sábado, 18 de março de 2017

vidas secas





"... a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam."

Eu não consigo tirar a imagem da Baleia da minha cabeça. Personagem mais viva e expressiva de “Vidas secas”, de Graciliano Ramos. Não posso dizer quais eram as intenções do autor ao dar voz à cachorra, mas somente quem já prestou atenção ao olhar dos animais poderia ter escrito com tamanho realismo seus pensamentos. O capítulo destinado a ela é a passagem mais triste da literatura. Mais que refletir as angústias dos sertanejos diante da seca, ela traz o sofrimento de todos os animais sujeitos aos humores e necessidades dos humanos.

Baleia é a alma dessa obra, que retrata trechos da vida de Fabiano, de sinha Vitória e das duas crianças, o filho mais velho e o menor. Assim mesmo, sem nomes. Havia ainda um sexto membro, o papagaio, que foi sacrificado para aliviar a fome dos ‘donos’.

A história começa com os ‘seis viventes’ atravessando a caatinga a pé. O sol é escaldante. A terra é seca. A fome e a sede castigam a todos. Encontram uma casa vazia e se hospedam. Mas ela tem dono. Pertence ao fazendeiro. Para continuarem lá precisam trabalhar para ele. Automaticamente também adquirem uma dívida. O livro é composto por 13 capítulos mais ou menos interligados. São episódios vividos pela família. Ora sob o ponto de vista de Fabiano, ora de Sinha Vitória, dos meninos e de Baleia, que foi o primeiro a ser escrito. 

Eles não têm praticamente nada. Até as palavras lhe faltam quando tentam expressar algum sentimento. A convivência é silenciosa. Cortada apenas por algum resmungo ou tentativa frustrada de dizer algo. Restam-lhes apenas os sonhos. Sinha Vitória sonha com uma cama de verdade. O filho mais novo quer ser vaqueiro, como o pai. Baleia sonha com um osso grande. O mais velho começa a se interessar pelas palavras e seus significados. E Fabiano sonha com um futuro melhor para os filhos.

Escrito em 1938, “Vidas secas” faz parte do pós-modernismo brasileiro, que trazia denúncias sociais. Aqui vemos, por meio de Fabiano, a opressão exercida pelos patrões, pelo governo, pela polícia e a submissão de homens e mulheres como nossos personagens. Eles até tenta reagir, mas são sempre calados. E tudo é muito mais intensificado por conta da seca. Mas eu acrescento mais uma denúncia: o sofrimento dos animais. Quando a seca do nordeste brasileiro é retratada, sempre aparecem menções aos animais que morrem. Magros. Só pele e osso. Mas eles não aparecem como eles mesmos. Animais e viventes que são. Eles aparecem como a desgraça total do ser humano. Sem água, sem animais, sem comida. 

No livro de Graciliano Ramos há uma exceção: Baleia. Ela faz parte da família. É a mais sensível de todos. Recebe vários pontapés, mas está sempre junto de seus donos. De certa forma, eles também gostam muito dela. Em especial, o garoto mais velho. No entanto, ao menor sinal de perigo, ela é sacrificada. E justamente quando está magra, doente, indefesa. A narrativa mostra a dor do animal, dando a ela características humanas, pois somente assim conseguimos enxergar o quanto sofre. Tudo é tão real que eu não consigo perdoar Fabiano. O que me consola é saber que sua decisão o atormentará para sempre. A partir daí, qualquer coisa faz com que ele se lembre da cachorra, de seus lugares favoritos, de suas peripécias. 

Outros animais padecem na obra. O papagaio que serviu de alimento. As aves de arribação (que na fúria contra o mundo, surgem como o motivo da estiagem), o porco (morto e alvo de impostos), as preás (presas de Baleia e muitas vezes o único alimento do grupo), o bezerro (morto e salgado no momento da segunda fuga da família, que nunca vai deixar de ter esperança em uma real mudança). Mas é Baleia que fala por todos os bichos. O capítulo dedicado a ela, como eu já disse, é dramático. Em seus delírios finais ela pensa na família. E em nenhum momento pensa que fizeram algo ruim contra ela. Deveria ser leitura obrigatória para todos. E gosto, sobretudo, do estilo seco e cortante utilizado por Graciliano. Sem poupar o leitor, mostra o que tem que mostrar. Como a vida é. Como somos. E como os animais são. Interessante observar que enquanto Baleia ganha características humanas, Fabiano torna-se bicho. Quem é melhor, afinal?

“Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme.”

Baleia consola o menino mais velho na versão para o cinema (1963)

Trechos

“E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente.”

“Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida. Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pelo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente.”

“Pobre do louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da família.”

“A cachorra Baleia acompanhou-o naquela hora difícil. Repousava junto à trempe, cochilando no calor, à espera de um osso. Provavelmente não o receberia, mas acreditava nos ossos, e o torpor que a embalava era doce. Mexia-se de longe em longe, punha na dona as pupilas negras onde a confiança brilhava. Admitia a existência de um osso graúdo na panela, e ninguém lhe tirava essa certeza, nenhuma inquietação lhe perturbava os desejos moderado. Às vezes recebia pontapés sem motivo. Os pontapés estavam previstos e não dissipavam a imagem dos ossos. Naquele dia a voz estridente de sinha Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da modorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem. Foi esconder-se num canto, por detrás do pilão, fazendo-se miúda entre cumbucos e cestos. Um minuto depois levantou o focinho e procurou orientar-se. O vento morno que soprava da lagoa fixou-lhe a resolução: esgueirou-se ao longo da parede, transpôs a janela baixa da cozinha, atravessou o terreiro, passou pelo pé de turco, topou o camarada, chorando, muito infeliz, à sombra das catingueiras. Tentou minorar-lhe o padecimento saltando em roda e balançando a cauda. Não podia sentir dor excessiva. E como nunca se impacientava, continuou a pular, ofegando, chamando a atenção do amigo. Afinal convenceu-o de que o procedimento dele era inútil. O pequeno sentou-se , acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morreu no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.”

sexta-feira, 10 de março de 2017

paris para um


Sabe quando você precisa de um livro para relaxar? Algo que não seja profundo, mas que lhe deixe com um sorriso nos lábios? Ou mesmo uma leitura rápida, uma distração durante uma viagem? “Paris para um”, de Jojo Moyes é uma boa pedida. Ele traz dez contos deliciosos. O primeiro, que dá título ao livro, é sobre uma jovem inglesa que combina uma viagem à Paris com o namorado. Só que ele não vai e ela acaba tendo que passar o fim de semana sozinha na capital francesa. O que parecia ser uma tragédia acabou sendo a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido. Situação parecida acontece no último conto, também em Paris. Durante a lua de mel, a protagonista vaga sozinha pela cidade, pois o marido tem que resolver assuntos importantes do trabalho. Gostei, sobretudo, de “Entre os tuítes”. Nessa história, um apresentador de TV em decadência é alvo de vários insultos na rede social por parte de uma mulher que diz ser sua amante. O desfecho é hilário e mostra que todos têm lá sua culpa. “A lista de Natal” é bom para aqueles que pensam em largar tudo e começar uma nova vida. Sobrecarrega com as tarefas dadas pelo marido, a mulher surta e é ajudada por um motorista de táxi a tomar a decisão que vem adiando há tempos. “O casaco do ano passado” fala sobre a crise financeira e as aparências que precisam ser mantidas. “Treze dias com John C.” é o mais engraçado. Mulher acha um celular na rua e acaba respondendo as mensagens que chegam nele. Isso a leva a uma grande cilada. Os demais contos são mais fracos, mas mesmo assim sempre com alguma pegada divertida. Em comum, trazem mulheres insatisfeitas com o casamento, com o corpo ou com o estilo. Com exceção de “Assalto”, no qual a mocinha se apaixona pelo ladrão. Ai, ai, ai. Leiam sem medo de ser feliz. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

história de quem foge e de quem fica



Mais um livro finalizado da série napolitana de Elena Ferrante. “História de quem foge e de quem fica” mostra a fase adulta de Lenu e Lila. É o que mais fala da primeira, com detalhes de sua vida fora do bairro em Nápoles. Lenu torna-se escritora, seu primeiro livro é um sucesso. Sua vida sentimental também está bem. Preste a se casar com Pietro, renomado professor, ela volta às origens para ajudar Lila, que não teve a mesma sorte e, após deixar o marido, trabalha em condições degradantes em uma fábrica. Paralelamente, acompanhamos o movimento em prol de melhores condições de trabalho e a luta de classes. Muitos personagens ganham força, como Pasquale, o comunista, e Nino, o grande amor de ambas. Amizade e inveja continuam fortes e misturadas.

A leitura é tensa. Mais que os dois anteriores. Mas eu não conseguia largar. Mexeu tanto comigo que incorporei as injustiças do livro e fiquei revoltada. Queria eu mesma sair às ruas e ajudá-las. Lá pelas tantas há uma reviravolta. Só que ela é contada de tal forma que mal percebemos como tudo aconteceu. É como se o tempo tivesse passado também para nós. Lila consegue se recuperar e Lenu cai. Ou seja, enfrenta uma crise no casamento. Não consegue mais escrever. A insegurança que sempre teve está cada vez maior. No fim resolve abandonar tudo e, mais uma vez, fugir. Não vejo a hora de ler o quarto e último volume para saber como esse duelo velado entre as duas amigas vai acabar.

sábado, 4 de março de 2017

a fórmula do amor



Einstein e suas teorias são o foco deste entediante livro de Francesc Miralles e Álex Rovira. Mas que fique claro: não é a física que o torna cansativo. 

Javier é jornalista em uma emissora de rádio. Certo dia, por falta de outra pessoa, é convocado a participar de um debate com o autor de um livro sobre Einstein. Após o confronto nada agradável, recebe uma misteriosa carta dizendo para ir até uma cidade vizinha. Sem ter programa melhor, vai e descobre que a casa pertenceu ao célebre cientista. Lá conhece outras cinco pessoas. Todas envolvidas com pesquisas sobre Einstein. Uma delas é o anfitrião, que logo após a inusitada reunião é assassinado. Logo na sequência, Javier recebe um e-mail com outro convite. Desta vez, para finalizar o projeto do cara que morreu, que tinha como objetivo trazer à tona a última descoberta do físico alemão. Não precisa ser gênio para descobrir qual ela é, já que a edição portuguesa do livro, a que eu li, já diz logo no título: "A fórmula do amor". O original, em espanhol, é “A última resposta”. Começa, então, a jornada, que inclui países da Europa e América do Norte, sempre seguindo os rastros de Mileva, primeira mulher de Einstein, e quem estava, segundo o romance, por trás das suas teorias. Tem mulher fatal. Tem flerte: Javier com sua parceira na pesquisa. Tem mais mortes. Tem enigmas a serem descobertos.

Tudo dividido em quatro partes: ar, terra, água e fogo. Cada uma delas com vários capítulos, sempre abertos com uma frase bonitinha. Caminho a ser percorrido até chegarmos à quintessência: o amor, que tudo cura e tudo pode. Balela sem fim. Nem mesmo as incursões na física e suas teorias salvaram o livro e sua fracassada tentativa de ser um suspense. No fim a resposta estava no quintal de casa, o que me lembrou o desfecho de “O Alquimista”, de Paulo Coelho.

Enfim, não vou dizer mais nada porque ainda estou com raiva. Principalmente, porque havia gostado muito de outros coisas que Miralles escreveu (“Queria que você estivesse aqui”, “O melhor lugar do mundo é aqui” e “Amor em minúscula”. E procurei outro livro seu justamente para descansar, ficar com aquele sorriso bobo depois de ler algo bonito. Mas que nada. Fiquei ainda mais triste porque a leitura anterior, outra promessa (“A livraria mágica de Paris”), também tinha sido ruim. Quem sabe, mais para frente, passado o meu mau-humor, eu não abrande minha crítica. #sóquenão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

a livraria mágica de paris

Que livro chato! Antes de ler até achei que seria como o romance 'A senhora das especiarias', da indiana Chitra Divakaruni, ou o filme 'Chocolate', com Juliette Binoche e Johnny Depp. Um trazendo os temperos como cura dos males da alma e o outro o chocolate. Ambos irresistíveis. Vale a pena conferir.  'A livraria mágica de Paris', da alemã Nina George, até tenta ir por este caminho. Mas fora um trecho aqui outro acolá, o livro é bem, mas BEM cansativo. Jean Perdu tem uma livraria num barco em Paris. Costuma receitar livros para os clientes como se fossem remédios. Contudo, ele próprio não consegue se curar de suas dores. Há vinte e um anos sofre por amor. Tanto que evita dizer e pensar o nome da fulana que o abandonou para não aumentar o seu tormento. Até que conhece outra mulher depois de todos esses anos. Ela também foi abandonada pelo marido. E é justamente por meio dela que vai reencontrar a carta que a ex deixou e que nunca teve coragem de ler. Quando a abre, finalmente, descobre que ela partiu porque estava muito doente. Ah, ela era casada. Perdu era o amante. Desnorteado, sai com seu barco pelo rio Sena em busca de repostas e redenção. Quando está zarpando, um jovem escritor, que mora no mesmo prédio, se joga na embarcação. Max está em busca de inspiração para o segundo livro. E assim os dois conhecem o interior da França, fazem amizades, divagam. Mas o que realmente me irritou foram os trechos do diário de Manon, a tal mulher que deixou Perdu, que a autora teve a infelicidade de inserir aleatoriamente. Gente, como ela é mala. Nós, leitores, não temos culpa de sua doença e nem do seu egoísmo. Já pensou aturar alguém que fala assim:  "Eu sou meu corpo. Os lábios da minha vulva sorriem, suculentos, quando tenho desejo, meu peito transpira quando sou humilhada e em meus dedos fica o medo diante de própria coragem, tremem quando eu quero me proteger e defender." Ainda bem que Perdu consegue, mesmo que aos poucos, se libertar.

Mapa com o trajeto feito por Jean e Max

Uma coisa boa foi que fiquei morrendo de vontade de fazer o trajeto de Jean e Max. Gostei ainda das referências literárias. Só não entendi a indicação de Moby Dick para vegetarianos. Seria essa opção alimentar uma doença. De todo modo, vou refletir mais sobre a relação. A autora colocou no final algumas receitas de pratos que aparecem no livro. Totalmente dispensável. Uma pena. Foi uma leitura que começou bem e prometia ser gostosa.

Trechos que (quase) salvam o livro

"Tudo ainda está lá. todo o tempo que passamos junto é eterno, imortal. E a vida nunca cessa."

"Queria tratar sensações que não são reconhecidas como doenças e que nunca são diagnosticadas por médicos. Todas aquelas pequenas emoções e todos os sentimentos pelos quais nenhum terapeuta se interessa, porque parecem pequenos demais e intangíveis."

"Obviamente, livros são mais que médicos. Alguns romances são amorosos, companheiros de uma vida inteira; alguns são um safanão; outros são amigos que o envolvem em toalhas aquecidas quando bate aquela melancolia outonal."

Cuisery: a cidade dos livros,
parte do percurso indicado no livro

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

história do novo sobrenome

As capas dos livros desta série são maravilhosas

Todos deveriam ter acesso à escola. Principalmente quem a valoriza. Infelizmente, não é o que acontece. E não foi o que aconteceu com Lila Cerullo. Ela era uma aluna brilhante e prometia um futuro promissor. No entanto, mesmo com o apelo da professora, o pai não permitiu que ela continuasse os estudos após a conclusão do ensino fundamental.

O resultado: ela casou-se aos dezesseis anos na tentativa de substituir a paixão que tinha pelos livros por um marido e por uma vida luxuosa. Tudo isso acompanhamos em "Amiga genial", o primeiro livro da série napolitana de Elena Ferrante.

Em "História do novo sobrenome" temos o resultado dessa sequência de fatos: um marido violento, que a espancava a todo momento. O pior é que todos viam, pais, irmão, sogra, cunhados, amigos. E ninguém fazia nada. Pelo contrário, davam razão a ele. Afinal, Lila era teimosa, queria tudo do seu jeito, não prestava. Mas nem isso a deixa para baixo, a garota segue buscando outros motivos para se destacar e entrega-se aos negócios da família.

Paralelamente, acompanhamos Lenu, a narradora dessa envolvente história, e seu desenvolvimento acadêmico. Apesar das dificuldades, da falta de dinheiro, ela prosseguiu com os estudos. Sempre achou que não era digna das boas notas que recebia. Sentia-se inferior por pertencer a um meio no qual a gritaria, os espancamentos e o dialeto ditavam as regras. Isso nunca vai sair de mim, pensa a todo instante. Talvez seja esse o motivo de não haver detalhes de sua vida na faculdade. Ela apenas faz um resumo do que se passa. O foco de seu relato é reservado para o bairro, em Nápoles, no qual cresceu e no qual, de certa forma, sempre habitará. Muito interessante acompanhar o desenrolar de todos os personagens secundários que ela nos apresenta.

A disputa silenciosa entre as duas amigas continua. Lila querendo provar que mesmo sem ter ido à escola pode ter uma vida boa, nem que seja na aparência. E Lenu, ao mesmo tempo em que quer bem a amiga, torcendo para que as coisas desandem. 

Ambas, porém, sempre se lembrarão da última férias de verão que passaram juntas, quando tinham dezessete anos. Cada uma estava lá por seus motivos. Lila porque disseram ao marido que banhos do mar ajudam a engravidar. Lenu para encontrar Nino, por quem era secretamente apaixonada. Para uma será o apogeu da paixão. Para outra uma grande desilusão. Para as duas, um momento que ditará definitivamente o futuro.

Ischia: férias inesquecíveis
Não dá para falar muito sobre o livro. Só lendo e acompanhando. É o tipo de leitura que não traz grandes acontecimentos. Não tem muita ação. Mas que atrai pelo desenvolvimento das personagens e pela passagem do tempo. Sem nos darmos conta, envelhecemos e deixamos para trás sonhos, amigos, lugares. Vou entrar no terceiro volume com saudades da infância e adolescência das duas, abordadas no primeiro livro. E, também, do verão que passaram juntas, no segundo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

mr. mercedes




Ele vai matar o cachorro. E eu não vou conseguir continuar a leitura. Quando cheguei no capítulo "Isca envenenada" fechei o livro e respirei profundamente. Morte de animais mexem comigo. E era justamente isso que estava para acontecer. Depois de algum tempo, criei coragem para ver o que o autor tinha preparado. E... Bem, posso dizer que fiquei aliviada, embora para alguns o que veio foi bem pior.

Que livro! Stephen King caprichou neste romance policial. Quando eu era adolescente, devorava esse tipo de literatura. Em especial os de Agatha Christie. Depois de adulta, dei uma diminuída. Mas ainda é um dos meus favoritos. A leitura é rápida. Não sossego até que o criminoso seja descoberto. Na maioria das vezes, o ser mais improvável. Em "Mr. Mercedes" foi diferente. O criminoso, Brady Hartsfield, nos é apresentado logo de cara. Sabemos tudo o que passa na sua cabeça doentia. E, aos poucos, vamos conhecendo os motivos que fizeram dele um assassino. Nada que justifique, porém, seus crimes. Até o coitado do Brad Pitt ele quis matar. 

Quando li o primeiro capítulo, achei que estava diante dos personagens principais. Que nada. SK nos engana. O livro começa em um estacionamento que servirá para um feirão de empregos. É madrugada. Faz um frio danado. De um ônibus, salta um homem que caminha para a fila que começa a se formar. Na frente dele, uma mulher com um bebê, o que o deixa surpreso. Como ela teve coragem de trazer essa criança tão novinha? Ainda mais nessas condições, em que eles têm que passar a noite de pé para garantir, quem sabe, um trabalho. E o autor, ao longo desse trecho, vai nos dandos as pistas de que esses serão os últimos momentos deles. Logo em seguida uma Mercedes enfurecida passa por cima de todos.

Há uma passagem de tempo e somos apresentados ao detetive aposentado, Bill Hodges. Gordo e entendiado, ele passa as tardes sentado no sofá bebendo, comendo e assistindo aqueles programas que buscam resolver problemas (para não dizer barracos) familiares. Ao seu lado, um revólver que vira e mexe coloca na boca. O marasmo acaba quando recebe uma carta na qual o remetente diz ser o Assassino da Mercedes. Provocativa, tem o intuito de fazer com que o detetive se suicide. O que consegue é o oposto. O criminoso levanta Hodges que, por conta própria, inicia a caça ao bandido. Como já sabemos quem ele é, a emoção está nas suas estratégias para encurralar Brady, cujos atos acompanhamos passo a passo. Eletrizante. Nas últimas páginas tive que fechar novamente o livro. Não estava preparada para o iminente desfecho. Tem lá seus clichê, como um detetive meio loser que vai conquistando nossa admiração, a moça que vai ter um caso com ele, piadinhas para aliviar a tensão, companheiros de investigação (elementar, meu caro Watson). Mas é um grande livro. O primeiro da trilogia Bill Hodges. Atenção para a capa, que diz muito sobre a história.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

a amiga genial

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

meu avô português


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

a cultura no mundo líquido moderno



Li "A cultura no mundo líquido moderno" entre setembro e outubro do ano passado. Rascunhei o resumo em novembro e, somente, agora estou aqui para terminar o post. Isso alguns dias após a morte do autor, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, aos 91 anos.

O livro abre derrubando o termo elite cultural, já que por conta da liquidez do mundo os indivíduos hoje absorvem de tudo um pouco. Com isso, não é mais papel da cultura a divisão de classes, também não lhe cabe moldar as pessoas de acordo com o que se considera 'culto'. A mesma pessoa que gosta de funk, pode gostar de música clássica, de sertanejo universitário e MPB, por exemplo. Esse é o reflexo do mundo líquido, nada mais permanece no estado sólido.

Para dar conta da sua teoria, além do conceito de cultura, ele aborda a moda; a imigração e a Europa como unificadora de povos; e o Estado como patrocinador da cultura. 

A moda ressalta as desigualdades sociais, além de propiciar a perda da individualidade na frenética busca do que é 'novo'. Ela tende ainda a nos levar a inércia de pensamentos. Bauman chega a dizer que é o lugar onde reina a preguiça, já que não precisamos inovar, apenas seguir o que é dito e feito. Lembrou-me muito de Nietzsche e sua descrição de último homem, aquele que pisca o olho e aceita o que lhe está sendo dito. É mais cômodo e simples do que tentar mudar o rumo das coisas.

Não existe mais a tal da elite cultural, aquela baseada em antigos signos, como frequentar óperas. Assim, o polonês Zygmunt Bauman inicia o livro "A cultura no mundo líquido moderno". Ele sugere a utilização do termo onívoro, dado por Richard A. Peterson, da Universidade de Vanderbilt, e que identifica o perfil atual de pessoas que consomem de tudo um pouco. "Em seu repertório de consumo cultural, há lugar tanto para a ópera quanto para o heavy metal ou o punk, para a 'grande arte' e para os programas populares de televisão."

"Estamos passando por uma mudança na política de status dos grupos de elite, dos intelectuais que detestam com esnobismo toda a cultura popular, vulgar ou de massa,... para aqueles que consomem de maneira onívora um amplo espectro de formas de arte, tanto populares quanto intelectualizadas."

O que ele diz é que não há mais a briga entre o que é refinado ou vulgar. Mas um não contra a seletividade excessiva. Estamos na era que pode ser resumida com a frase "nenhum produto da cultura me é estranho."

Antes, as movimentações artísticas eram criadas e dirigidas para um público específico. Inclusive, o sociólogo francês Pierre Bourdieu chegou a afirmar que esta prerrogativa, embora implícita, era a razão de ser das artes, que sinalizavam a divisão de classes. Colocavam as pessoas numa situação confortável e familiar. Para comparar, Bauman cita uma parábola inglesa:

"A cultura deveria comportar-se como o náufrago da parábola inglesa, aparentemente irônica, mas de intenções moralizantes, obrigado a construir três moradias na ilha deserta em que havia naufragado para se sentir em casa, ou seja, para adquirir uma identidade e defendê-la com eficácia. A primeira residência era seu refúgio; a segunda, o clube que frequentava todo domingo; a terceira tinha a função exclusiva de ser o lugar cujo portão ele evitaria cruzar em todos os longos anos que deveria passar na ilha."

A origem da cultura

O termo cultura surgiu como um apelo à ação, base do projeto iluminista. Ou seja, o acordo a ser celebrado entre os poucos detentores do conhecimento e os, como classifica o autor, ignorantes. Bauman afirma que agora a cultura passa a ser modelada de acordo com a liberdade e pela responsabilidade individuais de escolha. 

Para tanto, ele cita novamente Bourdieu que, em seu livro "La distinction", desmistifica o conceito original de cultura. Não mais como agente de mudança, mas como um tranquilizante. Reprodução monótona da sociedade e manutenção do equilíbrio do sistema.

"O nome 'cultura' foi atribuído a uma missão proselitista, planejada e empreendida sob a forma de tentativas de educar as massas e refinar seus costumes, e assim melhorar a sociedade e aproximar  'o povo', ou seja, os que estão na 'base da sociedade', daqueles que estão no topo. A 'cultura' era associada a um 'feixe de luz' capaz de 'ultrapassar os telhados' das residências rurais e urbanas para atingir os recessos sombrios do preconceito e da superstição que, como tantos vampiros (acreditava-se), não sobreviveriam quando expostos à luz do dia."

Agora, "sua função é garantir que a escolha seja e continue a ser uma necessidade e um dever inevitável da vida, enquanto a responsabilidade pela escolha e suas consequências permaneçam onde foram colocadas pela condição humana líquido-moderna - sobre os ombros do indivíduo, agora nomeado para a posição de gerente principal da 'política de vida', e seu único chefe executivo."

"Essa perda de posição foi resultado de uma série de processos que constituíram a transformação da modernidade de sua fase 'sólida' para 'líquida'."

A cultura está em todas as partes

E é neste ponto que Bauman utiliza o termo que o consagrou. Para ele, o atual status da cultura é resultado da transformação da modernidade de sua fase sólida para líquida, o que outros autores chamam de 'pós-modernidade', 'modernidade tardia', 'segunda modernidade' ou 'hipermodernidade'. Ou seja, a exemplo do líquido, nada mais consegue manter-se em seu formato original por muito tempo.

A cultura não traz mais proibições ou regras. Mas estímulos, como também já apontava Bourdieu. Ela pede constante mudança e está orientada para uma sociedade que preza a rotatividade. Nesse sentido, sua função, ao contrário de outras épocas, é criar novos desejos, novas necessidades. E assim coibir a plena satisfação diante do conhecido. "De maneira bem particular, neutralizar sua satisfação total, completa e definitiva, o que não deixaria espaço para outras necessidades e fantasias novas, ainda inalcançadas."

A moda

Bauman trata a moda como um fenômeno social utópico, já que promete algo inatingível. Ele fala de uma sociedade de caçadores, na qual o fim da caça é angustiante: a eterna insatisfação. Os consumidores perdem o interesse tão logo adquirem o bem que tanto queriam, e voltam-se para outros alvos. Quem já não se viu neste situação? 

A moda, para ele, é responsável pelas discrepâncias sociais. Ela "multiplica e intensifica as distinções, diferenças, desigualdades, discriminações e deficiências que ela promete suavizar e, em última instância, eliminar."

"Guiada pelo impulso de ser diferente, de escapar da multidão e da rotina competitiva, a busca em massa da última moda (do próprio momento) logo faz com que as atuais marcas de distinção se tornem comuns, vulgares e triviais; mesmo o menor lapso de atenção ou até uma redução momentânea da velocidade da prestidigitação podem produzir efeitos opostos aos pretendidos: a perda da individualidade. Hoje, os símbolos de 'estar na vanguarda' devem ser adquiridos depressa, enquanto os de ontem, da mesma forma, devem ser confinados à pilha de refugos. A regra de ficar de olho naquilo 'que já saiu de moda' deve ser observada tão conscienciosamente quanto a obrigação de permanecer no topo do que é (neste momento) novo e atual."

Desfile Gucci

Encarada como um dos principais incentivos do progresso, tem o poder de aniquilar tudo o que deixa para trás. Mas não devemos encarar esse progresso como antigamente. O que o autor propõe para esta palavra é uma ameaça. Na falta de algo melhor a fazer, vamos nos juntar ao que está sendo feito. Prato cheio aos preguiçosos, de acordo com Bauman. O progresso deixa de trazer melhorias para garantir a sobrevivência pessoal. Isto é, não está relacionado à velocidade, mas à inércia para não sair dos caminhos já trilhados. O importante não é vencer, mas apenas não fracassar completamente.

"Se você não quer afundar, deve continuar surfando, ou seja, continuar mudando, com tanta frequência quanto possível, o guarda-roupa, a mobília, o papel de parede, a aparência e os hábitos - em suma, você."

Para o autor, a moda é guiada por dois anseios contraditórios: o de pertencimento a um grupo e o de distanciamento das massas. "Ou, se olharmos esse conflito de outra perspectiva, o medo de ser diferente e o medo de perder a individualidade; ou da solidão e da falta de isolamento."


Conviver com a diferença

Nunca antes o europeu teve que conviver tanto com as diferenças (sem que fossem eles a buscá-las, vale reforçar). E isso é algo que veio para ficar, resultado da movimentação constante das pessoas, realizada por diversos motivos. Para tanto, surge a necessidade de adquirir-se habilidades que possibilitem a coexistência.

"A nova ideia de direitos humanos básicos estabelece, no mínimo dos mínimos, os alicerces da tolerância mútua; mas, cabe enfatizar, não chega a ponto de estabelecer os alicerces da solidariedade mútua."

Apesar dos esforços dos governos para evitar a imigração, seu fim é algo improvável. Estamos diante de uma diáspora étnica. O autor sugere que há várias intenções nas estratégicas de distanciamento das 'minorias étnicas' definidas pelos poderes globais. Dentre elas, dar ao 'povo' algo com que se preocupar.

Para tornar mais clara sua colocação, utiliza um trecho escrito pelo filósofo norte-americano Richard Rorty: "O objetivo será manter a mente dos proletários concentrada em outras coisas - manter os 75% mais pobres dos Estados Unidos e os 95% mais pobres da população mundial ocupados em hostilidades étnicas e religiosas e em debates sobre costumes sexuais. Se os proletários puderem se distrair de seu próprio desespero por pseudoeventos criados pela mídia, incluindo ocasionais guerras curtas e sangrentas, os super-ricos pouco terão a temer."

Nada poderia ser mais verdadeiro no momento atual, com ameaças de erradicação de imigrantes, preconceitos e intolerâncias das mais diversas, base de plataformas políticas bem-sucedidas no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Como afirma Bauman, "quando os pobres discutem com os pobres, os ricos têm todo motivo para esfregar as mãos de alegria."

Será que estamos votando pelos motivos certos? Para refletirmos.

Refugiados, imigrantes, invasores?

Mas tudo isso é colocado para falar sobre a cultura diante dos processos imigratórios. E como os imigrantes reagem ao modo com que são tratados. Como minoria. Como invasores de territórios. Como estorvos. E muito desses sentimentos de exclusão são mútuos. Não confortáveis nessa situação, os imigrantes tendem a se isolar cada vez mais, rejeitando a aproximação dos nativos.

"O sentimento de ameaça e incerteza (tanto entre os imigrantes quanto na população nativa) tende a transformar o conceito de multiculturalismo no postulado de um "multicomunitarismo", como Alain Touraine assinalou. Por conseguinte, as diferenças culturais, sejam elas importantes ou triviais, patentes ou apenas perceptíveis, adquirem o status de materiais de construção para trincheiras e plataformas de foguete. 'Cultura' vira sinônimo de fortaleza sitiada, e dos habitantes de uma fortaleza sitiada se espera que manifestem diariamente sua lealdade e cortem, ou pelo menos reduzam radicalmente, qualquer contato com o mundo exterior."

Bauman recorre ao escritor líbano francês, Amin Maalouf, para expor algo bem coerente. "Quanto mais os imigrantes perceberem que as tradições de sua cultura original são respeitadas no país de adoção, e quanto menos eles forem desprezados, rejeitados, amedrontados, discriminados e mantidos a distância em decorrência de sua identidade diferente, mais atraentes lhes vão parecer as opções culturais do novo país, e menor será o apego à distinção."

Gostamos de viajar e conhecer 'novas culturas'. Somos abertos aos costumes, culinárias e estilos locais quando estamos de férias. No entanto, ao nos depararmos com essas 'culturas' em nosso território, fora da esfera do turismo, a aceitação é pequena. Sentimos que somos invadidos. Que nosso espaço está sendo indevidamente ocupado. Não há tolerância e o desrespeito e, principalmente, a indiferença passa a ser a base do relacionamento com o estrangeiro.

Como consequência, formam-se os guetos ou as comunidades de pessoas da mesma etnia. Juntos, eles tentam resgatar o que ficou para trás durante a fuga.

"O sentimento de comunidade surge muito naturalmente nas pessoas nos períodos em que lhes é negado o direito de assimilação. Quando privadas de escolha, a opção que lhes resta é buscar refúgio na fraterna solidariedade familiar. O impulso 'comunitário' das 'minorias étnicas' não é  'natural', mas imposto e conduzido de cima, pelo ato ou pela ameaça de privação. As minorias culturais são privadas do direito à autodeterminação; seus esforços por atingi-lo tornam-se fúteis. Todas as tendências remanescentes são resultado daquele primeiro ato original de privação; não surgiram sem ele, nem sem a ameaça de experimentá-lo. A decisão das parcelas dominantes, de conter os dominados no interior do arcabouço de referência das 'minorias étnicas', com base em sua falta de inclinação ou capacidade de romper com ele, tem todas as características de uma profecia autorrealizável."

Aparece, então, a necessidade de 'histórias de identidades'. Relatos que, de certa forma, resgatam a segurança e permitem reconstruir, mesmo que no imaginário, a confiança desaparecida. Mas ao contrário de antigos relatos sobre pertencimentos, antes enraizados em instituições fortes, esses, assim, como tudo na cultura líquida, estão sujeitos a sucessivas mudanças, o que faz com que a tão almejada segurança demore a chegar.

Bauman fala sobre a Europa como um destino comum. Ele acredita que sua união possa ser um exemplo bem-sucedido da fusão de diversas 'culturas'. Fala dos ganhos que todos teriam se o acesso a tudo o que foi escrito, por exemplo, nas diversas línguas oficiais que fazem parte da União Europeia, fosse de fácil acesso. "Quanta sabedoria poderíamos ter ganho, o quanto nossa convivência teria se beneficiado, se parte dos fundos da União Europeia tivesse se dedicado à tradução das escritas de seus habitantes numa, digamos, 'Biblioteca da Cultura Europeia', conjuntamente organizada e publicada? Pessoalmente, estou convencido de que poderia ter sido o melhor investimento no futuro da Europa e no sucesso de sua missão."

A cultura entre o Estado e o mercado

O debate na última parte do livro é sobre o financiamento das artes, que surgiu bem antes que o termo 'cultura' fosse utilizado.

"O conceito francês de culture apareceu como um nome coletivo para os esforços do governo no sentido de promover o aprendizado, suavizar e melhorar as maneiras, refinar o gosto artístico e despertar necessidades espirituais que o público até então não possuía, ou não tinha consciência de possuir."

A cultura tinha a vocação de abrir os olhos e estava totalmente confiada ao Estado. Primeiramente com a monarquia, depois com o governo revolucionário e todos os demais. Retoma ao conceito original de cultura, já abordado por meio de Bourdieu.

Sob a presidência de Charles de Gaulle, entre 1959 e 1969, foi criado na França o Ministério da Cultura. A intenção foi dar novo ânimo ao país, prejudicado na guerra. Sua cultura foi colocada como ponto alto e deveria ser disseminada para todo o resto do continente.

"A cultura conferiria prestígio e glória, em âmbito mundial, ao país que patrocinasse seu florescimento. Como disse François Chabot mais de meio século depois, num artigo sobre a difusão da cultura francesa pelo mundo, a tarefa de promovê-la pelo mundo, empreendida (embora não necessariamente com êxito) como o patrocínio da arte pelo Estado, 'continua a ser o motivo de uma profunda preocupação nacional, já que poucos fatores influem tão fortemente sobre a maneira como um país é percebido pelo mundo e sobre sua capacidade de falar e ser ouvido."


Cartaz de um dos inúmeros festivais de arte na França
 
A democratização da arte fazia parte da democracia da própria política. Houve forte incentivo aos artistas franceses, já que a ideia era a criação, e não a imposição de modelos previamente escolhidos por autoridades.

"A arte não é uma categoria administrativa, mas é, ou deveria ser, a moldura (cadre) da vida", foi a frase do presidente George Pompidou, entre 1969 e 1974, sobre o lema assumido no país, que prega a pluralidade cultural e a diversidade artística.

Este estímulo é favorável ou não? "Esse é mesmo um paradoxo, e um dos mais difíceis de resolver. Os gerentes devem defender a ordem que lhes foi confiada como a 'ordem das coisas', ou seja, o próprio sistema que os artistas leais à sua vocação devem reprovar, expondo assim a perversidade de sua lógica e questionando sua sabedoria. Como diz Adorno, a inata atitude suspeitosa da administração diante da insubordinação e da imprevisibilidade naturais da arte só pode ser um constante casus belli para os artistas; por outro lado, como ele não deixa de acrescentar, os criadores de cultura não podem passar sem a administração, quando, leais à sua vocação e desejando mudar o mundo (para melhor, se isso chegar a ser possível), desejam ser ouvidos, vistos e, tanto quanto possível, seriamente notados. Os criadores de cultura não têm escolha, diz Adorno. Precisam conviver diariamente com esse paradoxo."

Em outras palavras, há um consenso de que a a ajuda do Estado é bem-vinda e até necessária. Caberá ao artista escolher entre formas mais ou menos invasivas no gerenciamento de suas artes. O que não poderão fazer é escolher não ter esse gerenciamento.

"A verdadeira função do Estado capitalista ao administrar a 'sociedade dos produtores' era garantir um encontro contínuo e frutífero entre capital e trabalho - enquanto a verdadeira função do Estado ao presidir a 'sociedade dos consumidores' é assegurar encontros frequentes e exitosos entre os bens de consumo e o consumidor. Do mesmo modo, o foco do 'Estado cultural', um Estado inclinado à promoção das artes, precisa concentrar-se em garantir e colaborar para o encontro permanente entre artistas e seu 'público'. É nesse tipo de encontro que as artes de nossa época são concebidas, geradas, estimuladas e realizadas. É em nome desse tipo de encontro que iniciativas artísticas e performativas locais, 'face a face' precisam ser estimuladas e apoiadas. Como tantas outras funções do Estado contemporâneo, o patrocínio da criatividade cultural espera urgentemente o 'subsídio'."