quinta-feira, 7 de junho de 2012

bonsai

O que esperar de um livro que começa assim: “no final ela morre e ele fica sozinho”?

Pois esperem muito. “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra, eleito pela revista britânica Granta um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americados, é para ser lido sem intervalos. Com um pé na poesia, seu texto passa por nossos olhos e vai direto para a alma. Difícil evitar comparações com nossa experiência em alguns momentos. Difícil não imaginar exatamente as cenas que ele descreve. Difícil não se deixar envolver pelos personagens.

O livro é pequeno, quase um conto. Não há travessões ou aspas para os diálogos. As conversas surgem e se confundem com os pensamentos, como já fazia Saramago. Claro que com outro estilo e outra proposta. “Bonsai” conta o começo, o meio e o fim de um caso de amor. Ou melhor, conta mais ou menos fim, mais ou menos o começo e muito do meio, que foram os momentos mais intensos e repletos de leituras na cama. Julio e Emília nutriam esse hábito intelectual: buscavam nos livros a inspiração para aquecer o romance e a noite.

Mas um conto do argentino Macedônio Fernández vai afetá-los profundamente. Não fica evidente o que acontece depois, assim como todo o resto parece ficar no ar. A vida não é assim, afinal? A dúvida sempre nos persegue e nos instiga a usar ainda mais a imaginação. Já dizia Nietzsche em “Além do Bem e do Mal”: “toda credibilidade, toda boa consciência, toda evidência de verdade vêm apenas dos sentidos.” Fiquemos, então, com os sentidos para fantasiar as coisas que não foram ditas pelo narrador onisciente, porém, omisso.

Emília disse a uma amiga que criticava o casal: “qual o sentido de ficar com alguém se essa pessoa não muda a sua vida?” Eu digo: “qual o sentido de um livro se ele não muda a nossa vida?” E o bonsai? Bem, possivelmente seja a miniatura das intenções em movimento.

“Leram 'O livro de Monelle', de Marcel Schwob, e 'O pavilhão dourado', de Yukio Mishima, que foram razoáveis fontes de inspiração erótica para eles. Mas logo as leituras se diversificaram a olhos vistos: leram 'Um homem que dorme' e 'As coisas', de Perec, vários contos de Onetti e de Raymond Carver, poemas de Ted Hughes, de Tomas Tranströmer, de Armando Uribe e de Kurt Folch. Até fragmentos de Nietzsche e de Émile Cioran eles leram.”


Um comentário:

  1. A cada livro que lemos nos sentimos modificados, transformados, e algumas vezes transtornados, um livro assim como "aquela" musica, pode ter um infinito poder sobre os nossos sentidos. Belo post, mais uma vez parabens!!! Abraço terno. Aline Marques

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