quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

no meio de indianos, brasileira eu não sou

Quietinha. Do jeito que mandaram ela ficar. Lá estava Mariana Botega no setor VIP do estádio Salt Lake, em Calcutá, Índia. Final do Torneio IFA Shield, no qual o Palmeiras enfrentaria uma equipe indiana. Nas mãos, uma dúzia de câmeras que traziam o recado "filma tudo". O que não imaginava é que registraria muito mais que uma partida de futebol. Estava a pouco mais de trinta minutos de uma confusão capaz de tirar Mahatma Gandhi do sério.

A aventura havia começado cinco meses antes. Inscrita num programa de estágio internacional, Mariana embarcou para a Índia. Com 22 anos, tinha acabado de concluir o curso de jornalismo. A oportunidade de trabalhar num país distante era um sonho do qual não abriria mão. E lá foi ela. Visto de estudante. Escala de um dia na África do Sul. E uma vaga de seis meses na ONG indiana Emmanuel Ministries Calcutta.

Ao chegar, o choque foi intenso. Comida. Roupa. Língua. Cultura. Mas nada que um jeitinho brasileiro não resolvesse. "Me infiltrei na cultura, na multidão". Após cinco meses longe de casa, quase não tinha contato com o Brasil. A exceção era a mãe, que ainda não acreditava que a filha estava na distante Índia. Já estava tropeçando no português quando uma amiga da Romênia, que trabalhava num hotel, disse:

- Tem um time de futebol do Brasil no hotel.

- Nossa! Que legal!

- É um tal de Polmero, Polmaro.

- Palmeiras?!?!

- Isso mesmo!

- Ai, meu Deus! Eu sou palmeirense. Não acredito! Meu time aqui!

- Já falei sobre você para eles...

Não precisou ouvir a frase toda. Quando se deu conta, já estava no lobby do hotel.  "Assim que cheguei vi uma galera e fui logo me apresentando. Conheci todo mundo. Fiquei amiga da comissão técnica, dos jogadores". O time era o Palmeiras-B, convidado a participar do Torneio IFA Shield, um dos mais tradicionais da Índia, e que já estava em sua 107ª edição. Após cumprir toda a tabela do campeonato, o "verdinho" estava na final.

"A equipe vai receber as boas vindas do governo de Calcutá", informaram. "Vamos?" "Claro!" No dia seguinte, Mariana voltou ao hotel, de onde sairia um ônibus levando a comitiva. Enquanto se dirigiam ao local do evento, a garota observava o movimento na rua. O veículo escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. E uma multidão acompanhando o trajeto. Estava fascinada.

Ao descer do ônibus, fechou os olhos diante dos flashes. Microfones. Imprensa. Gritos. Os palmeirenses distribuindo autógrafos. Poses para fotos. Acenos. Logo descobriu o quanto o futebol brasileiro é venerado no país que tem o críquete como principal esporte. Única mulher no meio dos jogadores, atraiu a atenção das pessoas. "Pensavam que eu era esposa ou namorada de um dos jogadores. Uma celebridade." Mãos empurravam papéis e canetas em sua direção. Queriam seu autógrafo também. "Gente, o que eu faço?" Alguém gritou, "escreve aí qualquer coisa". Agradecendo aos "fãs na maior cara-de-pau", pegou os papéis e registrou "Beijos, Mariana". Sempre sorrindo para as câmeras.

Por cinco dias a brasileira do interior de São Paulo fez parte do time. "Eles ficaram com pena de mim. Ali, sozinha". Então me convidavam para jantar. Hospedados no Hindusthan International, hotel cinco estrelas, os jogadores trouxeram um cozinheiro do Brasil. "Foi muito bom comer feijão depois de tanto tempo".

"Chegou o dia da grande final". O time adversário é o indiano East Bengal. "Você vai com a gente". Já estava pronta. Tinha, literalmente, vestido a camisa do time, presente que acabara de receber. Entrou no ônibus. Mais uma vez escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. Multidão. No estádio, foi conduzida para uma arquibancada, ainda vazia, que logo identificou como sendo a ala VIP. "Você fica sentadinha aqui", alertaram. Jogadores atiraram em suas mãos várias câmeras. "Vai filmando". Aos poucos, outras "celebridades" foram chegando. Jogadores da África do Sul, de Bangladesh e, para sua surpresa, um amigo. Indiano fanático pelo futebol canarinho que, não se sabe como, também conseguiu um convite VIP.

O jogo começa. "Eu filmava. Tirava foto. Um pouquinho em cada câmera. Meu amigo ajudava". No campo, os palmeirenses marcam o primeiro gol. O jogo continua. Falta cometida por um brasileiro. Ferve o sangue indiano. Os jogadores "se estranham". A pancadaria começa. Da arquibancada, uma assustada Mariana olha a cena sem entender o que esta acontecendo. "Não dava para acompanhar tudo. Só sei que o pessoal levantou do banco e começou a brigar também". Técnicos. Banda de música. Polícia. Todos no campo. Jogadores palmeirenses correm para não apanhar. A torcida grita. Agitada. Xingando. O jogo é interrompido. 36 minutos do primeiro tempo.

Uma das poucas mulheres no estádio, e branca, não demorou para que sua presença fosse notada. "Estava muito nervosa. Senti que eles viriam em minha direção". Sem pensar, ela segurou no braço de um rapaz que estava sentado ao seu lado. "Pelo amor de Deus, me ajude". O amigo indiano, com um ar irônico, alertou "esse cara é de um time de Bangladesh. Brigou com o Brasil na semana passada durante uma partida". Pronto. Pane total. Trêmula, ela assistia a torcida gritando cada vez mais alto. Centenas de homens com os olhos arregalados. As mãos dando murros no ar. "A única coisa que pensei foi em tirar a camiseta do Palmeiras". Os torcedores começaram a caminhar rumo à ala VIP. Gritavam em hindi. Suavam enfurecidos. "Nunca passei tanto medo". Os olhos de Mariana iam de um lado para o outro a procura de alguém do time. Ninguém. "Volta para o lugar de onde você veio! Volta para o lugar de onde você veio!", ouvia em inglês. "O que eu faço?", gaguejou para o amigo, que continuava filmando. Neste momento, a polícia aproximou-se. Foi, finalmente, conduzida por um corredor cercado de grades até o vestiário. E o amigo atrás. No meio da confusão, o técnico lembrou da menina que estava sozinha e pediu que a polícia fosse ao seu socorro. Ao vê-la escoltada, alguns indianos se desculparam "a gente pensou que você fosse brasileira". "Eu? Brasileira? Imagina!"

No vestiário viu os jogadores sangrando. Revoltados. Parecendo não se dar conta da confusão, o amigo indiano não parava de insistir "pega um autografo para mim". "Ah, eu não posso, não posso...", respondia uma fraca e pálida Mariana. Mesmo com várias lesões pelos corpos, o time ensaiou um pagode. Precisavam esperar até que o estádio estivesse vazio. Duas horas depois, quando estava tudo "limpo", saíram. De cabeça baixa. Em silêncio. Fila indiana até entrar no ônibus. Agachados durante o percurso até o hotel. Do lado de fora, um batalhão de homens garantia a segurança.

No hotel, um jantar aguardava a comitiva verde. Entre os convidados, autoridades locais e jogadores indianos. Todos já estavam recompostos e com roupas limpas. Menos a Mariana. Entre as "celebridades", era a única que ainda trazia no corpo e nas roupas o suor. A marca que selava a sua participação no Palmeiras-B.

O episódio repercutiu nos jornais de todo o mundo. No Brasil, os indianos foram apontados como culpados. Na Índia, os brasileiros como desordeiros. O fato é que ainda não há vencedor para o torneio. Os palmeirenses, por terem feito um gol durante a partida, se declararam campeões. Sem hesitar, compraram, ainda em Calcutá, uma taça que serviu para comemorar a vitória, irritando a imprensa indiana. Já o comitê organizador do torneio deu o título ao East Bengal, desclassificando o Palmeiras por ter começado a briga. O caso está com a FIFA.

Três anos depois, Mariana recorda o episódio com um suspiro. Os olhos brilham e divagam ao lembrar das cenas relatadas. "Os indianos são assim mesmo. Quando provocados, ficam nervosos. Mas é um povo fascinante". Ela quer voltar. "Morro de saudades", diz com o olhar perdido. Talvez no Ganges. Talvez no Salt Lake.

Texto escrito em 2004.



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