sábado, 21 de junho de 2014

misery

'Misery' (1987), de Stephen King, é a companhia perfeita para um dia nublado ou uma noite fria e chuvosa. O enredo é tenebroso, assim como boa parte da obra desse autor best-seller. Posso dizer que não tivesse ele escrito 'O Iluminado', que tenho que revisitar, eu diria que 'Angústia', como o livro chegou ao Brasil, é uma versão suave de 'Jogos Mortais', aquela série cinematográfica no qual as pessoas vão sendo exterminadas aos poucos, mas com alta dose de crueldade. #sóquenão. Além de nos prender com o suspense que gira em torno do sequestro do escritor Paul Sheldon por sua 'fã número um', Annie Wilkes, o livro nos mostra o processo criativo da escrita. Após sofrer um acidente de carro durante uma nevasca, Paul é resgatado por Annie, que logo reconhece o criador de Misery, protagonista de sua série de livros favorita. Leva-o para sua casa, que fica num local escondido no Colorado. Com as pernas esmagadas, é preso na cama e sua dor só é aliviada com o Novril, analgésico potente criado por King. Rapidamente, ele se vicia na droga, que se torna objeto de chantagem: tem que fazer tudo o que Annie quer para ganhar outro comprimido. E sua situação piora quando sua sequestradora termina de ler o último livro com Misery. Lá Paul mata a heroína e enfurece sua fã. Corpulenta, ela espanca o escritor sem se importar que seu corpo já esteja despedaçado. E esse é apenas o começo das agressões físicas e psicológicas que vai sofrer. Daí para frente teremos machado, serra elétrica, cortador de grama, churrasqueira e até espumante. A narrativa é tão viva que sentimos dor junto com ele. Contudo, o pior momento é quando a psicopata, nota máxima no quesito maldade, o faz queimar os manuscritos de seu novo livro que, claro, não traz Misery. Detalhe, eram os originais sem nenhuma outra cópia. E sob a mira do olhar enfurecido de sua algoz, o escritor é obrigado a escrever outro livro, que trará Misery de volta. O que ele não contava é que, mesmo naquele cenário macabro, iria se envolver com a história. Arriscando uma interpretação, eu diria que Annie representa o sofrimento necessário para que uma obra surja. "Para ser um escritor é preciso ter um pouco de talento, mas o único pré-requisito de verdade é a capacidade de lembrar a história de cada cicatriz", diz Paul ao divagar sobre seu ofício, os bloqueios, a êxtase quando a ideia nasce e a euforia com que vai colocando tudo no papel. 'Misery' vale pelo terror, para quem gosta, porém, vale muito mais pela aula que Stephen King nos dá sobre sua forma de conceber os textos. Fica aqui a principal dica: "a preguiça é a mãe de todos os vícios". E seguindo o destino dos best-sellers do autor, o livro foi para o cinema, em 1990, com o título 'Louca obsessão'.

Trecho

“Saíra para comprar um videocassete e voltara para casa com algo muito melhor. Ele tivera uma IDEIA! Tentar TER UMA IDEIA não era um processo tão nobre nem tão sublime — embora fosse tão misterioso e necessário — quanto o outro. Quando se está escrevendo um livro, quase sempre aparece um bloqueio em alguma parte, e não adianta querer ir adiante, a não ser que se tenha uma IDEIA. Quando precisava de alguma IDEIA, Paul geralmente vestia um casaco e saía para um passeio. Para ele, caminhar era um ótimo exercício, embora fosse também tedioso. Se não tivesse que sair em busca de uma IDEIA, Paul levava um livro. Quando não havia com quem conversar durante o passeio, o livro tornava-se uma necessidade. Mas quando era realmente preciso TER UMA IDEIA, o tédio estava para o bloqueio na história como a quimioterapia está para um sujeito canceroso.”

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