Quando recebe a notícia da morte do irmão mais velho, Édouard não sente nada. Para não dizer absolutamente nada, pensa na mãe. É por ela que decide ir ao enterro. Durante o percurso, tenta entender o que aquele irmão significou para ele.
"Talvez a gente possa ficar verdadeiramente e autenticamente consternado quando é tarde demais, não sei."
As lembranças, porém, não são boas. O irmão não gostava de trabalhar, vivia arrumando encrencas e espancava as namoradas. Sua presença sempre esteve associada à violência.
Ainda assim, Édouard se recorda de alguns momentos que destoam dessa imagem, como quando foi morar por alguns dias com o irmão para estudar em uma escola melhor. Foi recebido de braços abertos. O irmão fazia questão de chamá-lo de "meu irmãozinho" e parecia feliz com sua presença. Mas não conseguia evitar a bebida. Sempre voltava bêbado para casa, deixando Édouard abalado e tomado pelo ódio. Lembra também de quando o irmão conseguiu um emprego no qual realmente acreditava. Parecia, enfim, disposto a mudar de vida. Mas foi completamente desestimulado pelo padrasto, pai biológico de Édouard, que já estava cansado das sucessivas tentativas frustradas do enteado.
Para compreender quem aquele homem realmente foi, Édouard conversa com a mãe, a irmã e antigas companheiras do irmão. Cada uma delas revela uma faceta diferente: o filho, o irmão, o companheiro agressivo, mas também alguém que, em alguns momentos, tentou construir outro caminho. Aos poucos, a imagem que parecia definitiva começa a ganhar nuances.
"Meu irmão era tão despossuído de tudo, de dinheiro, de seus sonhos, de felicidade, que esse discurso de ódio era, de certa forma, tudo o que tinha."
O livro é forte e corajoso. Apenas pelo fato de espancar as namoradas, o irmão já não pareceria merecer qualquer gesto de compaixão. Ainda assim, Édouard Louis decide ir além desse julgamento e tenta entender o que o levou a seguir esse caminho. Não para encontrar uma justificativa, porque ela definitivamente não existe, mas para, talvez, entender quem de fato ele foi no meio de tantas derrotas, humilhações e falta de perspectivas.
"Como esquecer quando não há nada pela frente?"
A escrita é direta, limpa, sem delongas. Em muitos momentos, tive a impressão de que havia alguém sentado à minha frente apenas contando essa história, de forma objetiva, quase fria. O desabamento foi meu primeiro contato com o escritor francês Édouard Louis, conhecido por transformar experiências pessoais em literatura. E terminei a leitura com a sensação de que ainda há muito a descobrir sobre sua vida por meio da sua obra.

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