sábado, 4 de julho de 2020

a adorável loja de chocolate de paris




"Se você muda qualquer coisinha quando tem algo perfeito, fica tudo errado! Errado, horrível e um desastre."

A história começa na Inglaterra com Anna, que acabou de sofrer um acidente na fábrica de chocolates em que trabalha. No hospital, reencontra Claire, antiga professora de francês, que está fazendo um tratamento contra o câncer. Ambas têm muito em comum e, após vários dias internadas lado a lado, Claire sugere que Anna vá a Paris em busca de novas emoções. Na verdade, o que ela quer é reviver o passado e os dias cheios de aventura que passou na cidade das luzes. A narrativa mescla a história de Anna com o passado de Claire. Os amantes de chocolate talvez fiquem com água na boca ao ler os experimentos das personagens para tentar o melhor sabor. Até eu que não sou muito fã, fiquei com vontade de conhecer a loja de chocolates de Thierry, o galanteador que conquistou o coração de Claire. Agora caberá a Anna, mesmo sem saber, resgatar um poucos os dias que a amiga e professora passou. O fim não é o que eu esperava para este tipo de leitura, mas fez total sentido. É impressionante como poucos dias podem definir nossa história.

sábado, 27 de junho de 2020

simplesmente nova york




"Certamente não existe saudação mais animadora do que um rabinho balançando. Expressa tantas coisas. Amor, carinho e reconhecimento incondicional."

O livro tem cachorro. Ou melhor, dois. E são eles as únicas coisas boas deste romance. Eu deveria estar totalmente aérea para ter seguido com a leitura. Realmente, estava rsrs. Enfim, livros que trazem Nova York tendem a me atrair. Reflexo de SATC e Woody Allen.

Tenho queda por narrativas que se passam nesta cidade que nunca estive. Mas que está presente em filmes, séries e no imaginário que criei sobre outono no parque. Enfim, é justamente no parque que os protagonistas se conhecem. E como são enfadonhos! Ela é uma blogueira famosa. Ele é um advogado super requisitado que cuida de divórcios. Os dois se acham, cada um de um jeito. E procuram disfarçar o egocentrismo passeando com seus cachorros no Central Park. Tudo bem que o amor dela pelo pet é verdadeiro, mas ainda assim é difícil engolir seus problemas, que fizeram com que ela deixasse a Inglaterra. Quando descobrimos quais são, pensamos: Oi? Ele se considera a última bolacha do pacote. E emprestou um cachorro da irmã para ver se conseguia um encontro com alguém no parque. Deu certo. E é isso. O lado bom é que os cachorros não morrem, não sofrem (okay, um deles fica doente, mas logo se cura, ufaaaa) e todos ficam felizes. Leitura para quem não quer esquentar a cabeça. Mas ainda assim, não recomendo. Leiam P.S. de Paris no lugar.

domingo, 7 de junho de 2020

a mulher na janela




"Não é paranoia se está realmente acontecendo."


Romance de tirar o fôlego. O norte-americano A. J. Finn nos dá, no decorrer da leitura, várias pistas falsas. Confesso que estava apostando em um desfecho que não aconteceu, o que foi bom, pois teria ficado decepcionada se minhas previsões tivessem sido concretizadas. Anna Fox é psicóloga e mora sozinha após ter sofrido uma grande perda. Ela não consegue sair de casa, tem agorafobia e tudo que faz é ficar trancada, bebendo muito vinho, falando com estranhos pela internet, assistindo a filmes antigos (sabe as falas de cor e muitas vezes sua realidade se confunde com a ficção) e espionando os vizinhos pelas lentes de sua câmera fotográfica, em especial os recém-chegados Russells. Não é à toa que Hitchcock é um de seus cineastas favoritos. E é num de seus zooms que vê algo bem esquisito e que vai atormentá-la ainda mais. O bacana deste livro é que a narrativa nos conduz a termos as mesmas percepções que a protagonista. Será que tudo não foi fruto da imaginação? E esta dúvida é sanada de forma totalmente imprevisível, o que torna a leitura uma grande experiência. Não posso dizer mais nada para não estragar as surpresas. Livro super recomendado :-) Virou filme, mas não é tão bom quanto o romance.



sábado, 30 de maio de 2020

p.s. de paris





"Obrigar seus sonhos a irem de encontro com a realidade era arriscar a própria existência deles."


Livro bobinho, bobinho escrito pelo francês Marc Levy, mas que acaba nos cativando. Ter Paris no título foi o que me chamou a atenção. O enredo é simples e super clichê. Uma mega estrela do cinema, Mia, está prestes a se divorciar do marido, também um superstar e seu par romântico em vários filmes. Para dar um tempo, ela sai de Londres e vai até Paris completamente disfarçada. Lá, fica na casa de uma amiga que tem um pequeno restaurante. Nos Estados Unidos, um escritor tenta escrever outro romance na tentativa de ter o mesmo sucesso que seu primeiro livro. Incentivado por um casal de amigos (protagonistas de outro livro de Marc Levy, E se fosse verdade - sucesso até no cinema), vai para a França, seu país de coração e onde morou por vários anos. Aluga um cantinho para morar e se debruça no processo criativo. Eles acabam se cruzando por meio de um site de namoros em uma situação completamente embaraçosa. Ela havia feito seu perfil, mas ele não. Tudo armação de seus amigos. Bem, a leitura não vai acrescentar nada na sua vida, mas vai ajudar a fugir um pouco da realidade, tarefa de toda comédia romântica ;-)

"Um dia vou viver em teoria, porque em teoria tudo é perfeito."

sábado, 18 de abril de 2020

britt-marie esteve aqui


"É mais fácil ficar otimista se você nunca precisa limpar a sujeira depois."

Pensem em uma pessoa louca por limpeza. Metódica toda vida. Pois assim é Britt-Marie, uma mulher de 60 anos que vivia em função do bicarbonato de sódio, produto que não economizava no dia a dia. Outras manias de Britt eram a arrumação dos talheres, que precisavam estar na ordem correta (a que ela acreditava, claro) e as listas (nada poderia ser feito se não tivesse sido planejado e incluído em seu caderno). No decorrer da leitura, vamos descobrindo os motivos que fizeram com que ela se tornasse essa pessoa que preza pela rotina. Praticamente só conhece o bairro em que mora. Nunca teve um emprego que não fosse cuidar da própria casa e do marido, que nitidamente abusa de sua inocência. Até que descobre que ele a trai. Na verdade, é algo que já desconfiava, mas preferia não encarar, mas eis que o cara sofre um infarto e no hospital ela se depara com a amante. Até para Britt-Marie isso é demais. Ela arruma suas coisas, sai de casa e vai parar em uma cidadezinha na Suécia esquecida por todos e completamente falida por conta da crise econômica (situação enaltecida por todos os moradores).

É muito difícil não gostar dessa personagem criada pelo sueco Fredrik Backman. Ao mesmo tempo em que é metódica e cabeça dura, ela é fofa. Quando vai fazer alguma crítica, estuda minuciosamente as palavras de modo a não ofender o interlocutor. É óbvio que não funciona e, talvez, justamente por isso todos acabam se apegando a ela que, por sua vez, segue preferindo a solidão e certa ordem na nova vida. Mas o destino realmente queria que ela mudasse e vai colocar em seu caminho um time de futebol de adolescentes rebeldes. Sem entender absolutamente desse esporte, caberá a nossa protagonista ser a técnica da inusitada equipe. Livro leve, divertido (dei muitas risadas) e com várias passagens inspiradoras, que vão nos deixar a pensar sobre as mudanças que também precisamos fazer.


"Quantas emoções puras nos fazem gritar alto, sem o menor constrangimento?"

"O futebol obriga a vida a continuar. Sempre há uma nova partida. Uma nova temporada. Sempre há um sonho de que tudo vai ficar melhor. É um esporte que faz maravilhas."

"Os talheres devem ser arrumados como sempre foram, porque a vida deve continuar sem alterações." "Algumas pessoas não entendem o valor das listas, mas Britt-Marie não é desse tipo. Tem tantas listas que precisa manter uma lista distinta relacionando todas as listas. Caso contrário, qualquer coisa pode acontecer. Ela pode morrer. Ou se esquecer de comprar bicarbonato de sódio."

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

a eternidade por um fio




"Nossa geração vai ter que se arrepender não apenas das palavras de ódio e das ações dos maus, mas do silêncio devastador dos bons."


Durante o Carnaval, terminei a trilogia "O século", do britânico Ken Follett, que me acompanha desde 2017. Foram três anos para devorar as cerca de 2,8 mil páginas deste romance sensacional. Ainda estou de ressaca literária e só quem leu a obra vai me entender. A leitura foi sempre intercalada com buscas sobre os fatos reais narrados por Follett, que nos dá uma aula de história. Claro que tudo é romanceado e temos que ter discernimento sobre o que verdadeiramente aconteceu. Porém, não deixa de ser um estímulo para pesquisas mais detalhadas. Vale lembrar que a trilogia sempre foca em cinco famílias: alemã, inglesa, galesa, russa e norte-americana. Ao longo dos anos, elas acabam se misturando de forma muito bem construída, seja por casamento, amizade ou ideologias.

No último volume, "A eternidade por um fio", acompanhamos o desenrolar da Guerra Fria, a guerra da informação entre o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o comunismo soviético. Tanto um quanto o outro trazendo vítimas, censuras e muitas, muitas mortes.

Começamos o romance com Rebecca Hoffmann, do lado alemão. Nas primeiras páginas, estamos na década de 60 e Rebecca foi intimada a depor para a polícia secreta da Alemanha Oriental. Enquanto isso, seu irmão, Walli, inicia os primeiros passos de uma carreira musical, que certamente não terá lugar na sua terra natal. A família foi dissidente do nazismo e agora se confrontava com a censura soviética.

Nos Estados Unidos, George Jakes, filho de uma negra e de um russo, que ascendeu à política, sonha em criar os direitos civis, que podem mudar a forte segregação racial no País. Torna-se advogado e consegue um posto de confiança de Bob Kennedy. Ainda do lado norte-americano, temos os irmãos Cameron, que vai representar o pensamento de extrema direita, e Beep, sua irmã, cujo lema será a liberdade de expressão. 

Na União Soviética, os gêmeos Tanya e Dimka, cuja família é toda militar e ligada ao governo, trabalham em prol da reforma do comunismo em que vivem. Almejam os valores iniciais deste sistema, baseados no fim da luta entre classes e nos direitos igualitários. Enquanto ela utiliza seu posto de jornalista da TASS (agência russa de notícias) para colher e levar informações verdadeiras à população por meio de veículos alternativos, seu irmão é ligado à alta liderança política, e vai buscar de todos os modos aliados para mudar o regime.

Na Inglaterra, outros dois irmãos saem em busca de seus sonhos. Dave e Evie. Ele como músico e ela como atriz. Utilizam suas influências para contribuir com as mudanças que o mundo enfrenta.

Claro que há cenas clichês, exageros dramáticos, mas de modo geral, Follett nos leva a uma viagem por fatos históricos, com falas de personalidades como John F. Kennedy, Robert Kennedy, Martin Luther King, Richard Nixon, Walter Ulbricht, Nikita Sergueievitch Kruschev, Mikhail Gorbachev, entre outros tantos. Acompanhamos a Guerra do Vietnã, a construção do Muro de Berlin, a perseguição aos negros nos Estados Unidos, o célebre discurso de Martin Luther King e o nascimento da cultura Hippie. Tudo isso com passagens bem eletrizantes, como as fugas da Alemanha Oriental, a forma com que os dissidentes russos trocavam mensagens e a viagem de George ao sul do seu País, região que mais segregava os negros. O final é lindo e traz um momento bem recente da nossa história, mas que ainda está longe de ter aliviado a tensão e as injustiças do mundo. Vale cada página.

Leia também:





Segregação racial nos EUA. Veja fonte da foto

Queda do Muro de Berlim. Veja fonte da foto

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

o perigo de uma história única



"A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos parecidos."

No fim do ano passado presenteei várias pessoas com este livro
. Na verdade, trata-se de um texto adaptado da palestra dada, em 2009, pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (veja no fim do post). Aqui ela nos fala um pouco sobre os estereótipos que vamos tendo ao longo da vida, sempre baseados numa histórica única que nos é dado do contexto avaliado.

Quando começou a escrever, ainda criança, suas histórias sempre traziam personagens loiros e de olhos azuis. Pois assim eram (e ainda são em sua maioria) os 'contos de fada'.

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne única."

Sua narrativa parte, sobretudo, de experiências próprias. Ela vem de uma família de classe média na Nigéria. Ainda jovem, foi visitar o vilarejo da empregada da casa e se espantou ao ver que eles viviam bem, felizes e que faziam belos artesanatos. Em sua cabeça, recheada do que seus pais contavam sobre o modo de vida da moça, achava improvável encontrar lá nada além da miséria. Equívoco. 

"Não havia me ocorrido que alguém naquela família pudesse fazer alguma coisa. Eu só tinha ouvido falar sobre como eram pobres, então ficou impossível para mim vê-los como qualquer coisa além de pobres. A pobreza era minha história única deles."

Ela mesma passou por situação parecida quando foi estudar nos Estados Unidos. Diz que as pessoas sentiam pena dela antes mesmo de a conhecer. Era comum que a questionassem sobre seu inglês fluente (poucos sabem que este é o idioma oficial da Nigéria) e também para que ela mostrasse como são as músicas tribais, mesmo quando sua cantora favorita fosse Mariah Carey. Sua primeira colega de quarto acreditava, por exemplo, que ela nunca tinha visto um fogão.

"Sua postura preestabelecida em relação a mim, como africana, era uma espécie de pena condescendente e bem intencionada. Minha colega de quarto tinha uma história única da África: uma história de catástrofe. Naquela história única não havia possibilidade de africanos serem parecidos com ela de nenhuma maneira; não havia possibilidade de qualquer sentimento mais complexo que pena; não havia possibilidade de uma conexão entre dois seres humanos iguais."

Muito desta visão, para Chimamanda, vem da literatura ocidental, que sempre colocou os africanos como "seres exóticos". Ela cita como exemplo trecho do relato de John Lok, mercador britânico.

"Após se referir aos africanos negros como 'animais que não têm casa', ele escreveu: 'também é um povo sem cabeça, com a boca e os olhos no peito. Rio toda vez que leio isso. É preciso admirar a imaginação de John Lok. Mas o importante sobre o que ele escreveu é que representa o início de uma tradição de contar histórias no Ocidente: uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta Rudyard Kipling, são 'metade demônio, metade criança'."

E esta visão não escapou nem aos seus professores universitários, que diziam que seus textos não eram "autenticamente africanos", já que os personagens dirigiam carros e não passavam fome.

Seria muita hipocrisia dizer que nunca estivemos diante de algo semelhante. Tanto de um lado, como de outro. E é justamente isso que alimenta o racismo, a discriminação e as ideias de valores que não condizem com a realidade. Chimamanda atribui a resistência de se buscar outras fontes ao poder. Damos por certo o que ouvimos das pessoas que consideramos autoridade. A passividade com que aceitamos informações nos impede de irmos além do que está sendo dito. Que tal mudarmos isso? Podemos começar com as histórias dos que estão mais próximos de nós ;-)

"O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja a sua história definitiva."

"A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história."


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

um dia de dezembro



"Sei que é doloroso abrir mão de alguém que se ama, mas não acredito que somos destinados a apenas uma pessoa no mundo."


Eu queria fechar o ano com uma história natalina. Algo que me remetesse, mesmo morando no calor sufocante dos trópicos, ao inverno, à neve e ao estereótipo da magia que me apresentaram quando criança, por meio de desenhos como o Snoopy. Mas devo confessar que gosto e muito. Tanto que não tenho vergonha alguma de dizer que Natal, na minha opinião, é sinônimo, também, de neve. Enfim, lá em julho, eu já tinha colocado na agenda que compraria "Um dia em dezembro", de Josie Silver. É um romance chick-lit, que vai pegar praticamente uma década da vida das personagens. Nada de extraordinário. O mote é o seguinte: uma garota inglesa de vinte anos sonha em ser uma grande jornalista, sua cabeça está cheia de sonhos e a realidade, diferente do que imagina para o futuro, a atormenta. E um fato vai alimentar ainda mais seus devaneios. Ao sair do trabalho no meio da confusão londrina de fim de ano, vê pela janela do ônibus em que está o cara mais lindo da vida. A paixão é imediata. Em um momento, ela tem a certeza de que ele entrará no veículo. Mas isso não acontece e ela passa o ano inteiro seguinte, com a ajuda da melhor amiga, atrás dele. Claro que inutilmente, já que a única referência que tem é o ponto de ônibus em que ele estava. Até que numa bela noite, Sarah, a amiga, apresenta seu novo namorado. Adivinhe quem é? Adivinhe? Sim, claro. Ela esconde a verdade, finge que não o reconhece e começa o drama. Do lado dele, temos a mesma coisa. E assim vai, por anos. Até que…, bem não preciso terminar e nem dar alerta de spoiler. Mais previsível, impossível. Contudo, aqui e ali, temos trechos bacanas que deixam a leitura fluir. Feliz 2020. Com muitos flocos de neves para todos ;-)

sábado, 7 de dezembro de 2019

a pequena livraria de sonhos

 



“Ler é existir na história.”


A pequena livraria dos sonhos”, de Jenny Colgan, é uma homenagem a todas as leitoras e leitores. Certamente, quem gosta de livros vai se identificar com algumas passagens da protagonista. No meu caso, ainda me identifiquei com a paixão que ela tem pelo frio. Talvez até por ser um momento ainda mais aconchegante para termos junto de nós um belo romance.

“Se você não tem lareira em casa, serve uma vela. Quando vai chegando o inverno, já começo a sonhar com o aconchego de uma lareira e um bom livro - quanto maior, melhor. Nada melhor do que um romance bem, bem longo, uma caneca generosa de chá ou uma taça de vinho.”

Nina mora em Birmingham, na Inglaterra, é bibliotecária e sua grande ambição é ler cada vez mais. Até que anunciam que a biblioteca em que trabalha vai fechar e apenas alguns funcionários serão remanejados para outro lugar, uma espécie de centro tecnológico. Ela até tenta participar do processo seletivo, que inclui todas aquelas entediantes dinâmicas em grupo e entrevistas para saber se você é o candidato ideal. Desesperada por ter que fazer parte de um mundo com o qual não se identifica, Nina, que nunca havia feito nada de diferente, surpreende a todos ao tomar a decisão de se mudar para a Escócia. Claro que não é nada fácil. No meio de tudo isso há dilemas, enrolações e um certo empurrão da amiga com quem mora e que já não suporta mais os inúmeros livros que Nina leva para casa. Resultado: ela vai parar em terras escocesas dentro de um furgão, que transforma em uma linda e fofa livraria, daí o título do romance.

Bem, dá muita vontade de passear com Nina em sua livraria itinerante. Ela sabe exatamente o tipo de livro que o leitor precisa, a cura para seus males, algo bem na linha de “A senhora das especiarias”, de Chitra Banerjee Divakaruni. Ou daquele lindo filme Chocolate, do sueco Lasse Hallström, que traz Juliette Binoche e Johnny Depp. Ambos trazendo espécie de feiticeiras do bem que com especiarias e doces ajudam a vida dos infelizes. De certo modo, é o que Nina faz. Obviamente, ela própria vai precisar de ajuda quando encontrar alguns amores pelos caminho. Aliás, fiquei encantada com a forma com que ela e um pretendente trocavam mensagens perto da linha de trem: por meio de livros presos na árvore. Lindo. Nem preciso dizer que o fim é previsível e que a história não tem nada de extraordinário, mas me deixou doida para revisitar a Escócia, um dos locais mais belos que já vi. E, quem sabe, também ter meu próprio espaço de incentivo à leitura.

“Nina sempre fora uma pessoa quieta e isolada, e observava o mundo através dos romances que adorava ler.”

“Algumas pessoas passam a vida inteira sem conseguir tomar muitas decisões, sem querer se comprometer, sempre com medo das consequências de tentar algo novo.”

“Nina amava os dias úmidos e frios de inverno; gostava de se sentar perto do aquecedor e ficar ouvindo a chuva lá fora fustigando o vidro da janela.”

“Na maior parte da vida, o mundo lá fora era apenas algo do que se proteger enquanto ficava em casa com um livro.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

dias de abandono




"O futuro, de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais."

Fazia tempo que não me sentia tão incomodada com um livro. Acredito que a última vez que eu tenha me sentido tão mal tenha sido após a leitura de "Timoleon Vieta volta para casa", de Dan Rhodes. E pelo mesmo motivo: abandono de cachorros. 


Tudo bem que este não era o foco principal de "Dias de abandono", de Elena Ferrante. Contudo, foi o que mais me atormentou. Trata-se do fluxo intenso de pensamento de Olga, após a decisão do marido de deixá-la. Como a narrativa é única e exclusivamente sob seu ponto de vista, só conhecemos suas razões. O fato é que está na cozinha, em um dia normal, as duas crianças brincando, o cachorro dormindo, ela e o marido conversando e eis que ele anuncia que está indo embora. Pronto. O caos é instaurado. Quem já passou por rompimento amoroso sabe a dor que se sente diante da rejeição de alguém em quem depositamos sonhos e expectativas. Passamos por um período de luto, muito bem definido por Alain de Botton em "Ensaio de Amor" (super recomendo!). Mais ou menos assim: dor intensa, queremos morrer. 

Depois vem a revolta e nos questionamos por que perdemos tempo com tal pessoa. Se surgir outro crush, a coisa é mais fácil de se resolver e vida que segue. Mas, no geral, ninguém morre por isso. Eu disse no geral. Porque no caso da nossa protagonista o que temos é definitivamente o seu real abandono. Ela simplesmente desiste de tudo. Praticamente se arrasta pela casa remoendo o tempo que passaram juntos, sua vida dedicada somente a cuidar do marido e filhos, o fato de não ter seguido com o que gostava, em detrimento da escolha pela vida em família. "Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente." Os filhos e o cachorro viraram um estorvo. Não consegue dar conta das coisas mais corriqueiras como, por exemplo, ir ao banheiro. Há um trecho em que ela "se alivia" no bosque, após caminhar de camisola e pantufas. Os filhos, de aproximadamente 6 e 10 anos anos, têm que se virar sozinhos. O cachorro, coitado, é ignorado. E nas poucas vezes em que ela resolveu passear com ele eu gelava. Já via o bicho sendo atropelado por displicência. Eu não estava tão errada. Algo terrível vai acontecer com Oto. O pior é que ela, no ápice de sua letargia, não vai conseguir ajudá-lo. Aí eu acelerei a leitura, da forma mais dinâmica possível, para evitar ler os detalhes da situação em que ela se colocou, colocou os filhos e, infelizmente, o pet. Em tempo: sim, o marido foi um tremendo canalha. 

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor.”