domingo, 30 de junho de 2019

A estetização do mundo



"Há muita ilusão em crer que a formação estética possa ser o caminho moderno da salvação."

Terminei "A estetização do mundo", dos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, desejando não comprar mais nada. Comecei a olhar ao meu redor e ver e rever meus próprios excessos: roupas, sapatos, cacarecos diversos, brinquedos, canecas, livros (sim, até eles).

Eu moro em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Aqui as opções são inúmeras. Há muito de tudo para ser consumido. Entramos em uma padaria e há pães dos mais variados tamanhos, formatos e gostos. Damos uma volta pelas ruas e há produtos que não precisamos sendo oferecidos. O pior é que os compramos. O resultado é o desperdício e o crescimento do lixo. A sustentabilidade é outro aspecto abordado no livro, que dá destaque à história do consumo e de como ele passou a ser envolvido por uma manta estética, ou seja, a importância que as embalagens têm para dar uma áurea especial às mercadorias. O início desse exagero começa com as passagens de Paris, que já tinham suas estratégias para induzir às compras. Na sequência, surgem as lojas de departamentos com suas vitrines temáticas, especialmente no Natal. Hoje, temos os grandes shopping centers. E todos sempre inserindo seus produtos em um mundo de fantasia, onde o imaginário surge como artifício para nos fazer comprar cada vez mais. 

Os autores criticam o capitalismo que, para eles, tem um caráter niilista e que só contribui para as desigualdades econômicas e sociais. Vão mais longe: “o capitalismo também é responsável pelo ‘desaparecimento’ das formas harmoniosas de vida, o desvanecimento do encanto e da graça da vida em sociedade”. Mas ao mesmo tempo questionam se há espaço para pensar o estético dentro do caos instaurado. Hoje, produção industrial e cultural caminham juntas. 
“O estilo, a beleza, a mobilização dos gostos e das sensibilidades se impõem cada dia mais como imperativos estratégicos das marcas: é um modo de produção estética que define o capitalismo do hiperconsumo.” 
Isto não quer dizer que seja menos agressivo. Apenas é uma nova forma de funcionar, explorando o belo para ter mais lucro. Hoje, a realidade se constrói por meio de imagens, que eles chamam de estético-emocional, capitalismo artista ou criativo transestético. Antes de entrar nas análises detalhadas desse conceito, citam as quatro eras da estetização do mundo.

1) Artealização ritual (arte para os deuses): A arte não tem objetivo estético. Ela está interligada com tudo o que envolve a vida das pessoas: crença, trabalho, lutas. Faz parte do ritual para que as necessidades sejam alcançadas: “curar as doenças, enfrentar os espíritos negativos, fazer a chuva cair, fazer aliança com os mortos. Muitos desses objetos rituais não são feitos para ser conservados: são descartados, destruídos depois do uso, ou repintados antes de cada nova cerimônia.” 

2) Estetização aristocrática (arte para os príncipes): fim da idade média até século XVIII. Advento do artista, que vai agradar a um público endinheirado. Surgem a moda, a vida de corte, as ‘boas maneiras’. A igreja adere à necessidade de se ter ambientes agradáveis e sedutores, com fachadas cheias de esculturas, todas ornamentadas. É onde se encontra o Barroco. Os monarcas criam palácios, jardins. O embelezamento das cidades é o foco.

3) Moderna estetização do mundo (arte pela arte): a arte liberta-se do religioso. Torna-se mais sofisticada. Os artistas criam obras que não precisam prestar conta a ninguém. Por outro lado, surge a dependência econômica. “Atribui-se à arte o poder de fazer conhecer e contemplar a própria essência do mundo”. O museu é o lugar de revelação estética. Tira as obras do seu contexto cultural de origem com  a missão de torná-las imortais. É o “Templo laico da arte” e ajuda a suportar a mediocridade da existência. Tudo vira arte.

“Não mais quadros e estátuas reservados a uma classe social superior, mas uma arte que se estenda ao mobiliário, aos papéis de parede, à tapeçaria, aos utensílios de cozinha, aos têxteis, às fachadas arquitetônicas, aos cartazes.”

Despontam-se ainda nesse período as artes de massa: cinema, fotografia, música gravada, moda. Pela primeira vez, temos a dinâmica da produção e consumo estético.

Por outro lado, há a produção em série de produtos e da construção civil. Os princípios fordianos-tayloristas aplicados à vida urbana trazem às cidades conjuntos habitacionais frios, feios e tristes. Para os autores, o fracasso dessa era.

4) Era transestética (arte para o mercado): capitalismo artista. Tudo é possível. “Cria em grande escala o sonho, o imaginário, as emoções.” Há, contudo, uma inflação estética uma hiperarte, que é o mundo transestético, que é a “generalização das estratégias estéticas com finalidade mercantil em todos os setores das indústrias de consumo.”

Estamos na era do descartável. As pessoas não querem ser vistas como fora de moda ou portadoras de produtos considerados obsoletos. Trocam de celular a cada ano ou menos. O mesmo vale para roupas, sapatos, acessórios e demais objetos. Ao contrário da era anterior, marcada pela famosa expressão “você pode ter o carro que quiser desde que seja preto”, hoje o que vale são objetos personalizados, com a nossa cara. 

Dentro disso, lembrei-me dos chinelos havaianas da minha infância. Havia um modelo com apenas algumas cores à disposição (não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro). Hoje, a marca tem diversas lojas com centenas de opções. Nesse sentido, para que ter apenas um chinelo se podemos ter um que se ajuste a cada ocasião? E é mais ou menos esta lógica que vai para tudo na vida. Abolimos o produto a granel, que felizmente está voltando, para deixar os produtos com identidade visual bonita e atrativa. Há uma ânsia por “assinaturas artísticas” em tudo. As marcas se unem para oferecer um óculos escuro de uma cantora. Um perfume de uma atriz. E tudo é oferecido por meio de representações.

As feiras de negócios exemplificam bem este contexto. São grandes eventos que chegam a simular cidades, inclusive as fictícias. Passados três dias ou menos, tudo vai abaixo para dar lugar a outras cenografias e fábricas de sonhos. O intuito é conquistar corações e mentes, o lema maior da do marketing. No fundo, o que queremos é vender, ampliar lucros e criar impérios.

Outra crítica, bem procedente, é que o simples dá lugar ao gourmet. Os termos para designar os profissionais mudam:

jardineiro: paisagista
cabeleireiro: hair designers
floristas: artistas florais
cozinheiros: cuidadores gastronômicos

Até executivos são definidos como artistas visionários, a exemplo de Steve Jobs. 

Os autores descrevem os cenários ao nosso redor de tal forma que nos perguntamos: por que mesmo precisamos de tudo isso? Qual o sentido de tanto consumo e tanta representação? Tudo tem que ser cenográfico? O mundo está imitando o que, afinal? 

Pode a beleza salvar o mundo?

Queremos sensações imediatas, prazeres dos sentidos, novidades.  Esses princípios estéticos confrontam-se com outros valores: trabalho, saúde, eficácia, educação, respeito ao meio ambiente, moral, justiça.

O resultado é que estamos “fadados a uma existência cada vez mais reflexiva, problemática, conflitual em todas as suas dimensões, sejam íntimas, familiares ou profissionais.” 

De uma lado temos a beleza da vida, o que almejamos. Do outro, temos que dar conta da excelência, produtividade, ter boa saúde. Sonhamos com a beleza. Mas temos competição. A grande (ou única) vantagem desse período é que estamos nos dando conta desse exagero, tanto que a comunicação da vez, em praticamente todos os segmentos, é voltada ao bem-estar. Empresas estão buscando tornar os ambientes de trabalho mais agradáveis. Há um boom de cursos de meditação. Academias de exercícios físicos se proliferam. Sabemos o caminho. Mas ainda assim, a trilha não é fácil.

Produções estéticas, imagens do belo e da felicidade são amplamente disseminados, mas o que temos na realidade é um mundo caótico, esquizofrênico. “O bem viver está ameaçado, comprometido, ferido.”

Consumimos beleza, mas nossa vida não é bela. E é justamente aí que reside o fracasso do capitalismo artista. A beleza, portanto, não salvará o mundo. Isso me remete às imagens felizes postadas nas redes sociais. Quando tempo se perde tentando encontrar um ângulo, um recorte de nosso dia a dia que vai simular uma utopia?
“As belezas são excessivas, mas não nos aproximamos em absoluto de um mundo de virtude mais elevada, de maior justiça ou mesmo de maior felicidade.
A conclusão dos autores é que a “salvação” está mais na inteligência racional que na arte. Está nos investimentos em pesquisas, na inovação, nas ciências. Precisamos de uma estética da lentidão em oposição à estética da aceleração, pois “a inconsequência e a frivolidade de viver são comprometidas pela miséria social e pela sorte trágica dos que ficam à margem.”

Minha angústia ao concluir a leitura foi justamente esta, saber que me enquadro neste tipo de consumidor. Felizmente, temos escolhas. Basta dizermos não ao impulso e a repulsa. Impulso de comprar diante das inúmeras vitrinas físicas e virtuais que nos assombram. Repulsa de ficar com o mesmo chinelo até que suas tiras finalmente se soltem.

"O capitalismo artista encontra sua legitimidade na realização de uma vida bela, sinônimo de vida livra sob o signo de uma ética da realização pessoal."

sexta-feira, 31 de maio de 2019

as mulheres do castelo


"Apenas quando provarmos que o direito internacional e os direitos humanos de toda humanidade são maiores do que qualquer vilão poderemos derrotar o mal."

"As mulheres do castelo", de Jessica Shattuck, me foi indicado pela Amazon a partir das minhas leituras recentes. A história passa-se durante e após a segunda guerra mundial e, assim como o livro anterior que li sobre o tema ("Mulheres sem nome"), é contado sob o ponto de vista de três mulheres.

Marianne, Ania e Benita vão passar alguns anos juntas durante a reconstrução de suas vidas após a guerra. 

Os maridos de Marianne e Benita faziam parte da resistência alemã e morreram tentando impedir que o nazismo progredisse. Enquanto Marianne inseria-se no contexto político, mantendo-se contra o regime que se instalava em seu país, Benita fez parte da juventude hitleriana. Mais por estar na moda do que por acreditar no que estava sendo dito. As duas se conhecem durante uma festa dada no castelo do título do livro, que pertencia à família do marido de Marianne. Anos mais tarde, o reencontro dá-se em situação totalmente diferente, em um apartamento depredado em Berlim. Marianne, meio a contragosto por ver seu papel sendo reduzido, prometeu ao marido de Benita, por quem era secretamente apaixonada, que cuidaria dela e de todas as demais esposas dos envolvidos com a oposição. Embora seja bem empenhada com o compromisso assumido, as coisas não saem como planejado. Já Ania surge na sequência, como a esposa de um polonês envolvido com a resistência. Suas história foi a que mais me surpreendeu. Todas as três têm filhos e é por eles que mantém segredos e mentiras. 

Começando em 1933 e indo até 1991, o romance traz algumas surpresas, mas não chega a ser inesquecível. Foi bom para minha sequência de leituras sobre a segunda guerra mundial, mas sem acrescentar muita informação.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

paris é sempre uma boa ideia



"Queria ir (naturalmente!) à Shakespeare and Company para andar um pouco entre os livros e sentir o cheiro daqueles tempos quase esquecidos em que a literatura ainda movia mundos."

Mais um livro bobinho para minha coleção. Precisava depois de semanas estressantes e leituras pesadas. E, claro, "Paris é sempre uma boa ideia". Nada mais chamativo para o título de um livro, principalmente para quem é apaixonada por essa cidade. Aqui, o francês Nicolas Barreau segue a mesma fórmula de outro romance dele que li, "O sorriso das mulheres". Há pontos turísticos, restaurantes e confusões sobre quem escreveu este ou aquele livro. Mudam os personagens e suas profissões, apenas. Mesmo assim, vale pela viagem. O que me chateou, porém, foram os inúmeros erros de português. No prefácio, a publisher da Primavera Editorial, responsável pela edição brasileira, elogia a tradução. Acredito que ela não tenha se atentado ao texto final. Não foram dois ou três erros que encontrei. Quase posso dizer que havia um erro a cada cinco páginas. Descaso total com o leitor. 

Enfim, o romance até que é gostoso. Rosalie tem uma papelaria no boêmio bairro Saint-Germain. O diferencial é que ela ilustra cartões postais, personalizando a mensagem. Você diz uma frase ou um tema e ela desenha. Fiquei com vontade de encomendar um para mim. Apaixonada por rituais, todo ano, no dia do seu aniversário, ela sobe na torre Eiffel e joga um cartão com um desejo secreto. E não é que seus sonhos começam a se tornar realidade. A começar pelo convite que recebe para ilustrar o livro do seu autor favorito na infância. Claro que haverá uma paixão, coincidências improváveis, desencontros e um final feliz. Afinal, essa é a intenção. 

sábado, 18 de maio de 2019

mulheres sem nome




"Em um segundo ouvimos as armas. Atiraram nas leiteiras. Algumas balas atingiram o campo e mandaram lufadas de areia para os ares, mas outras atingiram as mulheres, derrubando-as no chão, derramando o leite no gramado. Uma vaca gritou ao cair, e o pop pop pop das balas perfurou os latões de metal cheios de leite. Os refugiados nos campos largaram as batatas e se dispersaram, mas as balas os encontraram enquanto corriam. Eu me abaixei quando os dois últimos aviões voaram novamente por cima de nós, deixando o campo lá embaixo coberto com corpos de homens, mulheres e vacas. Os animais que ainda podiam correr davam pulos para lá e para cá, como se estivessem meio malucos."


Assistindo a um programa que debatia o pós-humanismo, ouvi uma expressão, até fora do contexto do tema principal, que me marcou: "a maldade não tem limites, a bondade, sim."

Pois é exatamente assim que nos sentimos ao ler relatos de guerra e de estados autoritários de uma forma geral. "Mulheres sem nome", da norte-americana Martha Hall Kelly, mistura ficção com personagens reais, que vivenciaram os atos da segunda guerra mundial.

Caroline Ferriday é ex-atriz e socialite norte-americana que trabalha voluntariamente no consulado francês em Nova York. Sua missão consiste em arrecadar doações para órfãos na França. Acompanha de perto o desenrolar do conflito. Em Lublin, na Polônia, temos Kasia Kuzmerick, que vive uma vida tranquila com sua família e amigos até o avanço das tropas de Hitler em seu país. Ligada à resistência, é capturada e mantida prisioneira em Ravensbrück, campo de concentração exclusivo para mulheres. Foi para lá que a judia alemã Olga Benário, esposa do brasileiro Luís Carlos Prestes, foi enviada.

E é neste campo que trabalha a terceira personagem principal, Herta Oberheuser, médica que vai atuar a favor dos experimentos nazistas. Caroline e Herta de fato existiram. Já Kasia foi inspirada em sobreviventes de 
Ravensbrück. Cada capítulo é narrado por uma delas, nos dando uma boa visão desse período a partir de pessoas de classes, ideologias e nacionalidades distintas. Os tópicos de Kasia são os mais pesados. A começar pelo trecho em destaque no início deste post, que mostra a chegada dos nazistas. Como prisioneira, ela passou e presenciou várias torturas. Talvez um dos mais dolorosos foi ver a filha de apenas alguns meses de sua professora ser tirada de seus braços a força. Sabe-se lá o que fizeram com a criança. Mais tarde a mãe morreu sucumbida pelos maus-tratos e tristeza. Infelizmente, isso não é ficção. Situações assim aconteceram. Kasia também foi, junto com sua irmã e outras prisioneiras, selecionada para experimentos médicos, as coelhas de Ravensbrück. Passaram por procedimentos cirúrgicos para que fossem inseridos os mais variados objetos em suas pernas. A ideia era testar se a sulfonamida, espécie de antibiótico, tinha efeito em ferimentos graves, a fim de ajudar os soldados do Reich.

As sequelas ficaram para sempre nas moças que conseguiram sobreviver. Anos mais tarde, elas tiveram a ajuda de Caroline que, dos Estados Unidos, conseguiu fundos para que as prisioneiras tivessem o tratamento adequado. Herta foi uma das médicas que participou dos experimentos. No romance ela é retratada de forma fria e destinada a servir aos interesses da nação. Em alguns momentos, até chega a sentir alguma comoção, mas o sentimento é logo substituído pela ambição em se destacar. Foi julgada e condenada a prisão. Passado algum tempo, foi solta e conseguiu abrir uma clínica médica. Felizmente, foi reconhecida e teve seu título cassado. Tudo isso é verídico. Claro que as histórias ganharam aspectos romanceados, como a vida de Caroline, que teve até um namorado francês. V
ale muito a leitura. Principalmente para quem tem interesse em conhecer o que de fato aconteceu durante a segunda guerra mundial ou para quem ainda acredita que se matou pouco naquela época.
"Canções tristes não são tão tristes quando temos alguém que nos ama."

sexta-feira, 3 de maio de 2019

a costureira de dachau


"Algo tinha acontecido. Ela podia sentir o gosto de metal na boca, o estômago apertado. Suas mãos e axilas começaram a suar. Estava sozinha. Eles tinham ido embora. Seu maxilar começou a tremer e os dentes, a bater. Seu corpo todo tremia. Eles podiam voltar. Ela ia chorar de novo. Seus nervos se agitaram e as lágrimas surgiram, envoltas em uma valsa macabra."


Terminei de ler este livro com uma terrível dor de cabeça. Custou-me a aceitar o desfecho da história. Não que tenha sido ruim, do ponto de vista literário, mas inesperado, tamanho o realismo aplicado. Fiquei revoltada mesmo. “A costureira de Dachau”, da britânica Mary Chamberlain, passa-se durante a segunda guerra mundial. Ada Vaughan é uma jovem inglesa de 18 anos. Ambiciosa, sonha em ter sua própria casa de costura. Para tanto, não hesita em buscar formação. Dedicada, logo aprende as principais técnicas do ofício, destacando-se nos empregos que consegue.

Mas, infelizmente, acaba se deixando levar pelas promessas de um homem que se diz encantado por ela. Resultado: antes totalmente devota ao trabalho, acaba tirando uns dias de folga para passear em Paris, mesmo com o anúncio da guerra que pode começar a qualquer momento. É claro que ela se dá mal. De Paris, acaba fugindo às pressas com o moço para a Bélgica. Lá, ele simplesmente a abandona durante os bombardeios na cidade de Namur. Desamparada, consegue abrigo em um convento. Ao invadirem o país, os soldados alemães aprisionam todos os ingleses, seus inimigos, e isso inclui as freiras. Como Ada usava este disfarce, é também levada para Munique, na Alemanha. Em seguida, para Dachau, considerado o primeiro campo de concentração criado pelos nazistas.

Mas ela não ficava no campo propriamente dito, e sim na casa onde morava o comandante responsável por aquela área, bem como sua respectiva família. Escravizada, come o pão que o diabo amassou. Seu único consolo, entre surras, humilhações e violações sexuais, é poder costurar, mesmo que seja para embelezar seus algozes. Isso não é tudo, porém. Ela ainda terá que lidar com a dor de ver seu filho sendo arrancado de seus braços. Sim, ela engravida, mas isso não é spoiler. Há muito mais surpresas neste livro, que é dividido em três partes. Super recomendo, sobretudo para entender o preconceito da época, e que fez muitas mulheres, que como Ada tinham sonhos e corriam atrás deles, padecerem. 
O começo e algumas partes remetem a outro romance com nome parecido: "Tempo entre costuras", da espanhola Maria Dueñas.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

o menino do pijama listrado



“Quando as pessoas saem para 
marchar, eu nunca mais as vejo.”


Não sei por que demorei tanto tempo para ler “O menino do pijama listrado”, de John Boyne, lançado em 2007. Talvez por que teve uma época em que todos estavam falando dele? Ou por que achei que fosse deveras infantil? Enfim, nem a adaptação para o cinema eu tinha visto. E eis que, apesar de conhecer o enredo e o fim, me surpreendi muito com a leitura. O romance é narrado sob o ponto de vista de Bruno, um garoto alemão de oito anos. Tanto que parte da graça é a forma com que o texto é construído. As coisas e pessoas são nomeadas a partir do seu entendimento. De modo que temos o Fúria (Führer), Hasta-Vista (Auschwitz) e outras formas de chamar as coisas que só as crianças sabem fazer, mesmo sem entender o real significado: a irmã, Gretel, que era um ‘Caso Perdido’. O escritório do pai, onde era ‘proibido entrar em todos os momentos, sem exceção’. E por aí vai.

Contudo, essa inocência não o impede de sentir que está diante de algo muito ruim. Num belo dia, Bruno chega em sua casa, em Berlim, e vê que estão arrumando as malas. Contrariado, tenta conversar com a mãe sobre os motivos pelos quais não podem se mudar. Dentre eles, os seus três melhores amigos. Sem chance. Sem choro. A família parte para um lugar sombrio e estranho, que logo de cara choca o pequeno. Principalmente, quando vê adultos e crianças de pijama em um campo que dá de frente para seu quarto. Ou quando observa a fumaça preta que sai de uma grande chaminé ao longe.

“Bruno pôs o rosto junto ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a boca fez o formato de um O, as mãos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o fez se sentir muito inseguro e com frio.”

Desapontado e sem ter muito o que fazer, parte para suas explorações. É quando encontra outro garotinho do outro lado de uma cerca, Shmuel. Surge uma linda amizade e ele passa a ver sentido no novo lar. São emocionantes os diálogos entre eles e realmente conseguimos ouvir as vozes de crianças. E um pensar sem maldade, algo bem distante do que de fato acontecia por ali. Perturbador e poético.

“Você fez alguma coisa ruim no trabalho? Eu sei que todos dizem que você é um homem importante e que o Fúria tem em mente grandes coisas reservadas a você, mas não acho que ele o enviaria para um lugar como este se você não tivesse feito alguma coisa pela qual ele quisesse castigá-lo.”

domingo, 31 de março de 2019

o sorriso das mulheres





"Seria possível entender uma pessoa em seu íntimo mais profundo? O que a movia, o que a motivava, com o que ela realmente sonhava?"


"O sorriso das mulheres", do francês Nicolas Barreau, é uma leitura leve, descontraída e fofa. Boa para aqueles momentos em que não queremos grandes preocupações. E de quebra ainda temos Paris e seus encantos. Aurélie Bredin toca com muito orgulho o restaurante que foi do seu pai. E tudo vai bem na sua vida até que leva um fora do namorado. Desesperada, vagueia sem destino pelas ruas parisienses, cumprindo as etapas de luto que todos que sofrem por amor passam. Até que vai parar em uma pequena livraria e - claro que algo fantástico acontece - recebe a indicação de um romance que é a sua cara. Literalmente. Ao ler a sinopse, percebe que o cenário é seu restaurante e que a protagonista é justamente ela. Rapidamente, esquece o moço que a deixou e parte para outra: encontrar o escritor de tal livro. Por outro lado, esse autor parece não ser adepto da vida em público. Todo o contato é feito por maio  da intermediação é feita por seu agente, que se apaixona por ela. Contudo, ele tem um segredo que o impede de seguir adiante nas investidas. O final é absolutamente previsível. Mais clichê, impossível.

sábado, 16 de março de 2019

o maravilhoso bistrô francês



"Quem se diminui não 
é amado, e desprezado."

Logo nas primeiras páginas, "O maravilhoso bistrô francês", da alemã Nina George, me lembrei de “O melhor lugar do mundo é aqui”, do espanhol Francesc Miralles. Em ambos, a história começa com uma tentativa de suicídio. E os motivos são bem parecidos: desilusão, solidão e tristeza profunda.

Apesar de o desenrolar da história ser diferente, até que as semelhanças seguem até o final. Tanto Iris, de Francesc, quanto Marianne, de Nina, acabam tendo suas tentativas frustradas e são guiadas por caminhos que as levam a repensar e a recriar suas histórias. Enquanto no primeiro temos um misto de fantasia com realidade, no segundo, apesar de também ter suas passagens fantásticas, temos um desfecho bem possível de acontecer a qualquer um de nós. Basta estarmos abertos e termos a coragem de Marianne. Ela tem sessenta anos, é alemã e está passeando em Paris com o marido, que pouco se importa com ela. Durante uma escapada do restaurante em que estão jantando com outras pessoas, ela vai até as margens do rio Sena e se joga nas águas. É resgatada por um morador de rua e levada para o hospital. O marido chega e, em vez de perguntar o que a levou a tal atitude radical, a agride, fazendo com que ela se sinta ainda pior. Sem ter nada a perder, ela foge e se depara, em uma loja, com um azulejo que traz uma paisagem litorânea que chama sua atenção. Trata-se de Kerdruc, região da Bretanha na França. Pronto. Essa passa a ser sua obsessão. 


A região da Bretanha é cenário deste livro
Mesmo sem ter muito dinheiro, com a ajuda de outras pessoas, acaba alcançando seu destino. A partir daí, sua vida muda completamente. Passa a ser querida pelos moradores, sente-se útil, muda o visual e encontra o amor. Eu estava com um pé atrás em relação a essa autora. Simplesmente odiei seu outro livro que li, “A livraria mágica de Paris”. Confesso que só engatei essa outra leitura porque foi um presente. E até que uma boa surpresa. Nota 6/10 ;-)

"Quanto mais tempo uma mulher vivia, mais começava a descobrir. Se deixasse de lado os velhos sonhos de casamento, filhos, amor para sempre e sucesso profissional, todos nascidos das convenções, começaria uma vida em que o restante estaria lá para ser conquistado. Apenas quando cada um descobria seu verdadeiro lugar no caminhar das coisas, encontrava um sentido."

sábado, 2 de março de 2019

a irmã lua


"- Por que você está otimista? 
- Porque é a nossa única opção."

E termino mais um livro da série das Sete Irmãs, de Lucinda Riley. Não há muito o que dizer, exceto que desta vez fui para Inverness, na Escócia, e Vale Nevado, na Espanha. Eu já estive na Escócia e uma das vistas mais lindas que tive foi nas Terras Altas. Lugar maravilhoso, calmo, frio e aconchegante. E o Vale Nevado será um dos meus próximos destinos. Em "A irmã da lua", acompanhamos as descobertas de Tiggy, a irmã mística, vegana e defensora dos animais. No mais, o enredo é exatamente o mesmo dos demais romances da autora. Voltamos ao passado para descobrir os antepassados da protagonista, há uma história de amor por lá e outra no presente. Sem grandes surpresas. Tiggy descende de ciganos. Acompanhamos suas músicas, danças e crenças, tudo de forma bem estereotipada. A alegria termina com a Guerra Civil Espanhola e os homens de Franco, que invadem as grutas onde os 'gitanos' moram, matando quase todo mundo. A autora inspirou-se na dançarina de flamenco Carmen Amaya para compor sua personagem cigana Lúcia, avó de Tiggy, mulher chata e sem graça. Conseguiu me irritar muito. Há algumas passagens sobrenaturais difíceis de serem digeridas, principalmente por estarem totalmente fora de contexto. Ainda assim, valeu pela viagem. Mais uma vez.


Leia também:

As sete irmãs (Brasil)
A irmã tempestade (Noruega)
A irmã da sombra (Inglaterra)
A irmã da pérola (Austrália)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

uma certa história de amor


"Não é preciso colocar ordem nas coisas, mas aceitar a confusão da vida, e rir dela."


Acredito que eu não estava no humor para "Uma certa história de amor", da italiana Milena Agus. O livro é bem curto, mas levei uma eternidade para terminá-lo. Os personagens não têm nomes. Uma neta narra as alucinações e paixões da avó paterna, considerada louca por todos. E é na sua poesia que essa mulher extravasa seus sonhos, dentre eles o de se apaixonar loucamente. Mas isso nunca acontece, já que ela afugenta todos os pretendentes, que estranham a sua liberdade para descrever sentimentos e sensações, algo inaceitável para as mulheres da época. Estamos na Itália durante a segunda guerra mundial. Até que surge o avô, viúvo sem grandes expectativas, que aceita casar-se com a avó, mesmo sendo alertado sobre seu comportamento insólito. Claro que o casamento é sem amor. Ele frequenta bordéis e a mulher acha que é assim que tem que ser. No entanto, vendo que a situação financeira não é a das melhores, pede para ele economizar a grana que gasta lá, propondo-se a fazer com ele o mesmo que as prostitutas. Ele topa. E assim a vida segue. O tempo passa e nada de filhos. Além da falta de amor, ela sofre de alguma doença nos rins. Por isso, depois de passar por graves crises de dor, é mandada para um termas para se tratar. Lá encontra o 'veterano' e o grande amor de sua vida. Com ele, a conversa flui e ela se sente especial. Juntos, vivem grandes momentos de paixão. Tudo contado pela avó para sua neta anos depois. Ao retornar para sua cidade, ela engravida. Será que o filho que espera é do avô ou do veterano? A resposta talvez esteja no final, quando saberemos se estamos diante de uma fantasia ou realidade. O romance inspirou o filme francês "Um instante de amor", de 2017, que parece ser mais interessante.


"Em todas as famílias há sempre alguém que paga o seu tributo para que o equilíbrio entre a ordem e a confusão seja respeitado e para que o mundo não pare."