domingo, 26 de janeiro de 2014

o lado bom da vida




Ao ler o best-seller de Matthew Quick, que inspirou filme ganhador de Oscar, lembrei-me de ‘Forrest Gump’ e o famoso “Run, Forrest, run”. Tal e qual Forrest, Pat Peoples, o protagonista desse romance, gosta de sair em disparada quando bate o desespero, mesmo que esteja em ‘trajes sociais’. Outra semelhança é a inocência com que comenta situações cotidianas, a expectativa em relação às pessoas e a rotina metódica que estabelece.
 
Eu vim de outro livro do autor, “Perdão, Leonard Peacock”, que também traz um personagem que parece viver numa realidade paralela à nossa. Leonard está completando 18 anos. Mas ninguém se lembra ou mesmo sabe o que a data significa. Desiludido com o futuro e com as pessoas, decide matar seu ex-melhor amigo e suicidar-se na sequência. Mas ele é facilmente esquecido (coitado) diante de Pat, de “O lado bom da vida”, que no original é a simpática expressão ‘Silver linings playbook’, parecida com o título em português. Playbook remete ainda às estratégias utilizadas no futebol norte-americano, exaustivamente mencionado no livro. Lá, os personagens são fanáticos torcedores do Eagles, equipe da Filadélfia. Foi bom para me infiltrar neste universo que culmina com o famoso Super Bowl.
 
O livro se apresenta como o diário de Pat. Ele foi internado numa clínica psiquiátrica e parece ter a tendência a ser ‘esquentando’. Depois de quatro anos, recebe alta com a condição de continuar sua terapia. Grande parte deste período, porém, é apagada de sua mente. Para ele, a internação não durou mais que alguns meses. E é com surpresa que observa o quanto sua rua mudou, como seu irmão conseguiu comprar um carro bacana e, sobretudo, os novos jogadores do seu Eagles. Pela sua narrativa, nós percebemos o que aconteceu, mas ele não. Vai dizendo tudo isso como se os outros estivessem blefando. A resistência em aceitar que esteve tanto tempo no ‘lugar ruim’, como chama a clínica, está relacionada à ex-mulher e ao que aconteceu entre eles. Tudo o que faz é para terminar com o ‘tempo separados’, que deixo para o leitor descobrir o que significa. Para tanto, ele precisa praticar ‘ser gentil’ e perder suas gorduras. Hilários os momentos em que nos narra sua rotina de treinos, que inclui centenas de flexões, abdominais e corridas diárias de 17 quilômetros vestindo sacos de lixo, segundo ele, para queimar mais rapidamente os quilos.
 
No meio de tudo, conhece Tiffany, que tem depressão desde a morte do marido, e que passa a ser sua companhia silenciosa nas corridas. Torna-se ainda sua confidente, o ajuda a trocar algumas cartas (Quick gosta de incentivar a escrita de missivas, Leonard também tinha as suas), e consegue fazer com ele seja seu par no concurso de dança que almeja, o que nos rende deliciosa montagem dos treinos. Seus inimigos: coceira na cicatriz no rosto quando começa a ficar nervoso e Kenny G. Esse último pode ter efeitos mortais. Às vezes, a vida é difícil mesmo de ser encarada e a leitura de livros como esse nos ajuda a levar os problemas de forma mais divertida. “Então eu me levanto e começo a correr.”
 
Pat e Tiffany na versão cinematográfica

Trechos

“Para que pessoas diferentes se entendam bem, basta o interesse comum por um time e algumas cervejas.”
 
“Estou praticando ser gentil em vez de ter razão, coisa que aprendi na terapia.”
 
“Fecho meus olhos, murmuro uma única nota e, silenciosamente, conto até dez, esvaziando minha mente.”
 
“Vou lhe dizer o mesmo que digo para meus alunos quando se queixam sobre a natureza deprimente da literatura americana: a vida não é um filme de censura livre para fazer com que a pessoa se sinta bem. Muitas vezes a vida acaba mal... E a literatura tenta documentar essa realidade, mostrando-nos que ainda é possível suportá-la com nobreza.”
 
“A possibilidade dos milagres acontecerem é o que faz um monte de pessoas seguir em frente.”
 

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