usam peles, penas. O livro é bem cruel nesse sentido, trazendo detalhes de como matavam e cortavam os animais. Jack e Mabel, contudo, também parecem não estar preparados para tanto sangue. Neles, seguro a leitura. Há momentos bonitos em que omitem a presença de determinado animal para evitar que seja caçado ou mesmo a proteção dada à raposa da menina. Sofrem ao terem que matar suas galinhas, todas com nomes. Decisão tomada para que elas não morressem de fome no inverno (?). Isso, porém, não os impede de comer carne, inclusive das pobres aves. O que reforça meu pensamento de que vemos os animais de várias formas distintas. Sem que uma comprometa a outra, infelizmente, para os bichos.
Curiosa, fui ver se é possível para um vegetariano sobreviver nessas terras (ou geleiras). Sim, é. Inclusive, há associações até para veganos. Fiquei feliz. Resta saber se os 730 mil habitantes pensam da mesma forma.
"Ele nem sempre estava ali. Alguns dias Mabel atravessava a neve até o riacho atrás da cabana e o animal não se exibia. Era apenas um fio de água em meio à neve e ao gelo. Mas, se ela ficasse sentada, paciente e em silêncio, na base de um abeto, por fim ele aparecia. A cabecinha marrom aparecia numa abertura no riacho ou o rabo desaparecia num montículo de neve. Naquele dia de novembro, a lontra não a deixou esperando. Mabel ouviu o gelo se abrindo, um jato de água e ali estava o animal do outro lado do riacho. Ela esperou que a lontra corresse até um tronco ou que corresse com as costas curvas pelo barranco como sempre fazia. Em vez disso, ela parou à beira da água, virou-se e se levantou nas patas traseiras. A lontra era incrivelmente alta e se apoiava no rabo grosso, as patas da frente pendendo junto ao peito. Por um longo tempo a lontra a encarou com olhos que eram como turbilhões profundos. Depois ela ficou de quatro e sumiu no riacho. Até, dona lontra, até a próxima vez. ...... Ela não falou sobre a lontra para ninguém. Garrett ia querer caçá-la, Faina pediria que ela a desenhasse. Mabel se recusava a prendê-la porque de certa forma pensava no coração da lontra. O músculo vivo se revirando sob o pelo brilhante e molhado. Irrompendo pelo gelo fino, nadando na água fria do riacho, deslizando de barriga pela neve. Alegre, apesar de tudo. Não era apenas a lontra. Mabel uma vez viu um coiote marrom acinzentado andando pelo campo com a boca semiaberta, como uma risada. Ela viu tagarelas-europeus que eram como sombras passando de uma árvore a outra, como se uma força maior orquestrasse seu voo. Ela viu um arminho branco correndo pelo celeiro com um rato gordo na boca. Sempre que via um animal, algo batia diferente em seu peito. Algo duro e puro."
O inverno começou bem frio este ano, ao contrário dos últimos anos. Se bem que as temperaturas baixas não duraram muito. Este fator, pelo menos para mim, é a grande desvantagem de quem vive nos trópicos. Paisagens de neve sempre me fascinaram. E, de repente, as livrarias trouxeram vários títulos com neve na capa. Queria todos. Eu já tinha "Neve", de Orhan Pamuk, que ainda não li. Decidi começar por outros dois. Um ganhei. Outro emprestei. "A rainha da neve", de Michael Cunningham, autor de "As horas", e "A menina da neve", de Eowin Ivey. Ambos trazem referências a contos de fadas. Neste post vou falar do romance de Cunningham.
"A rainha da neve" tem o título tirado do conto do dinamarquês Hans Christian Andersen, que também inspirou "Frozen", animação da Disney. No lugar de florestas encantadas, temos o Central Park, em Nova York, como cenário fantástico. E é ali, no meio do parque, que Barrett Meeks, que acaba de receber um SMS do namorado terminando a relação, vê uma luz celestial durante sua caminhada ao dentista. Aquilo o atinge de tal forma que o faz refletir sobre sua vida e, principalmente, sobre seus fracassos.
Ele mora com o irmão, Tyler, e a cunhada, Beth. Trabalha na loja da amiga Liz. Em comum, todos os personagens carregam a letargia. Eles têm sonhos, interesses, mas são incapazes de reagir aos obstáculos. Simplesmente deixam o tempo passar. Quando despertam, percebem que acumularam apenas frustrações.
Tyler queria ser um astro do rock. Mas passa boa parte da vida consumindo drogas, sem nada produzir. Agora só quer escrever uma música que seja inesquecível, presente para a esposa que está morrendo. Beth tem câncer. Fraca, vaga pela casa como um espectro. Fantasma adorado pelos dois irmãos e que vai ressuscitar após a visão de Barrett. Para ele, um sinal de que tudo vai ser diferente e melhor. Liz coleciona namorados mais jovens e desinteressantes. Amores sem compromisso, sem riscos, sem ardor.
Tudo se passa entre 2004 e 2008, o que permite debates em torno da reeleição de Bush, em 2004, e a possibilidade de novo governo, com Obama, em 2008. Mesmo com a passagem de tempo, percebemos que nada muda na vida deles. Barrett também anseia por sua grande obra. Rascunha mentalmente o projeto recheado de aleatórias reflexões culturais, a Síntese de Absurdos, que nunca sairá do mundo das intenções. Aliás, há uma mudança. De casa. É nesse momento que descobrimos segredos e somos levados a outro patamar de dúvidas. Quem sabe este não seja o início que tanto almejam os personagens? Ainda não decidi se gostei ou não do romance. Fiquei empolgada com alguns trechos, mas de um modo geral foi uma leitura arrastada. Talvez a realidade, escancarada nesta suposta fábula moderna, seja mesmo difícil de engolir.
Esperava mais deste livro por
conta do que eu já tinha lido sobre ele. O fim é comovente e é o que me fez
gostar (um pouco) dele. Ao terminar a leitura, fiquei a pensar nas outras possibilidades que havia
para os personagens. Mas o desfecho não poderia ter sido outro, dada a
sequência da narrativa.
Ambientado durante a primeira
Guerra Mundial, “Adeus às Armas”
(1929), de Ernest Hemingway, é tido como um relato autobiográfico do autor, que, assim como o protagonista, alistou-se no exército italiano,
mesmo sendo norte-americano.
Frederic Henry é motorista de
ambulância e é ferido logo na sua primeira missão em terras italianas. Antes do
ataque, ele conhece, por meio do seu colega de quarto, Rinaldi, a enfermeira britânica
Catherine Barkley. Logo de cara ela mostra que quer ficar
com ele. Joga-se apaixonada na relação. Ele, porém, só quer se divertir. Até
sente uma ponta de remorso por dizer que a ama. Ela era noiva de um
combatente que havia morrido há pouco tempo. Talvez tenha depositado em
Frederic a possibilidade da união que ela não queria abrir mão.
De
qualquer forma, o amor realmente surge entre ambos depois que ele é ferido e
vai para um hospital em Milão. Catherine acaba sendo transferida para lá
também. E ambos se descobrem verdadeiramente apaixonados. E aí começa o nhenhenhém.
Sobretudo da moça. “Faço tudo o que você
quiser. Vou onde quiser. Você é minha luz, minha vida.” Claro que não são
exatamente com esses termos, mas é próximo disso os diálogos que ela tem com ele.
Chega a ser chato ter que ler frases como “oh,
querido, eu tanto desejava igualar-me a você…”. É muita dependência de uma mulher em relação a um homem. Muito mais emocionantes são
os trechos que relatam os combates e, particularmente, a fuga de Frederic durante uma
retirada italiana. Também são interessantes os bate-papos dos soldados durante
os jantares nos alojamentos, momentos em que esquecem que estão em guerra. Lá
na última parte, contudo, certa afeição surge em relação ao casal piegas. Talvez
o clima e a paisagem suíça, muito bem descritos, tenham ajudado. No mais,
leitura arrastada. Sem muitas recomendações.
Algumas frases salvam o livro. Gosto muito desta: “Vocês se envaidecem muito dos próprios defeitos.”
Abaixo, outras:
“Em setembro,
chegaram as primeiras noites geladas, e depois os dias frios; as folhas do
parque começaram a amarelecer e nos demos conta de que o verão acabara.”
“- Como vai conseguir isso? – Não sei, mas darei um
jeito. – Você é admirável, Cat. – Não sou, mas é fácil arrumar a vida quando a
gente não tem nada a perder. – Como assim? – Nada. Estava pensando nos pequenos
obstáculos, que às vezes nos parecem tão grandes.”
“Sei que à noite o mundo não é o mesmo que de dia. Que
as coisas que pertencem à noite não podem ser explicadas durante o dia, porque
de dia não existem – a noite se torna ameaçadora para pessoas solitárias, essas
que já de começo conhece a solidão.”
“É uma ilusão a sabedoria dos velhos. A sabedoria não
cresce com a idade. O que cresce é a cautela.”
De longe avistei o caminhão. Pensei em virar o rosto. Fingir que nada via. Já fiz isso outras vezes. Sempre vejo um cavalo preso em uma esquina do litoral paulista. Faça frio. Faça sol. Ou debaixo de chuva. Inevitavelmente, está lá. Amarrado. Com a cabeça baixa. O que passa dentro dela, nunca saberemos. Quando chego perto desse lugar, muitas vezes, fecho os olhos. Não é porque não vejo que não acontece. Poupo minha dor sem poupar a dele. Volto ao caminhão. Tratava-se de um veículo que transportava frangos em caixas, como aquelas dos supermercados. Cada uma deveria ter vários deles. Amontados. Encarei. E vi os olhos dos animais. Algumas asas saindo para fora das grades. Estavam quietos. Apáticos sob o sol escaldante que fazia naquele dia em São Paulo.
Odeio cruzar com este tipo de ‘carga’. Sinto um aperto no peito. Mas isso não salva nenhuma vida. Não diminui a dor de quem não escolheu e não merece ser carregado de um lado para outro desta forma. Não vai impedir que esses animais sejam levados para outro lugar para serem submetido a luzes fortes para que fiquem confusos em relação aos dias e às noites. Por que fazemos isso com eles?
No ano passado um fato chocou os internautas e ganhou repercussão na mídia tradicional. Um caminhão que transportava porcos tombou no Rodoanel. Fotos e vídeos dos animais agonizando circularam pela rede. Protestos, indignação correram por comentários e posts. Mas cessaram. Outros porcos continuam sendo transportados com a mesma falta de segurança. Tratamos os animais como se fossem objetos. Mais que isso, como objetos que nem mesmo merecem o adesivo ‘frágil’.
Vi uma reportagem que diz que agora podemos nos voluntariar para passear com os cães nos fins de semana no Centro de Zoonose de São Paulo. É pouco. Mas é o mínimo, talvez. Se estão lá é porque nós causamos isso. Comprando. Abandonando. Ignorando. Bichos são escolhidos como se fossem uma bolsa, um brinquedo. E descartados quando o interesse diminui. Quando não são atropelados na rua, são capturados. Em que condições? Não sabemos, pois nossos olhos estão sempre fechados. Alguns porque não querem ver: “não aguentam ver isso, vão sofrer”. Outros, porque simplesmente não enxergam mesmo. Há ainda os que, de fato, não se importam. Mas até quando?
Assim que li a sinopse, tive a certeza de que iria gostar de “Americanah”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. E não me enganei. Dela eu já havia lido o ensaio “Sejamos todos feministas”, baseado em uma palestra que deu. Gostei, sobretudo, pela identificação com alguns momentos da história. Literatura é isso. É poder resolver alguns de nossos dilemas por meio da experiência de outras pessoas, mesmo que sejam fictícias.
A narrativa é em terceira pessoa, de forma onipresente e onisciente. Começamos com Ifemelu indo trançar os cabelos. Ela já está há 13 anos nos Estados Unidos e se prepara para retornar para ‘casa’. A partir daí inicia-se uma série de lembranças da sua infância e adolescência em Lagos, maior cidade da Nigéria. Foi lá que conheceu Obinze. Apaixonados, eles vivem um conto de fadas, que é interrompido com a ida de Ifemelu para a “América”. As dificuldades financeiras a levam a tomar uma atitude que culmina com a decisão de cortar relações com o namorado. Sem entender os motivos, ele toca sua vida e vai para a Inglaterra. Seu sonho sempre foi ir para os Estados Unidos, mas nunca conseguiu o visto. Isso vamos descobrindo ao longo da história, que sempre intercala momentos presentes com o passado. Ora tendo Ifemelu como foco, ora (menos vezes), Obinze.
Destaque para o sucesso do blog que ela cria para tratar de questões raciais. Foi nos Estados Unidos que se descobriu negra, e as consequência que isso traz. Acompanhamos ainda seus relacionamentos com um branco e com um negro norte-americano. Cada qual com sua importância. E entre um pensamento e outro, sempre a presença de Obinze. Já ele, não tem a mesma sorte no estrangeiro e acaba sendo deportado. Inesperadamente, a sorte (ou não) surge e ele torna-se um rico empresário, casado e com uma filha.
Há ironia ao tratar dos nigerianos abastados. A necessidade de sempre querer ter mais, pagar mais por qualquer coisa. Confortos desnecessários e a fixa ideia de que tudo e todos podem ser comprados (será que é só na Nigéria?).
Nos Estados Unidos, a discussão é sobre o branco e sua relação com os que não têm a mesma cor. Uns finge, outros são diretos, outros tentam compensar o racismo sendo extremamente bajuladores. Como a patroa rica que tenta de todas as formas mostrar que não vê diferença entre brancos e negros. A todo momento procura elogiar negros, até que ouve de Ifemelu que nem toda negra é bonita. É aquele sensação de não querer dar margens para que pessoas a achem racista ou pior: por pena, sempre tenta agradar.
Do outro lado, há o branco pobre que vai tratar Ifemelu com desconfiança quando supõe que ela seja a dona da casa rica que o chamou para limpar os carpetes. Mas ao descobrir que ela é apenas a baba, age com camaradagem. Recortes das cenas reais que atestam que a cor da pele ainda é motivo para julgamentos e ataques.
A única parte que me entediou foi quando ela vai ao encontro de pessoas que voltaram do exterior. Muito chato. Cansativo. Bla bla bla. Não sei se essa foi a intenção da autora. Lá temos todos os estereótipos desses filhos regressos: esnobes, saudosos das facilidades da Europa ou Estados Unidos, implicantes com a morosidade da Nigéria. Há até uma que lamenta a falta de restaurantes vegetarianos. Só não gostei da jeito com que a moça é descrita: magra e de olhos fundos. Não somos assim, Chimamanda ;-) “Ela vai voltar uma tremenda Americanah”, diz determinada personagem no início do livro ao referir-se à menina que vai aos Estados Unidos. Referência às inevitáveis mudanças que tal viagem fará. Leitura rápida e fácil. Não chega a levantar polêmicas nem propor soluções. Mas mostra situações que talvez você nunca tenha imaginado. Vale muito a leitura.
"Ifemelu se lamentava por isso, pela perda do que poderia ter sido." "Aquele era o presente que se dava toda semana; ir à livraria, comprar um café caro demais, ler o máximo que pudesse de graça e se tornar Obinze de novo."
"Nada estraga tanto a memória quanto a repetição."
“Joyland” é fofo. Tem assassinato. Tem sangue. Tem
fantasmas. Tem violência. Mas ainda assim é um livro delicado. De Stephen King,
foi o que mais me trouxe sentimentos bons. A história é narrada pelo
protagonista, Devin Jones, cerca de quarenta anos depois dos eventos que
marcaram sua vida. Em 1973 ele tinha 21 anos, era universitário e namorava uma
garota que já não estava mais tão interessada nele. E é a partir desta rejeição
que ele encontrou motivos para arriscar. Para fazer algo que, não fosse o
rompimento, não teria feito. Como ele próprio diz, foi o melhor e pior ano de
sua vida. Passou aquele verão trabalhando em um parque de diversões, Joyland,
no litoral da Carolina do Norte. Lá fez amizades duradouras, aprendeu a operar
uma roda gigante, fantasiou-se de cachorro e fez a alegria de várias crianças,
em especial de Mike, que tinha visões (eu não deixava de lembrar daquela frase clássica 'I see dead people', sabem?) e um grave problema de saúde. E é com
esse garoto que temos os momentos mais lindos do livro, sobretudo quando Joyland,
já fechado, proporciona um dia especial somente para ele. Sua mãe também tem papel importante na vida
de Devin. Quando o parque está cheio, no auge do verão, vemos a correria dos
trabalhadores temporários, incluindo o nosso protagonista. Há ironia na
descrição dos visitantes, que são tratados como ‘caipiras’ e todo um
vocabulário próprio dos parques nos é apresentado. Aliás, SK comenta sobre isso
nas notas do autor, já respondendo a eventuais críticas.
Devin não se intimidou com as histórias sobre o fantasma de
uma garota que havia sido assassinada em um dos brinquedos (adivinhem qual!!)
anos antes. O assassino ainda estava impune. Quando a temporada acabou,
resolveu deixar a faculdade e continuar trabalhando por lá. Aproveitou para desvendar o crime. Mas isso, como em todo bom romance policial, vai
lhe trazer sérias confusões. O desfecho é previsível, consideradas as
pistas. Basta ir somando todos os fatos.
Gosto da nostalgia que a literatura permite. Sempre
há situações que nos levam a boas lembranças, cenas importantes de nossas vidas.
Eu revivi a época em que frequentava parques de diversões, alguns dos
brinquedos favoritos. Há ainda situações pelas quais nunca transitamos fisicamente,
mas que ainda assim sentimos saudades. Eu, por exemplo, tenho saudades dos
invernos congelantes do Maine, mesmo sem nunca ter estado lá, presente em grande parte dos livros de Stephen King. Embora aqui o cenário seja Carolina
do Norte, é do Maine que vem Devin. Também bate uma saudade de quanto a agitação costumeira dos
dias comuns é substituída por períodos de recesso. E isso é
comum em seus romances: lugares que ficam agitados na alta temporada e viram pontos solitários
no inverno, como em “O Iluminado”. Mesmo sem surpresas, leitura bem agradável.