quarta-feira, 3 de maio de 2017

uma semana de inverno


Que leitura mais agradável. Simplesmente devorei "Uma semana de inverno", de Maeve Binchy. Quando o comprei não sabia nada sobre ele nem sobre a autora. Foi o título, a partir de recomendação da loja virtual (olhe só como me conhecem) que me convenceu. Amo inverno e o aconchego que ele proporciona. Adoro sentir o vento gelado no rosto durante uma caminhada e ficar sob edredons com uma xícara de chá quente e um bom livro. Coincidentemente, exatamente na semana em que estava com ele, fez frio em São Paulo. Então, pude realmente entrar na história.

É um romance com cara de livro de contos e tramas que se cruzam. São 11 capítulos, cada um dedicado a um personagem. No primeiro, conhecemos Chick Starr. Muito jovem, ela saiu da costa oeste da Irlanda para seguir os passos de um norte-americano por quem se apaixonou. O que era para ser um conto de fadas torna-se pesadelo quando, dois meses depois, ele a abandona em Nova York. Com vergonha da família e amigos que pensam que ela está vivendo um grande amor, ela se isola e mente. Passa a escrever contando a boa vida que leva do outro lado do oceano. Tempos depois, passa a visitar sua cidade natal anualmente. Sempre mantendo sua versão fictícia dos fatos. Até o dia em que sua sobrinha pede para visitá-la, o que seria o fim das aparências. Após inventar outra grande mentira, ela retorna definitivamente para a Irlanda. É quando as coisas começam a funcionar e sua vida passa a ser verdadeira. Ela aceita o desafio de transformar um casarão antigo no topo do penhasco, a Casa da Pedra, em hotel. Começam os trabalhos para fazer tudo funcionar, mesmo quando todos acham a ideia maluca.

Os demais capítulos vão mostrar os 'funcionários' do hotel, os primeiros hóspedes e o caminho que percorreram até chegar ali. Sem que nenhum deles tivesse planejado tal destino. Conhecemos a divertida Srta. Queenie, a dona do casarão. Rigger, rapaz que auxilia na restauração da casa. Orla, a esperta sobrinha, que também vai dar uma mão para a tia na cozinha.

O primeiro grupo de hóspedes tem Winnie, que se vê obrigada a passar as férias com a provável futura sogra. John, um astro de cinema que resiste a assinar contrato com a TV. Henry e Nicola, casal de médicos que passaram uma temporada trabalhando em navios de cruzeiro. Anders, executivo sueco, herdeiro de uma grande empresa, que não combina com o mundo dos negócios. Os Wall, casal viciado em concursos de revistas e jornais. Srta. Nell Howe, diretora ranzinza de uma escola em Londres que acabou de se aposentar. Freda, bibliotecária que se apaixona perdidamente por um homem casado e que deixa de lado seus próprios interesses. Há ainda Gloria, gatinha adotada pelos habitantes da casa que transita por todos os lugares.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Ou seja, temos as impressões de cada um dos personagens sobre o hotel, seus hóspedes e localização, o que nos fará ler mais de uma vez o mesmo acontecimento, mas sob outra perspectiva. Como eu disse, cada capítulo fala sobre a vida inteira da pessoa (ou casal em dois casos). Tudo, porém, é contado de forma sucinta. A autora consegue colocar em apenas poucas linhas a retrospectiva de anos. Isso torna a leitura rápida e com gostinho de quero mais. Confesso que fiquei morrendo de vontade de me hospedar na Casa da Pedra, com seu café da manhã, seus itinerários para caminhadas, sua vista e, principalmente, hóspedes e funcionários que não vão lhe questionar ou julgar.


"Quando se age com boas maneiras,
os outros agem assim com você também."


Costa Oeste da Irlanda, cenário do livro

segunda-feira, 1 de maio de 2017

a irmã da sombra



Já estou com saudades dos personagens de "A irmã da sombra", terceiro livro da série "As sete irmãs", de Lucinda Riley.

Apenas para relembrar, são seis irmãs (a sétima ainda é um mistério) que foram adotadas em diversas partes do mundo. Seus nomes fazem referência à Constelação das Plêiades. O pai, que ninguém sabe ao certo de onde veio ou o que fazia, morre e deixa pistas a cada uma delas sobre suas origens biológicas. No primeiro livro, Maia desembarca no Brasil e acompanhamos a criação da estátua do Cristo Redentor entre 1922 e 1931. No segundo, Ally vai até a Noruega, com seus fiordes e seus grandes compositores.

O cenário desta vez foi o interior da Inglaterra. Foi delicioso acompanhar as aventuras de Estrela D'Apliése por esses lados. Tirando a ambientação, posso dizer que todos os livros de Lucinda Riley, não só os desta série, são idênticos. Mulheres que vão atrás de suas raízes por várias partes do mundo (Hmm teve um homem em "A Rosa da Meia-Noite").

Estrela é calada e está sempre à sombra de Ceci, a irmã que foi adotada quase que ao mesmo tempo que ela.

A pista que seu pai deixou a leva até uma livraria em Londres e ao seu excêntrico dono, Orlando, colecionador de livros raros. Formal ao extremo, ela se sente ao lado do Chapeleiro Maluco, de "Alice". Aos poucos, ela se envolve com sua família, basicamente uma prima, um sobrinho e um irmão bonitão, Mouse. Adivinhem? Por meio das histórias que eles contam, ela é transportada até 1910 e aos antepassados que podem ser sua família de sangue. Como eu já disse várias vezes, os livros de Lucinda são bons somente no momento em que os estamos lendo. Não nos fazem refletir. No máximo, nos fazem querer conhecer os lugares que descreve. No caso, fiquei morrendo de vontade de visitar a região de Lake District, na Inglaterra. Passatempo gostoso. Para relaxar e viajar.


Lake District, cenário de "A irmã da sombra"

sábado, 29 de abril de 2017

orgulho e preconceito

A versão que li. Com a capa do filme de 2005

"Sem pensar muito bem de homens ou do matrimônio,
o casamento sempre fora seu objetivo."

Eu estava na livraria esperando para ser atendida e, aleatoriamente, peguei um livro. Era uma edição de bolso de “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen. Eu tenho todos os seus livros, mas nunca os li. E olhe que até na casa dela eu já fui. Há treze anos, em abril de 2004. Era um bonito dia de primavera na Inglaterra. Lembro ainda hoje de ficar observando a mesinha em que ela escrevia. Saí de lá com duas de suas obras, que envelheceram na estante. Até o dia em que tive que ficar esperando na livraria. Bem, lá mesmo, em pé, comecei a ler o romance. Ri muito logo no começo. Voltei para casa e imediatamente baixei a versão para o e-reader. Na atual fase da minha vida, é mais fácil ler com esses dispositivos. Enfim, intercalei a leitura do meu original, em inglês, com a tradução muito mal feita que estava disponível gratuitamente na Amazon.

Minha edição em inglês
Este é o segundo romance da autora, escrito entre 1796 e 1797, quando ela tinha apenas 21 anos, mas só foi publicado em 1813. Seu título inicial era “Primeiras impressões”, mudado por conta de outros livros com o mesmo nome, mas que resume bem o seu conteúdo. Há várias menções sobre os erros que cometemos ao avaliar a pessoa a partir de um primeiro encontro. 

A história se passa na Inglaterra do século XVIII e descreve a sociedade rural do período de regência britânica. Tem final bem previsível, mas o que vale é a forma com que é contada. Tudo sob o ponto de vista de Elizabeth, a segunda de cinco filhas de um casal que vive no campo, próximo a Londres. Logo nas primeiras linhas vemos o desespero da mãe que tenta casar suas meninas. E um grande partido acaba de chegar na vizinhança. A mulher fica toda empolgada e implora ao marido que vá se apresentar, já com o intuito de transformá-lo em genro. Este trecho é hilário. Depois de lê-lo você não vai resistir. O rapaz, Mr. Bingley, chega com duas irmãs e um amigo, Mr. Darcy. A partir daí, tudo gira em torno de dias ociosos das moças, bailes e diálogos sobre relacionamentos amorosos. Divagações sobre o interesse ou não dos rapazes nelas. Enfim, algo atemporal se pensarmos bem. A diferença é que naquela época a comunicação era mais difícil. Levava alguns dias até terem a resposta para suas dúvidas por meio de cartas ou mensageiros. Jane nos apresenta a uma sociedade burguesa que só pensa em casar. Este é o objetivo de todas as diversões que as pessoas têm: bailes, viagens, passeios, apresentações à corte. O engraçado (ou não considerando que isso acontecia naquela época) é que bastavam algumas horas para se decidir quem seria o cônjuge. Claro que cabia à mulher o papel de esperar o pedido. Grande angústia que a autora, ironicamente, faz questão de ressaltar. Até Elizabeth, que tende a não concordar com os arranjos matrimoniais, tem lá suas expectativas com Mr. Darcy, relacionamento que vai da intolerância ao inesperado amor. Por causa de tanto papo fútil em torno de ‘ele me ama ou não’, a leitura torna-se maçante em alguns momentos. Mas superamos e encontramos até uma rebelde, a Kitty, irmã mais nova de Elizabeth. A única que não esperou por um pedido para ir atrás de quem desejava. Se acertou ou não, esse é o risco de ousar. Bem melhor que ficar em casa esperando um convite que pode nunca aparecer. Quero mais Jane Austen.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

para educar crianças feministas


Sou fã de Chimamanda. Este livro é a adaptação da carta que ela escreveu para uma amiga que lhe pediu sugestões para educar sua filha seguindo as premissas feministas. Bem, como ela mesma pode comprovar, é muito mais fácil dar sugestões para filhos dos outros do que aplicar as mesmas recomendações em suas próprias crianças. Mas gostei de sua abordagem. E devo dizer que concordo com absolutamente tudo o que escreveu. Abaixo, brevemente, suas 15 dicas. Por favor, leiam e divulguem este excelente livro.

1) "Seja uma pessoa completa." Não devemos nos culpar por não abandonar nosso trabalho e as demais coisas que gostamos de fazer por conta da maternidade. Continue sendo você e tudo ficará bem.

2) "Façam junto." Esta é uma máxima que sempre acreditei. Nada de dizer que o pai ajuda com o bebê. Ele tem tanta responsabilidade quanto a mãe. O mesmo vale para a casa. Por que devemos elogiar os homens que fazem tarefas domésticas como se fosse um favor?

3) "Ensine que papéis de gênero são totalmente absurdos." Nada de dizer: seja boazinha como uma menina. Ou menino não chora. Também não limite as brincadeiras e brinquedos às divisões que as lojas e sociedades costumam fazer. Carrinhos para menino. Bonecas para menina. Tudo isso pode impedir que surjam grandes engenheiras, por exemplo.

4) "Cuidado com o Feminismo Leve". Aquela ideia de que os homens são levemente superiores e devem tratar bem as mulheres. E que, por exemplo, uma esposa só alcança o sucesso porque o marido deixou.

5) "Ensine a ler". Ensine o gosto pela leitura, pelos livros. E se o seu exemplo não adiantar, dê recompensas para que a criança leia. O retorno será sempre satisfatório.

6) "Ensine-a a questionar a linguagem." Não use expressões que ensinam que a mulher é frágil, como princesa (que tem que esperar por um príncipe). Ou que são os meninos que protegem as meninas. Elas não precisam de proteção, mas de tratamento igual.

7) "Nunca fale do casamento como uma realização." Por se preocupar tanto em arrumar um marido, muitas mulheres deixam de fazer coisas que poderiam ser bem mais prazerosas. Ela também questiona o fato de as mulheres terem que assumir o sobrenome do marido. Por que não manter sua própria identidade?


8) "Ensine-a a não se preocupar em agradar." As meninas são sempre ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e fingidas. O que pode ser bem perigoso, principalmente no caso de um abuso. O importante é que elas sejam ensinadas a serem honestas e bondosas. E, principalmente, a defender o que é seu.

9) "Dê um senso de identidade." Aqui o conselho é para a filha da amiga crescer com o orgulho de ser uma Mulher Igbo. Ou seja, a abraçar o que sua cultura tem de mais bonito. A valorizar sua cor, seu cabelo, principalmente diante da mídia que sempre enfatiza as mulheres brancas.

10) "Esteja atenta às atividades e à aparência dela." A dica é: "incentive-a a praticar esportes. Ensine-lhe a ser ativa. Façam caminhadas juntas. Nadem. Corram. Joguem tênis. Futebol. Pingue-pongue. Todos os tipos de esporte." Também ressalta a importância de deixar que ela encontre seus próprios padrões de beleza e não permitir que ela associe beleza a dor e ao sacrifício.

11) "Ensine-a questionar o uso seletivo da biologia como "razão" para normas sociais em nossa cultura." Principalmente para que ela questione os ditos privilégios dos homens, como sua força física ou a promiscuidade.

12) "Converse com ela sobre sexo, e desde cedo." Pode ser constrangedor, mas é importante para que ela entende que o corpo é dela e que nunca deverá dizer sim para algo que não quer. Também é preciso dar abertura para que ela converse com você sobre o assunto.

13) "Romances irão acontecer, então dê apoio." Mostre que o amor é uma troca. Ela não deve apenas dar. Também tem que receber. Reforçe que ela deve ser independente, o que inclui a questão financeira, mesmo se for casada. "Ensine-lhe que NÃO é papel do homem prover."

14) "Ao lhe ensinar sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos." O que ela quer dizer é que há nos discurso sobre gêneros a ideia de que as mulheres são moralmente melhores do que os homens. O que não é verdade. "Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina." Da mesma forma, nem todos os homens são misóginos.

15) "Ensine-lhe sobre a diferença." Um dos ensinamentos mais importantes: "ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao ensinar-lhe sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado. Ela precisa entender que as pessoas percorrem caminhos diferentes no mundo e que esses caminhos, desde que não prejudiquem as outras pessoas, são válidos e ela deve respeitá-los. Ensine-lhe que não sabemos - não podemos saber - tudo sobre a vida. A religião e a ciência têm espaços para as coisas que não sabemos, e isso basta para nos reconciliarmos com esse fato."

sábado, 18 de março de 2017

vidas secas





"... a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam."

Eu não consigo tirar a imagem da Baleia da minha cabeça. Personagem mais viva e expressiva de “Vidas secas”, de Graciliano Ramos. Não posso dizer quais eram as intenções do autor ao dar voz à cachorra, mas somente quem já prestou atenção ao olhar dos animais poderia ter escrito com tamanho realismo seus pensamentos. O capítulo destinado a ela é a passagem mais triste da literatura. Mais que refletir as angústias dos sertanejos diante da seca, ela traz o sofrimento de todos os animais sujeitos aos humores e necessidades dos humanos.

Baleia é a alma dessa obra, que retrata trechos da vida de Fabiano, de sinha Vitória e das duas crianças, o filho mais velho e o menor. Assim mesmo, sem nomes. Havia ainda um sexto membro, o papagaio, que foi sacrificado para aliviar a fome dos ‘donos’.

A história começa com os ‘seis viventes’ atravessando a caatinga a pé. O sol é escaldante. A terra é seca. A fome e a sede castigam a todos. Encontram uma casa vazia e se hospedam. Mas ela tem dono. Pertence ao fazendeiro. Para continuarem lá precisam trabalhar para ele. Automaticamente também adquirem uma dívida. O livro é composto por 13 capítulos mais ou menos interligados. São episódios vividos pela família. Ora sob o ponto de vista de Fabiano, ora de Sinha Vitória, dos meninos e de Baleia, que foi o primeiro a ser escrito. 

Eles não têm praticamente nada. Até as palavras lhe faltam quando tentam expressar algum sentimento. A convivência é silenciosa. Cortada apenas por algum resmungo ou tentativa frustrada de dizer algo. Restam-lhes apenas os sonhos. Sinha Vitória sonha com uma cama de verdade. O filho mais novo quer ser vaqueiro, como o pai. Baleia sonha com um osso grande. O mais velho começa a se interessar pelas palavras e seus significados. E Fabiano sonha com um futuro melhor para os filhos.

Escrito em 1938, “Vidas secas” faz parte do pós-modernismo brasileiro, que trazia denúncias sociais. Aqui vemos, por meio de Fabiano, a opressão exercida pelos patrões, pelo governo, pela polícia e a submissão de homens e mulheres como nossos personagens. Eles até tenta reagir, mas são sempre calados. E tudo é muito mais intensificado por conta da seca. Mas eu acrescento mais uma denúncia: o sofrimento dos animais. Quando a seca do nordeste brasileiro é retratada, sempre aparecem menções aos animais que morrem. Magros. Só pele e osso. Mas eles não aparecem como eles mesmos. Animais e viventes que são. Eles aparecem como a desgraça total do ser humano. Sem água, sem animais, sem comida. 

No livro de Graciliano Ramos há uma exceção: Baleia. Ela faz parte da família. É a mais sensível de todos. Recebe vários pontapés, mas está sempre junto de seus donos. De certa forma, eles também gostam muito dela. Em especial, o garoto mais velho. No entanto, ao menor sinal de perigo, ela é sacrificada. E justamente quando está magra, doente, indefesa. A narrativa mostra a dor do animal, dando a ela características humanas, pois somente assim conseguimos enxergar o quanto sofre. Tudo é tão real que eu não consigo perdoar Fabiano. O que me consola é saber que sua decisão o atormentará para sempre. A partir daí, qualquer coisa faz com que ele se lembre da cachorra, de seus lugares favoritos, de suas peripécias. 

Outros animais padecem na obra. O papagaio que serviu de alimento. As aves de arribação (que na fúria contra o mundo, surgem como o motivo da estiagem), o porco (morto e alvo de impostos), as preás (presas de Baleia e muitas vezes o único alimento do grupo), o bezerro (morto e salgado no momento da segunda fuga da família, que nunca vai deixar de ter esperança em uma real mudança). Mas é Baleia que fala por todos os bichos. O capítulo dedicado a ela, como eu já disse, é dramático. Em seus delírios finais ela pensa na família. E em nenhum momento pensa que fizeram algo ruim contra ela. Deveria ser leitura obrigatória para todos. E gosto, sobretudo, do estilo seco e cortante utilizado por Graciliano. Sem poupar o leitor, mostra o que tem que mostrar. Como a vida é. Como somos. E como os animais são. Interessante observar que enquanto Baleia ganha características humanas, Fabiano torna-se bicho. Quem é melhor, afinal?

“Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme.”

Baleia consola o menino mais velho na versão para o cinema (1963)

Trechos

“E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente.”

“Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida. Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pelo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente.”

“Pobre do louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da família.”

“A cachorra Baleia acompanhou-o naquela hora difícil. Repousava junto à trempe, cochilando no calor, à espera de um osso. Provavelmente não o receberia, mas acreditava nos ossos, e o torpor que a embalava era doce. Mexia-se de longe em longe, punha na dona as pupilas negras onde a confiança brilhava. Admitia a existência de um osso graúdo na panela, e ninguém lhe tirava essa certeza, nenhuma inquietação lhe perturbava os desejos moderado. Às vezes recebia pontapés sem motivo. Os pontapés estavam previstos e não dissipavam a imagem dos ossos. Naquele dia a voz estridente de sinha Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da modorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem. Foi esconder-se num canto, por detrás do pilão, fazendo-se miúda entre cumbucos e cestos. Um minuto depois levantou o focinho e procurou orientar-se. O vento morno que soprava da lagoa fixou-lhe a resolução: esgueirou-se ao longo da parede, transpôs a janela baixa da cozinha, atravessou o terreiro, passou pelo pé de turco, topou o camarada, chorando, muito infeliz, à sombra das catingueiras. Tentou minorar-lhe o padecimento saltando em roda e balançando a cauda. Não podia sentir dor excessiva. E como nunca se impacientava, continuou a pular, ofegando, chamando a atenção do amigo. Afinal convenceu-o de que o procedimento dele era inútil. O pequeno sentou-se , acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morreu no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.”

sexta-feira, 10 de março de 2017

paris para um


Sabe quando você precisa de um livro para relaxar? Algo que não seja profundo, mas que lhe deixe com um sorriso nos lábios? Ou mesmo uma leitura rápida, uma distração durante uma viagem? “Paris para um”, de Jojo Moyes é uma boa pedida. Ele traz dez contos deliciosos. O primeiro, que dá título ao livro, é sobre uma jovem inglesa que combina uma viagem à Paris com o namorado. Só que ele não vai e ela acaba tendo que passar o fim de semana sozinha na capital francesa. O que parecia ser uma tragédia acabou sendo a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido. Situação parecida acontece no último conto, também em Paris. Durante a lua de mel, a protagonista vaga sozinha pela cidade, pois o marido tem que resolver assuntos importantes do trabalho. Gostei, sobretudo, de “Entre os tuítes”. Nessa história, um apresentador de TV em decadência é alvo de vários insultos na rede social por parte de uma mulher que diz ser sua amante. O desfecho é hilário e mostra que todos têm lá sua culpa. “A lista de Natal” é bom para aqueles que pensam em largar tudo e começar uma nova vida. Sobrecarrega com as tarefas dadas pelo marido, a mulher surta e é ajudada por um motorista de táxi a tomar a decisão que vem adiando há tempos. “O casaco do ano passado” fala sobre a crise financeira e as aparências que precisam ser mantidas. “Treze dias com John C.” é o mais engraçado. Mulher acha um celular na rua e acaba respondendo as mensagens que chegam nele. Isso a leva a uma grande cilada. Os demais contos são mais fracos, mas mesmo assim sempre com alguma pegada divertida. Em comum, trazem mulheres insatisfeitas com o casamento, com o corpo ou com o estilo. Com exceção de “Assalto”, no qual a mocinha se apaixona pelo ladrão. Ai, ai, ai. Leiam sem medo de ser feliz. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

história de quem foge e de quem fica



Mais um livro finalizado da série napolitana de Elena Ferrante. “História de quem foge e de quem fica” mostra a fase adulta de Lenu e Lila. É o que mais fala da primeira, com detalhes de sua vida fora do bairro em Nápoles. Lenu torna-se escritora, seu primeiro livro é um sucesso. Sua vida sentimental também está bem. Preste a se casar com Pietro, renomado professor, ela volta às origens para ajudar Lila, que não teve a mesma sorte e, após deixar o marido, trabalha em condições degradantes em uma fábrica. Paralelamente, acompanhamos o movimento em prol de melhores condições de trabalho e a luta de classes. Muitos personagens ganham força, como Pasquale, o comunista, e Nino, o grande amor de ambas. Amizade e inveja continuam fortes e misturadas.

A leitura é tensa. Mais que os dois anteriores. Mas eu não conseguia largar. Mexeu tanto comigo que incorporei as injustiças do livro e fiquei revoltada. Queria eu mesma sair às ruas e ajudá-las. Lá pelas tantas há uma reviravolta. Só que ela é contada de tal forma que mal percebemos como tudo aconteceu. É como se o tempo tivesse passado também para nós. Lila consegue se recuperar e Lenu cai. Ou seja, enfrenta uma crise no casamento. Não consegue mais escrever. A insegurança que sempre teve está cada vez maior. No fim resolve abandonar tudo e, mais uma vez, fugir. Não vejo a hora de ler o quarto e último volume para saber como esse duelo velado entre as duas amigas vai acabar.

sábado, 4 de março de 2017

a fórmula do amor



Einstein e suas teorias são o foco deste entediante livro de Francesc Miralles e Álex Rovira. Mas que fique claro: não é a física que o torna cansativo. 

Javier é jornalista em uma emissora de rádio. Certo dia, por falta de outra pessoa, é convocado a participar de um debate com o autor de um livro sobre Einstein. Após o confronto nada agradável, recebe uma misteriosa carta dizendo para ir até uma cidade vizinha. Sem ter programa melhor, vai e descobre que a casa pertenceu ao célebre cientista. Lá conhece outras cinco pessoas. Todas envolvidas com pesquisas sobre Einstein. Uma delas é o anfitrião, que logo após a inusitada reunião é assassinado. Logo na sequência, Javier recebe um e-mail com outro convite. Desta vez, para finalizar o projeto do cara que morreu, que tinha como objetivo trazer à tona a última descoberta do físico alemão. Não precisa ser gênio para descobrir qual ela é, já que a edição portuguesa do livro, a que eu li, já diz logo no título: "A fórmula do amor". O original, em espanhol, é “A última resposta”. Começa, então, a jornada, que inclui países da Europa e América do Norte, sempre seguindo os rastros de Mileva, primeira mulher de Einstein, e quem estava, segundo o romance, por trás das suas teorias. Tem mulher fatal. Tem flerte: Javier com sua parceira na pesquisa. Tem mais mortes. Tem enigmas a serem descobertos.

Tudo dividido em quatro partes: ar, terra, água e fogo. Cada uma delas com vários capítulos, sempre abertos com uma frase bonitinha. Caminho a ser percorrido até chegarmos à quintessência: o amor, que tudo cura e tudo pode. Balela sem fim. Nem mesmo as incursões na física e suas teorias salvaram o livro e sua fracassada tentativa de ser um suspense. No fim a resposta estava no quintal de casa, o que me lembrou o desfecho de “O Alquimista”, de Paulo Coelho.

Enfim, não vou dizer mais nada porque ainda estou com raiva. Principalmente, porque havia gostado muito de outros coisas que Miralles escreveu (“Queria que você estivesse aqui”, “O melhor lugar do mundo é aqui” e “Amor em minúscula”. E procurei outro livro seu justamente para descansar, ficar com aquele sorriso bobo depois de ler algo bonito. Mas que nada. Fiquei ainda mais triste porque a leitura anterior, outra promessa (“A livraria mágica de Paris”), também tinha sido ruim. Quem sabe, mais para frente, passado o meu mau-humor, eu não abrande minha crítica. #sóquenão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

a livraria mágica de paris

Que livro chato! Antes de ler até achei que seria como o romance 'A senhora das especiarias', da indiana Chitra Divakaruni, ou o filme 'Chocolate', com Juliette Binoche e Johnny Depp. Um trazendo os temperos como cura dos males da alma e o outro o chocolate. Ambos irresistíveis. Vale a pena conferir.  'A livraria mágica de Paris', da alemã Nina George, até tenta ir por este caminho. Mas fora um trecho aqui outro acolá, o livro é bem, mas BEM cansativo. Jean Perdu tem uma livraria num barco em Paris. Costuma receitar livros para os clientes como se fossem remédios. Contudo, ele próprio não consegue se curar de suas dores. Há vinte e um anos sofre por amor. Tanto que evita dizer e pensar o nome da fulana que o abandonou para não aumentar o seu tormento. Até que conhece outra mulher depois de todos esses anos. Ela também foi abandonada pelo marido. E é justamente por meio dela que vai reencontrar a carta que a ex deixou e que nunca teve coragem de ler. Quando a abre, finalmente, descobre que ela partiu porque estava muito doente. Ah, ela era casada. Perdu era o amante. Desnorteado, sai com seu barco pelo rio Sena em busca de repostas e redenção. Quando está zarpando, um jovem escritor, que mora no mesmo prédio, se joga na embarcação. Max está em busca de inspiração para o segundo livro. E assim os dois conhecem o interior da França, fazem amizades, divagam. Mas o que realmente me irritou foram os trechos do diário de Manon, a tal mulher que deixou Perdu, que a autora teve a infelicidade de inserir aleatoriamente. Gente, como ela é mala. Nós, leitores, não temos culpa de sua doença e nem do seu egoísmo. Já pensou aturar alguém que fala assim:  "Eu sou meu corpo. Os lábios da minha vulva sorriem, suculentos, quando tenho desejo, meu peito transpira quando sou humilhada e em meus dedos fica o medo diante de própria coragem, tremem quando eu quero me proteger e defender." Ainda bem que Perdu consegue, mesmo que aos poucos, se libertar.

Mapa com o trajeto feito por Jean e Max

Uma coisa boa foi que fiquei morrendo de vontade de fazer o trajeto de Jean e Max. Gostei ainda das referências literárias. Só não entendi a indicação de Moby Dick para vegetarianos. Seria essa opção alimentar uma doença. De todo modo, vou refletir mais sobre a relação. A autora colocou no final algumas receitas de pratos que aparecem no livro. Totalmente dispensável. Uma pena. Foi uma leitura que começou bem e prometia ser gostosa.

Trechos que (quase) salvam o livro

"Tudo ainda está lá. todo o tempo que passamos junto é eterno, imortal. E a vida nunca cessa."

"Queria tratar sensações que não são reconhecidas como doenças e que nunca são diagnosticadas por médicos. Todas aquelas pequenas emoções e todos os sentimentos pelos quais nenhum terapeuta se interessa, porque parecem pequenos demais e intangíveis."

"Obviamente, livros são mais que médicos. Alguns romances são amorosos, companheiros de uma vida inteira; alguns são um safanão; outros são amigos que o envolvem em toalhas aquecidas quando bate aquela melancolia outonal."

Cuisery: a cidade dos livros,
parte do percurso indicado no livro

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

história do novo sobrenome

As capas dos livros desta série são maravilhosas

Todos deveriam ter acesso à escola. Principalmente quem a valoriza. Infelizmente, não é o que acontece. E não foi o que aconteceu com Lila Cerullo. Ela era uma aluna brilhante e prometia um futuro promissor. No entanto, mesmo com o apelo da professora, o pai não permitiu que ela continuasse os estudos após a conclusão do ensino fundamental.

O resultado: ela casou-se aos dezesseis anos na tentativa de substituir a paixão que tinha pelos livros por um marido e por uma vida luxuosa. Tudo isso acompanhamos em "Amiga genial", o primeiro livro da série napolitana de Elena Ferrante.

Em "História do novo sobrenome" temos o resultado dessa sequência de fatos: um marido violento, que a espancava a todo momento. O pior é que todos viam, pais, irmão, sogra, cunhados, amigos. E ninguém fazia nada. Pelo contrário, davam razão a ele. Afinal, Lila era teimosa, queria tudo do seu jeito, não prestava. Mas nem isso a deixa para baixo, a garota segue buscando outros motivos para se destacar e entrega-se aos negócios da família.

Paralelamente, acompanhamos Lenu, a narradora dessa envolvente história, e seu desenvolvimento acadêmico. Apesar das dificuldades, da falta de dinheiro, ela prosseguiu com os estudos. Sempre achou que não era digna das boas notas que recebia. Sentia-se inferior por pertencer a um meio no qual a gritaria, os espancamentos e o dialeto ditavam as regras. Isso nunca vai sair de mim, pensa a todo instante. Talvez seja esse o motivo de não haver detalhes de sua vida na faculdade. Ela apenas faz um resumo do que se passa. O foco de seu relato é reservado para o bairro, em Nápoles, no qual cresceu e no qual, de certa forma, sempre habitará. Muito interessante acompanhar o desenrolar de todos os personagens secundários que ela nos apresenta.

A disputa silenciosa entre as duas amigas continua. Lila querendo provar que mesmo sem ter ido à escola pode ter uma vida boa, nem que seja na aparência. E Lenu, ao mesmo tempo em que quer bem a amiga, torcendo para que as coisas desandem. 

Ambas, porém, sempre se lembrarão da última férias de verão que passaram juntas, quando tinham dezessete anos. Cada uma estava lá por seus motivos. Lila porque disseram ao marido que banhos do mar ajudam a engravidar. Lenu para encontrar Nino, por quem era secretamente apaixonada. Para uma será o apogeu da paixão. Para outra uma grande desilusão. Para as duas, um momento que ditará definitivamente o futuro.

Ischia: férias inesquecíveis
Não dá para falar muito sobre o livro. Só lendo e acompanhando. É o tipo de leitura que não traz grandes acontecimentos. Não tem muita ação. Mas que atrai pelo desenvolvimento das personagens e pela passagem do tempo. Sem nos darmos conta, envelhecemos e deixamos para trás sonhos, amigos, lugares. Vou entrar no terceiro volume com saudades da infância e adolescência das duas, abordadas no primeiro livro. E, também, do verão que passaram juntas, no segundo.