sábado, 17 de agosto de 2019

a revolução dos bichos



“Todos os animais são iguais. 
Alguns mais iguais que os outros.”

Foi ótimo ter lido “A revolução dos bichos”, do inglês George Orwell, logo após a leitura de “Inverno do mundo”, de Ken Follett, que termina com o fim da segunda guerra mundial e a expectativa de governos mais democráticos. Contudo, a realidade é bem diferente. Surgem a divisão da Alemanha, a Guerra Fria e o alastramento do medo, inclusive em nações que dizem pregar a liberdade, mas que, de forma velada, continuam a permitir o racismo e a violência.

A obra de Orwell, lançada em 1945, como afirmou o próprio autor, é uma fábula da revolução russa. O autor usa animais para falar como se deu a destituição dos czares e a tomada do poder pelos comunistas. Vale destacar que ele próprio, após passar por vários perrengues na vida, participou de movimentos socialistas, em especial na Espanha, tendo se deparado com o autoritarismo e o cerceamento da liberdade que o levaram a refletir sobre os verdadeiros valores do movimento. “Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobre dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer administração teórica por uma sociedade planificada.”

O cenário é a fazenda Granja do Solar. Numa noite, quando o proprietário vai dormir, os bichos são convocados para uma reunião urgente. Aos poucos vão se ajeitando no galinheiro para ouvir o velho Major, porco premiado em concursos humanos e que tem o respeito e admiração de todos. A pauta é sobre um sonho que ele tivera e que mostrava como seria o mundo quando o Homem desaparecesse, e também sobre uma canção da infância, cantada pela mãe, que clamava por uma revolução contra os tiranos. Major aproveitou para discursar sobre as condições nas quais os bichos viviam, sempre explorados.
“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida. Nenhuma animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.”
Três dias depois desse encontro, ele morre e a bicharada fica apreensiva para levar o ´sonho´ do Major adiante. A missão acaba caindo sobre os porcos, em especial dois deles, que mais se destacavam no grupo: Bola-de-Neve e Napoleão. Eles organizam o levante e o plano dá certo. Conseguem expulsar os humanos da propriedade, assumindo o controle de suas produções. No início tudo corre bem, com os bichos engajados em provar que o caminho escolhido foi o melhor. A canção apresentada por Major torna-se o hino dessa nova fase, mandamentos são criados e regras de convivências estabelecidas.

Com o tempo, acaba havendo uma divergência em relação aos projetos, em especial a criação de um moinho de ventos. Bola-de-Neve permanece fiel aos ideais de Major, pensando em formas de tornar o trabalho mais justo. Napoleão acaba por gostar da produtividade decorrente dos esforços e pensa em uma forma de ´lucrar´ e fazer a fazenda crescer. Enquanto ficam nesse dilema, surge uma reviravolta e os antigos moradores atacam a fazenda. Muitos animais morrem e os ânimos ficam bem abalados. É a oportunidade que Napoleão precisava para dar um golpe em Bola-de-Neve acusando-o de estar confabulando com o inimigo. Resultado, Bola-de-Neve acaba sendo expulso da Granja. Nisso, Napoleão alia-se a alguns humanos para vender seus produtos. E não é que ele gosta da coisa? Tanto que, utilizando o discurso de ´camaradas, é para nosso bem, para os humanos não retornarem´, explora seus parceiros ainda mais. A figura que retrata o trabalhador que realmente aceita o que está sendo dito é Sansão, cavalo que adota como lema “Trabalharei mais ainda”. Seu fim é triste. E tentar ajudá-lo é a única participação ativa do burro Benjamim, que apesar de saber mais que os outros, preferiu se omitir. Mas sua manifestação aconteceu tarde demais. Há também aqueles que começam a desconfiar do que está acontecendo, porém, somente a dúvida já é motivo para serem mortos. Chega, enfim, um momento em que passam a tocar a vida, esquecendo as premissas que os levaram a ‘assumir’ o controle da fazenda e não sabendo mais o que é o homem e o que é o bicho. Claramente, Napoleão representa Josef Stalin. Bola-de-Neve é Leon Trótski, que, por divergência de opiniões, foi expulso do partido de Stalin, refugiando-se em vários países até chegar no México, onde foi morto por um agente recrutado pelo governo soviético. Major é Karl Marx, que teve o sonho de um mundo sem desigualdades, mas com a infelicidade de deixar seus postulados nas mãos de pessoas que não entenderam seu real significado.

A despeito das questões políticas e históricas apresentadas, essa distopia de Orwell pode servir também para as questões da proteção aos animais. Há citações que retratam claramente o modo como os tratamos, na premissa de que somos superiores. Cabe aqui também a análise a partir do especismo. Inclusive, o trecho que fala sobre como alguns animais são mais iguais que os outros é bem retratado no livro. Há aqueles que por estarem mais próximos do ser-humano têm direitos estabelecidos, chegando até a ser humanizados, por isso, a dificuldade dos demais em saber quem é quem no fim do livro. Enquanto isso, os demais vivem a submissão de forma mais evidente, ou melhor, são simplesmente coisas. Encontrei na internet uma tese, da Universidade de Tampere, Finlândia, que analisa o romance sob a ótica do pós-humanismo. Publicado em 2016, traz vários elementos que corroboram com esse olhar.

O romance teve adaptação para o cinema, em 1954 com uma animação, e uma para TV em 1999. Uma nova versão foi prometida pela Netflix.

“O homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante.”

sábado, 27 de julho de 2019

inverno do mundo



“Por que uma gente que desejava destruir tudo o que seu país simbolizava era a primeira a acenar com a bandeira nacional?”

O que dizer de um livro com mais de 900 páginas que te deixa com a sensação de ‘quero mais’? Foi assim com “Inverno do Mundo”, segundo livro da trilogia histórica “O Século” do britânico Ken Folllett. Tanto que economizei os últimos capítulos, lendo-os de forma bem pausada, para que o romance não terminasse logo.

A narrativa começa com a chegada de Hitler ao poder e a ascensão do partido nazista em 1933, exatamente no ponto em que terminou o primeiro livro, “A Queda de Gigantes. Neste momento, os alemães e austríacos (von Ulrich) da história recebem a visita dos galeses (Williams). Juntos, presenciam o incêndio provocado no parlamento pelos nazistas, o que coloca fim aos demais partidos do país. Nos Estados Unidos, os russos (Peshkov) que lá se estabeleceram tentam entrar na alta roda da sociedade, ao mesmo tempo que crescem e enriquecem por meio de negócios ilegais. Em paralelo, dois irmãos norte-americanos de uma prestigiada família de políticos (Dewar) se dividem em suas ambições políticas e militares. Enquanto isso, na União Soviética, o outro lado da família Peshkov sonha com o verdadeiro comunismo, longe da liderança de Stalin e da brutalidade da polícia secreta.

Nesta sequência, acompanhamos os filhos dos personagens principais do primeiro livro. É realmente muito interessante ver o desenvolvimento deles, principalmente porque já conhecemos suas origens. Prevalecem, contudo, as crenças políticas dos pais, o faz com que eles deem continuidade ao trabalho que eles iniciaram por um mundo mais democrático de de livre expressão. Infelizmente, os acontecimentos levam a prisões, batalhas sangrentas e fugas. E quem mais vai padecer é Carla von Ulrich, tanto nas mãos dos nazistas quanto do Exército Vermelho. A passagem em que é violentada é uma das mais fortes do livro. Talvez a exceção nesse cenário seja Daisy Peshkov. Ela surge como garota mimada que quer porque quer tornar-se socialite, e vai conseguir isso na Inglaterra ao casar-se com um visconde, mas no decorrer da história torna-se voluntária na segunda guerra mundial e adepta ao partido trabalhista. Embora não passe pelo sofrimento da guerra, cresce como personagem.

Figuras históricas também entram em cena, como Roosevelt, Truman, Hitler, Churchill e Stalin. Alguns apenas são citados. Outros chegam a contracenar com nossos protagonistas.

Em determinados momentos, a leitura lembra um thriller, dada a rapidez dos acontecimentos, sobretudo durante as narrativas de fatos historicamente conhecidos, como o bombardeio a Pearl Harbor e os testes nucleares que levaram a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Também prendemos a respiração com a violência dos militares de todos os lados. Era uma época em que se sua ideologia política não fosse a que estava no poder, você teria sérios problemas. As consequências eram sentidas na pele e na alma com torturas, estupros e todo tipo de assédio psicológico. Se hoje temos alguma liberdade, temos que agradecer a esses dissidentes, que mesmo diante do cenário aterrorizante, seguiram com seus valores. Afinal, como disse Daisy após sua transformação, “Se você não se interessa, o que acontece é culpa sua.”

Ainda bem que a saga continua com outras 900 páginas no terceiro livro. Imperdível.

“Em política, você sabe que está ganhando quando o adversário rouba suas ideias.

sábado, 13 de julho de 2019

ensinando a transgredir. a educação como prática da liberdade




"Quando levamos nossa paixão à sala de aula, nossas paixões coletivas se juntam e frequentemente acontece uma reação emocional, que pode ser muito forte."

bell hooks (assim mesmo, em minúsculo) é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, professora e escritora norte-americana, conhecida por seu ativismo social e feminista. Dentre as pessoas que a inspiram, está o educador brasileiro Paulo Freire, que considerava a educação um ato revolucionário. Ele acreditava no poder transformador das pessoas a partir do aprendizado baseado no contexto social e histórico de cada indivíduo. Há uma ligação entre o que se aprende na escola e o que se aprende na vida. Mais que aprender a ler e escrever, a pessoa precisa estar ciente do seu papel na sociedade. Para tanto, a liberdade de expressão e o acolhimento dos alunos são premissas indispensáveis, na ideia de "agir e refletir sobre o mundo a fim de modificá-lo."

"Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade" é uma coletânea de ensaios de hooks que tratam da educação participativa e libertadora, ou seja, para realmente trazer mudanças significativas na sociedade, o ensino precisa acontecer de forma engajada, de modo que todos possam ter voz. Não há a figura autoritária do professor. Seu papel é incentivar, às vezes até de modo teatral, a participação de todos, sempre pensando e respeitando a diversidade.
"Quero que estes ensaios sejam uma intervenção - contrapondo-se à desvalorização da atividade do professor e, ao mesmo tempo, tratando da urgente necessidade de mudar as práticas de ensino."
hooks usa sua própria história para ilustrar seu pensamento. Negra, ela iniciou seus estudos durante a segregação racial nos Estados Unidos, época em que o ato de ensinar era político. Esse foi seu primeiro contato com o aprendizado como revolução. Naquele cenário, o objetivo era formar negros que pudessem usar a 'cabeça'. Era a única forma de resistir à hegemonia branca e ao racismo. Havia uma missão e todo o trabalho de ensino tinha como foco edificar a raça, o que implicava conhecer, verdadeiramente, os alunos. 
"Conheciam nossos pais, nossa condição econômica, sabiam a que igreja íamos, como era nossa casa e como nossa família nos tratava."
Por outro lado, era um risco confrontar o que se aprendia na escola com os ensinamentos e valores de casa, na maioria das vezes machistas e autoritários. Enquanto na escola, eles podiam se reinventar através das ideias, os pais os colocavam em seus 'devidos lugares'.

Com a integração racial e a possibilidade de frequentar escolas mistas, o conhecimento passou a ser pura informação. Dos alunos, em especial dos negros, esperava-se apenas a obediência. 
"A excessiva ânsia de aprender era facilmente entendida como uma ameaça à autoridade branca."

Essa mensagem de superioridade branca nas aulas aumentou seu interesse pelo ensino, motivando-a a criar seu próprio modelo de prática pedagógica.

Ensinar não é apenas passar adiante uma informação, o conhecimento, mas contribuir e participar, de fato, do crescimento intelectual e espiritual dos alunos. E reconhecer que todos influenciam e contribuem com a dinâmica da sala de aula.
"Olhando para trás, vejo que nos últimos vinte anos conheci muita gente que se diz comprometida com a liberdade e a justiça para todos; mas seu modo de vida, os valores e os hábitos de ser que essa gente institucionaliza no dia a dia, em rituais públicos e privados, ajudam a manter a cultura da dominação, ajudam a criar um mundo sem liberdade."
Realmente, há desconforto ao ensinar a quebra de velhos paradigmas. Mas os ganhos são enormes. "Os alunos brancos que aprendem a pensar de maneira mais crítica sobre questões de raça e racismo vão para casa nas férias e, de repente, veem seus pais sob outra luz."

Sua paixão é a troca de experiências. Os alunos podem também adquirir conhecimento a partir de experiências que não viveram. Por isso, incentiva todos a falarem sobre suas vidas, percepções, de modo a criar um espaço de livre expressão, onde todos se sintam confortáveis. O resultado é o tão esperado comprometimento. Vale para a escola. Vale para a vida.
"Se tivermos medo de nos enganar, de errar, se estivermos a nos avaliar constantemente, nunca transformaremos a academia num lugar culturalmente diverso, onde tanto os acadêmicos quanto aquilo que eles estudam abarquem todas as dimensões da diferença."

domingo, 30 de junho de 2019

A estetização do mundo



"Há muita ilusão em crer que a formação estética possa ser o caminho moderno da salvação."

Terminei "A estetização do mundo", dos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, desejando não comprar mais nada. Comecei a olhar ao meu redor e ver e rever meus próprios excessos: roupas, sapatos, cacarecos diversos, brinquedos, canecas, livros (sim, até eles).

Eu moro em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Aqui as opções são inúmeras. Há muito de tudo para ser consumido. Entramos em uma padaria e há pães dos mais variados tamanhos, formatos e gostos. Damos uma volta pelas ruas e há produtos que não precisamos sendo oferecidos. O pior é que os compramos. O resultado é o desperdício e o crescimento do lixo. A sustentabilidade é outro aspecto abordado no livro, que dá destaque à história do consumo e de como ele passou a ser envolvido por uma manta estética, ou seja, a importância que as embalagens têm para dar uma áurea especial às mercadorias. O início desse exagero começa com as passagens de Paris, que já tinham suas estratégias para induzir às compras. Na sequência, surgem as lojas de departamentos com suas vitrines temáticas, especialmente no Natal. Hoje, temos os grandes shopping centers. E todos sempre inserindo seus produtos em um mundo de fantasia, onde o imaginário surge como artifício para nos fazer comprar cada vez mais. 

Os autores criticam o capitalismo que, para eles, tem um caráter niilista e que só contribui para as desigualdades econômicas e sociais. Vão mais longe: “o capitalismo também é responsável pelo ‘desaparecimento’ das formas harmoniosas de vida, o desvanecimento do encanto e da graça da vida em sociedade”. Mas ao mesmo tempo questionam se há espaço para pensar o estético dentro do caos instaurado. Hoje, produção industrial e cultural caminham juntas. 
“O estilo, a beleza, a mobilização dos gostos e das sensibilidades se impõem cada dia mais como imperativos estratégicos das marcas: é um modo de produção estética que define o capitalismo do hiperconsumo.” 
Isto não quer dizer que seja menos agressivo. Apenas é uma nova forma de funcionar, explorando o belo para ter mais lucro. Hoje, a realidade se constrói por meio de imagens, que eles chamam de estético-emocional, capitalismo artista ou criativo transestético. Antes de entrar nas análises detalhadas desse conceito, citam as quatro eras da estetização do mundo.

1) Artealização ritual (arte para os deuses): A arte não tem objetivo estético. Ela está interligada com tudo o que envolve a vida das pessoas: crença, trabalho, lutas. Faz parte do ritual para que as necessidades sejam alcançadas: “curar as doenças, enfrentar os espíritos negativos, fazer a chuva cair, fazer aliança com os mortos. Muitos desses objetos rituais não são feitos para ser conservados: são descartados, destruídos depois do uso, ou repintados antes de cada nova cerimônia.” 

2) Estetização aristocrática (arte para os príncipes): fim da idade média até século XVIII. Advento do artista, que vai agradar a um público endinheirado. Surgem a moda, a vida de corte, as ‘boas maneiras’. A igreja adere à necessidade de se ter ambientes agradáveis e sedutores, com fachadas cheias de esculturas, todas ornamentadas. É onde se encontra o Barroco. Os monarcas criam palácios, jardins. O embelezamento das cidades é o foco.

3) Moderna estetização do mundo (arte pela arte): a arte liberta-se do religioso. Torna-se mais sofisticada. Os artistas criam obras que não precisam prestar conta a ninguém. Por outro lado, surge a dependência econômica. “Atribui-se à arte o poder de fazer conhecer e contemplar a própria essência do mundo”. O museu é o lugar de revelação estética. Tira as obras do seu contexto cultural de origem com  a missão de torná-las imortais. É o “Templo laico da arte” e ajuda a suportar a mediocridade da existência. Tudo vira arte.

“Não mais quadros e estátuas reservados a uma classe social superior, mas uma arte que se estenda ao mobiliário, aos papéis de parede, à tapeçaria, aos utensílios de cozinha, aos têxteis, às fachadas arquitetônicas, aos cartazes.”

Despontam-se ainda nesse período as artes de massa: cinema, fotografia, música gravada, moda. Pela primeira vez, temos a dinâmica da produção e consumo estético.

Por outro lado, há a produção em série de produtos e da construção civil. Os princípios fordianos-tayloristas aplicados à vida urbana trazem às cidades conjuntos habitacionais frios, feios e tristes. Para os autores, o fracasso dessa era.

4) Era transestética (arte para o mercado): capitalismo artista. Tudo é possível. “Cria em grande escala o sonho, o imaginário, as emoções.” Há, contudo, uma inflação estética uma hiperarte, que é o mundo transestético, que é a “generalização das estratégias estéticas com finalidade mercantil em todos os setores das indústrias de consumo.”

Estamos na era do descartável. As pessoas não querem ser vistas como fora de moda ou portadoras de produtos considerados obsoletos. Trocam de celular a cada ano ou menos. O mesmo vale para roupas, sapatos, acessórios e demais objetos. Ao contrário da era anterior, marcada pela famosa expressão “você pode ter o carro que quiser desde que seja preto”, hoje o que vale são objetos personalizados, com a nossa cara. 

Dentro disso, lembrei-me dos chinelos havaianas da minha infância. Havia um modelo com apenas algumas cores à disposição (não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro). Hoje, a marca tem diversas lojas com centenas de opções. Nesse sentido, para que ter apenas um chinelo se podemos ter um que se ajuste a cada ocasião? E é mais ou menos esta lógica que vai para tudo na vida. Abolimos o produto a granel, que felizmente está voltando, para deixar os produtos com identidade visual bonita e atrativa. Há uma ânsia por “assinaturas artísticas” em tudo. As marcas se unem para oferecer um óculos escuro de uma cantora. Um perfume de uma atriz. E tudo é oferecido por meio de representações.

As feiras de negócios exemplificam bem este contexto. São grandes eventos que chegam a simular cidades, inclusive as fictícias. Passados três dias ou menos, tudo vai abaixo para dar lugar a outras cenografias e fábricas de sonhos. O intuito é conquistar corações e mentes, o lema maior da do marketing. No fundo, o que queremos é vender, ampliar lucros e criar impérios.

Outra crítica, bem procedente, é que o simples dá lugar ao gourmet. Os termos para designar os profissionais mudam:

jardineiro: paisagista
cabeleireiro: hair designers
floristas: artistas florais
cozinheiros: cuidadores gastronômicos

Até executivos são definidos como artistas visionários, a exemplo de Steve Jobs. 

Os autores descrevem os cenários ao nosso redor de tal forma que nos perguntamos: por que mesmo precisamos de tudo isso? Qual o sentido de tanto consumo e tanta representação? Tudo tem que ser cenográfico? O mundo está imitando o que, afinal? 

Pode a beleza salvar o mundo?

Queremos sensações imediatas, prazeres dos sentidos, novidades.  Esses princípios estéticos confrontam-se com outros valores: trabalho, saúde, eficácia, educação, respeito ao meio ambiente, moral, justiça.

O resultado é que estamos “fadados a uma existência cada vez mais reflexiva, problemática, conflitual em todas as suas dimensões, sejam íntimas, familiares ou profissionais.” 

De uma lado temos a beleza da vida, o que almejamos. Do outro, temos que dar conta da excelência, produtividade, ter boa saúde. Sonhamos com a beleza. Mas temos competição. A grande (ou única) vantagem desse período é que estamos nos dando conta desse exagero, tanto que a comunicação da vez, em praticamente todos os segmentos, é voltada ao bem-estar. Empresas estão buscando tornar os ambientes de trabalho mais agradáveis. Há um boom de cursos de meditação. Academias de exercícios físicos se proliferam. Sabemos o caminho. Mas ainda assim, a trilha não é fácil.

Produções estéticas, imagens do belo e da felicidade são amplamente disseminados, mas o que temos na realidade é um mundo caótico, esquizofrênico. “O bem viver está ameaçado, comprometido, ferido.”

Consumimos beleza, mas nossa vida não é bela. E é justamente aí que reside o fracasso do capitalismo artista. A beleza, portanto, não salvará o mundo. Isso me remete às imagens felizes postadas nas redes sociais. Quando tempo se perde tentando encontrar um ângulo, um recorte de nosso dia a dia que vai simular uma utopia?
“As belezas são excessivas, mas não nos aproximamos em absoluto de um mundo de virtude mais elevada, de maior justiça ou mesmo de maior felicidade.
A conclusão dos autores é que a “salvação” está mais na inteligência racional que na arte. Está nos investimentos em pesquisas, na inovação, nas ciências. Precisamos de uma estética da lentidão em oposição à estética da aceleração, pois “a inconsequência e a frivolidade de viver são comprometidas pela miséria social e pela sorte trágica dos que ficam à margem.”

Minha angústia ao concluir a leitura foi justamente esta, saber que me enquadro neste tipo de consumidor. Felizmente, temos escolhas. Basta dizermos não ao impulso e a repulsa. Impulso de comprar diante das inúmeras vitrinas físicas e virtuais que nos assombram. Repulsa de ficar com o mesmo chinelo até que suas tiras finalmente se soltem.

"O capitalismo artista encontra sua legitimidade na realização de uma vida bela, sinônimo de vida livra sob o signo de uma ética da realização pessoal."

sexta-feira, 31 de maio de 2019

as mulheres do castelo


"Apenas quando provarmos que o direito internacional e os direitos humanos de toda humanidade são maiores do que qualquer vilão poderemos derrotar o mal."

"As mulheres do castelo", de Jessica Shattuck, me foi indicado pela Amazon a partir das minhas leituras recentes. A história passa-se durante e após a segunda guerra mundial e, assim como o livro anterior que li sobre o tema ("Mulheres sem nome"), é contado sob o ponto de vista de três mulheres.

Marianne, Ania e Benita vão passar alguns anos juntas durante a reconstrução de suas vidas após a guerra. 

Os maridos de Marianne e Benita faziam parte da resistência alemã e morreram tentando impedir que o nazismo progredisse. Enquanto Marianne inseria-se no contexto político, mantendo-se contra o regime que se instalava em seu país, Benita fez parte da juventude hitleriana. Mais por estar na moda do que por acreditar no que estava sendo dito. As duas se conhecem durante uma festa dada no castelo do título do livro, que pertencia à família do marido de Marianne. Anos mais tarde, o reencontro dá-se em situação totalmente diferente, em um apartamento depredado em Berlim. Marianne, meio a contragosto por ver seu papel sendo reduzido, prometeu ao marido de Benita, por quem era secretamente apaixonada, que cuidaria dela e de todas as demais esposas dos envolvidos com a oposição. Embora seja bem empenhada com o compromisso assumido, as coisas não saem como planejado. Já Ania surge na sequência, como a esposa de um polonês envolvido com a resistência. Suas história foi a que mais me surpreendeu. Todas as três têm filhos e é por eles que mantém segredos e mentiras. 

Começando em 1933 e indo até 1991, o romance traz algumas surpresas, mas não chega a ser inesquecível. Foi bom para minha sequência de leituras sobre a segunda guerra mundial, mas sem acrescentar muita informação.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

paris é sempre uma boa ideia



"Queria ir (naturalmente!) à Shakespeare and Company para andar um pouco entre os livros e sentir o cheiro daqueles tempos quase esquecidos em que a literatura ainda movia mundos."

Mais um livro bobinho para minha coleção. Precisava depois de semanas estressantes e leituras pesadas. E, claro, "Paris é sempre uma boa ideia". Nada mais chamativo para o título de um livro, principalmente para quem é apaixonada por essa cidade. Aqui, o francês Nicolas Barreau segue a mesma fórmula de outro romance dele que li, "O sorriso das mulheres". Há pontos turísticos, restaurantes e confusões sobre quem escreveu este ou aquele livro. Mudam os personagens e suas profissões, apenas. Mesmo assim, vale pela viagem. O que me chateou, porém, foram os inúmeros erros de português. No prefácio, a publisher da Primavera Editorial, responsável pela edição brasileira, elogia a tradução. Acredito que ela não tenha se atentado ao texto final. Não foram dois ou três erros que encontrei. Quase posso dizer que havia um erro a cada cinco páginas. Descaso total com o leitor. 

Enfim, o romance até que é gostoso. Rosalie tem uma papelaria no boêmio bairro Saint-Germain. O diferencial é que ela ilustra cartões postais, personalizando a mensagem. Você diz uma frase ou um tema e ela desenha. Fiquei com vontade de encomendar um para mim. Apaixonada por rituais, todo ano, no dia do seu aniversário, ela sobe na torre Eiffel e joga um cartão com um desejo secreto. E não é que seus sonhos começam a se tornar realidade. A começar pelo convite que recebe para ilustrar o livro do seu autor favorito na infância. Claro que haverá uma paixão, coincidências improváveis, desencontros e um final feliz. Afinal, essa é a intenção. 

sábado, 18 de maio de 2019

mulheres sem nome




"Em um segundo ouvimos as armas. Atiraram nas leiteiras. Algumas balas atingiram o campo e mandaram lufadas de areia para os ares, mas outras atingiram as mulheres, derrubando-as no chão, derramando o leite no gramado. Uma vaca gritou ao cair, e o pop pop pop das balas perfurou os latões de metal cheios de leite. Os refugiados nos campos largaram as batatas e se dispersaram, mas as balas os encontraram enquanto corriam. Eu me abaixei quando os dois últimos aviões voaram novamente por cima de nós, deixando o campo lá embaixo coberto com corpos de homens, mulheres e vacas. Os animais que ainda podiam correr davam pulos para lá e para cá, como se estivessem meio malucos."


Assistindo a um programa que debatia o pós-humanismo, ouvi uma expressão, até fora do contexto do tema principal, que me marcou: "a maldade não tem limites, a bondade, sim."

Pois é exatamente assim que nos sentimos ao ler relatos de guerra e de estados autoritários de uma forma geral. "Mulheres sem nome", da norte-americana Martha Hall Kelly, mistura ficção com personagens reais, que vivenciaram os atos da segunda guerra mundial.

Caroline Ferriday é ex-atriz e socialite norte-americana que trabalha voluntariamente no consulado francês em Nova York. Sua missão consiste em arrecadar doações para órfãos na França. Acompanha de perto o desenrolar do conflito. Em Lublin, na Polônia, temos Kasia Kuzmerick, que vive uma vida tranquila com sua família e amigos até o avanço das tropas de Hitler em seu país. Ligada à resistência, é capturada e mantida prisioneira em Ravensbrück, campo de concentração exclusivo para mulheres. Foi para lá que a judia alemã Olga Benário, esposa do brasileiro Luís Carlos Prestes, foi enviada.

E é neste campo que trabalha a terceira personagem principal, Herta Oberheuser, médica que vai atuar a favor dos experimentos nazistas. Caroline e Herta de fato existiram. Já Kasia foi inspirada em sobreviventes de 
Ravensbrück. Cada capítulo é narrado por uma delas, nos dando uma boa visão desse período a partir de pessoas de classes, ideologias e nacionalidades distintas. Os tópicos de Kasia são os mais pesados. A começar pelo trecho em destaque no início deste post, que mostra a chegada dos nazistas. Como prisioneira, ela passou e presenciou várias torturas. Talvez um dos mais dolorosos foi ver a filha de apenas alguns meses de sua professora ser tirada de seus braços a força. Sabe-se lá o que fizeram com a criança. Mais tarde a mãe morreu sucumbida pelos maus-tratos e tristeza. Infelizmente, isso não é ficção. Situações assim aconteceram. Kasia também foi, junto com sua irmã e outras prisioneiras, selecionada para experimentos médicos, as coelhas de Ravensbrück. Passaram por procedimentos cirúrgicos para que fossem inseridos os mais variados objetos em suas pernas. A ideia era testar se a sulfonamida, espécie de antibiótico, tinha efeito em ferimentos graves, a fim de ajudar os soldados do Reich.

As sequelas ficaram para sempre nas moças que conseguiram sobreviver. Anos mais tarde, elas tiveram a ajuda de Caroline que, dos Estados Unidos, conseguiu fundos para que as prisioneiras tivessem o tratamento adequado. Herta foi uma das médicas que participou dos experimentos. No romance ela é retratada de forma fria e destinada a servir aos interesses da nação. Em alguns momentos, até chega a sentir alguma comoção, mas o sentimento é logo substituído pela ambição em se destacar. Foi julgada e condenada a prisão. Passado algum tempo, foi solta e conseguiu abrir uma clínica médica. Felizmente, foi reconhecida e teve seu título cassado. Tudo isso é verídico. Claro que as histórias ganharam aspectos romanceados, como a vida de Caroline, que teve até um namorado francês. V
ale muito a leitura. Principalmente para quem tem interesse em conhecer o que de fato aconteceu durante a segunda guerra mundial ou para quem ainda acredita que se matou pouco naquela época.
"Canções tristes não são tão tristes quando temos alguém que nos ama."

sexta-feira, 3 de maio de 2019

a costureira de dachau


"Algo tinha acontecido. Ela podia sentir o gosto de metal na boca, o estômago apertado. Suas mãos e axilas começaram a suar. Estava sozinha. Eles tinham ido embora. Seu maxilar começou a tremer e os dentes, a bater. Seu corpo todo tremia. Eles podiam voltar. Ela ia chorar de novo. Seus nervos se agitaram e as lágrimas surgiram, envoltas em uma valsa macabra."


Terminei de ler este livro com uma terrível dor de cabeça. Custou-me a aceitar o desfecho da história. Não que tenha sido ruim, do ponto de vista literário, mas inesperado, tamanho o realismo aplicado. Fiquei revoltada mesmo. “A costureira de Dachau”, da britânica Mary Chamberlain, passa-se durante a segunda guerra mundial. Ada Vaughan é uma jovem inglesa de 18 anos. Ambiciosa, sonha em ter sua própria casa de costura. Para tanto, não hesita em buscar formação. Dedicada, logo aprende as principais técnicas do ofício, destacando-se nos empregos que consegue.

Mas, infelizmente, acaba se deixando levar pelas promessas de um homem que se diz encantado por ela. Resultado: antes totalmente devota ao trabalho, acaba tirando uns dias de folga para passear em Paris, mesmo com o anúncio da guerra que pode começar a qualquer momento. É claro que ela se dá mal. De Paris, acaba fugindo às pressas com o moço para a Bélgica. Lá, ele simplesmente a abandona durante os bombardeios na cidade de Namur. Desamparada, consegue abrigo em um convento. Ao invadirem o país, os soldados alemães aprisionam todos os ingleses, seus inimigos, e isso inclui as freiras. Como Ada usava este disfarce, é também levada para Munique, na Alemanha. Em seguida, para Dachau, considerado o primeiro campo de concentração criado pelos nazistas.

Mas ela não ficava no campo propriamente dito, e sim na casa onde morava o comandante responsável por aquela área, bem como sua respectiva família. Escravizada, come o pão que o diabo amassou. Seu único consolo, entre surras, humilhações e violações sexuais, é poder costurar, mesmo que seja para embelezar seus algozes. Isso não é tudo, porém. Ela ainda terá que lidar com a dor de ver seu filho sendo arrancado de seus braços. Sim, ela engravida, mas isso não é spoiler. Há muito mais surpresas neste livro, que é dividido em três partes. Super recomendo, sobretudo para entender o preconceito da época, e que fez muitas mulheres, que como Ada tinham sonhos e corriam atrás deles, padecerem. 
O começo e algumas partes remetem a outro romance com nome parecido: "Tempo entre costuras", da espanhola Maria Dueñas.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

o menino do pijama listrado



“Quando as pessoas saem para 
marchar, eu nunca mais as vejo.”


Não sei por que demorei tanto tempo para ler “O menino do pijama listrado”, de John Boyne, lançado em 2007. Talvez por que teve uma época em que todos estavam falando dele? Ou por que achei que fosse deveras infantil? Enfim, nem a adaptação para o cinema eu tinha visto. E eis que, apesar de conhecer o enredo e o fim, me surpreendi muito com a leitura. O romance é narrado sob o ponto de vista de Bruno, um garoto alemão de oito anos. Tanto que parte da graça é a forma com que o texto é construído. As coisas e pessoas são nomeadas a partir do seu entendimento. De modo que temos o Fúria (Führer), Hasta-Vista (Auschwitz) e outras formas de chamar as coisas que só as crianças sabem fazer, mesmo sem entender o real significado: a irmã, Gretel, que era um ‘Caso Perdido’. O escritório do pai, onde era ‘proibido entrar em todos os momentos, sem exceção’. E por aí vai.

Contudo, essa inocência não o impede de sentir que está diante de algo muito ruim. Num belo dia, Bruno chega em sua casa, em Berlim, e vê que estão arrumando as malas. Contrariado, tenta conversar com a mãe sobre os motivos pelos quais não podem se mudar. Dentre eles, os seus três melhores amigos. Sem chance. Sem choro. A família parte para um lugar sombrio e estranho, que logo de cara choca o pequeno. Principalmente, quando vê adultos e crianças de pijama em um campo que dá de frente para seu quarto. Ou quando observa a fumaça preta que sai de uma grande chaminé ao longe.

“Bruno pôs o rosto junto ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a boca fez o formato de um O, as mãos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o fez se sentir muito inseguro e com frio.”

Desapontado e sem ter muito o que fazer, parte para suas explorações. É quando encontra outro garotinho do outro lado de uma cerca, Shmuel. Surge uma linda amizade e ele passa a ver sentido no novo lar. São emocionantes os diálogos entre eles e realmente conseguimos ouvir as vozes de crianças. E um pensar sem maldade, algo bem distante do que de fato acontecia por ali. Perturbador e poético.

“Você fez alguma coisa ruim no trabalho? Eu sei que todos dizem que você é um homem importante e que o Fúria tem em mente grandes coisas reservadas a você, mas não acho que ele o enviaria para um lugar como este se você não tivesse feito alguma coisa pela qual ele quisesse castigá-lo.”

domingo, 31 de março de 2019

o sorriso das mulheres





"Seria possível entender uma pessoa em seu íntimo mais profundo? O que a movia, o que a motivava, com o que ela realmente sonhava?"


"O sorriso das mulheres", do francês Nicolas Barreau, é uma leitura leve, descontraída e fofa. Boa para aqueles momentos em que não queremos grandes preocupações. E de quebra ainda temos Paris e seus encantos. Aurélie Bredin toca com muito orgulho o restaurante que foi do seu pai. E tudo vai bem na sua vida até que leva um fora do namorado. Desesperada, vagueia sem destino pelas ruas parisienses, cumprindo as etapas de luto que todos que sofrem por amor passam. Até que vai parar em uma pequena livraria e - claro que algo fantástico acontece - recebe a indicação de um romance que é a sua cara. Literalmente. Ao ler a sinopse, percebe que o cenário é seu restaurante e que a protagonista é justamente ela. Rapidamente, esquece o moço que a deixou e parte para outra: encontrar o escritor de tal livro. Por outro lado, esse autor parece não ser adepto da vida em público. Todo o contato é feito por maio  da intermediação é feita por seu agente, que se apaixona por ela. Contudo, ele tem um segredo que o impede de seguir adiante nas investidas. O final é absolutamente previsível. Mais clichê, impossível.

sábado, 16 de março de 2019

o maravilhoso bistrô francês



"Quem se diminui não 
é amado, e desprezado."

Logo nas primeiras páginas, "O maravilhoso bistrô francês", da alemã Nina George, me lembrei de “O melhor lugar do mundo é aqui”, do espanhol Francesc Miralles. Em ambos, a história começa com uma tentativa de suicídio. E os motivos são bem parecidos: desilusão, solidão e tristeza profunda.

Apesar de o desenrolar da história ser diferente, até que as semelhanças seguem até o final. Tanto Iris, de Francesc, quanto Marianne, de Nina, acabam tendo suas tentativas frustradas e são guiadas por caminhos que as levam a repensar e a recriar suas histórias. Enquanto no primeiro temos um misto de fantasia com realidade, no segundo, apesar de também ter suas passagens fantásticas, temos um desfecho bem possível de acontecer a qualquer um de nós. Basta estarmos abertos e termos a coragem de Marianne. Ela tem sessenta anos, é alemã e está passeando em Paris com o marido, que pouco se importa com ela. Durante uma escapada do restaurante em que estão jantando com outras pessoas, ela vai até as margens do rio Sena e se joga nas águas. É resgatada por um morador de rua e levada para o hospital. O marido chega e, em vez de perguntar o que a levou a tal atitude radical, a agride, fazendo com que ela se sinta ainda pior. Sem ter nada a perder, ela foge e se depara, em uma loja, com um azulejo que traz uma paisagem litorânea que chama sua atenção. Trata-se de Kerdruc, região da Bretanha na França. Pronto. Essa passa a ser sua obsessão. 


A região da Bretanha é cenário deste livro
Mesmo sem ter muito dinheiro, com a ajuda de outras pessoas, acaba alcançando seu destino. A partir daí, sua vida muda completamente. Passa a ser querida pelos moradores, sente-se útil, muda o visual e encontra o amor. Eu estava com um pé atrás em relação a essa autora. Simplesmente odiei seu outro livro que li, “A livraria mágica de Paris”. Confesso que só engatei essa outra leitura porque foi um presente. E até que uma boa surpresa. Nota 6/10 ;-)

"Quanto mais tempo uma mulher vivia, mais começava a descobrir. Se deixasse de lado os velhos sonhos de casamento, filhos, amor para sempre e sucesso profissional, todos nascidos das convenções, começaria uma vida em que o restante estaria lá para ser conquistado. Apenas quando cada um descobria seu verdadeiro lugar no caminhar das coisas, encontrava um sentido."

sábado, 2 de março de 2019

a irmã lua


"- Por que você está otimista? 
- Porque é a nossa única opção."

E termino mais um livro da série das Sete Irmãs, de Lucinda Riley. Não há muito o que dizer, exceto que desta vez fui para Inverness, na Escócia, e Vale Nevado, na Espanha. Eu já estive na Escócia e uma das vistas mais lindas que tive foi nas Terras Altas. Lugar maravilhoso, calmo, frio e aconchegante. E o Vale Nevado será um dos meus próximos destinos. Em "A irmã da lua", acompanhamos as descobertas de Tiggy, a irmã mística, vegana e defensora dos animais. No mais, o enredo é exatamente o mesmo dos demais romances da autora. Voltamos ao passado para descobrir os antepassados da protagonista, há uma história de amor por lá e outra no presente. Sem grandes surpresas. Tiggy descende de ciganos. Acompanhamos suas músicas, danças e crenças, tudo de forma bem estereotipada. A alegria termina com a Guerra Civil Espanhola e os homens de Franco, que invadem as grutas onde os 'gitanos' moram, matando quase todo mundo. A autora inspirou-se na dançarina de flamenco Carmen Amaya para compor sua personagem cigana Lúcia, avó de Tiggy, mulher chata e sem graça. Conseguiu me irritar muito. Há algumas passagens sobrenaturais difíceis de serem digeridas, principalmente por estarem totalmente fora de contexto. Ainda assim, valeu pela viagem. Mais uma vez.


Leia também:

As sete irmãs (Brasil)
A irmã tempestade (Noruega)
A irmã da sombra (Inglaterra)
A irmã da pérola (Austrália)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

uma certa história de amor


"Não é preciso colocar ordem nas coisas, mas aceitar a confusão da vida, e rir dela."


Acredito que eu não estava no humor para "Uma certa história de amor", da italiana Milena Agus. O livro é bem curto, mas levei uma eternidade para terminá-lo. Os personagens não têm nomes. Uma neta narra as alucinações e paixões da avó paterna, considerada louca por todos. E é na sua poesia que essa mulher extravasa seus sonhos, dentre eles o de se apaixonar loucamente. Mas isso nunca acontece, já que ela afugenta todos os pretendentes, que estranham a sua liberdade para descrever sentimentos e sensações, algo inaceitável para as mulheres da época. Estamos na Itália durante a segunda guerra mundial. Até que surge o avô, viúvo sem grandes expectativas, que aceita casar-se com a avó, mesmo sendo alertado sobre seu comportamento insólito. Claro que o casamento é sem amor. Ele frequenta bordéis e a mulher acha que é assim que tem que ser. No entanto, vendo que a situação financeira não é a das melhores, pede para ele economizar a grana que gasta lá, propondo-se a fazer com ele o mesmo que as prostitutas. Ele topa. E assim a vida segue. O tempo passa e nada de filhos. Além da falta de amor, ela sofre de alguma doença nos rins. Por isso, depois de passar por graves crises de dor, é mandada para um termas para se tratar. Lá encontra o 'veterano' e o grande amor de sua vida. Com ele, a conversa flui e ela se sente especial. Juntos, vivem grandes momentos de paixão. Tudo contado pela avó para sua neta anos depois. Ao retornar para sua cidade, ela engravida. Será que o filho que espera é do avô ou do veterano? A resposta talvez esteja no final, quando saberemos se estamos diante de uma fantasia ou realidade. O romance inspirou o filme francês "Um instante de amor", de 2017, que parece ser mais interessante.


"Em todas as famílias há sempre alguém que paga o seu tributo para que o equilíbrio entre a ordem e a confusão seja respeitado e para que o mundo não pare."

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

unaccustomed earth



Os livros de Jhumpa Lahiri sempre trazem imigrantes indianos na Europa e nos Estados Unidos, bem como seus filhos nascidos no ocidente e que transitam entre duas culturas bem distintas. Talvez por isso se agarram a seus próprios costumes, obrigando, muitas vezes, seus descendentes a terem os mesmos valores. E daí surgem os conflitos e o estranhamento diante da mistura de expectativas. Diria que nasce uma geração que não pertence nem à origem e nem ao destino. 

Há uma passagem de um dos contos do excelente "Intérpretes dos Males", meu primeiro contato com sua obra, que ainda está muito forte na minha mente, uma indiana sentada no chão da sala cortando legumes de forma bem metódica, sua atividade mais emocionante do dia. Após o casamento arranjado, as mulheres sempre acompanham os maridos para seus novos desafios profissionais no estrangeiro. E para elas tudo é ainda mais difícil. Primeiro porque não foi uma escolha. Segundo porque a submissão feminina ainda é muito forte. Por isso, é uma grande vitória quando esta mesma indiana consegue, por exemplo, licença para dirigir e trabalhar como babá.

"Unaccustomed Earth", que infelizmente não foi traduzido no Brasil, traz oito contos, sendo que os três últimos fazem parte da mesma narrativa, o que fazem dele praticamente uma novela.

No primeiro, que dá título ao livro, temos o estranhamento de uma filha diante da súbita mudança do pai após a morte de sua mãe. Ele passa a fazer coisas que não fazia até então, como viajar pelo mundo. 

"Hell-Heaven" conta a história de uma mulher casada que tem uma filha pequena. Como muitos casais, o casamento foi arranjado e os dois deixaram a Índia para viver nos Estados Unidos. A solidão que ela sente é amenizada com a chegada de outro indiano, que torna-se o amigo mais próximo da família. Ela passa a depositar nele toda a esperança de uma vida mais feliz.

"A Choice of Accommodations" mostra um filho de indianos casado com uma norte-americana e com duas filhas pequenas. Ele abandonou sonhos e acomodou-se às situações que foram se apresentando. O casamento de uma amiga o levará a questionar a vida em comum com a esposa.

Em "Only Goodness", há a irmã que faz de tudo pelo irmão mais novo, isso inclui ajudá-lo a conseguir bebidas alcoólicas longe dos olhares dos pais. O que ela não sabia é que, aos poucos, vai contribuir para um vício que pode destruir a família, incluindo a sua que se formará na Inglaterra.

"Nobody’s Business" conta a história de uma filha de indianos nos Estados Unidos. Independente, ela tem que lidar com as várias ligações que recebe de pretendentes enviados por parentes e amigos que querem casá-la. Ela namora um egípcio e divide o apartamento com outras duas pessoas. Passará por uma grande decepção que a fará rever a liberdade que adquiriu.

"Vismaya and Kausik" é composto por três contos que tratam da vida dos dois personagens do título. Enquanto ela cresceu nos Estados Unidos, ele passou parte da infância na Índia. Durante um período eles vivem na mesma casa, e são essas memórias que vão ser narradas por ambos, enfatizando como as vivências da infância podem definir toda a trajetória adulta. O fim faz menção, de forma sutil, mas muito triste, ao Tsunami que atingiu vários países da Ásia em 2004. Fica muito evidente que alguns dias podem valer por toda uma vida. Para os contos de Lahiri e também para nós, leitores que suspiramos (e nos identificamos) com os sentimentos de seus personagens. A minha edição é canadense de 2008, capa dura e com páginas que parecem terem sido feitas à mão. Linda! Mas demorei todo esse tempo para concluir a leitura. Talvez estivesse, assim como Vismaya, presa a um instante eterno.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

a memória do mar



Leitura de cinco minutos. Mas que nos diz muito sobre as pessoas que precisam deixar seus países por conta de guerras e como ninguém parece entender essa urgência. Pelo contrário, fecham as portas. Livro baseado na história de Alan Kurdi, menino sírio de apenas três anos que se afogou no Mediterrâneo em setembro de 2015. Sua foto, ao ser encontrado morto na praia da Turquia, chocou o mundo. O garoto fugia da Síria com a família rumo à Europa, mas o barco em que estava naufragou, matando 12 pessoas. Seu irmão de cinco anos e sua mãe também não sobreviveram. Restou ao pai retornar à terra natal para enterrar a família. Mas apesar de todo o alvoroço que a imagem causou, milhares de pessoas ainda passam pela mesma tragédia todos os dias.

A memória do mar”, do afegão Khaled Hosseini, é inspirado nesta triste história. De forma poética, um pai conta ao filho lembranças dos dias em que podiam andar calmamente pelas ruas, em que podiam admirar os campos de flores, em que muçulmanos e cristãos viviam em paz. Lembra ainda algumas passagens de sua própria infância, aqueles momentos simples, mas que são os que mais sentimos falta.

"a gente acordava de manhã cedo
com o farfalhar da brisa nas oliveiras,
os berros da cabra de sua avó,
o tilintar das suas panelas,
o ar fresco e sol,
um risco pálido cor de caqui ao leste."
Lamenta profundamente o fato de o filho não ter as mesmas recordações por ser muito pequeno quando tudo isso ainda era possível. Vieram, então, os protestos, as bombas, a fome, o sangue, os enterros. Essa, sim, a realidade que a criança conhecia. E muito bem.
"Mas aquela vida,
aquela época,
parece um sonho
agora,
até para mim,
um murmúrio
que há muito tempo se dissipou."
Na sequência, vieram a fuga, a praia fria, o idioma estranho e a hostilidade. Onde quer que tentassem construir um novo lar.
"Ouvi dizer que somos indesejados.
Que não somos bem-vindos.
Que deveríamos levar nosso infortúnio à outra parte."
Todo ilustrado, o livro termina com a angústia e o peso de quem havia prometido que tudo daria certo, que sempre protegeria o filho. Mas que não conseguiu cumprir com a palavra no cenário inóspito em que foram colocados.
"Eu disse
a você:
Segure minha mão.
Nada de mal vai acontecer."
"Tudo o que posso fazer é rezar.
Rezar para que Deus bem conduza o barco, quando a costa se perder de vista e nós formos só um cisco nas altas águas, rodando e afundando, facilmente engolidos.
Porque você, você é uma carga preciosa, Marwan, a mais preciosa que já existiu.
Rezo para que o mar saiba disso.
Oxalá."
Toda a renda com a venda do livro será destinada à Fundação Khaled Hosseini, que ajuda refugiados.