quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

dias de abandono




"O futuro, de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais."

Fazia tempo que não me sentia tão incomodada com um livro. Acredito que a última vez que eu tenha me sentido tão mal tenha sido após a leitura de "Timoleon Vieta volta para casa", de Dan Rhodes. E pelo mesmo motivo: abandono de cachorros. 


Tudo bem que este não era o foco principal de "Dias de abandono", de Elena Ferrante. Contudo, foi o que mais me atormentou. Trata-se do fluxo intenso de pensamento de Olga, após a decisão do marido de deixá-la. Como a narrativa é única e exclusivamente sob seu ponto de vista, só conhecemos suas razões. O fato é que está na cozinha, em um dia normal, as duas crianças brincando, o cachorro dormindo, ela e o marido conversando e eis que ele anuncia que está indo embora. Pronto. O caos é instaurado. Quem já passou por rompimento amoroso sabe a dor que se sente diante da rejeição de alguém em quem depositamos sonhos e expectativas. Passamos por um período de luto, muito bem definido por Alain de Botton em "Ensaio de Amor" (super recomendo!). Mais ou menos assim: dor intensa, queremos morrer. 

Depois vem a revolta e nos questionamos por que perdemos tempo com tal pessoa. Se surgir outro crush, a coisa é mais fácil de se resolver e vida que segue. Mas, no geral, ninguém morre por isso. Eu disse no geral. Porque no caso da nossa protagonista o que temos é definitivamente o seu real abandono. Ela simplesmente desiste de tudo. Praticamente se arrasta pela casa remoendo o tempo que passaram juntos, sua vida dedicada somente a cuidar do marido e filhos, o fato de não ter seguido com o que gostava, em detrimento da escolha pela vida em família. "Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente." Os filhos e o cachorro viraram um estorvo. Não consegue dar conta das coisas mais corriqueiras como, por exemplo, ir ao banheiro. Há um trecho em que ela "se alivia" no bosque, após caminhar de camisola e pantufas. Os filhos, de aproximadamente 6 e 10 anos anos, têm que se virar sozinhos. O cachorro, coitado, é ignorado. E nas poucas vezes em que ela resolveu passear com ele eu gelava. Já via o bicho sendo atropelado por displicência. Eu não estava tão errada. Algo terrível vai acontecer com Oto. O pior é que ela, no ápice de sua letargia, não vai conseguir ajudá-lo. Aí eu acelerei a leitura, da forma mais dinâmica possível, para evitar ler os detalhes da situação em que ela se colocou, colocou os filhos e, infelizmente, o pet. Em tempo: sim, o marido foi um tremendo canalha. 

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor.”

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