terça-feira, 10 de abril de 2012

as intermitências da morte

Há quem diga que precisamos sempre pensar na morte. Já que vamos morrer, temos que aproveitar bem os "últimos dias". Logo me lembro da música de Assis Valente “E o mundo não se acabou”, que diz: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar... Acreditei nessa conversa mole... E sem demora fui tratando de aproveitar. Beijei na boca de quem não devia. Peguei na mão de quem não conhecia.” E para desespero de todos, “o tal do mundo não se acabou.”

Em “As Intermitências da Morte”, do escritor português José Saramago, não foi o mundo que “não se acabou”, mas a morte que não chegou. Motivo: cansou de ser odiada pelos humanos e resolveu mostrar o quanto é importante. Logo no primeiro parágrafo do livro, Saramago nos explica a situação:

“No dia seguinte ninguém morreu.”

“Passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.”

Todos celebram num ímpeto. Afinal, sobrevivem a acidentes, doenças crônicas e demais males que teriam levado o cidadão desta para melhor. Contudo, o que parecia ser uma dádiva, passa a incomodar. Os enfermos se multiplicam, lotam hospitais, estorvam os familiares e, claro, sofrem. Como não há morte, a dor torna-se eterna.

Governo e igreja confabulam. Enquanto uns pensam no que será feito da previdência social, outros discutem que não há mais vida após a morte. Assim sendo, qual seria a razão da religião? Filósofos e economistas também lançam seus pensamentos diante da grave situação. Enquanto isso, as funerárias padecem com o desaparecimento de seu público-alvo.

Passado algum tempo, descobre-se que a greve atinge apenas aquele país. Do outro lado da fronteira, é possível morrer. É só atravessá-la para que a pessoa possa, enfim, descansar em paz. Como tudo o que é fácil pode ser complicado, a burocracia dificulta a vida (ou morte) dos moribundos. Eis que surgem as brechas, os oportunistas e a máfia, que passa a dominar o esquema da travessia. Neste trecho temos grande ironia de Saramago em relação à política e à sociedade. Aliás, como em todas as suas obras, há trechos hilariantes. Você “morre de tanto rir”.

Do outro lado, a morte assiste a tudo de camarote. Até que muda de estratégia e pede para que uma carta sua seja lida em rede nacional de televisão. O país para e ouve o que ela tem a dizer. O que ela não previu é que se apaixonaria por um humano. E ninguém morre enquanto a morte sofre por amor. Li o livro há mais de seis anos, mas ele ainda está muito presente na minha mente. Imperdível.




E o mundo não se acabou, na voz de Adriana Calcanhotto

segunda-feira, 9 de abril de 2012

as consolações da filosofia

Alain de Botton sabe muito bem como escrever livros que tratam de temas universais e que trazem à tona nossas preocupações e angústias, como relacionamento, religião e carreira profissional. Já falei sobre dois de seus livros: “Movimento Romântico” e “Ensaio de Amor”, indicados para aqueles que sofrem por amor.

Suíço radicado na Inglaterra, Botton é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Londres. Seus livros misturam romance e ensaio. Ele geralmente conta uma história, que é interrompida para a abordagem filosófica do dilema apresentado. Outro ponto constante em suas obras, e que as tornam agradáveis, é a ironia. E é exatamente isso que faz com que “As Consolações da Filosofia” tenha um gostinho de quero mais. Ela nada mais é do que um guia prático para resolver problemas por meio de alguns pensadores. Leitura fácil, rápida e descontraída. Nada profunda, porém. Pode até ser que alguém afirme que a filosofia seja banalizada em seus livros. Mas pode ser, também, que eles sejam o convite que faltava para aqueles que já ouviram algo sobre Sócrates, Sêneca ou Nietzsche e nunca tiveram a coragem de encará-los.

Tópicos de “Consolações da Filosofia” e a forma com que o autor aborda os filósofos:

Consolação para a impopularidade e Sócrates, que foi condenado à morte pelo povo de Atenas por, além de não venerar os deuses da cidade, ainda introduzir novas formas de pensamento religioso.

“Mas o filósofo não havia se curvado perante a impopularidade e a condenação do Estado. Não se retratou ou abriu mão de suas ideias por ter sido alvo de reclamações. Além do mais, sua confiança havia se originado de uma fonte mais profunda do que a impetuosidade ou bravura leonina. Ela havia sido fundada na filosofia.”

Consolação para quando não se tem dinheiro e Epicuro, apreciador dos prazeres da carne.

“Na realidade, ele nada mais fez do que, depois de uma análise racional, chegar a conclusões surpreendentes sobre o que de fato tornava a vida agradável – e, felizmente para os que não dispunham de uma boa renda, parecia que os ingredientes essenciais do prazer, por mais impalpáveis que fossem, não eram muito dispendiosos.”

Consolação para a frustração e Sêneca, que foi preceptor de Nero por cinco anos, e por ele condenado à morte. Ao ver seus amigos e esposa inconsoláveis, disse:

“Onde está sua filosofia e o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos vêm incentivando uns aos outros a manter? Certamente ninguém ignorava que Nero era cruel. Depois de matar a mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e preceptor.”

Consolação para a inadequação e Montaigne, que nos compara aos animais, segundo ele, dotados de instinto muito mais apurado (e inteligente) que o nosso.

“Com suas tabuletas pintadas, Montaigne já havia delineado um tipo de filosofia que reconhecia o quanto todos nós estávamos muito longe de sermos as criaturas racionais e serenas que a grande maioria dos pensadores da Antiguidade acreditara que fôssemos. Éramos quase sempre histéricos e dementados, inquietos e vulgares; comparados conosco os animais eram, em muitos aspectos, modelos de sanidade e virtude – uma triste realidade sobre a qual a filosofia via-se obrigada a refletir, apesar de raramente o fazer.”

Consolação para um coração partido e Schopenhauer, um dos maiores pessimistas da história. Seu dilema: “o único erro inato é pensar que viemos ao mundo para sermos felizes. Enquanto insistimos neste engano, o mundo nos parece cheio de contradições.”

“Por que ele? Por que ela? Constitui um dos mistérios mais profundos do amor.”

“Schopenhauer não vida nada de enigmático nesta questão. Não dispomos da liberdade de nos apaixonar por todos porque não podemos gerar filhos saudáveis com todos. Nossa vontade de viver nos leva a procurar as pessoas que irão aumentar nossas chances de gerar uma prole inteligente e bonita e nos afasta daqueles que possam diminuir estas mesmas chances. O amor nada mais é do que a manifestação consciente da descoberta do pai ou da mãe ideal apontada pela vontade de viver.”
 
Consolação para as dificuldades e Nietzsche, um dos poucos filósofos a tratar do infortúnio e do pessimismo.

“Toda a vida é difícil; o que torna algumas vidas satisfatórias é a maneira de encarar o sofrimento. Todo o infortúnio é um indício vago de algo vai mal. Reverter ou não este prognóstico depende do grau de sagacidade e de determinação daquele que sofre.”

“Eliminar toda e qualquer raiz negativa significaria simultaneamente sufocar os elementos positivos que podem brotar desta mesma raiz e florescer em galho mais alto da planta.”


domingo, 1 de abril de 2012

reconhecimento dentro das organizações

12º Mix Aberje de Comunicação Interna e Integrada

No último dia 23, participei do 12º Mix Aberje de Comunicação Interna e Integrada. O evento abordou mídias digitais, liderança, confiança, segurança no trabalho, engajamento, reconhecimento e diversidade. Comunicar é tornar comum. É partilhar. Por isso, divido com vocês um pouco do que apreendi e aprendi.

Começo pela última palestra. Ela foi feita pelo professor, consultor e filósofo Mário Sérgio Cortella, que trouxe à tona o “reconhecimento dentro das organizações”. 

A explanação foi marcada por frases e máximas. Uma delas veio direto da regra 34 de São Bento, que diz que é proibido resmungar. Cortella enfatiza que quem resmunga nunca faz. O resmungão, muito presente nas redes sociais, é um preguiçoso. Não passa de um pessimista cuja única atividade é sentar e esperar que tudo dê errado. “Precisamos pensar sobre isso quando falamos de valorização de pessoas, pois vivemos num ambiente no qual a comunicação é cínica.”

Aproveitando, lembra a origem da palavra cinismo, que vem do grego cachorro. Cinófilo é quem gosta de cachorro. E “Cinismo” é a doutrina criada pelos filósofos socráticos Antístenes de Atenas e Diógenes de Sínope. Para Diógenes, o homem só precisa de si mesmo, por isso, largou tudo e foi viver dentro de um barril, nu. Ele vivia como um cachorro (daí o cinismo), opondo-se às regras, ao materialismo e às convenções sociais. A principal frase dele é: “foi sem querer querendo”. Lembra algo? Isso mesmo, esta foi a inspiração para o seriado Chaves. Lá, ninguém tem animais de estimação, pois o próprio Chaves é o mascote dos moradores da vila.

A noção de tempo dos ocidentais, imediatistas por natureza, foi outro ponto abordado. O professor nos compara aos orientais e dá alguns exemplos. Para os chineses, é difícil entender o porquê de comemorarmos os dez anos da queda das torres gêmeas. Na China nada é celebrando antes de completar 500 anos. O mesmo vale para os hinduístas, que têm o pensamento reencarnacionista. Brinca ao falar sobre o plano de carreira deles: “deve ser mais ou menos assim: se não der certo nesta vida, dará na outra.”

Já aqui, temos a noção de apenas uma vida. Estamos aqui para aproveitá-la. Essa atitude impede a reflexão, aumenta a ansiedade e gera frustração. Também perdemos oportunidades importantes, que são deixadas de lado porque não damos tempo ao tempo. Cita uma frase do escritor francês François Rabelais que resume seu pensamento: “conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam.”

Como consequência nos acostumamos e aceitamos bem as pequenas mortes do dia a dia: as rupturas no ambiente familiar, nos negócios, nas amizades e até no lazer. A ganância acaba se confundindo com a ambição. Enquanto a segunda é saudável, uma vez que parte apenas do “quero mais”, a primeira pressupõe o egoísmo, ou seja, “quero só para mim”.

Todas essas colocações são feitas para embasar o tema de sua explanação: reconhecimento. Para ele, reconhecer alguém é mostrar a falta que a pessoa faz, seja por meio de ritos, lembranças ou mesmo da comunicação. Nas organizações, é o reconhecimento que vai determinar o desempenho do profissional e a felicidade no ambiente de trabalho. Aliás, ressalta que trabalho é algo que gostamos, é vida. O que é muito diferente de emprego, apenas uma fonte de renda. “Encontre no emprego o trabalho que quer ter”, aconselha. O trabalho cansa, mas não estressa. Cansaço pede um esforço intenso e é curado com o sono. Estresse é um esforço para fazer algo que você não sabe direito o que é, ou seja, vem de uma ausência de sentidos. E só é curado por meio da mudança.

Reconhecer é, portanto, o oposto de morte. Morrer é ser esquecido, tanto que no grego antigo, morrer e esquecer têm o mesmo significado. O que vemos hoje nas empresas são muitas mortes. Pessoas, metas, produtos. Tudo é facilmente substituído. O reconhecimento tem alto valor competitivo, ele dá vitalidade e proporciona realização de maneira sincera. Sentimos-nos importantes.

Pergunte-se: “se você não existisse, que falta faria?” E o que você faz para mudar isso? Para ser reconhecido, é preciso, antes, reconhecer.

Algumas frases para pensar:

• Sinceridade é necessária. Franqueza, não. Como vivemos em sociedade, temos que ser sempre sinceros, no entanto, não precisamos dizer exatamente tudo o que pensamos.

• Você só conhece alguém de verdade quando essa pessoa errou e, mesmo assim, não desistiu.

• A expressão “não sei” estimula a inteligência. Não enrole seu interlocutor. Se não sabe, aprendam juntos. Já dizia Millôr Fernandes, “se você não tem dúvidas, é porque está mal informado.”

• O chefe você obedece. O líder você segue.


terça-feira, 27 de março de 2012

espaços para leitura


Pensei em escrever sobre os lugares nos quais mais gosto de ler: na varanda, no quintal ao lado dos cachorros, num agradável café, na cama, na sala. Mas resolvi trazer algumas imagens e situações que mostram que ler é encontrar espaço para que a imaginação possa fluir. Sem limites. 

Claro que um local tranquilo sempre ajuda a tornar a leitura mais agradável. Aproveite e inspire-se.

 Leia num banco do parque.
 

Folheie e contemple livros nas livrarias. 

O café é sempre um ótimo companheiro,
principalmente se estiver numa cafeteria aconchegante
  


Falta de tempo + livro fascinante =
 leia em pé mesmo. Na rua. 
 

 Quem nunca leu assim? No chão da sala. 

Ou no sofá?

Mas se tiver a oportunidade, aproveite
a maré para as viagens literárias. 
 
 


Um vinho. Um livro. Aquela dupla degustação. Fica a dica.

Boas leituras.

Imagens: Stock.XCHNG

segunda-feira, 26 de março de 2012

uma coisa, aquela coisa

No último sábado, com o propósito de aprender mais sobre o universo dos contadores de histórias, assisti a uma bela apresentação do professor e filósofo Gabriel Perissé. E, por meio dele, conheci outro filósofo, o espanhol Alfonso López Quintás, e seu conceito para âmbito e encontro. Segundo o pensador, há dois níveis para as “coisas”. O nível um é quando elas são “simplesmente coisas”: uma tábua que não nos remete a nada, uma pessoa com a qual não criamos vínculos.
O nível dois é alcançado quando há encontro. Para Quintás, encontro pressupõe interação. É o local das perguntas, das respostas e do interesse mútuo. Para exemplificar, Perissé cita o casamento em que o diálogo é substituído pela “falta do que dizer”.  Para ele, a única “coisa” que não pode faltar nesse tipo de relação é a conversa. “Pode faltar tudo: dinheiro, casa, sexo, mas se não houver diálogo, a união sucumbe.” Ou seja, não há mais encontro. Por isso, dá um conselho: “se não tiver nada interessante para dizer, invente.” Faz parte do encontro a criatividade para tornar as relações mais agradáveis e saudáveis. “Contar histórias é um ato filosófico porque você tira a névoa da vida”, diz o professor.
E é desse encontro que surge o âmbito, o nível dois das “coisas”. É o local das ideias, da criação, dos sentidos. Um perfeito exemplo de âmbito está na música “Naquela mesa”, de Sérgio Bittencourt. Lá, o compositor transforma uma mesa na metáfora das boas lembranças que tem do seu pai, Jacob do Bandolim.
“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre
O que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória
eu guardo e sei de cor.
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente
O que fez de manhã...”

Ele fala das reuniões, dos bate-papos, dos amigos em torno de uma mesa. Encontros que faziam todos interagir, todos criarem e compartilharem. A partir do momento em que Bandolim morre, fica apenas a mesa, que volta a ser uma “coisa nível um” sem sua presença. Morre também o pronome demonstrativo “naquela”, que dá lugar ao pronome indefinido, como se dissesse: “agora é uma mesa qualquer.”
“Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala
No seu bandolim...”

Mas quando retoma as lembranças do pai, a mesa volta ser “aquela mesa”. Ela torna-se um memorial:

“Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim.”

O âmbito é o sinal de presença, o verdadeiro entrelaçamento de iniciativas que nasce de um encontro sem egoísmo. Quantas coisas descartáveis não temos na vida? E para quantas pessoas não somos nós essas coisas descartáveis? Conte uma história, dê significado e crie âmbitos.

Números pares, impares e idiotas 
Perissé também nos apresentou ao livro infanto-juvenil “Números pares, impares e idiotas”, de Juan José Millás e Antonio Fraguas “Forges”. Em um dos contos, o número 1 quer chegar a ser o 9, na visão dele superior, o ápice da categoria. Para tanto, vai cursar a faculdade de “novelogia”. Descobre, porém, que para chegar a ser 9 precisa, antes, ser 8. E vai para a faculdade do 8. Percebe, da mesma forma, que para ser 8, precisa ter sido 7. E vai estudar para ser 7. E para ser 6. 5. 4. 3. 2. Por fim, descobre que não passa mesmo de 1. Conforma-se e dedica-se a estudar o que é. Com o tempo, vai aprendendo a ser o 2, o 3, o 4, o 5, o 6, o 7, o 8. E, inclusive, o 9. Mas decide continuar sendo o 1, que é o primeiro, afinal.
Moral da história: o âmbito é, sobretudo, o vínculo entre eu e eu mesmo. Bons encontros para todos.

Uma tábua, aquela tábua

domingo, 18 de março de 2012

discurso das mídias

A análise das mídias está restrita a observações empíricas que não podem ser comprovadas com exatidão, isto é, estamos limitados à análise com base nos efeitos visados e não nos efeitos efetivos. A esses restam apenas meras hipóteses. Esta é uma das conclusões a que chega Patrick Charaudeau em “Discurso das Mídias”, traduzido no Brasil por Ângela M. S. Corrêa.

O livro é uma verdadeira decupagem de tudo o que envolve a construção de uma notícia, seja ela para a televisão, rádio ou imprensa. Embora sua primeira edição, no original francês, date de fevereiro de 2005, a internet não é mencionada.

Charaudeau inicia seu discurso apontando as três lógicas que regem as mídias: econômica, tecnológica e simbólica. Econômica porque os veículos de comunicação são empresas que precisam vender seus produtos. Tecnológica porque é um fator preponderante para o alcance da informação. Simbólica porque a mídia explora a imagem de ser um meio democrático e que existe para ajudar a população. Não é à toa que esse último fator é o que mais se sobressai nas análises midiáticas.

O autor propõe que alguns conceitos preconcebidos em relação à mídia sejam afastados. Um deles é que elas constituem o quarto poder, ao lado da justiça, do exército e da Igreja. A sentença não se aplica a uma instância que, ao contrário das outras três, não tem regras ou normas conhecidas por todos os envolvidos.

Contradizendo o que os atores da mídia dizem, ela não é a democracia, e sim o espetáculo da democracia. Por outro lado, o cidadão sempre aparece como refém, mas na verdade não o é. Ele compra os produtos fabricados de acordo com suas expectativas e audiência. É um pouco do que diz outro francês, Pierre Bourdieu. O sociólogo, que derrubou a televisão num discurso que virou best seller em 1997, afirma que mesmo diante do lugar-comum, os jornalistas buscam, ou pensam buscar, o extraordinário, o extra-cotidiano. E na eterna perseguição pelo furo de reportagem, acabam por caírem todos na mesma notícia. Como consequência, Bourdieu aponta a uniformização e a banalização dos conteúdos disseminados, tornando os produtos jornalísticos homogêneos. Na verdade, o que temos é uma produção coletiva. Para não frustrar seus públicos, os jornalistas não podem deixar de noticiar o que foi comentado “com sucesso” por seus pares nas outras emissoras.

Charaudeau também desmente que a mídia mostra a realidade social. Na verdade, ela impõe a verdade que constrói. Por ser uma linguagem, a informação traz a imagem através da visão do outro. A mídia nos apresenta apenas fragmentações do espaço público.

Toda linguagem é composta por pensamentos e palavras do outro. Desde que nascemos, estamos à mercê do outro, que passa a se integrar a nós à medida que repetimos, imitamos, reconstruímos, inovamos ou até mesmo nos apropriamos, como se fosse mesmo nosso, de um dito de outra pessoa. E isso não é diferente nos discursos midiáticos.

O quadro de referência para a análise proposta por Charaudeau consiste na troca entre duas instâncias: a produção e a recepção. No meio das duas, existe um texto ou o produto midiático. E é aí que o autor se detém a detalhar, por vezes até em demasia, todos os processos da construção da notícia, que envolve escolhas e construção de sentido. Fica a ideia de que o homem não fala para descrever, contar ou estruturar o mundo. Fala, sobretudo, para se posicionar em relação ao outro. É disto que depende sua existência.

“Toda escolha se caracteriza por aquilo que retém ou despreza; a escolha põe em evidência certos fatos deixando outros à sombra. A cada momento, o informador deve perguntar-se não se é fiel, objetivo ou transparente, mas que efeito lhe parece produzir tal maneira de tratar a informação e, concomitantemente, que efeito produziria tal maneira de tratar a informação, e ainda uma outra, antes de proceder a uma escolha definitiva.” (Charaudeau, 2009:38)


Clique aqui para ler o resumo.


domingo, 11 de março de 2012

uma sociedade

Na semana que se encerrou comemoramos mais um dia internacional das mulheres. Não cabe aqui mencionar os motivos que nos levaram a celebrar tal data. Enfim, exatamente no dia oito de março abri os “Contos Completos de Virginia Woolf”, linda edição da CosacNaify, e encontrei o trecho:

"... éramos cinco ou seis. Umas olhavam pela rua para as vitrines de uma chapelaria onde a luz ainda brilhava intensamente sobre plumas escarlates e chinelos dourados. Outras estavam ociosamente ocupadas em construir pequenas torres de açúcar na borda da bandeja de chá. Passados um tempo, pelo que eu lembro, juntamo-nos em volta do fogo e começamos a elogiar os homens, como de hábito - tão fortes, tão nobres, tão brilhantes, tão corajosos, tão belos - como invejávamos as que por bem ou por mal deram jeito de se ligar para sempre a um deles!"

É assim que começa o conto "Uma Sociedade". Ao retratar a década de dez, ele traz problemas ainda atuais para nós, mulheres tão emancipadas. Tão feministas. Tão empreendedoras. Sim, quando reunidas com as amigas, entre uma discussão e outra sobre o trabalho, a profissão e a bolsa de valores (ou seria outro tipo de bolsa?), sempre nos estendemos no top trends desses encontros: homens. De V. Woolf para cá, parece que pouco mudou. Mas o texto vai além. Ele questiona a capacidade intelectual masculina a partir da literatura. Uma delas, aos gritos, afirma que nem todos os livros são dignos de serem lidos. Ameaçadora, lê parágrafos de várias obras que encontrou durante sua peregrinação pela Biblioteca de Londres. Por exigência do pai, teria que ler todos os livros que lá encontrasse para ter direito à sua herança. Inclusive os muito ruins. Ao declamar algumas passagens, fez arder os ouvidos ali presentes. "Deve ter sido escrito por mulher", a mais preconceituosa alegou. Mas não. Todos foram escritos por homens.

"Se os homens escrevem porcarias assim, deveriam nossas mães ter perdido sua juventude para trazê-los ao mundo?", outras dizem ao lembrarem tudo o que suas matriarcas tiverem que deixar de lado para cuidarem dos maridos e filhos.

A partir daí, nasce um pacto. Entender o que se passa na cabeça deles. Até para ver se valia a pena tanto interesse. Munidas de perguntas, cadernetas e determinação, foram atrás dos homens nos navios de guerra, gabinetes, reuniões de negócios, concertos. Após cada jornada, reúnem-se para que as observações sejam comparadas. Estava criada uma sociedade com o objetivo de questionar tudo o que era feito, construído e dito pelo sexo masculino. Pretendiam "formar boas pessoas e produzir bons livros". Até que uma delas aparece grávida e a primeira guerra é anunciada. Não fica bem claro qual notícia foi mais bombástica. O que fica é que quanto mais questionavam e quanto mais respostas obtinham, menos doce ficava o mundo e mais fúteis os homens.

Se eles têm tanto poder é porque “fomos nós que os criamos e nutrimos e mantivemos em conforto desde o começo dos tempos para que eles pudessem ser inteligentes.”

Conclusão: melhor não questionar tanto se queremos ser apenas felizes. Será?


quinta-feira, 8 de março de 2012

nunca li e-book



Cena de "The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore"

Penso que é muito mais fácil folhear um livro que percorrê-lo com a ajuda das telas touch screen. Sou entusiasta da tecnologia e, também, tenho como objetos de desejo todos os i-something disponíveis. Todavia:

1. Gosto de sentir o livro. Eles têm cheiros, formas. Eles guardam marcas que podem ser impregnadas em outras pessoas.

2.  Podemos ter boas surpresas ao abri-los aleatoriamente. Quiçá uma frase que precisávamos naquele momento ou um estalo para um projeto maior.

3.   Sou nostálgica. Quando criança, pegava um dos volumes que tinha em casa e ia com ele para o quintal. Sentava e folheava as páginas lentamente. Em minha ingênua imaginação, as pessoas a passar pela calçada diriam: “nossa, ela já lê, que bonitinha.” O efeito seria o mesmo com computador? “Nossa, que bonitinha. Já sabe mexer em tablet.” Não, definitivamente, não.

4.  Marco meus trechos favoritos para depois relê-los. Partilhá-los. Sei que isso é possível com e-books. Mas eles não permitem os marcadores adesivos e coloridos pelos quais sou aficionada.

5.  As estantes com várias capas, organizadas por autor, são encantadoras. E o que dizer das bibliotecas, das livrarias e até da cabeceira da cama sem os livros impressos? E, acima de tudo, livros dentro de kindles e tablets jamais serão únicos. São cópias digitais.

6.  A bateria dos livros nunca acaba. Ela se autorrenova. Os livros curam e são curados.

7.  Enfim, eles têm vida própria. Dançam, cantam, voam e nos conduzem.

Encontrei a ilustração perfeita para todas essas minhas inclinações no curta-metragem de animação vencedor do Oscar de 2012: “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”, de William Joyce e Brandon Oldenburg, inspirado no livro com o mesmo nome. Lá está a história de um rapaz apaixonado pela literatura. Após um furacão, ele é transportado por livros voadores e por uma bela moça até uma fantástica biblioteca. Instigante e com pinceladas de “O Mágico de Oz”, ele reproduz com exatidão o porquê de os livros ainda não terem sido substituídos pelo e-book. Sem mais explicações. “Mas se a vida está sendo curtida, precisa fazer sentido?”, escreveria o protagonista.

Assistam. E leiam J
  


terça-feira, 6 de março de 2012

sobre os protetores dos animais

A violência contra os animais é gritante. Diariamente, pessoas descontam suas iras em cachorros, gatos e outros bichos. A boa notícia é que a população está mais atenta. 

Recentemente, uma cidadã foi filmada enquanto atirava seu cão ao chão. O acontecimento chamou a atenção dos internautas, que se mobilizaram para apedrejá-la virtualmente. 

Pela quantidade de casos expostos, parece que virou moda incendiar cães e cavalos. Eu penso que atos semelhantes sempre existiram. Ocorre que temos cada vez mais denúncias que chegam até nós com a ajuda dos meios de comunicação. O que é plausível. A defesa dos animais precisa de incentivadores. Precisa de adeptos. Aliás, quanto mais simpatizantes houver, menos animais serão maltratados.

O problema é que o inimigo pode estar na própria causa. Muitos protetores alegam, com razão, que dentro dessa violência temos que incluir a alimentação. Tratam como hipócritas os que defendem um cachorro enquanto comem um sanduíche de pernil – a minoria talvez até seja.

Infelizmente, é preciso aceitar que poucos fazem a distinção entre animais para comer, animais para brincar, animais que são utilizados como cobaias. A tendência é defenderem, sobretudo, animais domésticos e selvagens. Ao passo que bois, galinhas, peixes, porcos são degustados sem remorso. Inclusive por alguns ativistas. Não é prudente, porém, desanimar os que veem com bons olhos a causa, mas que ainda utilizam produtos de origem animal. Afinal, são eles que vão ajudar a eliminar as touradas, a farra do boi, as carroças, as gaiolas, os aquários e a aprovar leis mais severas.

A análise de dezenas de reportagens na Folha Online sobre o Peta – People for the Ethical Treatment of Animals -, um dos grupos mais conhecidos do mundo, mostra a falta de credibilidade que seus protestos mais radicais têm, como as passeatas com pessoas nuas e boicotes destrutivos. Embora seja uma luta autentica, o que fica no discurso da mídia é que são arruaceiros e sem muitos argumentos, observação que se estende aos leitores.

Questiono, do mesmo modo, campanhas que mostram animais mortos e ensanguentados. Como apontou Roland Barthes em "Mitologias", essas imagens podem nunca chocar porque não estamos diante da cena, nem estamos presenciando e vivenciando o fato. Alguém já viu e sofreu por nós. Resta, apenas, a repulsa.

São incontestáveis, ainda assim, os méritos da defesa dos bichos, muitos do Peta, inclusive, que tem anúncios bem criativos. Afinal, alguma revolução é necessária. Há notáveis exemplos, como as restrições à vivissecção, a diminuição do comércio de peles e a proibição de animais em circos. A única objeção está na imagem que ela passa para a população que precisa ser seduzida. E que, em sua maior parte, não entende que queimar um cão pode ser o mesmo que devorar uma feijoada.

Por ora, não adianta dizer que o prato do seu amigo está vivo. Não adianta dizer ao vizinho que recolhe animais de ruas que ele não tem propriedade para tal, já que come carne. Não adianta tirar a roupa e fazer protestos. Lamento muito, mas isso não vai fazer ninguém virar vegetariano. Seguimos os exemplos de quem legitimamente admiramos e respeitamos.

Compreender, embora seja difícil, que a utilização de animais pelos seres humanos é muito mais que um hábito e se constitui em algo antropológico, surge como a opção mais sensata para equilibrar a relação entre os seres vivos. Confesso que já tive atitudes radicais na defesa dos animais. Pelo olhar assustado dos colegas, percebi que o convencimento pode ser obtido de maneira mais sútil. Claro que queremos que todos sejam livres. Antes, precisamos de mais seguidores. O resultado poderá ser constatado em vários pratos revisitados.

Todos merecem a liberdade e o respeito

Vídeo que traz campanhas em prol dos animais


domingo, 4 de março de 2012

tapete mágico

O primeiro romance que li contava as peripécias de um tapete mágico. Nem me perguntem qual foi a edição ou adaptação dessa famosa história do clássico "As mil e uma noites". Entretanto, adquiriu grande importância. Não era tão 'pequeno'. Tinha 'várias páginas e muito texto'. E foi escolhido durante uma das aulas de leitura do ensino fundamental, quando eu tinha sete ou oito anos.

Elas eram dadas pelo professor Galhardo uma vez por semana, de modo que levei um mês, acredito, para terminar aquela obra. A metodologia que utilizava era mais ou menos assim: numa mesa distribuía vários exemplares da literatura infantil. Então, éramos incentivados a circular e encontrar algo que nos chamasse a atenção.

Escolhi o tapete mágico. Nas aulas seguintes, enquanto as outras crianças folheavam os livros mais ilustrados e namoravam as capas mais coloridas, meus olhos buscavam 'minha história'.

Aladdin com o famoso tapete mágico

Já com onze anos, fui apresentada pelo mesmo professor ao Erico Verissimo e ao fabuloso "Música ao Longe". Que personagem adorável, romântica e linda era a Clarissa! Eu queria ser como ela. Escrever num diário, ter meus alunos, ler poesias e apaixonar-me por um rebelde de bom coração como o Vasco, Gato-do-Mato. Devorei o livro, que ainda é o meu favorito, num único suspiro pré-adolescente.

"Professor, tem outro livro como este?" "Sim." E saí da sala de leitura, como era chamada nossa biblioteca, com "Clarissa". Lá encontrei a adolescência da minha protagonista querida. Sua vida na pensão da Tia Zina e a relação com os outros hóspedes, em especial Amaro, o músico solitário e calado. Sua tristeza por ter perdido o amigo Tonico. O carinho pelo peixinho Pirolito. Suas travessuras mínimas. Seus doces passeios. As conjecturas típicas de uma garota inquieta. Pronto, não tinha como não querer mais.

"Tem outro, professor?" Na verdade, o que eu queria era continuar lendo sobre ela, sobre Vasco. Felizmente, ele não me deu "Um Lugar ao Sol", a sequência que eu tanto esperava, e que li mais de uma década depois. Eu não estaria preparada para descobrir o quanto custa alcançar um sonho e lidar com os 'problemas dos adultos'. Obviamente, eu também não me preocupava com o contexto social e as possíveis denúncias de Verissimo em seus romances. O que me encantava era o lirismo dos textos, apenas. Naquele dia, levei para casa "Olhai os Lírios do Campo". Coitada da Olívia, eu pensava. E chorava. “Tem mais?”

Agradeço imensamente ao mestre. Provavelmente, ele nem se recorda do tapete voador que me deu, transporte para inúmeras viagens literárias. Espero, de coração, que outros alunos continuem a ter o mesmo privilégio.