quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

o apanhador no campo de centeio

Adiei consideravelmente a leitura de 'O apanhador no campo de centeio' (The catch in the rye). Confesso que não gosto muito de ler sobre adolescentes rebeldes que só querem curtir a vida. Talvez seja reflexo de 'On the road', de Jack Kerouac, livro que conseguiu me irritar. Mas fiquei surpresa quando comecei a ler a obra, considerada uma das melhores da língua inglesa, de J. D. Salinger. O texto é delicioso. Desabafos de um jovem, perdido, sim, mas que realmente tem anseios, tem sonhos, tem personalidade forte. Não quer apenas levar a vida por levá-la, ao contrário do chato Dear Moriarty. Pela idade, porém, ainda não sabe exatamente como ‘chegar lá’. Holden Caulfield tem dezessete anos e problemas de comportamento. Não que seja um transgressor, mas não se importa muito com os estudos. A única disciplina que se dá bem é Inglês. A narrativa, em primeira pessoa, é a retrospectiva do fim de semana, às vésperas do Natal, que antecede o seu confronto com os pais, após ser expulso de mais uma escola. Divaga sobre colegas de turma, professores e tudo o que neles o irrita. E decide ir embora antes de todos. Pega um trem para Nova York, sua cidade, e hospeda-se num hotel barato e fica, literalmente, ‘de bar em bar’. Marca encontro com ex-namorada, amigos antigos e faz até uma visita secreta à irmã mais nova, sua maior fonte de inspiração. A conversa entre eles e, mais tarde, o passeio que os dois fazem juntos, são as passagens que mais me marcaram. “She kills me”, ele repete, orgulhoso e constantemente, a cada gesto inteligente dela. Vale lembrar que ele é de família abastada e alimenta a dor pelo irmão que morreu ainda criança.

Recomendo a leitura no original, em inglês. Lembre-se que o livro é contado por um adolescente, então, está cheio de gírias e expressões da época em que foi escrito, fim da década de quarenta. Mas uma coisa é atemporal: a repetição. Na falta de vocabulário ou mesmo movidos pelas ansiedade, os jovens (e alguns adultos) tendem a utilizar a mesma palavra constantemente. Salinger soube transferir isso para a literatura de forma bem agradável. Morri de rir com alguns trechos. Mas fiquei com a dúvida que atormentou o rapaz durante a narrativa, e para a qual não teve resposta: ‘para onde vão os patos que habitam o lago do Central Park, afinal, quando ele congela?’ Isto já foi até objeto de estudos acadêmicos, identificado como um dos símbolos presentes no livro: pode representar o ciclo da vida ou mesmo o espírito infantil que quer se esconder num velho ranzinza. Enfim, interpretações. E, a respeito do título, a forma com que Holden coloca seu desejo de ser um apanhador no campo de centeio, faz com que esse sonho também seja meu. O que mais me entusiasmou foi ver que realmente não existe este lance de gerações x, y, z ou o que for. O livro é considerado um dos primeiros a trazer a visão do adolescente. Por ele, vemos que quase nada mudou de lá para cá. Existe a vontade de se destacar no grupo, a vontade de querer ser diferente e ao mesmo tempo igual, o isolamento, o querer ‘aqui e agora’, as paqueras, a rebeldia, evidentemente. Enfim, não há diferença. Há jovens. E onde há jovens, há sonhos.
Leiam. Leiam.


Trechos

“When you're dead, they really fix you up. I hope to hell when I do die somebody has sense enough to just dump me in the river or something. Anything except sticking me in a goddam cemetery. People coming and putting a bunch of flowers on your stomach on Sunday, and all that crap. Who wants flowers when you're dead? Nobody.”

“Grand. There's a word I really hate. It's a phony. I could puke every time I hear it.”

“Where do the ducks go in the winter?”

“Boy, did he depress me! I don't mean he was a bad guy- he wasn't. But you don't have to be bad guy to depress somebody- you can be a good guy and do it.”

“I told her I loved her and all. It was a lie, of course, but the thing is, I meant it when I said it. I'm crazy. I swear to God I am.”

Vários textos sobre os patos podem ser encontrados na internet.
Aqui, um deles, e com foto.  E não é que os patos estão lá, mesmo no inverno.
Se bem que o lago ainda não está completamente congelado ;-)

5 comentários:

  1. (escrevendo de teclado desconfigurado, como sempre)

    Um habito de adolescente que eu acho que ficou bem retratado nesse livro foi o de tentar produzir razoes elaboradas para justificar preguica, ou medo de fazer algo. O personagem se mete a filosofar sempre que esta diante de um esforco minimo que precisa ser feito, ou de um sermao que precisa ouvir. Mais de uma vez ele passa perto de um conselho sabio e foge, alegando esse ou aquele motivo.

    Achei esse um livro precioso principalmente porque ele da a sensacao de termos entrado na cabeca de um adolescente assim. E como se de repente pudessemos ouvir os pensamentos por tras das atitudes e acoes irritantes de jovens. E fiquei com uma desesperanca tremenda sobre o que pode ser feito para lidar com gente assim.

    Resumindo: eu gostei muito do livro. Mas detestei o personagem. Voce parece ter dado um credito para ele. Eu acho que eu nao daria! (rs).

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  2. Pergunta: quando voce le o livro no Kindle, voce tambem compra uma copia fisica?

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    1. Verdade! Realmente dei crédito ao protagonista. Entendo que ele tem características de todo adolescente moroso, mas o que gostei foi o questionamento que faz sobre certas convenções da vida: como ter um carro bacana, ter o hobby que todos os bem-sucedidos têm etc. Pena que a preguiça sempre fale mais alto. Enfim, no começo da leitura imaginei que viria todo aquele blablabla de adolescente chato, mas me surpreendi com o garoto. Mesmo.

      Em relação aos livros, estou fazendo o contrário. Agora estou com a mania de adquirir o ebook do título impresso que estou lendo. Isso por ser mais fácil de ler à noite e também durante o almoço ou um café :-)

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    2. E-book sempre a mao para o caso de sobrar um tempo aqui e ali!

      Sobre os questionamentos do protagonista: quando ele questiona o ter um carro bacana... sera que ele realmente despreza o carro bacana, ou esta fingindo desdenhar o que na verdade deseja? Se o carro bacana nao custasse o esforco que ele nao quer fazer, sera que ele nao compraria um?

      Acho que pode ser uma das duas. Como eu achei o personagem um preguicoso, e impliquei com ele, vou ficar com a segunda possibilidade. :-D

      Mais um motivo, na minha opiniao, para se admirar o livro. Como e narrado pelo protagonista, eu ficava com essa sensacao de que eu estava ouvindo um adolescente se justificando o tempo inteiro, volta e meia com desculpas esfarrapadas, tentando me enganar. Se metendo a filosofar sempre que aparecia um aspecto pratico e simples de ser enfrentado. Fiquei sempre desconfiando dele.

      Que fantastico um autor conseguir criar um personagem tao bem definido, vivo.

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    3. Sim, o personagem é muito bem construído. Agora que falou, sabe que cheguei a ouvir os pensamentos dos adolescentes quando dão desculpas até para não tomar banho. Tem razão :-)

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