quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

a espuma dos dias

 
“Queria estar apaixonado – disse Colin. – Você queria estar apaixonado. Ele queria idem (estar apaixonado). Nós, vós, queríamos, queríeis estar. Eles queriam igualmente se apaixonar...”

Passado o estranhamento inicial, sobretudo com enguias saindo das torneiras do banheiro, atravessando abacaxis e indo direto para o prato, “A espuma dos dias”, de Boris Vian é bem delicado. Mas por causa das enguias (sim, fiquei tocada com a crueldade), abandonei a leitura por meses. Felizmente, a retomei. Pelo absurdo dos diálogos e das atitudes dos personagens, resolvi dar uma trilha sonora para ele: Amy Winehouse. Até que combinou. Se bem que agora vou mais de Björk.

Partindo de imagens surreais, o autor nos conta a história de amor de Colin e Chloé. Colin é jovem e rico. Não sabemos detalhes sobre sua fortuna. Ele não trabalha e apenas curte a vida e os pratos que seu novo cozinheiro, Nicolas, faz. Também se entretém com as parafernálias que cria, como o pianococktail, piano que faz coquetéis conforme a música que a pessoa toca. Bem interessante, diga-se de passagem. Tem ainda outra que adorei: na mesa, basta apertar um botão e as louças sujas desaparecerem por um cano.

Seu bicho de estimação é um camundongo que, do seu jeito, fala com as pessoas. Ele interage o tempo inteiro com os personagens e é muito querido por todos. Além dele, outros animais têm participação, como coelhos que comem cenouras de ferro e fazem coco metálicos que são remédios. Gosto, particularmente, dessa afirmação: “os tubarões são mais atacados pelos homens do que os homens pelos tubarões...”

Entre os momentos inusitados, uma mulher está na pista de esqui e, após a manobra da águia, bota um ovo. Nessa mesma pista, pessoas morrem a todo momento e são retiradas com rodos gigantes. Mortes coletivas parecem não comover os personagens. É como se algum objeto tivesse quebrado, apenas, o que não foge muito da realidade, se pensarmos bem. Mas quando a morte é de alguém próximo a percepção é diferente.

O livro foi escrito em 1947 e se passa em Paris. O melhor amigo de Colin é o engenheiro Chick, aficionado por Jean Sol Partre, sátira ao filósofo Jean-Paul Sartre. Dele, Chick adquire absolutamente tudo, desde livros – em suas diferentes edições –, revistas com seus artigos, roupas supostamente usadas por ele. O engraçado é que Partre vomita as informações, literalmente. “Partre tinha se levantado e apresentava ao público amostras de vômito empalhado. O mais bonito, de maçã crua e vinho tinto, obteve um franco sucesso.” Alguém diz que ele fica batendo papo com os amigos e que extrai um trecho aqui, outro ali para suas publicações. Pouca parte é o que ele realmente pensa.

Determinado dia, Chick aparece para almoçar e conta que está namorando. Colin decide que também está na hora de se apaixonar. Juntos vão para uma festa e ele conhece Chloé. Na mesma hora decide que a moça será sua esposa. Casam-se numa cerimônia para lá de absurda, com padres caindo de paraquedas. Na lua de mel, ela adoece. Uma espécie de flor cresce em um de seus pulmões. Câncer? Não fica explícito. A doença, contudo, a consome e somente outras flores podem ajudar no tratamento. Resultado: todo o dinheiro de Colin vai para as floriculturas e ele tem que trabalhar. Há toda uma discussão em torno da utilidade do trabalho. Em paralelo, acompanhamos o romance de Chick e Alise e o de Nicolas com Isis.

Cena do filme de 2010
Aparentemente, a história pode parecer absurda. Todavia, parecem representar o que estamos sentimos. Por exemplo, quando estão felizes, tudo é claro, amplo, colorido, eles vão para as nuvens, e é exatamente essa a representação que temos no texto. Quando a coisa não está bem, os ambientes em que estão encolhem, tudo fica escuro, insuportável, sujo. Até o ratinho se desespera e entra na faxina, coitado! Principalmente na primeira parte do livro, para mim foi inevitável não associar o que estava lendo com o filme “2001 – uma odisseia no espaço”. Pelo ar retrô, pelas situações bizarras.

Assisti ao filme baseado no livro tão logo terminei a última linha. Tanto que agora as imagens se confundem na minha cabeça. A adaptação, guardada as restrições inerentes à escrita, foi bem fiel. Apenas o fim do livro, que lembrou Tom & Jerry, não aparece. O cinema deu outro fechamento, também bonito. Ainda assim, fico com a obra literária.

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