domingo, 9 de março de 2014

noturno indiano


Capa de uma das edições portuguesas

"Noturno indiano" é uma das belas surpresas da literatura. Em pouco menos de cem páginas, o italiano Antonio Tabucchi nos leva a um inusitado passeio pela Índia. O itinerário começa na tumultuada Bombaim (ou Mumbai) e termina no litoral de Goa, região colonizada por portugueses, o que permite citações de Fernando Pessoa (Tabucchi foi crítico e tradutor do poeta). Passa por ruas sujas, por hospital cheio de corpos inertes, estações de trem, ônibus e pelo suntuoso hotel Taj Mahal, descrito como uma cidade dentro da cidade. Esta é a primeira vez que nosso protagonista faz tal viagem. Como referência, tem apenas um guia de sobrevivência (a travel survival kit), que lhe permite saber que está sendo enganado pelo motorista de táxi ou descobrir curiosidades sobre os locais que visita. O que seria normal se o guia não desse as respostas que ele já sabe e no momento em que as espera. Tudo muito sincronizado, como no sonho em que estamos aqui e ali ao mesmo tempo. 

Logo no início o autor diz que o livro (ou conto) é insônia e viagem. "A insônia pertence a quem escreveu o livro, a viagem a quem a fez." Durante a jornada, que tem o pretexto de encontrar Xavier, amigo português perdido, o insone viajante - que não é nominado - segue os rastros deixados por prostitutas, grupos secretos e cartas de vinho. E ao longo do percurso vai cruzando com diversos personagens, também perdidos em seus devaneios, como o ex-carteiro que manda postais da Índia para toda a lista telefônica da Filadélfia e o menino cuja deformidade faz com que seja confundido com um animal e tido como profeta. A busca segue, mas não se encerra. "Mas ele está contente com o fato de você o procurar?", alguém pergunta. "Sou alguém que não quer se deixar encontrar", responde em outra cena. Quem está a buscar quem? O texto remete ao duplo. À alteridade. À loucura silenciosa que assombra a todos. Como diria o menino disforme, somos 'outros'. Aqui está somente nossa aparência, o maya. O atma, a alma está distante. Talvez em um barco. Talvez em um luxuoso hotel. Talvez querendo ser esquecida em uma viela suja e sinuosa. "Desconfie dos trechos escolhidos", eles podem nos levar ao que há de mais falso na realidade. Ganhou versão para as telas em 1989 e várias dissertações.

"A realidade passada é sempre menos má do que foi efetivamente: a memória é uma formidável falsária. Certas contaminações são feitas, mesmo sem querer."

A versão que eu li

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