quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

minha mocidade

Filho de um nobre inglês e de uma socialite norte-americana, Sir Winston Leonard Spencer Churchill, sempre que necessário, soube aproveitar os privilégios oferecidos pela influência dos pais. Assim como também não desperdiçou os ensinamentos que teve com sua ama, Mrs. Everest, pela qual nutria extrema afeição.

Seu maior prazer era a guerra. Durante a juventude foi a Cuba, serviu na Índia, esteve na campanha do Sudão, atuou na Guerra dos Bôeres e foi correspondente do Morning Post. Todas essas atribuições estão detalhadas em “Minha Mocidade”. Autobiográfico e mostrando sua infância e juventude, o livro data de 1930, quando Churchill já estava com 56 anos.

Pelo tom do texto, traduzido pelo jornalista Carlos Lacerda, percebemos que as batalhas eram naturais e dispensavam explicações, tanto que não explica o porquê desses conflitos. Da mesma forma, não tinha dúvidas do quanto a Inglaterra era importante para suas colônias, em especial a Índia. Dizia que os indianos, ainda que agradáveis, eram primitivos e precisavam ser governados pelos ingleses. Para o próprio bem da nação.

Aventureiro e ambicioso, encontrou a emoção que tanto ansiava na Guerra dos Bôeres: lutas decorrentes dos avanços do Reino Unido no sul da África, o que não agradou os descendentes de outros colonos, em especial os holandeses. Lá, foi feito prisioneiro e sua fuga teve grande repercussão. Pulou de trem, escondeu-se num poço, dormiu com ratos e chegou até a receber ajuda da parte neutra dos inimigos.

Independente das batalhas e de concordamos ou não com suas atitudes, nós aprendemos muito com ele e com sua apaixonante narrativa.

Conhecimento

Churchill, na infância, lia livros considerados acima de sua idade pelos professores. No entanto, era sempre o último da sala. Motivo: só se dedicava, de fato, ao que gostava ou queria. “Onde minha imaginação ou minha curiosidade não estavam engajadas, não queria ou não conseguia estudar”, afirma.

Tinha uma coleção de soldados em casa e, enquanto estava na escola, só conseguia pensar na linha de combate que poderia formar com eles. Estudou nos melhores colégios, mas nenhum parecia satisfazê-lo. Somente mais tarde, sentiria falta de professores capacitados.

E é na Índia que percebe que sua escolha pela carreira militar o colocava em desvantagem diante dos intelectuais. Por isso, dedicou o tempo livre que tinha entre os treinamentos de cavalaria pela manhã e as partidas noturnas de pólo – afinal, o clima na Índia era insuportavelmente quente para que se fizesse algo do meio-dia até o fim da tarde – para estudar e ler tudo sobre filosofia, história, economia, política. Lia de quatro a cinco horas por dia.

Da Inglaterra lhe eram enviados, pela mãe, livros e mais livros. Para quem se interessar, alguns deles:

  • Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
  • Cantos da Roma Antiga, de Macaulay
  • República, de Platão
  • A Origem das Espécies, de Charles Darwin
  • O Martírio do Homem, de Winwood Reade
  • Citações Familiares, de John Bartlett
Percorreu, ainda, Sócrates, Schopenhauer, Malthus, entre outros. Sobre sua educação, dizia: “eu a abordava com o espírito vazio e faminto; com um par de sólidas mandíbulas mastigava tudo o que caía ao meu alcance.”

Pontualidade britânica

Apesar de ser um bom inglês, tinha certa dificuldade em cumprir os horários. Fragilidade corrigida no palácio real. “No seu regimento não lhe ensinaram a ser pontual, Winston?”, chegou a ouvir do Príncipe de Gales. No livro, enfatiza que considera a falta de pontualidade um grave delito. Para isso, basta “suprimir um ou dois encontros para reajustar as horas marcadas.” Comportamento que, segundo ele, poucas pessoas estão dispostas a ter.

Há males que vêm para o bem

A infelicidade pode ser boa, pois é possível que esconda uma desgraça ainda maior. Parece clichê, mas é o que o futuro primeiro-ministro britânico nos diz ao comentar a relação da sorte com o azar.

Foi assim com a luxação no ombro que o acompanhou durante toda a vida. O incidente aconteceu no desembarque em Bombaim, em sua primeira visita à Índia. Num movimento brusco, agarrou-se numa argola para evitar a queda dentro do barco e deslocou ombro. Isso o impediu de praticar o pólo, seu esporte preferido, com a destreza que sempre o fez. Contudo, “nunca se sabe se o azar se transforma em sorte”, enfatiza ao comentar que, por causa das dores, teve que utilizar mais tarde, durante um combate, uma arma moderna no lugar de uma esperada espada, o que lhe salvou a vida durante embate com o inimigo.

Oratória não é dom, mas treino

Churchill é conhecido por discursos históricos. No entanto, sua primeira tentativa foi frustrada. Preparou uma longa e meticulosa exposição e quando chegou ao local combinado para que fosse proferida, encontrou apenas um ouvinte. Dobrou o papel e voltou para casa.

No entanto, não desanimou e dá algumas dicas:

  • Não ultrapasse o tempo que lhe foi dado.
  • Ensaie. Ensaie. Ensaie.
  • Não se apresse.
  • Não se perturbe.
  • Não explore as fraquezas do auditório.
  • Ensaie mais um pouco com alguns ouvintes cobaias.
“À medida que se desenrolavam as frases e as passagens que tão bem conhecia, tive a impressão de que a coisa ia naturalmente.”

Escritor

Além de político, militar e jornalista também foi um exímio escritor. Escreveu 43 livros, que podem ser conferidos no site do The Churchill Centre and Museum.

Algumas lições da época em que estava escrevendo “The River War”, sobre a Batalha de Omdurman, no Sudão:

  • Leia tudo o que puder sobre o assunto que redige.
  • Conheça vários outros estilos antes de definir o seu. “Eu adotara uma combinação dos estilos de Macaulay e de Gibbon: as bruscas antíteses do primeiro e as torneadas frases do segundo, acrescentando, de quando em vez, por minha conta, alguns trechos de meu próprio estilo.”
  • Preste atenção nos parágrafos. Cada um deve abranger um episódio e não pode deixar de se comunicar com os demais.
  • Já os capítulos devem ter o mesmo valor e tamanho. E cada um deles deve formar um todo.
  • Evite começar uma história com “quatro mil anos antes do Dilúvio”.
  • O “bom senso é a base para escrever bem.”
No mais, cuide bem do seu texto, pois ele pode ser seu companheiro a qualquer hora e para sempre. Não foi por acaso que ele recebeu, em 1953, o Prêmio Nobel de Literatura pela sua obra “A Segunda Guerra Mundial”.

Seja único

Em 1898 chegou aos seus ouvidos que havia outro escritor com o nome Winston Churchill. “Felizmente”, morava longe, nos EUA, mas gozava de grande prestígio. Para evitar confusões por conta do homônimo, partiu do nosso célebre autobiógrafo a iniciativa de contato e a informação que doravante adotaria o nome Winston Spencer Churchill para assinar suas publicações. Episódio narrado com bom-humor e que foi conduzido de modo extremamente perspicaz.

Reconhecimento

Muitos cavalos foram mortos nas batalhas das quais Churchill participou. Em uma delas, foi salvo por conta de uma carona no cavalo de um soldado batetor. Descreve que apesar de gravemente ferido, o cavalo continuava a se portar como um herói e rapidamente os tirou do alcance das balas que os rodeavam. Longe dos inimigos, o soldado - dono do cavalo - parecia inconsolável:

“- Meu cavalo, coitado do meu cavalo! Foi atingido por uma bala explosiva. Bandidos! Mas hão de pagar. Meu pobre cavalo!”

“- Não se preocupe por isso. Você me salvou a vida.”

“- Ah – lamentou ele – mas eu penso é no meu cavalo.”

O soldado recebeu a Medalha de Conduta Distinta pelo feito. Churchill, que anos mais tarde viria a ganhar a guerra contra Hitler, procurou reconhecer todos que lhe ajudaram quando ainda não era o ilustre político e estadista. Inclusive os cavalos, de alguma forma, com a menção. Com a lembrança.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

barsa: uma história

Aproveitei as férias para revisitar minha Enciclopédia Barsa. Ela foi meu objeto de consumo na infância. Sonhava com as possibilidades de pesquisa, estudo e conhecimento que suas páginas poderiam me proporcionar. Sem contar que, para mim, era sinônimo de status ter na estante da sala todos os seus 16 exemplares com capa vermelha.
O presente foi dado pelo meu pai numa Bienal de Livros em São Paulo. Fomos até o estande da Encyclopaedia Britannica do Brasil. Lá havia uma vendedora portuguesa, assim como ele. Talvez isso tenha facilitado a negociação. Afinal, não se tratava de algo barato. Tanto que nem acreditei quando disse que compraria a coleção. Saí da exposição saltitante e na expectativa da entrega dos livros.
E eles chegaram. Lindos, vermelhos e cheios de textos, imagens, mapas.
A minha edição é de 1990, quase 30 anos após a sua concepção, segundo informação dos editores. Na Wikipédia, a enciclopédia livre da Internet, encontro o significado de Barsa: junção dos sobrenomes da idealizadora do projeto, Dorita Barrett (Bar), e do seu marido, Alfredo de Almeida Sá (Sa). Mais de 250 especialistas foram envolvidos no projeto.
Valorizei muito o trabalho deles. Passei horas folheando suas páginas, pesquisando e me deliciando com o acesso fácil e rápido que tinha a milhares de verbetes: reino de Essex, Mikhail Mordkin, pontes continentais, entre outros que minha curiosidade encontrava no índice enciclopédico. Sem contar os trabalhos escolares que foram feitos a partir de seu conteúdo. 
Além da enciclopédia, o “kit” Barsa continha o Livro do Ano de 1990, dois livros “grandes” sobre ciência e mapas do mundo inteiro, cartas de boas-vindas, cartão de fidelidade, catálogo de pesquisa, selos e a promessa de uma relação duradoura por meio do ótimo Programa Britannica Society, “completo programa cultural de 10 anos”.
De fato, por 10 anos recebemos o Livro do Ano, espécie de retrospectiva aprofundada. Chegava sempre em abril e sem a necessidade de ser solicitado. Essa era a facilidade, pois não era gratuito e com ele vinha o boleto para pagamento. Caso não fosse de nosso interesse manter a coleção, bastava devolver o exemplar. Claro que nenhum foi devolvido.
Ressalto com certa nostalgia o Serviço de Pesquisas oferecido aos “subscritores”, como chamavam os clientes. Hoje, algo insensato se considerarmos os modernos sites de busca na Internet.
Uma cartela com 100 selos e um catálogo davam direito a 100 relatórios sobre os mais variados temas. Podiam ser escolhidos entre os 3.500 disponíveis. Desses, 2.500 em português e 1.000 em inglês. Tudo “inteiramente grátis”. Mas só era possível solicitar um por mês. Havia, ainda, um modelo de solicitação para tais relatórios. Lembro que tinha me programado para utilizar todos os selos. Contudo, não consegui ultrapassar os oito, o que ainda lamento.
Nos dez anos aos quais tive direito ao programa, pedi:
1.       Idade Média
2.       Egito
3.       Processamento de Imagens
4.       Arqueologia
5.       Basic English
6.       Big Bang
7.       Brasil
8.       Paz Romana
Não seguiam um padrão de diagramação. Alguns eram datilografados, outros eram cópias do que parecia ser outra enciclopédia, talvez a Britannica, quem sabe. As páginas eram grampeadas, dobradas ao meio, colocadas num envelope e enviadas ao “subscritor”. O serviço era rápido e, praticamente, só dependia do correio de ida e de volta. Simples assim.
Lembro que só ficou faltando uma coisa no “kit”, prometida pela vendedora durante a compra: um globo terrestre. Eu era fascinada por esse objeto, justamente um dos brindes para quem adquirisse os livros. Vinte e dois anos depois, ainda não o recebi. E toda vez que olhava a Barsa, meu pai dizia: “temos que cobrar o globo”.  “Cadê o globo, ora pois?”, pergunto, com um dos livros no colo. Pode ser que sempre esteve logo ali. Bem, vou dar mais uma folheada nessas páginas.

Minha Barsa

Catálogo do Serviço de Pesquisas e os selos
 
Relatórios do Serviço de Pesquisa e o cartão fidelidade, em nome do meu pai

06/01/2012: três dias depois da postagem do texto

Recebi o globo, afinal. Após ler o texto, a diretora de Marketing da Barsa cumpriu o acordo prometido pela representante que nos vendeu a enciclopédia há 22 anos (veja comentário abaixo). Essa não era a intenção inicial do meu relato. Ele foi feito apenas como homenagem à coleção e ao meu pai. Mas estou super feliz com o presente. Muito obrigada!

O globo tão aguardado

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

pequena abelha

La pelas tantas, Abelhinha olha pela janela do quarto e vê espaços vazios entre os quarteirões. Isso significa que Abuja, capital do seu país, a Nigéria, ainda estava em construção. Resolveu ir atrás de histórias que coubessem nesses quadrados intactos.

Não como as que imaginava ao ter que contar suas aventuras às meninas de sua aldeia, que fariam muitas perguntas sobre as manias estranhas das inglesas, e que ela não saberia como responder. Nem como as que fantasiava toda vez que entrava num ambiente novo. Estava sempre procurando um objeto com o qual poderia se matar, caso os homens aparecessem. Os homens que temia eram da indústria de petróleo. Ela tinha visto coisas que não poderia ver e teve que fugir para o Reino Unido. As moças mais velhas alertaram “para sobreviver, precisa ter boa aparência ou tem que falar direito.” Ela optou pelo inglês correto da rainha e acreditou que poderia dar certo.

Em seu próprio mundo, Sarah também tinha suas preocupações. As pautas da sua revista, as aventuras de seu Batman de quatro anos, a estufa a ser construída e os próprios dilemas de mulheres casadas, bem-sucedidas profissionalmente e que sempre pensam ter feito a escolha errada. Talvez precisasse de férias. De um tempo. E foi assim que tudo começou, pelo menos para ela.

Essas são as duas protagonistas de “Pequena Abelha”, de Chris Cleave. Mais um best-seller com data marcada para ir aos cinemas. Pena que descobri a atriz que interpretará Sarah antes mesmo do início da leitura. Assim não pude deixar minha imaginação viajar tanto quanto a de Abelhinha. Li o livro já visualizando a personagem. Essa informação está na capa, assim como várias críticas positivas e a promessa de uma história especial.

Sarah e Abelhinha se encontram e se reencontram. Ora na voz de uma, ora na de outra, ouvimos relatos que mostram que ninguém é tão bom assim e que todos precisam de ajuda. “Pequena Abelha” vale cada linha lida, inclusive pela denúncia, mesmo que leve, das regras nos centros de detenção de imigrantes ilegais. Pode ser que você tenha que voltar algumas páginas em certos momentos para ter certeza se os fatos são realmente coerentes ou se foi realmente aquilo que leu. O desfecho não chega a ser surpreendente, contudo não poderia ser melhor. Boa e fácil leitura para o início do ano.

“Você não é daqui.” “Mas, por favor, o que isso significa? O que significa ‘ser daqui’?”

Mesmo que você não tenha vontade de ler o livro, fica a dica: tome cuidado com os presentes que recebe. Eles poderão ficar em suas mãos por toda a vida. Último comentário: os editores brasileiros foram felizes ao não darem à nossa edição o título original, “The Other Hand”.




terça-feira, 13 de dezembro de 2011

bolinha preta

“Corre! Segura. Ele está fugindo!”

“Nossa! Ele pulou o portão!”

“Fugiu!”

E lá se foi o cachorrinho preto e todo peludo subindo a rua da sua casa. Atrás dele, minha mãe e eu correndo. O cachorro faz o que mais temíamos: atravessa a avenida. Carros para todos os lados. Ele para e parece ficar à espera das donas. Mas quando nos aproximamos, torna a disparar. “Gugu, volte aqui.” Eu tropeço, ralo o joelho na calçada, mas insisto na busca.  O cachorro resolve atravessar a avenida novamente, sem olhar para os lados. Faço o mesmo. Freada brusca. Buzinas e o ziguezague do cão fujão.  Até que: “peguei!”

Voltamos para casa com um monte de pelo nos braços. Seguro-o pela barriga, as quatro patas para frente, língua para fora. Tudo isso aconteceu numa manhã. Estava me preparando para ir ao trabalho, quando o cachorro escapou escalando o portão.

Bolinha preta
A partir daí, essa cena foi constante. Tudo começou em 1995, quando vi na rua o filhote bem pequeno e todo peludo. Parecia uma bolinha de pelúcia preta. Pelo tamanho, passou facilmente pelas grades do portão da residência em que estava. Quando desci do carro para resgatá-lo e chamar os proprietários, um homem se aproximou.

“Seu cachorro está fugindo”, eu disse.

“Na verdade, ele não é meu. Apareceu aqui e eu o deixei no meu quintal.”

“Ah, não é seu.”

“ Não. Você o quer?”

“Quero!”

Pronto. Peguei o cachorro e fui para casa.

“Mãe, venha cá.”

Ela se apaixonou.

“Coitadinho, parece o Boomer”, comentou referindo-se ao cão que ficou conosco por oito anos e que havia morrido um ano antes.

Gugu conhecendo a nova casa

Na casa já havia a Tuti, de apenas quatro anos. Chorão, passou a dormir dentro de casa, hábito que se perpetuou para sempre.

“Esse cachorro é de raça”, disse o pai. Claro que não era.

Ganhou um nome:  Goober. O apelido, Gugu, foi consequência. Além desse também acumulou o de Negão, como era chamado pelo meu irmão.

Suas fugas eram um transtorno. Tanto que o portão ganhou grades que o impediam de pulá-lo. O mesmo valeu para as janelas dos quartos.

Mas todos curtiam vê-lo assim tão serelepe. Confesso que até houve muitos incentivos de nossa parte.  Além de saltitar, descobrimos outra paixão do Gugu: a bolinha. Ele vibrava toda vez que ouvia uma bola de tênis batendo no chão. Podia estar onde estivesse que vinha correndo e se posicionava na posição de goleiro. Defendia muito bem. E também driblava que era uma beleza. Meu pai era o mais entusiasmado com essa habilidade canina. Várias bolinhas apareciam em casa e todas, sem exceção, eram “comidas” após os “jogos”.

Foi crescendo e os pelos também. Cobriam toda sua carinha. Não dava nem para ver os olhos. E eles foram ficando cada vez mais embaraçados. Tudo isso levou a uma solução: tosa. Voltou parecendo um rato recém-nascido. Horrível. Quando meu pai o viu, disse, olhando para o cachorro: “o que é isso? Esse não é o Gugu. Pode jogar fora agora.” Acho que ele entendeu, pois se escondeu sob a pia da cozinha, tremendo. “Tadinho”. Mas, como todo cachorro, não guardou mágoas. Nem da tosa, nem do comentário. Pouco depois já estava pulando, correndo, pegando a bolinha e procurando por bichos na parede. Sim, bichos.

Certa vez apareceu uma lagartixa na parede da sala, logo acima do sofá. Eu mostrei para ele: “Gugu, pega o bicho. Olha o bicho.” Ele latia desesperado, querendo, de fato, pegar o animal. Subiu no sofá e de lá deu um pulo tão alto e a engoliu viva. Ainda ouço a bronca que levei do meu irmão. Merecidamente. Pobre, lagartixa. Não era para ter tido esse fim. 

Sempre que queria vê-lo pulando de um sofá para outro, eu apontava para a parede, no ponto mais alto, e indicava que havia um bicho: “olha o bicho”. Apontava vários pontos diferentes. O cãozinho corria, latia, rosnava. Pulava em todos os cantos procurando o tal bicho, que na maioria das vezes não existia. Apenas um pouco de diversão. Para mim e para ele. E essa era apenas uma delas - ressalto que nunca mais engoliu lagartixa ou qualquer outro bicho vivo. Havia também o pega-pega. Imagine uma pessoa correndo de uma extremidade a outra da casa com o cachorro? Eu recomendo. Não há mau humor e estresse que resista.

Ele dormia na cama, ou melhor, nas camas. Durante a noite saltava da cama dos meus pais para a minha ou para a dos meus irmãos. E pedia sempre um travesseiro. Afinal, se os donos dormem apoiando a cabeça assim, por que com ele seria diferente? Também gostava de se acomodar nos nossos pés. Durante a noite, acordávamos com um peso nas pernas. Era meigo.

Negão e Fábio

E os passeios? Esses eram sagrados. Não podia ouvir o tilintar da corrente que saltava, ria (sim, os cães riem), e saia em direção à porta. Adorava passear. E quem o levava sempre ouvia a pergunta “Ele fez tudo?” Acredito que não preciso explicar este trecho.

Gugu sofria com os ouvidos, constantemente estavam machucados e exigiam cuidados especiais. Os muitos pelos eram prejudiciais e nem sempre estávamos tão atentos a isso. Além da tosa, os ouvidos o levaram por muitas vezes até o veterinário. Havia, inclusive, um ritual de limpeza coordenado pela minha irmã. Ele odiava os fogos de artifícios. Finais de campeonato de futebol e festas de fim de ano o irritavam. Escondia-se atrás do sofá, debaixo da cama e em qualquer outro lugar onde pudesse se sentir seguro. Quando ouvia “é gol”, saia correndo.

Minha mãe dizia que ele achava que era “gente”, pois subia na cadeira e, literalmente, sentava-se à mesa. Todavia era educado. Não pegava nada além do que lhe era servido. E sempre com delicadeza e prudência. Cheirava com cautela todos os alimentos antes de ingeri-los.

Os anos foram passando e a idade pesando. Cambaleava. Já não era tão ágil para subir nos móveis. Já havia desistido da cadeira. Até comprei um puff para fazer de escada para ele subir na cama. No começo ele gostou e se adaptou. Mas desistiu. Ganhou um colchão embaixo da cama, onde se refugiava. Tornou-se um velhinho que gostava de se esconder. Já não se incomodava com os gols e com a virada do ano.  Os problemas no ouvido resultaram na surdez quando ele tinha 13 anos. Em 2010, teve um AVC. Ficou mal, mas sobreviveu. Na lembrança, ligações perdidas da minha mãe quando ele foi levado de emergência para o veterinário. Contudo, um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando o vi bebendo água depois do incidente. Disse “o Gugu está melhor! Está bebendo água.” E ele ficou tão bem que na sequência estava brincando com a bolinha. Sem a mesma agilidade, mas com o mesmo amor.

De gravatinha no dia do meu aniversário, em 2010

Apesar de não ser nada tão grave, submeteu-se, pouco antes do AVC, a uma cirurgia para retirada de um tumor benigno nos testículos. Fuçando no meu celular antigo, vejo várias mensagens trocadas com minha irmã: “Vou deixar o Gugu no veterinário. Você o pega na volta?” “Esta semana o Gugu não pode tomar banho, só na outra.” “Tem que comprar um xampu especial para ele.”

Toda atenção era pouca: o cuidado para não molhar a orelha na hora do  banho. A preocupação em levá-lo para passear pelo menos uma vez ao dia. E, principalmente, o nervosismo constante por causa da rixa mortal que tinha com o Kiko, cão que chegou cinco anos depois dele. Não dizem que macho não briga com fêmea? Com ele era diferente. Chegou até a ter uma briga feia com a Tuti. Também tinha birra do Oliver, filhote dela, que era carinhoso e sensível. Mas eram briguinhas bobas. Já com o Kiko era extremamente agressivo. Tanto que os mantínhamos muito bem separados. Sufoco. Tensão. Não há outras palavras para definir o medo de os dois se atracarem até a morte. Felizmente, isso não aconteceu.

Comigo em uma das muitas festas de fim de ano

Porém, ficaram juntos no final. Por muitos dias os levávamos todos os dias para tomar soro. Na maca, de um lado o Goober. Do outro, o Kiko. A Renata, minha irmã, disse que viu ambos darem uma afastadinha. Velhos ranzinzas. Tudo foi feito, mas não aguentaram a idade e a doença. O Gugu se foi num dia, em casa, nos braços da minha mãe. O Kiko, três dias depois, no veterinário. O Carnaval foi silencioso em 2011. Restam as lembranças e a certeza de que ambos nos amaram muito. Saudade de vocês, brigões.

Ainda lembro-me do meu último passeio com o Gugu. Foi numa manhã de sexta-feira. O dia estava ensolarado e muito bonito. Demos uma volta devagar pela rua. Antes disso, ele havia me seguido por toda a casa. Será que queria me dizer algo?

“Vamos, Gugu, corra! Pegue a bolinha!”


Inesquecível





segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

espaço para leitura

Quem gosta de ler sabe o quanto é importante termos um espaço especial para as leituras e para guardar os livros.

Pode ser simples ou sofisticado. O importante é que seja confortável, aconchegante e, principalmente, que seja um motivo a mais para novas viagens literárias.

Separei cinco bibliotecas em casa com as quais me identifiquei. Fica a dica. Para vocês e para mim :-)



Simples e charmosa


Moderna. Mas eu trocaria a cadeira por uma confortável poltrona


Singela. Um cantinho só seu


Clara e espaçosa. Dá até para promover debates literários 


A campeã e minha favorita. Vista para um lindo jardim

terça-feira, 22 de novembro de 2011

parapan e para você

Primeira vez no México. A viagem parece cansativa. Não paro de olhar no painel à minha frente quantas horas faltam para chegar à Cidade do México. São 9.000 quilômetros a serem enfrentados e superados numa minúscula e desconfortável poltrona. Eu penso assim. E assim devem pensar todos os companheiros de jornada. Aliás, centenas deles, que passaram tristemente pela ala dos afortunados da classe executiva. E assim vamos, tentando quebrar essa barreira rumo ao Parapan de Guadalajara.

Reclamamos. Dormimos. E almejamos logo o destino final, que ainda tem mais uma etapa a ser superada: conexão no aeroporto da Cidade do México. Até montanha russa entre um terminal e outro pegamos. Além de elevadores, esteiras, escadas rolantes, corredores. Tudo com malas e uma grande caixa nas mãos. Afinal, por lá não se pode circular com o carrinho de aeroporto que tanto nos auxilia. Lamentamos e pensamos: se é difícil para nós, como será para os nossos atletas, cuja mobilidade muitas vezes, ou sempre, é comprometida?

Chegamos exaustos. Pudera: 15 horas de viagem. Mais uma vez, lembramos dos atletas. E eles, o que fazem enquanto reclamamos de uma dor no pescoço, no ombro ou na perna? Treinam. Treinam. Treinam. E ganham medalhas. Ouro. Prata. Bronze. Há muito tempo deixaram de lamentar por terem nascido cegos, incompletos ou por terem enfrentado algum acidente que deixou sequelas.

Enquanto chegávamos ao hotel e vislumbrávamos uma cama confortável, eles se jogavam na piscina. Calçavam o tênis. Tomavam uma garrafa de água e corriam. Corriam muito. Mais do que os quilômetros  que eu imaginei ter andado dentro do aeroporto do Distrito Federal mexicano.

Com atletas-guias, com ajuda de cadeiras de rodas ou muletas, eles não esperam, e nem querem ou precisam, de olhares de pena. Querem vencer, subir ao pódio e representar o país em que nasceram. Os nossos brasileiros nos Jogos Parapan Americanos fizeram isso muito bem. Ao todo, foram 81 medalhas de ouro, todas legítimas e frutos de muito trabalho, comprometimento e respeito.

Fiquei impressionada com o senso de direção dos meninos do futebol de cinco. Todos cegos e que sabem conduzir perfeitamente a bola. "E ainda fazem gol", como alguém comentou na arquibancada. Assisti a um jogo do Brasil contra o Uruguai e nunca vou me esquecer como a bola grudava nos pés do Jefferson que, conduzido apenas pelo sino que havia dentro dela e dos seus sexto e sétimo sentidos, a levava direto ao campo adversário driblando, inclusive, o goleiro que é “normal”, ou seja, que "enxerga", como também ouvi entre os torcedores.

É assim que tem que ser. Quando nos falta algo, ou parece faltar, a gente se adapta e vai embora. Que o diga a campeã Rosinha, que acumula vários ouros em campeonatos mundiais. Perdeu a perna esquerda num acidente de trânsito. O que parecia ser o fim, foi o começo de uma carreira. Como ela mesma enfatiza, “Deus olhou para mim e disse: vou tirar a perna dessa neguinha para ajudá-la”. Mesmo os céticos passam a acreditar nisso. Quando ganhamos algo com sacrifício, parece que a vitória é ainda mais especial. Ou não teríamos a comemoração eufórica da menina Marivana. “É minha primeira participação num evento assim. É minha primeira vez aqui”, não parava de repetir enquanto fazia poses para fotos com os mais novos fãs, que nem sequer se preocupavam ou observaram sua paralisia cerebral.

Diga-se com orgulho: nossos atletas são queridos. São humildes para comemorar com gosto a primeira conquista. Não hesitam em falar sobre as dificuldades. Uma das cenas que mais me tocou foi a comemoração do ouro por Thierb Siqueira, que não conseguia se segurar diante do pódio. Pulava. Gesticulava. Agradecia. Nossos atletas, quando circulavam pelos estádios, logo eram cercados pelos mexicanos que queriam fotos, autógrafos e mais fotos. Tornaram-se celebridades. Merecem cada aplauso recebido. Para nós, espectadores, fica a emoção de ver a bandeira brasileira sendo erguida ao ponto mais alto 81 vezes e ouvir nosso hino indo direto aos corações de quem ali estivesse. Como dizem os jornais mexicanos: somos a grande potência neste esporte. Mas, infelizmente, enquanto a imprensa estrangeira afirma isso, aqui temos breves notas e algumas imagens de relance. Talvez porque seja bonito mostrar pessoas com deficiência física e mental conquistando medalhas, títulos e reconhecimento. Meus caros, eles não querem compaixão. Querem a vitória. Se você estiver lá para curtir os bons lances e momentos, ótimo. Caso contrário, eles vão ganhar mesmo assim.

Para todos, ficam a lição e a dica: da próxima vez que sentirem dor nas costas por conta de uma longa viagem ou acharem o caminho para a conexão de voos muito sinuoso, não pensem em como os atletas vão percorrer o mesmo caminho, mas no que todos nós precisamos superar para conquistarmos nossas próprias medalhas, mesmo sendo tão “perfeitos”. Aparentemente.


Futebol de 5: Uruguai x Brasil

Rosinha no pódio

Com Marivana

Comemoração de Thierb Siqueira

81 vezes a bandeira brasileira no topo

Hasta la vista

Versão resumida do texto, publicada no Diário do Grande ABC em 27/11/2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

sorteio do livro “um dia”, de david nicholls

Um dia” conta a história de Emma e Dexter durante vinte anos. O enredo virou best-seller e acabou nas telas de cinema. A estreia do filme, aqui no Brasil, está prometida para 2 de dezembro. Enquanto isso, que tal concorrer a um exemplar do livro?

Para participar, basta clicar aqui e se cadastrar para o sorteio. O vencedor será conhecido no dia da estreia do filme.

Boa sorte.






Sorteio realizado em 02/12/2011. A vencedora é Analu Cestino

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ame o que é seu

Acabei de ler "Ame o que é seu", de Emily Giffin. Um romance sobre romance açucarado. Rápido e fácil de ler. Assim como deve ser todo chick-lit. Sou fã desse gênero desde "Melancia", de Marian Keyes. Dizem que toda leitura tem seu momento. Pode ser que se eu não estivesse passando por uma situação parecida com a da protagonista do livro, o efeito chick-lit não tivesse caído no meu gosto.
                                                                                                                          
Enfim, desde então não resisto a uma capa bonita e aos dilemas de mulheres tidas como modernas e independentes apresentados nesses best-sellers, como casar ou ser independente? Ter filhos ou angariar uma promoção no trabalho? Questões que eu já havia sugerido num texto sobre Comprometida, de Elizabeth Gilbert.

"Ame o que é seu" traz as inúmeras dúvidas femininas logo na contracapa: "Sempre que houver escolha, haverá dúvida." A fotógrafa Ellen está na casa dos trinta e tem o que a maioria das mulheres nesta idade sonha em ter: marido bonito, bem sucedido e apaixonado, apartamento descolado, reconhecimento profissional, uma amiga leal e a perspectiva de muitas coisas boas pela frente.

Só que um reencontro casual com um ex-grande amor, num cruzamento movimentado de Nova York, faz com que ela se pergunte se não estaria acomodada com a sua "situação". Ora, do que ela está reclamando? Por ter se casado e deixado outras preferências de lado? Ou por não ter tentando, mais uma vez, ficar com Leo, que a abandonou há oito anos e em quem não para de pensar após o fatídico esbarrão?

Ouvindo antigas trilhas sonoras e tomando um café com creme, ela relembra a intensidade do relacionamento que tinham e como terminou, sem ela entender direito o porquê. Relembra, ainda, a depressão após levar o fora e como conheceu Andy, o seu marido. Importante ressaltar: todo chick-lit traz a dor de ter sido abandonada e apresenta, seja de forma detalhada, como em Melancia, ou num rápido flashback, o ritual pós-rompimento: desleixo na aparência, baldes de sorvetes sempre à mão, vontade imensa de ficar trancada no quarto e, finalmente, um novo amor. Sabe aquela máxima “amor com amor se cura”? Pois ela se aplica perfeitamente a esses livros.

Seguem os dilemas de Ellen: atender ou não as ligações de Leo? Aceitar ou não as propostas de trabalho que ele oferece? Dizer ou não ao Andy o que está acontecendo? Mudar ou não para uma mansão em Atlanta, cidade natal do marido? Abandonar o que parecia ser uma vida perfeita? Tudo é questão de escolha. E tudo pode ser diferente dependendo da opção assinalada. Em determinados momentos, podemos ficar com raiva da garota que parece ter tirado a sorte grande e que está prestes a dispensá-la. Mas nada muito profundo, assim como também não é profunda a leitura. Bom passatempo para refletirmos de maneira fugaz sobre nossas próprias paranóias.

"A palavra acomodação ecoa na minha cabeça, ferindo o meu coração e me enchendo de incertezas. É uma palavra que venho evitando por meses, mesmo nos pensamentos mais íntimos. Mas de repente eu não posso mais evitá-la. De certa forma, ela é o cerne sombrio de toda a questão, o medo de ter me acostumado ao Andy. De que eu deveria ter resistido a esse tipo de amor. De que eu deveria ter acreditado que o Leo um dia voltaria para mim."



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

na pior em paris e londres

George Orwell, no fim da década de vinte, resolveu experimentar a pobreza européia. De sua aventura surgiu “Na Pior em Paris e Londres”. No melhor estilo do jornalismo literário, ele nos conta os pormenores de suas noites e dias convivendo com os amigos que vai conhecendo ao longo da jornada miserável.

Esqueçam as imagens dos pontos turísticos dessas cidades, aqui somos jogados para os porões sujos de restaurantes e quartos frios de albergues. Um dos meus trechos favoritos é quando o autor compara os restaurantes baratos com os chiques. No primeiro, o cozinheiro tira a comida da panela com uma colher e, sem muito trato, a despeja no prato. Já nos restaurantes sofisticados, a comida é cuidadosamente arrumada, cada alimento combinando com o outro e, sempre que preciso, o chef dá o toque final: lambe os dedos para, com eles, dar a ajeitadinha final. Tudo tem que ficar perfeito.

A penúria do autor e de seus companheiros também é gritante. Não são raras as ocasiões em que eles têm que vender, ou melhor, penhorar a própria roupa para garantir um pedaço de pão que servirá de jantar durante a semana. Apesar das brigas, havia cumplicidade quando a coisa apertava. Dividiam os casacos e as migalhas. Com humor e certa indignação, o texto descreve as dificuldades dos moradores de rua, que não podem ficar mais que duas noites no mesmo albergue – hospedaria para os sem-tetos. Para piorar, quem fosse surpreendido dormindo na rua, seria preso. Que fique claro: a pessoa não podia deitar e dormir nas ruas e bancos. Mas podia sentar-se e “descansar”. É quando alguém teve a ideia de, por uns míseros centavos, estender um varal à frente dos bancos das praças. A pessoa sentava, apoiava os braços na corda e tirava poucos minutos de cochilo dos justos e injustiçados, antes que o suporte fosse brutalmente recolhido.

O mais próximo de trabalho digno que conseguiam era de lavador de pratos em hotéis e restaurantes, ou plongeur, como o autor descreve. Trabalhavam mais de quinze horas por dia. Ao fim do expediente só dava tempo para um rápido drinque, quando havia dinheiro sobrando, e um sono de menos de quatro horas. Logo, estavam de volta ao batente. Orwell chega a dizer que eles eram escravos modernos. Embora sejam assalariados, não eram mais livres do que se tivessem sido comprados e vendidos. Ainda assim, é o que os homens da rua almejavam, pois era a garantia de comida, cigarro e um teto – imundo, porém estável. Uma vez no emprego, logo se acomodavam e ligavam o piloto automático da função: lavar pratos, quebrar pratos, dar uma geral no chão, limpar o suor com o guardanapo, fingir que não vê a sujeira no chão, roubar leite e um pouco de comida, lavar mais pratos.

Sem se prender somente à sua experiência, o escritor jornalista recorre às memórias e aos relatos dos companheiros, como o artista de rua Bozo. Após ser soldado na França e na Índia, conseguiu um bom emprego em Paris como pintor de paredes e ficou noivo de uma garota por quem era apaixonado.  Entretanto, como tudo é trágico para essas pessoas desafortunadas, ela teve sua vida interrompida por um ônibus, que a esmagou. Assim, o pobre – literalmente – pintor ficou sozinho e desiludido. Buscou amparo nas bebidas e, entre uma embriaguês e outra, caiu de um andaime na obra em que trabalhava e teve o pé triturado. Sem emprego e com a insignificante indenização do empregador, passou a morar na rua e a sobreviver com as pinturas nas calçadas. Bozo traçava imagens com giz colorido, as pessoas olhavam, poucas davam moedas e, ao fim do expediente, ele apagava tudo e seguia em busca do próximo lugar para dormir. Era exceção. Não se importava com a pobreza e valorizava seu ofício. “Sou o que eles chamam de grafiteiro sério. Não desenho com giz em quadro-negro, como alguns por aí, uso cores apropriadas, as mesmas dos pintores. São caras para danar, especialmente os vermelhos.”

A higiene, por motivos óbvios, fica em segundo lugar. A relação com mulheres, que são poucas neste ambiente, também é rara e quase não chega a ser desejada. Quem nesta situação vai querer se deparar com uma mulher? E a vergonha e autoestima, afinal? Aliás, o orgulho está impregnado. O livro mostra como difícil, para os mendigos, manifestar gratidão.

O livro é instigante. Você quer saber como eles vão conseguir a próxima refeição. O que eles vão vender desta vez? Detalhe: o volume foi recusado por várias editoras e é o primeiro a trazer o pseudônimo George Orwell, cujo nome verdadeiro é Eric Arthur Blair. Orwell ficou conhecido por "1984", que traz a figura do Grande Irmão (Big Brother), e "Revolução dos Bichos". 

Ao que parece, ele superou o medo e repulsa que sentia pelos mendigos após tornar-se um deles. Talvez essas emoções sejam mais fáceis de serem contornadas que a indiferença e desinteresse, sentimentos que temos em relação aos nossos desabrigados e que fazem deles seres quase que invisíveis.

“A questão que levanto é por que essa vida continua, para que ela serve e quem quer que ela continue, e por quê.”