segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

unaccustomed earth


Os livros de Jhumpa Lahiri sempre trazem imigrantes indianos na Europa e nos Estados Unidos, bem como seus filhos nascidos no ocidente e que transitam entre duas culturas bem distintas. Talvez por isso se agarram a seus próprios costumes, obrigando, muitas vezes, seus descendentes a terem os mesmos valores. E daí surgem os conflitos e o estranhamento diante da mistura de expectativas. Diria que nasce uma geração que não pertence nem à origem e nem ao destino. 

Há uma passagem de um dos contos do excelente "Intérpretes dos Males", meu primeiro contato com sua obra, que ainda está muito forte na minha mente, uma indiana sentada no chão da sala cortando legumes de forma bem metódica, sua atividade mais emocionante do dia. Após o casamento arranjado, as mulheres sempre acompanham os maridos para seus novos desafios profissionais no estrangeiro. E para elas tudo é ainda mais difícil. Primeiro porque não foi uma escolha. Segundo porque a submissão feminina ainda é muito forte. Por isso, é uma grande vitória quando esta mesma indiana consegue, por exemplo, licença para dirigir e trabalhar como babá.

"Unaccustomed Earth", que infelizmente não foi traduzido no Brasil, traz oito contos, sendo que os três últimos fazem parte da mesma narrativa, o que fazem dele praticamente uma novela.

No primeiro, que dá título ao livro, temos o estranhamento de uma filha diante da súbita mudança do pai após a morte de sua mãe. Ele passa a fazer coisas que não fazia até então, como viajar pelo mundo. 

"Hell-Heaven" conta a história de uma mulher casada que tem uma filha pequena. Como muitos casais, o casamento foi arranjado e os dois deixaram a Índia para viver nos Estados Unidos. A solidão que ela sente é amenizada com a chegada de outro indiano, que torna-se o amigo mais próximo da família. Ela passa a depositar nele toda a esperança de uma vida mais feliz.

"A Choice of Accommodations" mostra um filho de indianos casado com uma norte-americana e com duas filhas pequenas. Ele abandonou sonhos e acomodou-se às situações que foram se apresentando. O casamento de uma amiga o levará a questionar a vida em comum com a esposa.

Em "Only Goodness", há a irmã que faz de tudo pelo irmão mais novo, isso inclui ajudá-lo a conseguir bebidas alcoólicas longe dos olhares dos pais. O que ela não sabia é que, aos poucos, vai contribuir para um vício que pode destruir a família, incluindo a sua que se formará na Inglaterra.

"Nobody’s Business" conta a história de uma filha de indianos nos Estados Unidos. Independente, ela tem que lidar com as várias ligações que recebe de pretendentes enviados por parentes e amigos que querem casá-la. Ela namora um egípcio e divide o apartamento com outras duas pessoas. Passará por uma grande decepção que a fará rever a liberdade que adquiriu.

"Vismaya and Kausik" é composto por três contos que tratam da vida dos dois personagens do título. Enquanto ela cresceu nos Estados Unidos, ele passou parte da infância na Índia. Durante um período eles vivem na mesma casa, e são essas memórias que vão ser narradas por ambos, enfatizando como as vivências da infância podem definir toda a trajetória adulta. O fim faz menção, de forma sutil, mas muito triste, ao Tsunami que atingiu vários países da Ásia em 2004. Fica muito evidente que alguns dias podem valer por toda uma vida. Para os contos de Lahiri e também para nós, leitores que suspiramos (e nos identificamos) com os sentimentos de seus personagens. A minha edição é canadense de 2008, capa dura e com páginas que parecem terem sido feitas à mão. Linda! Mas demorei todo esse tempo para concluir a leitura. Talvez estivesse, assim como Vismaya, presa a um instante eterno.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

a memória do mar


Leitura de cinco minutos. Mas que nos diz muito sobre as pessoas que precisam deixar seus países por conta de guerras e como ninguém parece entender essa urgência. Pelo contrário, fecham as portas. Livro baseado na história de Alan Kurdi, menino sírio de apenas três anos que se afogou no Mediterrâneo em setembro de 2015. Sua foto, ao ser encontrado morto na praia da Turquia, chocou o mundo. O garoto fugia da Síria com a família rumo à Europa, mas o barco em que estava naufragou, matando 12 pessoas. Seu irmão de cinco anos e sua mãe também não sobreviveram. Restou ao pai retornar à terra natal para enterrar a família. Mas apesar de todo o alvoroço que a imagem causou, milhares de pessoas ainda passam pela mesma tragédia todos os dias.

A memória do mar”, do afegão Khaled Hosseini, é inspirado nesta triste história. De forma poética, um pai conta ao filho lembranças dos dias em que podiam andar calmamente pelas ruas, em que podiam admirar os campos de flores, em que muçulmanos e cristãos viviam em paz. Lembra ainda algumas passagens de sua própria infância, aqueles momentos simples, mas que são os que mais sentimos falta.
"a gente acordava de manhã cedo
com o farfalhar da brisa nas oliveiras,
os berros da cabra de sua avó,
o tilintar das suas panelas,
o ar fresco e sol,
um risco pálido cor de caqui ao leste."
Lamenta profundamente o fato de o filho não ter as mesmas recordações por ser muito pequeno quando tudo isso ainda era possível. Vieram, então, os protestos, as bombas, a fome, o sangue, os enterros. Essa, sim, a realidade que a criança conhecia. E muito bem.
"Mas aquela vida,
aquela época,
parece um sonho
agora,
até para mim,
um murmúrio
que há muito tempo se dissipou."
Na sequência, vieram a fuga, a praia fria, o idioma estranho e a hostilidade. Onde quer que tentassem construir um novo lar.
"Ouvi dizer que somos indesejados.
Que não somos bem-vindos.
Que deveríamos levar nosso infortúnio à outra parte."
Todo ilustrado, o livro termina com a angústia e o peso de quem havia prometido que tudo daria certo, que sempre protegeria o filho. Mas que não conseguiu cumprir com a palavra no cenário inóspito em que foram colocados.
"Eu disse
a você:
Segure minha mão.
Nada de mal vai acontecer."
"Tudo o que posso fazer é rezar.
Rezar para que Deus bem conduza o barco, quando a costa se perder de vista e nós formos só um cisco nas altas águas, rodando e afundando, facilmente engolidos.
Porque você, você é uma carga preciosa, Marwan, a mais preciosa que já existiu.
Rezo para que o mar saiba disso.
Oxalá."
Toda a renda com a venda do livro será destinada à Fundação Khaled Hosseini, que ajuda refugiados.

domingo, 30 de dezembro de 2018

em casa para o natal



"Por que ela não podia agir como um sujeito normal, reconhecer que eu estava tendo um surto crítico de vergonha e me deixar morrer em paz."

No fim do ano, sempre quero ler um romance que traga o espírito natalino. Mas aquele lá do hemisfério norte, com neve e frio. Este ano, resolvi ir de um chick-lit que apareceu em várias listas de “livros para se ler no Natal” que andei pesquisando.

Em casa para o Natal”, da britânica Cally Taylor, é bem bobinho. Com diálogos infantis, piadas prontas e desenrolar bem previsível. Confesso que, mesmo para uma fã de chick-lit, foi difícil de digerir. O que salvou foi o cenário, em Brighton. Eu estudei lá por algum tempo, quando tinha quase a mesma idade da protagonista. E justamente na mesma época do ano em que a história acontece, ou seja, no fim do ano. Neste sentido, foi bom para matar a saudade de um lugar que estará no meu coração (eu sendo piegas).

Beth Prince tem apenas 24 anos e sofre (ai, coitada!) por ainda não ter encontrado o grande amor da sua vida. Seu sonho é ouvir “eu te amo” de alguém. Às vésperas do Natal, planeja tomar a iniciativa e dizer essas palavras mágicas ao atual namorado, o bonitão Aiden. Para tanto, até ensaia o diálogo com um poster do George Cloney no cinema em que trabalha. Aliás, ela ama de paixão o emprego e a sétima arte.

Durante este diálogo fictício, entra em cena Matt, procurando sua gerente. Mais tarde ela descobre que trata-se de um executivo de uma das maiores redes de cinema do mundo, e que anda sondando o pequeno estabelecimento em Brighton para ampliar os negócios. Ocorre que este Matt é jovem e muito boa pinta. Já deu para sacar o que acontecerá, não?

Enfim, as coisas com o namorado não dão muito certo e o romance termina, deixando a mocinha desamparada. As negociações da grande corporação avançam, ameaçando seu emprego. No meio de tudo isso, Beth ainda tem que lidar com a mãe, empresária bem sucedida, que quer levá-la para a Austrália. Para completar o elenco, há a melhor amiga, sempre pronta para ajudar, um inimigo, que vai tentar prejudicá-la por diversas vezes, e pessoas que surgem aqui e ali e que vão, de alguma forma, unir os protagonistas. Apesar de tudo, até que consegui dar umas boas gargalhadas com as trapalhadas de Beth, muitas bem no estilo de Bridget Jones. Palmas para a passagem no País de Gales em que ela é obrigada a fazer um rapel. Chorei!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

o bosque das ilusões perdidas




"Talvez tudo volte a ser o que era dantes. Mas será que o passado pode reviver?"

Sabe quando você se sente aliviado por terminar algo árduo? Pois foi assim que me senti ao ver o final de "O bosque das ilusões perdidas", único livro do francês Alain-Fournier. O autor morreu durante a primeira guerra mundial com um tiro, mas seu corpo só foi encontrado muito tempo depois, na década de 90.


Apesar de ser um clássico da literatura francesa, não me convenceu. Por várias vezes pensei em deixá-lo de lado e aproveitar melhor o meu tempo, mas depois de semanas com ele, resolvi terminar a leitura. 

O que me chamou a atenção foi o título na versão brasileira, que nada tem a ver com o original, "Le grand Meaulnes". Eu logo imaginei uma história gostosa, tendo como cenário um bosque e muita neblina. De fato, há o bosque. Só.

O livro traz as memórias da adolescência e início da vida adulta de François Seurel. Ele mora na escola em que seu pai leciona. Num belo dia, chega Augustin Meaulnes, adolescente que se acha a pessoa mais especial do mundo. Além de frequentar o curso, passa a dividir o quarto com François. Surge, então, a amizade entre os dois. Nem sei se posso dizer que são amigos, pois acredito que o laço seja muito maior por parte de François. 

Enfim, sua chegada mexe com os demais alunos, que veem nele o aventureiro que gostariam de ser. Todos disputam sua atenção e ele sabe disso. Tanto que vira e mexe faz algo para reforçar que é o diferentão. Até que rouba uma carruagem e desaparece por dias. O pobre do cavalo acaba voltando sozinho. Enquanto isso, o rapaz vai parar em uma mansão durante a pré-festa de um casamento, que acaba não acontecendo, já que a noiva foge. Lá conhece uma moça por quem se apaixona. Na verdade, ele se apaixonou muito mais pelo cenário do que pela moça isoladamente. No final isso fica bem claro. Mas durante a confusão do fim da festa, volta para casa sem guardar o caminho para aquela fábrica de sonhos e ilusões (talvez daí venha o título da nossa versão do livro). Sua obsessão para descobrir como retornar àquele lugar passa a ser de todos da turma.

E é isso. Nas últimas páginas até me empolguei um pouco, mas logo voltou a ficar entendiante. E o François também é um chato, sempre no rastro de Meaulnes. O fascínio que tem pelo protagonista me lembrou outros dois livros, um que odiei e outro que gostei mais ou menos: "On the road", de Jack Kerouac, e "O Grande Gabtsy", de F. Scott Fitzgerald. O que salvou um pouco a impressão que tive de Meaulnes foi o trecho em que defende um cavalo que estava amarrado. O que não apagou a imagem dele chicoteando outra égua em passagem anterior. Tem duas versões cinematográficas: 1967 e 2006. Talvez elas sejam válidas pelo francês ;-)

sábado, 3 de novembro de 2018

a caixa de pássaros




"Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?"

Para entrar no clima do Halloween, data que gosto de celebrar, escolhi “A caixa de pássaros”, de Josh Malerman.

É um suspense. Fala de ‘criaturas’ que, intencionalmente ou não, enlouquecem as pessoas que olham para elas. A loucura é tanta que todos acabam se suicidando de formas bem tenebrosas. Isso quando também não agridem e matam quem estiver por perto.

Aos poucos, os que sobrevivem percebem que para os acidentes acontecerem basta uma simples e rápida visão para esses seres. O resultado é que as casas são lacradas e todos passam a circular pelas ruas de olhos bem fechados. 

E assim surgem grupos que vão tentar sobreviver nesse cenário apocalíptico. Entre eles o liderado por Tony, que recebe a protagonista da história, Malorie, que está grávida. É sob seu ponto de vista que acompanhamos a história. Estou até agora imaginando como ela conseguiu fazer tudo o que fez. Penso até em coisas básicas, como higiene pessoal, alimentação, um mínimo de entretenimento para os filhos (sim, serão dois, de modo inesperado). 

Em determinados momentos, lembrou-me “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. Claro que não vou comparar os dois livros. Foi apenas uma associação que fiz com o caos instalado, e como o ser humano rapidamente se adapta à situação e cria conflitos mesmo quando tenta se salvar.

Não fica claro, porém, por que essas ‘criaturas’ não conseguem ultrapassar paredes ou portas. Mas tudo é fantasia, afinal. O fato é que prendeu muito a minha atenção. É tenso. Tem animais. Tem crianças (imagino direitinho a expressão delas a cada chamado da mãe). Como sempre, os momentos mais difíceis foram aqueles em que os bichos são sacrificados para ajudar os humanos. Ai, tem o cachorrinho Victor, que dor! E os pássaros do título que, aliás, nem precisavam estar lá. Sonhando com um mundo diferente. Quem sabe a ficção nos ajude a mostrar o caminho. Gostei da leitura e recomendo. Vai virar filme no Netflix.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

wabi-sabi


"Todo meu mundo me lembrava de sua ausência."

Terminei mais um romance do espanhol Francesc Miralles. Eu venho de uma série de textos pesados, teóricos e de uma prova que bem difícil. Precisava de algo para relaxar e, ao mesmo tempo, viajar. Apesar de não ter tido uma experiência muito boa com o último livro que li desse autor, “A fórmula do amor”, resolvi arriscar, afinal, ele já me proporcionou bons momentos. 

Fiquei muito feliz por ter encontrado em minhas buscas justamente a sequência de “Amor em minúscula”, um dos meus preferidos dele. O outro é “O melhor lugar do mundo é aqui” (lembro direitinho o dia em que o achei na livraria, que delícia!).

Bem, “Wabi-sabi” dá sequência à história do professor Samuel. Ele mora com seu gato Mishima, que foi o grande responsável por tirá-lo da solidão no romance anterior. Temos, agora, um salto de oito anos. Ele namora Gabriela, mas não percebe (ou não quer notar) os sinais de que a relação está esmaecendo. Até que a moça, por telefone, pede um tempo.  

Em paralelo, também lida com o mistério envolvendo cartões-postais que anda recebendo do Japão, sempre com referências a gatos e a expressão “wabi-sabi”, que significa, em linhas bem gerais, que o belo é imperfeito e incompleto.

Coincidentemente, seu amigo, que mora no andar de cima, está a escrever sobre esse tema. Sem pensar muito, já que fica em choque com o rompimento amoroso, compra uma passagem rumo ao Japão.

Lá, é colocado diante de situações estranhas, como um bar que só cabem praticamente três pessoas e que, de uma hora para outra, ganha o seu nome. Conhece um executivo japonês que extravasa suas neuras cantando no karaokê e sua sobrinha, que pensa em se matar. Por fim, tudo o leva a crer que a vida é muito maior que os problemas que ele pensa ter. Conclusão: nada melhor que uma boa viagem para nos fazer superar uma separação. Não chega aos pés do livro anterior, mas traz algumas boas mensagens aqui e ali.

"O melhor remédio para os amedrontados, solitários ou infelizes é sair, ir ao ar livre encontrar o céu, a natureza e Deus."

sábado, 1 de setembro de 2018

o campo científico

Universidade de Cambridge, uma das mais prestigiadas do mundo


"A definição do que está em jogo na luta científica faz parte do jogo da luta científica: os dominantes são aqueles que conseguem impor uma definição da ciência segundo a qual a realização mais perfeita consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem."

Neste artigo, escrito em 1983, o sociólogo francês Pierre Bourdieu critica duramente a forma com que a ciência é conduzida. Sobretudo, como os pesquisadores escolhem e realizam seus estudos, muitas vezes levados somente pela relevância que terão dentro do meio no qual estão inseridos, e não considerando a importância do projeto para o avanço da ciência e dos benefícios que serão proporcionados à sociedade, por exemplo. O autor fala que o campo científico é, antes de mais nada, um campo de lutas. Luta-se pelo monopólio da ‘autoridade científica’, que é a junção da capacidade técnica (saber fazer) com o poder social (prestígio acumulado).

As forças no campo da ciência são desiguais. Há de um lado os dominantes, que ocupam os lugares mais altos na hierarquia, e os dominados, que são os que estão entrando agora, os novatos. Os primeiros tendem a ser mais conservadores, garantindo que suas ideias sejam perpetuadas. Já os novatos podem até entrar com fôlego e disposição para inovar, mas logo suas forças serão reduzidas à medida que se deparam com as regras do jogo. 

O cientista tem a pesquisa que considera importante. Mas essa não será a única motivação. Seu trabalho deve também ser interessante para os outros e se adequar ao que já está em desenvolvimento. Fazendo uma associação ao que temos hoje nos cursos de Comunicação das universidades brasileiras, o projeto deve estar dentro de uma linha de pesquisa preestabelecida. Mais que isso, muitas vezes dentro da linha de estudo do próprio orientador. Assim, na luta entre o fechar-se, que é reproduzir a ideia do orientador e da instituição da qual faz parte, e o abrir-se, que é apresentar outras propostas ou outros autores, ganha o primeiro. O resultado são pesquisas focadas sempre nos mesmos temas e com as mesmas conclusões.

No campo científico os clientes dos produtos entregues são, na grande maioria das vezes, os próprios concorrentes, que são os outros pesquisadores. Por conhecerem o assunto tratado, são os mais propensos a consumirem os produtos e, consequentemente, a avaliá-los. E aqui vale outra ressalva importante: os julgamentos sobre o trabalho serão sempre influenciados pela posição que o pesquisador ocupa nas hierarquias institucionais. Conta o seu cargo e também a universidade da qual faz parte. Podemos, dessa forma, ter estudos relevantes, mas que serão desconsiderados por não pertencerem ao que se considera à elite acadêmica.

Bourdieu questiona o que realmente deve ser feito para que se prevaleça a verdade na ciência, sem jogos de interesse ou ideias que satisfaçam apenas os grupos mais privilegiados. Pessimista, ele mesmo responde que essa aspiração só é possível na ficção, lugar que permite que uma forma neutralizada e eufêmica, que representa apenas a classe social dominante, seja considerada ciência.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

metodologia da pesquisa em comunicação












Em "Metodologia na pesquisa em comunicação", texto extraído do "Dicionário da Comunicação" (imagem abaixo), os professores e pesquisadores Maria Immacolata Lopes e Richard Romancini discorrem sobre a epistemologia nos estudos sobre comunicação. Interesse relativamente novo, que surgiu na década de 90 e que traz uma reflexão sistemática sobre o conhecimento produzido no campo de comunicação.

A epistemologia é o estudo do conhecimento, seus fundamentos e princípios. Tem dimensão metafísica e valida o conhecimento produzido. E é justamente nesta validação que reside sua principal contribuição. Segundo os autores, toda pesquisa precisa ter um caráter prático, ou seja, precisa contribuir, de alguma forma, para a sociedade. Mais que buscar ‘status’, os estudos devem almejar os lucros epistêmicos. É imperativo indagar sobre a importância social do objeto a ser estudado, ou seja, o investigador precisa ter o compromisso com os problemas que precisam ser tratados. Isso depende muito mais de nossas filosofias e crenças do que da ciência. Para que o campo da comunicação avance, temos que fazer perguntas cada vez mais relacionadas com nossa existência social. 

Os autores questionam ainda a tensão entre tradição e mudança no campo científico. As práticas reflexivas atuais sobre a ciência dispõem sobre a relação entre o sujeito (investigador) e o objeto (investigado). Ao contrário dos estudos epistemológicos tradicionais, cuja atenção era a relação entre o objeto e o conhecimento.

Outro ponto a ser considerado na forma com que as pesquisas são feitas é a interdisciplinaridade. Estudar o mundo considerando que ele é uma realidade com inúmeras narrativas, e não segmentado por disciplinas, é a tarefa das ciências humanas. Além disso, a sociedade global exige que qualquer análise envolva necessariamente várias ciências. É o que vai dar conta de toda a realidade. Essa interação vai além das ciências exatas, humanas e sociais, passa também pela experiência comum, a intuição e a imaginação social. 

No século 19, o estudo sobre estado e o mercado, política, economia eram separados. Cada um com sua regra. Para lidar com a segregação, criaram-se novas designações interdisciplinares, como estudo da comunicação, ciência da administração, ciência do comportamento. Mas o que vem acontecendo, e que foi alvo de críticas, é que ao usar duas disciplinas, o pesquisador enfatiza a divisão e não a interdisciplinaridade. Aqui vale a ressalva que disciplina é a prática, e só se efetiva após longo trajeto de pesquisa. Diferente de doutrina, que é onde reside a teoria abstrata. Claro que há necessidade de especialização dentro de um campo de estudo, porém, há a necessidade maior de transdisplinarização ou pós-displinarização: superação dos limites entre especialidades fechadas e hierarquizadas. Para os autores, é preciso ter mais profundidade e consistência do que prestígio institucional. Em outras palavras, não cabe mais a máxima de que cada um deve se restringir ao seu campo de atuação.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

amor verdadeiro na livraria dos corações solitários



"Não é que eu seja tímida, não exatamente, ou que odeie as pessoas, porque não é isso. É mais que eu acho o mundo muito barulhento e cansativo."

"E tem as pessoas. Tantas pessoas, e todas elas falando sem parar, sem nem se preocupar se estão falando baixo.Tendo que expressar cada pensamento que lhes vem à cabeça. Não consigo nem sair para uma caminhada sossegada no parque sem ter alguém em volta gritando no celular, ou ouvindo música e imaginando que o resto do mundo também quer ouvir. Existe um limite para o que eu consigo aguentar!"


Ai, que delícia trabalhar em uma pequena livraria londrina, especializada em livros românticos e com uma casa de chá que deixa o ambiente ainda mais gostoso. Pois é exatamente assim a "Felizes Para Sempre", apresentada para nós na série "A livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling. O primeiro livro contou como o estabelecimento surgiu e a história de Posy Morland, a proprietária.

Agora, em "Amor verdadeiro na livraria dos corações solitários" temos a sequência sob o ponto de vista de outra personagem que trabalha lá, a introspectiva Veridity Love. Logo de cara, achei melhor que o livro anterior. Gostei muito de ler sobre esta moça, que não gosta muito de se relacionar com outras pessoas. Seu problema é o barulho que o mundo produz. Tudo o que ela quer no fim do dia é sossego e espaço para tomar um vinho em companhia somente de um bom livro. Convenhamos, isso não é pedir demais. Mas todos conspiram contra seus objetivos simples de vida. São tantas celebrações, encontros, festas. E, para piorar, a cobrança por um relacionamento amoroso. Para driblar tudo isso, ela inventa um namoro fictício com Peter Hardy, oceanógrafo que vive em alto mar e que sempre volta nos momentos mais oportunos, livrando-a de vários compromissos. Afinal, "precisam curtir o reencontro a dois". Entretanto, depois de certo tempo, os amigos querem conhecê-lo. Haja desculpas! Até que num ato de desespero, Verity acaba conhecendo Johnny. Ela, literalmente, se joga na mesa em que ele está jantando quando as amigas a seguem na tentativa de conhecer o tal cara misterioso.

Eis que ele tem exatamente o mesmo problema: pressão para que arrume uma namorada. A partir daí, tudo é previsível. Vale apenas como entretenimento. Aliás, da metade do livro para frente, eu me decepcionei. Achei muita enrolação para pouca aventura. Sem contar o final, extremamente meloso e piegas. Cadê o humor das primeiras páginas? Uma pena. De qualquer forma, não vou deixar de frequentar essa livraria. Já estou com o próximo tomo, que fala sobre Nina. É sempre bom ter um chick lit na mão para quebrar a tensão do dia a dia.

Trechos que também falam por mim ;-)


"Foi um dia cansativo e eu preciso de sossego."

"Tudo que ela queria era se sentar e ler um livro com uma taça, ou no máximo duas, de vinho tinto."

"Era sua poltrona de leitura. Sua poltrona-santuário. Sua poltrona de se-aconchegar-debaixo-de-um-cobertor-e-deixar-que-o-mundo-a-esquecesse."

segunda-feira, 9 de julho de 2018

a pequena livraria dos corações solitários





"Como era bom abrir um livro novo e inspirar aquele aroma delicioso.


Esta aí um chick-lit bem chick-lit. Bem ao estilo de Bridget Jones. Inclusive em várias passagens lembrei dessa personagem enquanto lia as peripécias de Posy Morland. Ambas desleixadas, atrapalhadas e muito engraçadas. Mesmo no meio da bagunça, conseguem com que tudo acabe dando certo no final. Posy cresceu dentro da livraria Bookends, em Londres. Lá conheceu seus escritores favoritos, aprendeu a amar a literatura e teve seu primeiro e único emprego. Seus pais já trabalhavam lá antes. O pai como administrador e a mãe cuidando do salão de chá. Mas um acidente de carro mata os dois, deixando Posy orfã e responsável por Sam, o irmão sete anos mais novo. Alguns anos depois, ela sofre outra perda, a de Lavínia, proprietária, por quem tinha um grande carinho. Antes de morrer, ela deixa uma carta na qual passa a livraria para Posy, com a condição de que ela devolva ao estabelecimento a glória que teve no passado.

Ela convoca os demais funcionários para juntos planejarem a reabertura em grande estilo: Nina, a garota tatuada e cheia de paqueras; Verity, a responsável pelas contas que odeia se relacionar com as pessoas; Tom, que trabalha em uma tese que todos desconhecem. Caso não tenha resultados positivos em até dois anos, ela deverá passar o local para as mãos de Sebastian Thorndyke, o neto de Lavínia. Rico, bem sucedido profissionalmente e conhecido como o homem mais grosso de Londres, ele fará de tudo para interferir nos trabalhos da equipe, inclusive dando ordens em todos. Posy ama a Bookends e quer transformá-la em "Felizes para sempre", especializada em livros que falam sobre o amor. Já Sebastian enxerga a oportunidade de se apropriar do nicho de policiais. A guerra está travada, com todos os clichês possíveis. O final não será nada, nada surpreendente. Ainda assim, a leitura é proveitosa. Afinal, quer tema mais gostoso que histórias dentro de uma pequena livraria em Londres? Os únicos pontos chatos (que eu quase pulei) eram os trechos do romance picante que Posy resolveu escrever para esfriar a cabeça. Que livro chato, menina! Desista. Hahaha!

No mais, fica a dica. "A pequena livraria dos corações solitários", da inglesa Annie Darling, é o primeiro de uma série que promete contar a vida de todos os funcionários. A próxima é Veridity. Vi que também já saiu a edição de Nina. Vou seguir acompanhando e me divertindo com eles :-)