domingo, 30 de agosto de 2015

para sempre alice



"Pensou nos livros que sempre quisera ler, os que adornavam a prateleira superior da estante de seu quarto, aqueles para os quais havia imaginado que teria tempo depois. Moby Dick. Alice tinha experimentos a conduzir, artigos a escrever e palestras a dar e a que assistir. Tudo o que fazia e amava, tudo o que ela era, exigia a linguagem."

Sonhei que precisava terminar "Dom Quixote" rapidamente ou não conseguiria mais lê-lo. Isso foi culpa de "Para sempre Alice", primeiro romance da neurocientista e escritora Lisa Genova, que escreveu outros três, sempre tendo problemas da mente como tema. Seu livro de estreia me conquistou. Profundamente. Tanto que quando terminei, voltei e reli o epílogo. E, na sequência, assisti ao filme que ele originou. Aliás, vale pela interpretação de Julianne Moore. Mas não substitui a leitura :-)

É a história de Alice, renomada professora de Harvard. Uma palavra esquecida aqui, um compromisso perdido ali, por alguns momentos sem ter noção de onde está e descobre que, aos cinquenta anos, tem o Mal de Alzheimer de instalação precoce. Algo raro, mas que avança rapidamente. O livro abrange exatos dois anos e é dividido por meses. De forma linear, mostra a evolução da doença, desde os primeiros sinais. Eu me envolvi tanto que praticamente me coloquei na pele da protagonista. O desespero com que recebeu o diagnóstico, a tentativa de manter a mente alerta, o sofrimento por ter de abrir mão de suas aulas, o inconformismo por ser especialista em linguagem e dia após dia perder a capacidade de se expressar. 

Ainda consciente de seus atos, deixa orientações para quando a Alice de logo mais não souber mais as respostas para perguntas que formulou, e que aparecem todos os dias em seu Blackberry. Precaução de quem conhece muito bem os últimos estágios. Torci para que tudo saísse como planejado.

Acompanhamos a revolta e o desejo de poder trocar o Alzheimer pelo câncer, doença que não exclui, mas que permite batalhas. Ganhando ou perdendo sempre teria apoio. Por fim, sua entrega. Suave. Sozinha. 

"Alice voltou para casa andando devagar, apreciando o aroma do ar frio de outono e o chiar estalado que seus pés produziam ao pisar nos montes de folhas caídas no chão."

O livro é delicado, não traz aquele apelo comum às narrativas que tratam de doenças. Não estamos aqui para sentir pena de Alice, mas para sentir o que ela sente. E é exatamente isso que fazemos na bela passagem em que ela mata o dia de aula para tomar um sorvete e relembrar seu percurso, sua rotina. A família e seus dilemas também estão presentes, mas de maneira distante, sem comprometer o enfoque que é dado às suas sensações. Seu marido, também pesquisador de Harvard, insiste na busca por uma droga que poderá retardar o desenvolvimento da doença, enquanto a todo momento gira a aliança no dedo e dá um sorriso desanimador. Li ou ouvi em algum lugar que quando giramos a aliança é porque algo nela nos incomoda. Será que podemos culpá-lo?

Seus três filhos tentam aceitar. E cabe à caçula, com que ela tem certo atrito, compreender realmente o que se passa dentro da mãe. Belissimo. Recomendado.

"Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância."

Mais trechos

"Ela o fitou diretamente nos olhos. Uma vez, um colega lhe dissera que o contato visual com outra pessoa por mais de seis segundos, sem desviar os olhos nem piscar, revelava um desejo sexual ou homicida. Pensando bem, Alice não acreditava nisso, mas era algo que a havia intrigado o bastante para que o testasse com vários amigos e estranhos. Curiosamente, com exceção de John, um dos dois sempre desviava os olhos antes de terminarem os seis segundos."

"Gostava de coisas que lhe lembrassem borboletas. Recordava-se de um dia, aos seis ou sete anos, em que havia chorado no quintal pelo destino dessas criaturas, ao saber que elas só viviam durante alguns dias. A mãe a havia consolado, dizendo que não ficasse triste pelas borboletas, porque o simples fato de a vida delas ser curta não significava que fosse trágica. Vendo-as voarem ao sol quente em meio às margaridas do jardim, a mãe lhe dissera: “Está vendo? Elas têm uma vida linda.” Alice gostava de se lembrar disso."

"Desejou estar com câncer. Trocaria o mal de Alzheimer pelo câncer sem pestanejar. Envergonhou-se de desejar isso, o que decerto era uma barganha inútil, mas, ainda assim, permitiu-se fantasiar. No câncer ela teria algo a combater. Havia a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Haveria uma possibilidade de que ela vencesse. Sua família e a comunidade de Harvard se uniriam a sua batalha e a considerariam nobre. E, ainda que no fim ela fosse derrotada, poderia olhá-los nos olhos, consciente, e se despedir antes de ir embora."

"E, enquanto a cabeça careca e uma fitinha na lapela eram vistas como insígnias de coragem e esperança, o vocabulário relutante e o desaparecimento das lembranças prenunciavam a instabilidade mental e a loucura iminente. Os pacientes de câncer podiam ter a expectativa de receber apoio de suas comunidades. Alice tinha a expectativa de ser banida. Até as pessoas bem-intencionadas e cultas tendiam a manter uma distância temerosa dos doentes mentais. Ela não queria transformar-se numa pessoa evitada e temida pelas outras."

"Sejam criativos, sejam úteis, sejam práticos, sejam generosos e acabem em grande estilo."

"Ele girou a aliança no dedo e deu um sorriso desanimado"


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