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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

no meio de indianos, brasileira eu não sou

Quietinha. Do jeito que mandaram ela ficar. Lá estava Mariana Botega no setor VIP do estádio Salt Lake, em Calcutá, Índia. Final do Torneio IFA Shield, no qual o Palmeiras enfrentaria uma equipe indiana. Nas mãos, uma dúzia de câmeras que traziam o recado "filma tudo". O que não imaginava é que registraria muito mais que uma partida de futebol. Estava a pouco mais de trinta minutos de uma confusão capaz de tirar Mahatma Gandhi do sério.

A aventura havia começado cinco meses antes. Inscrita num programa de estágio internacional, Mariana embarcou para a Índia. Com 22 anos, tinha acabado de concluir o curso de jornalismo. A oportunidade de trabalhar num país distante era um sonho do qual não abriria mão. E lá foi ela. Visto de estudante. Escala de um dia na África do Sul. E uma vaga de seis meses na ONG indiana Emmanuel Ministries Calcutta.

Ao chegar, o choque foi intenso. Comida. Roupa. Língua. Cultura. Mas nada que um jeitinho brasileiro não resolvesse. "Me infiltrei na cultura, na multidão". Após cinco meses longe de casa, quase não tinha contato com o Brasil. A exceção era a mãe, que ainda não acreditava que a filha estava na distante Índia. Já estava tropeçando no português quando uma amiga da Romênia, que trabalhava num hotel, disse:

- Tem um time de futebol do Brasil no hotel.

- Nossa! Que legal!

- É um tal de Polmero, Polmaro.

- Palmeiras?!?!

- Isso mesmo!

- Ai, meu Deus! Eu sou palmeirense. Não acredito! Meu time aqui!

- Já falei sobre você para eles...

Não precisou ouvir a frase toda. Quando se deu conta, já estava no lobby do hotel.  "Assim que cheguei vi uma galera e fui logo me apresentando. Conheci todo mundo. Fiquei amiga da comissão técnica, dos jogadores". O time era o Palmeiras-B, convidado a participar do Torneio IFA Shield, um dos mais tradicionais da Índia, e que já estava em sua 107ª edição. Após cumprir toda a tabela do campeonato, o "verdinho" estava na final.

"A equipe vai receber as boas vindas do governo de Calcutá", informaram. "Vamos?" "Claro!" No dia seguinte, Mariana voltou ao hotel, de onde sairia um ônibus levando a comitiva. Enquanto se dirigiam ao local do evento, a garota observava o movimento na rua. O veículo escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. E uma multidão acompanhando o trajeto. Estava fascinada.

Ao descer do ônibus, fechou os olhos diante dos flashes. Microfones. Imprensa. Gritos. Os palmeirenses distribuindo autógrafos. Poses para fotos. Acenos. Logo descobriu o quanto o futebol brasileiro é venerado no país que tem o críquete como principal esporte. Única mulher no meio dos jogadores, atraiu a atenção das pessoas. "Pensavam que eu era esposa ou namorada de um dos jogadores. Uma celebridade." Mãos empurravam papéis e canetas em sua direção. Queriam seu autógrafo também. "Gente, o que eu faço?" Alguém gritou, "escreve aí qualquer coisa". Agradecendo aos "fãs na maior cara-de-pau", pegou os papéis e registrou "Beijos, Mariana". Sempre sorrindo para as câmeras.

Por cinco dias a brasileira do interior de São Paulo fez parte do time. "Eles ficaram com pena de mim. Ali, sozinha". Então me convidavam para jantar. Hospedados no Hindusthan International, hotel cinco estrelas, os jogadores trouxeram um cozinheiro do Brasil. "Foi muito bom comer feijão depois de tanto tempo".

"Chegou o dia da grande final". O time adversário é o indiano East Bengal. "Você vai com a gente". Já estava pronta. Tinha, literalmente, vestido a camisa do time, presente que acabara de receber. Entrou no ônibus. Mais uma vez escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. Multidão. No estádio, foi conduzida para uma arquibancada, ainda vazia, que logo identificou como sendo a ala VIP. "Você fica sentadinha aqui", alertaram. Jogadores atiraram em suas mãos várias câmeras. "Vai filmando". Aos poucos, outras "celebridades" foram chegando. Jogadores da África do Sul, de Bangladesh e, para sua surpresa, um amigo. Indiano fanático pelo futebol canarinho que, não se sabe como, também conseguiu um convite VIP.

O jogo começa. "Eu filmava. Tirava foto. Um pouquinho em cada câmera. Meu amigo ajudava". No campo, os palmeirenses marcam o primeiro gol. O jogo continua. Falta cometida por um brasileiro. Ferve o sangue indiano. Os jogadores "se estranham". A pancadaria começa. Da arquibancada, uma assustada Mariana olha a cena sem entender o que esta acontecendo. "Não dava para acompanhar tudo. Só sei que o pessoal levantou do banco e começou a brigar também". Técnicos. Banda de música. Polícia. Todos no campo. Jogadores palmeirenses correm para não apanhar. A torcida grita. Agitada. Xingando. O jogo é interrompido. 36 minutos do primeiro tempo.

Uma das poucas mulheres no estádio, e branca, não demorou para que sua presença fosse notada. "Estava muito nervosa. Senti que eles viriam em minha direção". Sem pensar, ela segurou no braço de um rapaz que estava sentado ao seu lado. "Pelo amor de Deus, me ajude". O amigo indiano, com um ar irônico, alertou "esse cara é de um time de Bangladesh. Brigou com o Brasil na semana passada durante uma partida". Pronto. Pane total. Trêmula, ela assistia a torcida gritando cada vez mais alto. Centenas de homens com os olhos arregalados. As mãos dando murros no ar. "A única coisa que pensei foi em tirar a camiseta do Palmeiras". Os torcedores começaram a caminhar rumo à ala VIP. Gritavam em hindi. Suavam enfurecidos. "Nunca passei tanto medo". Os olhos de Mariana iam de um lado para o outro a procura de alguém do time. Ninguém. "Volta para o lugar de onde você veio! Volta para o lugar de onde você veio!", ouvia em inglês. "O que eu faço?", gaguejou para o amigo, que continuava filmando. Neste momento, a polícia aproximou-se. Foi, finalmente, conduzida por um corredor cercado de grades até o vestiário. E o amigo atrás. No meio da confusão, o técnico lembrou da menina que estava sozinha e pediu que a polícia fosse ao seu socorro. Ao vê-la escoltada, alguns indianos se desculparam "a gente pensou que você fosse brasileira". "Eu? Brasileira? Imagina!"

No vestiário viu os jogadores sangrando. Revoltados. Parecendo não se dar conta da confusão, o amigo indiano não parava de insistir "pega um autografo para mim". "Ah, eu não posso, não posso...", respondia uma fraca e pálida Mariana. Mesmo com várias lesões pelos corpos, o time ensaiou um pagode. Precisavam esperar até que o estádio estivesse vazio. Duas horas depois, quando estava tudo "limpo", saíram. De cabeça baixa. Em silêncio. Fila indiana até entrar no ônibus. Agachados durante o percurso até o hotel. Do lado de fora, um batalhão de homens garantia a segurança.

No hotel, um jantar aguardava a comitiva verde. Entre os convidados, autoridades locais e jogadores indianos. Todos já estavam recompostos e com roupas limpas. Menos a Mariana. Entre as "celebridades", era a única que ainda trazia no corpo e nas roupas o suor. A marca que selava a sua participação no Palmeiras-B.

O episódio repercutiu nos jornais de todo o mundo. No Brasil, os indianos foram apontados como culpados. Na Índia, os brasileiros como desordeiros. O fato é que ainda não há vencedor para o torneio. Os palmeirenses, por terem feito um gol durante a partida, se declararam campeões. Sem hesitar, compraram, ainda em Calcutá, uma taça que serviu para comemorar a vitória, irritando a imprensa indiana. Já o comitê organizador do torneio deu o título ao East Bengal, desclassificando o Palmeiras por ter começado a briga. O caso está com a FIFA.

Três anos depois, Mariana recorda o episódio com um suspiro. Os olhos brilham e divagam ao lembrar das cenas relatadas. "Os indianos são assim mesmo. Quando provocados, ficam nervosos. Mas é um povo fascinante". Ela quer voltar. "Morro de saudades", diz com o olhar perdido. Talvez no Ganges. Talvez no Salt Lake.

Texto escrito em 2004.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

um festim para o amor

Um elogio ao amor. Esta foi a proposta para "O Banquete" relatado por Platão três séculos antes de Cristo. Um diálogo entre Aristodemo, Ágaton, Sócrates e outros filósofos gregos. Neste debate, é consenso de que "Amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens." Se até para os grandes pensadores não existe "maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do que o seu bem-amado", o que dizer dos sonhadores aqui na Terra? Que no meio de expectativas, frustrações e conquistas efêmeras aguardam o par perfeito.

Dentro deste público, que crê no Amor (assim mesmo, com A maiúsculo) e ainda espera por um príncipe encantado, está Roberta Maria Fabbri.

Fé. Esta é a palavra que define a paulistana de 28 anos. Pele clara, olhos verdes, cabelos louros ondulados até o ombro e nariz preponderante caracterizam a nossa personagem. Roberta também é, quase sempre, uma mulher de poucas palavras.  Expressão calma assinalada com um sorriso velado e desconfiado. A voz suave ganha força com pausas precisas, no compasso dos olhos. Cerra as pálpebras e movimenta o globo ocular antes de pronunciar algo importante. Uma característica explícita: não age sem pensar.

A vaidade é disfarçada pela simplicidade. Constantemente adota o jeans e uma blusa em tom pastel para compor seu visual. São raras as ousadias. Exceção para os sete furos na orelha, e mais recentemente ao piercing no dente canino, do qual orgulha-se: "É azul claro, minha cor preferida." É a típica menina de família. Não são raros os momentos em que entra no carro com os pais e o irmão, onze anos mais novo, para almoços, passeios e visitas aos parentes mais próximos. Católica praticante, ela pode ser facilmente encontrada aos domingos, a partir das dezoito horas, na Paróquia São João Batista, no bairro Itaim Paulista, em São Paulo. Amiga das beatas, dos padres e seminaristas, seus aniversários são sempre acompanhados de uma oração ligada pelo terço.

No entanto, a aparência tranqüila esconde uma mulher decidida, que não gosta de perder tempo. Não hesita em tomar todas as iniciativas quando está diante do que quer. Ou melhor, do que desperta o coração. Neste momento, ela se revela uma outra pessoa.

Capaz de arriscar. Explodir. É quando escolhe a arma mais poderosa e parte para a guerra. Sem escudo ou armadura. Pois o importante é ser vista e, quem sabe, atingida.

Mas o que é o amor para a jovem que tem na religião e na família a base de seus valores? "É tudo. Se não tiver amor na vida você não é nada", afirma ela. "É também sacrifício. Um fazendo a vontade do outro."

Roberta acredita convictamente que há uma pessoa em algum lugar do planeta que é a sua outra metade. "A gente só não se cruzou ainda." Espera pelo príncipe encantado. "Ele vai aparecer do nada. Quando eu menos esperar", declara. E se o destino tardar, "a gente dá um empurrãozinho. Apronta algumas." Por amor, ela já estrelou várias cenas dignas de novela.

Uma das mais inusitadas começou no restaurante da tia, no Shopping Internacional de Guarulhos, em São Paulo. No caixa, ela viu um rapaz que atraiu sua atenção. Passou a ir ao local com mais freqüência. Contudo, faltava oportunidade para um primeiro contato. Sem saber nem mesmo o nome dele, recorreu a uma amiga "mais extrovertida". O telefone do estabelecimento era o único arsenal. Mas foi suficiente para o plano. A amiga ligou para o garoto e disse ser uma admiradora secreta. Descobriu nome, estado civil e aguçou a curiosidade do alvo. Depois de um mês de telefonemas foi marcado um encontro. Às escuras. Para ele, é claro, que esperava encontrar uma pessoa para depois descobrir que ela era outra. Confuso? Não mais que os pensamentos de Roberta. "Eu ficava imaginando o que falaria. Ele nunca poderia imaginar que seria eu. A sobrinha da patroa dele". Durante todo o dia, "aquele negócio ficava matutando na cabeça", confessa. Mesmo assim, ela se mantinha otimista em relação à reação do rapaz. Chegou meia hora antes no lugar combinado. A entrada principal de um Shopping Center na zona leste da capital paulista.

"Dei uma volta pelas lojas até ele chegar. Porque ele tinha que chegar primeiro. Eu tinha de ir ao encontro dele." Quando o avistou, todos os sintomas do nervosismo apareceram. Frio na barriga. Suor. Pernas tremendo. E agora? Bem, não tinha mais jeito. Era pegar ou largar. Caminhou até o rapaz e o abordou:

- Nossa! Você por aqui. Que coincidência.

- Pois é, você também por aqui.

- O que você esta fazendo por estes lados?

- Eu estou esperando uma amiga.

- Interessante. Eu também estou esperando um amigo.

Silêncio constrangedor. Roberta percebeu que ele não parava de olhar no relógio. Ela precisava criar coragem para dizer a verdade.

- Aconteceu uma coisa muito estranha comigo - ele confessa, constrangido e hesitante. Ligou uma menina falando que queria me conhecer de qualquer jeito. E marcou um encontro aqui. Eu vim só para ver quem é essa menina. Agora, estou aqui pensando. Foi loucura minha ter vindo.

- Nossa! Aconteceu isso com você. Que história louca. E você tem coragem de vir ao encontro de uma pessoa que você nem conhece - diz demonstrando seriedade.

- Pois é, eu não sei o que eu estou fazendo aqui.

Com receio de perder a oportunidade, Roberta solta:

- E como é que chama esta amiga sua?

- Michelle - ele responde citando o nome da amiga, que se identificou pelo nome verdadeiro desde o início.

 Não poderia mais esconder. Disfarçando a ansiedade, contraindo todos os músculos e sentindo que o momento de dizer a verdade chegara, ela suspira:

- Olha... E seu eu te disser que a Michele sou eu?

- Ahnn... Sério?? - responde com um olhar espantado.

E este foi o começo de uma relação que durou duas semanas. Logo, o príncipe virou um sapo. Não foi desta vez que Roberta encontrou sua cara-metade. Decepções acontecem. "Mais vale a certeza de um não do que a dúvida de um sim." Com esta máxima, ela defende suas empreitadas, que não pararam por aí.

Sem medo de continuar sua busca, decidiu fazer uso da tecnologia. Internet. Amigos on-line. Após uma rápida pesquisa, seleciona alguns rapazes "interessantes". Com uma mensagem padrão, dispara e-mails para os pretendentes. Encontra outro príncipe, que literalmente a enfeitiça. O encontro real aconteceu quinze dias após o encontro virtual.

Apesar de saber que não haveria progressos, deixou a magia a conduzir por um ano. "Ele foi sincero. Abriu o jogo no início. Então, se em algum momento eu pensei que fosse dar certo, logo vi que estava enganada." Confessa que foi difícil resistir. E não insistir. Mesmo sabendo que não haveria futuro nesta relação, prensou o rapaz contra a parede. Outra característica sua é a persistência. Às vezes, exagerada. Como ela mesma define.

Hoje, ela está abraçada a uma nova causa. Ou caso. Já faz um ano que conheceu, na igreja, uma pessoa que atraiu sua atenção pela timidez e aparente solidão - sempre sozinho nas missas. Nunca conseguiu se aproximar. "Nem um sorriso ele dá." Tudo o que sabe dele, além de que o encontrará na missa todos os domingos, é a placa do carro. Onde está história vai parar, só o tempo poderá dizer. Entretanto, se depender da menina de rosto angelical e atitudes selvagens, ela não vai ficar estacionada. "Já perdi muito tempo. Preciso fazer alguma coisa."

Será este o príncipe, finalmente? "Não. Até agora não apareceu príncipe nenhum. Não tem nada de concreto. Só há a expectativa." Ela não se arrepende de nada que tenha feito, apesar de descrever todos os amores que teve como encrencas. Inclui neste ranking um namoro de seis anos.

Formada em Processamento de Dados pela Universidade da Cidade de São Paulo, hoje ela trabalha na Academia Paulista de Direito Criminal, escritório de advocacia na capital paulista. Não são raras as mensagens codificadas com citações jurídicas. Mas a sentença que mais aguarda é o amor. Sonha em casar, ter filhos. Tudo com pompas e circunstâncias.

No banquete filosófico eles já afirmavam que o amor é "aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente." Ela está pronta. Resta encontrar alguém disposto a compartilhar. Candidatos?

Texto escrito em 2004.



Michelangelo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

na liquidação: uma pechincha de marido

“Não posso perder o marido. Foi muito difícil achar um. Ele me custou R$ 119,00!” Esta frase surgiu enquanto Pricila Varela separava os materiais para uma viagem de trabalho e explicava por que teria que voltar logo. Seu destino: Fortaleza. Tratava-se de reunião na qual teria que ficar praticamente um fim de semana longe de casa. Sua preocupação maior era o marido, que não ficou contente com o trabalho externo. “Ah, ele não gostou. Chiou. Tenho que voltar no sábado mesmo, assim que acabar o evento.”

Tanta insegurança tem um motivo. Pricila, assim como muitas moças afoitas por um par, vinha de várias buscas e iniciativas frutadas.


Ela queria casar. Não economizava nas promessas e simpatias. Santo Antônio já deveria estar abdicando da criança que lhe foi tirada, tamanha era a pressão.

Na verdade, ela era divorciada. Casou nova. Tinha apenas 20 anos. Mas o rigor militar não combinou com seu jeito espontâneo, extrovertido e falante. Aliás, muito falante. Resolveu abandonar a farda, ou melhor, o marido que era das forças armadas, e partir para a carreira solo. Depois de um tempo curtindo a vida de recém solteira, estava no mercado novamente. Com o passar do tempo e nada acontecendo, o desespero começou a rondá-la.

Jornalista de formação e profissional de relacionamento por vocação e experiência, Pricila cuida do intercâmbio de informações entre os associados da empresa em que atua. Lá todos a conhecem. Por onde passa, despeja sorrisos e conversas.

Mas o cara perfeito, ou mesmo que um pouco imperfeito, não aparecia. Estava, como costumam dizer por aí, a perigo. Pedia ajuda a todos. Aos amigos. Aos amigos dos amigos. E nada. Vendo sua situação, uma amiga sugeriu que ela entrasse num site de relacionamento.

- Eu não acredito nestas coisas. Isto não dá certo.

- Neste você pode confiar. É ótimo.

- E você está nele? 

- Não.

- Viu? Nem você confia!

- Mas é que não tenho tempo nem paciência para preencher o cadastro de afinidade.

E o papo morreu. Até que chegou outro sábado à noite. Os solitários de coração costumam dizer que é aí que mora todo o desamparo. “Estava completamente desesperada! Resolvi tentar o site. Afinal tinha tempo de sobra para preencher o tal questionário, que realmente era muito extenso e detalhado.”

Quando terminou de inserir seus dados, logo começaram a chegar respostas dos possíveis pretendentes. Mas ainda havia outro passo: pagar. “Ah, eu não queria pagar, mas ao mesmo tempo fiquei super curiosa para ler o que estava chegando. Sem pagar eu não conseguia entrar nos perfis.”

Sem cartão de crédito, pediu ajuda à irmã. Explicou toda a história e deu prosseguimento àquela que seria sua história de amor.

“Na verdade, quem paga o cartão da minha irmã é minha mãe. Quando ela viu o valor, foi logo perguntando do que se tratava. Minha irmã simplesmente disse que eu havia comprado uma bolsa”, diz Pricila rindo e comentando que ainda deve este valor à matriarca.

Vieram várias propostas. Chegou até a sair com um publicitário. “Todos os contatos foram muito sérios”, faz questão de enfatizar. Mas nada vingou. Até que surgiu Armandinho.

Chegou testando sua inteligência. O e-mail que ele mandou precisava de alguns passos antes que pudesse ser aberto. “Esse Armandinho...”, suspira.

Proativa e sem querer perder tempo, Pricila, entre um e-mail e mensagem no MSN, foi logo dando o telefone da sua casa. “Ele ficou desconfiado. Achou que eu era muito precipitada. Mas eu não podia ficar ali só teclando e teclando.”

Poucos dias depois foi ganhando a confiança do moço, que lhe deu o telefone da casa e do trabalho. Numa tarde, mais uma vez a proatividade ganhou. Pegou o telefone e perguntou o que ele iria fazer no fim da tarde.

- Nada.


- Então vamos tomar um café?

Combinado. E lá foram eles para o primeiro encontro, que foi sucedido por um almoço, por um jantar e, quatro meses depois, por um apartamento compartilhado. “Ele vive dizendo que me pegou numa liquidação”, conta, lembrando o valor pago para entrar no site de relacionamento.

“Agora só falta o pedido oficial de casamento. Com anel e tudo mais”, fala com os olhos brilhando e abraçando os dois banners enrolados que vão para Fortaleza com ela.

Moças, o negócio é pechinchar!

Romero Brito

sônia ferreira: dança inconsciente dos números

Carros estacionados. Pessoas nas calçadas. Cachorros latindo. Fogos de artifício. Alguém parece ter mais um motivo para estar feliz. Samba, MPB, rock n'roll. Na trave. Um gol. É preciso muita atenção para identificar os diversos sons que vêm das casas, dos automóveis, dos transeuntes. Uma lona preta cobre o portão da casa de número 5. Batata! É mais uma festa de aniversário num domingo ensolarado. Lá, as pessoas utilizam a lona para esconder dos xeretas as festas realizadas na garagem.

Sônia Ferreira é uma rua típica da periferia. Cravada na zona leste de São Paulo. Os vizinhos são todos conhecidos, companheiros. Como numa cidade pequena, todos sabem o que acontece na casa ao lado. E na da frente. E na do outro lado. E na da esquina também. Fatos atualizados diariamente pelas senhoras que saem para a caminhada matinal às 7h15, pontualmente. Somente têm folga nos finais de semana.

São apenas quatro quarteirões e três travessas. O colorido das residências quebra a monotonia do asfalto remendado e das calçadas irregulares. Fios entrelaçados são sustentados por sete postes. Uma enorme torre pode ser vista de longe. Telefonia celular. Tecnologia de ponta. Referência para quem visita o local pela primeira vez.

De um lado 138, 3, 20, 5, 110A, 49, 8. Do outro, 4, 119, 6, 14. E por aí adiante. Esta é a sequência dos números das casas. Para desespero dos carteiros novos. A explicação vem da dona de casa Olinda, há 29 anos morando no número 6. "Faz tempo que veio uma cartinha da prefeitura falando o número certo da casa.” Nem todos concordaram ou pareceram se importar com a intimação. "Meu número novo é 113. Eu não gosto do 13. Então fico com o 6 mesmo. E depois dá trabalho. Tem que ir até a prefeitura levar as papeladas. Dá preguiça.”

Há quatro décadas, a rua não era uma rua. Fazia parte de uma chácara. Assim como todo o bairro. Quem comenta é a moradora mais antiga, Dona Zulmira, portuguesa de 75 anos. "Ah, eu sou a mais velha daqui, sim. Já faz bem mais que trinta anos que cheguei. Aqui era tudo mato. Não tinha asfalto. Para ir até as lojas e mercados a gente tinha que seguir por uma trilha. Se agora ela está melhor ou pior eu não sei. Mas que está diferente está.” Hoje restam apenas cinco árvores e meia. Um tronco ainda resiste ao concreto. Sem galhos, sem folhas ou flores. Ele está fincado num pedaço de calçada que ainda não ganhou cimento. Na esquina. Bem no meio da rua. Se hoje ainda está ali, deve suas raízes intactas a um carro da prefeitura que passou no momento exato em que um dos moradores quase consumava sua extração. “Leva multa quem arranca árvore.”

Nas noites de terça, quinta e sábado o programa é certo. Público garantido. Silêncio. Apenas o som de um ou outro carro que insiste em descer a rua. Todos aguardam o espetáculo. Os mais velhos se prepararam horas antes. Os mais novos ajudaram. Um, dois, três. Os cachorros alertam. Latidos fortes, agudos. Há sopranos, contraltos, tenores e baixos. Alguns arriscam um solo. Cada um no seu tom, no seu momento, no seu infinito fôlego. Irritante para aqueles que tentam assistir ao Jornal Nacional. Importante para aqueles que por algum motivo estavam distraídos. Tudo para anunciar que o lixeiro está chegando. Um minuto depois o caminhão se aproxima. Homens de macacão laranja com listras brancas recolhem sacos pretos, azuis, de papelão. Cheios. Todos cuidadosamente postos em frente aos portões. O caminhão não para e eles precisam pegar um saco aqui e outro ali. Correr e depositá-los no caminhão. Voltar dois passos. Recolher outros sacos e correr. Abaixam, levantam, pulam, esticam os braços. Assim, num ritmo frenético. Como se estivessem dançando ao som do coral canino. Personagens de um musical que acontece três vezes por semana.

Na manhã do outro dia, ainda há vestígios da festa. Pedaços de papéis, potes de iogurte, casca de ovos são recolhidos pelas mulheres, e homens, que lavam os quintais e calçadas. Baldes e mais baldes da água que serviu para enxaguar a roupa. Consciência ecológica. Ou seria um olhar atento no relógio da Sabesp?

Texto escrito em 2004

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