sexta-feira, 26 de junho de 2015

minuano


Minuano”, do gaúcho Tabajara Ruas, é um dos melhores livros que já li. Não pelo conteúdo que é discutido no livro, mas pela forma com que é escrito. O protagonista narrador é um cavalo, cujo nome dá título à obra. Ele nasceu no dia em que o vento Minuano, corrente de ar polar, começou a soprar no Rio Grande do Sul. O que explica seu nome. Com apenas dez dias foi mordido por um leão baio, espécie de onça, e ficou seriamente machucado. Cuidaram dele, porém, passou a ser apenas um ‘cavalinho manco’, deixado para os serviços mais leves, ao contrário de seus pais, irmãos e amigos, todos grandes e imponentes. Isso não o incomoda. Segue feliz a brincar, a admirar os outros e por ter abrigo quente. Até que chega o aviso da guerra e todos, exceto ele, são convocados. Homens, mulheres e cavalos. É a Revolução da Farroupilha, que marcou o sul do país entre 1835 e 1845.
Para todos os personagens que não estão do lado do império, a salvação está nas mãos de Bento Gonçalves. E é justamente ele que surge para dar a Minuano a chance de mostrar que é forte. Infelizmente, como sempre nesses casos, não há reconhecimento. Mas deixo as impressões para quem se interessar pela leitura.
O livro é para o público juvenil, tentativa de apresentar o que significou o conflito. Segundo o autor, sua inspiração vem da saga “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo. O resultado: uma fábula que encanta e comove. Para mim, que sou sempre a favor dos animais, chega a doer. Sinto a angústia do cavalo ao descer as montanhas embaixo da chuva, o desalento ao ver os animais sendo mortos, a tristeza por não poder mais olhar nos olhos da mãe. E tudo isso por causa do charque, como ele mesmo reflete. Deveria ser leitura obrigatória a todos que pensam que os animais estão aqui apenas para nos servir.
"O cheiro da carne queimada daquelas centenas de homens e cavalos mortos ainda me acompanha, ainda surge de repente numa ponta da memória e me faz estremecer. Quando o sol finalmente desceu no horizonte, o corneteiro se colocou em posição de sentido no alto da coxilha, perfil recortado contra o vermelho do céu, e tocou o Silêncio. Desde esse dia, comecei a ter mais medo do homem do que de leão baio."

quinta-feira, 25 de junho de 2015

cadê você, bernadette?

Cadê você, Bernadette”, de Maria Semple, é bem engraçado. Mas apenas na primeira metade. Depois ele se perde ao justificar as atitudes dos personagens. O livro conta a história da mulher do título que desaparece, mas isso só lá no fim. Ela é antissocial. Gosta de ficar em casa. Quando sai, limita-se a ficar dentro do carro. Evita qualquer tipo de interação. O que não quer dizer que ela seja egoísta ou desagradável. Apenas prefere ficar na dela. Contudo, isso incomoda as outras mulheres do bairro em que mora. Mas mesmo assim, ela não se intimida e sua reação a essa hostilidade é cômica.

Casada com um bambambam da Microsoft, conhecido por uma palestra que fez sucesso no Youtube, ela se vê diante do grande dilema da vida: fazer uma viagem em família pela Antártida. O problema não é a família, mas ter que ficar presa dentro de um navio com várias pessoas que na falta do que fazer vão querer conversar. Como sobreviver a isso?

O passeio é um pedido da filha, que teve direito a escolher o que quisesse por ter tirado as notas máximas na escola. Interessante mesmo é a narrativa utilizada pela autora. Tudo nos é contato por meio de cartas, bilhetes e e-mails trocados entre os personagens. Como se estivéssemos espionando a correspondência alheia. Aliás, o FBI faz uma ponta na história. E aqui e a ali, a filha do casal aparece para dizer suas impressões, afinal, ela é a maior interessada em encontrar a mãe.

Esperava mais. Fico super constrangida quando vejo um livro que tem tudo para ser bacana terminar com um blablabla motivacional, na linha de ‘o que importa é estarmos juntos, vamos perdoar, a vida é bela’. Não estou dizendo que não considero isso importante, porém, qual o sentido de se envolver com um história que vai terminar com todo esse melaço?

Enfim, o que mais gostei mesmo foram as descrições do tour pela Antártida. Sempre achei que este livro tinha cara e verão, mas eis que me deparo com momentos frios na narrativa. Talvez releia algumas partes para futura viagem.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

a resposta

Não gosto de livros com a capa do filme. Por isso, e também porque já tinha um pilha de leitura, quase devolvi este livro para a pessoa que o havia me emprestado. Ele ficou algumas semanas comigo e nada. Mas com a insistência da dona em questão, abri a primeira página e, praticamente, li tudo de uma tacada só. “A resposta”, de Kathryn Stockett, é incrível. Fiquei presa na história mesmo depois de ter lido a última palavra. Tanto que corri para ver o filme no qual ele é baseado, “Histórias cruzadas”, que é muito bom também. Em inglês, ambos, levam o mesmo nome “The help”, que talvez não tenha sido um título tão atrativo para o português. Fala basicamente sobre o preconceito contra negros nos Estados Unidos, especialmente em Mississipi, entre 1962 e 1963. Aliás, tenho que rever o filme “Mississipi em chamas”, que ficou na minha cabeça enquanto lia, e que trata do mesmo tema. Antes dos agradecimentos, Stockett nos conta sua relação com as domésticas e, então, sentimos uma tentativa de autobiografia e homenagem à sua baba negra.

Apesar de tratar de racismo, a narrativa é divertida. São três pontos de vistas: a da mocinha que não aceita o preconceito, Skeeter, e das empregadas 'de cor' Aibileen e Minny. Damos muitas risadas quando ouvimos as vozes das duas últimas. Elas contam com humor o dia a dia de suas patroas: o que fazem para pertencer à sociedade, o disfarce das menos afortunadas para se sentirem incluídas. Ao mesmo tempo, falam da segregação que existia (existe). Escolas de negros e brancos. Hospitais de brancos e negros. Lugares marcados nos ônibus. E para tornar tudo ainda mais difícil, o tal incentivo de uma das mulheres brancas para a construção de banheiros 
destinados exclusivamente às empregadas, na área externa da casa. Aí eu me pergunto? Isso ainda não existe? Banheiro social, banheiro de empregada... Elevadores separados, mesmo com aquela indicação clássica de que “ninguém pode ser discriminado no mesmo”? Ocorre que, ao contrário de lá, aqui não há prisão ou morte para quem burlar a regra, implícita, mas ainda sim regra.

Já a parte da Skeeter é mais serena e reservada. Embora ela tenha a tendência a apoiar os direitos civis, ela mantém as aparências na comunidade. Participa dos grupos de bridge, é editora do jornal da liga que cuida dos interesses locais, namora e vai a festas e jantares com as amigas. Mas sonha em ser escritora ou uma grande jornalista. E isso a leva, a partir da menção feita por Aibileen sobre seu filho, a querer escrever sobre as domésticas. Para tanto, vai contar com a ajuda da dupla. 


Claro que Martir Luther King é citado, assim como seu famoso discurso proferido em agosto de 63. Ri muito quando uma das doméstica diz que tem um cara na TV falando que ‘tem um sonho’. A morte de Kennedy, três meses depois, também aparece comovendo os personagens brancos. Não vou contar mais nada porque vale muito, muito mesmo, ler este livro.

Li durante os dias mais frios de maio deste ano, que coincidiram com minhas férias. Uma delícia, já que, na história, o verão do sul norte-americano fazia todos derreterem. Se eu tivesse lido num dia quente infernal do nosso verão, talvez tivesse desistido para não sentir ainda mais calor. Confesso que isso fez com que eu gostasse mais da história. Detalhes bobos que vão me fazer lembrar desses dias mais tarde.

A outra capa

quinta-feira, 28 de maio de 2015

a rosa da meia-noite


Idem ao post anterior. Mas aqui há algo diferente. Vamos à Índia, até as montanhas de Darjeeling. “A rosa da meia-noite”, de Lucinda Riley (sim, venho de uma maratona de seus livros), é lindo. Até sonhei com a história. Desta vez, foi interessante porque ela nos levou até os palácios dos marajás, das maranis e de toda a ostentação que os envolve. Mas, claro, em se tratando dessa autora, e por já conhecer as etapas de seus romances, desencontros, injustiças e muito melodrama são mais que previsíveis.

O livro começa com os pensamentos da indiana Anahita Chavan, que acaba de completar 100 anos em 2000. Ela aguarda os convidados para a festa que lhe foi preparada: sua filha, netos, bisnetos e todos os agregados. Contudo, a única coisa que realmente poderia lhe fazer feliz seria encontrar o filho dado como morto ainda criança, isso há 80 anos. Mesmo tendo em mãos sua certidão de óbito, ela não acredita que ele tenha morrido, já que não ‘sentiu’ o momento em que ele se foi. Para o resto da família, tudo não passa de uma desculpa que encontrou para superar o fato. Ainda assim, ela escolhe o bisneto mais velho como aquele que vai terminar o que não conseguiu, ou seja, encontrar o filho. É quando entra em cena o indiano boa pinta Ari. Empresário de sucesso da área de TI (rá, nada criativo, hein?), ele é ganancioso e pouco se importa com o diário que a bisavó lhe entrega, contanto cada detalhe de sua vida. Ele só vai se debruçar sobre os papeis dez anos depois. E a história o leva a uma grande propriedade nos confins da Inglaterra. 

Em paralelo, acompanhamos as ida e vindas de Raquel, atriz super badalada de Hollywood que insiste em manter-se como simples e humilde. Cansada do noivo que é o estereótipo de alguém-em-busca-da-fama-custe-o-que-custar, ela viaja para a Inglaterra para estrelar uma grande produção da década de vinte. Enfim, tudo isso faz com que ela conheça a história de Anahita, Ari e um estranho lorde inglês. De todos os livros que li de Riley, este tornou-se o meu favorito, mesmo já sabendo a sequência de tragédias que ela preparou. Contudo, aqui e ali temos algumas surpresas e até um toque de suspense. Boa leitura para as férias, quando tudo o que você quer fazer é descansar. Foi o que fiz.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

a luz através da janela

Não tenho muito a dizer sobre “A luz através da janela”, de Lucinda Riley, além do que eu já disse sobre os demais livros da autora que eu li. O enredo é sempre o mesmo. Neste caso, Emilie é francesa, tem cerca de trinta anos e acabou de perder a mãe. Após o funeral, ela se vê diante do dilema de manter ou não o château da família na bela Provence, já que não aceita muito bem o fato de ser rica. Enquanto pensa no que vai fazer, conhece pessoas que a levam ao passado, especificamente durante a segunda guerra mundial.
Daí conhecemos seus antepassados, os conflitos entre franceses e alemães, histórias de amor sem final feliz, crianças adotadas e espiões disfarçados. Ela também arruma pretendentes e conhece o interior inglês. Já disse e repito: o que vale para mim quando leio esses livros é curtir o exato momento da leitura. Junto com os personagens eu tomo chá, vinho, sinto o vento no rosto e até me imagino nos lugares pelos quais os personagens transitam.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

a garota do penhasco

A garota do penhasco”, de Lucinda Riley, é recheado de clichês e fatos previsíveis. No meio da leitura você pensa: ‘agora vai acontecer isso’ e suas expectativas não são frustradas. Eis o fato ali, nas próximas páginas. Também não traz novidades em relação ao livro anterior da autora que li, “A casa das orquídeas”. O enredo, aliás, é o mesmo. Saímos do presente para o passado e voltamos para fechar um ciclo de várias gerações, que em geral têm amores frustrados, nobres, muita grana envolvida, paisagens lindíssimas do interior inglês ou dos penhascos irlandeses e temperaturas amenas. Escolhi esta leitura para brindar o outono que chegou e deixou para trás o verão insuportável. É sempre gostoso ler algo que nos transporta para lugares que gostaríamos de estar. E eu sempre fui muito envolvida com as paisagens inglesas, escocesas e irlandesas. Poderia viver transitando por esses cenários. Como ler é viajar com a alma, é a alternativa que encontro no momento para me deslocar, o que não deixa de ser uma experiência agradável. 

Enfim,  começamos com Grania que acaba de terminar um relacionamento de muitos anos com Matt após ter um aborto. Isso faz com que ela deixe Manhattan e volte para sua terra natal, a Irlanda, especificamente na Baía de Dunworley. Pensando na vida ao caminhar pelos penhascos, ela encontra a garota do título, Aurora, que é a narradora da história. A partir daí, as duas ficarão muito ligadas, o que nos permitir conhecer a saga que une suas famílias. As mulheres mandam no livro: Mary, Anna, Kathleen, Grania e a própria Aurora. Os homens são apenas coadjuvantes. Chega a ser banal a participação deles ao longo da narração. Todos ‘parados’, esperando uma decisão feminina. Há passagens da primeira guerra mundial, bailarinas russas, criança viajando desacompanhada dos confins da Irlanda até Nova York, desencontros, mal entendidos, injustiças. Lá pelas tantas até pensei que uma das personagens iria pelo mesmo caminho de Sira Quiroga, protagonista do belo “O tempo entre costuras”, de María Dueñas. Mas não. Seu destino era outro, da mesma forma cheio de reviravoltas, mas menos glamoroso.

Alguns poderão achar o final é demasiadamente triste. Mas não vi assim. Considerei um bom desfecho, embora não tão surpreendente ou inimaginável. Daqueles livros que entretêm, mas que logo são esquecidos em seus detalhes. Fica, contudo, a boa sensação do momento em que o estivemos lendo. O que para mim vale. E muito. Tanto que já estou em outra história da mesma autora, desta vez na França. Vou lá preparar mais chá para me acompanhar ;-)

Veja a autora falando sobre o livro. Podemos ter uma ideia da paisagem. Linda, não?

Dunworley, na Irlanda, cenário do livro
















 
Trechos
 
“Estou na fase da vida que todos temem – a de preencher os dias com o passado, porque há pouco futuro pela frente.”

Tudo tem seu equilíbrio natural, e como saberíamos que somos felizes se não passássemos por algumas tristezas de vez em quando? Ou nos sentíssemos saudáveis se nunca ficássemos doentes.”

“Ora, bem, posso dizer que nunca pensei se gostava ou não das pessoas. Elas meio que existem, não é? A gente precisa conviver com elas, não acha?”

“E não tive um pingo de medo. As pessoas, muitas vezes, me perguntam por que dou a impressão de não ter medo.  Aparentemente, isso é o que impede tanta gente de fazer o que precisa fazer para a sua vida ficar melhor. Bem, eu realmente não tenho a resposta, mas, talvez, quando não se tem medo de fantasmas ou, na realidade, da própria morte, que é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano, não há muito mais coisas de que sentir medo.”

quarta-feira, 8 de abril de 2015

adorável heroína

Eu gosto muito de animais e condeno todo e qualquer maltrato. Sou contra a venda de animais de estimação. Aliás, sou contra a venda de qualquer animal, inclusive os que são usados como alimento ou roupa. Não vejo graça em ter passarinho preso dentro de casa com as asas cortadas, peixe em aquário ou hamster em gaiola. São apenas alguns exemplos de exploração que repudio. Para mim são pessoas mimadas que querem porque querem tal raça ou tal bicho. “Ah, eu quero um cachorrinho, vai me fazer companhia, mas tem que ser pequeno, tem que ser Lulu da Pomerânia, por exemplo”. Como a compra é fácil, logo satisfazem seus desejos. Mas daí enjoam, pois são frívolas, e descartam o ‘produto’, partindo para outros ‘sonhos de consumo’. Desta forma, aumentam a indústria responsável pelas altas taxas de animais abandonados e pelo abuso de cachorras que vivem em criadouros apenas para procriar. Mas o papo aqui é para falar de um livro e de outra relação do homem com os bichos, que também não deixa de se apoiar na ideia de que os animais existem para nos servir.

O cão criado para guiar o homem

O norte-americano Michael Hingson ficou cego ainda recém-nascido e, com a ajuda de sua cão-guia, conseguiu escapar das torres gêmeas durante o ataque de 2001. Ele conta sua história em “Minha adorável heroína”, escrito com a ajuda da jornalista e escritora Suzy Flory.
                                                     
Recebi a indicação deste livro com desconfiança. Não gosto de leituras que apelam para doenças ou deficiências. Por outro lado, literatura que traz animais e relatos sobre atentados me atraem. 

A introdução do autor já nos diz praticamente tudo o que vamos encontrar nas próximas páginas. A cegueira, o encontro com a fundação que treina cachorros, todos os animais que o acompanharam, o dia do atentado e a morte por eutanásia de Roselle, a cachorra heroína do título, dez anos depois. Na contracapa é dito que os dois ajudaram outras pessoas a saírem do prédio, o que não é verdade. Pela leitura que fiz, apenas acompanharam o fluxo.

Juntos, Michael e Roselle, desceram de escada 78 andares de uma das torres atingidas. Detalhadamente, ele conta o que fez antes de ir ao escritório em que trabalhava como gerente de vendas. Naquele dia, tinha uma apresentação agendada e, antes do estrondo, estava preparando os últimos ajustes, tendo cuidado, inclusive, do café que seria servido aos convidados.

A cachorra, como sempre, estava embaixo de sua mesa. Quando sentiram o baque, seu primeiro impulso foi, junto com o colega que estava com ele, desligar todos os computadores. Não sabia o que tinha acontecido, mas como algo indicava que a coisa poderia ser séria, eles se encaminharam rapidamente para a saída de emergência. Roselle acompanhou o dono, como sempre, concentrada em sua atividade.

O onze de setembro é apenas uma passagem do livro, embora seja o fato que deu notoriedade mundial a Michael, tanto que depois correu o mundo contando sua experiência. No mais, ele fala como é ser cego, os preconceitos que sofreu (e ainda sofre), a irritação que sente toda vez que alguém pergunta como ele é capaz disso ou daquilo, a persistência dos pais em mantê-lo como uma criança ‘normal’, quando todos diziam que deveria frequentar escola especial, e como a decisão foi importante para sua formação e independência. Gaba-se de ter sido capaz de andar de bicicleta e até de dirigir. Em determinado momento pede ajuda para a fundação que criou para preservar a memória de Roselle. “Espero que as pessoas celebrem a memória Roselle fazendo doações à fundação e nos ajudando a realizar nosso trabalho”. Bom vendedor, afinal. 

Sorriso de um cão. Fonte: R7
Tem um capítulo escrito na voz de sua esposa, que é paralítica. Fiquei feliz por saber que o casal permaneceu com os cães-guia após eles se aposentarem. Não sei se exatamente com todos, pois não fica claro no texto. De qualquer forma, era minha preocupação logo que comecei a leitura. Já me deparei com descasos, como os que levaram cães ao asilo criado no Japão. Louvo a iniciativa de quem criou o abrigo, mas e os antigos donos? Provavelmente os viam apenas como ferramenta de locomoção. Nenhuma justificativa, que não seja a morte ou a completa incapacidade física ou mental da pessoa, vai me convencer do contrário. Aliás, tenho cá minhas dúvidas se todos os cegos que utilizam cães-guia os tratam com o devido respeito. 

Enfim, a narrativa é bem repetitiva e com desnecessário final motivacional. Tomara que a instituição que criou não pense nos cães somente como guias, mas que veja neles um ser vivo que também merece ter escolhas.

“Estou triste, obviamente, porque sentirei muita falta dela, mais do que dos meus outros cães-guia.”


Só quem tem animais de estimação (termo que remete ao especismo), sabe o amor incondicional que eles têm pelos humanos com quem convivem. Penso, contudo, que algumas dessas pessoas, mesmo tendo eles por perto, não sabem nada disso. Será que é tão difícil ignorar o olhar de um animal? Você vai ver que há muito mais sentimentos lá do que em vários homens e mulheres por aí.

Tenho cachorros. Nunca os comprei. Sempre foram encontrados pelo caminho. De qualquer forma, quando defendi minha dissertação que trazia este tema, a professora na banca questionou “não é cruel manter o animal com as patas no cimento, confinados em espaço pequeno”. “Sim, é cruel. Mas mais cruel seria deixá-los nos rua”, é o meu primeiro pensamento. Claro que ela tem razão. E toda vez que saio de casa e deixo o Billy sozinho, essa provocação me vem à cabeça. Por outro lado, não consigo imaginá-lo na rua. Assim como não vejo como ‘devolver à natureza’, como dizem, animais mantidos toda a vida em cativeiro, como os de zoológico, circos e tantos outros que são retirados ainda pequenos de seus habitats para satisfazer o ser humano. #FICAAREFLEXÃO

domingo, 5 de abril de 2015

ele está de volta

Terminei a leitura de "Ele está de volta", do alemão Timur Vermes, sem entender o objetivo do livro. Se era uma sátira de Hitler, se era para ser engraçado, se era uma crítica à sociedade massificada, se era para mostrar que Hitler tinha lá suas razões ou se não era nada disso. Chato. Leitura arrastada. Sem explicação, Hitler acorda em 2011 num terreno baldio em Berlim. Desnorteado, vai parar numa banca de jornal e se atualiza sobre as últimas décadas. 

Claro que todos acham cômico o cara vestido como o Führer. Tanto que não demora para ele ser confundido com um humorista e ganhar seu próprio programa na TV. Tem lá suas passagens engraçadas, quando ele descobre o computador, a eficácia do Wikipedia, o Youtube e a TV. "Vi um cozinheiro picando legumes. Inacreditável! Haviam desenvolvido uma tecnologia tão avançada e a utilizavam para supervisionar um cozinheiro ridículo", dispara ao ver um dos milhares de programas gastronômicos. O celular, para ele, é receptor popular. E as mulheres que recolhem as fezes dos cachorros nas ruas são desequilibradas. Essas partes redem boas risadas. Mas é só. O livro é extremamente entediante quando Hitler se põe a divagar sobre os planos para retomar o poder. Enquanto a produtora de TV pensa ter encontrado seu grande astro, ele segue achando que tudo é parte da estratégia para a reconstrução do Reich. Todos atordoados, afinal, sem se dar conta dos reais motivos e fins de suas atitudes. 

se você me chamar eu largo tudo... mas por favor me chame

Está aí um livro que dá para passar sem. Tenho evitado compras por impulso, mas não resisti a este título inusitado do espanhol Albert Espinosa. Embora seja um romance, logo no começo vejo sinais de autoajuda, gênero do qual costumo fugir. Como já o tinha adquirido, sigo lendo os capítulos "A solidão de quem não tem ninguém esperando por si", "Às vezes um casal arrasta tantas coisas que nem o amor é suficiente" e "Demonstrar emoções que não se sentem é algo rentável neste mundo" (deste até que gostei). E assim sucessivamente. Resumindo, conta a história de um filho de anões que não ficou anão. É um gigante como a mãe queria. Na infância sofreu bullying por causa de suas origens. Apanhou muito. Para tornar tudo ainda mais difícil, os pais morrem e ele fica com o irmão mais velho, que também não o tolera. Foge de casa e encontra uma pessoa que vai encorajá-lo a prosseguir sua jornada. O livro começa com a recapitulação dessas e outras passagens de sua vida depois que a mulher o abandona. No mesmo momento em que ela arruma as malas, ele recebe a ligação de um pai cujo filho desapareceu. Como essa é sua profissão, encontrar crianças desaparecidas, ele vai para mais uma missão. E tchan, tchan, tchan, tchan. Cai direto no lugar que o salvou no passado. Fim. Por favor, não chamem este livro.

sejamos todos feministas

Acabei de ler interessante crônica de Verissimo que diz "O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso, os homens têm mamilos, e não sabem o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente inversa à do seu principal mito da criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas um desmentido do fato, e do feito, como uma apropriação masculina de um feito feminino."

E li isso justamente quando estava me preparando para escrever algo sobre o texto "Sejamos todos feministas", da escritora argelina Chimamanda Ngozi Adichie. Trata-se, na verdade, da transcrição do discurso que ela fez na conferência anual sobre a África, TEDxEuston, em 2012. Eu adquiri o ebook gratuitamente na loja do Kobo, mas vi esta semana a versão impressa na livraria. 

Chimamanda espera quebrar os estereótipos em torno do feminismo, que transformam as feministas em mulheres que não querem se casar, não são vaidosas e vivem infelizes agarradas a seus ideais. “Decidi me tornar uma feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”, diz ao ser a todo momento encorajada a desistir daquilo em que acredita. Para tanto, ela nos conta experiências pessoais, sobretudo as que viveu, e ainda vive, em seu país de origem, a Argélia, na qual uma mulher não pode ser vista sozinha nas ruas. Hoje ela mora nos Estados Unidos, mas isso não significa que esteja imune ao machismo. Ele está presente em toda a cultura ocidental. E não é diferente aqui no Brasil. Se por acaso você acha que as mulheres têm direitos iguais, pare e pense, qual a sua opinião sobre uma mulher que aos 40 anos ainda não se casou. Pronto. Não precisa fingir. É apenas reflexo da cultura em que fomos criados.

Isso foi apenas um exemplo, dentre inúmeros outros que poderia citar. Mas opiniões radicais existem em todas as esferas. Já vi algumas feministas que chegam a endossar estereótipos, como os citados acima. "Não devemos os usar saltos", ouvi uma vez. Assim como também já estive em uma sala em que um homem resolveu debater o assunto e foi convidado a se calar. "Somente uma mulher pode ser feminista. Homem não sente o que sentimos, o que o desabilita a defender a causa", disseram da plateia. Não aceitam, enfim, que "we should all be feminists".

Gosto quando Chimamanda comenta o mal que o machismo faz também aos meninos, quando os obrigam a ter comportamentos que reforçam o conceito de que homem tem que ser forte. Mais do ler o ensaio, veja a palestra dela. De maneira simples, elegante e simpática, ela nos conquista. Até mesmo a popstar Beyocé já se aproveitou de trechos para um hit.