domingo, 21 de abril de 2013

a vida privada das árvores

'A vida privada das árvores' é o segundo romance do chileno Alejandro Zambra. Escrito em 2007, somente agora chegou ao Brasil, em uma bela edição da Cosac Naify.

O livro conversa com a obra anterior do autor, 'Bonzai'. Personagens e histórias que se misturam e nos confundem. Aqui temos Julián. Em 'Bonzai' era Julio. Julián foi um erro do escrivão que não quis entender o nome que lhe foi ditado. E assim ficou.

O narrador avisa que o romance só terá fim quando Verónica chegar - ou quando Julián tiver a certeza de que isso não vai mais acontecer. É ela quem Julián espera enquanto tenta entreter a enteada Daniela. Para tanto, conta a história que criou sobre duas árvores amigas. Em determinado trecho a menina dorme e ele revisita sua própria vida, os momentos com os pais, o relacionamento anterior, vazio e indiferente, e os bolos de três leites que o levaram até o casamento com Verónica e ao papel de padastro.

Como Julio, Julián também quer ser escritor. É incapaz de se mover diante de situações inesperadas, prefere horas de estagnação a ter que agir. Às vezes prefere imaginar o que poderia acontecer. Nesses momentos sua hipotética ação mistura-se com seu texto inacabado. Verónica está tendo aula de desenho. Mas há muito tempo já era para estar em casa. Ela demora. Ele divaga. A garota dorme e o futuro chega. Cabe a nós, leitores, separmos a ficção da suposta realidade desse intrigante e suscinto romance. E dar-lhe o fim que desejamos.

Trechos

"Os protagonistas são um álamo e um baobá que de noite, quando ninguém está vendo, conversam sobre fotossíntese, esquilos, ou sobre as numerosas vantagens de serem árvores e não pessoas ou animais ou, como eles dizem, estúpidos pedaços de cimento."

"Julián não queria recuperar o amor, pois deixara de amá-la havia muito tempo. Deixara de amá-la um segundo antes de começar a amá-la. Soa estranho, mas é assim que ele sente: em vez de amar Karla, ele amara a possibilidade do amor, e depois a iminência do amor."

"Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma."

"Não vai recordar nenhuma história que dê sentido a seu presente, ao passado, ao futuro. Não quer se enganar. Sua vida não mudou: não sabe mais, não sabe menos. Não sente mais, não sente menos."

"A gente nunca está contente com o que é. Seria estranho estar totalmente contente."

2 comentários:

  1. Mais uma vez Katia gostei da sua sugestão. Será mais um livro p/minha lista.

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