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terça-feira, 14 de maio de 2013

a árvore e a casa


Depois de mais de vinte anos conosco, ela precisou ser transplantada. Verde e com folhas largas, a árvore que meu pai plantou na calçada de casa precisou ir embora.

Minha mãe gosta muito de plantas. Ela tem várias no quintal, seu jardim. Samambaias, boldo, alecrim, plantas diversas e, especialmente, orquídeas. Essas se tornaram sua grande paixão.

O carinho também se estende à árvore que tínhamos. Atenção com a poda, água e até com o cercadinho que a protegia. Mas sua raiz estava afetando o encanamento do vizinho e, posteriormente, os canos da rua. Sim, ela cresceu muito. E, pelo jeito, tinha ótima sustentação.

Foi uma decisão complicada. Tudo foi tentado para mantê-la perto de nós. Era hora, porém, de nos despedirmos da árvore. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente foi acionada para que ela fosse transferida para outra localidade. Ficamos tristes. Sabe quando você perde alguém que gosta muito? Foi assim com nossa plantinha. Preocupada, minha mãe acompanhou todo o procedimento para a retirada da árvore.

Pode parecer bobeira, mas acredito que as plantas têm sentimentos. Lembro quando minha mãe foi para o Japão em 2008. Pouco antes da viagem, ela podou a árvore. Pode parecer mentira, mas durante sua ausência nenhum galho ou folhinha cresceu. Estava murcha, parecia doente. Quando minha mãe voltou, lá estava ela, novamente cheia de folhas, grande. Viva.

Na época em que meu pai a plantou, era apenas uma mudinha. Com o passar dos anos, assim como meus irmãos e eu, cresceu. Cobria até os fios elétricos de casa e dos vizinhos. Era referência para as visitas: “ao descer a rua, é a casa com uma árvore na frente.”

Ela não está mais lá. Foi para uma rua próxima, mais arborizada. Segundo a subprefeitura, a árvore permanece na região para manter o equilíbrio da fauna e flora. Fui até o novo endereço na expectativa de vê-la, mas eram tantas as árvores que fiquei confusa. Engraçado que lá no meio de tanto verde, uma me chamou a atenção, talvez fosse ela. Agora o carinho e a recordação de infância ficarão sempre comigo. Simbolicamente, guardei um galho com algumas folhinhas. Lembrança deixada na calçada no dia em que ela teve que partir. Quem sabe não seja uma breve viagem.

A árvore

“Canção divina as cousas comovia,
E de ternura as árvores choravam...
E lembrava o luar a luz do dia
E os ribeiros, extáticos, paravam.”

Trecho do poema “A sobra de Eurídice”, de Teixeira Pascoaes, poeta e escritor português (1877/1952). Amante da natureza, seus versos transitam pela 'experiência existencial da saudade”.



domingo, 20 de janeiro de 2013

pretinha

Por Renata Okumura

Sempre tive e gosto muito de cachorros. Mesmo nos momentos mais tristes, eles me arrancam sorrisos.

Era manhã de quarta-feira, 14 de novembro de 2012, estava a trabalho quando me deparei com cinco filhotinhos abandonados e dormindo todos juntinhos na porta da Igreja Nossa Senhora Aparecida, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Um dos cachorrinhos se afastou dos irmãos e veio ao meu encontro. Naquela hora me deu um aperto no coração, mas acabei deixando-os lá e fui para o trabalho.

À tarde, pensei muito nos filhotinhos. O que poderia fazer por eles? Por que apareceram na minha frente? Talvez para eu tomar uma providência.

Não resisti. No dia seguite fui lá buscá-los, com o apoio da minha irmã Kátia. Dos cinco filhotes, quando cheguei ao local, encontrei três. Talvez por serem as três fêmeas ninguém quis adotá-las.

Foram comigo pra casa, levei ao veterinário. Depois de alguns dias, duas faleceram, já estavam bem debilitadas. A sobrevivente foi a Pretinha, como a chamo desde que a encontrei. Quando pequenina, ela tinha os pelos pretos, agora está com pelos pretos e outros castanhos, parecendo luzes. Magrelinha com pelos lisos, e arrepiados no focinho. Pesa atualmente 5,3 quilos, chegou com 1,5 quilos.

Uma curiosidade: por incrível que pareça, foi a cachorrinha que se afastou dos irmãos e veio ao meu encontro no dia em que os vi pela primeira vez.

Quando busquei os filhotes, a intenção era cuidar e deixá-los para adoção. Mas aí quando ficou só a Pretinha, e como eu falava e ninguém manifestava interesse, eu disse que iria ficar com ela. Dias depois da minha decisão até apareceu uma pessoa interessada, mas eu já tinha feito minha promessa e me apegado. Desde então, a Pretinha mora comigo. E é super amiga dos cachorros de casa, do Billy e do Pirulito, só não tão amiga da Nina, por ser fêmea também. Está crescendo, agitada, brincalhona, danada e comilona! Mas acima de tudo, muito carinhosa. Ao ouvir meus passos, as orelhinhas já levantam. E como gosta da sua caminha de almofadas que ganhou da minha irmã e do seu ursinho de pelúcia, este meu presente! Posso dizer que ela me escolheu para ser sua dona.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

tempo para refletir

Por Renata Okumura, repórter da Rádio Estadão ESPN


Uma garotinha francesa, com cinco anos no máximo, arrancou risos e suspiros de tão graciosa que estava no vídeo exibido durante a palestra da jornalista e psicóloga Mônica Ferrari, parte de um curso para formar contadores de histórias.

A imaginação representa nossas vivências, não tem limites e encanta. A pequena surpreendeu a todos e até a própria mãe, que a filmava, ao contar a história de animais como macacos, leões e hipopótamos. Gesticulava e fazia biquinhos para expressar ação ora alegre, ora triste, ora macabra. Até a bruxa má ela soube imitar. Futura contadora de histórias? Quem sabe. Mas que o vídeo serviu de inspiração para todos na palestra, não há dúvida.

Em exatas três horas, a palestrante clareou a mente do grupo sobre a importância de saber administrar o tempo com todas as tarefas pessoais e profissionais e, ainda, encaixar o trabalho voluntário no cotidiano.

“Tempo é bússola e cabe a cada um encontrar o seu norte”. No dia a dia, tantas são as tarefas com a família, com o trabalho e mesmo com as atividades pessoais. Contudo, urgências e imprevistos podem ocorrer e, querendo ou não, é preciso estar preparado. No momento de decidir ser um voluntário, mais especificamente um contador de histórias, é necessário levar em conta a disponibilidade e a dedicação com esta missão. Saber que “não importa se faça sol ou faça chuva, as crianças estarão lá aguardando ansiosamente pelo momento de cultura e de entretenimento. No hospital o tempo é diferente.”

E como fazer com que todas as nossas tarefas sejam realizadas de forma planejada e prazerosa? O dia tem apenas 24 horas e às vezes parece ter até menos. Por isso, a importância de definir prioridades para alcançar um melhor rendimento, listar e ordenar as ações diárias. Na ‘Matriz de Prioridades’, de Stephen Covey, apresentada na palestra, essas ações são tidas como importantes: noite de sono, momentos com a família e amigos, refeição, higiene pessoal, locomoção, educação, academia, cuidar da casa, lazer e entretenimento. E neste leque deve fazer parte também o voluntariado.

O grupo foi questionado pela palestrante: “de quais feitos se orgulharia de contar para seus filhos, familiares e amigos aos 85 anos?” Pergunta intrigante, mas que já demonstra o anseio em buscar algo inovador, fazer nosso tempo valer a pena. Saber que podemos fazer a diferença na vida de alguém, por exemplo, com gestos e até mesmo com palavras.

Mônica apresentou dois livros que podem ajudar na organização pessoal: ‘Ritmo da Vida’ e ‘Administrador de Sonhos’, ambos de Mathew Kelly. Publicações que retratam a forma de lidar com o tempo. Também mostrou o conceito ‘A Tríade do Tempo’, de Christian Barbosa, que diz: “70% do nosso tempo deve ser dedicado as ações que planejamos, 20% para questões urgentes e somente 10% para circunstâncias, ou seja, momentos à toa.”

Aprender a delegar tarefas e a dizer não, no momento certo e sem magoar o outro. Divergir sem conflitar. Tentar não se sobrecarregar. Foram atitudes demonstradas em um trecho do filme ‘A Negociação’.

Agora reflita: o trabalho voluntário cabe na sua vida? É possível encaixá-lo no seu cotidiano sem deixar de lado o que já faz hoje? Com planejamento tudo é possível. E imaginar uma criança feliz após compartilhar uma leitura infantil já é algo animador, assim como fazer parte desse processo de aprendizado e de criatividade. Quem sabe ajudar a prepará-la para ser como a menininha francesa. Imaginar o aceno de até logo. E um sorriso de empolgação e agradecimento quando chegar o próximo encontro. Isso vale cada segundo do nosso tempo.

Contadora de histórias inata