domingo, 30 de dezembro de 2012

nihonjin

Hideo Inabata veio ao Brasil incentivado pelo imperador, que dizia que os japoneses deveriam prosperar em terras estrangeiras, retornando depois ao Japão. Assim, Inabatasan desembarcou em Santos por volta de 1920. Veio com Kimie, sua frágil esposa, e Jintaro, um amigo. "O governo brasileiro exigia pelo menos três enxadas em cada família." Como não tinham parentes dispostos a se unirem a eles na empreitada, arrumaram um agregado.

Ainda no navio, Hideo tinha os olhos fixos no Nihon, ao qual voltaria tão logo conseguisse bastante dinheiro por aqui. "Teria uma loja de utensílios domésticos em Tóquio ou Osaka, já que o Japão estava se industrializando, fabricando peças em série, e precisava de comércio para vendê-las. Teria três ou quatro funcionários, quem sabe meia dúzia. Seria patrão."

Mas o sol escaldante do interior de São Paulo e as lavouras de café foram, aos poucos, apagando o brilho do olhar e esgotando esse sonho. Também foram responsáveis pela morte de Kimichan, que durante o inverno ficava à janela esperando pela neve, que nunca veio. Assim como não vieram os promissores anos tão aguardados. Sem nunca desistir de ser nihonjin, Hideo casa-se novamente. Tem seis filhos. E é por meio de um de seus netos que as fotografias amareladas são resgatadas e ganham legendas que vão nos emocionar. Orgulho, amor ao distante Nihon, incompreensão de uns e respeito à família estão juntos na saga dos japoneses que em 2008 comemoraram cem anos no Brasil.

Terminei de ler 'Nihonjin' com a sensação de já ter ouvido relatos parecidos na minha infância. Talvez não da forma poética colocada por Oscar Nakasato, que por essa obra venceu o Jabuti 2012. Também sou neta de imigrantes japoneses, assim como o narrador que dá vozes e rostos aos personagens nesse nostálgico livro. Ótima leitura para fechar o ano e relembrar coisas e outras da família do lado japonês. E que encantaram meu pai, gaijin que se casou minha mãe. Ojiichan Hideo até que poderia ter sido mais flexível em relação aos não-japoneses. Contudo, não devemos julgar a espera alheia. Akemashite omedetou gozaimasu.

"Levantou-se, caminhou até a porta da sala e abriu. A neve cobria a terra. Saiu, correu até o cafezal, correu entre os pés de café, sentindo a neve cair sobre sua cabeça, sobre os seus ombros. Correu durante muito tempo, estrela do espetáculo, abrindo os braços, ela, que sempre preferia ficar na janela. Finalmente, quando se cansou, sentou-se na terra fria. A morte chegou lentamente. Há quanto tempo morria? Tranquila, congelada pela neve, congelada pelo sol."


2 comentários:

  1. Com certeza uma ótima leitura para mergulhar um pouquinho na história japonesa!

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  2. Interessante,

    deu vontade de ler inteiro.

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