domingo, 16 de dezembro de 2012

1q84

O primeiro volume de '1Q84', do escritor japonês Haruki Murakami, deixou-me ansiosa para ler logo os outros dois livros que compõem essa deliciosa trilogia. Nos EUA, a obra foi lançada num único volume. No Reino Unido em dois. O Brasil acompanhou o Japão e a tradução será em três partes. Quase mil páginas ao todo.

Aomame e Tengo são os protagonistas. Ambos vivem em Tóquio e tiveram traumas parecidos na infância. Enquanto ele tinha que sair com o pai para fazer cobranças de porta em porta para a rede de TV NHK, ela acompanhava a mãe na tentativa de conseguir mais fiéis para as Testemunhas de Jeová. Aomame é professora de artes marciais. De vez em quando, mata homens que agridem mulheres utilizando técnica bem específica. Sem sangue, sem marcas. Tengo dá aulas de matemática, aspira publicar um romance, namora uma mulher casada e leva a vida, propositalmente, sem emoções. Sofre com a lembrança de quando tinha pouco mais de um ano - verídica ou construída? - da sua mãe com outro homem que não era seu pai. Terá a vida alterada com a proposta de reescrever o romance de Fukaeri, adolescente de 17 anos que insiste na existência do Povo Pequenino.

O livro começa com Aomame no taxi ouvindo a bela Sinfonietta do tcheco Janáček, composta em 1926. Ela está atrasada e um acidente paraliza o trânsito. Sem alternativa, aceita a sugestão do taxista e pega o atalho inusitado para chegar até a próxima estação de trem.

Estamos em 1984. O 'Q' do título é uma 'question mark', pode até ter tido origem na brincadeira com o número nove em japonês, que se pronuncia 'kyu', da mesma forma que a letra 'Q' em inglês. Além, é claro, da referência ao livro de George Orwell. Mas na verdade é a tentativa da protagonista de se situar no mundo, já que ela anda perdendo algumas passagens da história. Lapsos de memória ou realmente está a viver num mundo paralelo com duas luas?

O narrador onisciente, em liguagem quase que onírica, ora nos conta os passos e devaneios de Aomame, ora os de Tengo. Tudo com muito ritmo e ótimas referências musicais, históricas e literárias. Num trocadilho bobo com o hobby do escritor - corridas de longa distância -vale a pena encarar esse percurso.

Trechos

"Tirou um livro da bolsa e começou a ler. Era um livro sobre a estrada de ferrom da Manchúria, da década de trinta. Um ano após o término da Guerra Russo-Japonesa, os russos foram obrigados a ceder aos japoneses o direito de exploração da ferrovia (Companhia Ferroviária do Sul da Manchúria), cuja extensão foi rapidamente ampliada para se tornar o posto avançado do império japonês durante a ocupação da China. Situação esta que seria desmantelada em 1945 pelo exército russo. Até o início da Guerra Russo-Alemã, em 1941, o trajeto Shimonoseki-Paris podia ser feito em treze dias, utilizando-se a conexão das redes ferroviárias da Manchúria e da Sibéria."

"Fukaeri novamente se calou. No entanto, desta vez, o silêncio não era intencional. Ela simplesmente não conseguia entender o motivo da pergunta e, tampouco, o pensamento que a havia motivado. A pergunta de Tengo não tinha eco em sua consciência e, por isso, fora sugada pelo nada e se perdia para sempre, além das fronteiras do consciente, como um solitário foguete a passar direto pela órbita de Plutão."

"A diferença entre os dois mundos aumentaria gradativamente e, dependendo da situacão, faria com que suas ações deixassem de ser coerentes, conduzindo-a a um erro fatal. E isso poderia literalmente levá-la à morte."


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