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quarta-feira, 31 de julho de 2024

desonra



"Pense em coisas tranquilas, em coisas fortes. 
Eles farejam o que a gente pensa." 

"Desonra", de J. M. Coetzee, é uma obra que, embora focada na complexa vida pessoal e social de seus personagens, oferece uma profunda reflexão sobre a relação entre humanos e animais. Situado na África do Sul pós-apartheid, o romance aborda culpa, redenção e o impacto da violência, tanto humana quanto animal. No romance, a jornada de David Lurie ao lado de sua filha Lucy revela um profundo processo de transformação pessoal, que é espelhado em sua crescente empatia pelos animais. 

Você sai da leitura e segue perdido, como os personagens. A história começa com o professor David Lurie, de cinquenta e dois anos, divorciado - duas vezes - e com uma vida tranquila e morna. Dá aulas sobre temas que não lhe interessam, o que faz com que elas sejam bem ordinárias.

Uma vez por semana tem encontro marcado com uma mulher em um quarto limpo, com toalhas e sabonetes à sua disposição. Está no que, hoje, chamamos de zona de conforto. Até que Soraya, a moça com que se encontra para o sexo casual, diz que não poderá mais encontrá-lo. Após tentativas frustradas para descobrir o motivo, ele a vê com sua família, marido e filhos, na rua. O incidente o leva a refletir sobre o envelhecimento, sua vida e até mesmo a castração, a fim de parar com os desejos.

No meio de tudo isso, uma de suas alunas se sobressai, Melanie Isaac. Após uma abordagem na universidade, ele a convida até sua casa. Outros encontros acontecem, mesmo contra a vontade da garota, que se sente, de algum modo, obrigada a ceder às investidas. Depois disso, há a denúncia de abuso sexual e ele acaba se afastando do cargo e foge para a fazenda da filha, Lucy, que também lida com suas próprias questões. Ela acabou de terminar um relacionamento e tenta se encaixar no modo de vida das pessoas ao seu redor. David mora na Cidade do Cabo. E Lucy mora em Salem, Kenton, no Cabo Leste. São quase 900 km de distância. Mas ele precisa desse refúgio para superar, ou não, a culpa. 

"Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço."

Chegando na casa da filha, tenta se adaptar à vida no interior da África do Sul. Fica apreensivo ao vê-la morando sozinha, sem vaidade e com parcos recursos. Aos poucos, porém, vai se reencontrando naquele lugar longínquo (em todos os sentidos para ele), ajuda no que é possível e até encontra um trabalho voluntário no abrigo de animais.

Lucy tem um hotel para cachorros e uma, em particular, nos é apresentada. Assim como os demais personagens da casa, também foi abandonada. Trata-se de Katy, que chegou para ficar hospedada e por lá ficou. Ao ser questionada pelo pai se não tem medo de ficar sozinha, Lucy responde que: 

"tem os cachorros. Os cachorros já são alguma coisa. Quanto mais cachorro, mais proteção. Mas seja como for, se alguém resolver entrar, não acho que estar em duas seja melhor que uma."

Mas ela conta ainda com Petrus, seu vizinho, que foi seu empregado no passado. A impressão é que há um pacto entre eles, com favores mútuos. Há Bev, que cuida do refúgio de animais na região, que David, a pedido da filha, irá ajudar. Cabe à Bev praticar a eutanásia nos animais que não podem mais ser curados e também naqueles que não poderão encontrar um lar. A palavra eutanásia não aparece, mas fica bem claro do que se trata. Mas ela não faz isso de modo frio, pelo contrário, conversa com os bichos e procura dar conforto e acolhimento em seus últimos instantes de vida.

David não sente nenhuma empatia por este trabalho e chega a repudiar Bev por sua aparência física. Em uma conversa com a filha deixa claro sua percepção, que reflete a de muitas pessoas: 

"Na criação, nós somos de uma ordem diferente dos animais. Não necessariamente superior, mas diferente. Portanto, se vamos ser bons, que seja por simples generosidade, não porque nos sentimos culpados ou temos medo de vingança." 

Dentre os animais tratados por Bev, está um bode que levou uma mordida de cachorro e que está agonizando, com feridas graves e bem infeccionadas. 

"O bode treme, solta um balido: um som feio, baixo e áspero."

Para ele, só resta descansar pelas mãos de Bev, porém, não é o que vai acontecer. Seus `proprietários`, assim como muitos, firmando a questão da posse, preferem fazer o serviço em casa. É uma das passagens que mais me marcou, pelo sofrimento do bode, por ele entender o que estava por vir, por ter sido privado, no fim, do único alívio que poderia ter. É quando David começa a entender o real propósito do trabalho de Bev: "aliviar o sofrimento dos bichos da África."

E, assim, à medida que David vai se aproximando dos animais, de Bev e da cadela Katy, sua visão sobre os animais vai mudando. Há uma sintonia que ele não esperava sentir. Percebemos isso de forma clara quando ele vê dois carneiros amarrados perto da entrada da casa. Sabe que estão lá porque foram os escolhidos para serem servidos na festa que Petrus está preparando. Mais tarde, só lhe resta se distanciar do prato que lhe é servido.

Seus temores se mostram reais e a casa é invadida por três homens e sua filha violentada, numa passagem bem trágica. Ele mesmo é ferido, mas é Lucy quem fica com as piores cicatrizes. A partir daí, o relacionamento entre eles, que já não era tão próximo, se torna ainda mais conturbado, principalmente por conta de suas acusações contra o vizinho, que a filha insiste em defender. Ele acaba voltando para sua cidade de origem e lá descobre que perdeu o pouco que ainda lhe restava, sua casa também foi roubada. O que sobra: terminar o libreto sobre a vida do poeta inglês Lord Byron, suas paixões, culpas. Sua amante casada, a filha que abandonou. E durante o processo criativo, ao pesquisar a melodia perfeita para retratar a história do romancista, percebe nuances de suas próprias escolhas. A narrativa de Coetzee é deslumbrante. É como se estivéssemos na plateia acompanhando a ópera.

Outro animal que toca David é um dos cães do canil, que anda se arrastando. Nenhum visitante se interessou em adotá-lo e seu tempo está quase no fim. Às vezes, solta o cão do compartimento, deixando-o passear pelo quintal ou cochilar aos seus pés. O cão, por sua vez, adotou nosso protagonista, demonstrando grande afeição por ele. Encanta-se pelo som do banjo quando Lurie toca e canta, enquanto escreve o libreto.

"Começou a sentir um carinho particular por um dos cachorros do canil. É um jovem macho que tem um quarto traseiro murcho que arrasta pelo chão. Ele não sabe se nasceu assim. Nenhum visitante mostrou interesse em adotá-lo. Seu período de graça está quase no fim; logo, terá de ser submetido à agulha. Às vezes, quando está lendo ou escrevendo, solta-o do compartimento e deixa que passeie, com seu jeito grotesco, pelo quintal, ou que cochile aos seus pés. Não é “dele”, de jeito nenhum; teve o cuidado de não lhe dar um nome (embora Bev Shaw refira-se a ele como Driepoot, três patas); mesmo assim, ele é sensível à generosa afeição que o cachorro lhe dedica. De forma arbitraria, incondicional, foi adotado; o cachorro é capaz de morrer por sua causa, ele sabe disso. O animal fica fascinado com o som do banjo. Quando dedilha as cordas, o cachorro se senta, inclina a cabeça, escuta. Quando cantarola um verso de Teresa, e o cantarolar começa a se encher de sentimento (é como se a sua laringe engrossasse: dá para sentir o sangue pulsando na garganta), o cachorro estala os beiços e parece a ponto de cantar também, ou de uivar."

Aliás, os cachorros de um modo geral o comovem e serão, de algum modo, sua redenção. A fim de dar um fim mais digno a eles, ele irá levá-los para serem cremados no incinerador do hospital. Mas faz isso antes que outros sacos com lixos diversos cheguem, a fim de garantir um mínimo de dignidade aos animais. Ele se questiona por que está fazendo este trabalho. Seria por Bev, com quem acaba aliviando sua tensão sexual, pelos cachorros? Ou, no fim, por ele mesmo?

"Curioso que um homem tão egoísta como ele possa estar se oferecendo para servir a cachorros mortos. Deve haver alguma outra maneira, mais produtiva, de se dar par ao mundo, ou para uma visão do mundo. Podia, por exemplo, trabalhar mais horas na clínica." 

Ao aproximar-se dos animais, ele também se reaproxima de seus problemas. Acaba procurando o pai de Melanie. No jantar, lhe é servido frango. Mas ao contrário do carneiro, aqui não há menção à repulsa por ter um animal no prato, pelo contrário. Afinal, ele não os viu em vida. No fim, não há redenção. Há a surpresa de que nem mesmo a mais bela alma poderá salvar David. Ele já desistiu de tudo. Não há nada que o faça se distanciar do presente, tão cruel, tão subversivo.

sábado, 27 de julho de 2024

literatura e animalidade



"Os animais, sob o olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão."

Logo na primeira frase de "Literatura e Animalidade", Maria Esther Maciel afirma que ainda estamos longe de entender os animais.

Este enunciado estabelece o tom de seu estudo, que desafia a percepção tradicional dos animais como meros objetos ou símbolos à disposição do entendimento humano.

A autora comenta ainda a maneira com que tratamos os animais, variando conforme a utilidade que apresentam para nós.

"Temidos, subjugados, amados, marginalizados, admirados, confinados, comidos, torturados, classificados, humanizados, eles não se deixam, paradoxalmente, capturar em sua alteridade radical."

Ao questionar o que é humano e o que é animal, Maciel aponta para as tentativas científicas de definir essa relação, frequentemente apoiadas na racionalidade e na "máquina antropológica do humanismo". Este termo critica a tendência do pensamento humanista ocidental de colocar os humanos no centro do universo, assumindo uma superioridade inerente sobre o mundo natural, incluindo os animais.

A separação entre humanos e animais, acentuada no Ocidente durante o século 18 com a ascensão do pensamento cartesiano, tratava os animais como meras máquinas sem alma. Sob essa visão, estudos científicos rigorosos, como a taxonomia de Lineu, começaram a moldar a investigação zoológica, influenciando também o surgimento dos primeiros zoológicos na Europa.

Após essa introdução, a atenção se volta para o campo do imaginário e para espaços considerados alternativos do saber humano, "nos quais a palavra animal ganha outros matizes, inclusive socioculturais". Maciel aborda a evolução na forma como se denomina obras literárias que trazem o animal. Antes, falava-se em bestiário, termo que ela critica devido às suas conotações negativas e medievais.

"Além disso, por suas origens medievais, o termo deriva da besta, palavra completamente contaminada pela carga simbólica negativa que lhe foi conferida pela tradição judaico-cristã ao longo dos tempos, afinando-se, por extensão, com a noção de bestialidade - qualidade daquilo que é brutal, grosseiro, monstruoso e maligno."

Assim, o termo bestiário esvazia o animal de anima, reforça sua dimensão negativa e marca sua exclusão da sociedade dos chamados "seres racionais".

Surge, felizmente, o termo zooliteratura, mais abrangente e que consolida tudo o que se diz sobre os animais nas diferentes práticas literárias. 

"Conjunto de diferentes práticas literárias ou obras (de um autor, de um país, de uma época) que se voltam para os animais. Nesse sentido, é bem mais aberto e menos cristalizado que o termo bestiário, uma vez que este se inscreve sobretudo na ordem do inventário, do catálogo, designando uma série específica de bichos reais e imaginários, podendo, também - de forma mais genérica -, designar uma coleção literária e/ou iconográfica de animais imaginários ou existentes de um determinado autor ou período cultural."

A autora baseia-se, sobretudo, na obra "O animal que logo sou", do filósofo francês Jacques Derrida, que utilizou o termo zooliteratura ao abordar os animais de Francis Ponge e zoopoética para falar dos animais de Franz Kafka. Ao preferir esses termos ao do bestiário, Derrida os transforma em conceitos que abrangem obras literárias focadas nos animais. 

"O termo zoopoética poderia ser empregado para designar tanto o estudo teórico de obras literárias e estéticas sobre animais quanto a produção poética específica de um autor, voltada para esse universo 'zoológico', como fez Derrida."

Dentro deste contexto, a obra de Franz Kafka, especialmente A Metamorfose (1915), é precursora na inserção de animais para além da visão antropocêntrica, inaugurando uma tradição literária que explora a interseção entre o humano e o não humano através de uma crítica profunda. Ao transformar o protagonista, Gregor Samsa, em um inseto, Kafka traz à tona a animalidade do humano por meio de uma situação surreal que ilumina as qualidades animais inerentes aos humanos. Essa abordagem kafkiana influenciou muitas obras literárias subsequentes, que, embora ainda recorram a alegorias derivadas de bestiários antigos e fábulas tradicionais, agora incorporam essa nova perspectiva, redefinindo o campo da zooliteratura ocidental.

"Trata-se, por isso, de uma obra precursora no horizonte da literatura moderna e contemporânea que problematiza as fronteiras entre humanidade e animalidade. Fronteiras essas que demandam, mais do que nunca, uma abordagem pautada no paradoxo, visto que, ao mesmo tempo que são e devem ser mantidas - graças às inegáveis diferenças que distinguem os animais humanos dos não humanos -, é impossível que o sejam mantidas de modo idêntico, já que os humanos precisam se reconhecer animais para se tornarem humanos." 

Maciel traz inúmeros exemplos a partir de suas análises que justificam seu enunciado e tese. Da Argentina, ela discute as obras de Jorge Luis Borges, como "Manual de zoología fantástica" e "O livro dos seres imaginários", que exploram criaturas reais e mitológicas, expandindo o imaginário animal na literatura. Do Brasil, destaca João Guimarães Rosa com "Meu tio o Iauaretê", que explora a metamorfose e a relação mística entre humanos e animais no sertão brasileiro. Também inclui Clarice Lispector, com "A paixão segundo G.H." e "O búfalo", que tratam da introspecção e da alteridade animal, e Machado de Assis, com "Ideias de canário" e outras obras que questionam a racionalidade humana em comparação com o saber animal.

Da África do Sul, ela aborda J.M. Coetzee e suas obras "Desonra" e "A vida dos animais", que exploram as questões éticas e políticas relacionadas ao tratamento dos animais na sociedade, revelando a marginalização e a violência enfrentadas por esses seres. De Portugal, Maciel menciona autores como Herberto Helder, cujas obras "Última ciência" e "Poemaco" exploram a presença dos animais na poesia, e António Osório, que, em um de seus escritos traz a comunicação das vacas por meio do olhar. Esses são apenas alguns exemplos.Vale a leitura completa para absorver tudo o que esta obra nos proporciona. 

sábado, 13 de julho de 2024

o guardião de segredos de jaipur


"Algumas mentiras devem ser mantidas em segredo."

Voltei para Jaipur e Shimla com os personagens do segundo volume da trilogia da escritora Alka Joshi. "O guardião de segredos de Jaipur" começa com uma tragédia: um grandioso cinema desaba durante a cerimônia de inauguração. O empreendimento, financiado pela marani e construído pela elite da área de Jaipur, era extremamente aguardado pela sociedade, que estava em peso no dia do acidente. Com esse início, minhas expectativas subiram, porém, fiquei frustrada ao ver que o romance foi bem morno, além da introdução de personagens bem maçantes, como Nimmi, jovem viúva de uma tribo montanhosa dos Himalaias e namorada de Malik. Como ela é desagradável. Pobre Malik.

Vale relembrar brevemente o primeiro romance da trilogia, "A pintora de henna", que traz Lakshmi como protagonista. Ainda jovem, ela fugiu de um casamento abusivo e conquistou fama em Jaipur com suas pinturas de henna. A chegada da irmã mais nova, que até então ela desconhecia, transformou sua vida, levando-a às montanhas do Himalaia. Malik, agora protagonista do segundo volume, era seu ajudante, com apenas oito anos. Foi uma leitura extremamente agradável, que me fez rememorar a Índia que nunca visitei, mas que conheço pelas leituras de seus escritores.

Malik, já adulto, se envolve com Nimmi, que se vê totalmente dependente de sua presença, chegando a hostilizar Lakshmi. Esta, por sua vez, deu a volta por cima e agora vive com o marido, cuidando de uma horta medicinal e oferecendo conforto aos pacientes locais. Malik, que desde criança vive com Lakshmi, que praticamente o adotou, retorna ao seu local de origem a fim de ganhar experiência profissional. Lá, reencontra os mesmos personagens que marcaram sua infância. Ele estava na noite do acidente no cinema e, agora, caberá a ele e a Lakshmi descobrirem as causas da tragédia para ajudar o amigo que está sendo acusado.

Eu esperava bem mais. Se bem que o li num momento em que não estava preparada para grandes reviravoltas, e talvez algo sem tanto tempero tenha sido o ideal para meu estado de ânimo.

"Digo a mim mesma que não devo me preocupar com o que não posso controlar; mesmo assim, meu coração está acelerado e o sangue pulsa em meus ouvidos."

sexta-feira, 10 de maio de 2024

memórias de um urso polar


"Você pode pensar que nasci com talentos acrobáticos, que treinei muito para aperfeiçoar minhas habilidades e, então, mostrei orgulhosa os resultados para minha plateia. Essa interpretação é completamente falsa. Nunca escolhi uma profissão; minha vocação nem sequer foi discutida. Eu andava no triciclo e recebia cubos de açúcar como recompensa. Se tivesse, em vez disso, jogado o triciclo longe, não teria mais recebido comida, e sim chicotadas."

Temos uma ursa-polar branca em uma conferência, caminhando em uma livraria e refletindo sobre os direitos humanos e obras de Kafka. E para tornar tudo ainda mais inusitado, essa mesma ursa-polar escreve uma autobiografia que se torna sucesso mundial. Ela transita por esses espaços sem nenhum estranhamento, aparentemente, por parte da espécie Homo sapiens.

É assim que começa nosso mergulho no romance, de 2014, da escritora japonesa Yoko Tawada, radicada na Alemanha. Aliás, seu livro está categorizado como um romance alemão.

"Memórias de um urso-polar" foi concebido a partir de um fato real que chamou a atenção do mundo inteiro: no fim de 2006, nasceu em Berlim um ursinho polar rejeitado pela mãe, ursa que trabalhou anos em um circo na Alemanha Oriental. Criado por funcionários do zoológico, seu nascimento gerou grande polêmica envolvendo ativistas dos direitos dos animais, a direção do local e a opinião pública. Muitos defendiam que ele deveria morrer, já que não estava em seu habitat natural. Argumentava-se que, criado por humanos, poderia desenvolver um apego que não lhe permitiria viver sozinho. O veterinário, no entanto, defendeu que ele poderia viver com humanos até a idade em que normalmente estaria com a mãe, ou seja, três anos. Knut acabou se tornando a principal atração do zoológico, responsável por significativas receitas financeiras, inclusive através da exploração de sua imagem em produtos licenciados. Os direitos autorais para contar sua história também foram vendidos. No Brasil, o livro "Knut. Como um ursinho polar cativou o mundo", de Juliana, Isabelle e Craig Hatkoff e Gerald R. Uhlich, chegou pela Editora Gaia. A obra mostra o zoológico como benfeitor, ignorando, porém, todo o passado de cativeiro do animal e dos verdadeiros motivos que fizeram dele um fenômeno mundial. Em 2008, foi lançado o filme "Knut e seus amigos", que conta sua história. Knut também estampou a capa da revista Vanity Fair. Infelizmente, morreu tragicamente em 2011, aos quatro anos, encontrado boiando no tanque que usava como piscina. O diagnóstico, concluído apenas em 2015, foi uma inflamação autoimune do cérebro. Este é apenas um resumo de sua história, que foi acompanhada de perto por milhares de pessoas ao redor do mundo. Seu tratador, Thomas Dörflein, ganhou notoriedade enquanto cuidava do pequeno animal, mas morreu pouco tempo após ter que se afastar de Knut, vítima de um ataque cardíaco. Um desfecho triste para uma história que começou errada. Muito se conjecturou sobre a afeição de Knut pelo tratador que cuidou dele. Mas, efetivamente, quais eram seus pensamentos?

O filósofo francês Dominique Lestel, em 2001, disse que subestimamos a comunicação dos animais, principalmente quando queremos avaliá-la a partir da nossa própria linguagem. A partir do estudo de vários etólogos, o autor nos apresenta experimentos que tentam desvendar o comportamento dos animais. Há padrões que são identificados, como a dança das abelhas em busca do néctar.

"Karl Von Frish define com rigor o fenómeno dessa dança inicialmente descoberta por N. Unhoc em 1823 e revela a sua extrema complexidade. Ele demonstra que existem duas espécies de dança. A primeira é circular: a obreira executa um ou mais círculos no sentido dos ponteiros do relógio num primeiro tempo, e no sentido inverso num segundo tempo. A outra espécie de dança é trepidante. A obreira colectora de pólen traça uma linha recta vibrando as asas (treze vezes por segundo). Regressa em seguida ao ponto de partida descrevendo um semicírculo à sua direita, descreve de novo uma linha recta, e em seguida outro semicírculo mas desta vez à esquerda. Esta manobra é repetida várias vezes de seguida." (Lestel)

A conclusão é que trata-se, sim, de um meio complexo de comunicação. Porém, ainda fica a pergunta se podemos dizer que elas são providas de linguagem. Pelo menos, tal e qual a concebemos.

"É surpreendente constatar, entre outras coisas, que a questão da comunicação é totalmente subestimada na avaliação do fenômeno cultural no animal, enquanto os antropólogos continuam a explicar que, se os homens têm culturas (e apenas eles, acrescentam in petto…) é porque o homem possui um sistema de comunicação de uma complexidade adequada - a linguagem. Que nível de complexidade podem atingir as comunicações animais? É interessante constatar que é extremamente difícil responder a esta pergunta aparentemente banal." (Lestel)

Outro filósofo francês, Jacques Derrida, afirmou, cinco anos depois, que o pensamento do animal, se de fato existir, reside na poesia. Teoria explorada pela professora brasileira Maria Esther Maciel, que pesquisa sobre os animais na literatura, a zooliteratura.

"Pois o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia, eis aí uma tese, e é disso que a filosofia, por essência, teve de se privar. É a diferença entre um saber filosófico e um pensamento poético." (Derrida)

Tawada assumiu um sujeito animal ao nos inserir sob os pelos brancos da ursa-polar que, dentre suas atividades circenses, hospeda-se em hotéis e participa de jantares. O melhor da leitura é se deixar levar pela narrativa. O livro é dividido em três partes: a primeira, destinada à avó de Knut, que não tem nome. Ela é sempre referenciada como escritora, ursa, conferencista e artista circense. A segunda parte conta a história de Toska, sua mãe, que divide o palco com a domadora Ursula, seu espelho humano. Na terceira, acompanhamos os primeiros passos de Knut. São capítulos que podem ser considerados de forma isolada, mas que entrelaçam histórias e sentimentos.

Logo no início de "A teoria da evolução da avó", surge estranhamento e dúvidas sobre a narradora principal. Seria uma ursa ou uma mulher? A narrativa começa com a matriarca relembrando momentos de sua infância, já sob os cuidados de um humano que lhe fazia cócegas, a alimentava e que, de repente, atou suas patas, de modo que ficar em pé se tornou a única forma de aliviar a dor. Assim começam os treinamentos para os espetáculos destinados a outros humanos.

"Minha língua ainda conseguia se lembrar do gosto do leite materno. Eu pegava o dedo indicador daquele homem com a boca e chupava, o que me acalmava. Os pelos que cresciam no nó dos seus dedos eram como cerdas de uma escova. O dedo se arrastava como verme dentro da minha boca e cutucava. Ele então empurrava meu peito, convidava-me para dentro do ringue."

Não há dúvidas, na primeira página, que estamos diante de uma narradora personagem contando sua trajetória de urso. Porém, logo nos deparamos com esta passagem, que me fez imaginar um corte para outra personagem:

"Escrever: um ato estranho. Quando olhei para a frase que havia acabado de colocar no papel, senti vertigem. Onde estou agora? Entrei em minha história e desapareci nela."

A leitura segue e somos apresentados à sua rotina, que inclui várias participações em congressos. Inclusive, é bem participativa, questionando e sempre dando sua opinião sobre os diversos movimentos abordados.

"Neste dia, participei de um congresso. Ao final, todos os participantes foram convidados para um jantar comemorativo. Quando voltei para o hotel, à noite, tinha uma sede de ursa, que saciei tomando água direto da torneira. O gosto das anchovas oleosas não queria deixar minha boca. No espelho, vi minha boca manchada de vermelho. Era o trabalho magistral da beterraba. Eu não gostava muito de raízes, mas quando as via nadando em um borsh só queria beijá-las. Com as ilhas de gordura, que me abriam o apetite para carne, a beterraba parecia irresistível."

"As molas rangeram sob meu peso de ursa. Sentei no sofá e pensei que a conferência tinha sido, de novo, desinteressante, mas me levara inesperadamente de volta à minha infância. O tema da discussão era a importância da bicicleta para a economia nacional."

Então, a autora começa a nos confundir. Estaríamos diante de um devir-animal, conceito do filósofo francês Gilles Deleuze e do psicanalista Félix Guattari, e que trata do processo de transformação no qual um ser humano se identifica com características ou comportamentos animais?

"A parte superior do meu corpo, macia e corpulenta, é envolvida por pelo branco. Quando levanto meu braço e movo meu tórax um pouco para a frente, centelhas de luz estonteantes voam no ar. Eu me encontrava em meio à ação, enquanto as mesas, as paredes e até as pessoas presentes empalidecem lentamente e se confundiam com o plano de fundo. A cor branca e brilhante de meu pelo se diferencia do branco comum. É permeável. Assim, a luz do sol podia atravessar o pelo e alcançar minha pele, sob a qual era cuidadosamente conservada. Essa é a cor dos meus antepassados, que permitiu que sobrevivessem no círculo ártico."

Seria algo como o homem de Franz Kafka que se vê transformado em um inseto? Uma mulher, porém, tomada pelo espírito de uma ursa-polar. E a narradora continua a nos perturbar mostrando sua interação com seres humanos e alguns personagens que nos deixam dúvidas se são humanos ou não, como o Leão Marinho. Seria apenas uma pessoa que lembra as feições do animal ou o próprio mamífero pelo qual é chamado.

"Lembrei-me de um homem que era chamado de `Leão-Marinho`. Ele era editor de uma revista literária. Quando minha via nos palcos ainda estava a todo vapor, ele era um de meus fãs, e me visitava no camarim com frequência cum um luxuriante buquê de flores."

"Eu também me convenci, à primeira vista, de que nossos corpos não poderiam nunca se unir no ato sexual: o dele era úmido e escorregadio, enquanto o meu era seco e áspero. Tudo o que rodeava sua barba era esplendidamente formado, enquanto as pontas de seus quatro membros eram pateticamente fracas. Em contraste, minha própria força de vida se concentrava nas pontas dos meus dedos. Ele era careca de nascença, enquanto eu era toda coberta por um pelo grosso, da cabeça até a zona mais íntima. Nunca seríamos um bom casal. Mesmo assim, uma vez acabamos nos beijando. A sensação era como se um minúsculo peixe estivesse se debatendo em minha boca."

Aliás, Franz Kafka e seus contos que trazem animais são referenciados e analisados na obra pela grande ursa, especificamente "Investigações de um cão" e "Um relatório para uma academia". No primeiro, o narrador (o cão) está preocupado com o presente, ponderando sobre sua existência ao invés de criar um passado imaginário. Isso a leva a se questionar por que deve inventar um passado autêntico em vez de escrever sobre o presente. Já em "Um relatório para uma academia", a história de um macaco que relata sua transformação em humano a fascina, apesar de despertar também sentimentos de raiva. Para ela, o macaco, que naturalmente pertence a um ambiente tropical, não tem que querer ser um humano, afinal, questiona, qual a grande vantagem em andar sob duas pernas?

E assim vamos acompanhando sua narrativa, o processo de criação da autobiografia, sua falta de identidade: seria russa? alemã? canadense? Nascida na Rússia, ela fez sucesso com o livro que escreveu e, em plena Guerra Fria (sem mencioná-la diretamente), tornou-se alvo de censura e foi "convidada" a ir para a Sibéria participar de um projeto de plantação de bananeiras. Em sua inocência, não compreendeu, de imediato, do que se tratava. Na sequência, o que parece ser uma operação de resgate a leva para Berlim Ocidental, sob o pretexto de outra conferência. De lá, surge a oportunidade para ir ao Canadá, retornando posteriormente para a Alemanha. Enquanto troca de idioma ao passar de um país a outro devido às diversas circunstâncias, ela se pergunta quem realmente é. Até que se casa (outro urso, um homem?) e dá à luz a Toska.

Entramos, então, em "O beijo da morte". Aqui temos a voz da mãe de Knut e de sua treinadora, Ursula, que se propõe a escrever a biografia da ursa que adestra. Vale destacar que no texto original o nome da domadora é Barbara, já que, em alemão, "Bär" (urso) e "Barbara" compartilham uma sonoridade semelhante, enquanto em português, "ursa" e "Ursula" ressoam de forma parecida.

Acompanhamos a jornada de Ursula rumo ao mundo do circo. Desde a curiosidade até o primeiro contato com os animais. E aqui há uma mistura do que ela poderia dominar (jumento, cavalo, leão), o que temia (cachorro) e no que se transformava durante seus devaneios (iguana, urso). Enquanto isso, Toska atua como se fosse sua psicóloga, dando conselhos e ajudando-a a compreender seu passado, especialmente nos diálogos durante viagens oníricas ao Polo Norte.

O relacionamento entre as duas beira o fantástico, aliás, como todo o romance. "O beijo da morte" é o ápice do espetáculo circense conduzido por Ursula, no qual ela coloca um cubo de açúcar na língua, oferecendo-o a Toska.

"Invejo os habitantes do polo Norte. Lá não existem guerras.
Não. Mas mesmo assim chegam lá pessoas com armas. E atiram em nós.
Por quê?
Não sei. Ouvi dizer que os seres humanos têm um instinto caçador. De instinto não entendo nada.
Acho que a caçada antigamente era importante para a sobrevivência dos seres humanos. Hoje não mais, só que eles não conseguem parar. O ser humano talvez seja feito de movimentos sem sentido. Por isso, não reconhece mais os movimentos necessários para viver. É manipulado pelos restos de suas lembranças."

O Polo Norte é retratado nos sonhos de Ursula como um lugar idílico e onírico, onde ela anseia mergulhar no ar gelado e na paisagem nevada, livre das complexidades e confinamentos de sua vida circense. Vale para a mulher. Vale para a ursa. Esse desejo pelo Polo Norte é ecoado em seus momentos de introspecção e é usado metaforicamente para representar um estado de liberdade que almeja, contrastando com a realidade, cheia de amarras, de sua vida: marido, chefe, colegas do circo, afirmação de sua capacidade.

"Prometi a você que ia escrever a história de sua vida. Até agora só escrevi sobre a minha. Desculpe.
Não tem problema. Primeiro você deve traduzir sua própria história em palavras. Então sua alma estará desobstruída e, assim, terá lugar para uma ursa.
Você tem a intenção de entrar em mim?
Sim.
Estou com medo."

No primeiro capítulo, a narrativa nos introduz a uma ursa que permanece sem nome, mergulhando-nos em uma atmosfera de incerteza onde não é claramente definido se estamos diante de um animal, de um ser humano ou de uma entidade em metamorfose. Há um jogo de identidades entre o eu humano e o eu animal. Na interação entre Toska e Ursula, essa dualidade se manifesta com mais clareza. Apesar da aparente simbiose, a dinâmica de poder é questionada, desafiando a noção tradicional de supremacia humana. A passagem a seguir captura a tensão entre identificação e distinção, mas também propõe uma reflexão sobre a igualdade intrínseca entre as formas de vida, questionando as barreiras impostas pelo especismo.

"Acordei do sono e vi Toska à minha frente. Ela estava curvada e dormia. Seu travesseiro era seu braço esquerdo. Como se fosse uma imagem espelhada, eu estava na mesma posição."

Na sequência, somos apresentados ao pequeno Knut, o ursinho que inspirou o romance. E aqui temos sua história verdadeira contada sob o que poderia ser seu ponto de vista. Parece tudo tão real. Ele não sabe o que o espera, como foi parar ali, em uma caixa que imagina ser a totalidade do mundo, mas que, aos poucos vai se revelando pequena. Sons o levam a imaginar que há algo a mais a ser descoberto. Ele ouve ratos, pássaros e sem saber quem são, já os distingue. A afeição ao tratador, aqui no romance chamado de Matthias, é grande. Através de seu olhar ele assiste à TV e é apresentado ao mundo que lhe é possível ver. Sempre intermediado, sempre por meio do seu espaço restrito. Mathias, por outro lado, também é bastante apegado ao urso e parece se ressentir do espetáculo que aguarda o pequeno Knut. Procura estender qualquer momento que passam juntos na esperança que a grande aparição pública nunca chegue. Mas isso é inevitável. Cabe tornar o momento o mais natural ao ursinho, que se delicia por estar em um espaço maior brincando com o "pai", "amigo", "único ser que lhe é próximo". Juntos, passam a andar pelo zoológico de Berlim e Knut conversa com outros animais, todos presos e com suas questões. Aos poucos, o urso aprende a discernir o que se espera dele e entende que está ali para entreter. Há grande reflexão sobre o Polo Norte ao longo de suas interações, e Knut tenta entender esse lugar místico de onde dizem que ele veio.

"Todas as manhãs, Knut ouvia o canto dos pássaros que se alegravam quando a escuridão se retirava e o sol chegava para começar seu turno. Os seres alados ficavam atormentados, com medo de não achar nada para o café da manhã. Às vezes, o mais fraco entre eles era atacado por pássaros mais fortes e fugia gritando pelo céu. Knut não conseguia vê-los, mas seus sons eram vívidos o bastante para poder imaginar seus dramas rotineiros. De vez em quando, pássaros especialmente atrevidos vinham e olhavam dentro do quarto de Knut. Todos eram chamados de “pássaros”, mesmo que a única coisa que tivessem em comum fossem as asas. O pardal, uma mistura marrom de modéstia e agitação, o melro com seu humor despretensioso, a máscara pintada da pega-rabuda e o pombo, que não perdia a oportunidade de repetir seu lema favorito: “Mesmo? Que interessante. Eu não fazia ideia!”. Knut ouvia incontáveis vozes aviárias e imaginava que o mundo lá fora devia ser repleto de pássaros. Por que Knut, Matthias e o rato não tinham asas? Se tivesse asas nas costas, ele teria voado diretamente para a janela para olhar para fora."

Neste romance, Yoko Tawada nos transporta para uma visão do mundo sob a perspectiva animal. Lestel disse que ainda estamos muito distantes de compreender verdadeiramente a linguagem não-humana. Jacques Derrida e Maria Esther Maciel exploram ainda mais esse pressuposto, propondo que o pensamento animal encontra sua expressão na poesia. E foi exatamente isso que Tawada fez, por meio da literatura: nos deu um vislumbre de pensamentos muitas vezes ignorados e maltratados. Traz ainda as diferenças na forma como tratamos os animais, dependendo de sua utilidade ou apelo estético. Animais como os ursos polares e elefantes, por exemplo, são muitas vezes venerados e, sob o pretexto de proteção, capturados e aprisionados, enquanto outros, como ratos, são repudiados. Um diálogo marcante entre Knut e um panda reflete sobre como a "fofura" impõe aos animais um fardo de constante vigilância e exploração humana.

"Somente os pandas viviam em outra rua, mesmo pertencendo à família dos ursos. Eles não ficavam em uma área aberta, mas em uma imensa jaula. Não tinham terraço, mas contavam com um jardim de bambus. Matthias me disse: “Christian cuidou muito bem de Yang Yang. A morte dela o devastou. Ele ficou de luto por meses. Graças a você, voltou aos eixos”. Tentei imaginar como seria perder um protegido, ficar profundamente triste e depois voltar aos eixos, pondo-se de pé sobre duas ou quatro pernas, graças a um novo protegido. Meu fluxo de pensamento foi interrompido quando um panda, que até aquele momento estava mordiscando grandes folhas verdes, me olhou de cima a baixo e disse, seco: “Você é realmente fofo. Mas cuidado! Os animais que são fofos demais são os que estão morrendo”. Assustado, perguntei o que ele queria dizer com aquilo. “Você é fofo, e eu também. Como estamos em risco de extinção, temos que ativar o instinto de proteção dos humanos. Por esse motivo, a natureza está tornando nosso rosto cada vez mais adequado ao gosto humano, para que sejamos cada vez mais fofos. Olhe para os ratos. Eles não se importam nem um pouco se os humanos os consideram fofos. A espécie deles não tem nenhum risco de ser extinta.” A avó de Knut também traz esses pontos quando reflete sobre a maneira como os humanos entendem e atribuem os 'direitos humanos', contrastando-os com os direitos dos animais."

Essa reflexão também permeou os pensamentos da avó de Knut. Para ela, a ideia de 'direitos humanos' parecia uma noção distorcida, uma construção puramente humana que ignorava as complexidades e os direitos de outras formas de vida.

"Humanos que só pensavam em humanos tinham criado o conceito de direitos humanos. Um dente de leão não tinha direitos humanos, nem mesmo um aguaceiro, uma, uma água-viva, a chuva, o coelho. Talvez uma baleia tivesse. Lembrei-me do texto que li em uma conferência intitulada: 'A caça às baleias do capitalismo`: os grandes mamíferos tinham mais direitos do que os menores, como o rato, o que provavelmente se devia ao gosto de alguns grupos humanos, que davam mais valor a animais maiores. Entre os mamíferos que não eram vegetarianos nem viviam na água, nós, ursos-polares, éramos os maiores. Além daquela teoria, eu não conseguia pensar em nenhum motivo pelo qual me perseguiram para tentar me dar os tais direitos humanos."

A escritora nos encoraja a termos uma compreensão mais empática e poética da vida animal. Ao abordar as consequências do aquecimento global e das catástrofes ambientais, faz um apelo urgente para reconsiderarmos nossa relação com todos os seres vivos. Como bem pontua Maria Esther Maciel, Tawada, ao escrever essas biografias ficcionais (ou reais, no caso de Knut), que entrelaçam humanos e não humanos nos lembra que, no final, todos compartilhamos o mesmo planeta.

"Ela compõe três autobiografias ficcionais de ursos num só livro, através de um engenhoso entrelaçamento de mundos humanos e não humanos, criando um complexo diálogo entre as narrativas em primeira e terceira pessoas. Ao fazer isso, Tawada se empenha em 'traduzir' para palavras aquilo que imagina serem os pensamentos mais íntimos dos animais, enquanto simultaneamente questiona e redefine nossos conceitos arraigados de humanidade e humanismo. Além disso, ela aborda as devastadoras consequências do aquecimento global e das catástrofes ambientais para a vida no planeta." (Maria Esther Maciel)

O romance culmina com uma cena maravilhosamente triste, na qual Knut, sob a neve que começa a cair, se encanta, vivenciando um breve vislumbre de liberdade, ao menos naquele instante efêmero.

"Algo mais escuro que a luz voava no entremeio. Um floco de neve. Estava nevando! Mais um floco. Neve! Mais um floco. Neve! E mais um floco. Neve! Os flocos dançavam aqui e ali. Neve! À primeira vista, parecia surpreendentemente escura, apesar de não ser nada mais do que uma branca cristalização. Neve! Que magnífico perceber que o brilho das cores em movimento instantaneamente escurecia. Neve! Os flocos giram ao cair. Neve! Mais um floco. Neve! E mais um. Neve! Não tinha fim. Eu só olhava pra cima. De todos os lados, ao meu redor, folhas brancas voavam como as folhas de outono em uma tempestade. A neve era uma espaçonave, levou-me junto e voou o mais rápido que podia em direção ao crânio — ao crânio de nossa terra."


 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

os sete saberes necessários à educação do futuro


O  papel das escolas e da educação na formação de indivíduos

Em 2010, Edgar Morin esteve no Brasil para a Conferência Internacional sobre os Sete Saberes Necessários à Educação do Presente, realizada em Fortaleza, no Ceará. Naquela ocasião, o sociólogo francês explorou o que ele chamou de buracos negros que podem prejudicar a formação dos cidadãos.

Morin argumenta que "a humanidade precisa de mentes mais abertas, escutas mais sensíveis, pessoas responsáveis e comprometidas com a transformação de si e do mundo". E isso só será possível se superarmos barreiras como egocentrismo, hiperespecialização e falta de empatia, entre outros desafios. Apesar dos obstáculos, ele propõe caminhos que envolvem principalmente a escola e a aceitação de nossa conexão com a natureza.

Ele destaca que um dos principais pontos é o homem aceitar que ele faz parte da natureza. Esse resgate torna-se necessário, sobretudo diante de uma cultura cada vez mais segmentada e dicotômica, que separa o que é razão e emoção, o que é humano e o que é natureza.

"São necessárias", Morin continua, "novas práticas pedagógicas para uma educação transformadora que esteja centrada na condição humana, no desenvolvimento da compreensão, da sensibilidade e da ética, na diversidade, na pluralidade de indivíduos, e que privilegie a construção de um conhecimento de natureza transdisciplinar, envolvendo as relações indivíduo↔sociedade↔natureza. Esta é a condição fundamental para a construção de um futuro viável para as gerações presentes e futuras."

O livro é dividido em sete capítulos, cada um dedicado a um saber proposto por Morin como sendo essencial, mas que ainda permanecem ignorados. E eu faço um adendo: mesmo depois de 14 anos, ainda não avançamos muito.

Capítulo I: As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão


"A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão. A teoria da informação mostra que existe o risco do erro sob o efeito de perturbações aleatórias ou de ruídos (noise) em qualquer transmissão de informação, ou em qualquer comunicação de mensagem."

Edgar Morin aborda as fraquezas do conhecimento humano, destacando sua constante ameaça pelo erro e pela ilusão. Discute como a percepção humana é fundamentalmente uma reconstrução cerebral de estímulos externos, propensa a falhas significativas. Uma das causas é a mentira que contamos a nós mesmos, que ele chama de self-deception. Nossas mentes tendem a selecionar e até alterar memórias para se ajustarem a uma autoimagem favorável, evidenciando o potencial humano para a criação de falsas lembranças ou o esquecimento seletivo de experiências desfavoráveis. Isso, argumenta, é um mecanismo de defesa psicológico, mas que perpetua erros. Evidentemente, a importância da imaginação nesse processo de conhecimento não é descartada, já que contempla nossos sonhos e ideias.

"A importância da fantasia e do imaginário no ser humano é inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constitui-se um mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam necessidades, sonhos, desejos, ideias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão, ou concepção, do mundo exterior. Cada mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-deception), que é fonte permanente de erros e ilusões. O egocentrismo, a necessidade de autojustificativa e a tendência a projetar sobre o outro a causa do mal fazem que cada um minta para si próprio, sem detectar esta mentira, da qual, contudo, é o autor."

O autor também traz os paradigmas científicos, criticando a racionalidade fechada, que se alimenta de si mesma e se converte em racionalização, uma das maiores fontes de equívocos. Em contrapartida, defende a racionalidade aberta e autocrítica, capaz de reconhecer e ajustar suas próprias limitações. Em outras palavras, ele defende a escuta ativa, inclusive sobre teorias que vão de encontro ao que acreditamos, pois somente assim podemos ampliar o conhecimento, contribuindo efetivamente para o que ele chama de educação do futuro, mais empática, mais democrática. Impossível não lembrar aqui do que nos diz Paulo Freire ao falar sobre educação progressista, em "Pedagogia da esperança": "O papel do educador ou da educadora progressista, que não pode nem deve se omitir, ao propor sua 'leitura do mundo', é salientar que há outras 'leituras de mundo', diferentes da sua e às vezes antagônicas a ela."

"A racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. A racionalização nutre-se das mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui uma das fontes mais poderosas de erros e ilusões. Dessa maneira, uma doutrina que obedece a um modelo mecanicista e determinista para considerar o mundo não é racional, mas racionalizadora."

"O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. É não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências."

Os paradigmas dominantes, embora esclarecedores, também podem ser cegantes, ocultando a verdade sob camadas de pré-concepções culturalmente reforçadas. Ele exemplifica com o "paradigma cartesiano" de separação entre sujeito e objeto, mostrando como essa divisão fundamental pode tanto iluminar quanto obscurecer nossa compreensão do mundo.

Além disso, aborda o conformismo cognitivo a partir do imprinting cultural (termo proposto por Konrad Lorenz, naturalista austríaco que estudou o comportamento dos animais), ou seja, nascemos e já somos levados a uma sequência de vida preestabelecida, por exemplo, ir para a escola, arrumar um bom emprego, casar e ter filhos. Sem querer, já estamos repetindo padrões e deixando que a transformação nos escape, muito por conta de julgamentos. E nessa linha, é importante avaliar como os mitos e ideias, componentes da noosfera, voltaram-se sobre nós, "invadindo-nos com emoção, amor, raiva, êxtase e fúria. Os humanos possuídos são capazes de morrer ou de matar por um deus, por uma ideia."

O sociólogo finaliza o capítulo chamando uma reforma no pensamento que abrace a complexidade, a incerteza e a interdisciplinaridade como essenciais para a verdadeira compreensão e para a preparação dos indivíduos para os desafios de um mundo globalizado e interconectado. Precisamos estar preparados para o inesperado e, assim, quando o novo chegar, sermos capazes de rever nossos conceitos.

Capítulo II: Os princípios do conhecimento pertinente


O acesso e a organização das informações são desafios significativos para a sociedade contemporânea. Morin nos incita a perceber e a conceber o mundo de maneira integrada, considerando o contexto global, o multidimensional e o complexo. Inspirado pelo princípio do cientista francês do século XVII Blaise Pascal, ele ressalta que "é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes", destacando a interdependência inescapável entre todos os elementos.

A realidade complexa, descrita como "complexus" (o que foi tecido junto), ocorre quando diferentes componentes, essenciais à totalidade, como o "econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico" estão intrinsecamente ligados. Esse entrelaçamento desafia nossa era global, tornando imperativa a reforma do pensamento. A especialização excessiva, embora tenha avançado o conhecimento em áreas específicas, contribuiu para a fragmentação da compreensão global, enfraquecendo a responsabilidade e a solidariedade.

O principal ponto é que o não entendimento do global acaba distanciando as pessoas da responsabilidade com o todo, ou seja, não avaliamos o impacto de nossas ações isoladas no planeta. Um bom exemplo é quando compramos uma bebida em garrafa de plástico. Mesmo que tenhamos a 'boa consciência' de descartá-la corretamente, não sabemos ao certo o que será feito dela. O resultado é que o oceano está cheio desse tipo de resíduo, com vários animais padecendo.

"O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade (cada qual tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada), assim como ao enfraquecimento da solidariedade (cada qual não mais sente os vínculos com seus concidadãos)."

"Desse modo, as realidades globais e complexas fragmentam-se", Morin lamenta a separação do conhecimento humano em disciplinas isoladas, que, ao invés de unir, isolam as dimensões da vida humana em compartimentos.

"Efetuaram-se progressos gigantescos nos conhecimentos no âmbito das especializações disciplinares, durante o século XX, porém estes progressos estão dispersos, desunidos, devido justamente à especialização, que, muitas vezes, fragmenta os contextos, a globalidade e as complexidades."

O capítulo critica a especialização fechada que impede a visão global e essencial dos problemas, tornando os especialistas incapazes de interpretar crises e prever suas consequências. Somente um pensamento que seja capaz de integrar, ao invés de dividir, permitirá a coexistência na complexidade do mundo moderno.

Capítulo III: Ensinar a condição humana


"A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária; uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua humanidade comum e, ao mesmo tempo, reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. Conhecer o humano é, antes de tudo, situá-lo no universo, e não separá-lo dele."

Neste capítulo, que eu considero um dos mais significativos, Edgar Morin destaca a importância de entender o ser humano em sua totalidade, integrado ao cosmos e à biosfera terrestre. Precisamos reconhecer que somos ao mesmo tempo parte do universo e seres com uma cultura e consciência próprias. Segundo ele, "o homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura". Mas isso não faz com que a humanidade seja isolada da natureza. Pelo contrário, estamos enraizados tanto no cosmos físico quanto na esfera viva. "O humano é um ser, a um só tempo, plenamente biológico e plenamente cultural, que traz em si a unidualidade originária."

Morin explica que a hominização, processo evolutivo de milhões de anos, ilustra como a animalidade e a humanidade são inseparáveis na formação da condição humana. "Como seres vivos deste planeta, dependemos vitalmente da biosfera terrestre; devemos reconhecer nossa identidade terrena física e biológica."

Por meio de avanços em várias disciplinas científicas, como cosmologia, ecologia e biologia, obtemos novas perspectivas sobre nosso lugar no universo. No entanto, esses conhecimentos frequentemente permanecem fragmentados, o que mantém a humanidade "esquartejada" em diferentes aspectos de entendimento. Somos seres que combinam racionalidade com pulsões, sapiência com loucura, trabalho com ludicidade, e realidade com imaginação. A educação do futuro, portanto, deve dar conta do reconhecimento dessa condição complexa e contraditória, preparando-nos para navegar pela vida com uma compreensão profunda de nossa unidade com o mundo natural e nossa distinção cultural e cognitiva.

"Devemos reconhecer nosso duplo enraizamento no cosmos físico e na esfera viva", argumenta, destacando a importância de entender nossa conexão essencial tanto com o universo físico quanto com a vida na Terra. O principal dano ao separar o humano da natureza são as consequências ambientais que enfrentamos, sobretudo quando nos colocamos acima da flora e da fauna. Em especial, os animais sofrem diariamente por entendermos que somos superiores, que somente nós sentimos dor. Observamos isso nos matadouros e nas consequências ambientais decorrentes da produção de carne, onde a vida animal é frequentemente desvalorizada. Essa percepção de separação entre humanidade e natureza é criticada profundamente por pensadores como o brasileiro Ailton Krenak, que em sua obra "Ideias para adiar o fim do mundo" reflete: "Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza."

Esta visão integral reforça a urgência de uma educação que promova a consciência de nossa interdependência com todo o sistema vivo, impulsionando-nos a agir de maneira mais responsável e conectada com todo o ecossistema.

Capítulo IV: Ensinar a identidade terrena


No Capítulo IV, Morin continua a abordar a necessidade de uma nova consciência global na educação, reconhecendo que somos cidadãos de um planeta interconectado. Ele cita o cientista russo Vladimir Vernadsky (pioneiro em considerar a biosfera como um sistema dinâmico e essencialmente interligado) para destacar essa conscientização: “Pela primeira vez, o homem compreendeu realmente que é um habitante do planeta e, talvez, deva pensar ou agir sob novo aspecto, não somente sob o de indivíduo, família ou gênero, Estado ou grupo de Estados, mas também sob o aspecto planetário.” Esta perspectiva exige um pensamento que integre a diversidade e a unidade da condição humana, desafiando a educação a promover uma identidade que seja ao mesmo tempo local e global.

"A diáspora da humanidade não produziu nenhuma cisão genética: pigmeus, negros, amarelos, índios, brancos vêm da mesma espécie, possuem os mesmos caracteres fundamentais de humanidade", ou seja, apesar das vastas diferenças culturais, todos os humanos compartilham uma essência comum. Morin adverte sobre os perigos contemporâneos, como a ameaça nuclear e a crise ecológica, que exigem uma resposta coletiva e uma responsabilidade compartilhada. Cabe à educação conscientizar sobre como nossas ações afetam o planeta e a necessidade de agir de maneira que preserve a Terra para as futuras gerações.

"Por isso, é necessário aprender a `estar aqui` no planeta. Aprender a estar aqui significa: aprender a viver, a dividir, a comunicar, a comungar; é o que se aprende somente nas culturas singulares — e por meio delas. Precisamos doravante aprender a ser, a viver, a dividir e a comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também ser terrenos. Devemos dedicar-nos não só a dominar, mas a condicionar, a melhorar, a compreender."

Capítulo V: Enfrentar as incertezas


A incerteza surge como uma característica fundamental do nosso tempo, questionando a crença no progresso como algo linear e inevitável. "A tomada de consciência da incerteza histórica acontece hoje com a destruição do mito do progresso. O progresso é certamente possível, mas é incerto." Esta reflexão leva à compreensão de que as mudanças e os desenvolvimentos podem gerar tanto oportunidades quanto desafios.

Morin introduz o conceito de "ecologia da ação", que descreve como as ações humanas interagem com o ambiente de formas complexas e muitas vezes inesperadas, frequentemente com consequências não intencionadas. Ele argumenta que, diante da complexidade e da interdependência das questões globais, as estratégias devem ser flexíveis e adaptativas, capazes de mudar em resposta a novas informações e condições. Não adianta ir com planos fechados, preconcebidos achando que tudo seguirá do jeito que pensamos.

"A ecologia da ação é, em suma, levar em consideração a complexidade que ela supõe, ou seja, o aleatório, o acaso, a iniciativa, a decisão, o inesperado, o imprevisto, a consciência de derivas e transformações."

"Um princípio de incerteza cérebro-mental", menciona Morin, reflete a natureza falível da cognição humana, onde até mesmo nossa percepção e entendimento estão sujeitos a erro e revisão. Este reconhecimento deve nos levar a abordar os problemas globais com humildade e disposição para reavaliar e ajustar nossas ações.

Capítulo VI: Ensinar a compreensão


Neste capítulo, Morin destaca a distinção entre a mera transmissão de informações e a verdadeira compreensão. Ele observa que, embora as ferramentas modernas de comunicação facilitem o compartilhamento de informações, elas não garantem a compreensão mútua.

"Lembremo-nos de que nenhuma técnica de comunicação, do telefone à internet, traz por si mesma a compreensão. A compreensão não pode ser quantificada. Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra. Nela se encontra a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade."

O teórico reflete ainda sobre como a proximidade pode intensificar mal-entendidos: "quanto mais próximos estamos, menos compreendemos, já que a proximidade pode alimentar mal-entendidos, ciúmes, agressividade, mesmo nos meios aparentemente mais evoluídos intelectualmente."

A compreensão verdadeira envolve uma apreciação mais profunda das complexidades humanas e das diferenças culturais. "Compreender significa intelectualmente apreender em conjunto, com-prehendere, abraçar junto (o texto e seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno)". A compreensão entre as pessoas é essencial para a solidariedade intelectual e moral da humanidade, e deve ser uma prioridade educacional por meio de uma abordagem que valorize o diálogo e a empatia, permitindo que as pessoas não apenas compartilhem informações, mas também criem laços baseados no respeito mútuo e na compreensão intercultural. Mais uma vez não há como não lembrar de Paulo Freire e seu legado. Vale citar, bell hooks, norte-americana que se inspira em sua teoria e que, em "Ensinando a transgredir", diz que ensinar não é apenas passar adiante uma informação, o conhecimento, mas contribuir e participar, de fato, do crescimento intelectual e espiritual dos alunos. E reconhecer que todos influenciam e contribuem com a dinâmica da sala de aula. "Quando levamos nossa paixão à sala de aula, nossas paixões coletivas se juntam e frequentemente acontece uma reação emocional, que pode ser muito forte", afirma a professora e escritora.

É importante reforçar que "comunicação não garante a compreensão. A informação, se for bem transmitida e compreendida, traz inteligibilidade, condição primeira necessária, mas não suficiente, para a compreensão." Morin identifica duas formas de compreensão: intelectual (objetiva) e humana (intersubjetiva). A compreensão intelectual exige clareza e explicação, tratando o tema como um objeto a ser elucidado por métodos objetivos. Já a compreensão humana intersubjetiva provavelmente envolve uma abordagem mais empática, considerando as perspectivas e experiências dos outros. Em essência, uma comunicação eficaz demanda não apenas a transmissão clara da informação (inteligibilidade), mas também a adoção de estratégias que garantam o entendimento tanto no nível intelectual quanto no humano. E isso só é possível ouvindo, dialogando e acolhendo.

Capítulo VII: A ética do gênero humano


Edgar Morin aborda a necessidade de uma ética global que responda aos desafios colocados pela interdependência mundial. Ele argumenta que, em um mundo cada vez mais conectado, as ações de indivíduos e nações têm implicações que transcendem fronteiras nacionais e culturais, exigindo uma nova compreensão de responsabilidade e solidariedade.

A democracia, em resposta à complexidade crescente da sociedade global, não deve ser vista simplesmente como a soberania do povo, mas como um sistema que integra a autolimitação, o respeito pelos direitos individuais e a proteção da vida privada. "A democracia comporta, ao mesmo tempo, a autolimitação do poder do Estado pela separação dos poderes, a garantia dos direitos individuais e a proteção da vida privada", descreve ele, apontando para a necessidade de equilibrar diversos interesses e perspectivas.

A ideia de uma "Pátria" evoluiu de uma noção biológica para uma concepção ética e política, na qual a humanidade é vista como uma comunidade de destino que deve cooperar para enfrentar desafios comuns, como as crises ecológicas e sociais. Este sentimento de pertencimento a uma comunidade global deve ser acompanhado por um compromisso com a preservação e a melhoria das condições de vida em todo o planeta.

"A Humanidade deixou de constituir uma noção apenas biológica e deve ser, ao mesmo tempo, plenamente reconhecida em sua inclusão indissociável na biosfera; a Humanidade deixou de constituir uma noção sem raízes: está enraizada em uma `Pátria`, a Terra, e a Terra é uma Pátria em perigo."

Finalmente, Morin conclama por uma ética que transcenda diferenças culturais e nacionais e fomente uma responsabilidade coletiva. Ele sugere que, em vez de impor uma visão única de moralidade, devemos buscar um diálogo que permita uma variedade de perspectivas éticas, contribuindo para uma compreensão mais rica e inclusiva do que significa ser humano em um mundo interconectado.

sábado, 9 de março de 2024

a pintora de henna




"Ainda não percebeu, dr. Kumar, que o caminho errado às vezes pode acabar se revelando o certo?"

Fazia tempo que eu não lia um romance indiano. Houve uma época em que devorava um atrás do outro. São histórias cativantes, sensíveis e que me permitem viajar por esta cultura que tanto admiro. Cheguei a elencar alguns títulos no post "A Índia é bem mais perto do que parece", de 2012. Ainda terei meu momento ao vivo neste país. Mas enquanto este dia não chega, viajei para Ajar (Utta Pradesh), Jaipur (Rajastão) e Shimla (Himachal Pradesh) com "A pintora de henna", primeiro livro da trilogia de Jaipur, da escritora Alka Joshi. Ela nasceu na Índia e aos nove anos se mudou com a família para os Estados Unidos. Mas são suas origens que estão estampadas em seu texto, muito pela inspiração da mãe, que foi quem a incentivou a escrever. Aliás, este é seu livro de estreia e a adaptação já está em produção pela Netflix.

A história começa em 1955, oito anos após a independência da Índia. Curioso falar em independência para uma das nações mais antigas do mundo. Mas, infelizmente, houve o colonialismo e todas as suas consequências. E isto está presente no livro. O pai da protagonista era um professor e ativista político que perdeu tudo lutando contra os ingleses, sonhando com o dia em que seu país voltasse a ser livre. Embora não seja o mote principal da obra, os rastros de sua jornada ficam cravados nas duas filhas, que carregam suas dores. Marcas que Lakshmi transformou em arte por meio do seu trabalho com henna. Ela é uma das artistas mais requisitadas de Jaipur para pintar os corpos das mulheres da alta sociedade, além de ser também uma espécie de curandeira. Está em ascensão e seu objetivo com o trabalho é terminar sua casa e chamar seus pais para virem morar com ela. Há muitos anos, com apenas 17 anos, ela os deixou em Ajar, fugindo do marido abusivo e que não escolheu. Infelizmente, quando está prestes a ter seu próprio lar, recebe a visita do ex e da irmã que até então não conhecia, e por quem passa a ser responsável. Claro que a vida dela não é fácil, cheia de nuances, meia-verdades e extremo cuidado com o que fala. E Radha, com seu jeito espontâneo e espírito rebelde, vem bagunçar um pouco as estruturas. Em sua jornada, ela conta com a ajuda de Malik, um garoto de sete ou oito anos, que é seu ajudante e principal apoio, além de um personagem cativante, assim como outros que surgem em seu caminho, como Samir, Kanta e Kumar. Shimla, na base do Himalaia, é outro cenário dessa aventura. Já comprei os outros dois volumes e, em breve, volto aqui para contar como a história termina.

"Primeiro, o pandit fez um altar para o Senhor Ganesh. De tempos em tempos, ele consultava um livro de encantamentos muito manuseado, embora parecesse saber as palavras de cor. — “A presa que ele segura representa serviço; o aguilhão nos impulsiona por nosso caminho; a corda nos lembra daquilo que nos prende; aos seus protegidos ele concede todas as dádivas.”


domingo, 14 de janeiro de 2024

meus dias na livraria morisaki


"De vez em quando a gente tem que parar tudo e reavaliar. É como se fosse uma parada na longa viagem que é a vida. Aqui é como um cais, onde você ancorou seu navio por um tempo, para descansar. Quando se sentir melhor, é só zarpar de novo."


Mais um presente certeiro de Natal. Mas tenho que confessar que comecei a ler achando que tratava-se da continuação de "O gato que amava os livros", do escritor japonês Sosuke Natsukawa. Tinha certeza de que o protagonista era o mesmo garoto que herdou a livraria do avô, agora um homem perto dos cinquenta anos. E assim, com esta certeza, fui lendo. Até que surgiram algumas partes estranhas, que não se conectavam com a leitura anterior. E eis que fui, finalmente, bater os nomes. Apesar de partir de uma premissa bastante parecida, os autores, os personagens e o cenários são totalmente distintos. Lá tínhamos um adolescente, Rintaro, que perde o avô e herda uma livraria mágica, literalmente. Em "Meus dias na livraria Morisaki", de Satoshi Yagisawa,  também temos um herdeiro de livreiro, Satoru. Mas o cenário é mais realista. Estamos no bairro Jinbôchô, em Tóquio, conhecido por suas livrarias, verdadeiro paraíso para os amantes de livros. Satoru resgata sua sobrinha, Takako, que não via há anos, da depressão. Com vinte e cinco anos, ela levava uma vida sem grandes emoções. Tinha um emprego ordinário e um namorado que, como se fosse a coisa mais normal do mundo, anuncia que está noivo e vai se casar. Com outra pessoa. Ocorre que a pobre Takako ansiava por um pedido de casamento. Resultado, ela desmorona. Saturo, que também foi largado pela esposa, a convida para passar uns dias na livraria. Mesmo relutante, ela aceita e eis que toma gosto pela coisa. Apaixona-se pelo ambiente velho e cheio de história, pelos livros e pela nova vida. Lá pelas tantas a esposa de Saturo, Momoko, retorna, esclarecendo o motivo de sua fuga e colocando mais aventura na vida da moça. Romance sem reviravoltas, previsível, mas super gostoso de acompanhar. Já quero ir para esse bairro das livrarias, assim como as montanhas Okutama, que aparecem na trama.




sábado, 6 de janeiro de 2024

A biblioteca de Paris



"A biblioteca é o meu porto seguro. Sempre consigo encontrar um cantinho das estantes para chamar de meu, para ler e sonhar. Quero garantir que todos tenham essa oportunidade, principalmente as pessoas que se sentem diferentes e precisam de um lugar para chamar de seu."

O título e a capa foram suficientes para eu me empolgar com o presente que acabara de receber de Natal e iniciar, quase que imediatamente, a leitura deste delicioso livro. "A biblioteca de Paris", da norte-americana Janet Skeslien Charles, se passa em dois tempos: 1939-1945 e 1983-1989. Também fala das duas vidas da protagonista, a francesa Odile. Quando era jovem e cheia de sonhos, em Paris, e bem mais tarde, nos Estados Unidos, afogada em lembranças, culpa e solidão.

A inspiração para o romance veio quando Janet Skeslien Charles trabalhou na Biblioteca Americana de Paris e ouviu dos colegas a história sobre como os funcionários mantiveram o local aberto durante a segunda grande guerra mundial. "Os acontecimentos do livro se baseiam em pessoas e eventos reais, mas mudei alguns elementos", nos conta a autora.

No início da narrativa, somos apresentados, de forma apaixonada, à Classificação Decimal de Dewey (CDD), sistema utilizado em praticamente todas as bibliotecas do mundo para organizar suas coleções. Criado em 1876 pelo bibliotecário e educador norte-americano Melvil Dewey, utiliza números para classificar os livros em categorias e suas subcategorias. Sugiro a leitura do artigo "Classificação Decimal de Dewey: aplicação das regras de construção de notação" para conhecer mais este modelo e sua aplicabilidade, que tanto encantaram nossa protagonista.

"Números pairavam como estrelas dentro da minha cabeça. 823. Os números eram a chave para uma vida nova. 822. Constelações de esperança. 841. No meu quarto, tarde da noite, ou de manhã a caminho de buscar croissants, séries e mais séries - 810, 840, 890 - ganhavam a forma diante dos meus olhos. Eles representavam a liberdade, o futuro. Junto dos números, eu tinha estudado a história das bibliotecas."

E é a partir dessa perspectiva que começamos a acompanhar a jovem Odile rumo à entrevista para uma vaga na Biblioteca Americana de Paris, o emprego dos seus sonhos. Ela é aprovada e lá ganha muito mais que o refúgio em meio aos livros. Amadurece e faz também grandes amigos, como a inglesa Margareth, frequentadora e voluntária, e Miss Reader, a diretora. Odile mora com os pais e o irmão gêmeo. No decorrer da trama, apaixona-se e fica noiva. No entanto, a guerra adia todos os planos e as prioridades mudam. A tranquilidade da biblioteca é ameaçada, começam as perseguições, a recessão de alimentos e o medo atinge a todos. Contudo, os laços criados e o amor pelos livros unem bibliotecários e alguns poucos frequentadores, que continuam com a rotina de visitar o local. Juntos, selecionam e enviam livros para os soldados, criam estratégias para driblar os nazistas e buscam, mais do que nunca, a proteção na leitura. É inspirador ler sobre a resistência e o propósito desse pequeno grupo. Infelizmente, no meio deles havia traidores, que se aproveitaram da fragilidade para trazer à tona seus preconceitos. Uma das vítimas é Odile. Em um momento de euforia e certa inveja da vida de luxo de Margareth, ela fala mais do que devia, o que prejudica de forma violenta a amiga. A dor e a culpa pelos seus atos são tão insuportáveis que foge, largando família, amigos e seus amados livros. Continuamos, então, a acompanhar sua história anos depois, nos Estados Unidos, a partir do olhar de Lilly, de 12 anos, que vê na agora Sra. Gustafsson e em sua biblioteca pessoal o apoio que precisa para lidar com a doença da mãe e suas consequências. Tudo é contado ora do ponto de vista de Lilly, ora de Odile, sempre com as datas muito bem marcadas. Terminei querendo saber mais sobre a história verdadeira da Biblioteca Americana de Paris e sobre o sistema de classificação Dewey e suas possibilidades. Foi muito bom começar o ano desta forma :-)

"Somamos 813 (americano), 840 (francês) e 302.34 (amizade) e criamos a nossa estante de livros dignos de 1955.34. Alguns favoritos foram Le Petit Prince, Mulherzinhas, O jardim secreto, Cândido, O longo inverno, A Tree Grows in Brooklin, Seus olhos viam Deus. Quando terminamos, senti que, não importava o que acontecesse, eu sempre teria um lugar com Odile."

Trechos

"Passei meus dedos pelas lombadas. Escolhi um e abri num trecho ao acaso. Eu nunca julgava os livros pelo começo. Era como o primeiro e último encontro que tive, nós dois sorrindo demais. Não, eu abria em uma página no meio, onde o autor não estava tentando me impressionar."

"A melhor coisa em Paris? É uma cidade de leitores - respondeu nossa vizinha."

"Eu não acreditava em almas gêmeas no amor, mas conseguia acreditar em almas gêmeas de livro, dois seres unidos pela paixão da leitura.""Enquanto eu flutuava entre as estantes, o silêncio me encheu de paz. Escondida entre os livros li: Ele tinha duas vidas: uma, pública, vista e conhecida por todos que quisessem saber, [...] e outra que se desenrolava em segredo. Nunca conheceríamos as pessoas que amamos, e elas nunca nos conheceriam. Era de partir o coração, era verdadeiro. Mas havia consolo: ao ler as histórias dos outros, eu sabia que não estava sozinha."