quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

o melhor do mau humor

Ao mudar meus livros de lugar, agrupando-os, finalmente, por assunto, revisitei “O melhor do mau humor – coletânea de citações venenosas”, editada pelo escritor, jornalista e colunista da Folha de São Paulo Ruy Castro. Eu o adquiri há muitos anos. Publicado em 1990 pela Companhia das Letras, está esgotado no fornecedor (uma edição mais recente, de 2007 da Companhia do Bolso, ainda pode ser encontrada), mas as ironias e sátiras nele dispostas são atemporáis. 

Frases de escritores, filósofos, políticos, economistas são amplamente divulgadas por e-mails e, mais recentemente, bombardeadas nas redes sociais. Sem a devida certificação, muitas vezes lemos – e replicamos – citações que não foram enunciadas por aqueles que carregam suas autorias. Aqui podemos acreditar que, de fato, estamos diante de palavras proferidas por Woody Allen, Millôr Fernandes, Nietzsche, Oscar Wilde, Voltaire, Nelson Rodrigues, entre outros tantos.

Mas o melhor mesmo desta coletânea é que ela passa longe dos “pensamentos sublimes”, que enfatizam que é preciso acreditar na vida e que basta um dia após o outro para tudo ficar melhor. São, pelo contrário, 1.457 citações que ressaltam o vexame que somos. Tudo em ordem alfabética por tema. Para o organizador, elas são como “tapa de luva. Só que a luva é de boxe.” E se você se sentir atingido, lembre-se que “só doerá se você não rir.”

Amostra:

Amigos

“Com o tempo, qualquer amigo muito próximo e querido acaba se tornando tão inútil quanto um parente.” George Ade

Afrodisíaco

“O poder é o afrodisíaco definitivo.” Henry Kissinger

Amor

“O amor é o que acontece entre um homem e uma mulher que não se conhecem muito bem.” W. Somerset Maugham

Cinema

“Alguns astros de cinema usam óculos de escuro até mesmo na igreja. Devem ter medo de que Deus os reconheça e peça seus autógrafos.” Fred Allen

Desconfiança

“Desconfie de qualquer empreitada que exija roupas novas.” Henry David Thoreau

Desculpas

“Infelizmente devo declinar do seu convite devido a um compromisso assumido posteriormente.” Oscar Wilde

Fatos

“Não há fatos, só interpretações.” Friedrich Nietzsche

Felicidade

“Poucas pessoas conseguem ser felizes, a menos que odeiem outra pessoa, nação ou credo.” Bertrand Russell

Franceses

“Quando quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo.” Charles de Gaulle

Humor

“Humor é o caos emocional relembrado em tranquilidade.” James Thurber

Idade

“Envelhecer é ser punido cada vez mais por um crime que não se cometeu.” Anthony Powell

Juventude

“Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo.” Tallulah Bankhead

Livros

“Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais.” Millôr Fernandes

“Não existem livros morais ou imorais. Livros são bem ou mal escritos. Nada mais.” Oscar Wilde.

“Quando se diz que um escritor está na moda, se quer dizer que ele é admirado por menores de trinta anos.” George Orwell.

Mentira

“Não ser descoberto em uma mentira é o mesmo que dizer a verdade.” Aristóteles Onassis

Monalisa

“Ela tem o sorriso de uma mulher que acabou de jantar o marido.” Lawrence Durrell

Morte

“A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística.” Joseph Stalin

“Não fui ao enterro dele, mas mandei um bilhete simpático dizendo que deve ter isso um sucesso.” Mark Twain

Mulheres

“Mulher e livro – emprestou, volta estragado.” Stanislaw Ponte Preta

Mundo

“O mundo se divide em pessoas boas e más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más se divertem mais.” Woody Allen

“E se este mundo for o inferno de outro planeta?” Aldous Huxley

Óbvio

“Só os profetas enxergam o óbvio.” Nelson Rodrigues

Patrões

“Não quero puxa-sacos perto de mim. Quero gente que me diga a verdade, mesmo que isso lhes custe o emprego.” Samuel Goldwyn

Pobres

“Meus pais não tinham dinheiro para me comprar um ioiô no Natal. Então me compraram um iô.” Max Eastman

Pontualidade

“Pontualidade é uma coisa que, se você segue à risca, não encontra ninguém para apreciá-la.” Harold Rome

Psiquiatra

“O psiquiatra é a primeira pessoa com quem você deve falar depois que começa a falar sozinho.” Fred Allen

“O neurótico constrói um castelo no ar. O psicótico mora nele. O psiquiatra cobra o aluguel.” Jerome Lawrence

Publicidade

“A publicidade pode ser descrita como ciência de prender a inteligência humana o tempo suficiente para lhe arrancar algum dinheiro.” Stephen Leacock

Razão

“Quando o povo começa a raciocinar, é porque já está tudo perdido.” Voltaire

Solidão

“É muito melhor estar mal acompanhado do que só. A única vantagem da solidão é poder entrar no banheiro e deixar a porta aberta.” Antônio Maria

Sucesso

“Não basta ser bem sucedido; os outros também precisam fracassar.” Gore Vidal

Suicídio

“A ideia do suicídio é um grande consolo. Com sua ajuda, muita gente já atravessou noites difíceis.” Friedrich Nietzsche

Trabalho

“O trabalho nos livra de três grandes males: o tédio, o vício e a pobreza.” Voltaire

Vulgaridade

“Madame Bovary é o livro mais sexy já escrito. A mulher é praticamente uma ninfomaníaca, mas você não encontrará uma única palavra vulgar nele.” Noel Coward
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

livros e motivos

Encontro nos livros viagens imaginárias. Sonhos possíveis.

Personagens que admiro e que me guiam. Frustrações que os textos curam.

Amor que a poesia enaltece.

Uma boa leitura é vida que não se acaba. É solidão que não se estranha.

Paixão que nunca se apaga.

Feliz 2013. Com muitos motivos para ler e sorrir :-)


The Reading Tree, de Judith Clay

domingo, 30 de dezembro de 2012

nihonjin

Hideo Inabata veio ao Brasil incentivado pelo imperador, que dizia que os japoneses deveriam prosperar em terras estrangeiras, retornando depois ao Japão. Assim, Inabatasan desembarcou em Santos por volta de 1920. Veio com Kimie, sua frágil esposa, e Jintaro, um amigo. "O governo brasileiro exigia pelo menos três enxadas em cada família." Como não tinham parentes dispostos a se unirem a eles na empreitada, arrumaram um agregado.

Ainda no navio, Hideo tinha os olhos fixos no Nihon, ao qual voltaria tão logo conseguisse bastante dinheiro por aqui. "Teria uma loja de utensílios domésticos em Tóquio ou Osaka, já que o Japão estava se industrializando, fabricando peças em série, e precisava de comércio para vendê-las. Teria três ou quatro funcionários, quem sabe meia dúzia. Seria patrão."

Mas o sol escaldante do interior de São Paulo e as lavouras de café foram, aos poucos, apagando o brilho do olhar e esgotando esse sonho. Também foram responsáveis pela morte de Kimichan, que durante o inverno ficava à janela esperando pela neve, que nunca veio. Assim como não vieram os promissores anos tão aguardados. Sem nunca desistir de ser nihonjin, Hideo casa-se novamente. Tem seis filhos. E é por meio de um de seus netos que as fotografias amareladas são resgatadas e ganham legendas que vão nos emocionar. Orgulho, amor ao distante Nihon, incompreensão de uns e respeito à família estão juntos na saga dos japoneses que em 2008 comemoraram cem anos no Brasil.

Terminei de ler 'Nihonjin' com a sensação de já ter ouvido relatos parecidos na minha infância. Talvez não da forma poética colocada por Oscar Nakasato, que por essa obra venceu o Jabuti 2012. Também sou neta de imigrantes japoneses, assim como o narrador que dá vozes e rostos aos personagens nesse nostálgico livro. Ótima leitura para fechar o ano e relembrar coisas e outras da família do lado japonês. E que encantaram meu pai, gaijin que se casou minha mãe. Ojiichan Hideo até que poderia ter sido mais flexível em relação aos não-japoneses. Contudo, não devemos julgar a espera alheia. Akemashite omedetou gozaimasu.

"Levantou-se, caminhou até a porta da sala e abriu. A neve cobria a terra. Saiu, correu até o cafezal, correu entre os pés de café, sentindo a neve cair sobre sua cabeça, sobre os seus ombros. Correu durante muito tempo, estrela do espetáculo, abrindo os braços, ela, que sempre preferia ficar na janela. Finalmente, quando se cansou, sentou-se na terra fria. A morte chegou lentamente. Há quanto tempo morria? Tranquila, congelada pela neve, congelada pelo sol."


domingo, 23 de dezembro de 2012

mais livros

Já garanti meu presente de Natal. Saí da livraria ontem com cinco livros.

José Saramago e as 'Pequenas Memórias' de sua infância e adolescência. A obra promete uma viagem pelas lembranças do menino Zezinho em sua aldeia natal.

Também não resisti a outra viagem do autor português. Trouxe comigo sua 'Bagagem do Viajante': coletânea de crônicas publicadas na imprensa portuguesa entre 1969 e 1972.

O terceiro é o vencedor do Jabuti 2012: 'Nihonjin', do escritor paranaense Oscar Nakasato. Romance que traz a história da imigração japonesa no Brasil.

'A lebre com olhos de âmbar', de Edmund de Waal, está na minha lista desde o ano passado. Um misto de biografia e romance que envolve sua família e uma coleção de netsuquês, miniaturas japonesas.

E o último é 'O torreão', de Jeniffer Egan. Simplesmente porque gostei muito de seu livro anterior, 'A visita cruel do tempo'.

Vamos à leitura :-)

sábado, 22 de dezembro de 2012

marcelo, marmelo, martelo - quem sou eu?

"O triste de tudo isto é que, à medida que crescemos, nos acostumamos não apenas com a lei da gravidade. Acostumamo-nos, ao mesmo tempo, com o mundo em si. Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo." Esse é um trecho do livro 'O mundo de Sofia', de Jostein Gaarden. Lá é comentado o conformismo dos adultos. Aceitamos tudo ao nosso redor e paramos de indagar as coisas simples do dia a dia.

Mas no universo infantil não é bem assim. "Por que isso ? Por que aquilo?" fazem parte dos diálogos de quem convive com os pequenos. E a literatura infantil incorpora isso muito bem em seus textos. Um exemplo é 'Marcelo, marmelo, martelo', de Ruth Rocha. Marcelo tem muitas dúvidas. Quer saber por que a chuva cai, por que o mar não derrama e por que o nome dele não é marmelo ou martelo. Aliás, ele passa a implicar com os nomes dos objetos, das pessoas. Para ele, cadeira tem que se chamar sentador. Travesseiro é cabeceiro. Casa é moradeira. Muito mais apropriado, claro. Essa mania deixa os pais malucos e o garoto triste por não ser compreendido.


"O pai de Marcelo resolveu conversar com ele:
— Marcelo, todas as coisas têm um nome. E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome, porque, senão, ninguém se entende...
— Não acho, papai. Por que é que eu não posso inventar o nome das coisas?"

Outro que quer saber sempre mais é Pedro, do contagiante 'Quem sou eu?', do italiano Gianni Rodari. O título do livro é a pergunta que o menino faz a todos que encontra pelo seu caminho: mãe, irmã, amigos, motorista do ônibus e até a revista em quadrinhos. O resultado é a soma dos substantivos que indicam o que ele é para cada um dos interlocutores: filho, irmão, amigo, passageiro, leitor. E muitas coisas mais. O gostoso é ler o livro para crianças, que entram na brincadeira e repetem, tentando não errar, o papel cumulativo de Pedro. Ao mesmo tempo em que pensam no que elas são e podem ainda ser.


Aproveite também para recordar os bons tempos em que o 'por quê?' estava com você.


"— Quem sou eu? - Pedro pergunta à professora.
— Você é um aluno - ela responde.
'Está vendo', pensa Pedro. Mais uma coisa. 'Filho, menino, irmão, neto, primo, aluno.'
'E o que mais?' "

domingo, 16 de dezembro de 2012

1q84

O primeiro volume de '1Q84', do escritor japonês Haruki Murakami, deixou-me ansiosa para ler logo os outros dois livros que compõem essa deliciosa trilogia. Nos EUA, a obra foi lançada num único volume. No Reino Unido em dois. O Brasil acompanhou o Japão e a tradução será em três partes. Quase mil páginas ao todo.

Aomame e Tengo são os protagonistas. Ambos vivem em Tóquio e tiveram traumas parecidos na infância. Enquanto ele tinha que sair com o pai para fazer cobranças de porta em porta para a rede de TV NHK, ela acompanhava a mãe na tentativa de conseguir mais fiéis para as Testemunhas de Jeová. Aomame é professora de artes marciais. De vez em quando, mata homens que agridem mulheres utilizando técnica bem específica. Sem sangue, sem marcas. Tengo dá aulas de matemática, aspira publicar um romance, namora uma mulher casada e leva a vida, propositalmente, sem emoções. Sofre com a lembrança de quando tinha pouco mais de um ano - verídica ou construída? - da sua mãe com outro homem que não era seu pai. Terá a vida alterada com a proposta de reescrever o romance de Fukaeri, adolescente de 17 anos que insiste na existência do Povo Pequenino.

O livro começa com Aomame no taxi ouvindo a bela Sinfonietta do tcheco Janáček, composta em 1926. Ela está atrasada e um acidente paraliza o trânsito. Sem alternativa, aceita a sugestão do taxista e pega o atalho inusitado para chegar até a próxima estação de trem.

Estamos em 1984. O 'Q' do título é uma 'question mark', pode até ter tido origem na brincadeira com o número nove em japonês, que se pronuncia 'kyu', da mesma forma que a letra 'Q' em inglês. Além, é claro, da referência ao livro de George Orwell. Mas na verdade é a tentativa da protagonista de se situar no mundo, já que ela anda perdendo algumas passagens da história. Lapsos de memória ou realmente está a viver num mundo paralelo com duas luas?

O narrador onisciente, em liguagem quase que onírica, ora nos conta os passos e devaneios de Aomame, ora os de Tengo. Tudo com muito ritmo e ótimas referências musicais, históricas e literárias. Num trocadilho bobo com o hobby do escritor - corridas de longa distância -vale a pena encarar esse percurso.

Trechos

"Tirou um livro da bolsa e começou a ler. Era um livro sobre a estrada de ferrom da Manchúria, da década de trinta. Um ano após o término da Guerra Russo-Japonesa, os russos foram obrigados a ceder aos japoneses o direito de exploração da ferrovia (Companhia Ferroviária do Sul da Manchúria), cuja extensão foi rapidamente ampliada para se tornar o posto avançado do império japonês durante a ocupação da China. Situação esta que seria desmantelada em 1945 pelo exército russo. Até o início da Guerra Russo-Alemã, em 1941, o trajeto Shimonoseki-Paris podia ser feito em treze dias, utilizando-se a conexão das redes ferroviárias da Manchúria e da Sibéria."

"Fukaeri novamente se calou. No entanto, desta vez, o silêncio não era intencional. Ela simplesmente não conseguia entender o motivo da pergunta e, tampouco, o pensamento que a havia motivado. A pergunta de Tengo não tinha eco em sua consciência e, por isso, fora sugada pelo nada e se perdia para sempre, além das fronteiras do consciente, como um solitário foguete a passar direto pela órbita de Plutão."

"A diferença entre os dois mundos aumentaria gradativamente e, dependendo da situacão, faria com que suas ações deixassem de ser coerentes, conduzindo-a a um erro fatal. E isso poderia literalmente levá-la à morte."


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

relato de um certo oriente

'Relato de um certo oriente', finalizado em 1989, é o primeiro romance de Milton Hatoum. A partir de várias vozes, acompanhamos a construção do passado da - talvez seja possível afirmar - protagonista.

O ponto de partida é a carta que ela escreve ao irmão, que está em Barcelona. Lá ela narra as memórias de personagens que fizeram parte de sua infância em Manaus, cidade que abandonou e a qual regressa após vinte anos. Não sabemos o nome e os motivos de nenhum dos dois.

As lembranças giram em torno daqueles que conviveram com Emilie, imigrante libanesa. Católica fervorosa, ela se casa com um libanês muçulmano que chegou ao Brasil para 'alcançar o desconhecido'. Enquanto a esposa dava festas e colecionava santos, o marido apoiava-se ensimesmado nas palavras do Alcorão. Apesar das diferenças, mantinham-se unidos pelo idioma e pelos costumes do país natal. Mas separados por segredos guardados, literalmente, num baú.

Eles têm quatro filhos: Hakim, Samara Délia e outros dois irmãos, que também não são nominados. A união entre eles não é algo espontâneo. É Samara a resposável pela já anunciada desestruturação desse núcleo. Aos quinze anos, engravida e é confinada num quarto do casarão em que moram. Repudiada, dá à luz Soraya Ângela. Quem sabe por ser a metáfora da ausência de sentido e privações ao seu redor, a menina nasce surda. Na voz de Hakim, temos o mais belo trecho do livro: a descrição do passeio único de mãe e filha. O nascimento de Soraya coincide ainda com a entrada da narradora principal e do seu irmão ao elenco. Um entre muitos mistérios da trama que caberá a cada um de nós decifrar.

Lá pelas tantas, o livro cita irmãos gêmeos a brincar na praça. Cena que imediatamente me remeteu ao segundo livro do escritor brasileiro de ascendência libanesa, 'Dois Irmãos', que também mescla recordações do oriente com desprezo e famílias repartidas no calor da Amazônia brasileira.

"Foi nessa época que elas saíram juntas pela primeira e única vez. Pareciam guiadas pelo medo. Caminharam de mãos dadas, esquivando-se das pessoas, evitando encarar os raros transeuntes que se expunham ao sol ardente do início da tarde. Os vizinhos apareceram nas janelas e Samara Délia se protegia dos olhares inclinando uma sombrinha vermelha que lhe tapava o rosto... As duas caminhavam juntas demais, e uma encurtava os passos para seguir os da outra; do terraço da fachada eu as vi desaparecer, sob um invólucro vermelho que as protegia do sol e as tornava acéfalas."


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

charlotte street

Primeiro, não confundam o autor e comediante britânico Danny Wallace com outro autor de nome parecido, como fez a moça que estava ao meu lado na livraria. “Olhe, vamos levar livros do mesmo escritor”, disse ao olhar “Charlotte Street” em minhas mãos e ao apontar o seu livro, que virou filme, “Peixe Grande - uma fábula de amor entre pai e filho”, do norte-americano Daniel Wallace. Outro ponto em comum entre os dois: Danny também já teve livro adaptado para o cinema, seu “Yes Man” ganhou as telas com Jim Carrey.

E por falar em semelhanças, o protagonista de “Charlotte Street” é Jason Priestley, homônimo do ator de Barrados no Baile, série dos anos noventa. A coincidência sempre lhe rende situações cômicas e várias explicações. Assim como o local em que mora: ao lado de um lugar que parece bordel, mas não é.

O livro tem sabor de seriado. Poderia muito bem ser desmembrado em vários episódios com locações na bela Londres. Jason é professor, mas desiste dessa profissão após o surto de um aluno. Investe na carreira de jornalista free-lancer e passa a escrever críticas num jornal gratuito, sempre positivas. Inclusive de lugares que nunca frequentou. Ao mesmo tempo, sofre com o rompimento da relação de quatro anos. Observamos sua obsessão em acompanhar a vida da ex-namorada pelo Facebook e a angústia quando ela muda o status do relacionamento para “noiva”. 

E é no meio desses choques que encontra “a garota”. Num ato de cortesia, ajuda uma desconhecida a segurar suas sacolas enquanto entra no taxi. Mas na pressa de seguir viagem, ela esquece algo nas mãos de Jason: uma máquina fotográfica descartável. 
Deixa ainda um olhar que mexe com o coração do moço. A partir daí, vai em busca da misteriosa figura. Sempre com a ajuda do seu melhor amigo, Dev, indiano fissurado por vídeo game e com quem divide o apartamento. Chegam até a relevar as fotos. Invasão de privacidade? Bem, para eles apenas uma aventura que vai dar mais sentido ao cotidiano e permitir novos encontros. Apesar de personagens com dilemas clichês, como realizar sonhos, descobrir o propósito de vida etc., o livro é indicado para quem quer leitura descontraída, rápida e de baixo impacto. Nota para o tradutor: não precisava ter convertido libras para reais no texto em português. Afinal, não dá para pagar uma bebida em Londres com R$.

"Às vezes a vida não é mágica, você entende. Às vezes, a vida é comum. É uma passada em um chaveiro na hora corrida do almoço. É o estrondo luminoso e alto de um filamento rompido de uma lâmpada. É o seu vizinho vindo avisá-lo que você esqueceu as luzes do carro acesas. Raramente é algo diferente. Talvez o olhar de uma garota na Charlotte Street, por exemplo. Quanto tempo para um olhar terminar? Por quanto tempo você pode se apoiar em um olhar?"


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

fonchito e a lua

Depois de ler o empolgante “Travessuras da menina má”, de Mario Vargas Llosa, livro que fala da paixão desenfreada de Ricardo Somocurcio por uma mulher de vários nomes, deparei-me com outra história de amor do autor. Mas desta vez voltado ao público infantil: “Fonchito e a Lua”, primeiro título do escritor peruano para as crianças.

Fonchito é um garoto que mora em Lima. Seu sonho é dar um beijo na menina mais bonita da escola, a Nereida. Timidamente, ele toma coragem e faz o pedido. Ela fica vermelha e aceita, mas com a condição de que ele lhe traga a Lua de presente. E aí? Será que essa foi a forma que Nereida, delicadamente, encontrou para dizer “não”? Na varanda de sua casa, Fonchito contempla o satélite terrestre. Até que tem uma brilhante ideia. O amor sempre tem um jeito criativo para tudo.

“... a partir desse dia começou a fazer uma coisa que nunca fazia antes, ficava um tempão, na varanda ou no terraço de sua casa, contemplando a Lua, deslumbrado. Quer dizer, quando a Lua aparecia, coisa que raramente acontece na cidade de Lima, cujo céu costuma ficar nublado durante meses a fio."


sábado, 10 de novembro de 2012

travessuras da menina má

Ricardo Somocurcio é orfão e mora com a tia num bairro bacana. A rotina o agrada e sua única ambição é morar em Paris com emprego estável, tempo para suas leituras e sossego. De certa forma alcança tudo isso. Mas com esporádicas pitadas das pimentas mais picantes.

Estamos em Lima no início da década de cinquenta. Num verão marcante de sua adolescência, ele conhece e se apaixona pela 'chilenita' Lily. Mas a jovem, que é 'peruanita', é desmascarada numa festa e some. Anos mais tarde, reaparece para Ricardito em Paris como companheira Arlette, integrante do grupo que tenta uma revolução socialista no Peru. Esse é apenas um dos reencontros do casal e mais um dos nomes da menina má, apelido que ganha por suas mentiras, fugas e por fazer sofrer o coração cheio de "breguices" do tradutor e futuro intérprete peruano.

Em "Travessuras da menina má", dinâmico romance de Mario Vargas Llosa, acompanhamos com a mesma obssessão que o protagonista os passos de Madame Robert Arnoux, Mrs. Richardson, Kuriko ou outra graça que possa surgir. Difícil explicar como nosso herói sempre a perdoa e aceita seus casamentos por interesse e fantasias. Contudo, é em sua companhia que tem os momentos mais alegres. Por outro lado, nós ganhamos uma brilhante viagem literária por Paris, Londres, Tóquio e pelo litoral peruano, além de contagiante aula de história sobre as revoluções da América Latina, França e movimento hippie. Fatos contados por meio das sinceras amizades de Ricardo, que se intercalam com as várias aparições e sumiços da menina má em mais de trinta anos. Leitura para ser feita sem intervalos e julgamentos.

"Foi só vê-la para reconhecer que, mesmo sabendo que qualquer relação com a menina má estava condenada ao fracasso, a única coisa que eu realmente desejava na vida, com a mesma paixão que outros dedicam a perseguir a fortuna, a glória, o sucesso ou o poder, era ela, com todas as suas mentiras suas confusões, seu egoísmo e seus desaparecimentos."