quarta-feira, 1 de julho de 2015

alta fidelidade

Um vazio. Foi o que senti quando terminei de ler a última linha de “Alta Fidelidade”, do britânico Nick Hornby. Lançado em 1995, traduz perfeitamente o universo pop dessa década. Fiquei perdida diante de tanta referência musical. Dele conhecia apenas “Um grande garoto”, mas pela versão cinematográfica, que traz a melhor trilha sonora que conheci.

Rob Fleming está com 35 anos e acaba de levar outro fora. Para entender qual o seu problema e por que sempre é abandonado pelas mulheres, resgata os relacionamentos mais marcantes, aqueles que tiveram rupturas que mais o machucaram, o Top Five do Pé na Bunda. Reencontra amores da infância, adolescência e outros já da fase adulta. Tudo para mostrar que o último rompimento não é nem de longe o mais memorável. Balela, claro. O cara não se conforma por ter perdido a Laura. Sua vida gira em torno da música e de ‘os cinco melhores’ que cria com os seus dois funcionários e amigos, Barry e Dick. Os três passam o dia em sua loja de discos, a Championship Vinyl, fazendo listas, como: os cinco melhores discos para se ouvir numa manhã chuvosa de segunda-feira, cinco mais na categoria ‘discos para não sentir nada’, cinco bandas que ‘terão que ir para o paredão quando chegar o dia da revolução musical’ e por aí vai. Esnobes, não aturam pessoas com gosto musical limitado. Para eles, e aqui eu concordo, o repertório musical realmente importa e diz muito sobre a pessoa. Também é o principal motivo de tantos corações partidos.

"As pessoas mais infelizes que conheço, em termos românticos, são as que mais curtem música pop; e não sei se foi a música pop que causou o sofrimento, mas o certo é que essas pessoas já escutam canções tristes há mais tempo do que vivem suas vidas infelizes."

O livro me trouxe várias lembranças. Eu sempre gostei muito de música. Colecionava discos de vinil, fitas e CD. Fazia minhas próprias trilhas sonoras. Entendo quando Rob fala sobre a importância de se fazer uma fita. Passava horas tentando encontrar a gravação perfeita. Hoje está tudo mais fácil, basta criar uma playlist no Spotify e adicionar a música que quiser. Não há preocupação se o som vai ficar alto, baixo, se o espaço entre uma canção e outra é o mesmo em todas as faixas. Coisas que ficaram para trás. Contudo, a nostalgia veio mesmo pelo fato de eu não mais ter mais a música tão presente na minha vida. Antes eu conhecia todas as bandas do momento (dentro dos ritmos que aprecio). Via todos os videoclipes. Sabia todas as letras e praticava muito inglês acompanhando-as. Hoje, se a música for nova, dificilmente vou identificar quem está tocando, o que é triste.

Quase no fim do livro, Rob é convidado a listar seus cinco álbuns preferidos. Ele sempre sonhou com este momento e na hora H, ficou sem saber o que dizer. Embora eu tenha minhas preferências, também não consegui, naquele momento da leitura, lembrar dos meus favoritos. Mas fiquei com vontade de fazer isso agora. Aqui estão, não necessariamente na ordem. Claro que todos carregam referências dos momentos em que mais foram ouvidos. Ouvindo-os volto no tempo e revivo o que de melhor passei.

Use Your Illusion 1 e 2 – Guns n´Roses
Jagged Little Pill – Alanis Morrisette
Year Of The Cat – Al Stewart
Come Away With – Norah Jones
All That You Can´t Leave Behind – U2 

Para fechar, vi o filme baseado no livro. Se resistirem, não o vejam. Fiquem apenas com o livro. Ele se basta. E tem sotaque britânico ;-)

Trecho que atesta o clima cômico-deprê de Rob:

“Vocês já olharam alguma vez para uma foto de quando eram crianças? Ou fotos de famosos quando eram crianças? Me parece que esse tipo de fotografia é capaz de deixar a gente feliz ou triste. Tem uma foto adorável do Paul McCartney ainda molequinho, e da primeira vez que a vi me fez sentir bem: todo aquele talento, todo aquele dinheiro, todos aqueles anos de um vida doméstica abençoada, um casamento sólido que nem rocha e filhos lindos, e ele ainda não sabia de nada. Mas aí tem outras – JFK e todos os fodidos e desaparecidos do rock, gente que ficou louca, gente que perdeu o rumo, gente que se tornou assassina, que sofreu ou causou sofrimento de inúmeras maneiras – e a vontade é dizer: parem por aí mesmo! Melhor do que isso não fica! Nos últimos anos, minhas fotos de criança, aquelas que eu nunca queria que as antigas namoradas vissem... bom, essas fotografias passaram a provocar certo sentimento – não de infelicidade, exatamente, mas uma espécie de arrependimento profundo e silencioso. Tem uma em que estou de caubói, com um revólver apontado pra câmera, tentando parecer um caubói e não conseguindo, e hoje em dia mal posso olhar pra ela. A Laura achava um doçura (ela usou essa palavra! Doçura, contrário de azedo!) e pregou a foto na cozinha, mas coloquei de volta em alguma gaveta. Fico querendo me desculpar com o molequinho: 'Desculpa, te decepcionei. Era eu a pessoa que devia ter cuidado de você, mas fiz besteira: tomei decisões erradas nas horas erradas, e você se transformou em mim.'”

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