terça-feira, 26 de dezembro de 2017

a irmã da pérola




“Sonhava com as noites frias e enevoadas de casa.”

E lá fui eu de mais um livro de Lucinda Riley. Foi o que menos gostei. O que aprecio em seu texto é justamente o ambiente frio e acolhedor. A névoa das paisagens que ela descreve e o friozinho que me faz sentir, mesmo que em pensamento. O que foi impossível com “A irmã da pérola”, quarto volume da série “As sete irmãs”. Nele, temos a história de Ceci. Já a achava meio sem graça antes. Conhecer seu ponto de vista só aumentou minha aversão pela personagem. Para piorar, ela vai para o lugar mais quente da Austrália. Até agora estou sentindo calor.

Essa série fala de seis irmãs suíças que são adotadas por Pa Salt, homem misterioso até mesmo para elas. Embora tenha sido próximo das filhas, ninguém sabe o que faz e como conquistou sua fortuna. Quando morre, deixa uma pista para cada uma delas dizendo de onde vieram. A primeira foi adotada no Rio de Janeiro (outro lugar quente, mas parte dos fatos acontecem na França). A segunda veio da Noruega. A terceira, do interior inglês. Em posse de suas coordenadas, todas partem para descobrir suas origens. A sétima é uma incógnita. Não faz (ainda) parte do time. Vale comentar que todas levam nome de estrelas da Constelação das Plêiades.

Ceci, a quarta irmã, vai para os recantos australianos. Lá descobre que tem sangue aborígene e nos seus ancestrais descobre o amor pela a arte, o que justifica suas próprias aptidões. Não me convenci nem um pouco. Ceci era grudada em Estrela, a terceira irmã. Quando esta parte para a Inglaterra em busca de seu passado, fica completamente desorientada. Proximidade que fazia mal a ambas. A separação permite que Ceci entre em contato com outras pessoas e que encontre outro motivo para viver. Antes de partir para a Austrália, faz uma parada na Indonésia e acaba se envolvendo com um fugitivo. Caso totalmente desnecessário no contexto. Ai, Lucinda! Andou pisando na bola. Na Austrália, ela se depara com relatos sobre seus antepassados: Kitty McBride e os gêmeos Drummond e Andrew. Ela veio da fria Escócia, e a todo momento parece sentir falta do frescor de seu país.
“Enquanto escrevia uma carta para a família, quase podia sentir o ar nebuloso e gelado, e visualizar a enorme árvore de Natal na Princess Street, enfeitada com minúsculas luzes que balançavam e dançavam com a brisa”. Eles vieram da Alemanha. Todos em busca de oportunidades no novo mundo. Kitty veio como dama de companhia da tia dos irmãos, já muito bem estabelecidos e donos de vários negócios, dentre eles o de pérolas. Até que foi gostoso acompanhar a história deles. Mas isso não chegou a salvar o livro. Com exceção de um trecho ou outro, fiquei bem decepcionada. Uma pena.

Trechos


“Kitty voltou ao convés, fascinada com o gado que ainda estava sendo desembarcado. Os animais pareciam magros e desnorteados enquanto desciam aos tropeços pela prancha. – Tão longe dos campos verdes e frescos de casa – sussurrou para si mesma.”

“Tudo está planejado antes mesmo de respirarmos pela primeira vez.”

“Então pensei que não era nunca dos grandes momentos que eu me lembrava; eram sempre as pequenas coisas, escolhidas aleatoriamente por alguma alquimia estranha, que ficavam no meu álbum de fotografias mental.”

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

a lista dos meus desejos


Jocelyne está com quase cinquenta anos. Tem dois filhos e é casada com Jocelyn. Havia uma chance em um milhão de ela se casar com alguém que tinha a versão masculina do seu nome. E isso aconteceu. Temos, assim, o casal Jo e Jo no romance “A lista dos meus desejos”, do francês Grégoire Delacourt. A vida do casal é simples. Eu diria que morna. Sem sal. Mas vão tocando. Ela é uma pessoa com baixa autoestima. Se acha feia e sem atrativos. Tem um armarinho e, contrariando todas suas expectativas, fica famosa nas redes sociais com um blog sobre tricôs, o “dedosdeouro”. Outra vez uma chance em um milhão do sucesso ter acontecido. É cercada por bons amigos, entre eles duas irmãs gêmeas que estão sempre apostando a sorte na loteria. Por influência delas, Jocelyne acaba jogando uma única vez. E ganha! A partir daí tem que lidar com o dilema que surge: como trocar seus dias tranquilos pelas mudanças que o dinheiro pode trazer? Pensa nos filhos. O rapaz ambicioso. A filha mais ligada em artes e movimentos sociais. Pensa no marido e nos poucos e bons momentos que têm juntos. Enquanto isso, os dias passam e ela não desconta o cheque de dezoito milhões deu euros. Até que é surpreendida por algo que vai machucá-la profundamente. E que vai nos dar muita raiva. Leitura previsível que vai tentar nos dar uma lição de moral. Bem ou mal, até que gostei. Será que eu também hesitaria em sacar o dinheiro? Hmm, sei não ;-)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

anexos



Anexos, da norte-americana Rainbow Rowell, foi escrito em 2011, mas se passa entre 1999 e 2000. Pega justamente a época do bug do milênio. Quem se lembra? Y2K, problema previsto para acontecer em todos os sistemas informatizados do mundo. Isso mobilizou praticamente todos os profissionais de TI. No fim, nada aconteceu. O enredo é bem interessante, apesar de bobo. Isso mesmo, não nos deixa nenhuma reflexão. Não ‘agrega valor’, como as ‘pessoas de negócios’ gostam de dizer (aliás, odeio este termo, apenas o citei aqui para reforçar todo o desprezo que tenho por ele. Rá!). Enfim, ainda sim, a leitura é divertida. Principalmente pelo formato do livro. Boa parte são trocas de e-mails entre duas amigas, Beth e Jeniffer, que trabalham na redação de um jornal. Elas são hilárias. Tudo começa com a presença no útero que uma delas diz estar sentindo. Apenas para exemplificar o nível das conversas, aspectos do dia a dia contatos com bom humor. E todo o bate-papo é acompanhado por Lincoln, o rapaz da segurança da informação. Toda empresa tem o seu Lincoln. Eles são responsáveis por vigiar os e-mails e garantir que nenhuma mensagem com teor proibido circule pelo ambiente empresarial. E lá está ele trabalhando durante a madrugada, período mais propício para exercer sua atividade, quando se depara com as mensagens das duas. Todas contendo as palavras da lista negra. O que ele faz? Nada. Fica curioso para saber os desfechos das histórias e não manda o sinal de alerta que deveria ter mandado. O interesse vai aumentando cada vez mais até que, quando percebe, está apaixonado por uma delas. O mais engraçado é que ele passa a ser assunto das discussões das duas. Final bonitinho, esperado. Sessão da tarde. Leitura rápida, ideal para uma ponte aérea, por exemplo.


“O prédio não fica completamente vazio, disse ele. Tem gente trabalhando na redação.

Você conversa com eles?

Não, leio seus e-mails.”

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

chá de sumiço


“Não é a situação ideal. Mas precisamos fazer
o melhor com as coisas que temos.”

E eis que leio mais um livro da irlandesa Marian Keyes, minha escritora chick-lit preferida. Mais um da hilária família Walsh. Os livros dessa autora são divertidos, nos deixam de bom humor e são ótimos para os momentos em que estamos para baixo. Eu costumo recomendar “Melancia”, o primeiro dela que li, para quem sofre de dores de amor. Aqui temos Helen Walsh, a caçula. Como nas histórias de todas as outras irmãs, a sua não começa muito bem. Detetive particular sem nenhum trabalho, acabou de perder o apartamento e teve que voltar para a casa dos pais. Tem um namorado lindo, mas com três filhos - um que a odeia - e uma ex-mulher que está sempre por perto. No meio de tudo, surge seu ex-namorado, com quem teve um caso mal resolvido, e lhe oferece um caso: investigar o sumiço de um cantor de um banda que fez sucesso no passado e que está prestes a fazer um show nostálgico. Como o cara sumiu, os outros membros estão desesperados porque essa é a única chance que eles têm para resolver seus próprios problemas pessoais. Helen aceita, mas durante suas investigações têm que lidar com uma crise de depressão. Em muitos momentos, tudo o que ela quer é sumir do mapa também. Guardada as devidas proporções, alguns trechos me lembraram “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath. A mesma angústia da personagem lá, aqui estão reproduzidas. Claro que com o toque de humor peculiar à Marian. Chorei de rir com as divagações da nossa heroína narradora. A autora aproveita para ironizar, e ridicularizar, as bandas adolescentes. Do sucesso no passado para a decadência de seus integrantes no presente. Mesmo desengonçados e fora de forma, tentando fazer os passinhos ensaiados e usando as roupinhas que os destacaram. Fiquei imaginado como estão hoje os ‘meninos’ de bandas como New Kids on The Block, Menudos, Backstreet Boys. Pensando bem, não me interessa. Por outro lado, quero muito ler os outros livros da família Walsh. Sem contar, que dá para viajar para Irlanda com essas leituras :-)

“Há sempre um fundo de verdade em tudo o que as pessoas dizem, mesmo que elas não saibam disso.”

“Vou ter todo o tempo do mundo para cozinhar depois de morrer” (esta frase me representa)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

nossas noites


"Resolvi que não vou ficar preocupado
com o que as pessoas pensam."


Terminei de "Nossas noites", de Kent Haruf já faz um tempo. Mas só agora consegui escrever sobre ele. É lindo. Leitura fofa que traz o amor na velhice. Addie tem 70 anos e um dia vai até a casa de seu vizinho, Louis, que tem a mesma idade, com um convite: "o que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?" O velhinho, que não é tão velhinho assim, se assusta com a ousadia da mulher. Ela se adianta e diz que não é nada sobre sexo e tal. Apenas sente-se sozinha. “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?”

Louis fica tenso. Nem sabe direito o que dizer da proposta da vizinha que, embora conheça há anos, quase não teve contato.

Addie vai embora dizendo que as portas estarão abertas caso ele aceite. A noite chega e, ainda em transe, ele se arruma, separa uma muda de roupa e vai. “Cortou as unhas das mãos e dos pés e, quando escureceu, saiu pela porta dos fundos e foi caminhando pela viela atrás das casas, carregando um saco de papel com seu pijama e sua escova de dentes.”

A partir daí acompanhamos a rotina do casal recém formado. Eles fazem coisas simples, como andar pela cidade, ir ao mercado. Vez ou outra vão ao teatro ou fazem uma viagem rápida até a cidade mais próxima. E, principalmente, conversam. Falam sobre tudo. Sabe quando vemos alguma coisa interessante e queremos logo comentar com quem gostamos? Pois a relação entre eles permite ter esse alguém. Junta-se a eles o neto de seis anos de Addie. A esposa de seu filho saiu de casa e ele tem que deixar a criança com a avó para poder trabalhar. A narrativa é tão gostosa que é como se nós estivéssemos fazendo todos os passeios, piqueniques e tendo as mesmas pequenas aventuras. Mas, em paralelo, terão que lidar com preconceitos e críticas. Eu acreditava que o fim seria meio piegas, mas não. Mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer até que possamos ser, de fato, felizes. “É uma coisa nova, não é?, disse ela. Mas é um tipo bom de coisa nova, eu acho.”

A Netflix já anunciou o filme baseado no livro. Vejam o trailer. 

domingo, 18 de junho de 2017

a redoma de vidro




“Você nunca se decepciona quando não espera nada de alguém.”

O livro é narrado pela protagonista, Esther Greenwood. Ela tem dezenove anos e sofre de depressão. Só que ainda não sabe. Apesar de estudar em uma boa universidade e estar em Nova York para um estágio em uma famosa revista de moda, ela não vê sentido em praticamente nada. Tudo e todos a aborrece. Ao mesmo tempo ela é extremamente exigente com o trabalho e com os estudos. Ela teme o fracasso. Mas tanta cobrança a consome até que sucumbe. 


Na última semana em Nova York já dá fortes sinais de que não está bem. Após ser quase violentada durante uma das inúmeras festas que tem que ir, ela vai até o terraço do hotel em que está hospedada e joga pelos ares tudo o que tem, incluindo os vários presentes que ganhou da revista. Volta para casa apenas com uma sacola cheia de abacates.

Em casa, ela se tranca em sua redoma de vidro. A doença avança e ela é levada a um psiquiatra. Entre uma consulta e outra, ela vaga sem rumo por sua pequena cidade. Ela só quer dormir e nunca mais acordar. É fácil nos identificarmos com a protagonista. A narrativa é tão precisa que nos transporta para dentro de Esther. É como se nós estivéssemos passando pelas mesmas angústias. E a forma com que a doença se desenvolve é tão sutil que só nos damos conta quando o suicídio começa a ser a única solução. Antes disso, ela é apenas uma garota que não se conforma com as máscaras da sociedade. Alguém que não se encaixa ao modismo e que acredita que as pessoas são tolas e superficiais. Há algo, porém, que faz com que essa percepção, digamos não errada do mundo, seja insuportável a ponto de ela não conseguir lidar com mais ninguém.

Esse é o único romance de Sylvia Plath e é considerado autobiográfico. A poeta suicidou-se aos trinta anos, poucos meses após concluí-lo. Com certeza, deixou várias pistas que não foram interpretadas.
 

Trechos

“Resolvi tomar um banho quente de banheira. Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não cura, mas não conheço muitas delas. Sempre que fico triste pensando se um dia eu vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: ‘vou tomar um banho quente.’”

“La estava eu outra vez, construindo a fantasia glamourosa de um homem que se apaixonaria por mim no instante em que me visse, tudo isso baseada em praticamente nada.”

“Eu poderia ter chamado o serviço de quarto, mas aí teria que dar gorjeta ao funcionário, e eu nunca sabia quanto dar. Eu tivera experiência bastante desagradável tentando dar gorjeta a pessoas em Nova York.”

“Odeio dar dinheiro para as pessoas fazerem o que eu poderia estar fazendo com facilidade. Me deixa nervosa.”

“Comecei a enumerar as coisas que eu não sabia fazer.”

“O problema é que eu sempre fora inadequada, só não tinha pensado nisso ainda.”

“Era o dia seguinte de Natal e um céu cinza debruçava-se sobre nós, abarrotado de neve. Eu me sentia estufada, apática e desiludida, como sempre me sinto depois do Natal.”

“A mãe do bebê sorria sem parar, segurando aquele bebê nos braços como se fosse a primeira maravilha do mundo. Fiquei encarando a mãe e o bebê em busca de uma pista que explicasse sua satisfação mútua, mas, antes de ter chegado a alguma conclusão, o médico me mandou entrar.”

“Odeio falar para grupos de pessoas. Normalmente escolho uma pessoa e me foco nela, mas aí fico achando que os outros estão me encarando e se sentindo excluídos. Também odeio gente que pergunta como você está e, mesmo sabendo que você está na pior, espera que você responda ‘tudo bem’”.

“Não teria feito a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.”

quarta-feira, 3 de maio de 2017

uma semana de inverno


Que leitura mais agradável. Simplesmente devorei "Uma semana de inverno", de Maeve Binchy. Quando o comprei não sabia nada sobre ele nem sobre a autora. Foi o título, a partir de recomendação da loja virtual (olhe só como me conhecem) que me convenceu. Amo inverno e o aconchego que ele proporciona. Adoro sentir o vento gelado no rosto durante uma caminhada e ficar sob edredons com uma xícara de chá quente e um bom livro. Coincidentemente, exatamente na semana em que estava com ele, fez frio em São Paulo. Então, pude realmente entrar na história.

É um romance com cara de livro de contos e tramas que se cruzam. São 11 capítulos, cada um dedicado a um personagem. No primeiro, conhecemos Chick Starr. Muito jovem, ela saiu da costa oeste da Irlanda para seguir os passos de um norte-americano por quem se apaixonou. O que era para ser um conto de fadas torna-se pesadelo quando, dois meses depois, ele a abandona em Nova York. Com vergonha da família e amigos que pensam que ela está vivendo um grande amor, ela se isola e mente. Passa a escrever contando a boa vida que leva do outro lado do oceano. Tempos depois, passa a visitar sua cidade natal anualmente. Sempre mantendo sua versão fictícia dos fatos. Até o dia em que sua sobrinha pede para visitá-la, o que seria o fim das aparências. Após inventar outra grande mentira, ela retorna definitivamente para a Irlanda. É quando as coisas começam a funcionar e sua vida passa a ser verdadeira. Ela aceita o desafio de transformar um casarão antigo no topo do penhasco, a Casa da Pedra, em hotel. Começam os trabalhos para fazer tudo funcionar, mesmo quando todos acham a ideia maluca.

Os demais capítulos vão mostrar os 'funcionários' do hotel, os primeiros hóspedes e o caminho que percorreram até chegar ali. Sem que nenhum deles tivesse planejado tal destino. Conhecemos a divertida Srta. Queenie, a dona do casarão. Rigger, rapaz que auxilia na restauração da casa. Orla, a esperta sobrinha, que também vai dar uma mão para a tia na cozinha.

O primeiro grupo de hóspedes tem Winnie, que se vê obrigada a passar as férias com a provável futura sogra. John, um astro de cinema que resiste a assinar contrato com a TV. Henry e Nicola, casal de médicos que passaram uma temporada trabalhando em navios de cruzeiro. Anders, executivo sueco, herdeiro de uma grande empresa, que não combina com o mundo dos negócios. Os Wall, casal viciado em concursos de revistas e jornais. Srta. Nell Howe, diretora ranzinza de uma escola em Londres que acabou de se aposentar. Freda, bibliotecária que se apaixona perdidamente por um homem casado e que deixa de lado seus próprios interesses. Há ainda Gloria, gatinha adotada pelos habitantes da casa que transita por todos os lugares.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Ou seja, temos as impressões de cada um dos personagens sobre o hotel, seus hóspedes e localização, o que nos fará ler mais de uma vez o mesmo acontecimento, mas sob outra perspectiva. Como eu disse, cada capítulo fala sobre a vida inteira da pessoa (ou casal em dois casos). Tudo, porém, é contado de forma sucinta. A autora consegue colocar em apenas poucas linhas a retrospectiva de anos. Isso torna a leitura rápida e com gostinho de quero mais. Confesso que fiquei morrendo de vontade de me hospedar na Casa da Pedra, com seu café da manhã, seus itinerários para caminhadas, sua vista e, principalmente, hóspedes e funcionários que não vão lhe questionar ou julgar.


"Quando se age com boas maneiras,
os outros agem assim com você também."


Costa Oeste da Irlanda, cenário do livro

segunda-feira, 1 de maio de 2017

a irmã da sombra



Já estou com saudades dos personagens de "A irmã da sombra", terceiro livro da série "As sete irmãs", de Lucinda Riley.

Apenas para relembrar, são seis irmãs (a sétima ainda é um mistério) que foram adotadas em diversas partes do mundo. Seus nomes fazem referência à Constelação das Plêiades. O pai, que ninguém sabe ao certo de onde veio ou o que fazia, morre e deixa pistas a cada uma delas sobre suas origens biológicas. No primeiro livro, Maia desembarca no Brasil e acompanhamos a criação da estátua do Cristo Redentor entre 1922 e 1931. No segundo, Ally vai até a Noruega, com seus fiordes e seus grandes compositores.

O cenário desta vez foi o interior da Inglaterra. Foi delicioso acompanhar as aventuras de Estrela D'Apliése por esses lados. Tirando a ambientação, posso dizer que todos os livros de Lucinda Riley, não só os desta série, são idênticos. Mulheres que vão atrás de suas raízes por várias partes do mundo (Hmm teve um homem em "A Rosa da Meia-Noite").

Estrela é calada e está sempre à sombra de Ceci, a irmã que foi adotada quase que ao mesmo tempo que ela.

A pista que seu pai deixou a leva até uma livraria em Londres e ao seu excêntrico dono, Orlando, colecionador de livros raros. Formal ao extremo, ela se sente ao lado do Chapeleiro Maluco, de "Alice". Aos poucos, ela se envolve com sua família, basicamente uma prima, um sobrinho e um irmão bonitão, Mouse. Adivinhem? Por meio das histórias que eles contam, ela é transportada até 1910 e aos antepassados que podem ser sua família de sangue. Como eu já disse várias vezes, os livros de Lucinda são bons somente no momento em que os estamos lendo. Não nos fazem refletir. No máximo, nos fazem querer conhecer os lugares que descreve. No caso, fiquei morrendo de vontade de visitar a região de Lake District, na Inglaterra. Passatempo gostoso. Para relaxar e viajar.


Lake District, cenário de "A irmã da sombra"

sábado, 29 de abril de 2017

orgulho e preconceito

A versão que li. Com a capa do filme de 2005

"Sem pensar muito bem de homens ou do matrimônio,
o casamento sempre fora seu objetivo."

Eu estava na livraria esperando para ser atendida e, aleatoriamente, peguei um livro. Era uma edição de bolso de “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen. Eu tenho todos os seus livros, mas nunca os li. E olhe que até na casa dela eu já fui. Há treze anos, em abril de 2004. Era um bonito dia de primavera na Inglaterra. Lembro ainda hoje de ficar observando a mesinha em que ela escrevia. Saí de lá com duas de suas obras, que envelheceram na estante. Até o dia em que tive que ficar esperando na livraria. Bem, lá mesmo, em pé, comecei a ler o romance. Ri muito logo no começo. Voltei para casa e imediatamente baixei a versão para o e-reader. Na atual fase da minha vida, é mais fácil ler com esses dispositivos. Enfim, intercalei a leitura do meu original, em inglês, com a tradução muito mal feita que estava disponível gratuitamente na Amazon.

Minha edição em inglês
Este é o segundo romance da autora, escrito entre 1796 e 1797, quando ela tinha apenas 21 anos, mas só foi publicado em 1813. Seu título inicial era “Primeiras impressões”, mudado por conta de outros livros com o mesmo nome, mas que resume bem o seu conteúdo. Há várias menções sobre os erros que cometemos ao avaliar a pessoa a partir de um primeiro encontro. 

A história se passa na Inglaterra do século XVIII e descreve a sociedade rural do período de regência britânica. Tem final bem previsível, mas o que vale é a forma com que é contada. Tudo sob o ponto de vista de Elizabeth, a segunda de cinco filhas de um casal que vive no campo, próximo a Londres. Logo nas primeiras linhas vemos o desespero da mãe que tenta casar suas meninas. E um grande partido acaba de chegar na vizinhança. A mulher fica toda empolgada e implora ao marido que vá se apresentar, já com o intuito de transformá-lo em genro. Este trecho é hilário. Depois de lê-lo você não vai resistir. O rapaz, Mr. Bingley, chega com duas irmãs e um amigo, Mr. Darcy. A partir daí, tudo gira em torno de dias ociosos das moças, bailes e diálogos sobre relacionamentos amorosos. Divagações sobre o interesse ou não dos rapazes nelas. Enfim, algo atemporal se pensarmos bem. A diferença é que naquela época a comunicação era mais difícil. Levava alguns dias até terem a resposta para suas dúvidas por meio de cartas ou mensageiros. Jane nos apresenta a uma sociedade burguesa que só pensa em casar. Este é o objetivo de todas as diversões que as pessoas têm: bailes, viagens, passeios, apresentações à corte. O engraçado (ou não considerando que isso acontecia naquela época) é que bastavam algumas horas para se decidir quem seria o cônjuge. Claro que cabia à mulher o papel de esperar o pedido. Grande angústia que a autora, ironicamente, faz questão de ressaltar. Até Elizabeth, que tende a não concordar com os arranjos matrimoniais, tem lá suas expectativas com Mr. Darcy, relacionamento que vai da intolerância ao inesperado amor. Por causa de tanto papo fútil em torno de ‘ele me ama ou não’, a leitura torna-se maçante em alguns momentos. Mas superamos e encontramos até uma rebelde, a Kitty, irmã mais nova de Elizabeth. A única que não esperou por um pedido para ir atrás de quem desejava. Se acertou ou não, esse é o risco de ousar. Bem melhor que ficar em casa esperando um convite que pode nunca aparecer. Quero mais Jane Austen.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

para educar crianças feministas


Sou fã de Chimamanda. Este livro é a adaptação da carta que ela escreveu para uma amiga que lhe pediu sugestões para educar sua filha seguindo as premissas feministas. Bem, como ela mesma pode comprovar, é muito mais fácil dar sugestões para filhos dos outros do que aplicar as mesmas recomendações em suas próprias crianças. Mas gostei de sua abordagem. E devo dizer que concordo com absolutamente tudo o que escreveu. Abaixo, brevemente, suas 15 dicas. Por favor, leiam e divulguem este excelente livro.

1) "Seja uma pessoa completa." Não devemos nos culpar por não abandonar nosso trabalho e as demais coisas que gostamos de fazer por conta da maternidade. Continue sendo você e tudo ficará bem.

2) "Façam junto." Esta é uma máxima que sempre acreditei. Nada de dizer que o pai ajuda com o bebê. Ele tem tanta responsabilidade quanto a mãe. O mesmo vale para a casa. Por que devemos elogiar os homens que fazem tarefas domésticas como se fosse um favor?

3) "Ensine que papéis de gênero são totalmente absurdos." Nada de dizer: seja boazinha como uma menina. Ou menino não chora. Também não limite as brincadeiras e brinquedos às divisões que as lojas e sociedades costumam fazer. Carrinhos para menino. Bonecas para menina. Tudo isso pode impedir que surjam grandes engenheiras, por exemplo.

4) "Cuidado com o Feminismo Leve". Aquela ideia de que os homens são levemente superiores e devem tratar bem as mulheres. E que, por exemplo, uma esposa só alcança o sucesso porque o marido deixou.

5) "Ensine a ler". Ensine o gosto pela leitura, pelos livros. E se o seu exemplo não adiantar, dê recompensas para que a criança leia. O retorno será sempre satisfatório.

6) "Ensine-a a questionar a linguagem." Não use expressões que ensinam que a mulher é frágil, como princesa (que tem que esperar por um príncipe). Ou que são os meninos que protegem as meninas. Elas não precisam de proteção, mas de tratamento igual.

7) "Nunca fale do casamento como uma realização." Por se preocupar tanto em arrumar um marido, muitas mulheres deixam de fazer coisas que poderiam ser bem mais prazerosas. Ela também questiona o fato de as mulheres terem que assumir o sobrenome do marido. Por que não manter sua própria identidade?


8) "Ensine-a a não se preocupar em agradar." As meninas são sempre ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e fingidas. O que pode ser bem perigoso, principalmente no caso de um abuso. O importante é que elas sejam ensinadas a serem honestas e bondosas. E, principalmente, a defender o que é seu.

9) "Dê um senso de identidade." Aqui o conselho é para a filha da amiga crescer com o orgulho de ser uma Mulher Igbo. Ou seja, a abraçar o que sua cultura tem de mais bonito. A valorizar sua cor, seu cabelo, principalmente diante da mídia que sempre enfatiza as mulheres brancas.

10) "Esteja atenta às atividades e à aparência dela." A dica é: "incentive-a a praticar esportes. Ensine-lhe a ser ativa. Façam caminhadas juntas. Nadem. Corram. Joguem tênis. Futebol. Pingue-pongue. Todos os tipos de esporte." Também ressalta a importância de deixar que ela encontre seus próprios padrões de beleza e não permitir que ela associe beleza a dor e ao sacrifício.

11) "Ensine-a questionar o uso seletivo da biologia como "razão" para normas sociais em nossa cultura." Principalmente para que ela questione os ditos privilégios dos homens, como sua força física ou a promiscuidade.

12) "Converse com ela sobre sexo, e desde cedo." Pode ser constrangedor, mas é importante para que ela entende que o corpo é dela e que nunca deverá dizer sim para algo que não quer. Também é preciso dar abertura para que ela converse com você sobre o assunto.

13) "Romances irão acontecer, então dê apoio." Mostre que o amor é uma troca. Ela não deve apenas dar. Também tem que receber. Reforçe que ela deve ser independente, o que inclui a questão financeira, mesmo se for casada. "Ensine-lhe que NÃO é papel do homem prover."

14) "Ao lhe ensinar sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos." O que ela quer dizer é que há nos discurso sobre gêneros a ideia de que as mulheres são moralmente melhores do que os homens. O que não é verdade. "Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina." Da mesma forma, nem todos os homens são misóginos.

15) "Ensine-lhe sobre a diferença." Um dos ensinamentos mais importantes: "ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao ensinar-lhe sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado. Ela precisa entender que as pessoas percorrem caminhos diferentes no mundo e que esses caminhos, desde que não prejudiquem as outras pessoas, são válidos e ela deve respeitá-los. Ensine-lhe que não sabemos - não podemos saber - tudo sobre a vida. A religião e a ciência têm espaços para as coisas que não sabemos, e isso basta para nos reconciliarmos com esse fato."