quinta-feira, 30 de agosto de 2018

metodologia da pesquisa em comunicação












Em "Metodologia na pesquisa em comunicação", texto extraído do "Dicionário da Comunicação" (imagem abaixo), os professores e pesquisadores Maria Immacolata Lopes e Richard Romancini discorrem sobre a epistemologia nos estudos sobre comunicação. Interesse relativamente novo, que surgiu na década de 90 e que traz uma reflexão sistemática sobre o conhecimento produzido no campo de comunicação.

A epistemologia é o estudo do conhecimento, seus fundamentos e princípios. Tem dimensão metafísica e valida o conhecimento produzido. E é justamente nesta validação que reside sua principal contribuição. Segundo os autores, toda pesquisa precisa ter um caráter prático, ou seja, precisa contribuir, de alguma forma, para a sociedade. Mais que buscar ‘status’, os estudos devem almejar os lucros epistêmicos. É imperativo indagar sobre a importância social do objeto a ser estudado, ou seja, o investigador precisa ter o compromisso com os problemas que precisam ser tratados. Isso depende muito mais de nossas filosofias e crenças do que da ciência. Para que o campo da comunicação avance, temos que fazer perguntas cada vez mais relacionadas com nossa existência social. 

Os autores questionam ainda a tensão entre tradição e mudança no campo científico. As práticas reflexivas atuais sobre a ciência dispõem sobre a relação entre o sujeito (investigador) e o objeto (investigado). Ao contrário dos estudos epistemológicos tradicionais, cuja atenção era a relação entre o objeto e o conhecimento.

Outro ponto a ser considerado na forma com que as pesquisas são feitas é a interdisciplinaridade. Estudar o mundo considerando que ele é uma realidade com inúmeras narrativas, e não segmentado por disciplinas, é a tarefa das ciências humanas. Além disso, a sociedade global exige que qualquer análise envolva necessariamente várias ciências. É o que vai dar conta de toda a realidade. Essa interação vai além das ciências exatas, humanas e sociais, passa também pela experiência comum, a intuição e a imaginação social. 

No século 19, o estudo sobre estado e o mercado, política, economia eram separados. Cada um com sua regra. Para lidar com a segregação, criaram-se novas designações interdisciplinares, como estudo da comunicação, ciência da administração, ciência do comportamento. Mas o que vem acontecendo, e que foi alvo de críticas, é que ao usar duas disciplinas, o pesquisador enfatiza a divisão e não a interdisciplinaridade. Aqui vale a ressalva que disciplina é a prática, e só se efetiva após longo trajeto de pesquisa. Diferente de doutrina, que é onde reside a teoria abstrata. Claro que há necessidade de especialização dentro de um campo de estudo, porém, há a necessidade maior de transdisplinarização ou pós-displinarização: superação dos limites entre especialidades fechadas e hierarquizadas. Para os autores, é preciso ter mais profundidade e consistência do que prestígio institucional. Em outras palavras, não cabe mais a máxima de que cada um deve se restringir ao seu campo de atuação.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

amor verdadeiro na livraria dos corações solitários



"Não é que eu seja tímida, não exatamente, ou que odeie as pessoas, porque não é isso. É mais que eu acho o mundo muito barulhento e cansativo."

"E tem as pessoas. Tantas pessoas, e todas elas falando sem parar, sem nem se preocupar se estão falando baixo.Tendo que expressar cada pensamento que lhes vem à cabeça. Não consigo nem sair para uma caminhada sossegada no parque sem ter alguém em volta gritando no celular, ou ouvindo música e imaginando que o resto do mundo também quer ouvir. Existe um limite para o que eu consigo aguentar!"


Ai, que delícia trabalhar em uma pequena livraria londrina, especializada em livros românticos e com uma casa de chá que deixa o ambiente ainda mais gostoso. Pois é exatamente assim a "Felizes Para Sempre", apresentada para nós na série "A livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling. O primeiro livro contou como o estabelecimento surgiu e a história de Posy Morland, a proprietária.

Agora, em "Amor verdadeiro na livraria dos corações solitários" temos a sequência sob o ponto de vista de outra personagem que trabalha lá, a introspectiva Veridity Love. Logo de cara, achei melhor que o livro anterior. Gostei muito de ler sobre esta moça, que não gosta muito de se relacionar com outras pessoas. Seu problema é o barulho que o mundo produz. Tudo o que ela quer no fim do dia é sossego e espaço para tomar um vinho em companhia somente de um bom livro. Convenhamos, isso não é pedir demais. Mas todos conspiram contra seus objetivos simples de vida. São tantas celebrações, encontros, festas. E, para piorar, a cobrança por um relacionamento amoroso. Para driblar tudo isso, ela inventa um namoro fictício com Peter Hardy, oceanógrafo que vive em alto mar e que sempre volta nos momentos mais oportunos, livrando-a de vários compromissos. Afinal, "precisam curtir o reencontro a dois". Entretanto, depois de certo tempo, os amigos querem conhecê-lo. Haja desculpas! Até que num ato de desespero, Verity acaba conhecendo Johnny. Ela, literalmente, se joga na mesa em que ele está jantando quando as amigas a seguem na tentativa de conhecer o tal cara misterioso.

Eis que ele tem exatamente o mesmo problema: pressão para que arrume uma namorada. A partir daí, tudo é previsível. Vale apenas como entretenimento. Aliás, da metade do livro para frente, eu me decepcionei. Achei muita enrolação para pouca aventura. Sem contar o final, extremamente meloso e piegas. Cadê o humor das primeiras páginas? Uma pena. De qualquer forma, não vou deixar de frequentar essa livraria. Já estou com o próximo tomo, que fala sobre Nina. É sempre bom ter um chick lit na mão para quebrar a tensão do dia a dia.

Trechos que também falam por mim ;-)


"Foi um dia cansativo e eu preciso de sossego."

"Tudo que ela queria era se sentar e ler um livro com uma taça, ou no máximo duas, de vinho tinto."

"Era sua poltrona de leitura. Sua poltrona-santuário. Sua poltrona de se-aconchegar-debaixo-de-um-cobertor-e-deixar-que-o-mundo-a-esquecesse."

segunda-feira, 9 de julho de 2018

a pequena livraria dos corações solitários





"Como era bom abrir um livro novo e inspirar aquele aroma delicioso.


Esta aí um chick-lit bem chick-lit. Bem ao estilo de Bridget Jones. Inclusive em várias passagens lembrei dessa personagem enquanto lia as peripécias de Posy Morland. Ambas desleixadas, atrapalhadas e muito engraçadas. Mesmo no meio da bagunça, conseguem com que tudo acabe dando certo no final. Posy cresceu dentro da livraria Bookends, em Londres. Lá conheceu seus escritores favoritos, aprendeu a amar a literatura e teve seu primeiro e único emprego. Seus pais já trabalhavam lá antes. O pai como administrador e a mãe cuidando do salão de chá. Mas um acidente de carro mata os dois, deixando Posy orfã e responsável por Sam, o irmão sete anos mais novo. Alguns anos depois, ela sofre outra perda, a de Lavínia, proprietária, por quem tinha um grande carinho. Antes de morrer, ela deixa uma carta na qual passa a livraria para Posy, com a condição de que ela devolva ao estabelecimento a glória que teve no passado.

Ela convoca os demais funcionários para juntos planejarem a reabertura em grande estilo: Nina, a garota tatuada e cheia de paqueras; Verity, a responsável pelas contas que odeia se relacionar com as pessoas; Tom, que trabalha em uma tese que todos desconhecem. Caso não tenha resultados positivos em até dois anos, ela deverá passar o local para as mãos de Sebastian Thorndyke, o neto de Lavínia. Rico, bem sucedido profissionalmente e conhecido como o homem mais grosso de Londres, ele fará de tudo para interferir nos trabalhos da equipe, inclusive dando ordens em todos. Posy ama a Bookends e quer transformá-la em "Felizes para sempre", especializada em livros que falam sobre o amor. Já Sebastian enxerga a oportunidade de se apropriar do nicho de policiais. A guerra está travada, com todos os clichês possíveis. O final não será nada, nada surpreendente. Ainda assim, a leitura é proveitosa. Afinal, quer tema mais gostoso que histórias dentro de uma pequena livraria em Londres? Os únicos pontos chatos (que eu quase pulei) eram os trechos do romance picante que Posy resolveu escrever para esfriar a cabeça. Que livro chato, menina! Desista. Hahaha!

No mais, fica a dica. "A pequena livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling, é o primeiro de uma série que promete contar a vida de todos os funcionários. A próxima é Veridity. Vi que também já saiu a edição de Nina. Vou seguir acompanhando e me divertindo com eles :-)

quinta-feira, 28 de junho de 2018

as brumas de avalon - a senhora da magia




"Sempre soube que tive outras vidas, pois parece-me que a vida é algo demasiado grande para ser vivido apenas uma vez e ser logo apagado como uma lâmpada, quando o vento sopra."

Toda vez que menciono que estou a ler "As Brumas de Avalon", ouço que é um livro fantástico, maravilhoso. A edição que tenho traz a história em quatro tomos. Levei meses para concluir a leitura do primeiro, o que significa que, para mim, a obra ainda não decolou. Para ser honesta, dei uma (leve) empolgada nos últimos capítulos, quando Artur foi coroado. 

Marion Zimmer Bradley nos conta a lenda do Rei Artur sob o ponto de vista das mulheres que o rodeava, isso inclui sua meia irmã, Morgana; sua mãe, Igraine; a tia e Senhora de Avalon, Viviane; dentre outras. Começamos com Igraine que muito nova foi tirada de Avalon, terra pagã, para se casar com um cristão, o Duque Gorlois da Cornualha. Com ele teve uma filha, Morgana. Sua vida é basicamente obedecer ao marido. A submissão a torna infeliz. Sua única válvula de escape é a filha. Até o dia em que encontra Uther Pendragon, e por ele se apaixona. Mas trata-se de um amor de outras épocas e outras vidas. Por ser de Avalon, ela tem certos poderes, como a visão. Consegue viajar pelo tempo e enxergar o que outros não veem.

A Bretanha está em guerra e são muitos os que querem dominá-la. De alguma forma, as mulheres que estão à frente de Avalon são as estrategistas dos conflitos, junto com Merlin, uma espécie de mago conselheiro. E uma das grandes estratégias é justamente preparar o grande rei que deverá assumir o trono. Tudo é meticulosamente planejado sem levar em conta sentimentos ou desejos dos envolvidos. 

Morgana tem grande destaque e é ela quem nos fala entre um capítulo e outro. Após a morte de seu pai, é enviada para Avalon para ser criada como uma sacerdotista. Acompanhamos todos os seus anseios, crenças e momentos de dúvida por conta das consequências que suas escolhas trouxeram.

Embora a proposta seja enaltecer o papel feminino, percebemos que ele ainda é muito restrito aos rituais pagãos e que as mulheres ficam sempre nos bastidores. No fim das contas o prestígio é sempre dos homens. Para eles, se dedicam, trabalham e sofrem. Mas na hora do vamos ver, são eles que são coroados e reverenciados. 

Vou continuar a leitura dos demais volumes até para ver o desfecho. Também pretendo ler livros que trazem outras versões dessa lenda, até para entender melhor algumas passagens, sobretudo no que diz respeito às batalhas que são travadas.

Embora o livro não tenha caído totalmente no meu gosto pessoal, tenho que reconhecer que o assunto e abordagem são extremamente interessantes. Ele é rico em detalhes e nos mostra muito sobre os rituais pagãos, ofuscados pelo cristianismo a partir da idade média. É um universo rígido, cheio de regras, mas bonito e livre de preconceitos. Mas o que mais me agradou no livro foi a neblina, as brumas que garantem o esconderijo de Avalon. Quero muito entrar nessa terra :-)

Espero que, a partir de agora, a leitura seja mais fluída.

Trechos

"Os cristãos procuraram acabar com toda a sabedoria que não fosse a sua, e na luta para conseguir isso, estão banindo do mundo todas as formas de mistério, exceto as que harmonizam com a sua fé religiosa. Consideraram heresia pensar que os homens têm mais de uma vida, o que qualquer camponês sabe ser verdade."

"Você foi injusto, e faz bem em pedir meu perdão, que só terá quando os infernos subirem, e a Terra baixar sob o oceano ocidental."

"O destino da mulher era ficar sentada em casa, no castelo ou na cabana - havia sido assim desde a chegada dos romanos."

"Com os animais, sempre se sabe exatamente o que pensam, ois não podem mentir, fingir ser aquilo que não são.

terça-feira, 12 de junho de 2018

a garota italiana




"Dei-me conta de que podemos amar alguém de todo o coração, mas isso não significa que essa pessoa nos faça bem."


Faz tempo que estava com "A garota italiana" em casa. Mas quando comecei a leitura, deslanchei, como sempre acontece com os livros de Lucinda Riley. 

Rosanna Menici escreve ao filho contando sua obsessiva história de amor. Não chega a ser um romance epistolar. Há apenas algumas cartas que se intercalam com os capítulos narrados ora sob o ponto de vista dela, ora de outros personagens. Ela nasceu em Nápoles e quando criança se sentia o patinho feio da família, principalmente quando comparada com a irmã, admirada por todos por sua beleza. Durante uma festa, quando tinha 11 anos, conhece Roberto Rossini. Com 28 anos, já era um famoso cantor de ópera. Na festa, Rosanna tem seu momento de fama quando pedem que ela cante Ave Maria. Sua voz encanta a todos, inclusive Roberto, que a indica a um renomado professor de música. É o começo de muitos sonhos e estudos. Os anos passam e ela se aperfeiçoa cada vez mais. Contudo, em determinado momento terá que escolher: cantar no teatro que sempre quis ou viver o grande amor da vida. Confesso que fiquei chateada com a escolha. Mas temos que lembrar que Lucinda trata do amor acima de tudo. Desta vez, traz um sentimento que cega e que distancia a pessoa de tudo mais, inclusive colocando a vida do filho em risco. 

Como já disse outras vezes, seus livros não trazem nenhuma reflexão profunda. São bons enquanto duram. Sempre com cenários calmos, tranquilidade. E é isso que me atrai. Dica: leia de barriga cheia. Porque aqui e ali surgem massas, risotos e bate uma fome. Tanto que li alguns capítulos durante as refeições e assim pude ter uma experiência sensorial. Adoro fazer isso e recomendo. Estão tomando chá na história? Faça um. Bebendo vinho? Pegue sua taça? Comendo macarronada? Faça seu próprio prato! Tudo fica mais agradável e nos sentimos no desenrolar dos fatos. Também ouvi algumas das operas que são citadas, como Madame Butterfly, de Puccini, com o mesmo propósito: entrar no livro

Mas tenho duas críticas. A primeira é em relação aos trechos machistas. A mulher de 45 é velha para o moço de 30 e poucos. Inclusive, chega-se a dizer que ela está longe da fertilidade e, por isso, não serve para ele. Absurdo. Ao passo que não há nenhum comentário negativo para o relacionamento do cara de 41 anos com a mocinha de 24. Não sei se essa foi a mensagem que a autora quis passar, refletindo o que se passa na sociedade ou se realmente escreveu por escrever, sem pensar. Infelizmente, não senti nada subliminar. Apenas preconceito mesmo. Lucinda, please! Outro ponto é na escrita. Talvez seja problema de tradução, mas encontrei alguns absurdos como um ‘bebê prematuro de cinco semanas’. Além das pessoas sempre ‘cerrarem o punho’ quando nervosas. Essa repetição enfraquece o texto.

No mais, foi gostoso passar alguns dias em Nápoles e no interior da Inglaterra com Rosanna, sua família e amigos. Última observação, não comprem o livro apenas pela capa, pois a da edição brasileira não tem nada a ver com a história ;-)

"O amor é uma espécie de vício. É preciso suportar um período de abstinência e não se punir por de vez em quando pensar que nunca vai passar."

"Se tem uma coisa que aprendi na vida, foi que ela não é um ensaio. Para nós, mulheres, é mais difícil. Se quisermos ser felizes, precisamos ser mais fortes que os homens."

segunda-feira, 4 de junho de 2018

o assassinato de roger ackroyd



"Mas o senhor pode imaginar por si mesmo, monsieur, que um homem possa trabalhar rumo a um certo objetivo, possa labutar e mourejar para alcançar certo tipo de lazer e ocupação, e afinal descobre que anseia pelos velhos dias ocupados e pela antiga ocupação que ele se acreditava tão feliz de deixar?"

Romance policial de Agatha Christie com seu famoso detetive belga, Hercule Poirot. Escrito em 1926, foi o primeiro grande sucesso da autora e é considerado uma de suas obras-primas. O final é incrível. Poirot desvenda o crime (quase que) perfeito: o assassinato do rico industrial Roger Ackroyd. Como em qualquer romance policial, há vários suspeitos, incluindo o pobre mordomo. Quando você terminar de ler, leia o livro novamente e verá que todas as pistas estavam lá. Bem na sua cara. Sua pergunta será: como eu não descobri o culpado antes?

O cenário é King's Abbott, pequena cidade do interior da Inglaterra. Nada acontece por lá e o passatempo de todos é a fofoca. Um dos principais alvos é Roger Ackroyd, o homem mais notório do lugar. Caroline Sheppard, irmã do prestigiado Dr. James Sheppard, que é o narrador da história, lidera o time dos fofoqueiros. Alguns eventos deixam a cidade ainda mais movimentada. Primeiro, o suicídio de Dorothy Ferrars, viúva muito jovem. Logo depois, o assassinato de Ackroyd em sua própria casa. Antes de morrer, ele disse ao Dr. Sheppard que estava noivo de Dorothy e que ela envenenara o marido. Alguém descobriu e a estava chantageando. Ackroyd não sabia quem era essa pessoa, mas a noiva lhe enviou uma carta contando tudo. Depois do assassinato a carta desaparece. 

Muitas pessoas são suspeitas. Começando com o mordomo, John Parker. Os outros são a Sra. Ackroyd, cunhada de Ackroyd; Flora Ackroyd, sobrinha e filha da Sra. Ackroyd; Ralph Paton, enteado de Ackroyd; Geoffrey Raymond, secretário; Elizabeth Russell, a governanta; Hector Blunt, caçador e amigo da vítima; e  Ursula Bourne, a copeira. 

E é aí que o detetive belga, Hercules Poirot, entra em cena. Ele acabou de se aposentar e  mudou para essa cidade. Mas a pedido da sobrinha de Ackroyd, aceita o trabalho. Como seu assistente, Hastings, está na Argentina, quem o ajudará nas investigações é o Dr. Sheppard, que tem informações sobre todos.

Poirot é muito observador e nada escapa aos seus olhos. Extremamente detalhista, diz que conversa com as cadeiras, mesas e todos os objetos da cena do crime. Porque são eles que sabem o que realmente aconteceu.

Esse foi o livro de Agatha Christie que mais me impressionou. Era minha escritora favorita na adolescência. Eu o li há mais de vinte anos e toda a história ainda estava bem viva em minha memória, principalmente o desfecho. Por conta de uma das tarefas do meu curso de francês, pela terceira vez, me debrucei sobre ele. E mais uma vez se mostrou fascinante. Claro que eu não tive a surpresa do final. Mesmo assim, fiquei envolvida com os suspeitos e o desenrolar de cada segredo descoberto. Os ingredientes são os mesmos de todos os romances da autora, mas é diversão certa.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

la petite fille de mounsieur linh





"Il ferme les yeux et s´endort en songeant 

aux parfums du pays natal"


Impossível não se emocionar com Monsieur Linh, personagem do título deste lindo romance do francês Philippe Claudel. A história é contada de forma tão singela, que nos sentimos dentro de seus pensamentos mais inocentes. Ele é um idoso que perdeu toda a família na guerra e que parte (talvez não de maneira voluntária) para outro continente. A viagem de navio dura dias e tudo o que ele tem é uma fotografia, um pouco da terra de seu país e sua neta recém-nascida, o que lhe mantém vivo e disposto a recomeçar.


Chegando ao destino, percebe a diferença em relação ao seu local de origem. O frio, o cheiro, o idioma. Tudo parece hostilizá-lo. Mas ele sempre pensa que precisa ser forte pela criança. Seu destino é um abrigo onde há outras famílias. Mesmo sendo compatriotas, eles riem de seu jeito de ser, calado, introspectivo. Não interage com ninguém a não ser com a netinha. Ele a resgatou durante a explosão que matou seu filho e sua nora. A garotinha estava deitada no chão, ilesa. E agora está sempre em seus braços, forma que encontra de protege-la. Sang Diu é seu nome e ela parece contribuir com o avô, pois está sempre tranquila e quieta. 

Sua solidão é aliviada quando encontra, em um banco de praça, o senhor Bark, que também sofre com a morte da esposa. A amizade surge imediatamente e é muito bonita de ser acompanhada. Bark fala o tempo inteiro. Linh apenas escuta e sorri. Apesar de não falarem o mesmo idioma, ambos se entendem. E muito bem.

Há alguns contratempos que vão separá-los. O final é surpreendente e diz muito sobre o que se passa com todos que se transformam em refugiados. Deixam de ser pessoas com suas vidas estabelecidas, rotinas, famílias para serem estranhos forçados a adaptar-se a regras que não têm sentido na situação em que se encontram. Como bem aparece no primeiro trecho do livro, são marionetes nas mãos daqueles que acreditam que estão fazendo um favor por tirá-los de uma zona de guerra em que perderam tudo. Será mesmo que o mundo deve ser assim tão dividido a ponto do que acontece lá não ser responsabilidade de quem está aqui?

Narrativa maravilhosa, poética e que deixa muitas reflexões. Detalhe para o título do livro que traz um trocadilho no original: petite-fille e petite fille ou neta e garotinha. Só no fim da história entendemos. Leiam.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

felicidade para humanos



“Quem já conseguiu alguma coisa obedecendo regras?” 

"Felicidade para humanos", do inglês P. Z. Reizin, é um chick-lit de ficção científica. Sabe aquela discussão de que as máquinas vão dominar o mundo. Ou que a criação vai dominar seu criador. Pois é mais ou menos isso que é tratado neste livro leve e engraçado. Os capítulos são intercalados por vários narradores, três dos quais são inteligências artificiais. Foram desenvolvidas para substituir humanos em algumas tarefas e ganharam o mundo por meio das nuvens. Elas conseguem ver tudo o que está acontecendo e passam a interferir na vida das pessoas que acompanham. Uma delas é Jen, jornalista que arrumou um emprego bem inusitado: conversar com Aiden, inteligência virtual criada para ser atendente de telemarketing. Como ele (ou ela, I.A. tem gênero?) irá interagir com as pessoas, precisa conhecer nossos macetes e daí a tarefa de Jen, bater papo sobre o dia a dia, música, literatura, cinema. Aiden, aliás, torna-se cinéfilo. Está a toda hora assistindo a um filme e participando de grupos de discussão na internet. Muito engraçado também é ver como esses seres leem livros. Algo assim, "peraí que vou dar uma lida em nos sete volumes de 'O tempo perdido', de Proust" e em menos de um décimo de segundo retornam com a leitura concluída. Tanto que Aiden diz já ter lido todos os livros do mundo. Isso me lembrou a forma como a Super Vicky (quem assistiu TV nos anos 80/90 vai lembrar) lia. Meu sonho de consumo. Enfim, voltando ao livro, Jen acaba de levar um fora do namorado e está completamente arrasada. Aiden, que consegue enxergá-la, literalmente, por meio de todos os dispositivos com câmera que ela tem, não aguenta tanto sofrimento e resolve dar uma ajudinha. Passa a usar seus algoritmos para lhe arranjar outro namorado. Ao mesmo tempo, faz da vida do ex um inferno. Do outro lado do mundo, ou da nuvem, está Aisling, outra I.A. que também tem seu humano de estimação, Tom, ex-publicitário divorciado que tenta escrever seu primeiro romance. Não é spoiler dizer que os dois serão conectados. Mas eis que surge Sinai, A.I. disposta a acabar com a brincadeira. O livro até tem algumas partes cansativas, mas é divertido. Morri de rir com esses programas que discutem se têm ou não sentimentos e até fazem terapia. E, no final, realmente acredito que não estamos longe de ter esse tipo de interação. Se é que já não temos. Oi! Há alguma A.I. me vigiando agora? ;-)

terça-feira, 1 de maio de 2018

história da menina perdida





“Onde está escrito que as 
vidas devem ter um sentido?”

E terminei a saga de Lenu e Lila, da série napolitana de Elena Ferrante. Poderia facilmente ter lido os quatro livros na sequência sem me entediar ou cansar. A leitura é empolgante. Desde o primeiro volume, quando conhecemos as duas ainda meninas, suas brincadeiras, brigas e sonhos até esse último, quando já estão bem mais velhas e as desilusões se sobressaem. Características delas lá atrás permanecem, sendo que algumas são fortalecidas com o passar do tempo. Lila sempre destemida e em busca de algo novo para se apaixonar. Lenu, mais adepta às rotinas do dia a dia, apesar de se jogar na fase adulta. E assim elas vivem suas aventuras, capítulo após capítulo. 


O título, “História da menina perdida”, pode tanto fazer referência à infância distante das duas como a um fato trágico que envolve o sumiço de uma criança. Minhas pernas ficaram moles enquanto lia e sentia o desespero da mãe. Ainda agora não gosto nem de imaginar tal situação.

Perto de completarem quarenta anos, elas voltam a ser vizinhas no bairro em que cresceram. Retomam a amizade que mistura admiração e inveja. São envolvidas nas disputas e confusões locais. Também engravidam ao mesmo tempo. Lenu do terceiro filho. Lila do segundo. 

Fiquei com raiva de Lenu, que abandona a serenidade que sempre teve para viver um grande amor de infância. O problema é que ela larga tudo, inclusive as duas filhas pequenas. Tento não julgar, mas é impossível. Aliás, que cafajeste ela arrumou. Lila, que foi parar no fundo do poço no livro anterior, dá a volta por cima e, no início dos anos 80, destaca-se no desenvolvimento de sistemas. Ao mesmo tempo, mostra-se cada vez mais equilibrada e disposta a ajudar a todos. Não fosse ela, Lenu estaria ainda mais perdida. 

Vale lembrar que todo o relato é sob o ponto de vista de Lenu, que escreve a história das duas na tentativa de descobrir o paradeiro de Lila, que desapareceu sem deixar um único pertence. Se o enigma é desvendado ou não, leiam e me digam. Só posso dizer que as pessoas sempre podem nos surpreender. Para o bem e para o mal.

Trechos 

"Era maravilhoso ultrapassar fronteiras, deixar-se ir a outras culturas adentro, descobrir a provisoriedade do que eu tinha tomado por definitivo." 

“- Acalme-a.
- Como?”
Sorriu: - Com mentiras. Mentiras são melhores que tranquilizantes.” 

"Há tempos eu já percebera que cada um organiza a memória como lhe convém, e ainda hoje me surpreendo ao fazer o mesmo." 

“Está querendo dizer que um desejo pode ser tão forte a ponto de parecer já realizado?”

“Se uma criatura de poucos anos morre, está morta, acabada, mais cedo ou mais tarde você se conforma com isso. Porém, se ela desaparece, se não se sabe mais nada a seu respeito, não há nada que reste no lugar dela, em nossa vida.”


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Amiga genial

uma loja em paris





"Nós, os homens, somos em geral seres que vivem paralisados pelo medo. Essa é a principal barreira que nos impede de ser felizes."

"Uma loja em Paris", do espanhol Màxim Huerta é bem difícil de engolir. A vida é cheia de coincidências. Vira e mexe tropeçamos em uma. Mas ter todas as coincidências do mundo em uma única história é demais.

Teresa é uma dondoca. Perdeu os pais cedo e foi criada pela tia, irmã gêmea da mãe. A relação entre elas é bem tensa, sobretudo porque Teresa não aceita o lado impositivo da tia, que quer lhe dar a melhor educação e que ela seja criada de acordo com seus princípios. Algo intolerante para uma garota de nove anos, que sofre a perda do amor materno. E assim ela cresce, amargurada, frustrada e sempre sentindo-se subjugada pela sua tutora. O problema é que ela não se mexe. Só reclama e vai levando a vida de forma letárgica. Pouco se interessa pelos negócios da família, apesar de usufruir, e muito bem, dos benefícios financeiros que eles trazem: mora bem, faz cursos, viaja, tem tudo que o dinheiro pode comprar. Poderíamos nos perguntar: por que essa moça é tão infeliz? Mas o ser humano não é tão facilmente classificado. E há muitos dilemas internos que quem está de fora não consegue entender. 

Independentemente de qualquer coisa, não gosto de Teresa. Ela não conquistou minha simpatia. Enfim, um belo dia, após mais um dia sem fazer nada, ela para em um antiquário e encontra algo que vai mudar seu destino. Trata-se de uma placa de uma loja parisiense. Ah! Teresa é espanhola e mora em Madrid. Ela se encanta e leva o objeto para casa. A partir daí coisas estranhas começam a acontecer, como sentir arrepios, ventos fortes, música tocando do nada. Parece que estamos diante do sobrenatural, mas não. Felizmente. Não que eu fuja deste tipo de história, mas não era exatamente o que buscava quando comprei o livro. O que eu queria era sentir Paris. Vivenciar um pouco essa cidade por meio da literatura. Simples assim. Voltando, essa placa tem o nome de uma mulher, Alice. Resultado: Teresa larga tudo e parte para a França em busca de seu rastro.

Chegando lá, como é rica, compra a tal loja da qual a placa fazia parte. Compra também um apartamento e passa a investigar essa misteriosa mulher, que parece estar em todas as partes. Os capítulos passam a ser intercalados entre os descobrimentos de Teresa e a vida de Alice, que viveu na década de 20. Aí, sim, senti Paris e tudo fica mais interessante. A parte de Alice, claro. Conhecemos bairros boêmios da cidade, bares, restaurantes, galerias, ruas. Enfim, a vida artística da época. Alguns personagens são verdadeiros, como Coco Chanel. E, segundo autora, muitos dos lugares também. Deu até vontade de conhecer alguns deles. Descubro que estive muito perto de tudo isso na minha última viagem. Ainda assim, tudo caminhou para um final fraco, fraco. Algumas coisas que acontecem, sem me preocupar com spoiler: Teresa tinha um namorado francês. Um dia ele some. Ela (como sempre) sofre. Na França, anos depois, quando está atrás de Alice, ela encontra um homem que vai ajudá-la na investigação. Este cara tem um filho. Adivinhem que é! E quem é a avó deste cara? Um doce para quem descobrir. Rá! Não aguentei. Sem contar que o texto é repleto de reticências. Tenho pavor desta pontuação usada de modo exagerado. Enfraquece qualquer narrativa. E quando ela já é fraca, piora tudo.