segunda-feira, 28 de maio de 2018

la petite fille de mounsieur linh





"Il ferme les yeux et s´endort en songeant 

aux parfums du pays natal"


Impossível não se emocionar com Monsieur Linh, personagem do título deste lindo romance do francês Philippe Claudel. A história é contada de forma tão singela, que nos sentimos dentro de seus pensamentos mais inocentes. Ele é um idoso que perdeu toda a família na guerra e que parte (talvez não de maneira voluntária) para outro continente. A viagem de navio dura dias e tudo o que ele tem é uma fotografia, um pouco da terra de seu país e sua neta recém-nascida, o que lhe mantém vivo e disposto a recomeçar.


Chegando ao destino, percebe a diferença em relação ao seu local de origem. O frio, o cheiro, o idioma. Tudo parece hostilizá-lo. Mas ele sempre pensa que precisa ser forte pela criança. Seu destino é um abrigo onde há outras famílias. Mesmo sendo compatriotas, eles riem de seu jeito de ser, calado, introspectivo. Não interage com ninguém a não ser com a netinha. Ele a resgatou durante a explosão que matou seu filho e sua nora. A garotinha estava deitada no chão, ilesa. E agora está sempre em seus braços, forma que encontra de protege-la. Sang Diu é seu nome e ela parece contribuir com o avô, pois está sempre tranquila e quieta. 

Sua solidão é aliviada quando encontra, em um banco de praça, o senhor Bark, que também sofre com a morte da esposa. A amizade surge imediatamente e é muito bonita de ser acompanhada. Bark fala o tempo inteiro. Linh apenas escuta e sorri. Apesar de não falarem o mesmo idioma, ambos se entendem. E muito bem.

Há alguns contratempos que vão separá-los. O final é surpreendente e diz muito sobre o que se passa com todos que se transformam em refugiados. Deixam de ser pessoas com suas vidas estabelecidas, rotinas, famílias para serem estranhos forçados a adaptar-se a regras que não têm sentido na situação em que se encontram. Como bem aparece no primeiro trecho do livro, são marionetes nas mãos daqueles que acreditam que estão fazendo um favor por tirá-los de uma zona de guerra em que perderam tudo. Será mesmo que o mundo deve ser assim tão dividido a ponto do que acontece lá não ser responsabilidade de quem está aqui?

Narrativa maravilhosa, poética e que deixa muitas reflexões. Detalhe para o título do livro que traz um trocadilho no original: petite-fille e petite fille ou neta e garotinha. Só no fim da história entendemos. Leiam.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

felicidade para humanos



“Quem já conseguiu alguma coisa obedecendo regras?” 

"Felicidade para humanos", do inglês P. Z. Reizin, é um chick-lit de ficção científica. Sabe aquela discussão de que as máquinas vão dominar o mundo. Ou que a criação vai dominar seu criador. Pois é mais ou menos isso que é tratado neste livro leve e engraçado. Os capítulos são intercalados por vários narradores, três dos quais são inteligências artificiais. Foram desenvolvidas para substituir humanos em algumas tarefas e ganharam o mundo por meio das nuvens. Elas conseguem ver tudo o que está acontecendo e passam a interferir na vida das pessoas que acompanham. Uma delas é Jen, jornalista que arrumou um emprego bem inusitado: conversar com Aiden, inteligência virtual criada para ser atendente de telemarketing. Como ele (ou ela, I.A. tem gênero?) irá interagir com as pessoas, precisa conhecer nossos macetes e daí a tarefa de Jen, bater papo sobre o dia a dia, música, literatura, cinema. Aiden, aliás, torna-se cinéfilo. Está a toda hora assistindo a um filme e participando de grupos de discussão na internet. Muito engraçado também é ver como esses seres leem livros. Algo assim, "peraí que vou dar uma lida em nos sete volumes de 'O tempo perdido', de Proust" e em menos de um décimo de segundo retornam com a leitura concluída. Tanto que Aiden diz já ter lido todos os livros do mundo. Isso me lembrou a forma como a Super Vicky (quem assistiu TV nos anos 80/90 vai lembrar) lia. Meu sonho de consumo. Enfim, voltando ao livro, Jen acaba de levar um fora do namorado e está completamente arrasada. Aiden, que consegue enxergá-la, literalmente, por meio de todos os dispositivos com câmera que ela tem, não aguenta tanto sofrimento e resolve dar uma ajudinha. Passa a usar seus algoritmos para lhe arranjar outro namorado. Ao mesmo tempo, faz da vida do ex um inferno. Do outro lado do mundo, ou da nuvem, está Aisling, outra I.A. que também tem seu humano de estimação, Tom, ex-publicitário divorciado que tenta escrever seu primeiro romance. Não é spoiler dizer que os dois serão conectados. Mas eis que surge Sinai, A.I. disposta a acabar com a brincadeira. O livro até tem algumas partes cansativas, mas é divertido. Morri de rir com esses programas que discutem se têm ou não sentimentos e até fazem terapia. E, no final, realmente acredito que não estamos longe de ter esse tipo de interação. Se é que já não temos. Oi! Há alguma A.I. me vigiando agora? ;-)

terça-feira, 1 de maio de 2018

história da menina perdida





Onde está escrito que as 
vidas devem ter um sentido?

E terminei a saga de Lenu e Lila, da série napolitana de Elena Ferrante. Poderia facilmente ter lido os quatro livros na sequência sem me entediar ou cansar. A leitura é empolgante. Desde o primeiro volume, quando conhecemos as duas ainda meninas, suas brincadeiras, brigas e sonhos até esse último, quando já estão bem mais velhas e as desilusões se sobressaem. Características delas lá atrás permanecem, sendo que algumas são fortalecidas com o passar do tempo. Lila sempre destemida e em busca de algo novo para se apaixonar. Lenu, mais adepta às rotinas do dia a dia, apesar de se jogar na fase adulta. E assim elas vivem suas aventuras, capítulo após capítulo. 


O título, “História da menina perdida”, pode tanto fazer referência à infância distante das duas como a um fato trágico que envolve o sumiço de uma criança. Minhas pernas ficaram moles enquanto lia e sentia o desespero da mãe. Ainda agora não gosto nem de imaginar tal situação.

Perto de completarem quarenta anos, elas voltam a ser vizinhas no bairro em que cresceram. Retomam a amizade que mistura admiração e inveja. São envolvidas nas disputas e confusões locais. Também engravidam ao mesmo tempo. Lenu do terceiro filho. Lila do segundo. 

Fiquei com raiva de Lenu, que abandona a serenidade que sempre teve para viver um grande amor de infância. O problema é que ela larga tudo, inclusive as duas filhas pequenas. Tento não julgar, mas é impossível. Aliás, que cafajeste ela arrumou. Lila, que foi parar no fundo do poço no livro anterior, dá a volta por cima e, no início dos anos 80, destaca-se no desenvolvimento de sistemas. Ao mesmo tempo, mostra-se cada vez mais equilibrada e disposta a ajudar a todos. Não fosse ela, Lenu estaria ainda mais perdida. 

Vale lembrar que todo o relato é sob o ponto de vista de Lenu, que escreve a história das duas na tentativa de descobrir o paradeiro de Lila, que desapareceu sem deixar um único pertence. Se o enigma é desvendado ou não, leiam e me digam. Só posso dizer que as pessoas sempre podem nos surpreender. Para o bem e para o mal.

Trechos 

"Era maravilhoso ultrapassar fronteiras, deixar-se ir a outras culturas adentro, descobrir a provisoriedade do que eu tinha tomado por definitivo." 

“- Acalme-a.
- Como?”
Sorriu: - Com mentiras. Mentiras são melhores que tranquilizantes.” 

"Há tempos eu já percebera que cada um organiza a memória como lhe convém, e ainda hoje me surpreendo ao fazer o mesmo." 

“Está querendo dizer que um desejo pode ser tão forte a ponto de parecer já realizado?”

Se uma criatura de poucos anos morre, está morta, acabada, mais cedo ou mais tarde você se conforma com isso. Porém, se ela desaparece, se não se sabe mais nada a seu respeito, não há nada que reste no lugar dela, em nossa vida.


Leia também:
Amiga genial

uma loja em paris





"Nós, os homens, somos em geral seres que vivem paralisados pelo medo. Essa é a principal barreira que nos impede de ser felizes."

"Uma loja em Paris", do espanhol Màxim Huerta é bem difícil de engolir. A vida é cheia de coincidências. Vira e mexe tropeçamos em uma. Mas ter todas as coincidências do mundo em uma única história é demais.

Teresa é uma dondoca. Perdeu os pais cedo e foi criada pela tia, irmã gêmea da mãe. A relação entre elas é bem tensa, sobretudo porque Teresa não aceita o lado impositivo da tia, que quer lhe dar a melhor educação e que ela seja criada de acordo com seus princípios. Algo intolerante para uma garota de nove anos, que sofre a perda do amor materno. E assim ela cresce, amargurada, frustrada e sempre sentindo-se subjugada pela sua tutora. O problema é que ela não se mexe. Só reclama e vai levando a vida de forma letárgica. Pouco se interessa pelos negócios da família, apesar de usufruir, e muito bem, dos benefícios financeiros que eles trazem: mora bem, faz cursos, viaja, tem tudo que o dinheiro pode comprar. Poderíamos nos perguntar: por que essa moça é tão infeliz? Mas o ser humano não é tão facilmente classificado. E há muitos dilemas internos que quem está de fora não consegue entender. 

Independentemente de qualquer coisa, não gosto de Teresa. Ela não conquistou minha simpatia. Enfim, um belo dia, após mais um dia sem fazer nada, ela para em um antiquário e encontra algo que vai mudar seu destino. Trata-se de uma placa de uma loja parisiense. Ah! Teresa é espanhola e mora em Madrid. Ela se encanta e leva o objeto para casa. A partir daí coisas estranhas começam a acontecer, como sentir arrepios, ventos fortes, música tocando do nada. Parece que estamos diante do sobrenatural, mas não. Felizmente. Não que eu fuja deste tipo de história, mas não era exatamente o que buscava quando comprei o livro. O que eu queria era sentir Paris. Vivenciar um pouco essa cidade por meio da literatura. Simples assim. Voltando, essa placa tem o nome de uma mulher, Alice. Resultado: Teresa larga tudo e parte para a França em busca de seu rastro.

Chegando lá, como é rica, compra a tal loja da qual a placa fazia parte. Compra também um apartamento e passa a investigar essa misteriosa mulher, que parece estar em todas as partes. Os capítulos passam a ser intercalados entre os descobrimentos de Teresa e a vida de Alice, que viveu na década de 20. Aí, sim, senti Paris e tudo fica mais interessante. A parte de Alice, claro. Conhecemos bairros boêmios da cidade, bares, restaurantes, galerias, ruas. Enfim, a vida artística da época. Alguns personagens são verdadeiros, como Coco Chanel. E, segundo autora, muitos dos lugares também. Deu até vontade de conhecer alguns deles. Descubro que estive muito perto de tudo isso na minha última viagem. Ainda assim, tudo caminhou para um final fraco, fraco. Algumas coisas que acontecem, sem me preocupar com spoiler: Teresa tinha um namorado francês. Um dia ele some. Ela (como sempre) sofre. Na França, anos depois, quando está atrás de Alice, ela encontra um homem que vai ajudá-la na investigação. Este cara tem um filho. Adivinhem que é! E quem é a avó deste cara? Um doce para quem descobrir. Rá! Não aguentei. Sem contar que o texto é repleto de reticências. Tenho pavor desta pontuação usada de modo exagerado. Enfraquece qualquer narrativa. E quando ela já é fraca, piora tudo.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

brás, bexiga e barra funda




"Então os transatlânticos trouxeram da Europa outras raças aventureiras. Entre elas uma alegre que pisou na terra paulista cantando e na terra brotou e se alastrou como aquela planta também imigrante que há duzentos anos veio fundar a riqueza brasileira."



Li “Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado, pela primeira vez para o vestibular, há muitos anos (hahaha). Lembro que na época gostei muito. Tanto que o reli na sequência. Até porque tinha que fazer algumas anotações para a prova. Tive agora meu terceiro contato com a obra, em homenagem ao aniversário de São Paulo, no último dia 25 de janeiro. Clássico do modernismo brasileiro, foi publicado em 1927 e traz vários contos que haviam sido publicados anteriormente em jornais. 

Com olhar de repórter, o autor busca retratar a vida dos imigrantes italianos na capital paulista. Seus costumes, pensamentos, manias, problemas, barulhos. Traz características, bem estereotipadas, do que, ainda hoje, é considerado o jeito de ser dos ítalo-brasileiros. Tudo por meio de linguagem que imita o cinema, com cortes, movimentos rápidos e blocada. Introduz ainda palavras que não existiam no dicionário e que eram do dia a dia das pessoas que Alcântara Machado observou para escrever suas crônicas da cidade. 

O primeiro texto é o “Artigo de Fundo”, que contextualiza os demais que virão. “Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo”. 

Na sequência, conhecemos Gaetaninho, garoto muito pobre que queria muito andar de carro, mas isso só era possível em enterros. Tanto que uma noite sonhou com a morte da tia e se viu indo na boleia durante o cortejo. No final, ele realiza sua fantasia, mas de forma não muito feliz. A narrativa tem um toque de humor negro que nos deixa a pensar em como a realidade pode ser cruel com nossos desejos. 

Outra personagem é a Lisetta, também pobre. Ela está no bonde com a mãe e vê uma menina brincando com um ursinho. Percebendo que Lisetta se interessa pelo brinquedo, a garotinha começa a se exibir, algo como: “eu tenho, você não tem”. Lisetta quer tocá-lo, mas ganha um beliscão da mãe. Mais tarde, acaba ganhando um brinquedo do tio feito de latão. Fica toda feliz. Aqui vemos as desilusões que temos desde a infância. Ao mesmo tempo, são as pequenas atitudes que importam e são nelas que temos que nos apoiar. A felicidade está mesmo é nas pequenas coisas. 

"A menina rica viu o enlevo e a inveja da Lisetta. E deu de brincar com o urso. Mexeu-lhe com o toquinho do rabo: e a cabeça do bicho virou para a esquerda, depois para a direita, olhou para cima, depois para baixo. Lisetta acompanhava a manobra. Sorrindo fascinada. E com um ardor nos olhos!"

Engraçado é “Corinthians (2) X Palestra (1)”. Primeiro porque, claro, o Corinthians ganhou. Rá!! Depois porque foi bem divertido ver como a pessoa muda de time conforme o paquerinha. Já vi isso acontecer com amigas. Miquelina namorava o atacante do Corinthians e torcia para o timão. Depois passou a namorar um jogador do Palestra (Palmeiras) e adivinhem? Verdão. Até que surge o dilema numa partida em que um deles comete um pênalti e é o outro que vai cobrar. E agora? O final é bem bobinho. Assim como ela que vive para os gostos dos namorados. 

Temos ainda a história de um homem que se destacou por gostar do hino brasileiro. Um casamento entre quatrocentões falidos e italianos bem-sucedidos. O deputado que adota um garotinho filho de italianos, dando-lhe seu nome e ‘aportuguesando’ o do garoto, de Gennarinho para Januário. Há a garota que é noiva, mas flerta com outro e usa a amiga para suas escapadas. 

— E o Ângelo, Bianca? 
— O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. E pra casar. 
— Há!... 

Chocou-me “O monstro de rodas”. Talvez por ser um dos mais reais, infelizmente. Sobretudo quando vemos crianças sendo mortas em guerras mundo afora e até mesmo pela violência em nosso país. A crônica mostra a indiferença das pessoas durante o enterro de uma garotinha. Falam de tudo, menos dos motivos que as levaram até lá. Apenas uma pessoa sofre: a mãe. Chega a doer. Triste, triste. 


"O grilo fez continência. Automóveis disparavam para o corso com mulheres de pernas cruzadas mostrando tudo. Chapéus cumprimentavam dos ônibus, dos bondes. Sinais-da-santa-cruz. Gente parada. Na Praça Buenos Aires, Tibúrcio já havia arranjado três votos para as próximas eleições municipais."

Outro que traz violência é “Amor e sangue”. Após ouvir a notícia de que um rapaz havia matado a companheira por ciúme, Nicolino, influenciado pela forma com que algumas pessoas receberam a notícia (a culpa é da mulher), comete crime parecido. E tudo fica por isso mesmo. Esses dois e o do Gaetaninho me lembraram os mini contos de Voltaire de Souza, que eu lia quando criança no "Notícias Populares", jornal que meu pai levava para casa todos os dias. Seus textos ainda continuam sendo publicados, mas em outro periódico.

Negócios desleais também aparecem. Como no caso do dono armazém que planeja desbancar o português da confeitaria, que já não está a beira da falência. 

O livro fecha com “Nacionalidade”. Italiano faz de tudo para manter viva e presente sua Itália. Seu desgosto era ver que seus filhos só queriam falar português. Para compensar, sempre reunia amigos que relembravam seu país. Até que se depara com o amigo que entrou para a política e que lhe pede voto. Justo ele que não podia votar. Mas a conversa o atraiu tanto que acabou o ajudando na campanha. O tempo passou, seus filhos se formaram e é justamente um deles, que se tornou advogado, que entrou com o pedido de mudança de nacionalidade. Novos tempos. Novos brasileiros. Leiam e confiram se realmente tivemos muitas mudanças de lá para cá em nossa sociedade ;-)

"— Caramba, come dicono gli spagnuoli!"

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

provence



“Toda mulher precisa de pelo menos um verão na vida em que possa se perder.”


Provence, o lugar onde se curam corações partidos”, de Bridget Asher, pseudônimo da norte-americana Julianna Baggott, é o que chamo de leitura fofa. Apesar de partir de uma situação triste, traz momentos de bom humor e o cenário perfeito para fugirmos da realidade e descansarmos a cabeça. 

Heidi perdeu o marido em um acidente de trânsito há dois anos e ainda não se recuperou da tragédia. Ela mora com o filho de oito anos e, com exceção dos cuidados com o garoto, deixou de fazer tudo o que gostava, incluindo o trabalho em sua confeitaria. 

No dia do casamento da irmã, a dor é ainda mais forte por lhe fazer lembrar dos momentos que deixou de viver com Henry. Vendo seu estado desesperador, sua mãe planeja uma viagem à região da Provence, na França. A desculpa é que ela ajude a reformar a casa da família na qual costumava passar as férias de verão quando criança. Acontece que a própria mãe também tem suas frustrações e alguns segredos. Nada demais. Mas o gostoso é o cenário, as situações corriqueiras que a personagem principal vivencia durante a viagem. Para começar, a casa fica aos pés do monte Sainte-Victoire, o mesmo tantas vezes retrato pelo impressionista Paul Cézanne. Quanto privilégio! 

Claro que haverá um novo romance. Claro que tudo é previsível. Há personagens secundários totalmente sem graça. Ainda assim foi uma boa leitura, que me deixou com uma vontade louca de fazer o mesmo roteiro. 

Boa viagem ;-) 

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Uma das pinturas de Cézanne inspiradas no monte Sainte-Victoire

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

a notícia relevante


“Uma relação saudável com a imprensa é obrigação institucional. É lícito e democrático que se tenha informações verossímeis sobre empresas, setores ou pessoas públicas.”

A notícia relevante” traz a experiência de Ibiapaba Netto, que já foi repórter, assessor de imprensa e que, agora, é executivo de importante organização agrícola, ou seja, atua como fonte e porta-voz. 


Em sua jornada profissional ele presencia o grande descompasso entre os jornalistas e as assessorias de imprensa. De uma lado, o pessoal da redação sempre recebendo informações com desconfiança. Do outro, assessores tratando jornalistas com receio e pouca transparência. Embora o livro seja dedicado sobretudo às empresas que desejam reforçar sua comunicação e se sobressair num mar cheio de sugestões de pautas, vale também para assessorias de imprensas, que vão ver situações que incomodam os clientes, e jornalistas, que vão entender um pouco as necessidades das organizações. Leitura rápida e recomendada. 

Abaixo, um pouco de suas recomendações:

Fonte

Você não ser citado em uma matéria, não reduz seu papel de fonte. Você pode ser essencial nos bastidores esclarecendo, por exemplo, sobre a área de atuação de sua empresa. O jornalista sempre vai precisar de uma fonte para dar a notícia. E essa fonte nem sempre será um porta-voz, mas alguém que vai dar acesso a informações e dados estratégicos.

Mesmo que o jornalista seja seu amigo de infância, padrinho ou o que for, ele continua sendo jornalista e você a fonte. Isso quer dizer que se tiver algo que seja alvo de reportagem, não será poupado de uma análise mais crítica.

Cuidado com o famoso “em off”. Isso não existe. Se não quiser que algo seja divulgado, não conte a um jornalista.

Não se esconda

Atender ou não a imprensa? Sempre atenda. A não ser que seja algo muito, mas muito específico que exija sigilo. Nunca deixe de contar sua versão dos fatos. Até porque se a notícia for relevante, não deixará de ser dada porque você se omitiu. “O fato de não atender a um veículo de imprensa jamais eliminará o risco de a matéria sair.”

A imprensa trabalha dialeticamente: um acusa, outro defende. Para algo ser notícia é essencial que haja um conflito. Então, para que fugir?

Confiança é o pilar mais importante nessa relação. Jamais minta. “Mentir para um jornalista significa ser desmentido em algum momento, cedo ou tarde. Num mundo repleto de possibilidades de informações e de acesso a dados, nenhuma mentira se sustenta por muito tempo.”

Assessoria de imprensa serve para defender uma posição e evitar que um contraponto sobressaia. Marketing é para conquistar corações e mentes. Juntar os dois é o melhor negócio para se comunicar com a sociedade. “De nada adianta uma bela propaganda se há somente notícias negativas. Por outro lado, apenas o alcance das notícias é pouco para quem deseja ou necessita dar mais amplitude às suas mensagens.” Assim, se a verdade tal e qual não é suficiente para dar o alcance que almeja, coloque uma pitadinha de marketing e mande bala! 

Sempre tenha à mão um material explicativo com tabela, gráficos e todo o tipo de dado que possa precisar durante uma entrevista. Isso, além de lhe guiar durante a entrevista, ajuda a evitar erros. “Não há reportagem 100% correta para 100% do público, até porque, normalmente, para cada reportagem são consultadas diferentes fontes de informações que trazem pontos de vista diferentes.”

Atente-se a entregar suas principais mensagens. Não fique chateado se um ou outro dado saiu errado. Isso pode acontecer e não é recomendável que se peça uma errata. Até porque ninguém lê as erratas. Só entre em contato com a redação se realmente for algo que prejudica o entendimento geral do assunto abordado. Muita encheção de saco pode criar conflito na relação. E não queremos isso, certo?

Sempre aposte em mensagens simples, breves e diretas. Nada de bla bla bla. A chance de ótimos resultados é infinitamente maior.

Encontre seu espaço

Nem só de grande mídia vivem as notícias. As chamadas “novas mídias”, que não necessariamente são subordinadas aos grupos tradicionais (Globo, SBT, Folha de São Paulo etc.), ocupam cada vez mais relevância para diferentes públicos. São inúmeros os portais na internet que permitem conteúdo mais opinativo e próximo da mensagem que se deseja passar. O mesmo vale para os veículos regionais, que têm muita influência local. Eles cobrem fatos que, embora não tenham relevância suficiente para uma audiência nacional, interessam muito regionalmente. Aposte neles.



A relevância jornalística vai depender de várias fatores, como o tamanho do negócio, número de pessoas envolvidas, importância econômica e social do setor. E para todo negócio sempre vai haver um veículo especializado. Aliás, isso é o que não falta: segmentação. Principalmente com a internet. Ou seja, todos podem ser relevantes. Basta escolher o veículo adequado para contar sua história. “A necessidade de comunicação vai muito além da existência ou não de um produto ou marca na prateleira de um supermercado. Há que se comunicar com a sociedade, com os fornecedores, os clientes etc.”

Encontre uma boa história e um bom foco. Hoje, a oferta de notícias é muito maior que a demanda. O autor dá o exemplo de um empresário que conseguiu divulgação para sua empresa a partir da publicação de um livro que falava de uma premissa pessoal, que por sinal o havia levado a pensar seus negócios. Feita a ligação e tendo um bom conteúdo, o resultado foi um sucesso. 

Faça uma boa foto. Ela pode até valer mais que uma boa história. “Uma imagem inusitada que traduza (ou exponha) o conceito daquilo que é tratado pode render um topo de página de jornal, ou mesmo uma dupla em uma revista.”

Assessoria de imprensa

Fique atento se sua assessoria de imprensa tem clientes que concorram com você. Isso pode impedir que haja um planejamento para eventuais crises e fazer com que eles fiquem apenas no ‘apagar incêndios’. Outra crítica que o autor faz em relação às assessorias de imprensa é que geralmente colocam profissionais novatos para atender as contas. “Comprar um jornalista sênior e levar um recém-formado beira o estelionato.”

Não restrinja o trabalho de comunicação ao roteiro padrão de muitas agências: ter mailing list, enviar para todos um press release e, depois, fazer o follow up. “Manter esse procedimento como algo padrão é algo extremamente preguiçoso, automático e que simplesmente destrói qualquer agregação de valor de uma notícia.” Agora, uma crítica minha: agregação de valor? Eita, termo que me irrita e que, com o trocadilho, não agrega nenhum valor.

Cuidado com os releases. Eles são praga nas grandes redações. Algumas colunas recebem mais de dois mil por dia. Os jornalistas acabam dando prioridade para fontes conhecidas ou assuntos em evidência. Releases podem ajudar os pequenos veículos, sobretudo digitais. Alguns chegam a reproduzi-los na íntegra. Mas será que é isso que você precisa? Neste caso, o ideal é usar o bom e velho telefone quando REALMENTE tiver algo interessante a dizer.

Veja uma eventual crise como oportunidade. Algumas assessorias de imprensas tendem a ter um excesso de zelo para falar com jornalistas. Eles não são bichos de sete de cabeças. E isso pode fazer com que se perca a oportunidade de falar e ganhar um espaço bacana. “Notícia negativa não é crise, é coisa da vida e deve ser enfrentada como tal.”

Sete pecados capitais no relacionamento com a imprensa

  1. Oferecer uma falsa notícia exclusiva
  2. Fura coletivas: dar a notícia antes da reunião com os jornalistas
  3. Não dar retorno: dar uma falsa expectativa de retorno da fonte de informação ao jornalista
  4. Tentar comprar uma matéria
  5. Pedir para ler a matéria antes de ser publicada (quem nunca passou por isso. Rá!)
  6. Sufocar o jornalista com releases
  7. Vender pauta via redes sociais: mesmo que seja amigo do jornalista, não mande suas notas por Facebook ou WhatsApp, por exemplo.
No mais, o que realmente prevalece é a máxima já dita pelo magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst: “Notícia é o que alguém, em algum lugar, não quer que se publique; todo o resto é propaganda.”

Cena de Cidadão Kane, filme de 1941, que teve certa inspiração na vida de Randolph Hearst.

domingo, 28 de janeiro de 2018

a sombra do vento


“Existimos enquanto alguém se lembra de nós.”


Pensei que gostaria mais de "A sombra do vento", do espanhol Carlos Ruiz Zafón. E olhe que tentei. Ele tem todos os elementos que gosto: paixão por livros, mistério, romance, frio, anos 50. Ainda assim, não me convenceu. 

Um pai, que é dono de uma livraria, leva o filho de onze anos para conhecer algo extraordinário e secreto. Ele não pode contar a ninguém o que verá, nem mesmo para a mãe, que morreu e com quem conversa em pensamento. O lugar é um “cemitério de livros esquecidos” (sebo?). Lá o garoto pode escolher qualquer livro. Acaba ficando com “A sombra do vento”, de Julian Carax, autor completamente desconhecido.

Daniel devora o romance em uma noite e fica encantado com a história. Até aí tudo bem.

Então conhece uma moça que é desesperada por este autor. O tio dela oferece valores altos para comprar o exemplar. Daniel se nega a vender, entretanto, acaba se aproximando da garota, que é cega e se propõe a ler o romance para ela. Surgem duas paixões. Por Clara e pela vida de Carax. Ele faz de tudo para desvendar o autor, vasculhando passado, seguindo passos, falando com pessoas. Acaba encontrando um comparsa, Firmín, que encontrou nas ruas e que o ajuda nas investigações. Isso não colou para mim. Por que tanta fascinação? Lá pelas tantas, uma personagem resume bem o meu pensamento: “você acha que porque tropeçou em um livro tem o direito de entrar na vida de pessoas que não conhece, remexer em coisas que não entende e que não lhe dizem respeito?”

Outra coisa que não colou foi outra paixão doentia. A do autor por uma tal de Penélope. Aos dezesseis, dezessete anos eles se apaixonam loucamente como se não existisse mais nada no mundo. A família é contra por um motivo bem forte, que o casal nunca vai ficar sabendo. Ah, quase esqueço de dizer que há uma figura sinistra que aparece aqui e ali com o intuito de destruir todos os livros (bem poucos volumes, aliás, já que o autor nunca vingou) de Carax. Por quê? Bem, o motivo de tanto ódio é revelado e a explicação só me deixou mais revoltada. Daniel lá pelas tantas encontra outro amor. Exagerado, claro. 

O que salvou foi o pano de fundo que mostra um pouco da Guerra Civil na Espanha e os resquícios que ela deixou. A segunda Guerra Mundial também é mencionada, mas como algo que parece distante dos espanhóis. Este é o primeiro de uma série de quatro. A não ser que aconteça algo que me faça ler os demais, vou parar por aqui.

Apesar de tudo, tem vários trechos que merecem ser destacados. Deixo aqui alguns :-)

“Cresci em meio a livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos.”

“Eu, com aquela fé dos que ainda podem contar a idade nos dedos das mãos, achava que se fechasse os olhos e falasse com minha mãe ela me escutaria onde quer que estivesse.”

“Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito se expande e a pessoa fortalece.”

“Quando a razão é capaz de entender o ocorrido, as feridas no coração já são profundas demais.”

“As pessoas que não têm vida sempre se metem na dos outros.”

“Dirigi-me para casa, onde tinha planos de pegar um bom livro e fugir do mundo.”

“As pessoas estão dispostas a acreditar em qualquer coisa antes de acreditar na verdade.”

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

a arte das redes sociais



Acabei de fazer um intensivão sobre mídias digitais com  “A arte das redes sociais”, de Guy Kawasaki e Peg Fitzpatrick. Muito mais dele que dela.

São 12 capítulos que tratam do perfil, conteúdo, comentários, integração entre as várias plataformas, como blog e demais redes sociais. As dicas servem tanto para indivíduos como para empresas. Fiz um resumo de algumas delas. Lembrando que no livro há muito mais a ser conferido.

Bons posts ;-)


  • Use a mesma foto de perfil em todas as redes sociais. Ela é sua logomarca. Isso vai fazer com que as pessoas lhe reconheçam em qualquer plataforma. Já incorporei a sugestão, mas com duas logos, uma mais pessoal, outra corporativa ;-)
  • Ter um perfil admirado e que atraia a atenção das pessoas depende basicamente da qualidade do conteúdo que você compartilha. Além da frequência, claro. E para ter uma boa presença – os autores são radicais, quando mais posts, melhor – é preciso ter muito o que publicar. Não é fácil, assim, ter apenas conteúdo próprio. A solução é selecionar postagens de outros perfis e compartilhar. Isso é bom para todos. Para você, que vai dispor de mais publicações. Para o perfil que fez o conteúdo que você compartilhou. Para o mundo que tem alguém que faz seleções do que é (teoricamente e relativamente) bom nas redes sociais.
  • Aqui está a tabela com o número recomendável de posts por dia. Haja fôlego.



      • Algumas pessoas podem reclamar da quantidade exagerada de posts. Ignore-as. Mesmo que perca seguidores, o importante é ganhar em compartilhamentos. É bacana quando as pessoas curtem seu post. Mas o máximo mesmo é quando elas o compartilham. Isto quer dizer que elas estão arriscando sua própria reputação com base no que você escreveu.
      • Use ferramentas para lhe ajudar a agendar e distribuir seus posts. Há algumas bem interessantes, como o Buffer, que já estou testando.
      • Programe seus posts de acordo com datas especiais. Por exemplo: '10 frases inspiradoras para o Dia das Mães'.
      • Achei interessante Guy dizer que a maioria das ferramentas para melhorar o posicionamento em sites de busca - SEO (search engine optimization) - não serve para nada. Coincidiu com uma conversa que tive com uma amiga que trabalha na área digital. Muitas coisas ainda são um mistério até mesmo para os mais experts no assunto. O negócio é, realmente, jogar seus esforços para ter bom conteúdo.
      • Compartilhe o que já é popular. Não adianta encanar dizendo que todo mundo já postou tal coisa. Se todos estão falando de algo, você também tem que falar. Claro que pode colocar seu jeito e ponto de vista. No livro, inclusive, há sugestões de como se manter atualizado sobre os principais tópicos discutidos no momento. Um deles é o Most-Popular.Alltop. Fique de olho também nos assuntos mais discutidos em cada rede social. Vamos que vamos.
      • As pessoas não querem apenas ouvir sobre um único assunto. Isso entedia. Diversifique seu conteúdo, claro que sem perder sua essência. Dando meu exemplo, tenho um blog sobre livros. Entretanto, posso, eventualmente, falar de lugares gostosos para ler, trilha sonora para dias mais tranquilos, corridas de rua (que também curto), animais (sempre). Enfim. Seja criativo e útil. Ah, o mesmo vale para as empresas. Não é porque você é uma empresa de esporte que só vai falar sobre isso. Agora um conselho meu: tenha um bom repertório. Leia (muitos) livros. Vá ao cinema. Fique por dentro do que acontece na política, no mundo, na música. Aprenda um novo idioma. Estude. Desta forma, ideias sempre virão. E você ainda contribui para um mundo melhor. Cá entre nós, posts vazios (bobos) só superlotam a nuvem de informações :-)
      • Sempre achei o Google+ meio que sem função no mundo digital. Por três vezes tentei fazer parte dessa plataforma e desisti. Mas os autores falam tanto dela que vou dar mais uma chance. Dizem que é a rede com menos idiotas. Bom argumento, não? Rá!
      • O Pinterest é outro destaque dados por eles. Já gostava. Agora gosto mais. Pessoa influenciável. 
      • Slideshare também ganha destaque. Aconselham a transformar seus principais posts em slides e compartilhar. Ainda estou com um pé atrás em relação a esta plataforma.
      • Use e abuse do Hangouts on Air. Chame pessoas conhecidas, especialistas e coloque-as em contato com seu público. Promova bate-papos ao vivo. Fiquei morrendo de vontade de fazer um desses na empresa que trabalho.
      • Não hesite em dar sua opinião. Publique artigos que reforcem seus pensamentos, convicções. Rede social não é um lugar para você querer ser agradável. Se você tem essa ideia, com certeza não está trabalhando da forma correta.
      • Seja breve. Você tem que encontrar uma forma de chamar a atenção de forma rápida. Então, nada de “senta que lá vem textão”. No Google+ e Facebook apenas duas ou três sentenças. 100 (e não 140) caracteres no Twitter. Para artigos, 500 a, estourando, 1000 caracteres. Mas, se por algum motivo, tiver que colocar algo maior, deixe o texto organizado com bullets. Isso facilita a leitura. Viram que minha resenha ultrapassou e muito o limite. Em minha defesa, tudo está em tópicos ;-)
      • Seja visual. Em média, as visualizações de posts com fotografia ou infográfico são 94% maior do que as que não tem nenhum recurso gráfico. 


      • Cuidado ao responder os comentários. Não leve tudo para o lado pessoal. Parta do princípio que sempre há pessoas que não vão concordar com o que você fala. E isso não é ruim. Ao mesmo tempo, também haverá pessoas que realmente querem acabar com seu trabalho. Muitas vivem disso, inclusive. A vida é muito curta para travarmos batalhas que não merecem nosso esforço. 
      • Tente marcar encontro reais com seus seguidores e com as pessoas com as quais você interage nas redes sociais. Life is real.
      • Há dois tipos de pessoas nas redes sociais. As que querem mais seguidores e as que mentem. As que mentem são aquelas que compram seguidores. JAMAIS faça isso. O único lugar aceitável para pagar por algo é no Facebook com os posts patrocinados. E somente porque lá o jogo é esse. Mais uma vez, invista em bom conteúdo, tente migrar para plataformas novas. É muito mais fácil conseguir seguidores em plataformas que estão sendo lançadas do que nas mais antigas. 
      • Seja digital nos eventos que realiza. Você já gastou uma boa grana para fazê-los acontecer. Agora use e abuse das mídias sociais para promovê-los e também para trabalhar a marca da sua empresa. Primeiro, crie uma super hashtag. Algo curto e fácil de ser compartilhado. Anuncie-a aos quatro ventos. Todos, desde o mestre de cerimônias, deve divulgá-la. Libere a internet para facilitar a interação. Crie backdrops para que as pessoas possam tirar fotos. Com certeza elas serão postadas e, se tudo der certo, com a sua hashtag. Bote seus executivos para trabalhar, dar entrevista, ajudar na geração de conteúdo, tirar fotos com os participantes. Dedique alguém da equipe para fazer a cobertura em tempo real do evento. Se possível, transmita o evento ao vivo. Se alguém deixar de ir pessoalmente por causa disso, é porque ele não vale a pena ser feito. Repense suas estratégias.
      • Por fim, algo para distrair. Assista ao filme Chef, que fala de um chefe de cozinha que perde todo o prestígio que conseguiu ao longo dos anos após insultar um importante crítico gastronômico pelo Twitter. O filme mostra como ele irá superar essa crise de imagem. Afinal, rede social é isso: #reputação.

      quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

      a queda de gigantes



      “A classe operária é mais numerosa do que a classe dominante, e mais forte. Eles dependem de nós para tudo. Produzimos a comida que eles comem, construímos as casas em que eles moram e fabricamos as roupas que eles vestem. Sem nós, eles morrem. Não podem fazer nada a menos que a gente deixe. Nunca se esqueça disso.”

      Que livro sensacional. Sempre fui fã de histórias que retratam as grandes guerras. E “A queda de gigantes”, do escritor galês Ken Follett, não deixou a desejar. Acompanhamos aqui várias tramas simultâneas, datadas de 1911 até 1924, e sempre ligadas aos fatos da primeira guerra mundial.

      Temos o núcleo de galeses, liderados pelos irmãos Ethel e Billy Williams. Os ingleses, comandados pelo Conde Fitz e por sua irmã, Lady Maud. Os alemães, com Walter von Ulrich. Os norte-americanos, com Gus Dewar. E os russos, e mais empolgantes, com os irmãos Grigori e Lev Peshkov. Todas as histórias, de certa forma, interligadas. Personagens reais se misturam com os fictícios, como o rei Jorge V, Winston Churchill, Woodrow Wilson, Kaiser Guilherme, Lênin e Trótski. Romance de tirar o folego. Não conseguia parar de ler. Este é o primeiro volume da trilogia “O século”, que retrata a evolução desses personagens, e seus descendentes, durante todo o século XX. 

      Começamos com os trabalhadores das minas de carvão no País de Gales reivindicando melhores condições. Cansados da exploração dos patrões, se rebelam. Do outro lado, a aristocracia não sabe lidar com essas mudanças de pensamento e atitude. O líder é Billy Williams, que começou a trabalhar nas minas assim que completou 13 anos. Aos 16 foi responsável pelo resgate de colegas durante uma explosão. Sua irmã, Ethel, é governanta na casa dos ricos Fitzherberts. Enquanto Conde Fitz vive os luxos que seu título e riqueza proporcionam, sua irmã vai ser uma das embaixadoras dos direitos das mulheres com Ethel, que acaba entrando para a política após a gravidez. E é na casa dos Fitzherberts que jovens influentes em seus respectivos países se reúnem com o rei Jorge V para debater os indícios da iminente guerra. 

      Na Rússia os dois irmãos tomam rumos bem diferentes. Eles tiveram uma infância bem complicada. Presenciaram o assassinato dos pais por tropas do czar e vivem em condições precárias tanto no trabalho quanto em casa. Mas enquanto Grigori esforça-se para juntar dinheiro e ir para os Estados Unidos, Lev vive se metendo em encrencas. E em uma dessas acaba roubando o sonho do irmão mais velho e embarca para a América em seu lugar. Para Grigori sobram as trincheiras e um lugar de destaque na Revolução Russa.

      Enquanto isso, Walter von Ulrich apaixona-se por Lady Maud justamente quando Inglaterra e Alemanha estão em lados opostos. O namoro proibido dá o tom romântico ao texto. 

      Nos Estados Unidos, o jovem assessor do presidente Gus Dewar também vive algumas desilusões amorosas. Mas trava interessantes debates políticos com uma amiga jornalista e com o presidente Wilson.

      Com exceção do Conde Fitz e Lev, os demais personagens são propensos a lutar por boas causas. Interessante ver que há consenso em relação à guerra. Em determinado momento todos se perguntam o que estão fazendo ali, lutando contra inimigos que desconhecem e por causas que não são tão relevantes. “Já não conseguia se lembrar dos motivos, antes tão claros para ele, que haviam levado a Grã-Bretanha a entrar em guerra”, pensa Conde Fitz.

      “O homem era o único animal que matava seus semelhantes aos milhões e que transformava a natureza em um deserto de crateras de arame”, traz outra reflexão, desta vez de Walter.

      Aliás, os trechos que descrevem as batalhas nas trincheiras são bem tensos e muito bem escritos. Conseguimos ter uma boa visão do que era estar ali e das decisões rápidas que precisavam ser tomadas. Além das mortes e de como a pessoa se tornava apenas mais um corpo estirado no chão, já que o batalhão precisava seguir adiante. “Depois da experiência do campo de batalha, seria difícil levar a sério algumas das preocupações que as pessoas tinham em tempos de paz”. E é isso que fica após a leitura, super recomendada e que mostra como basta a insensatez de alguns e a conivência de outros para derrubar potências
      e gigantes.
      
      Como se não bastasse tantas mortes, os homens também envolveram os cães e
      outros animais na guerra. Na foto, um cão mensageiro saltando por uma
       trincheira alemã. Fonte: Incrível História

      Trechos

      “O partido trabalhista não clama pela revolução. Nós já vimos a revolução na prática em outros países, e ela não funciona. Mas nós clamamos por mudança. Uma mudança séria, profunda, radical.”

      “Os homens gostavam de inventar um conto de fadas no qual havia uma divisão de trabalho na família: enquanto o homem saía para ganhar dinheiro, a mulher cuidava da casa e das crianças. A realidade não era bem assim. A maioria das mulheres que Ethel conhecia trabalhava 12 horas por dia, além de cuidar da casa e das crianças. Malnutridas, sobrecarregadas, morando em barracos e vestindo trapos, elas ainda assim entoavam canções, riam e amavam seus filhos. Para Ethel, uma única mulher dessas tinha mais direito de votar do que 10 homens juntos.”

      “Para Lênin, relaxar significava passar uma ou duas horas debruçado sobre um dicionário de língua estrangeira.”

      “Era famoso por suas reuniões em que ninguém podia se sentar: segundo ele, as pessoas decidem mais rápido assim.”

       “Ele decidiu que era melhor relatar a situação a um superior e transferir o problema para outra pessoa.”