terça-feira, 3 de janeiro de 2012

barsa: uma história

Aproveitei as férias para revisitar minha Enciclopédia Barsa. Ela foi meu objeto de consumo na infância. Sonhava com as possibilidades de pesquisa, estudo e conhecimento que suas páginas poderiam me proporcionar. Sem contar que, para mim, era sinônimo de status ter na estante da sala todos os seus 16 exemplares com capa vermelha.
O presente foi dado pelo meu pai numa Bienal de Livros em São Paulo. Fomos até o estande da Encyclopaedia Britannica do Brasil. Lá havia uma vendedora portuguesa, assim como ele. Talvez isso tenha facilitado a negociação. Afinal, não se tratava de algo barato. Tanto que nem acreditei quando disse que compraria a coleção. Saí da exposição saltitante e na expectativa da entrega dos livros.
E eles chegaram. Lindos, vermelhos e cheios de textos, imagens, mapas.
A minha edição é de 1990, quase 30 anos após a sua concepção, segundo informação dos editores. Na Wikipédia, a enciclopédia livre da Internet, encontro o significado de Barsa: junção dos sobrenomes da idealizadora do projeto, Dorita Barrett (Bar), e do seu marido, Alfredo de Almeida Sá (Sa). Mais de 250 especialistas foram envolvidos no projeto.
Valorizei muito o trabalho deles. Passei horas folheando suas páginas, pesquisando e me deliciando com o acesso fácil e rápido que tinha a milhares de verbetes: reino de Essex, Mikhail Mordkin, pontes continentais, entre outros que minha curiosidade encontrava no índice enciclopédico. Sem contar os trabalhos escolares que foram feitos a partir de seu conteúdo. 
Além da enciclopédia, o “kit” Barsa continha o Livro do Ano de 1990, dois livros “grandes” sobre ciência e mapas do mundo inteiro, cartas de boas-vindas, cartão de fidelidade, catálogo de pesquisa, selos e a promessa de uma relação duradoura por meio do ótimo Programa Britannica Society, “completo programa cultural de 10 anos”.
De fato, por 10 anos recebemos o Livro do Ano, espécie de retrospectiva aprofundada. Chegava sempre em abril e sem a necessidade de ser solicitado. Essa era a facilidade, pois não era gratuito e com ele vinha o boleto para pagamento. Caso não fosse de nosso interesse manter a coleção, bastava devolver o exemplar. Claro que nenhum foi devolvido.
Ressalto com certa nostalgia o Serviço de Pesquisas oferecido aos “subscritores”, como chamavam os clientes. Hoje, algo insensato se considerarmos os modernos sites de busca na Internet.
Uma cartela com 100 selos e um catálogo davam direito a 100 relatórios sobre os mais variados temas. Podiam ser escolhidos entre os 3.500 disponíveis. Desses, 2.500 em português e 1.000 em inglês. Tudo “inteiramente grátis”. Mas só era possível solicitar um por mês. Havia, ainda, um modelo de solicitação para tais relatórios. Lembro que tinha me programado para utilizar todos os selos. Contudo, não consegui ultrapassar os oito, o que ainda lamento.
Nos dez anos aos quais tive direito ao programa, pedi:
1.       Idade Média
2.       Egito
3.       Processamento de Imagens
4.       Arqueologia
5.       Basic English
6.       Big Bang
7.       Brasil
8.       Paz Romana
Não seguiam um padrão de diagramação. Alguns eram datilografados, outros eram cópias do que parecia ser outra enciclopédia, talvez a Britannica, quem sabe. As páginas eram grampeadas, dobradas ao meio, colocadas num envelope e enviadas ao “subscritor”. O serviço era rápido e, praticamente, só dependia do correio de ida e de volta. Simples assim.
Lembro que só ficou faltando uma coisa no “kit”, prometida pela vendedora durante a compra: um globo terrestre. Eu era fascinada por esse objeto, justamente um dos brindes para quem adquirisse os livros. Vinte e dois anos depois, ainda não o recebi. E toda vez que olhava a Barsa, meu pai dizia: “temos que cobrar o globo”.  “Cadê o globo, ora pois?”, pergunto, com um dos livros no colo. Pode ser que sempre esteve logo ali. Bem, vou dar mais uma folheada nessas páginas.

Minha Barsa

Catálogo do Serviço de Pesquisas e os selos
 
Relatórios do Serviço de Pesquisa e o cartão fidelidade, em nome do meu pai

06/01/2012: três dias depois da postagem do texto

Recebi o globo, afinal. Após ler o texto, a diretora de Marketing da Barsa cumpriu o acordo prometido pela representante que nos vendeu a enciclopédia há 22 anos (veja comentário abaixo). Essa não era a intenção inicial do meu relato. Ele foi feito apenas como homenagem à coleção e ao meu pai. Mas estou super feliz com o presente. Muito obrigada!

O globo tão aguardado

11 comentários:

  1. Delícia de texto, Kátia.... Lembrou-me da minha infância, também tinhamos uma coleção em casa, minha tia nos deu de presente. Adorava folheá-la e ler os textos aleatoriamente... Assim como ainda hoje faço com os dicionários...

    Boas lembranças....

    Beijos,
    Jussara

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  2. querida Kátia, foi com saudosismo que li seu texto, adorei, desde 1990 ano em que seu pai comprou a Barsa, sou funcionária desta empresa. atualmente sou diretora de marketing e também responsavel pela área editorial. A Barsa é referencia para todos os alunos que realmente gostavam de estudar, de fazer pesquisa e que tinham muita sede de conhecimento confiável. Ainda bem que milhares de alunos deste século passado ainda exigem este conhecimento confiável. Atualmente a Barsa continua no mercado, além dos livros um DVD com som, movimento e imagem, atualizado mensalmente, e um suporte via portal barsasaber.com, com textos da atualidade. Nossa missão preza pelo conteudo de qualidade, por isso nossos autores e colaboradores, mais de 750 responsaveis pelas atualizações dos verbetes são especialistas nos diversos temas.
    Fiquei muito triste de saber que houve uma promessa de um globo terrestre não cumprida. Gostaria que me enviasse seu endereço para que mesmo após 20 anos, podemos honrar o nome Barsa, a marca do conhecimento.
    grande beijo
    sandra cabral

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    1. Kátia e Sandra: Li esse texto e ao final estava com lágrimas rolando pelo meu rosto... Sou do tempo em que que Barsa realmente fazia diferença no estudo da gente. Havia os trabalhos feitos com base na pesquisa da Barsa e os outros, pesquisados em pequenas coleções de livros aleatórios, mas que na falta de dinheiro para se adquirir uma Barsa, serviam para se fazer essas pesquisas. e no final, para fechar esse belíssimo texto com chave de ouro, para coroar uma história absolutamente vitoriosa da Barsa, ainda aparece a Sandra Cabral, funcionária desde esses tempos idos e maravilhosos na pretensão de fazer cumprir uma promessa da organização. Isso é demais para o meu coraçãozinho! Boas recordações, cumprir promessas... parece que voltamos realmente no tempo! Adorei, tanto o texto quanto a atitude da Sandra Cabral, em nome da Barsa. Alegraram meu dia! Muitas felicidades!

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    2. Olá! Adorei sua mensagem, Maguita. Realmente foi uma surpresa boa e feliz receber o meu globo. A atitude da Barsa não poderia ter sido mais exemplar. Por isso, até hoje ainda a tenho em um lugar muito especial :-)

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  3. Robson Garcez - São Paulo/SP6 de janeiro de 2012 23:46

    Que lindo texto da Kátia e que medida sábia e simpática a da Sandra, ainda que em nome da Barsa. Prossigam! Nosso tempo precisa de gente que cuide de uma coisa e da outra.

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  4. Adorei, mais uma vez, seu texto Kátia. Em tempos de mundo virtual, fiquei com uma sensação muito boa de poder ler sobre livros. Afinal, não tem clique ou "touch" que substitua o prazer de folhear uma publicação impressa. Sou bem adepta à praricidade e amplitude da internet, mas ainda me dá mais prazer ler um livro em papel. Parabéns pela iniciativa e curta o seu globo. Em breve pretendo adquirir a Barsa para minha filhota querida. Mas, pelo visto, será em DVD! Essa geração nunca saberá como é bom sentir o cheiro de uma publicação impressa. Já nascem sabendo mexer nos tablets e celulares melhor que seus pais.

    Bianca Moura Sgarboza

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  5. Reportei-me há quase 40 anos atrás, quando meu sonho de consumo (nunca realizado) era possuir uma Barsa. Mas tínha uma colega e amiga de escola que a possuia. Então sua casa era sempre a escolhida para realizarmos nossos trabalhos de grupo. Quanta coisa já pesquisei nessa renomada enciclopédia. Lá tinha tudo.
    O assunto que fosse: tem na Barsa. Era o Google da época.
    Muito bons tempos aqueles ...

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    1. Excelentes tempos, Denise. Confesso que sou muito nostálgica. E até hoje ainda utilizo minha coleção.

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  6. Katia,voce me fez chorar, talvez por estar beirando os 64 anos, pode ser, no entanto a sua maneira de escrever com certeza muito honrou a Barsa e fiquei encantado com a surpresa do GLOBO.
    Com certeza seu pai deve estar muito orgulhoso de você, pois eu mesmo sem te conhecer estou.
    que Deus te proteja hoje e sempre.
    PS nunca tive Barsa porem era rato de biblioteca, levava um caderno e copiava o que podia, até hoje tenho alguns desses cadernos.
    abraços ledo

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    1. Oi, Ledinildo! Muito obrigada! Pela emoção. Pela consideração. Abraços!

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